29.6.10

Dipolieia/Bouphonia

Postado por Alexandra Oliveira |

Este domingo escolhi celebrar a Dipolieia/Bouphonia assistindo a uma apresentação de Boi (Bumbá) numa festa junina. Por quê? Bem, vamos ver o sentido:

DIPOLIEIA ("ao deus da cidade"): Festival em honra a Zeus Polieus (di - a zeus, polis - cidade). BOUPHONIA ("matança do boi"): Neste dia (parte do Dipolieia), algumas garotas buscam água para usar em ferramentas afiadas. Os afiadores afiam um machado com cabo e uma faca de açougueiro. Vários arados de boi são arrebanhados pelo pasto até um altar, onde cevada e trigo foram colocados. O primeiro boi que for ao altar está "consentindo" em ser sacrificado. Um homem mata o boi com o machado e outro corta sua garganta com a faca. Ambos soltam suas ferramentas e fogem. Depois o boi é retalhado e preparado para o banquete. Seu couro é estufado com palha e costurado, de forma que pareça vivo. Um julgamento então começa para determinar quem é o culpado pela morte do boi. As primeiras apontadas são as carregadoras de água. Elas culpam os afiadores, que, por sua vez, culpam os sacrificadores. Finalmente, os sacrificadores culpam o machado e a faca, que são declarados culpados e jogados ao mar. (O tema para refletir nesse festival parece ser o ato da reparação - alguém tem que pagar pelo que acontece - e de como nos livrarmos da culpa).

BUMBA-MEU-BOI: A origem dessa festa seria uma mistura, nas fazendas, de tradições africanas (como a do boi geroa) com européias (como as touradas) e alguns elementos indígenas. O enredo básico é o seguinte: um rico fazendeiro possui um boi muito bonito, que inclusive sabe dançar. Pai Chico, um trabalhador da fazenda, rouba o boi para satisfazer sua mulher Catirina (ou Catarina), que está grávida e sente uma forte vontade de comer a língua daquele boi. Os caboclos, junto com os índios e índias, procuram entre os vaqueiros quem fez isso, descobrem e prendem Chico. Quando o fazendeiro encontra o boi, ele está doente (ou morto). Os pajés curam a doença do boi (ou o ressuscitam) e descobrem a real intenção de Pai Chico. O fazendeiro o perdoa e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.
RELAÇÃO: Como a Dipolieia caiu em junho (ela costuma cair entre o final de junho e começo de julho) e aqui tem várias apresentações de Boi nessa época, sinto que é inevitável pensar na semelhança por termos a questão de um boi sendo morto e vários personagens procurando um culpado (fuga e julgamento) que é, por fim, redimido da sua culpa; fora a parte em que tentavam fazer parecer que o boi está vivo e, no mito mais atual, ele realmente ressuscitar. Além disso, o Pai Chico usa um facão nas danças, que me lembra a faca afiada do Bouphonia, e tanto a língua (no Bumba-boi) quanto a garganta (no Bouphonia) são partes da boca.

[ Nota: Curiosamente, sem saber qual grupo iria se apresentar naquele horário, assisti ao Boi de Teodoro, sendo que Teodoro vem do grego, "presente de deus", embora não tenha sido esse o motivo do nome do grupo que ali estava (que o batizou pelo seu fundador). Além disso, eles eram de Brasília, onde fui criada. Para mim, tudo foi um sinal, ou melhor, um aval.
Nota 2: Aliás, se formos mais longe, veremos que essas cerimônias com a ressurreição de um boi começaram no Egito, no culto a Ápis, no Nilo.
]

A lenda "demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força de um boi" (wikipedia). É uma festa que acontece no país inteiro, só muda o nome:
"...no Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí é chamado bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é boi-bumbá ou pavulagem; em Pernambuco é boi-calemba ou bumbá; no Ceará é boi-de-reis, boi-surubim e boi-zumbi; na Bahia é boi-janeiro, boi-estrela-do-mar, dromedário e mulinha-de-ouro; no Paraná, em Santa Catarina, é boi-de-mourão ou boi-de-mamão; em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé é bumba ou folguedo-do-boi; no Espírito Santo é boi-de-reis; no Rio Grande do Sul é bumba, boizinho, ou boi-mamão; em São Paulo é boi-de-jacá e dança-do-boi."

Então, onde quer que você more, fica a sugestão de alternativa para a sua celebração da Bouphonia na Dipolieia dos próximos anos.

23.6.10

Skirophoria

Postado por Alexandra Oliveira |

Sexta-feira teremos o seguinte festival:

O Skirophoria (também conhecido como Skira) ocorre na época do corte e debulhamento do grão. A Sacerdotisa de Atena, o Sacerdote de Poseidon e o Sacerdote de Hélio vão para o Skiron, um lugar sagrado para Deméter, Koré, Atena Skiras e Poseidon Pater, pois lá foi onde Atenas e Elêusis se reconciliaram. Atena e Poseidon representam a vida da cidade, e Deméter e Koré representam a agricultura; Hélio testemunha Seus juramentos (como Ele testemunhou o rapto de Koré). O Skiron é onde, de acordo com a tradição, a primeira semeadura aconteceu. Um grande e branco dossel (chamado de skiron) é carregado sobre as cabeças dos sacerdotes e sacerdotisas durante a procissão. É um escudo que simboliza a proteção dos campos, fazendas e pessoas do calor escaldante, evitando a queimada e a seca. A Skirophoria é celebrada principalmente por mulheres (enquanto os homens dominam a Cidade Dionísia - ver mês de Elaphebolion). Para trazer fertilidade, elas se abstém do intercurso neste dia, e para este fim elas comem alho para manter os homens afastados. Elas também jogam ofertas dentro das megara - cavernas sagradas de Deméter: bolos em forma de cobra, falos e leitõezinhos. (Eles se tornam os Thesmoi - coisas deitadas ao chão - que são removidas na Thesmophoria, no mês de Pyanepsion). Essa cerimônia relembra o guardador de porcos Eubouleus que foi engolido/tragado com seus porcos quando Perséfone foi raptada para dentro do submundo por Hades. Os homens têm uma corrida na qual eles carregam ramos de videira do santuário de Dionísio até o templo de Atena em Skiras. O vencedor ganha a Pentaploa (Taça Quíntupla), contendo vinho, mel, queijo, algum milho e óleo de oliva. Só a ele é permitido compartilhar essa bebida com a Deusa, para quem uma libação é vertida para que Ela abençoe esses frutos da estação.
http://sites.google.com/site/helenismo/Home/festivais/skirophorion-loios
Como podemos celebrar hoje?

Na rua: se você morar na cidade, visite o campo. Se morar no campo, visite a cidade. Torne isso uma espécie de descoberta e apreciação do novo. Leve algo branco para Atena, azul para Poseidon, verde para Deméter, vermelho para Perséfone e dourado para Hélio. Se houver cinco pessoas, cada uma pode estar usando essas cores. Os homens podem fazer uma corrida levando ramos de videira.

Em casa: Faça dois altares ou divida o altar em uma parte rural (com marrom/verde) para Deméter e Koré e outra parte urbana (com cinza) para Atena e Poseidon, decorando-os com suas ofertas votivas e imagens que tiver associadas a essas deidades. Entre as duas partes, coloque algo dourado que represente Hélio e, diante desse centro, uma tigela contendo o Pentaploa: uma mistura de vinho, mel, queijo, grãos e azeite. Se possível, faça um dossel branco por cima de tudo.

Rito: Primeiro dirija suas preces e ofertas para Atena, em agradecimento por as pessoas da cidade terem a oportunidade de se alimentar dos frutos do campo. Depois dirija-as a Poseidon, agradecendo os frutos do mar que nos alimentam sem pedir quase nada em troca. Volte-se então para Deméter, comprometendo-se a manter a terra limpa para termos abundância em sua honra e que ela nos conceda uma divisão justa de seus frutos. Em seguida, agradeça a Perséfone por guardar os pensamentos e a cultura, a memória e os mistérios. Peça a Hélio para testemunhar as intenções de que os deuses mencionados protejam uns aos outros, e que Eles e nós estejamos em harmonia trabalhando pela mesma causa. Verta libações do Pentaploa esperando bênçãos de Atena aos frutos da estação e ofereça os Thesmoi (bolos em forma de cobra, falos, porcos) para Deméter. Conclua o ritual como estiver acostumado/a.

9.6.10

Kallynteria e Plynteria

Postado por Alexandra Oliveira |

- imagem: detalhe de estátua em Corinto: coruja na mão de Atena -

Esta semana tivemos os festivais da Kallynteria e da Plynteria, ambos em honra a Atena.

No primeiro, que é o festival da varredura, fiz apenas uma limpeza nas ofertas votivas a ela e no altar onde elas ficam, acendendo um incenso em seguida.

No segundo, acordei pensando em como eu iria fazer para arrumar tempo para ofertar-lhe figo na praia, porque antigamente se ofertava doce de figo no litoral onde a estátua da deusa era banhada e recebia um novo vestido. Esse era também um dia 'desafortunado' pelo fato de a estátua estar fora da cidade, produzindo uma ruptura na ordem das coisas. (Quem quiser saber mais sobre ambos festivais, clique AQUI.)

Enfim, eu teria um dia cheio, mas teria que dar um jeito. E Atena providenciou esse jeito para mim.

Pois bem, fui para a minha obrigação matinal e qual não foi a minha surpresa ao perceber que terminamos tudo às 9 horas da manhã e não às 11:50 como de costume! Consegui tempo para ir ao supermercado atrás dos figos, os quais só achei enlatado e em calda, o que me fez ter que comprar um abridor de latas para não ter que voltar em casa e pegar um. Chegando na avenida, estacionei, abri a lata e a levei para uma escadaria onde costumava haver uma espécie de 'templo', umas colunas gregas que hoje estão cobertas de vegetação. No meio dessas plantas, um caminho de areia até a praia e ao mar. Foi ali na escadinha mesmo que pronunciei o "lambane anathema mou" (aceite minha oferta) enquanto entregava-lhe o doce, o qual melou um pouco minha mão e eu provei, estava bem gostoso, embora eu nunca tenha sido fã confessa de figos.

Já à noite, sozinha em casa, fui concluir meu ritual, fazendo uma mini-procissão pelos cômodos com o incenso aceso no incensário (a começar da frente da imagem de Atena que está na porta do meu armário), e tentando me lembrar de algo que fosse semelhante ao que se espera que digamos, que seria mais ou menos assim:

Hoje relembramos o festival no qual a estátua da deusa Atena era levada de seu santuário para ser banhada e receber um novo vestido. É um dia em que o véu entre os mundos fica mais tênue, não sendo um tempo propício para se honrar os mortos e sim para agradar os espíritos malignos que possam estar por perto agora que Atena se ausentou da cidade para ser lavada. É pelo exercício da Xenia (hospitalidade) que começamos a nos proteger de tais espíritos.

Usamos a água lustral esperando que a sabedoria flua como água dentro de nós. Acendemos o fogo sagrado, esperando que seu poder queime dentro de nós. Que a oliveira sagrada cresça também dentro de nós. Que, ao nos purificarmos, afastemos - de nós e deste lugar - todo o mal.

Titãs, deuses primordiais, respeitamos suas forças e prestamos-lhes nossas honras. Éris, deusa da discórdia, respeitamos seu poder de destruir o que não se mantém firme e prestamos-lhe nossas honras. E todos os outros que possuem uma poderosa lei ou que presidem questões de justiça, respeitamos vosso poder e prestamos-lhe nossas honras para que não nos causem problemas. Aceitem estas ofertas e não cruzem nossas fronteiras.

Ninfas, sátiros, mênades, dríades, naiades, oceânides e outros daimones da natureza, pedimos a vossa proteção e cuidado enquanto Atena está fora. Deuses e deusas, observem-nos enquanto executamos os ritos sagrados para Atena e não deixem o mal chegar até nós.

Agradecemos aos Destinos por nos trazerem até este dia e esperamos que teçam um belo futuro para nós. Agradecemos a Zeus por suas bênçãos e esperamos por seus favores futuros. Agradecemos a Gaia, mãe de tudo, a mais antiga, que nutre a terra e tudo o que há nela.

Atena, que, com a fumaça deste incenso, nossas preces subam a ti nas asas das corujas e nas vozes do vento. Aceite-as e abra os nossos corações às tuas bênçãos!

Prometemos trabalhar com nossos amigos para honrar os deuses, buscando a verdade (aletheia), a virtude (areté), a justiça (dikê) e a sabedoria (sofia), com alegria em nossas almas, desejando que os deuses nos abençõem a fim de que nos tornemos mais fortes e alertas às necessidades uns dos outros.

Athena, kharin echomen soi. / Atena, nós te agradecemos
Daimoni, kharin echomen hymin. / Espíritos, vos agradecemos.
Panes theon, kharin echomen hymin. / Todos os deuses, vos agradecemos.

Fizemos como nossos ancestrais nos ensinaram e como esperamos que nossos filhos um dia façam, para que os deuses nos sejam favoráveis!

Ésto! (Assim seja!)

E o seu dia, como foi?

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