20.11.16

Tirania, Trump, Temer, Textinho...

Postado por Alexandra Oliveira |

Vamos olhar o presente com a mente de uma época que nos ensinou a pensar? 


Na antiguidade, a tirania referia-se a governantes que adquiriam o poder através de meios ilegítimos, normalmente com o apoio da pobreza rural, embora nem sempre o tirano fosse um bandidão. Por exemplo, Heródoto descreveu como Pisístrato tomou o poder em Atenas no século VI AEC - simulando uma tentativa de assassinato e convencendo as pessoas de que precisava de guarda-costas, mas relata que o mesmo administrou o Estado de forma constitucional e organizou os assuntos públicos com propriedade e bem. Pisístrato era um tirano que não era ruim. Então "tirano" sem sempre foi um insulto. 

Ainda assim, Platão criticou a tirania, dizendo ser uma forma maligna de governo. Não pela forma em que os tiranos tomavam o poder, mas por causa da alma distorcida dos mesmos. Eles não amavam a sabedoria e a justiça, e sim a aprovação do público e o prazer físico. E, como esse tipo de gratificação é efêmera, os tiranos nunca estavam satisfeitos, procurando cada vez mais prazer até decair à loucura. Hoje costuma-se pensar nas formas de governo como estruturas institucionais, mas - para Platão - a tirania era uma condição psicológica. 

Sócrates argumenta que a alma tirânica tende a surgir nas democracias. Essas almas são especialmente comuns entre os filhos dos homens proeminentes que não desfrutam de tanto prestígio quanto acham que merecem. Os tiranos adquirem o poder quando conquistam a aliança dos pobres, geralmente se voltando contra sua própria classe elitizada no processo. Os paralelos com o ano de 2016 são bem evidentes. 

Apesar de criticar os tiranos como os homens mais infelizes da terra e a tirania como a pior forma de governo, Platão parece ter se perguntado se um governo tirânico poderia ser utilizado para bons propósitos. Plutarco conta que Platão aceitou um convite da cidade siciliana de Siracusa para educar o tirano Dionísio, mas a experiência deu errado: Dionísio expulsou Platão de Siracusa e deu um jeito de vendê-lo como escravo em vez de devolvê-lo a Atenas.

Outros filósofos gregos imaginaram se os tiranos poderiam ser bons governantes apesar dos riscos. Xenofonte, por exemplo, escreveu um diálogo entre o sábio poeta Simonides e o tirano Hiero. Quando Hiero reclama de ser infeliz e solitário, Simonides argumenta de que ele poderia ganhar a estima que ele anseia praticando justiça e governando para o bem comum, assim tanto os desejos do tirano quanto as necessidades da comunidade seriam satisfeitos.

Aristóteles também ofereceu sugestões para a reforma da tirania. Para ele, o tirano deveria se apresentar aos seus súditos não como um tirano e sim como um criado e rei. Se ele não governasse como um tirano, seu poder duraria mais. Aristóteles percebeu que argumentos morais não convenceriam um tirano, por isso apelou para o excessivo desejo de ser estimado que o tirano tem. 

As reflexões gregas sobre tirania emergem quando se fala de uma liderança decisiva em períodos de crise, como se um pouco de tirania às vezes fosse necessária para salvar a democracia. Mas isso só revive o antigo dilema: poderá um governo desses ser o meio para atingir os finais certos ou ele - que já nasce de uma maneira corrupta - corromperá todos que participam dele?

Apesar de reconhecer o lado apelativo da tirania, os gregos nos lembram que os governantes com almas distorcidas são perigosos. Mesmo que eles anseiem pelo apoio das pessoas, os tiranos se preocupam apenas consigo mesmos. Na sétima carta que Platão escreve depois de voltar de Siracusa, ele argumenta que, com relação ao Estado, esteja ele sob um único governante ou mais de um, quando um governo é conduzido metodicamente e da maneira correta, ele pede conselho sobre qualquer detalhe na política, e é função de um homem sábio aconselhar tais pessoas. Mas, ainda segundo Platão, homens sábios e bons cidadãos deveriam se recusar a colaborar com governantes que desprezam a lei e a justiça

De algo que já começa de forma ilegítima e anti-democrática não se pode esperar muita coisa boa. 

13.11.16

o lado astral do natal

Postado por Alexandra Oliveira |

Desde 10.000 AEC existem pinturas e registros arqueológicos que refletem o respeito e a adoração pelo sol. Também se observavam as estrelas para saber coisas como eclipses e fases da lua. Uma das figuras mais antigas da história humana é a roda zodiacal. Ela reflete o trajeto do sol pelo ano, 12 meses, 4 estações etc. As civilizações personificavam o sol e as estrelas com figuras humanas ou animais e elementos da natureza significativos naquela época do ano.

Há vários mitos, desde 3.000 AEC, – no Egito, Frígia, Pérsia, Grécia, Índia etc – sobre um filho de deus nascido de uma virgem, anunciado por uma estrela ao leste, adorado por reis, com feitos miraculosos, que passou pela morte e ressurreição ao terceiro dia, com títulos como ‘a verdade’, ‘a luz do mundo’, ‘filho ungido de deus’, ‘bom pastor’, ‘o cordeiro’, ‘o alfa e omega’, e até com dia de adoração no domingo (em inglês “Sunday”, dia do sol). Muitas deidades e heróis do mundo todo preenchiam características semelhantes. Mas por que esses atributos?

É astrológico. A estrela mais brilhante no céu na noite de 24 de dezembro é Sírius, que nesse dia se alinha a leste com as três estrelas mais brilhantes do cinturão de Órion – os três reis. Elas apontam para o local de nascimento do sol a 25 de dezembro, ‘seguindo’ a estrela do leste (Sírius).

A constelação de Virgem é conhecida como “a casa do pão”, sua representação é uma mulher segurando um galho de trigo. Virgem é o signo entre agosto e setembro, tempo da colheita. O nome original da cidade de Belém,“bethlehem”, signfica “casa do pão”.

A 22 de dezembro ocorre o solstício de inverno no hemisfério norte, os dias ficam mais curtos, o sol parece menor, há a perda da colheita, a escuridão, tudo que se associa à morte, no caso a morte do sol. Nesse dia, o sol pára de se mover para o sul (para onde se movia por seis meses), fica ali por três dias (22, 23, 24), e nessa pausa ele reside nas redondezas da constelação do Cruzeiro do Sul (uma cruz). No dia 25, ele se move um grau para o norte, prenunciando dias melhores, mais calor, e a primavera. 

O sol morreu no cruzeiro/cruz, ficou inerte/morto por três dias e se reergueu/ressuscitou. No entanto, a ressurreição só é celebrada na Páscoa (na primavera), que é quando o sol oficialmente domina as trevas e a vida renasce.

Quanto aos 12 discípulos, seriam as doze constelações ou casas astrológicas com as quais o sol viaja.

Na cruz do desenho do zodíaco, o sol fica ao centro, por isso, nas primeiras representações de Jesus, ele tinha atrás da cabeça uma roda com a cruz. Ele é “a luz do mundo” que “afasta as trevas”, que “renasce”, que pode “ser visto através das nuvens” (todas menções bíblicas). A própria coroa de espinhos pode representar os raios do sol.

(do documentário Zeitgeist)

Nas escrituras, há inúmeras referências a “eras” ou “idades”. Precisamos aqui entender a precessão dos equinócios. Os egípcios e outras culturas anteriores reconheceram que, a cada 2.150 anos, o nascer do sol na primavera ocorria num signo diferente do zodíaco, por causa da lenta oscilação angular da Terra. As constelações aí vão para trás (precessão). As antigas civilizações chamavam esses 2.150 anos de “era”. De 4300 AEC a 2150 AEC era a era de touro, de 2150 AEC a 1 EC a era de áries, de 1 a 2150 a era de peixes e a partir de 2150 seria a era de aquário. Moisés quando desceu do monte ficou aborrecido por ver o povo cultuando um touro. Moisés representa a era de áries, por isso até hoje os judeus sopram o chifre do carneiro.

Em outras culturas, Mitra mata o touro, Teseu vence o minotauro, por exemplo.

Jesus seria o portador da era de peixes. A constelação é representada por dois peixes. Jesus alimenta as pessoas com pães e 2 peixes. Na Galiléia, conhece 2 pescadores que o seguem. O símbolo do cristianismo é um peixe. E se assumiu que o seu nascimento tenha sido no ano 1 dessa era, mesmo que alguns estudiosos digam que ele nasceu alguns anos antes.

Em Lucas 22,10, Jesus fala sobre um ‘homem carregando um cântaro de água’ e diz para os discípulos o seguirem até a ‘casa’ onde ele entrar. Esse é o símbolo de aquário, a próxima casa astrológica. Quando em Mateus 28,20 Jesus diz que estará com eles até o fim do “mundo”, essa palavra foi mal traduzida, pois ele teria usado “aeon” (“era”). Ele está até o fim da era. A era de peixes. Não é um “fim do mundo”.

Para não me estender em outros temas que não o natal/nascimento, termino o texto aqui, mas deixo a questão de se buscar a referência astrológica ou astronômica por trás das coisas em comum nos mitos das mais diversas culturas.


15.5.16

Mais do mar

Postado por Alexandra Oliveira |

"Quando mergulhei no azul do mar,
Sabia que era amor e vinha pra ficar."
(Flávio Venturini / Ronaldo Bastos)

No feriadão do final de março, viajamos de barco para uma cidade próxima. Antes de essa viagem acontecer, o clima tenso entre a gente quase a cancelou, mas eu tinha certeza que seria uma viagem definidora. E me parece que foi mesmo. 

Saímos ao alvorecer, a lua ainda aparecia ao céu da manhã sobre o iate. Ida tranquila, ela dormindo ao meu ombro. Pousada linda, vista e comida ótimas. Lá, pegamos um barquinho para uma ilha aparentemente deserta, onde conhecemos uma senhorinha que mora ali e que tem dois celulares, página no facebook e tudo, rs, "sou conhecida internacionalmente". Voltamos no barquinho do velhinho marinheiro que já não tinha todos os dentes. Em outro momento, pegamos outro barco pequeno para ir ver a revoada dos guarás, que são pássaros cor-de-rosa. Vimos outros pássaros também, que me fizeram pensar em Afrodite. E vimos golfinhos, que me lembram Apolo e Dioniso. Dessa vez era um lugar longe, umas três horas de barco, e choveu, e ele encalhou, mas conseguimos sair e voltamos na chuva à noite, sob relâmpagos ao longe no horizonte - o que me recordava Zeus e Hera. Abraçada com ela à minha frente no barco, eu ia cantando canções de mar, especialmente a que diz "tenho os olhos no cruzeiro e as sereias como guia, e Netuno me protege noite e dia; e nem piratas nem borracas nem dragões vão me impedir de ser feliz..." (Kleiton e Kledir). Foi um dos momentos mais mágicos. Mas não parou aí. Quando retornamos para nossa cidade, pegamos um catamarã e, enquanto quase todos os passageiros iam embaixo na cabine, nós subimos para perto da vela e ali atravessamos, novamente sob chuva. 

Depois dessa viagem, a baixa maré poseidônica que ela vinha tendo parou, se tornou outra pessoa, relaxada, de bom humor. Em alto mar, ela se refez. E eu confirmei mais uma vez que os deuses olham por essa relação. Por mim. 

Hoje, quando olhei pra lua, crescente e brilhante à minha frente enquanto dirigia de volta para casa após uma boa noite com ela, me senti inspirada a escrever aqui. E depois a lua entrou numa nuvem escura, mas seu brilho realçava lindamente os contornos da nuvem, e a lua estava acompanhada por uma estrela mais ao alto a seu lado, provavelmente Vênus. 

Possivelmente eu escreveria mais detalhes se tivesse escrito antes, mais perto de quando aconteceu, mas no final de abril comecei a entender por que ainda não tinha sentido essa vontade. Eu precisava contar outras sincronicidades interessantes. Por exemplo, sabe o que ela me deu de aniversário? Um aquário com um peixe beta. Eu na hora não me empolguei porque tenho pena de peixe em aquário e pássaro em gaiola, mas depois me arrependi de não ter demonstrado ânimo, pois foi um presente caro e bem a cara dela. Tudo bem que tinha que ser era a minha cara, mas a intenção foi compreensível. 

Dia desses sonhei que estava com ela e sentia algo no meu bolso, puxava para fora e era um colar de contas de preces com um cisne no meio, ao que no sonho eu entendo como sendo de Afrodite, e não sabia quem tinha colocado aquilo ali. No dia que sonhei isso, fui recitar hinos e cantar na beira do mar, e uma das fotos que tirei da minha sombra na espuma ficou super afrodítico "da espuma do mar". Quando voltei para a calçada, estavam dois pombos um em cima do outro, perto do meu carro. Isso me fez lembrar que ontem ela perguntou onde estavam "os passarinhos" (pombinhos de cerâmica) que ela mexeu, ainda estavam onde ela deixou (no altar a Zeus e Hera). E outro dia sonhei com Dioniso, eu o interpretava e dançava. Comecei a notar coisas dele que se incluíram nos nossos dias também. Enfim, meus sonhos com os deuses vêm voltando a ser mais frequentes.

O que eu retiro de reflexão dessas coisas que são aparentemente mundanas no nosso cotidiano é que elas também refletem a ação dEles. Como diz a música, "tudo o que move é sagrado", "sim, todo amor é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado". Há que se perceber os sinais e encontrar as sincronicidades, aprendendo a prescrutar as coisas pelas quais devemos agradecer, em tudo. Até no que parece banal ou subjetivo. 

Só sei que as marés, apesar de continuarem subindo e descendo, estão mais tranquilas. Ou então fui eu que ganhei habilidades com a prática, porque, como dizem, "mar calmo não faz bom marinheiro". Fico contente de estar sabendo conduzir minha nave por águas tão bonitas...


6.3.16

Marés Poseidônicas nos meus dias

Postado por Alexandra Oliveira |

Em novembro de 2013, escrevi o único post sobre Poseidon deste blog (veja clicando aqui). Uma postagem que não se concluía devidamente, pois eu não tinha as respostas dos motivos para senti-lo tão presente na época. Ao menos não teleologicamente (ou seja, o "para quê" eu estava sendo abordada por Ele). Dois anos depois, novembro de 2015, conheci alguém. Logo estávamos saindo, e passamos o fim de semana do ano novo juntas, quando, a 3 de janeiro, começamos a namorar. Afrodite teve muita participação nisso, fazia ritos a ela para me auxiliar, ainda mais por que o começo foi conturbado. A pessoa que os deuses me enviaram era meio controladora, cheguei a pensar que teria algo de Zeus nela, leonina, cheia de si, líder no trabalho... 


Então, um belo dia, eu sonhei com Poseidon. Uma estátua dele em tamanho humano, no meu quarto, se mexia e eu sabia que só eu conseguia ver minhas estátuas se mexendo. Ele sorria para mim com um olhar doce, e eu colocava a mão na sua coxa, e desejava ele. Eu pensava como era bom ver esse lado leve e simpático dele, não só o de sacudidor de terras e maremotos que tudo derruba. Acordei sem entender o sonho, mas contei para um amiga e ela prontamente: será que "ela" não é de Poseidon? Eu em nenhum momento tinha pensado nisso, mas acabou fazendo todo o sentido. O lado amoroso do sonho era para mostrar que se tratava do meu relacionamento, pois o olhar e o sorriso dele eram como os dela. E aí as peças foram se encaixando. Não era Zeus - que inclusive se confunde muito com Poseidon. 

Vou falar primeiro dos aspectos físicos: os hinos homérico e órfico sobre Poseidon o descrevem como de belos cabelos escuros (ela os tem), a primeira vez que nos beijamos foi depois de ficarmos diante do mar, ela acha lindo cavalos (já cavalgou kms), ela tem um pingente de prata que dei para ela no formato de um peixe (como ela queria), ela usa um desodorante de 'minerais do mar', ela adora camisas listradas de azul e branco (tipo marinheiro), um dia eu botei um pendrive no carro com várias bandas quando estávamos namorando e ela voltou várias vezes na mesma música "Oceans" do coldplay, quando assistimos Horas Decisivas no cinema - um filme no mar - ela apertava minha mão nas horas de maior tensão (tipo quando as ondas cobriam o barco), entre outros exemplos que talvez eu não me lembre no momento. 

Agora vem o que mais pesa: os aspectos psicológicos. Primeiro: Poseidon, como a carta da Torre no tarô, vem para sacudir as estruturas, derrubar as fachadas, fazer a gente se reconstruir. Eu vinha de um longo tempo de luto, sem sair tanto de casa, agora saio quase todo dia. Segundo: os terremotos e tensões poseidônicas, que vêm em ciclos, são constantes nela e no nosso relacionamento, o que eu comento com minhas amigas como "as marés poseidônicas". Uma hora ela está super destruidora, me assustando, na outra está totalmente entregue, me conquistando. Sabe aquela frase da Marilyn Monroe "se você não consegue lidar com o meu pior, você não merece o meu melhor"? Pois é, todas as tensões que ela me causa quando joga água em cima de mim são compensadas pela beleza do oceano e pelas brisas marinhas que impulsionam meu barco na calmaria. Ouço dela tanto coisas muito duras quanto coisas muito lindas. O "uau, ela disse isso?" caberia para os dois extremos se eu lhes contar. E as coisas duras, de certa forma, fazem a gente crescer. 

 [ Como citei no post linkado acima, "A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes." ]

O mar é variável, então está muito ligado a mudanças. Uma das mudanças que tenho experimentado é no meu visual. Cortei o cabelo, repaginei meu guarda-roupa... aumentei minha auto-estima, diminuí minha insegurança. No post anterior, citei que a psicologia arquetípica falando do mar menciona que 'Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.' É bem isso o que vem acontecendo.

[imagine um casal Zeus - Poseidon, rs] 

Os amigos dela não entendem como a aguento, mas eles só conhecem o lado poderoso e imponente do mar (e da leonina), eu conheço o lado que mostra a sorte que tenho de estar nesse reino de benesses e nascentes transformadoras. A minha calmaria, paciência e determinação taurinas ajudam muito a enfrentar os tsunamis, e a paixão antiga que gerações da minha família têm pelo mar deve ajudar também.  

Outra coisa curiosa é que faz tempo que não tenho sonhado mais com o mar cobrindo o lugar onde eu estava, e esses sonhos eram sempre uma constante. Talvez isso também confirme que eles anunciavam este ciclo que agora veio. Só me resta agradecer e honrar a oportunidade. Espero que ela não passe rápido como uma onda, e sim que ancore e se estabeleça como um tesouro submarino. 

24.12.15

Dioniso nestas datas

Postado por Alexandra Oliveira |

Há alguma evidência de que o nascimento de Dioniso fosse celebrado antigamente por volta do solstício (próximo a 25/12)? Vamos ver? 
No Panárion (Gr. Πανάριον), um tratado sobre heresias cristãs, escrito por Epifânio (Epiphanius; Gr. Ἐπιφάνιος) [315-403 EC aprox.], bispo de Salamís (Gr. Σαλαμίς), há uma passagem curiosa com relação ao 6 de janeiro, sendo esta data a festa cristã da Epifania (Gr. Ἐπιφάνεια, na antiguidade Teofania: Θεοφάνεια). Epifânio afirma que o nascimento de Jesus de Nazaré aconteceu nesse dia (mais tarde, a palavra Epifania passou a se referir ao Dia de Reis, mas aparentemente nessa época ela se referia à Natividade). Epifânio continua dizendo que, nesse mesmo dia, os pagãos estavam celebrando grandes festivais em várias localidades, e que na Alexandria havia uma festividade no templo de "Kóri" (Core ou Kore; Gr. Κόρη) ao alvorecer, celebrando o nascimento de "Aióhn" (Aion ou Aeon; Gr. Αἰών) por Kore. Aion é um Deus que é identificado com várias deidades, uma delas sendo Dioniso (Guthrie, W.K.C. A History of Greek Philosophy: The Earlier Presocratics and the Pythagoreans. Cambridge University Press, p. 478), assim como Osiris (Σοῦδα), que é normalmente identificado pelos gregos antigos como Dioniso. Epifânio continua dando exemplos, que em Pǽtra (Petra; Gr. Πέτρα), no mesmo dia, eles celebravam o nascimento do "filho do legislador de tudo" com uma virgem. Isso tudo pode ser encontrado no Panárion 51.22.3-11. 
Macrobius escreve no Saturnália (I.18.9-10) do século IV EC, equiparando Dioniso com o sol: "...algumas imagens do pai Liber estão representadas na forma de um garoto, outras de um jovem homem, às vezes também barbado, ou mesmo mais idoso... Mas as diferentes idades são para serem entendidas com referência ao sol. O sol é muito pequeno no solstício de inverno, como a imagem que os egípcios trazem de seu altar numa data fixa, com a aparência de uma criança pequena" (Macrobius Saturnalia Books 1-2, trans. Robert A. Kaster, 2011, LCL 510, Harvard Univ. Press [Cambridge MA and London England], pp. 249-251). 
O solstício é no dia 21, mas nos tempos antigos o minguante era para ocorrer vários dias depois, tipo no dia 25. E por que temos o 6 de janeiro dado por Epifânio? Podemos resolver isso como segue: "Com relação às datas, Norden demonstrou que a mudança de 6 de janeiro para 25 de dezembro pode ser explicada como resultado da reforma introduzida pelo calendário mais acurado de Juliano, usando o cálculo egípcio antigo que determinou 6 de janeiro como a data do solstício de inverno” (Greek Myths and Christian Mystery by Hugo Rahner, 1971, Biblio and Tannen [New York], p. 141). 
Aion é uma deidade identificada com Dioniso nos ensinamentos do Orfismo. Essa identificação é corroborada nesta citação das notas de um livro de Vittorio D. Macchioro: "Aion era filho de Kronos (Euripides: Heraclidai, 898), ou seja, idêntico a Protogonus de acordo com a teogonia de Hellanikos (Kern, p. 130, 54; p. 158, 85); mas Protogonus, Dioniso e Phanes eram idênticos (Aristocriton Manichæus: θεοσοφία 116, 15, Buresch; = Kern, 61). Erichepaius era idêntico a Dioniso (Hesychius: Ἠριξεπαῖος; Proclus: In Platonis Timœum, II, 102 D, E; = Kern, 170); Phanes com Erichepaius (Hinos Órficos, VI, 9). Protogonus era um dos nomes de Phanes (Damascius: Quœstiones de primis principiis, III; = Kern, 64) e de Erichepaios (Proclus: no Timeu de Platão, 29A; = Kern, 167); Phanes era Aion (Proclus: no Timeu de Platão, E; = Kern, 107). Uma inscrição de uma estátua de Aion em Eleusis (Dittenberger: Sylloge Inscriptionum, 3ª ed., 1125) confirma uma afirmação sobre a identidade de Phanes (Dioniso) e Aion. Aion era filho de Kore, ou seja, a mãe de Dioniso (Epiphonius: Panarion, 51, 22, 8-10). Epiphonius confunde a Deusa Kore com a Virgem, devido ao significado da palavra grega ϰόρη (de ORPHEUS TO PAUL: A History of Orphism by Vittorio D. Macchioro, 1930, Henry Holt and Co. [New York], pp. 251-252, nota 22.)  
Podemos seguir a sugestão moderna do festival dos Doze Dias Dionisíacos, começando dia 25 até o dia 5, e chamá-lo de Vakkhoyǽnna (Bacchogenna), genna significando nascimento + Baccho (Baco, Dioniso). Na antiguidade, existiam vários festivais nessa época. Esta é a estação brumal (inverno) e, por alguma razão, parece que essa época pertence a Dioniso, indo até a Anthesteria (festival das flores). Não tenho certeza por quê, mas talvez tivesse algo a ver com ele assumindo o trono em Delfos, o centro do mundo, no inverno. 
(texto de Kallímakhos, tradução de Alexandra) 

13.9.15

Ofensa e Purificação

Postado por Alexandra Oliveira |

No último mês, dois rapazes coincidentemente vieram me perguntar sobre estatuetas quebradas acidentalmente, as quais haviam tentado consertar, mas temiam estar cometendo alguma ofensa ou miasma mantendo-as assim no altar. Analisando ambos os casos, vimos que não havia problema. Então acredito que a dúvida pode ser compartilhada aqui, acrescida de outros exemplos sobre essa questão do que é ou não ofensa. 

Claro que há situações em que existe sim uma ofensa, como a de Hipólito a Afrodite ao desprezá-la, a de Niobe a Leto ao se achar melhor do que ela, entre outras. E claro que, antes de rituais e ofertas, deve-se pelo menos lavar as mãos, se possível tomar banho e vestir roupas limpas: 
"Nunca verta uma libação do cintilante vinho a Zeus depois da aurora com mãos não-lavadas, nem a outros dos deuses imortais; senão eles não só não ouvirão suas preces como também as cuspirão de volta." (Hesíodo, 'Os Trabalhos e os Dias', verso 724ss)
“...além disso, eu tenho pavor de com mãos não-lavadas verter libação do ardente vinho a Zeus; nem deve um homem sábio fazer preces ao filho de Cronos, senhor das nuvens escuras, todo sujo/coberto de sangue e imundície." (Homero, 'Ilíada', VI, 265ss)
"Ela então se banhou, e colocou vestes limpas no corpo, e subiu para a câmara superior com suas criadas, e - colocando grãos de cevada em um cesto - fez preces a Atena." (Homero, 'Odisseia', IV, 749ss)

Em primeiro lugar, tenham em mente que os grandes miasmas são do tipo morte, sexo, vícios, crimes, hybris, calamidades, pragas, epidemias, injustiças, impiedade etc. São coisas que perturbam a lei natural e mudam a ordem da vida, como o contato com agentes estranhos, com nascimento, com morte, com crime, com lugares violados, ou com o resultado de ações que desagradaram aos deuses. Em segundo lugar, lembrem que miasmas podem ser purificados pela catarse. O próprio lavar as mãos e tornar a água lustral é um exemplo. Você pode se purificar com água, purificar o ambiente com incenso, expulsar agentes de miasma com aspersão e palavras, purificar a alma com música e dança, e fazer rituais específicos de purificação nos festivais (Diasia, Thargelia etc). 

Ou seja, não há motivo para deixar o medo da ofensa lhe paralisar

Quando li os dois casos da estatueta, considerei o ato não-intencional ser sinal de que a deidade estava lhes defendendo de alguma coisa ruim, mas se a rachadura foi pequena ou pôde ser consertada, isso demonstrou o cuidado do devoto, e não havia por que jogá-la fora ou tirá-la do altar. Impiedade é não ser pio, não ser devoto, e em ambos os casos eles foram pios ao se preocuparem com o caso, não houve miasma de impiedade ou ofensa. Uma estatueta pôde ser consertada, outra ficou com o que chamei de "cicatriz de batalha", mas nada que desabone a presença dessas ofertas votivas no altar.

De qualquer forma, na dúvida se algo gerou ou não miasma, faça uma catarse/purificação. Mas não fique impedido ou desanimado de fazer as coisas por temer retaliações. Cada caso pode ser diferente do outro, mas nenhum é irreversível. 

Esta semana eu utilizei meu pirógrafo para fazer uma gravura que não era dos deuses. Eu não me lembrava se tinha ou não consagrado o pirógrafo para trabalhos devocionais, mas mesmo assim o usei. Antes de terminar, ele esquentou tanto que derreteu o botão e quebrou. Levei minha bordoada (inclusive financeira), pois tive que encomendar outro. Mas é isso, aprendi e assim seguimos em frente. Se não erramos, não aprendemos.

Em suma, não deixe de lavar as mãos antes de fazer ofertas ou ritos, purifique-se após o contato com coisas geradoras de miasma (mesmo que em dúvida se são ou não), observe as consequências das coisas para aprender com elas e, no mais, não fique paralisado pelo medo de ofender. 

Há males que vêm para o bem, como algo que quebra para afastar coisas piores, ou como precisar comprar uma máquina de pirografia melhorzinha e novinha, rs. Mantenha-se centrado e busque o equilíbrio, o resto se ajeita. 

24.7.15

Kronos

Postado por Alexandra Oliveira |


Na Era de Ouro regida por Cronos e Réia, não havia trabalho laborioso nem opressão, e as pessoas eram imortais. Antes da ordem trazida por Zeus o mundo era caótico. O festival da Krónia, por exemplo, celebra a igualdade e a liberdade irrestrita. Mas Cronos foi atado a Hélio por grilhões de aço. Assim, Cronos representa tanto a longevidade (da idade do Ouro) quanto o sofrimento (do tempo que ceifa). 

A longevidade é parceira do sofrimento. Tudo o que vive, enquanto vive, pode sofrer. Choramos ao nascer, sentimos dor ao envelhecer, ficamos doentes e morremos. Tudo o que se experimenta entre o nascimento e a morte faz parte do tempo, e Cronos sabe o tempo certo de cada coisa. Quando ele ceifa algo, ele pega essa colheita e distribui, seja na mesma vida ou na próxima. Essa distribuição faz parte da igualdade que experimentamos na Krónia, onde escravo e senhor celebram juntos. 

Cronos ensina o desapego e a resignação. Só nos libertamos do sofrimento quanto passamos pelo próprio sofrimento e aprendemos com ele. Só ficamos vacinados contra um vírus quando injetam um projeto de vírus antes na gente. No combate direto é que ficamos imunes. Esse desapego não é só das coisas materiais externas, mas também do nosso próprio corpo. Sofremos para nos desapegar, para percebemos que tudo no mundo é efêmero, e nos libertarmos. Cronos nos ensina a saber renunciar e a morrer para o mundo, só assim nos aproximamos de como se vivia na Idade do Ouro e se tem a longevidade do espírito, da alma, da mente, da consciência, enquanto o físico muda e perece.

Por isso que na Krónia costumamos pedir que Ele nos mostre uma forma de liberdade (seja financeira, de relacionamento, ou em que outra área for) e que nos ajude a sair das adversidades. Não é por carregar a foice que podemos comparar Cronos com a figura da Morte de uma forma negativa, e tomá-lo como alguém a ser temido, com quem não deveríamos mexer. Mesmo os Titãs têm suas funções necessárias à manutenção dos planos dos Destinos e à realização do daimon de cada ser humano. 

Então, um bom festival da Krónia a todos!
 

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