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julho 26, 2019

Da Dor


"Será que você vai saber
O quanto penso em você
Com o meu coração?
Quem está agora ao teu lado?
Quem para sempre está?
Quem para sempre estará?”
(Legião Urbana)


Ontem assisti à palestra de uma psicóloga sobre o tema do suicídio. Ela trouxe dados do tipo: de cada 17 pessoas que pensam em se matar, 5 traçam um plano de como vão fazer isso, 3 realmente tentam e 1 consegue. Então as estatística são sempre maiores nessas proporções. E as principais coisas que levam a esses pensamentos são 4 Ds: depressão, desespero, desesperança e desamparo. 

Pra mim a desesperança vem atrelada à incerteza, a não saber o que vai acontecer, no que alguém está pensando em fazer, que decisão radical poderá tomar. Isso vai me trazendo o desespero e a depressão, e sentir desamparo é quase que inevitável quando a incerteza vem exatamente da única pessoa com quem você costuma contar. 

Nessas horas a gente tem que se apegar à energia de Perséfone para não sucumbir ao Hades. Ela pode te fazer processar as coisas, enquanto que chegar nele não tem saída. O torpor do narciso que Perséfone colhia e sua ligação com as coisas ocultas podem te ajudar a conhecer outras formas de consciência, ainda que despertas e racionais. Precisamos intelectualizar para não patologizar o que sentimos. 

Muitas vezes somos nós mesmos que amplificamos o problema, outras vezes é o outro que o torna um maremoto. Mas não é morrendo nem matando que vai fazer ficar tudo bem. Esse racionalizar me ajuda às vezes. Das coisas que penso: E se os suicidas forem pra um lugar pior depois da morte? E, se depois de vencer isso, fosse me acontecer algo muito bom? E se matar o fulano me trouxer "carma ruim"? E se o espírito dele ficar me vigiando e me atrapalhando? Enquanto houver essas 'desculpas', ainda será sinal de que eu só desejo acabar com o sofrimento e não com a vida. 

Voltando à deusa, foi Perséfone quem ajudou Orfeu. E acho curioso que, toda vez que penso no tema da morte, me lembro que ainda não decorei os versos órficos que precisamos dizer a ela quando atravessamos pro outro lado. Por mais que eu tente, na hora decoro e depois me esqueço. Acho que isso é meu inconsciente se recusando a me deixar desistir de tentar ficar.

A gente não pode esperar que as pessoas sejam perfeitas, nem pode achar que somos melhores que elas também. Não dá para ficar comparando sofrimento. Cada um carrega a pedra que é capaz de suportar. O que precisamos é não deixar que vire uma pedra de Sísifo que nunca evolui nem transcende. 

Eu ainda não sei qual será a conclusão do meu sofrimento atual. Não sei que pena terei que cumprir. Nem questiono se será justa. Mas escrever sobre a dor me ajuda a aguentar mais um pouquinho até saber o desfecho dela. Isso me lembra que eu gostava de dois livros da Marguerite Duras ("O Amante"e "A Dor"). Acho que para ela também funcionava lidar com isso escrevendo. 

Outra coisa que me ajuda é música. (Olha aí Orfeu de novo.) Acho que isso é algo que ajuda muita gente. Alguns colocam música alegre para espantar a tristeza, outros colocam música depressiva para expurgar de vez tudo o que se está sentindo, talvez até para ter essa sensação de que não é o único, que não está sozinho na dor.

Um dos possíveis significados do nome de Perséfone é "a que destrói a luz", por isso que é nela que penso quando estou nesses lugares sombrios da minha mente e coração. Ela ajuda a atravessar entre os mundos. E quando essa dor é por causa de algo do passado, talvez a gente precise se lembrar da Medusa, a que petrifica, aquelas coisas que fomos cristalizando e que não conseguimos destruir. Talvez um espelho te ajude, como ajudou Perseu. Olhe como você cresceu e tudo o que já venceu e como pode realizar mais feitos heróicos ainda... 


Mas, se você ver alguém triste, o que não funciona é dizer "fica bem". Esse 'conselho' não ajuda, porque ninguém escolhe estar triste. A gente pode escolher permanecer remoendo, mas não é com frases motivacionais que se sai do ciclo. Na palestra foi falado que a sociedade ainda não sabe lidar com a tristeza dos outros. 

Então ou a gente procura ajuda profissional ou usa dos artifícios que conhece que nos fazem sentir melhor. Se for muita coisa para superar, não tenha vergonha de pedir essa ajuda. Eu ainda vou esperar o meu desfecho antes de saber a quem recorrer - seja deus ou mortal. Mas se você também está às voltas com esse tipo de energia, não se cale, conversar ou escrever serão sempre catarses válidas para lidar com o que polui o nosso templo (físico, mental e espiritual).

Desejo sorte e paz para a gente. E que o amor prevaleça sobre o erro. 


outubro 06, 2012

Saúde mental... como ajudar?


Esta semana uma politeísta dos EUA mentalmente enferma veio a falecer em um incêndio em seu quarto, aparentemente provocado por ela mesma. Isso suscitou em muitos de nós uma reflexão sobre como poderíamos agir em situações semelhantes, como grupo, como apoio religioso mesmo. Afinal, era iminente que algo acontecesse, já que para os mais próximos ela falava sobre o fogo como meio de acessar o divino, embora ao mesmo tempo viesse ordenando pedras linearmente numa mesa como se quisesse se reorganizar, como se buscasse por aquilo que nos traz de volta a uma realidade saudável. Talvez por isso que não se imaginava que as coisas chegariam a tal ponto. O fato é que - como no caso de muitas aflições mentais - algumas pessoas achavam que ela só estava se comportando mal ao dizer que era esposa de Hermes, e não que fosse um problema real. Achavam que era apenas uma "drama queen" e não alguém que precisava de ajuda. Mas se alguma coisa boa surgiu do evento trágico, foi a reflexão que suscitou em nós, que nos provocou a pensar sobre nossa própria organização como rede, como um todo. Até porque foi um choque. Eu havia conversado com ela algumas vezes, e fiquei sentida de alguma forma. 

O fato é que até os estudiosos têm dúvidas sobre o uso da religião no tratamento de distúrbios mentais, se é algo útil ou prejudicial. Algumas pesquisas mostram que religiões relacionadas com possessão e exorcismo são mais prejudiciais a longo prazo do que as que se baseiam em prece e meditação. Há um estudo que mostra um templo na Índia utilizado para a cura, onde as pessoas passam um tempo lá - o que me lembrou muito Epidauro, de Asclépio. No estudo, aplicaram um teste psicológico antes e depois do período no templo, e o teste na saída chegou a mostrar melhores de 12%. Mas outras pesquisas relatam como a superstição de origem religiosa pode abalar ainda mais a razão de uma pessoa.

Nossa crença é de certa forma relacionada com a filosofia, o que poderia fazer alguns pensaram na "filosofia clínica" que afirma "mais Platão, menos Prozac"; e, embora eu não goste de como eles lidam com isso e saiba que algumas questões não podem ser tratadas só filosofando, há algo bem útil relacionado com o pensamento básico de a filosofia nos ajudando a lidar com o mundo. Quando tomamos os mitos por si, eles têm coisas muito estranhas que só entendemos quando lemos a análise que os filósofos fazem daqueles mitos. 

E, mais recentemente, temos as teorias da psicologia analítica dos junguianos e pós-junguianos considerando a mitologia uma forma de acessar nossas verdades interiores e nos tornar seres humanos melhores. Podemos listar uma série de escritores que seguem este caminho. Mas mesmo Jung dizia que: devemos aprender tudo sobre o máximo de coisas, mas na terapia devemos ser apenas um ser humano diante de outro ser humano. Muitos entendem isso como "estude mitologia, mas saiba que a pessoa que você está tentando ajudar não é Héracles ou Perséfone, são apenas elas mesmas".

Se olharmos alguns personagens míticos, encontraremos Héracles na sua loucura matando a esposa e filhos, e depois sendo purificado ou reparando o ato através do trabalho. Isso poderia nos fazer pensar sobre ter um emprego ou tarefas para fazer a fim de curar nossa enfermidade. Isso se parece muito com o que pretende a arte-terapia e a terapia-ocupacional.

Por outro lado, temos Odisseu fingindo estar louco para não ser convocado para a guerra em Tróia. Palamedes descobre o truque de Odisseu. Ou seja, a loucura pode então ser simulada, e é talvez por isso que alguns familiares têm uma resistência em acreditar que se trata de uma doença e considera aquilo apenas um "mau comportamento".

Dioniso era um estranho para os gregos, eles temiam o desconhecido, a diferença. As pessoas com distúrbios mentais normalmente se sentem desconfortáveis com um estranho, e elas mesmas se sentem estranhas no mundo. Alguns pais também pensam que nem todo comportamento de uma pessoa com enfermidade mental é por causa da doença, eles acham que algumas de suas respostas são coisa de criança, preguiça, "falta de Deus" e coisas do tipo. Eles procuram por médicos que dizem que é uma psicose, procuram por sacerdotes que dizem que é um problema espiritual, e acabam acreditando nos dois ao mesmo tempo.

Em outras religiões, há também uma sintomatologia psiquiátrica causada por ação sobrenatural, similar à possessão e usada como punição (vocês podem procurar pelo relato de Nabucodonosor ou mesmo o de Saul, na bíblia).

Então vemos que a mitologia às vezes ajuda e às vezes alimenta/aumenta os problemas; depende de como a utilizamos - se como uma ferramenta/muleta ou se como uma fuga/tábua-de-salvação. No caso da garota que tentou alcançar o divino ateando-se fogo, as informações (sabe-se lá de qual fonte de estudos mitológicos/espirituais) que ela acessou só pioraram sua disposição original.

Talvez a melhor forma de agir como grupo religioso seria apoiar as pessoas como faríamos fora da religião (listo algumas dicas abaixo, ainda nesta postagem), e mostrar a elas que há exemplos na Antiga Hélade que eram solucionados assim como eles podem solucionar suas questões com a ajuda que terão dos amigos e dos Deuses; como as coisas acontecem por uma razão; como deveríamos tomar as rédeas das nossas vidas como heróis, realizando um feito por vez; como até os deuses (como Dioniso) não eram totalmente compreendidos também; como erros do passado podem ser purificados e reparados... e toda essa maravilhosa visão ética de mundo que o modo heleno antigo de viver nos ensina.

É difícil propor algo de forma geral assim sobre esse tema, mas poderíamos nos unir para ajudar caso a caso se nos propormos a procurar pelo auxílio do grupo quando vemos alguém precisando. Talvez, se tívessemos nos unido para ajudar a moça que morreu (em vez de julgá-la, falar com ela privadamente, deixar ela pra lá, parar de procurá-la para conversar), sua situação teria outro desfecho.

Ajudar 'online' é dificilmente muito efetivo, mas ainda podemos fazer algo. Se as pessoas sentirem nosso comprometimento em ajudar, se sentirem que têm apoio nos seus esforços para melhorar, se sentirem-se seguras para tentar coisas que de outra forma (sozinhas) seria assustador, se perceberem que não precisam passar pelos problemas sozinhas, já estaríamos ajudando. Nós podemos insuflar coragem à sua falta de esperança, mas provavelmente teríamos que verificar se nós próprios somos fortes para fazer isso. Às vezes ajuda ter o mesmo problema para compartilhar experiências, mas às vezes ajuda mais se fizermos elas perceberem que podem confiar na nossa força, como alguém que é capaz de "salvá-las".

Coisas que nós NÃO devemos fazer: ficar bravos com elas; evitá-las; julgá-las; dar conselhos que elas não pediram; prometer coisas que não podemos cumprir; falar sobre o problema delas o tempo todo; minimizar o problema tipo dizendo "sai dessa" (se pudessem, já o teriam feito); dizer que sabemos o que elas estão passando (outra pessoa nunca sabe o que estamos passando, ela não tem a mesma história e personalidade que temos); ficar falando sempre sobre o passado (seus problemas são aqui-agora).

Coisas que DEVEMOS fazer: aceitar o fato de que elas têm uma doença (muitas pessoas não vêem as doenças mentais como doenças, mas são); aprender/estudar sobre seus distúrbios e como lidar com isso; ajudá-las a identificar os sintomas (incluindo os físicos); ouvir com atenção; encorajar seu envolvimento em atividades que elas gostem (esportes, hobbies, atividades culturais), embora não em muitas de uma só vez (se elas se envolvem em muitas atividades, o excesso de demandas vai fazer elas pensarem são um fracasso - por não conseguirem cumprir todas); encorajá-las a procurar ajuda médica; sugerir que elas mantenham um registro escrito; entre outras coisas.

É legal lembrá-las das coisas boas que elas têm, sorrir pra elas (ainda que por carinhas de internet), oferecer ajuda nas tarefas diárias (há coisas que é mais fácil para você terminar do que pra elas), mostrar que você sente muito pelo que elas estão passando, perguntar como podemos ajudar...  Também é importante demonstrar que você está percebendo o progresso delas, o que elas já conseguiram realizar, e que elas não precisam ter pressa - elas podem fazer um pouquinho por dia, e ainda podem ter a nossa ajuda para fazê-lo.


Não sei se sou uma boa fonte para falar dessas coisas, faz anos que não lido com psicologia, mas espero ter ajudado a despertar alguma percepção útil aqui. E espero sinceramente que não precisemos de mais "baixas de guerra" para nos apontar que deveríamos ser mais unidos como grupo para ajudar nossos semelhantes, ainda mais aqueles que compartilham de nossas crenças.


maio 29, 2011

Presença constante

Às vezes a gente pensa nos deuses e fica encontrando desculpas para continuarmos afastados, do tipo 'Eles têm mais o que fazer do que cuidar dos meus afetos, faz tempo que não faço um ritual decente, meu trabalho é muito mundano e reflete pouco o ideal helênico, tenho pouca leitura e conhecimento de como manter uma prática correta' etc. A mente vive inventando motivos... Mas felizmente a alma segue no caminho oposto. Algo dentro de nós anseia pela intimidade com o sagrado, pela percepção do divino no mundo material, pelo sentido manifesto por trás das coisas mais simples. Somos atraídos de uma maneira irresistível à beleza, nos enlevamos ao ouvir os sons da harmonia, mergulhamos fundo nas sábias palavras que lemos dos antigos, rimos com alegria das 'coincidências' fortuitas que aparecem nos nossos dias.

Dizem que conseguimos esquecer o que as pessoas nos dizem e até o que nos fazem, mas nunca esquecemos como nos fizeram sentir. Não parece ser muito diferente neste caso: grande parte do que lemos nós não assimilamos, vários ritos que realizamos não vão sair igualzinho, mas sempre vamos saber contar sobre aquela vez que percebemos os deuses agindo em nós e em nossas vidas. Principalmente porque, com Eles, ficamos imersos em uma sensação de plenitude, um sentimento de paz, uma impressão de pureza, entre outras inspirações elevadas.

E, quando pensamos em agradecer por caminharmos protegidos por Eles, imagino-Os sorrindo satisfeitos em nos ver atentos ao quanto Eles nos têm feito diariamente. É quase como se, no desejo de agradá-lOs, nos esquecêssemos que também Eles buscam sempre maneiras de nos agradar, em nome simplesmente do que são.

Uma vez li um textinho (acho que era de uma música) que dizia "Mesmo que suas mãos estejam tremendo e que sua fé esteja partida, mesmo que seus olhos estejam se fechando; diga, com um coração plenamente aberto, diga o que precisa dizer" (John Mayer). Então, mesmo quando um dia atarefado me impede de fazer algo mais 'visual' pra Eles, aquelas preces ditas de coração antes de dormir, aquelas que me fazem vir lágrimas nos olhos, dão ao meu espírito a calma necessária para adormecer na segurança de Seus braços e me preparar para mais uma jornada de maravilhas que Eles me concedem.

Por isso, hoje gostaria de terminar esta postagem com a tradução que fiz de um poema do sufi Hafiz. Segue:

"Há diferentes poços dentro do nosso coração
Alguns se enchem com cada boa chuva,
Outros são profundos demais para isso.

Em um poço
Você tem só algumas preciosas taças de água,

Aquele 'amor' é literalmente algo que vem de você mesmo,
Ele pode crescer tão devagar quanto um diamante
Se ele estiver perdido.

Seu amor
Não deveria nunca ser oferecido à boca de um
Estranho,

Apenas a aqueles
Que tenham o valor e a ousadia
De cortar pedaços de suas almas com uma faca

E então costurá-los em um cobertor
Para te proteger.

Há diferentes poços dentro do nosso coração
Alguns se enchem com cada boa chuva,
Outros são profundos, fundos demais
Para isso."

setembro 19, 2010

Coisas que me dão raiva (parte 3)

(parte 1) e (parte 2)
Inspirado em (ou suscitado por): Depois da Dança - Aquilo que se pode ofertar

Para 'variar', a terceira coisa que me dá raiva é também relacionado a estupidezes de pessoas que com certeza Platão colocaria no grupo ou dos ignorantes ou dos opiniáticos. Mais provável que neste último, já que eles não admitem desconhecer as coisas e sim dão suas sentenças em cima delas, baseados apenas em seus conceitos, preconceitos e achismos.

Alguns desses seres criticam quem compra comida pronta para ritual, porque - segundo eles - você não fez um sacrifício, e os deuses 'passariam longe' do seu rito. Eu não sei se essas pessoas ganham dinheiro sem sacrifício ou acham que cozinhar é uma droga, porque o meu é suado e pra mim culinária é um prazer.

Eu costumo usar as coisas que os deuses me apontam (além de saber quais aromas, plantas, símbolos, cores etc agradam a cada um deles). Imagina se você sugere discretamente ao seu amigo uma coisa pronta que você acha linda, dando a dica de ele comprar para você, aí ele vai e faz uma imitação ele mesmo. Não é a mesma coisa, você queria a que viu e não a que ele fez só porque ele teve o "sacrifício" de fazer sozinho. E nem vou passar longe do presente que ele me compra se ele batalhou pela grana que pagou pelo produto.

Esta semana eu comprei uma tigela com banho de prata, com alças tipo ânfora, com figuras que pareciam sereias de navio (com asas) abaixo das alças, lindíssima. Ela apareceu por acaso quando fui comprar verniz numa loja de construção. Isso pra mim é como os deuses me dando uma dica de como retribuir as milhares de coisas que Eles fazem por mim, e eu fico feliz de poder ser grata de alguma forma, com algo que Eles gostem e colocam na minha frente. Nessas horas eu não ligo se foi caro ou se o preço compensou o tamanho. Acho ridículo medir esse tipo de coisa quando é para os deuses que merecem o melhor que eu posso dar.

E não estou me contradizendo ao falar que usamos coisas simples e compradas, se essas coisas compradas forem mais elaboradas. Os deuses sabem o que podemos dar e o que eles querem receber. O aparato apareceu pronto na minha frente, não foi um amigo falando "encontrei alguém que faz réplica de metal pra gente" ou "encontrei um manual de fundição e uma forja para alugar". Eles sabiam que eu podia pagar por aquilo (que nem foi tão caro assim), e ao mesmo tempo eu poderia escolher não comprar, já que estava acompanhada (o que às vezes parece um teste de disposição/serviço), e cada vez menos eu deixo passar oportunidades ou fico com vergonha de alguma coisa. Aliás, faz muito tempo que não deixo passar, e já venho falando muito mais da minha crença com pessoas aleatórias do que antes.

Não sou dos que acham que os deuses só aceitam oferta em taça de cristal lapidado, mas também acho que deve-se ter respeito pelo relacionamento que vocês (indivíduo e deidade) têm. Isso significa seguir o que Eles estão te mostrando (incluso coisas para comprar) e respeitar quando Eles mostram algo para outra pessoa (não querer ficar imitando). Isso inclui não ficar perguntando pro seu amigo quanto custou e qual tamanho tinha o que ele conseguiu (como se medindo se vale a pena você comprar também quando a coisa não veio para você, sem contar quando é ele que vai ter que fazer tal serviço por você que não mora na mesma cidade).

Estava conversando com uma amiga sobre eu me irritar mais quando falam das pessoas que eu gosto do que de mim, então o post da Sarah e alguns comentários posteriores mexeram comigo a este ponto de vir falar aqui.

O que soa mais absurdo nisso tudo é pensar que esses sujeitos se acham uma espécie de "patrulha divina" e fica vendo foto dos ritos alheios para avaliar quem oferta o quê. Acredito que está na hora de eles olharem o seu, em vez de ficar 'curiando' os outros.

Essa postura de achar que um deus passa direto por uma oferta sem dar bola pro seu rito é ter uma visão muito servil (talvez resquício cristão) de deus, como se caso você não fizer direitinho você vai ter que se confessar e rezar tantas preces em penitência porque comprou a comida em vez de fazê-la. Nessas horas os deuses dessas pessoas não parecem os mesmos dos meus, porque os meus são pais, protetores, dedicados, orgulhosos donos dos 'bichinhos de estimação' que somos, que acham bonitinho quando você vai buscar o jornal e os chinelos deles, e não uma pessoa/deidade folgada sentada num trono observando e concedendo favores a alguém que fica ostentando (olha a hubris!) sua parafernália ritual em cristais dourados e dotes culinários excepcionalmente elaborados.


Piedade: amar a Ele (e não admirar a si mesmo).

Para os gregos (e tantas outras tradições), o certo é o métron, a justa medida, nada em excesso, a correção. Nisso constitui a virtude. O resto é vício. Então, nada de passar direto pelos sinais e fazer as coisas de qualquer jeito, mas também nada de achar que só vai "funcionar" se você fizer o que toma mais tempo e custa mais grana.

Com o tempo, você vai achando seu modo de saber onde é o ponto de equilíbrio da balança. Mas, para isso, como tudo na vida, a grande questão (e a grande resposta) é treinar. Só fazendo é que aprendemos a fazer, e isso requer prática constante, e não uma prática que fique esperando um dia que você tenha dinheiro e tempo para fazer. Lembrando os escoteiros, é preciso ficar "sempre alerta" e fazer uma 'boa ação' todos os dias...

dezembro 16, 2009

Coisas que me dão raiva (parte 1)

Hoje estava conversando com o Thiago sobre uma manifestação dos helênicos da Grécia em agosto passado e resolvi falar aqui sobre isso, já que nem todos leram as notícias relativas ao desrespeito dos cristãos gregos com as outras crenças. (Tudo bem que o assunto surgiu porque vimos um sujeito lindinho no vídeo e resolvemos assistir com mais atenção, rsrsrs!)

Cerca de 200 pessoas, incluindo cineastas, escritores, editores, músicos famosos, se reuniram em frente ao Museu da Acrópole a convite da YSEE (Supremo Conselho dos Gentis Helenos) para denunciar a intervenção da igreja cristã ortodoxa grega na cultura, com suas censuras que causaram desastres nas estátuas.

Já tínhamos comentado no fórum, na época, sobre a depredação do Parthenon, quando Costas Gavras fez um filme sobre a história do Parthenon, onde cenas (que foram sumariamente deletadas) mostravam como os cristãos esmagaram e devastaram decorações esculpidas lá para transformar o templo em igreja por acharem que nas estátuas dos deuses residiam demônios a serem destruídos. A civilização helênica pré-cristã era tachada de "maligna" e "merecedora de ser incendiada e lançada ao chão". Isso são fatos incontestáveis, que ninguém pode negar que aconteceram, embora os ortodoxos fanáticos neguem. Escolas de filosofia foram fechadas, vários livros foram incinerados por monges e bispos, e em muitas igrejas gregas de hoje você vê em suas paredes fragmentos de antigos templos demolidos. O líder da igreja cristã ortodoxa oriental pediu inclusive que o Parthenon fosse convertido a uma igreja cristã para que a celebração do seu jubileu fosse "mais glorioso". No berço da democracia não há sequer liberdade religiosa, e provavelmente a Grécia é o único país da Europa a agir assim, sem um Estado laico, já que o Ministro da Educação é também o Ministro dos Assuntos Religiosos.

Mas, voltando a hoje, o que nos irritou foi o que assistimos no vídeo de uma manifestação feita diante do Museu da Acrópole, pedindo que parassem essa teocracia. O povo fez máscaras superlegais, e fez uma imagem chocante de uma cabeça de estátua chorando sangue. Porque uma das coisas que eles mostram foi como os cristãos entalharam uma cruz na testa e no queixo de uma estátua de Afrodite, destruindo assim uma obra de arte, o item 1762 do museu.

Isso é uma falta de respeito absurda, não só à crença e liberdade de expressão religiosa de outros seres humanos, mas também à arte (à subjetividade, à criatividade, à estética), à criação individual do artista, querendo misturar domínios diferentes da esfera humana e impor o seu.

Quem quiser ver o vídeo, o link é este: www.youtube.com/watch?v=QqsMZJG6xJc e as fotos da manifestação estão aqui: diamartyriaakropoli.

Ainda que o protesto tenha sido há 4 meses, essa é uma questão que já acontece há anos e continua acontecendo e está sendo bem difícil de mudar. Acho que todos se lembram do rolo que foi nas Olimpíadas de 2004 na Grécia, quando fizeram bonequinhos ridículos com nomes de deuses como mascotes e botaram um líder ortodoxo na abertura (onde desfilava-se a história dos jogos que começaram com Zeus) para "reforçar" que aquela parte pré-cristã era tudo mitologia etc e tal.

Sou uma pessoa calma, paciente, mas nunca injusta ou desumanamente passiva. Como diria Milton Nascimento, "não posso, não devo e quero viver como toda essa gente insiste em viver, e não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal".

Fica a minha indignação. Amo a Grécia Antiga, mas a atitude dos líderes de 98% de cristãos da Grécia moderna me dá raiva.

outubro 29, 2009

Sobre Penthos (Luto)

"As canções são apenas palavras. Aqueles que estão amargurados as cantam.
Eles as cantam para se livrar de sua amargura, mas a amargura não vai embora."
[1][2]


Nas listas de Helenismo, quando falávamos sobre termos épicos em Homero, me deparei com o conceito de "penthos / πένθος" (luto, pesar, sofrimento, tristeza, lamentação). Como perdi uma pessoa querida em junho, pensei que escrever sobre isso poderia me ajudar a lidar com essa morte e superar a dor de sua ausência. E disso resultou este texto.

Primeiro descobri que, como para a maioria das coisas, para esta também há um "daimon" (espírito). Penthos[3] é filho do Éter e Gaia, figurava entre as Algea (Tristezas), que eram 'daimones' de dor e sofrimento - tanto do corpo quanto da alma, de luto, tristeza e aflição. Eles traziam lágrimas e eram opostos ao Hedone (Prazer) e às Cárites (Graças). O escritor Statius (em 'Thebaid' e 'Silvae') menciona Penthos como um espírito que fica entre os que sofrem luto, incitando seus corações, arfando seus peitos e fazendo-os soluçar.

"Penthus é a personificação do pesar. Quando Zeus decidiu quem seria ser o deus do quê, Penthus não compareceu. Não sobrou nada para ele além das honras prestadas aos mortos, o luto e o choro. Penthus favorece aqueles que pranteiam seus mortos, e por eles serem tão bons em seus prantos ele os envia o maior pesar que pode. Então a melhor forma de evitar a dor é manter a quantidade de aflição a um mínimo." (Ryan Tuccinardi)[4]

Nos antigos epitáfios, como o de Epinike e de Philokydis, mencionava-se muito o fato do pesar/dor/tristeza/luto que a pessoa morta deixava aos sobreviventes.[5]

Nós comentamos, então, que respeitar a passagem do ser amado, tanto no sentido da memória da pessoa que vai quanto da tristeza das pessoas que ficam. Os cristãos dizem que as pessoas que morrem estão felizes no céu com Jesus e os anjos, e que contraditoriamente deveríamos ficar felizes por elas, mas ficamos tristes e pensamos que estamos errados e não entendemos isso e sentirmos culpa. Não faz sentido, faz? Você se debater contra o que você sente, achando que deveria estar sentindo outra coisa, é no mínimo uma falta de respeito à nossa natureza. Quando alguém morre, todas as várias coisas que sentimos poderia se resumir a Penthos. Independente de para onde as pessoas amadas foram depois de mortas, nós estamos tristes sim por eles terem partido, por não estarem mais conosco, por sentirmos saudades deles, por não podermos vê-los cumprir todas as esperanças e sonhos que eles tinham para esta vida. E tudo bem sentirmo-nos assim, faz parte. É esperado que fiquemos mal, tristes, irritados, revoltados, o que for. Somos humanos!

É exatamente nesses tempos de crise que você passa a perceber mais forte a utilidade das suas crenças. São os deuses e daimones que nos ajudam a superar. Eles podem não estar me abraçando, me dando colo, mas estão ali, e a presença deles comigo, o fato de se mostrarem disponíveis e atentos, é tudo, é maravilhoso, me deixa melhor. Tem coisas que a gente não precisa concluir que teve uma razão para acontecer, ainda mais morte (que é tão difícil achar um motivo, a gente sempre acha que não era necessário tirarem alguém de nós tão radicalmente). Elas simplesmente acontecem e pronto. Talvez até tenham uma razão que desconhecemos. Não dá para culpar ninguém, nem para se apegar a algum plano misterioso acontecendo, até porque a gente pode nunca descobrir que razões foram essas. A solução é lidar com a perda, lembrando que o destino e o tempo nem sempre nos favorecem, e seguir adiante com a vida.

Os gregos, que eram tão amantes da razão, provavelmente diriam que o certo é seguir adiante de uma forma sincera, e não fantasiando justificativas e pintando nuvens de algodão-doce sobre os fatos. Você está despedaçado por dentro, então sinta isso, os deuses esperam que você sinta mesmo, até o negócio esgotar e você ser transformado. A dor é transmutada. Como qualquer massa fermentada, ela não vai crescer e virar bolo se não for lançada no fogo. É necessário. Sei que é extremamente difícil de aceitar, mas não temos superpoderes, então a nossa limitação humana só nos permite isso, e é isso que temos que fazer. Devemos deixar Penthos nos incitar o coração e nos arfar o peito se preciso.

Uma outra coisa que percebemos ao procurar por Penthos em textos épicos é que ele seria muito mais um pesar público, coletivo, oposto ao Kleos (que seria o privado, particular).[6]

No quarto livro da Odisséia de Homero, aparece a palavra "Nepenthe" como aquele que afugenta a tristeza ('ne' como partícula de negação para 'penthos'). A "Nepenthes pharmakon" (filtro que afugenta a tristeza) era uma poção mágica dada para Helena por uma rainha egípcia. Essa poção acalmava todas as dores com o esquecimento.[7] Os estudiosos acreditam que se trata de um preparado de ópio, similar ao láudano. Outros dizem que seria um elixir egípcio feito de losna (tipo o absinto). Mas os efeitos "positivos" descritos do Nepenthe são bem similares aos efeitos dos opiáceos/narcóticos: um estado lânguido e prazeroso da mente, com intensa sensibilidade à beleza.

Píndaro tem um trecho que diz "Aqueles os quais da parte de Perséfone irão receber compensação por um 'penthos'/pesar de longa duração, a alma desses ela envia de volta para cima, no nono ano, para a luz do sol, e dessas almas crescerão reis ilustres, vigorosos em força e muito grandes em sabedoria. E para o resto dos tempos eles deverão ser chamados de heróis sagrados."[8]

Se o oposto de Penthos faz aumentar nossa sensibilidade à beleza, ler versos como esses de Píndaro me faz ver como é lindo e reconfortante fazer parte do mundo helênico...

Alexandra, 29/10/2009.


~~~~~
Notas:
1. (Todas as traduções citadas no texto são minhas, do inglês.)
2. 'The death rituals of rural Greece', Por Loring M. Danforth, Alexander Tsiaras.
3. Penthos, no theoi.com.
4. Penthus, no pantheon.org.
5. Hansen, P.A. (ed.). Carmina Epigraphica Graeca. Berlin & New York 1983-1989, visto em "Reading" Greek death: to the end of the classical period, por Christiane Sourvinou-Inwood.
6. The Best of the Achaeans, Concepts of the Hero in Archaic Greek Poetry - Gregory Nagy (cap.6).
7. Sobre Nephente como oposto de Penthos.
8. The Best of the Achaeans, Concepts of the Hero in Archaic Greek Poetry - Gregory Nagy (cap.9).

maio 04, 2009

Fazendo um balanço

O que mais gosto no reconstrucionismo:
- tratar os deuses como indivíduos reais (com preferências e coisas que os ofendem e com os quais você desenvolve um relacionamento de consideração mútua), não como meros arquétipos ou entidades encantadas;
- que se assemelha mais a uma maneira de abordar a religião (com um método tradicional, ou mesmo a uma comunidade de pessoas reunidas nessa abordagem) do que a uma religião;
- os rituais são simples, com velas, ofertas, preces, hinos, conhecimento da história das deidades, sem exigência de pompa e circunstância;
- os chamados "UPG" (Unverified Personal Gnosis - conhecimento pessoal não verificado) são possíveis, com os deuses nos revelando coisas antes desconhecidas;
- que os deuses esperam que pensemos sozinhos e busquemos a máxima de "conhecer a si mesmo" e não o seguir o que alguém nos diz;
- o fato de ele ter me dado o estudo que eu precisava para formar uma base sólida de princípios.

O que não gosto que pensem do reconstrucionismo:
- que é uma reencenação de uma sociedade que terminou e não uma fé viva;
- que se trata apenas de estudo e análise e filosofia e retórica, com pouca prática;
- que se interessa mais pela cultura do que pelos deuses;
- que imediatamente classifica os não-reconstrucionistas como ecléticos que desrespeitam as tradições e só compram livros do tipo 'new age' feliz e fofinho (o que não é verdade, cada pessoa é um caso);
- que somos obrigados a cultuar os Doze igualmente, o que seria praticamente impossível (como um nômade se conectaria profundamente com Héstia? e como às vezes parece que uma deidade está nos mandando não se meter com certos assuntos? e pra que serviriam então os patronos? e as identificações naturais que temos com um ou outro deus individualmente?), há uma diferença entre respeito e adoração - se você e uma deidade não se dão muito bem, tentar criar um relacionamento com ela através de adoração é até falta de respeito (ao Seu desejo já expresso);
- que não permite que você cultue outro panteão, uma vez que isso pode sim ser feito desde que separadamente, com "cada um no seu quadrado", o caso contrário (de misturá-los no mesmo rito ou abordá-los como sendo os mesmos deuses) é que é problemático;
- que romantizamos o passado como se fôssemos saudosos daquela época e rejeitássemos a atual (ora, nenhuma época ou povo foi ou será perfeito, já que sempre há seres humanos -imperfeitos- dentro dela).

O que me afasta um pouco do reconstrucionismo (mas nem por isso me leva pro ecletismo):
- quando minha sede de saber e de estudo me leva a alargar meu foco e conhecer outras coisas que não entram na prática helênica tradicional.

Contabilizando os mortos e feridos, concluo que:
- há mais coisas que NÃO me adapto dentro do ecletismo do que dentro do reconstrucionismo, e meus interesses não são do tipo de ficar entre essas duas coisas, mas sim de olhar fora e longe desse pedaço grego e ocidental de mundo, então fica mais fácil me manter reconstrucionista no helenismo e ter outras práticas fora dele (que não se imiscuam nem possam confundir alguém que me visse realizando um rito);
- meus interesses vêm e vão, como as tantas vertentes pelas quais já passei e pratiquei e ainda me seduzem, mas o que tem ficado e o que me guia são os preceitos gregos mesmo;
- sou uma pessoinha que (entre perdas e buscas) vive se (re)encontrando, rsrsrs.

maio 02, 2009

Triplamente Feliz

Estou lá eu em um museu de arte e cultura, onde fomos olhar coisas barrocas para a aula de literatura, e do nada encontro três estátuas grandonas (do tamanho de um adulto mais alto do que eu) de Ceres, Mercúrio e Minerva no jardim. O guia/monitor disse que elas originalmente estavam em uma fábrica antiga e as levaram para lá, mas nem ele soube explicar porque elas existiam. E ele só sabia que eram deuses, eu que tive que dizer para ele quais eram. Semana passada eu tinha feito papel de Vênus de "Os Lusíadas" na faculdade (aliás, teve uma menina de outro semestre que veio falar comigo muito admirada porque disse que viu uma própria deusa grega no palco), então hoje, quando meu amigo virou e disse "Olha você ali!" apontando para a estátua, eu disse "não, aquela é Minerva (Atena), não Vênus" e ele "não, mas não é por isso, é pelo rosto, é igualzinha você; se tirar o capacete, fica a sua cara", ao que eu respondi "ah, mas ela é minha patrona mesmo", ainda que ele não entendesse do que eu estava falando. Fiquei feliz com o comentário que confirma o que outras pessoas já tinham me dito, ainda mais vindo de alguém que não sabe da minha paixão pelos deuses. Ele desconhece, mas Eles não... ;D

O que disse a menina me deixou feliz, o que disse o colega me deixou feliz, e a notícia de que uma grande amiga está melhorando de saúde foi a terceira coisa feliz deste fim de semana. =))

abril 26, 2009

Divagando (sobre sacrifícios)

Estive pensando nas várias formas de se fazer sacrifícios. A palavra costuma carregar um sentimento de fardo, de fazer uma coisa chata ou ruim em prol de algo maior. Mas eu prefiro pensar nela no sentido de "sacro ofício", trabalho sagrado, de sacralizar alguma coisa, usar algo como maneira de agradar o divino e de nos iluminar.

Não há meios mais fáceis ou difíceis de se fazer sacrifícios, isso depende de cada pessoa, para alguns é mais fácil abrir mão de algo físico, para outros é mais fácil queimar ofertas num altar no quintal, mas tudo é digno. O sacrifício muitas vezes demanda certa "dor" e causa mudanças em quem somos e no tipo de relacionamento que temos com as deidades. Quanto mais difícil de fazer (afinal, se sacrifício fosse fácil, todos estariam fazendo, e não veriam a palavra com essa conotação tão custosa) e quanto mais feito com o coração, mais válido ele se torna.

Nós podemos sacrificar (tornar sagrado) nosso tempo, nos disciplinando em utilizá-lo para uma prece ou rito, por exemplo, com toda a atenção na execução dos mesmos. Podemos cuidar do nosso corpo, já que estarmos saudáveis influencia na nossa disposição para as coisas que precisamos realizar em favor dos deuses. Podemos aceitar certas coisas que não conseguimos mudar (e oferecer isso a Eles) simplesmente porque elas não deveriam mudar e um dia entenderemos porque tinha que ser assim. Enfim, há vários tipos de sacro-ofício.

É bom lembrar que não se trata de fazer algo desconfortável ou inconveniente, porque fazer algo pelos seres que tanto nos deram coisas boas nunca será desconfortável ou inconveniente. Nós o realizamos felizes, pois sabemos as recompensas que recebemos dEles, as quais - na maioria das vezes - vêm de onde menos esperamos. E essas coisas acontecem porque fazemos nossa parte.

De certa forma, sacrifício tem a ver com deixar de lado sentimentalismos, egos, desejos, caprichos, e colocar as deidades no centro da sua vida, permitindo que todo o resto flua a partir desse centro, que é sagrado.

E o legal disso é que os deuses não vão ficar pensando que você está dando presentes demais, que você está sufocando Eles, que está com segundas intenções egoístas ou algo assim. [Até porque sabemos que Eles não precisam de nossos presentes e que os presentes não Lhes serviriam como pagamento de nada, o importante é a intenção dentro do nosso relacionamento com Eles.] Mas é como falei, precisamos fazer a nossa parte, não apenas esperar que tudo venha deles e responsabilizá-los totalmente pelo que nos acontece.

Aliás, é preciso lembrar que, por serem reais (e não apenas arquétipos ou seres imaginários), Eles têm gostos e vontades. Eles não são sempre os mais legais e nem sempre fazem muito sentido para nós. Às vezes nos debatemos tentando entender incongruências nas coisas que Eles nos trazem e/ou dizem. Principalmente entre si, quando um espera de nós uma coisa e o outro espera que façamos o oposto (vide o caso de Orestes). Tem horas que a gente simplesmente não pode recuar e tem que tomar uma atitude ou decisão. Só que o resultado pode ser uma surpresa... e bem satisfatória, por sinal.

Chega a ser perigoso você achar que os deuses são sempre bonzinhos e nunca irão te forçar a nada, porque assim você não se prepara e provavelmente vai ver muita coisa como "falta de sorte". As coisas sagradas não são sempre compreensíveis e seguras. Assim como torná-las sagradas (pelo sacrifício) não é algo que nos dê certezas.

Acho que eu mesma devo ter parecido meio incongruente durante esse texto - deve ser a convivência com Eles, hehehe! Mas enfim, acabei postando assim mesmo, talvez sirva-nos de reflexão para alguma coisa.

abril 17, 2009

Divagações na Lua Minguante

Penso em muitas coisas para blogar, mas acabo sentando aqui na cama e mais lendo do que escrevendo. Mas, enfim, ando bastante feliz desde que percebi as coisas e pessoas que me fazem sentir bem e/ou melhor.

Então, minha sugestão hoje é que, se o tempo na sua cidade está bom, sente-se em um gramado debaixo do céu azul, ou relaxe sob o céu noturno e fite as estrelas. Como aqui só chove, eu vou apenas ficar em casa com as pernas esticadas para cima e uma xícara de chá nas mãos. Aí depois você vem ler (e comentar, por favor) o resto desta postagem.

Percebi que é bastante difícil tentar mostrar às pessoas que nunca sentiram os dois lados das deidades como o fato de ter contato íntimo com Eles é tão doloroso e incrível ao mesmo tempo, como isso é cheio de horror e prazer. Mas só quem já teve (por exemplo) um bebê nos braços pode entender o sentimento que isso causa, e às vezes mesmo quem já teve deixa a sensação passar despercebida. O que não dá é saber como a gente se sente sem nunca experimentar a situação. Tem certas coisas que simplesmente não dá para imaginar.

Posso estar me repetindo aqui, mas a verdade é que há altos e baixos em servir os deuses. E quando falo em entender o que significa, não digo racionalmente, mas com o coração e a alma. Espero que não me interpretem como se eu estivesse excluindo desta conversa as pessoas que não sabem do que estou falando, afinal, acho que só estou pensando em 'voz' alta...

Porque, tipo, eu posso citar as coisas que tive que sacrificar na minha vida na intenção de melhor prestar homenagem a Eles, posso falar do que recebi em troca disso e como é maravilhoso ter essa conexão, mas não posso transferir para ninguém a sensação que isso causa, esse afundar no abismo do oceano e ser arrebatada às esferas do céu. Mas vai ver é melhor assim, talvez seja melhor que eu não possa fazer você sentir isso sem estar na mesma situação.

Sabem quais os melhores presentes dEles? Aqueles que a gente não espera, que nos pega desprevenidos, mas que só de olhar a gente já sabe de qual dEles veio, e que ~ se tivéssemos sabido da existência daquilo antes ~ já teríamos ardentemente desejado consegui-lo e declará-lo nosso. É como se coisas adormecidas aflorassem, os sentidos se intensificassem, novos olhos se abrissem, e quiséssemos que mais gente entendesse como isso é bom e (no fundo) simples.

Simples principalmente porque, depois de tanta sacudida, a calmaria vem de uma forma que não é vazia, mas plena. Sentimo-nos repletos (mas não excessivamente 'cheios') por dentro do que há do lado de fora, e caminhamos no mundo como se ele fosse uma extensão de nós mesmos, ou nós dele. O curioso é que, mesmo preenchidos, ficamos mais leves. E conter tudo isso nos deixa muito contentes.

Em parte, é como dizia o gênio: "Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio." (Albert Einstein)

abril 05, 2009

"Dando nome aos bois", não às pessoas...

"There's no categories, just long stories waiting to be told.
So don't be satisfied when someone sums you up with just one line.
Baby, don't let 'em, don’t let 'em put a name on you."
(Derek Webb)

[Não há categorias, apenas longas histórias esperando para serem contadas.
Então não se satisfaça quando alguém lhe resumir com uma linha apenas.
Baby, não deixe eles colocarem um nome em você.]

Muita gente usa 'rótulos' para se auto-definir e para se identificar ao mundo. É ao mesmo tempo uma identidade psíquica e um sentimento social de pertencer a algo, a uma comunidade. Mesmo os que aparentemente são exceção à regra por não serem seres muito sociais, por funcionarem melhor sozinhos do que com outras pessoas, volta e meia vão perceber que é necessário haver uma interação, ainda que esta seja feita virtualmente ou um tanto como se partisse de alguém de fora.
Com relação a religião, vejo muita gente se definindo com 'etiquetas' até contraditórias (vide a 'wicca cristã', só para dar um exemplo). São coisas que provavelmente mais as fariam ser ignoradas por ambos os lados do que aceitas pelos dois. Se alguém gosta de misturar, ser 'mestiço', 'meio-sangue' (rsrsrs), talvez não devesse assumir nenhum dos rótulos afinal. Se bem que eu estou menos preocupada em como as pessoas se chamam (ou me chamam) e mais em como eu vou entendê-las (ou vão me entender).

Nossas diferenças não são algo ruim. Não existe um dualismo tão completamente encaixadinho de bem e mal, certo e errado, nós e eles. As pessoas não chegam às conclusões que chegam sem uma razão. Se a gente se sentar para escutá-las, possivelmente vamos compreender de onde vieram e como chegaram a se colocar onde estão, e é bem capaz de acharmos difícil enquadrá-las em uma palavra. Ainda mais em um país de tantas diversidades como o nosso.

Então eu queria parar de pensar em rótulos tanto para mim quanto para os outros. Só que isso traz alguns problemas. Rótulos são apenas um atalho para um grupo maior de idéias, e retirá-los não retira as idéias. Há diferenças fundamentais em como entendemos a vida e nas bases da nossa compreensão do mundo, e é daí que a interpretação de um rótulo faz brotar um conflito. Mas tirar o rótulo não mudaria muito isso.

A linguagem é uma forma de categorizar a realidade, de dar ordem ao caos. Sem categorias (rótulos) não temos linguagem e sem linguagem não temos como nos comunicar. Quando queremos ser diferentes dos cristãos, não é do rótulo de cristão que desejamos nos afastar, mas das idéias que isso traz e da postura diante da vida que isso implica. E daria mais trabalho explicar todas essas coisas, levaria tempo demais. Sem os rótulos, ficaria difícil separar uma coisa da outra, ficariamos sem um suporte.

Deixar de se definir é como estar sozinho em um deserto, sem saber onde está nem para onde vai, nem quem você vai encontrar no caminho. Há uma grande liberdade nisso, mas ao mesmo tempo é assustador admitir que os muros que te protegeriam não existem, que você não tem um mapa, que não tem acesso às respostas que precisaria e que não tem nenhuma idéia do que vem em seguida.

Mas querem saber? Ando deixando de ter medo do incerto, do futuro, do passado, de onde pisei ou onde vou pisar. Gosto dessa liberdade do presente e de tentar me surpreender com o que vem aparecendo e as paisagens que vão se revelando à medida em que caminho. Isso me lembra, de certa forma, o conceito de 'santosha', o 'contentamento' de aceitar quem você é, onde você está, o que você tem AGORA, e se ater a viver isso da melhor forma que puder.

Não desejo ser uma única expressão, baseada no que fui, no que fiz, no que estudei, no que serei, no que aparento, no que mostro etc. Não é apenas uma dessas partes que vai me nomear, são todas elas e as tantas várias histórias que eu poderia lhes contar; somadas por me fazerem saber o que eu sei, e subtraídas por não fazerem parte do presente que aqui está.

No final, somos apenas parte de uma mesma coisa. E, por mais que nos identifiquemos dentro de um grupo, somos essencialmente sozinhos...

"O que há em um nome? Acaso aquilo que chamamos rosa, se tivesse outro nome,
não exalaria o mesmo perfume?" (Shakespeare, 'Romeu e Julieta')

abril 01, 2009

Patronato, apadrinhamento... parentesco?

Há algum tempo era para eu falar uma coisa, mas tive receio da interpretação e efeito direto. Porém, como tem havido uma constante insistência - até onírica - para que eu abra a boca (neste caso os dedos), resolvi postar sobre o assunto.

Quando começamos no Helenismo, normalmente somos trazidos por alguma(s) deidade(s) que acaba por ser nosso(a/s) deus(a/s) patrono(a/s). É como se fosse um apadrinhamento; eles nos apresentam ao mundo grego, aos outros deuses do panteão, à ética da nossa nova religião, e por aí vai. No meu caso, quem fez isso foram Zeus e Atena.

Nos fóruns helênicos do exterior, eu vejo os americanos, australianos, austríacos, gregos etc, falando também de deuses patronos. Mas não me lembro de tê-los visto referindo-se aos deuses como "pai" ou "mãe", coisa que vejo demais entre os brasileiros. Zeus e Atena não são meu "pai/mãe divino/a", como costumo ler de outros politeístas daqui.

Penso de onde vem essa característica brasileira de levar o patronato para mais do que um apadrinhamento, mas um parentesco. Se fosse pela influência cristã, de ter 'pai, filho, espírito santo' e a coisa de cristão gostar de chamar a todos de 'irmãos', acho que eu veria isso em outros países também tradicionalmente cristãos, mas não vejo. Então talvez a resposta esteja no candomblé, onde os orixás são pai e mãe de corpo e de cabeça. Com essa visão sincrética, eu poderia dizer ser filha de Ares por nascer no dia de Ogum, mas que sentido isso faria quando eu fosse trabalhar "cada um no seu quadrado", cada deus dentro da sua realidade ritualística e cultural?

Desconheço se há outra explicação mais "paternalista" dessa mania de brasileiro adotar gente na família. Ainda que haja, quando nos aproximamos de uma pessoa real e mais velha, no máximo a chamamos de tio/a (e, se chamarmos de vovô/ó, às vezes ela se ofende), não saímos por aí chamando os outros de pai e mãe, até porque os nossos pais originais se sentiriam magoados. E até quem gosta de fazer-se aparentado de 'gente importante', não diz que é filho do 'famoso fulano', arruma algo mais palpável e plausível (e menos ingrato com os pais de verdade).

Eu tenho pais espirituais, que me acompanham, porque em uma outra vida foram deveras meus pais. Só que eles não são deuses, e meus pais biológicos atuais nem sabem que precisam me dividir com eles. E talvez eu seja sim filha de Ogum, se é assim que se costuma chamar por lá alguém que venha dele, mas isso não significa que - por transferência - eu vá passar a chamar Ares de 'meu pai'. Além disso, como seria a minha relação com Zeus e Atena como patronos tendo Ares e Afrodite como pais? É um pouco confuso isso...

Sei que já escrevi sobre a postura do reconstrucionista helênico diante dos deuses dever ser não a de um filho pródigo arrependido que se ajoelha pedindo perdão (visão cristã), mas sim a de um filho que deixa o pai orgulhoso por mostrar ao mundo que fez bom uso dos dons que recebeu dele. Porém, quando falo isso, é em questão de como se apresentar aos deuses, não de efetivamente assumi-los como pais.

Até acredito que tudo bem quando, no plural, dizemos - por exemplo - que as amazonas são filhas de Ártemis, no sentido de um grupo identificado e devoto, que é mais facilmente entendido do que dizer-se filho/a de alguém no singular, no típico "toma que o filho é teu", "a responsabilidade é tua, que me fizeste". Não sou eu que levarei uma cobrança dessas a uma divindade! Se alguém me elogia - como já fizeram - ao dizer "você verdadeiramente é uma filha de Atena", pelas características que demonstro, é diferente. Não estou me proclamando filha dela nem a chamando de mãe, estou apenas refletindo aspectos que foram percebidos por outra pessoa e, mesmo assim, essa pessoa não vai passar a referir-se à deusa para mim como "a 'tua mãe' estampa o símbolo da faculdade tal".

Não sei se estou me fazendo entender, mas o fato é que sou eu quem gostaria de compreender essa atitude que só percebo por aqui pelo Brasil. Então não vejam esta postagem como uma crítica (ou ofensa), mas como uma reflexão; até porque imagino que muitos fazem isso porque todo mundo faz e não param para pensar nos motivos e validades de suas assunções ("assunção" aqui como "ação ou resultado de assumir", rsrsrs).

Conversando com algumas pessoas sobre esse assunto, uma delas me lembrou da questão Wicca da "Grande Mãe", e eu não quero entrar nesse terreno da Wicca, mas isso me recordou os epítetos, que preciso explicar.

Quando chamamos Deméter de "Méter Megale" ('grande mãe', em grego) é por ela ser mãe de Perséfone e senhora dos trigais da terra, não nossa. Tanto que a titânide Réia, além de também ser uma "Méter Megale", é a "Méter Theon" ('mãe dos deuses') e a "Méter Panton" ('mãe de tudo'), e não uma mãe dos homens - que seria um suposto epíteto de 'meter anthropon'. Pior ainda seria eu começar a fazer preces a, digamos, uma possível Afrodite Méter Aleξan, a mãe da Álex! Convenhamos, seria no mínimo presunçoso de minha parte.

Bom, acho que com isso já dá para entender o meu ponto de vista. Espero...

;D

março 15, 2009

Só para complementar o último post:

Minha 'Carta do Dia' no site Personare:
"Carta do Dia (Personare): O Ceifador

A importância de deixar ir

Cultivar o desapego é um dos conselhos fundamentais dado pelo arcano chamado “O Ceifador”. Existem momentos da vida em que somos desafiados a perder cascas, a compreender a importância de caminhar, deixando paisagens para trás. Ainda que isso doa, uma vez que nosso ego se estrutura a partir de apegos e identificações, é a compreensão meditativa de que tudo passa que lhe permitirá seguir caminhando e, enfim, abrir-se ao novo que belamente se introduz em sua vida, pouco a pouco, passo a passo, até que você apareça com a alma totalmente renovada. Procure se interiorizar neste momento, evitando grandes atividades sociais. Faça este contato com o núcleo da sua alma e você entenderá quais são as coisas que precisam ser deixadas para trás.

Conselho: Viver é perder cascas continuamente!"

Que 'corvos' está havendo com o mundo? ò_Õ

Incrível como parece que para todo mundo estes estão sendo dias e tempos difíceis. Primeiro foram meus contatos do Multiply que comentaram sobre isso, agora eu vejo o povo nas listas de e-mail dos helênicos americanos fazendo o mesmo. Resolvi resumir e postar aqui uma das coisas que aconteceu por lá, porque a resposta serviu para mim e provavelmente servirá para muitos de vocês que - como eu - sentem a configuração celeste e toda essa energia que bagunça com nossos corpos cheios d'água da mesma forma que a lua influencia nas marés.

A helênica que pede ajuda também pratica yoga e já escreveu um livro sobre as máximas délficas. Ela conta que parece que tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo, que ela tem ficado doente e curada seguidamente nos últimos meses, e - entre outras coisas - se sente ansiosa, então ela queria saber a que deus mais especificamente pedir por alívio.

Quem responde diz que os Deuses às vezes parecem não responder nossas preces, mas Eles as ouvem e são sim guias da humanidade, mas Eles provavelmente gostariam de que de vez em quando nós parássemos de nos preocupar tanto com o destino, uma vez que Eles já estão cuidando disso e sempre estiveram e estarão conosco até o fim. Diz também que possivelmente as respostas já foram dadas, só depende de nós enxergá-las e procurar por equilíbrio na vida, mesmo que seja pelo ato de acender uma vela por noite ou limpar o tumulto espiritual. E termina dizendo que é no nosso ser superior, que é o verdadeiro canal aos deuses e ao universo, onde as respostas estão.

O que tem sido difícil para mim (agora sou eu falando de novo) é que, mesmo sabendo disso tudo e vendo a luzinha das respostas no final do túnel, eu ainda não consigo enxergá-las porque tem um véu de mágoa cobrindo meus olhos. Eu sei que o que aconteceu vai ser melhor para mim, pois me livrei de alguém que me fazia mal, só que eu tou sofrendo demais ainda. Acho que é a dor que sentimos quando retiramos um tumor por conta da cirurgia, mesmo sabendo que estaremos salvos sem ele existir mais ali. A diferença é que eu me apeguei ao meu 'tumor', ele era um pedaço meu, e - desculpem o palavrão - po**a, como dói perder isso...

Há 3 dias que estou com dor de cabeça por conta das coisas que vem me acontecendo. Espero que os remédios que a médica me passou me ajudem a retirar o véu e encontrar coisa melhor para colocar no meu coração.

E olha a sincronicidade! Na hora em que fui postar isto, fui procurar uma citação de uma coisa nas minhas anotações e achei uma outra anotação muito melhor! Vou voltar a usar meu cordão de Sarah Kali e, com a permissão dos deuses, começar a fazer esta prece a ela:
"Tu és a única Santa Cigana do Mundo.
Tu, que sofrestes todas as formas de humilhação e preconceitos;
Tu, que fostes amedrontada e jogada ao mar, para que morresses de sede e de fome;
Tu, que sabes o que é medo, a fome, a mágoa e a dor no coração;
Não permita que meus inimigos zombem de mim ou me maltratem.
Que Tu me concedas sorte, saúde, e que abençoes a minha vida.
Assim seja."