20.10.13

Diálogo sobre o Daimon

Postado por Alexandra Oliveira |

J - Olha, falando de daimon de novo, cada vez mais começo a crer que pros arcaicos e clássicos não havia a ideia de daimon como a concebemos, e o tão famoso daimon de Sócrates é, na verdade (assim como em todos os outros casos), uma menção à sensibilidade a uma divindade da qual não se sabe o nome. Daí, pra não atribuir erroneamente a nenhuma divindade x ou y a ação, eles dizem que um daimon/nume os inspirou, agiu sobre eles.
A - Mas mesmo pra eles eram várias as concepções, né?
J - Então, no que temos de documentos literários, não. Daimon refere-se sempre a uma divindade desconhecida que age sobre algo/alguém. Isso, repito, no arcaico e clássico. Agora, se posteriormente associou-se a uma ideia de "anjo da guarda", não sei.
A - Vejo o "agathos daimon" como diferente do "daimon".
J - Mas o agathos daimon é pessoal?
A - O agathos daimon não acho, acho que é tipo uma deidade que às vezes associam com Zeus Ktesios.
J - Então...
A - Já o daimon eu veria como mais pessoal.
J - Porque assim como há o “agathos” daimon, há referencia a “kakós” daimon. 
A - Pois é, também por isso que não vejo como pessoal.
J - Mas assim, o daimon tem algo de pessoal, mas não algo de intimo. O daimon é uma divindade que age sobre um indivíduo ou comunidade, nem sempre é o mesmo daimon. Digo, não existe UM daimon que é "propriedade" de um individuo. Nesse sentido, seria mais ou menos como o anjo da guarda quando considera-se, por exemplo, que ‘n’ pessoas são protegidas de São Miguel, mas não é um anjo diferente pra todo mundo, sabe? Tem uma gama que pode reger/agir sobre.
A - Sim.
J - O Burkert fala algo sobre isso? (ainda não consegui lê-lo)
A - O Burkert, do agathos daimon fala da forma de serpente, e fala dos daimones comuns que Hesíodo cita serem os homens da raça de ouro que cuidam dos mortais e dispensam riquezas, continuando invisíveis; só se veriam seus atos, mas os pitagóricos afirmavam poder ouvi-los e vê-los.
J - É, eu iria acho que nesse sentido do Burkert também.
A - Ele também fala do daimon tipo quando, na Ilíada, Afrodite aparece para Helena como 'daimon' e um herói era 'como um daimon'.
J - É, algo numinoso/divino.
A - E tem a versão de Heráclito, que diz que o propósito de um daimon é direcionar-nos na Terra para um parentesco nos Céus, tipo uma 'planta do divino' na Terra. Platão fala dos daimones como intermediários entre deuses e homens, 'intérpretes e balseiros', mensageiros. A visão de Aristóteles é semelhante à de Platão. A de Xenócrates também, tipo almas na esfera divina abaixo da lua, mas no caso dele os daimones seriam afetados por coisas ruins, tipo sofrimento, trazer doenças e tal.
J - Quase espírita essa visão, rs.
A - Um tal de Epinomis divide um sistema dos cinco elementos, aí os semideuses seriam de natureza aquática, e os daimones de natureza aérea, sempre invisíveis.
J - Nossa... Mas ainda assim nada como individuais de cada humano, né?
A - Eu acho que a visão individual é parecida com a de Heráclito. Quando Burkert fala de Heráclito, ele diz que "o poder da compreensão intelectual é plantado como algo divino, um daimon, em um homem". Tipo o caráter da pessoa, a postura que vai diferenciá-lo. "Cada alma tem sua própria estrela da qual veio e para a qual retornará".
J - Entendi.
A - Quando o psicólogo James Hillman fala de daimon, é nesse sentido de uma coisa que você veio realizar, a semente de carvalho que vira o carvalho, você realizar o seu daimon. Ele mesmo afirma que pega muito de Heráclito.
J - Não conheço ele.
A - É num livro chamado The Soul Code, que foi traduzido como O Código do Ser. Ele dá exemplos de pessoas que desde pequena demonstravam pra que vieram ao mundo, rsrsrs. É meio motivacional até, você se anima em querer 'realizar seu destino'.
J - Hehehe, eu ainda to processando isso. Esse lance de não ter um "anjo da guarda", um intermediário, e nem mesmo um destino predeterminado como objetivo, me soam mais coerentes.
A - A de serem os homens da idade do ouro? Ou de serem deidades?
J - As duas, nesse sentido até calham, porque os homens da idade de ouro são ancestrais.
A - É.
J - Porque a gente não vê representações desses ditos daimons.
A - E aí até dá pra adaptar, dizer que são anjos da guarda 'comunitários'.
J - Rsrs, sim. Agora q estamos tendo essa conversa, confesso q me afastei um pouco também por conta dessas indefinições que pairam. Depois que comecei a faculdade, comecei a ver outras visões, que também faziam sentido e ainda to processando.
A - Quais outras visões mais você viu do daimon?
J - Só as nossas e, com a facul, essa que discuti com você.
A - Posso fazer um post sobre essas possibilidades que o Burkert cita e as nossas considerações, e postar no sofá dizendo que surgiu da nossa conversa?
J - Claro.

(Bom, resolvi postar o diálogo em vez de transformá-lo em um texto, para ficar mais fiel. Aproveito e mando um beijo a todos os que me procuram para falar desses assuntos lindos, divinos e numinosos.)  rsrs

Pietro da Cortona - "A Era Dourada"

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