julho 26, 2019

Da Dor


"Será que você vai saber
O quanto penso em você
Com o meu coração?
Quem está agora ao teu lado?
Quem para sempre está?
Quem para sempre estará?”
(Legião Urbana)


Ontem assisti à palestra de uma psicóloga sobre o tema do suicídio. Ela trouxe dados do tipo: de cada 17 pessoas que pensam em se matar, 5 traçam um plano de como vão fazer isso, 3 realmente tentam e 1 consegue. Então as estatística são sempre maiores nessas proporções. E as principais coisas que levam a esses pensamentos são 4 Ds: depressão, desespero, desesperança e desamparo. 

Pra mim a desesperança vem atrelada à incerteza, a não saber o que vai acontecer, no que alguém está pensando em fazer, que decisão radical poderá tomar. Isso vai me trazendo o desespero e a depressão, e sentir desamparo é quase que inevitável quando a incerteza vem exatamente da única pessoa com quem você costuma contar. 

Nessas horas a gente tem que se apegar à energia de Perséfone para não sucumbir ao Hades. Ela pode te fazer processar as coisas, enquanto que chegar nele não tem saída. O torpor do narciso que Perséfone colhia e sua ligação com as coisas ocultas podem te ajudar a conhecer outras formas de consciência, ainda que despertas e racionais. Precisamos intelectualizar para não patologizar o que sentimos. 

Muitas vezes somos nós mesmos que amplificamos o problema, outras vezes é o outro que o torna um maremoto. Mas não é morrendo nem matando que vai fazer ficar tudo bem. Esse racionalizar me ajuda às vezes. Das coisas que penso: E se os suicidas forem pra um lugar pior depois da morte? E, se depois de vencer isso, fosse me acontecer algo muito bom? E se matar o fulano me trouxer "carma ruim"? E se o espírito dele ficar me vigiando e me atrapalhando? Enquanto houver essas 'desculpas', ainda será sinal de que eu só desejo acabar com o sofrimento e não com a vida. 

Voltando à deusa, foi Perséfone quem ajudou Orfeu. E acho curioso que, toda vez que penso no tema da morte, me lembro que ainda não decorei os versos órficos que precisamos dizer a ela quando atravessamos pro outro lado. Por mais que eu tente, na hora decoro e depois me esqueço. Acho que isso é meu inconsciente se recusando a me deixar desistir de tentar ficar.

A gente não pode esperar que as pessoas sejam perfeitas, nem pode achar que somos melhores que elas também. Não dá para ficar comparando sofrimento. Cada um carrega a pedra que é capaz de suportar. O que precisamos é não deixar que vire uma pedra de Sísifo que nunca evolui nem transcende. 

Eu ainda não sei qual será a conclusão do meu sofrimento atual. Não sei que pena terei que cumprir. Nem questiono se será justa. Mas escrever sobre a dor me ajuda a aguentar mais um pouquinho até saber o desfecho dela. Isso me lembra que eu gostava de dois livros da Marguerite Duras ("O Amante"e "A Dor"). Acho que para ela também funcionava lidar com isso escrevendo. 

Outra coisa que me ajuda é música. (Olha aí Orfeu de novo.) Acho que isso é algo que ajuda muita gente. Alguns colocam música alegre para espantar a tristeza, outros colocam música depressiva para expurgar de vez tudo o que se está sentindo, talvez até para ter essa sensação de que não é o único, que não está sozinho na dor.

Um dos possíveis significados do nome de Perséfone é "a que destrói a luz", por isso que é nela que penso quando estou nesses lugares sombrios da minha mente e coração. Ela ajuda a atravessar entre os mundos. E quando essa dor é por causa de algo do passado, talvez a gente precise se lembrar da Medusa, a que petrifica, aquelas coisas que fomos cristalizando e que não conseguimos destruir. Talvez um espelho te ajude, como ajudou Perseu. Olhe como você cresceu e tudo o que já venceu e como pode realizar mais feitos heróicos ainda... 


Mas, se você ver alguém triste, o que não funciona é dizer "fica bem". Esse 'conselho' não ajuda, porque ninguém escolhe estar triste. A gente pode escolher permanecer remoendo, mas não é com frases motivacionais que se sai do ciclo. Na palestra foi falado que a sociedade ainda não sabe lidar com a tristeza dos outros. 

Então ou a gente procura ajuda profissional ou usa dos artifícios que conhece que nos fazem sentir melhor. Se for muita coisa para superar, não tenha vergonha de pedir essa ajuda. Eu ainda vou esperar o meu desfecho antes de saber a quem recorrer - seja deus ou mortal. Mas se você também está às voltas com esse tipo de energia, não se cale, conversar ou escrever serão sempre catarses válidas para lidar com o que polui o nosso templo (físico, mental e espiritual).

Desejo sorte e paz para a gente. E que o amor prevaleça sobre o erro. 


junho 10, 2019

"A Feitiçaria na Atenas Clássica"

Há alguns meses terminei a leitura do livro "A Feitiçaria na Atenas Clássica" da Profª Drª Maria Regina Candido. Não posso me estender muito nos comentários para não revelar tudo do livro, mas tentarei fazer uma resenha e especialmente demonstrar como essa leitura só me confirmou ainda mais como é acertado que o reconstrucionismo não enverede por essa área da magia (ou do feitiço)

O livro foca nos katádesmoi, as tábuas de imprecação. Para começar, o fato de o uso dessas tabuletas aparecer na virada do século V para o IV AEC contextua muita coisa. Nesse período pós guerra do Peloponeso e de participação pelo voto, temos uma transição dos interesses públicos (to koinon) para os privados (to idion) e isso gerou um recuo da sophrosyne (o autocontrole, a justa medida). A sociedade que era de logos, tradição, coesão cívica, ritos ancestrais, começou a ceder espaço para práticas individuais, para relações com a morte e para o uso de maldições para "fazer mal ao inimigo". A magia, que era desviante, retorna como parte do cotidiano. Isso por que os atenienses ora seguros se deparam com situações imprevisíveis, inusitadas, incertezas e novidades que a comunidade da pólis não consegue responder. A crise das cidades atingiu as áreas econômicas, sociais, políticas, religiosas, intelectuais e artísticas, fazendo desse um período bem específico da história. 

As lâminas de chumbo estudadas no livro são de três tipos: as imprecações contra atividades de comerciantes, as testemunhas no tribunais, e os rivais de relações amorosas. O significado do termo katadesmoi remete aos sentidos de amarrar, prender, imobilizar alguém embaixo da terra, ou afundar, enterrar, ocultar alguém no submundo. Já o termo latino, defíxios, seria sinônimo de um tablete que pretende "fazer mal ao inimigo". 

Os nomes nas lâminas apontam para grupos sociais provenientes desde a Liga de Delos até o pós-guerra do Peloponeso, o que leva a autora a acreditar que os indivíduos que faziam uso dos katadesmoi pertenciam a segmentos sociais de prestígio político e/ou exerciam atividades econômicas consideráveis. Eles se sentiriam ameaçados (na sua riqueza, prestígio e honra), com o risco de perder seus recursos para concorrentes ou no tribunal, ou de serem difamados e terem sua atividade prejudicada. O prejuízo poderia ser moral, pecuniário ou mesmo de levar à morte. Por temer essas coisas, se recorria à magia para a imposição da vontade do usuário

Por mais que os princípios tradicionais permitissem "ajudar os amigos e prejudicar os inimigos" e legitimar a auto-defesa e a indenização, essa indignação do cidadão que se sentia lesado em seus direitos deveria ser levada para o contexto público do tribunal, enquanto que no contexto das lâminas havia uma violência privada, uma vingança de interesse individual, insubordinada às leis. Nem todos tinham o poder da oratória para vencer nos tribunais, então procurava-se outros meios. Nas tábuas estudadas, o solicitante objetivava tanto paralisar a ação do inimigo quanto exigir a destruição total do adversário, levando-o à morte, às vezes junto com a família e pessoas próximas. Platão cita em Fédon que o mal-olhado (baskanía) podia interromper a fala de um orador no momento decisivo da argumentação. O usuário das tábuas acreditava na eficácia de enviar essas maldições, e lemos em algumas tábuas ele solicitando que se paralisasse a voz, as mãos, os pés e a mente do adversário.

O problema se tornava ético quando a motivação do solicitante era a sua própria incapacidade pessoal, ou seja, por inveja (fthónos) e rancor acumulado diante do adversário bem-sucedido. Aristóteles, na Retórica, fala que a inveja tem por princípio a rivalidade de alguém que aspira as mesmas coisas que dão sucesso a outra, isto é, alguém possuir algo que prospera e o que invejoso não consegue alcançar por ser pessoalmente incapaz. Um político famoso por ser um invejoso especialista em calúnias era Aristogeiton. Ele buscava fatos que podiam ser transformados em recebimento de dividendos, e andava sempre acompanhado por testemunhas ímpias e más.

O valor do comércio parece ter sido alimentado no período de Pisístratos, que incentivou as atividades comerciais na área urbana. Também houve a mudança da rota comercial no Mediterrâneo beneficiando Atenas por conta do porto de Pireu, que foi melhorado no tempo de Temístocles e no governo de Péricles. Após o conflito com os persas, Atenas tornou-se uma potência mercantil devido a sua posição hegemônica no mar Egeu. As pessoas migraram do campo para a cidade para trabalhar como artesãos e comerciantes, enriquecendo alguns setores da economia. Mas essa riqueza recente oriunda do comércio era considerada de má qualidade, os emergentes não seriam qualificados a participar da administração da pólis. Acreditava-se que a riqueza proveniente da agricultura era a mais adequada para a formação do cidadão-camponês-soldado. Xenofontes diz que através do cultivo da terra adquire-se status, prestígio e virtudes. 

A riqueza fomentava a hýbris, e a pobreza despertava a inveja. Ambas levavam os indivíduos a cometerem injustiças, transgressões e crimes. Uma das razões da magia dos katadesmoi estaria, então, na concorrência. Solicitava-se às potências sobrenaturais a ruína das atividades e a eliminação física do oponente, assim como a desarticulação da sua família, o que, fatalmente, prejudicaria a sua oficina. As dificuldades econômicas do momento redirecionam também as atividades femininas, levando as mulheres a deixarem a reclusão para atuar na garantia da sobrevivência da família. Também se inseriram no comércio os metecos (estrangeiros), aumentando a concorrência. A profissão de kapelikós (comércio de varejo) podia ser exercida por homens, mulheres e escravos. 

As tábuas eram executadas de maneira oculta e dissimulada, uma ação desviante à religião oficial da pólis, e eram específicas do espaço urbano. Algumas inclusive eram escritas invertidas, de trás para a frente, e com palavras incompreensíveis e indecodificáveis. Além disso, o solicitante contava com o sigilo, pois seu nome nunca constava na lâmina. A ágora era o espaço da palavra falada, dos debates, mas a palavra escrita pertencia aos templos e santuários, por isso também sua relação com a magia, pois a escrita dava sacralidade ao acordo, como uma forma de garantir que este seria cumprido. Além disso, as imprecações eram gravadas em materiais como chumbo e bronze - duráveis e indestrutíveis (o chumbo, por ser cinza e frio, também lembrava a morte). Elas eram depositadas nas poças, nos leitos de rio, nas sepulturas do cemitério e nas fendas dos santuários e templos de deuses ctônicos. Os verbos eram na primeira pessoa: eu enterro/afundo/amarro. E há cinco termos constantemente citados: 'enterro' 'sua casa' 'sua vida' 'corpo' 'ofício'. 

O mago que grafava nas lâminas para o solicitante deveria ser alguém capaz de grafar e imprecar da forma precisa e de acreditar na eficácia das lâminas. Esses 'magoi' faziam a 'goetía', a magia negativa de fazer mal ao inimigo, e divulgavam serem capazes de persuadir os deuses a serem seus servidores. Esses especialistas costumavam ser homens à margem da sociedade que surgiram no final do século V AEC entre os atenienses, desprezados por uns e procurados secretamente por outros. Sua clientela eram de insatisfeitos, amargurados e inconformados, e esses usuários preferiam manipular as almas que ainda não haviam chegado ao Hades.

Nos séculos IV e III, houve um acentuado esforço na realização de desejos e satisfação individual, e é quando vemos os katadesmoi amorosos, um pouco diferentes dos katadesmoi contra ofícios e os contra os processos. Nos amorosos, se citava no máximo duas ou três pessoas, e às vezes não se pretendia fazer mal ao adversário e sim ao ser amado. Quando não se conseguia despertar a sua adoração ou fidelidade, se recorria à sua destruição. O amor ou paixão não-correspondidos levava a vítima a agir como se estivesse acometida por uma doença. Nas obras de Eurípides, Fedra parece ser alguém vítima de uma imprecação (há três dias sem comer por conta de uma dor da paixão), assim como Medeia (que "jaz sem alimento, corpo dado às dores, debulhado em lágrimas"). Já no relato de Teócrito, Samanta não se conformou com o abandono e reagiu usando a magia ("assim como este ramo de louro arde em brasa, que arda também o corpo de Delfos", "se ele me desprezar, baterá na porta do Hades levado pelas Moiras e pela potência do meu veneno" e "quem se deitar com ele, homem ou mulher, será esquecido completamente, como Teseu esqueceu Ariadne"). Nos textos, Medeia e Samanta dão a entender que a mais grave atitude diante de uma vítima de desprezo e fracasso era o riso (ghélos), e somente a vingança da morte poderia reverter essa situação e trazer-lhes a vitória. 

Em resumo, os katadesmoi têm sua elaboração relacionada a um contexto de crise, de incerteza, e da supremacia do interesse individual ao interesse coletivo. A autora diz que: "A crença na eficácia da magia se deve ao contexto de crise na organização da políade que deixou de atender as necessidades dos seus cidadãos. Estes não deixaram de reagir e buscaram nas práticas mágicas as respostas, os auxílios e as alternativas visando remover obstáculos e solucionar as disputas".

Vale ressaltar que não havia culpa nem tempo para o arrependimento, pois desfazer uma imprecação era muito difícil. 

Essa discussão me lembrou uma postagem do site do Patheos, "Bruxaria é política". Traduzo aqui resumidamente o que a autora (Scarlet Magdalene) diz: 
Hécate é uma deusa dos marginalizados e a bruxaria é uma ferramenta dos desprovidos de direitos. Hécate é um exemplo popular de um tópico e deidade que é terrivelmente mal-interpretada, mal-representada e normalmente ignorada por causa de sua popularidade ser vista como um incômodo e não como uma característica. Não só por ela ser uma deusa da bruxaria, mas por ser uma deusa de muitas funções e muitos epítetos. “Soteira” (Σώτειρα) significa “salvadora”, um de seus epítetos. Seu deipnon (ceia), durante a lua nova, não era apenas uma forma de lhe fazer ofertas, mas também de prover comida para os desabrigados e famintos. Ajudar os necessitados era uma forma de oferta a ela, por mais que alguns torçam o nariz. Sendo uma deusa de fronteiras e lugares limítrofes, faz sentido ela ser associada com os marginalizados, com a periferia. Aristófanes cita "Pergunte a Hécate se é melhor ser rico ou faminto; ela lhe dirá que os ricos lhe enviam uma refeição todo mês e que os pobres a fazem desaparecer antes mesmo de ser servida". Ela também era solicitada em questões de justiça e decisões em assuntos domésticos: "Um dia os atenienses acessariam a justiça em seus próprios lares, cada cidadão teria um pequeno tribunal construído em sua varanda, similar aos altares a Hécate (Hekataion) e haveria tal coisa diante de cada porta" (Aristófanes, 'As Vespas'). A deusa também tinha um culto onde se acreditava que os doentes mentais eram curados. Ela também é patrona de mulheres feiticeiras como Circe e Medeia. Recorria-se a Ela tanto para fazer quanto para se proteger de bruxaria. Hécate é descrita no Oxford Classical Dictionary como "mais em casa e arredores do que no centro do politeísmo grego. Intrinsecamente ambivalente e polimorfa, ela ultrapassa as fronteiras convencionais". Nos arredores é que estão os pobres, os doentes mentais, as mulheres, e outros que não eram admitidos na política. 

Como vemos do livro, os comerciantes mercantis também se encaixavam nesses "emergentes excluídos" que não eram virtuosos por não terem adquirido sua riqueza da agricultura. A procura pelas tábuas de imprecação emergiu de uma situação histórica/política de transição. E é nessa situação de incerteza e crise que se buscam os meios 'alternativos' e 'sobrenaturais' de se conseguir alcançar seus objetivos pessoais em detrimento do interesse comum.

Portanto, esse tipo de magia era mal-visto, pois sabemos que desejar - por interesse pessoal - que um adversário e sua família sejam paralisados ou mortos nunca se encaixará nos princípios de uma religião cívica de amizade (philía) e autocontrole (sophrosine). 

março 16, 2019

Recomeçando

Este ano observei algumas coisas com relação à abordagem que cada um dá aos deuses. Percebi quatro movimentos diferentes de quatro pessoas. Um não acredita que os deuses nos dão tudo o que pedimos, outro acredita que não importa o que ele resolva porque no final sai do jeito que os deuses queriam, outra acredita que toma bordoada quando erra, e outra acredita que os deuses sempre nos dão o que pedimos quando temos um bom relacionamento com eles. Da minha parte, percebi que essa resposta positiva se dava mais com posturas do que com ritos. Recentemente fiz um rito a Hermes (todo certinho, com sinais indicando sobre as ofertas, e até no dia e horário mais propícios) esperando um resultado o qual não tive de pronto, mas depois adotei atitudes que me levaram à resposta favorável que eu queria. Levar a energia da deidade para a vida foi mais eficaz do que uma comunicação ritual momentânea. Então talvez aquela primeira pessoa que citei não recebe o que pede porque falta levar pro cotidiano aquele sentimento e atitude próprias de alguém com uma boa conexão com o sagrado. E os outros três casos não se anulam entre si. 

Outra coisa com relação a essa questão de o que pedimos e o que recebemos também foi assunto de uma conversa atual. Muitas vezes o que precisamos para conseguir realizar as coisas necessárias ao nosso crescimento e evolução são provenientes de energias as quais costumamos temer. Hades, Ares, Poseidon, são exemplos de deuses que as pessoas têm medo, mas que realizam grandes coisas em nossas vidas se nos sintonizarmos e equalizarmos com eles. Grandes mudanças assustam, mas não se trata de deixar ser levada pelo maremoto, mas de aprender a surfar ondas gigantes. Às vezes precisamos violar uma embalagem para conseguir trazer pra fora o que tem dentro dela e o qual estamos há muito tempo querendo. Já citei em outro texto sobre como Ares te tira do sofá, e seguidamente falei como Poseidon sacudiu minhas estruturas, sem contar como Perséfone vira rainha após ser levada por Hades. Não são forças das quais sentir medo, mas ao mesmo tempo precisamos estar maduros para lidar com elas sem sermos levados na correnteza. Aproveitar essa zona do medo como uma ponte entre a zona de conforto e a zona de aprendizagem, no caminho para a zona de superação/realização. 

E, voltando ao ponto sobre o "fazer correto" para não "levar bordoada", me lembrei de uma dúvida que tiraram comigo este mês. Quiseram saber se poderiam relacionar o porquinho-da-índia a Apolo, já que ele é um roedor e os ratos são dEle. É preciso tomar certo cuidado com essas associações. Os ratos são ligados a Apolo por serem pragas e não por serem roedores (e fofinho) como o porquinho-da-índia. Além disso, se pesquisarmos as civilizações onde esse animal existia nos cultos (já que na Grécia antiga não encontramos registros), veremos que entre os incas o porquinho-da-índia era ofertado à deusa da terra e ao deus da montanha, o que, por um certo sincretismo mais intuitivo do que direto, poderíamos ligar a Deméter e Dioniso

Há outra questão sobre esse "conseguir o que pede" que também observei nessas últimas semanas. Uma pessoa pediu aos deuses algo que ela achava o melhor para a outra, mas não era o que a outra realmente queria para si. E, claro, acabou não dando certo. Apenas quando a primeira reconheceu que estava sendo influenciada por seus próprios sentimentos é que ela, eticamente, pediu a uma terceira que fizesse o rito pela segunda pessoa, por aquilo que esta realmente queria, e aí sim começou a dar certo. 

Esses movimentos todos de depoimentos e perguntas e de gente voltando a me procurar me fez sentir um retorno importante depois daquele tempo tentando estabilizar meus próprios movimentos. Consegui inclusive ler um livro que vou trazer a síntese aqui em uma próxima postagem. Sinto que as coisas vão aos poucos se assentando, e as marolas estão voltando a encontrar a praia, mesmo nesta cidade de instabilidades climáticas e garoinhas refrescantes. 

Voltei a ter sonhos dos quais percebia depois a sincronicidade deles com o relato de outros helenos. Estou tentando me reconstruir junto com o reconstrucionismo. Estou buscando novamente me tornar quem eu sou, como ensinava Píndaro. 

E espero que esse novo espiral de percepções e conexões me leve a escrever mais por aqui. 


[ PS.: O blog está com um layout diferentinho, arrumei para ficar mais clean e mais prático. ]

setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


outubro 12, 2017

Pontes e pontífices

Tudo bem sermos uma religião filosófica de mentes pensantes e espíritos livres, mas isso não significa que não precisamos de estrutura. Estrutura traz estabilidade e organização, o que é melhor que ter um caos. 

A ideia de ser livre não precisa nos fazer rejeitar qualquer tipo de autoridade, pois até mesmo pessoas unidas com um propósito é algo parecido com uma instituição. Uma comunidade é uma conexão, construída com paciência, planejamento e estrutura. Você não perde sua autonomia pessoal se procurar orientação de um grupo ou de uma pessoa mais experiente. Afinal, os outros só podem fazer isso: orientar; mas a decisão sobre o que fazer é só sua. 

Tem gente que acha bonito e rebelde afirmar que só os deuses podem lhe dizer o que fazer. Mas a questão é se essa pessoa tem o filtro certo para saber qual mensagem vem dos deuses e qual não vem. E a outra questão é: se você pretende ajudar os outros, precisa saber/aprender a ser ajudado e a deixar seu ego de lado. 

Para conseguir isso, precisamos reconhecer quando é melhor envolver outra pessoa. Estar todos no comando ao mesmo tempo ou não estar ninguém no comando normalmente não funciona. Podemos ter nossa individualidade e ao mesmo tempo servirmos os outros, sermos livres e ao mesmo tempo reconhecermos que outra pessoa tem melhor capacidade de nos ajudar a decidir. 

Nesses casos, a autoridade dos outros não está sobre a gente e sim sobre o objetivo que todos estamos querendo alcançar juntos. Sem isso em mente, não vamos conseguir realizar muita coisa. 

Xenócrates dizia que o Universo é composto de 3 partes: Sol com as estrelas, Terra com suas águas, e Lua com seus ares. A do Sol e estrelas seria o lugar onde os deuses habitam, a da Terra e suas águas seria o lugar onde os homens habitam, e a da Lua e ares lunares seria onde os daimones habitam, e estes são similares tanto aos deuses quanto aos homens em sua natureza. Sem os daimones, não haveria comunicação dos deuses com os humanos, assim como sem a lua o universo se desuniria. 

Ou seja, o terceiro elemento intermediário é necessário para essa comunicação. Zeus tinha Hermes como seu mensageiro, Hera tinha Íris. Perséfone é escoltada por Hécate ao sair e entrar do Hades. Hécate, aliás, é vista como tríplice exatamente por ser a deusa que intermedia dois outros elementos (reinos, mundos, seres etc). A fronteira é um terceiro elemento que une os outros dois e que possibilita - como uma membrana seletiva - que esses dois se comuniquem de forma efetiva. 

Também por isso Hécate esteja associada com a Lua. Dois séculos antes, quem era associada à Lua era Ártemis. E Selene era a lua em si. A Lua era uma estrela terrena ou uma terra estrelar, sendo assim um domínio de Hécate - que é tanto celeste quanto ctônica. 

Hécate é também a senhora e rainha dos daimones. Os daimones são espíritos imortais mas não divinos, que cuidam dos humanos. Eles tomam conta dos oráculos, comparecem aos ritos místicos, salvam os homens na guerra ou no mar, punem os transgressores, entre outras coisas. 

Mediadores são importantes. Recusar a ação deles para “não ter intermediários” não é rebeldia ou autonomia, é infantilidade e teimosia, sem falar em falta de humildade. Isso pode atrasar seu desenvolvimento em vez de demonstrar liberdade. 

Então vamos aceitar que somos limitados e aproveitar a disposição de quem pode nos ajudar a alcançar os objetivos que todos temos em comum. Não é vergonha nenhuma isso, e nem dependência ou insegurança, mas sim confiança, consideração e maturidade. 

Isso demonstra que você reconhece e é grato pelo trabalho do outro, seja ele um orientador, um deus ou um daimone. 

Mas é bom lembrar que um dos nossos maiores princípios éticos é o equilíbrio (métron, a justa medida). Logo, também não podemos deixar as decisões nas mãos do outro, precisamos ser responsáveis. O outro só pode nos orientar, mas é a gente que resolve o que fazer e assume a responsabilidade sobre o que decidiu. 

Com os deuses, por exemplo, eles fazem o que a gente pede/decide, e a gente que lide com as consequências. Já dizia Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas será sempre refém das suas consequências.”

Portanto, o melhor é ter alguém que nos ajude a pensar antes de escolher. E aceitar isso não desconfigura sermos de uma religião de liberdade, autonomia e inteligência. Não confie apenas no seu próprio julgamento, ele também pode falhar às vezes. 

julho 16, 2017

"Torna-te quem tu és." (Píndaro)


As teorias psicológicas geralmente carregam uma visão bem traumática dos primeiros anos de vida, tornando nossas lembranças e a narrativa da nossa história pessoal algo infiltrado por essa ideia, que nos faz pensar na infância como uma época de calamidades desnecessárias e causadas pelos outros, as quais teriam moldado nossa personalidade de forma errada. Mas nossas vidas são mais prejudicadas por essas ideias do que pelos traumas em si. Nossas vidas são determinadas não tanto por como foi nossa infância, mas por como aprendemos a imaginá-la. Olhamos para a vida como uma narrativa cronológica e sem um roteiro, transitando entre ressentimentos sobre o passado e ansiedades quanto ao futuro. 

Para sairmos dessa identidade de produto social determinado por eventos aleatórios e reações estranhas, precisamos buscar não o sentido da vida em geral, mas uma razão pessoal para estarmos aqui. A beleza, o mistério, a mitologia por trás da nossa vida em particular. As teorias que misturam genética e meio-ambiente, inato e aprendido, hereditário e social, se esquecem de falar sobre o que é aquela coisa específica que faz você ser você, que vai além de ser apenas um resultado entre essas duas forças. Quanto mais dissermos que somos produto dos nossos cromossomos aliado ao que nossos pais nos fizeram numa época que já passou há muito tempo, mais nossas biografias vão ser todas parecidas com a história de uma vítima e bastante acidental. Mesmo que depois você vire o outro lado da moeda da vítima, que é a do heroi que sobreviveu, venceu e "se fez sozinho".

O cronológico não importa tanto. Não importa qual pincelada o pintor deu primeiro, o que você vê já é a arte pronta. Você é uma imagem completa, no agora. Como disse Picasso, "eu não me desenvolvo, eu sou". Essa sua essência pode ser ignorada o quanto você quiser, mas um dia vai sair e te tomar. Às vezes sua essência não aparece quando criança, porque você não está pronto. Por exemplo, pode ser que você vá ser um escritor, mas que nunca sentiu urgência em escrever quando novo, porque antes de criar você precisava aprender, olhar, ler, sentir, cheirar, viver, para não escrever besteira. Mas podemos ter percepções disso desde a infância sim, então seria bom tentar lembrar mais dessas percepções do que dos eventos traumáticos dessa época. São dicas, intuições, sopros, impulsos, estranhezas, urgências, que perturbam a vida natural e que estranhamente rotulamos de sintomas. Mas, para brincar com a linguagem, esse "sim, toma" é um presente pra você. Há uma razão para essas coisas te escolherem. E o início da palavra sintoma vem do grego "sym" (combinação, conjunto). Não estamos sozinhos. 

A psicologia é sim uma ciência, mas seu nome começa com "psyche", "alma" em grego, então ela porta muito do que seria identificado como espiritual ou religioso. Dizer que "o coração tem razões", que "há algo de inconsciente nas nossas intenções", que "nada acontece por acaso" etc, tudo isso é convencional e aceitável. E quando pensamos que estamos aqui por um motivo que não nos deixa morrer quando caímos da escada ou quando nos enchemos de vírus e bactérias? Podemos chamar isso de instinto, de autopreservação, de sexto sentido, de consciência subliminar, de energia universal ou de anjo da guarda - todas essas coisas são invisíveis e as sentimos presentes. Mas a sociedade prefere que você compre a história do sobrevivente que se fez sozinho do que a história de que você é amado por uma providência que guia você e de que você está aqui por ser necessário no mundo. E não estou falando necessariamente de deus/es externo/s. 

No mundo atual parece que estamos mais distraídos do que motivados. Procuramos coisas para fazer para evitar pensar, e não coisas para nos inspirar a criar. Porque dá trabalho descobrir sua missão e cumprir as exigências que vem com ela. Estamos cada vez mais fugindo de ser responsáveis, por isso também a teoria de culpar a infância é bem cômoda. Ora, se a cada 7 anos todas as nossas células do corpo se renovam, por que eu vou deixar que me definam pelo que me aconteceu na infância? O que eu passei pode explicar muito do meu comportamento hoje, mas não mudou quem eu sou ou o que eu acredito que vim fazer no mundo. 

Em vez de sermos apenas "estudos de caso", deveríamos ler a história de cada um além do eixo biológico-social, talvez algo mais parecido com o filosófico ou antropológico, mas sem o etnocentrismo típico. Podíamos realizar nossa análise menos em estatísticas e diagnósticos e mais em imaginação e mito-poesia. Assim veríamos as perturbações na infância menos como problemas de desenvolvimento e mais como emblemas que revelam muito do chamado individual, da descoberta da importância que tem aquela vida em particular. O maior pecado da psicologia é ignorar a beleza, a apreciação estética de cada história de vida. Cada mudança de situação na vida tem um sentido e uma interpretação, mas também tem uma beleza. Falar apenas em estruturas cognitivas e afins não tem graça. E ver a beleza em algo nos faz amá-lo. Ficar apenas procurando "problemas" torna a todos ansiosos - terapeutas, pais, crianças, pesquisadores. 

A descoberta do nosso chamado é algo que ao mesmo tempo ancora lentamente e voa bem rápido. É como uma árvore que tanto cresce para cima quanto se enraíza mais fundo. Quanto mais nos afastamos dele, mais nos despersonalizamos e menos vivemos. Viramos estatística dentro de um grupo. Sei que é melhor ser sobrevivente do que ser vítima, mas melhor que sobreviver é viver plenamente. Além de me identificar com milhares de pessoas que passaram pelas mesmas coisas que eu, também posso encontrar o que me torna única

Essa busca pela diferenciação é o que talvez nos faz mudar coisas visíveis e aparentes, como fazer uma tatuagem, adotar um novo estilo de se vestir etc. São coisas externas que expressam a necessidade de algo interior que nos defina. Quem sou eu especificamente? Algo que vai muito além da minha genética e acontecimentos do passado e vivência social. Achar esse algo é que são elas. De qualquer forma, na sua procura pelo autoconhecimento (que é o mote tanto da terapia quanto do helenismo), é melhor ir por esse caminho atemporal do que percorrer mil vezes aquela narrativa cronológica sem roteiro, que pode trazer muitos avanços mas que raramente nos deixa satisfeitos. 

Como ensinava Píndaro, primeiro precisamos descobrir quem somos, para depois agirmos de acordo com o que descobrimos.

Independente do nome que você lhe dá (gênio, daimon, anjo da guarda, ochema, fortuna, sorte, jinn, ka, ba, animal de poder, eu-superior, self, chi, ruah, pneuma etc), já pensou um pouco sobre qual o seu chamado?

abril 17, 2017

Ortopraxia e Pagus/Polis

Um ponto que volta e meia andamos lendo nas redes sociais é a questão do "livro sagrado". Não, o helenismo não tem um livro sagrado como a bíblia cristã ou os vedas hindus ou o alcorão islâmico ou o torá judaico. A literatura de Homero e Hesíodo, a história de Heródoto e Tucídides, a filosofia de Sócrates e Platão, o teatro de Eurípides e Sófocles etc, tudo isso é literatura, história, filosofia e teatro, não é doutrina religiosa. Nem mesmo os mitos são essencialmente literais. Esses livros dos gregos apenas dão uma ideia de como os antigos envolviam os deuses em suas vidas, e não era uma coisa tal como uma religião separada. Como dizia Tales de Mileto, "o mundo está cheio de deuses", não fazia sentido limitá-los a uma espécie de manual. Eles faziam parte de todas as parcelas e momentos da vida.

Um texto com um código moral seria como uma "razão correta" (ortodoxia) a se seguir, e os helenos estão mais interessados na "prática correta" (ortopraxia). Não adianta conhecer um reto pensar sem um reto agir, ou - como diriam os cristãos - uma "fé sem obras". Quando Aristóteles orienta sobre a virtude ser um meio termo entre dois vícios, nós sabemos ilustrar o que ele está falando, nós conseguimos pensar em exemplos, é algo bem prático. A virtude da coragem está entre o vício do medo e o vício da temeridade/inconsequência. Não se pode nem se paralisar e nem se jogar sem pensar nas coisas. Ele também salienta que a busca pela "excelência na virtude" (areté) é adquirida com a prática. E esse seria o nosso objetivo, sermos o mais virtuosos possíveis.

Então, quando alguém comenta que não tem feito festivais, rituais, libações etc, como se não estivesse estabelecendo contato com o sagrado, essa pessoa precisa pensar que o mais importante são as ofertas atitudinais. Preservar a natureza em honra a Ártemis, fazer um curso em honra a Atena, praticar música dedicando-a a Apolo, chamar por Hermes no trânsito ou por Asclépio na doença, entre outras coisas, também são forma de exercer sua conexão.

Aprendemos com Salústio que os deuses não precisam de nada, que "O divino em si mesmo não possui necessidades e a adoração é feita para o nosso próprio benefício. A providência dos deuses chega a todo lugar e precisa apenas de alguma congruência para a sua recepção. Toda a congruência é alcançada através de representação e similitude [...]. De todas essas coisas os deuses não ganham nada; o que um deus poderia ganhar? É nós que ganhamos alguma comunhão com eles. Acerca de sacrifícios e outras adorações, porque beneficiamos o homem com elas, e não os deuses." ('Sobre os deuses e o cosmo', trechos 27 e 28) Ou seja, as ofertas comuns e as ofertas votivas - como as estátuas - são para nos lembrar e nos fazer sentir conectados com o sagrado, não são uma necessidade de conquistar um divino que se afete com coisas humanas. 

Assim, quando alguém igualmente diz que precisa estar na natureza para se sentir conectado às deidades, que não acredita em um politeísmo urbano, essa é uma questão bem mais pessoal de 'o que é que te ressoa mais ao coração' do que uma questão doutrinária do helenismo como religião da pólis que se "oponha" ao paganismo do pagus. E, como vimos no início, doutrinas e ideologias não cabem muito no nosso caso em que não somos orientados por textos sagrados. 

Ótimo se você encontrou na natureza uma forma de se sentir mais elevado espiritualmente, mas nada é regra. Há muita idiossincrasia numa prática, o que nos unifica é mais o objetivo, a busca da excelência e de sermos pessoas melhores. E o caminho para isso é parte pelo autoconhecimento ("conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses") e parte pelo equilíbrio da justa medida, o métron (do "nada em excesso"). Nada impede de você se sentir neopagão ou 'neopolita', o que vale é chegarmos ao mesmo lugar através daquilo que nos faz sentir melhor, do que nos deixa bem e com a sensação de dever cumprido. 

Há espaço para tudo e a natureza também não está aquém da intervenção humana. A cidade também a inclui e está inclusa nela. Vamos tentar apenas ser melhores humanos onde quer que nos inserimos.