15.5.16

Mais do mar

Postado por Alexandra Oliveira |

"Quando mergulhei no azul do mar,
Sabia que era amor e vinha pra ficar."
(Flávio Venturini / Ronaldo Bastos)

No feriadão do final de março, viajamos de barco para uma cidade próxima. Antes de essa viagem acontecer, o clima tenso entre a gente quase a cancelou, mas eu tinha certeza que seria uma viagem definidora. E me parece que foi mesmo. 

Saímos ao alvorecer, a lua ainda aparecia ao céu da manhã sobre o iate. Ida tranquila, ela dormindo ao meu ombro. Pousada linda, vista e comida ótimas. Lá, pegamos um barquinho para uma ilha aparentemente deserta, onde conhecemos uma senhorinha que mora ali e que tem dois celulares, página no facebook e tudo, rs, "sou conhecida internacionalmente". Voltamos no barquinho do velhinho marinheiro que já não tinha todos os dentes. Em outro momento, pegamos outro barco pequeno para ir ver a revoada dos guarás, que são pássaros cor-de-rosa. Vimos outros pássaros também, que me fizeram pensar em Afrodite. E vimos golfinhos, que me lembram Apolo e Dioniso. Dessa vez era um lugar longe, umas três horas de barco, e choveu, e ele encalhou, mas conseguimos sair e voltamos na chuva à noite, sob relâmpagos ao longe no horizonte - o que me recordava Zeus e Hera. Abraçada com ela à minha frente no barco, eu ia cantando canções de mar, especialmente a que diz "tenho os olhos no cruzeiro e as sereias como guia, e Netuno me protege noite e dia; e nem piratas nem borracas nem dragões vão me impedir de ser feliz..." (Kleiton e Kledir). Foi um dos momentos mais mágicos. Mas não parou aí. Quando retornamos para nossa cidade, pegamos um catamarã e, enquanto quase todos os passageiros iam embaixo na cabine, nós subimos para perto da vela e ali atravessamos, novamente sob chuva. 

Depois dessa viagem, a baixa maré poseidônica que ela vinha tendo parou, se tornou outra pessoa, relaxada, de bom humor. Em alto mar, ela se refez. E eu confirmei mais uma vez que os deuses olham por essa relação. Por mim. 

Hoje, quando olhei pra lua, crescente e brilhante à minha frente enquanto dirigia de volta para casa após uma boa noite com ela, me senti inspirada a escrever aqui. E depois a lua entrou numa nuvem escura, mas seu brilho realçava lindamente os contornos da nuvem, e a lua estava acompanhada por uma estrela mais ao alto a seu lado, provavelmente Vênus. 

Possivelmente eu escreveria mais detalhes se tivesse escrito antes, mais perto de quando aconteceu, mas no final de abril comecei a entender por que ainda não tinha sentido essa vontade. Eu precisava contar outras sincronicidades interessantes. Por exemplo, sabe o que ela me deu de aniversário? Um aquário com um peixe beta. Eu na hora não me empolguei porque tenho pena de peixe em aquário e pássaro em gaiola, mas depois me arrependi de não ter demonstrado ânimo, pois foi um presente caro e bem a cara dela. Tudo bem que tinha que ser era a minha cara, mas a intenção foi compreensível. 

Dia desses sonhei que estava com ela e sentia algo no meu bolso, puxava para fora e era um colar de contas de preces com um cisne no meio, ao que no sonho eu entendo como sendo de Afrodite, e não sabia quem tinha colocado aquilo ali. No dia que sonhei isso, fui recitar hinos e cantar na beira do mar, e uma das fotos que tirei da minha sombra na espuma ficou super afrodítico "da espuma do mar". Quando voltei para a calçada, estavam dois pombos um em cima do outro, perto do meu carro. Isso me fez lembrar que ontem ela perguntou onde estavam "os passarinhos" (pombinhos de cerâmica) que ela mexeu, ainda estavam onde ela deixou (no altar a Zeus e Hera). E outro dia sonhei com Dioniso, eu o interpretava e dançava. Comecei a notar coisas dele que se incluíram nos nossos dias também. Enfim, meus sonhos com os deuses vêm voltando a ser mais frequentes.

O que eu retiro de reflexão dessas coisas que são aparentemente mundanas no nosso cotidiano é que elas também refletem a ação dEles. Como diz a música, "tudo o que move é sagrado", "sim, todo amor é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado". Há que se perceber os sinais e encontrar as sincronicidades, aprendendo a prescrutar as coisas pelas quais devemos agradecer, em tudo. Até no que parece banal ou subjetivo. 

Só sei que as marés, apesar de continuarem subindo e descendo, estão mais tranquilas. Ou então fui eu que ganhei habilidades com a prática, porque, como dizem, "mar calmo não faz bom marinheiro". Fico contente de estar sabendo conduzir minha nave por águas tão bonitas...


6.3.16

Marés Poseidônicas nos meus dias

Postado por Alexandra Oliveira |

Em novembro de 2013, escrevi o único post sobre Poseidon deste blog (veja clicando aqui). Uma postagem que não se concluía devidamente, pois eu não tinha as respostas dos motivos para senti-lo tão presente na época. Ao menos não teleologicamente (ou seja, o "para quê" eu estava sendo abordada por Ele). Dois anos depois, novembro de 2015, conheci alguém. Logo estávamos saindo, e passamos o fim de semana do ano novo juntas, quando, a 3 de janeiro, começamos a namorar. Afrodite teve muita participação nisso, fazia ritos a ela para me auxiliar, ainda mais por que o começo foi conturbado. A pessoa que os deuses me enviaram era meio controladora, cheguei a pensar que teria algo de Zeus nela, leonina, cheia de si, líder no trabalho... 


Então, um belo dia, eu sonhei com Poseidon. Uma estátua dele em tamanho humano, no meu quarto, se mexia e eu sabia que só eu conseguia ver minhas estátuas se mexendo. Ele sorria para mim com um olhar doce, e eu colocava a mão na sua coxa, e desejava ele. Eu pensava como era bom ver esse lado leve e simpático dele, não só o de sacudidor de terras e maremotos que tudo derruba. Acordei sem entender o sonho, mas contei para um amiga e ela prontamente: será que "ela" não é de Poseidon? Eu em nenhum momento tinha pensado nisso, mas acabou fazendo todo o sentido. O lado amoroso do sonho era para mostrar que se tratava do meu relacionamento, pois o olhar e o sorriso dele eram como os dela. E aí as peças foram se encaixando. Não era Zeus - que inclusive se confunde muito com Poseidon. 

Vou falar primeiro dos aspectos físicos: os hinos homérico e órfico sobre Poseidon o descrevem como de belos cabelos escuros (ela os tem), a primeira vez que nos beijamos foi depois de ficarmos diante do mar, ela acha lindo cavalos (já cavalgou kms), ela tem um pingente de prata que dei para ela no formato de um peixe (como ela queria), ela usa um desodorante de 'minerais do mar', ela adora camisas listradas de azul e branco (tipo marinheiro), um dia eu botei um pendrive no carro com várias bandas quando estávamos namorando e ela voltou várias vezes na mesma música "Oceans" do coldplay, quando assistimos Horas Decisivas no cinema - um filme no mar - ela apertava minha mão nas horas de maior tensão (tipo quando as ondas cobriam o barco), entre outros exemplos que talvez eu não me lembre no momento. 

Agora vem o que mais pesa: os aspectos psicológicos. Primeiro: Poseidon, como a carta da Torre no tarô, vem para sacudir as estruturas, derrubar as fachadas, fazer a gente se reconstruir. Eu vinha de um longo tempo de luto, sem sair tanto de casa, agora saio quase todo dia. Segundo: os terremotos e tensões poseidônicas, que vêm em ciclos, são constantes nela e no nosso relacionamento, o que eu comento com minhas amigas como "as marés poseidônicas". Uma hora ela está super destruidora, me assustando, na outra está totalmente entregue, me conquistando. Sabe aquela frase da Marilyn Monroe "se você não consegue lidar com o meu pior, você não merece o meu melhor"? Pois é, todas as tensões que ela me causa quando joga água em cima de mim são compensadas pela beleza do oceano e pelas brisas marinhas que impulsionam meu barco na calmaria. Ouço dela tanto coisas muito duras quanto coisas muito lindas. O "uau, ela disse isso?" caberia para os dois extremos se eu lhes contar. E as coisas duras, de certa forma, fazem a gente crescer. 

 [ Como citei no post linkado acima, "A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes." ]

O mar é variável, então está muito ligado a mudanças. Uma das mudanças que tenho experimentado é no meu visual. Cortei o cabelo, repaginei meu guarda-roupa... aumentei minha auto-estima, diminuí minha insegurança. No post anterior, citei que a psicologia arquetípica falando do mar menciona que 'Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.' É bem isso o que vem acontecendo.

[imagine um casal Zeus - Poseidon, rs] 

Os amigos dela não entendem como a aguento, mas eles só conhecem o lado poderoso e imponente do mar (e da leonina), eu conheço o lado que mostra a sorte que tenho de estar nesse reino de benesses e nascentes transformadoras. A minha calmaria, paciência e determinação taurinas ajudam muito a enfrentar os tsunamis, e a paixão antiga que gerações da minha família têm pelo mar deve ajudar também.  

Outra coisa curiosa é que faz tempo que não tenho sonhado mais com o mar cobrindo o lugar onde eu estava, e esses sonhos eram sempre uma constante. Talvez isso também confirme que eles anunciavam este ciclo que agora veio. Só me resta agradecer e honrar a oportunidade. Espero que ela não passe rápido como uma onda, e sim que ancore e se estabeleça como um tesouro submarino. 

24.12.15

Dioniso nestas datas

Postado por Alexandra Oliveira |

Há alguma evidência de que o nascimento de Dioniso fosse celebrado antigamente por volta do solstício (próximo a 25/12)? Vamos ver? 
No Panárion (Gr. Πανάριον), um tratado sobre heresias cristãs, escrito por Epifânio (Epiphanius; Gr. Ἐπιφάνιος) [315-403 EC aprox.], bispo de Salamís (Gr. Σαλαμίς), há uma passagem curiosa com relação ao 6 de janeiro, sendo esta data a festa cristã da Epifania (Gr. Ἐπιφάνεια, na antiguidade Teofania: Θεοφάνεια). Epifânio afirma que o nascimento de Jesus de Nazaré aconteceu nesse dia (mais tarde, a palavra Epifania passou a se referir ao Dia de Reis, mas aparentemente nessa época ela se referia à Natividade). Epifânio continua dizendo que, nesse mesmo dia, os pagãos estavam celebrando grandes festivais em várias localidades, e que na Alexandria havia uma festividade no templo de "Kóri" (Core ou Kore; Gr. Κόρη) ao alvorecer, celebrando o nascimento de "Aióhn" (Aion ou Aeon; Gr. Αἰών) por Kore. Aion é um Deus que é identificado com várias deidades, uma delas sendo Dioniso (Guthrie, W.K.C. A History of Greek Philosophy: The Earlier Presocratics and the Pythagoreans. Cambridge University Press, p. 478), assim como Osiris (Σοῦδα), que é normalmente identificado pelos gregos antigos como Dioniso. Epifânio continua dando exemplos, que em Pǽtra (Petra; Gr. Πέτρα), no mesmo dia, eles celebravam o nascimento do "filho do legislador de tudo" com uma virgem. Isso tudo pode ser encontrado no Panárion 51.22.3-11. 
Macrobius escreve no Saturnália (I.18.9-10) do século IV EC, equiparando Dioniso com o sol: "...algumas imagens do pai Liber estão representadas na forma de um garoto, outras de um jovem homem, às vezes também barbado, ou mesmo mais idoso... Mas as diferentes idades são para serem entendidas com referência ao sol. O sol é muito pequeno no solstício de inverno, como a imagem que os egípcios trazem de seu altar numa data fixa, com a aparência de uma criança pequena" (Macrobius Saturnalia Books 1-2, trans. Robert A. Kaster, 2011, LCL 510, Harvard Univ. Press [Cambridge MA and London England], pp. 249-251). 
O solstício é no dia 21, mas nos tempos antigos o minguante era para ocorrer vários dias depois, tipo no dia 25. E por que temos o 6 de janeiro dado por Epifânio? Podemos resolver isso como segue: "Com relação às datas, Norden demonstrou que a mudança de 6 de janeiro para 25 de dezembro pode ser explicada como resultado da reforma introduzida pelo calendário mais acurado de Juliano, usando o cálculo egípcio antigo que determinou 6 de janeiro como a data do solstício de inverno” (Greek Myths and Christian Mystery by Hugo Rahner, 1971, Biblio and Tannen [New York], p. 141). 
Aion é uma deidade identificada com Dioniso nos ensinamentos do Orfismo. Essa identificação é corroborada nesta citação das notas de um livro de Vittorio D. Macchioro: "Aion era filho de Kronos (Euripides: Heraclidai, 898), ou seja, idêntico a Protogonus de acordo com a teogonia de Hellanikos (Kern, p. 130, 54; p. 158, 85); mas Protogonus, Dioniso e Phanes eram idênticos (Aristocriton Manichæus: θεοσοφία 116, 15, Buresch; = Kern, 61). Erichepaius era idêntico a Dioniso (Hesychius: Ἠριξεπαῖος; Proclus: In Platonis Timœum, II, 102 D, E; = Kern, 170); Phanes com Erichepaius (Hinos Órficos, VI, 9). Protogonus era um dos nomes de Phanes (Damascius: Quœstiones de primis principiis, III; = Kern, 64) e de Erichepaios (Proclus: no Timeu de Platão, 29A; = Kern, 167); Phanes era Aion (Proclus: no Timeu de Platão, E; = Kern, 107). Uma inscrição de uma estátua de Aion em Eleusis (Dittenberger: Sylloge Inscriptionum, 3ª ed., 1125) confirma uma afirmação sobre a identidade de Phanes (Dioniso) e Aion. Aion era filho de Kore, ou seja, a mãe de Dioniso (Epiphonius: Panarion, 51, 22, 8-10). Epiphonius confunde a Deusa Kore com a Virgem, devido ao significado da palavra grega ϰόρη (de ORPHEUS TO PAUL: A History of Orphism by Vittorio D. Macchioro, 1930, Henry Holt and Co. [New York], pp. 251-252, nota 22.)  
Podemos seguir a sugestão moderna do festival dos Doze Dias Dionisíacos, começando dia 25 até o dia 5, e chamá-lo de Vakkhoyǽnna (Bacchogenna), genna significando nascimento + Baccho (Baco, Dioniso). Na antiguidade, existiam vários festivais nessa época. Esta é a estação brumal (inverno) e, por alguma razão, parece que essa época pertence a Dioniso, indo até a Anthesteria (festival das flores). Não tenho certeza por quê, mas talvez tivesse algo a ver com ele assumindo o trono em Delfos, o centro do mundo, no inverno. 
(texto de Kallímakhos, tradução de Alexandra) 

13.9.15

Ofensa e Purificação

Postado por Alexandra Oliveira |

No último mês, dois rapazes coincidentemente vieram me perguntar sobre estatuetas quebradas acidentalmente, as quais haviam tentado consertar, mas temiam estar cometendo alguma ofensa ou miasma mantendo-as assim no altar. Analisando ambos os casos, vimos que não havia problema. Então acredito que a dúvida pode ser compartilhada aqui, acrescida de outros exemplos sobre essa questão do que é ou não ofensa. 

Claro que há situações em que existe sim uma ofensa, como a de Hipólito a Afrodite ao desprezá-la, a de Niobe a Leto ao se achar melhor do que ela, entre outras. E claro que, antes de rituais e ofertas, deve-se pelo menos lavar as mãos, se possível tomar banho e vestir roupas limpas: 
"Nunca verta uma libação do cintilante vinho a Zeus depois da aurora com mãos não-lavadas, nem a outros dos deuses imortais; senão eles não só não ouvirão suas preces como também as cuspirão de volta." (Hesíodo, 'Os Trabalhos e os Dias', verso 724ss)
“...além disso, eu tenho pavor de com mãos não-lavadas verter libação do ardente vinho a Zeus; nem deve um homem sábio fazer preces ao filho de Cronos, senhor das nuvens escuras, todo sujo/coberto de sangue e imundície." (Homero, 'Ilíada', VI, 265ss)
"Ela então se banhou, e colocou vestes limpas no corpo, e subiu para a câmara superior com suas criadas, e - colocando grãos de cevada em um cesto - fez preces a Atena." (Homero, 'Odisseia', IV, 749ss)

Em primeiro lugar, tenham em mente que os grandes miasmas são do tipo morte, sexo, vícios, crimes, hybris, calamidades, pragas, epidemias, injustiças, impiedade etc. São coisas que perturbam a lei natural e mudam a ordem da vida, como o contato com agentes estranhos, com nascimento, com morte, com crime, com lugares violados, ou com o resultado de ações que desagradaram aos deuses. Em segundo lugar, lembrem que miasmas podem ser purificados pela catarse. O próprio lavar as mãos e tornar a água lustral é um exemplo. Você pode se purificar com água, purificar o ambiente com incenso, expulsar agentes de miasma com aspersão e palavras, purificar a alma com música e dança, e fazer rituais específicos de purificação nos festivais (Diasia, Thargelia etc). 

Ou seja, não há motivo para deixar o medo da ofensa lhe paralisar

Quando li os dois casos da estatueta, considerei o ato não-intencional ser sinal de que a deidade estava lhes defendendo de alguma coisa ruim, mas se a rachadura foi pequena ou pôde ser consertada, isso demonstrou o cuidado do devoto, e não havia por que jogá-la fora ou tirá-la do altar. Impiedade é não ser pio, não ser devoto, e em ambos os casos eles foram pios ao se preocuparem com o caso, não houve miasma de impiedade ou ofensa. Uma estatueta pôde ser consertada, outra ficou com o que chamei de "cicatriz de batalha", mas nada que desabone a presença dessas ofertas votivas no altar.

De qualquer forma, na dúvida se algo gerou ou não miasma, faça uma catarse/purificação. Mas não fique impedido ou desanimado de fazer as coisas por temer retaliações. Cada caso pode ser diferente do outro, mas nenhum é irreversível. 

Esta semana eu utilizei meu pirógrafo para fazer uma gravura que não era dos deuses. Eu não me lembrava se tinha ou não consagrado o pirógrafo para trabalhos devocionais, mas mesmo assim o usei. Antes de terminar, ele esquentou tanto que derreteu o botão e quebrou. Levei minha bordoada (inclusive financeira), pois tive que encomendar outro. Mas é isso, aprendi e assim seguimos em frente. Se não erramos, não aprendemos.

Em suma, não deixe de lavar as mãos antes de fazer ofertas ou ritos, purifique-se após o contato com coisas geradoras de miasma (mesmo que em dúvida se são ou não), observe as consequências das coisas para aprender com elas e, no mais, não fique paralisado pelo medo de ofender. 

Há males que vêm para o bem, como algo que quebra para afastar coisas piores, ou como precisar comprar uma máquina de pirografia melhorzinha e novinha, rs. Mantenha-se centrado e busque o equilíbrio, o resto se ajeita. 

24.7.15

Kronos

Postado por Alexandra Oliveira |


Na Era de Ouro regida por Cronos e Réia, não havia trabalho laborioso nem opressão, e as pessoas eram imortais. Antes da ordem trazida por Zeus o mundo era caótico. O festival da Krónia, por exemplo, celebra a igualdade e a liberdade irrestrita. Mas Cronos foi atado a Hélio por grilhões de aço. Assim, Cronos representa tanto a longevidade (da idade do Ouro) quanto o sofrimento (do tempo que ceifa). 

A longevidade é parceira do sofrimento. Tudo o que vive, enquanto vive, pode sofrer. Choramos ao nascer, sentimos dor ao envelhecer, ficamos doentes e morremos. Tudo o que se experimenta entre o nascimento e a morte faz parte do tempo, e Cronos sabe o tempo certo de cada coisa. Quando ele ceifa algo, ele pega essa colheita e distribui, seja na mesma vida ou na próxima. Essa distribuição faz parte da igualdade que experimentamos na Krónia, onde escravo e senhor celebram juntos. 

Cronos ensina o desapego e a resignação. Só nos libertamos do sofrimento quanto passamos pelo próprio sofrimento e aprendemos com ele. Só ficamos vacinados contra um vírus quando injetam um projeto de vírus antes na gente. No combate direto é que ficamos imunes. Esse desapego não é só das coisas materiais externas, mas também do nosso próprio corpo. Sofremos para nos desapegar, para percebemos que tudo no mundo é efêmero, e nos libertarmos. Cronos nos ensina a saber renunciar e a morrer para o mundo, só assim nos aproximamos de como se vivia na Idade do Ouro e se tem a longevidade do espírito, da alma, da mente, da consciência, enquanto o físico muda e perece.

Por isso que na Krónia costumamos pedir que Ele nos mostre uma forma de liberdade (seja financeira, de relacionamento, ou em que outra área for) e que nos ajude a sair das adversidades. Não é por carregar a foice que podemos comparar Cronos com a figura da Morte de uma forma negativa, e tomá-lo como alguém a ser temido, com quem não deveríamos mexer. Mesmo os Titãs têm suas funções necessárias à manutenção dos planos dos Destinos e à realização do daimon de cada ser humano. 

Então, um bom festival da Krónia a todos!
 

28.6.15

Patronato parte 4

Postado por Alexandra Oliveira |

Do texto "Patron Gods & Polytheism" de Ian Corrigan, com tradução resumida e adaptada minha:

Na minha opinião (Ian), a ideia de que os praticantes individuais tem dos deuses 'patronos' entra no neopaganismo através de duas ou três direções. Primeiro, do costume cristão ortodoxo de recebermos um santo padroeiro no batismo. Isso não parece ter raízes pagãs, mas está arraigado na imaginação ocidental. Segundo, das práticas de patronagem das Religiões Tradicionais Africanas no novo mundo. Costumes como a cerimônia vodu haitiana do "lave tet" e o "coroamento" da santeria (semelhante ao candomblé) apresenta ao cultuador como sendo naturalmente e intrinsicamente alinhado com um dos Poderes daquele sistema. O iniciado determina, através de adivinhação e ritual, quem é o 'Deus de Cabeça' e ritualmente reconhece esse relacionamento. O espírito (ou orixá) então se torna seu 'deus' pessoal de trabalho do iniciado, embora ele ou ela possa interagir com muitos outros espíritos.

Um dos problemas ao traduzir estudos sobre as religiões antigas para trabalhar no culto moderno é determinar quais dos inumeráveis Seres Sagrados devem receber nossa atenção. Nos aproximamos de um panteão étnico, fazemos nossas leituras, e começamos a fazer ofertas. Os antigos devem ter tido esse problema também, e podemos perguntar como eles resolviam isso. O foco em deidades específicas parece ter vindo de várias direções – talvez especialmente de família e casta, de profissão e de localização. Todos esses podem nos dar algum guia para nossas escolhas modernas, embora estejamos em desvantagem pela cultura que nos cerca não ser politeísta. Não iremos herdar os deuses da família, nem ter deidades locais cujos festivais sejam norma da comunidade. Mas ainda podemos tirar alguma referência da nossa carreira e escolhas artísticas na vida, e é isso o que muitos fazem hoje em dia.

Quando eu (Ian) comecei, eu me fixei na ideia do patronato, da pessoa escolhendo ou sendo escolhida por uma deidade específica que se tornaria a deidade do seu altar, da sua casa, do seu trabalho... Experimentei métodos drudas com roteiros e materiais me guiando, mas em alguns anos os problemas com aqueles modelos se tornou óbvio. Primeiro que o método era avançado demais para novos alunos, que desconheciam sobre meditação e rituais. Segundo que alguns praticantes se apegavam ao modelo e estancavam naquilo, tendo o tipo de resultados que podemos imaginar: se tornavam reais devotos de uma deidade em particular, como uma espécie de henoteísmo, com pouca vontade de cultuar os outros deuses além do patrono - e isso era inconsistente com o que conheço de politeísmo.

Isso é típico de espiritualidades auto-orientadas. A maior diferença entre nós e os sistemas das Religiões Tradicionais Africanas é a maneria pela qual os patronos são escolhidos. Nesses sistemas, isso é feito por uma autoridade externa – pela adivinhação de um sacerdote. A decisão é amarrar o iniciado independente de como ele ou ela "se sente" com o resultado. Eu entendo que mudanças e correções não passam despercebidas, mas em geral o fato é que esse patronato é imputado, não escolhido.

Não conheço nenhum sistema neopagão que esteja pronto para administrar tal coisa. Os sistemas divinatórios druídicos geram apenas indicações de vários deuses e espíritos como orientação de curso. Não tem um sistema fixo assim no ocultismo ocidental ou mesmo no paganismo. E mais, não há nenhuma linhagem ou fonte de autoridade aceita que poderia tornar as pessoas dispostas a aceitar a decisão de uma outra.

Depois de talvez meia dúzia de anos trabalhando com o modelo original, os druidas da ADF formalmente mudaram a natureza do requerimento. Em vez de prescrever a patronagem, começamos falando sobre o desenvolvimento do culto no lar. Assim focamos nas práticas primeiro, e a exigência de ter um patrono conhecido foi retirada. Essa história da ADF reflete o desenvolvimento da ideia do patronato na comunidade pagã em gearl. Ainda há um verdadeiro movimento de devoção henoteísta, mas essa exclusividade de cultuar só os patronos não reflete a prática da maioria dos politeístas tradicionais.

É necessário um equilíbrio entre intimidade e utilitarismo. Nós desenvolvemos alianças e amizades entre os espíritos através de um longo e focado trabalho. Nosso 'culto doméstico' é uma impressão única da nossa história e expressão espirituais. Muitas pessoas mantêm um relacionamento central com bem poucos deuses por muitos anos. Porém, para novos estudantes, há frequentemente um período de transição, e um sentimento de ser 'passado' de um deus pro outro.

Nenhum método formal de assegurar a patronagem se tornou aceito por todos no politeísmo moderno, e nenhum método adivinhatório ou autoridade sacerdotal apareceu também. Ainda assim, o assunto da patronagem continua a nos permear. Muitos novatos perguntam "como descubro meu patrono?" e alguns graus de confusão ainda existem. Claro que muitos chegam de sistemas religiosos que já possuem suas regras e aí se deparam com a noção de que estão livres para fazer como quiserem. A partir desse momento, podemos apenas dar algumas dicas, tais como:

• Seu caminho é só seu, mas o progresso é mais fácil em caminhos sinalizados. Escolha um sistema e trabalhe nele por pelo menos um ano, de preferência três. Ele vai se adaptar com o tempo, mas comece com um esboço.

• Escolha uma ou duas culturas antigas nas quais focar sua leitura e experiências. Comece, talvez, com as descrições dos deuses nos mitos, mas esforce-se para ler sobre os modos antigos de vida, ouvir a música daquela cultura etc.

• Monte um altar e comece a cultuar. Os espíritos não costumam falar com você ao menos que você fale com eles antes. Há muitos lugares para encontrar instruções em como começar. Se você está em dúvida de para quem fazer ofertas, há vários modelos de ofertas gerais a um panteão. • Abra seu coração. Trabalhe em habilidades meditativas e deixe as ideias das suas leituras e trabalho-ritual permearem isso. Nem todo mundo se volta para um deus específico tão rápido. Coloque muitos deuses daquela cultura no seu altar, os que você quiser, e trabalhe com eles enquanto estuda.

• Se você se ver com uma inclinação óbvia para um deus ou espírito, vá em frente. Resista à exclusividade, mas permita uma ênfase, e observe seu coração e os indícios/sinais. Use adivinhação também.

• Não resista à mudança, mas não confunda um interesse momentâneo com um chamado. Uma vez que você estabelece trabalhar com um aliado, mantenha isso mesmo se começar algo novo, tudo de acordo com o seu entendimento, claro.

• Depois de um ano ou três desse tipo de trabalho, é provável que você tenha um senso de quais deuses estão no centro da sua constelação pessoal de culto. Depois de mais uns nove anos, as coisas podem ser ou não diferentes. Não se preocupe, nosso trabalho muda de forma como a margem de um rio. Você já viu uma, né?

Uma coisa que me agrada é que muitas religiões neopagãs estão experimentando várias abordagens e mudando e respondendo aos resultados desses experimentos. Que continuemos assim! Ergam seus altares!
( http://www.patheos.com/blogs/intothemound/2015/06/patron-gods-polytheism.html )


A minha intenção ao trazer esse texto do site do Patheos é - além de reforçar a questão do politeísmo x henoteísmo (ou duoteísmo) - também porque há pessoas que estão indo buscar respostas sobre o patronato em sistemas africanos que sincretizam com o helenismo, e isso não é bom, porque são dois sistemas sendo misturados. Fora que "oráculos" afros podem errar seu "orixá" - já escutei histórias assim, e no helenismo o patrono se descobre, não se impõe, quem te conhece melhor é você ("conhece-te a ti mesmo"). Como o autor fala no primeiro item dos marcadores, "escolha um sistema e trabalhe nele". Decida se você vai ir pelo reconstrucionismo ou por outra abordagem. Misturar só pode complicar as coisas, ainda mais para quem está no começo. 

O ideal é centrar no culto doméstimo, na prática por alguns anos, depois você vê se foi criado ou não um relacionamento de patronato, o qual nem sequer é obrigatório. As pessoas que chegam no politeísmo sem um 'background' de ter "santo padroeiro" ou "orixá de cabeça", elas não costumam sentir falta de ter patronos, e isso de certa forma é bom. 

Apesar de termos feito quatro postagens sobre o patronato, no fundo o fizemos justamente para retirarmos essa preocupação com a patronagem, para mudarmos nosso foco para algo mais politeísta mesmo. Se não existe uma resposta fixa sobre patronato no nosso sistema, deve ser justamente porque ela não seja tão fundamental. Não é para buscar em outro lugar, e sim para ficarmos mais abertos a um número maior de deuses. Como o autor diz, "essa exclusividade de cultuar só os patronos não reflete a prática da maioria dos politeístas tradicionais". Então espero não precisarmos ter mais ansiedades com relação a essa questão... (mas, se você ainda tiver, pode nos chamar pra conversar).

;)

27.6.15

Pelo amor e pelo afeto

Postado por Alexandra Oliveira |

Falando como alguém que tem estado próxima a Atena e Ártemis, e em concordância com muitos mestres espirituais de várias culturas - que dizem que a prática do sexo alimentaria o nosso apego aos prazeres materiais e que precisamos canalizar nossa energia sexual para algo mais sublime -, venho aqui defender o afeto. Qualquer prática sexual (homo ou hetero) poderia complicar a vida espiritual sim, mas não podemos dizer o mesmo sobre o amor. A homoafetividade não atrapalha em nada a vida espiritual (a heteroafetividade também não). E tenho certeza de que o desrespeito, a discriminação e o ódio, esses sim são bem mais prejudiciais à realização da excelência. 

Os hindus falam de três modos da natureza: o modo da ignorância, o modo da paixão e o modo da bondade. Ora, é fato de que as pessoas que discriminam, sentem ódio e preconceito, estão no modo da ignorância, o que é bem pior do que estar no modo da paixão (com os desfrutes diversos do nosso apego aos prazeres, sejam eles de que orientação forem). E, se é difícil vivermos sob o modo da bondade, se já vamos mesmo nos envolver em algo que nos distraia da caminhada espiritual, se vamos ter uma vida sexual ativa, então que seja com alguém com quem temos afeto, com quem amamos de verdade. É melhor e mais evoluído estar no modo da paixão do que no da ignorância que acha que o 'eu' é separado do 'outro'. Essas pessoas preconceituosas estão mais longe da iluminação do que as pessoas movidas pelo desejo ou pelo simples afeto por quem quer que seja.

A conquista destes últimos dias trata do casamento igualitário, do direito que as pessoas têm de registrarem que se uniram afetivamente a quem elas amam. Se depois disso elas vão pra cama e o que elas fazem em quatro paredes é indiferente para os outros, só diz respeito a elas. Isso é algo que o povo do modo da ignorância precisa entender. Nenhuma religião pode pregar contra o amor e o afeto. E nenhuma também deveria se intrometer na vida íntima, já que o caminho evolutivo é pessoal, mas, ainda assim, se vão pregar contra algo, que seja contra o sexo em geral, não contra o afeto LGBT. ("Ah, mas é que dois iguais não procriam" já não é desculpa, os diferentes que são estéreis ou esterilizados também não procriam e ninguém faz marcha contra eles.) 

Alguns podem querer vir aqui dizer que o sexo é a expressão do amor, mas no fundo vocês sabem que não é bem assim. Já estive sexualmente envolvida com pessoas que eu jamais amaria, assim como acredito que a maior intimidade não é ficar nu diante do outro. Provavelmente é mais íntimo um/a amigo/a que dormiu comigo num acampamento - com quem nos deixamos estar inconscientes e entregues ao lado, sem saber se iremos falar algo, se iremos roncar, se vai cortar nosso cabelo ou nos matar, se vai nos deixar sozinho e sair correndo caso aviste uma cobra - do que um/a 'peguete' de uma noite física com duas pessoas despertas que mal sabem o nome um do outro.

Por isso que às vezes podem achar que jogo um banho de água fria quando alguém vem me pedir que eu realize o casamento deles após poucos meses que se conhecem. Mas me parece que só acham isso no início, depois entendem que eu os fiz refletir sobre as razões de quererem se casar. Qual a idealização que se fez daquela cerimônia, em termos de mudança de vida? É uma celebração do amor ou é uma garantia de posse ('meu' marido) e uma expressão de apego a alguém que lhe desperta desejo? Independente de hetero ou homo, o afeto deve prevalecer. Não sou contra o casamento, mas como orientadora espiritual eu não posso deixar de instingar as pessoas a refletirem sobre suas motivações. No entanto, se mesmo sabendo que é apenas desejo físico, ainda assim quererem se casar, elas têm esse direito. 

Tenho observado que meus contatos das redes sociais que são espiritualizados são os que mais apoiam a causa da diversidade sexual. Porque aqueles que, apesar de religiosos, não são evoluídos espiritualmente, vão estar se apegando à "heresia da separatividade", no modo da ignorância, e combatendo o direito que o outro tem de ser diferente dele.

Portanto, se você se acha religioso e ainda acha "errado" o amor, ou chama de "modinha" a defesa aos direitos igualitários, repense suas atitudes, e aprenda a não julgar o afeto, que em nada se relaciona com os "prazeres da carne" e sim com o movimento de dirigir sua ternura a outra alma que lhe é complementar. 

Se abandonar o apego material é difícil, ao menos abandonemos o ódio e fiquemos no meio-termo entre a ignorância e a bondade, tentando vencer nossas paixões aos poucos, mas sempre com muito respeito.

E possamos celebrar o orgulho de termos conseguido avançar nesse caminho.



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