Mostrando postagens com marcador sacerdócio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sacerdócio. Mostrar todas as postagens

agosto 09, 2026

O tordo e o todo

"Day one, day one. Start over again..." (Alanis Morissette)

 Bom, vamos lá!

    Ontem foi o que chamam de um portal, pelas datas repetidas (08/08). No dia anterior, consertei algumas coisas, imprimi as partituras que cantarei no coral este semestre e comecei a trabalhar num artesanato que terminei ontem. Na manhã do sábado, banhei minha cachorrinha, fiz almoço e limpei a casa. Terminei então de customizar uma lira de tília que comprei do tipo DIY (Do it Yourself - Faça você mesmo), primeiro pirografando na madeira, depois envernizando com a cor que escolhi e depois colocando as tarrachas, ponte e cordas (foto abaixo). Claro que fiz prece a Hefesto e Atena antes do trabalho manual, mas o instrumento em si dedicarei a Apolo e Ártemis, e escrevi meu nome atrás em grego e no Linear-B micênico. Ao pôr-do-sol, fiz meu rito do sábado, com algumas alterações. No oráculo de cartas, saiu Penélope (Rainha de Espadas) e a realização pessoal de Dédalo (9 de ouros). Ressoou bem com o meu momento. Também aproveitei para colocar meus cristais para energizar na chuva. À noite tive um sonho que serviu para o meu dia dos pais, mais como mensagem para mim mesma e as imagens que criamos e que por vezes nos limitam até conseguirmos virar a chave. 

    Hoje de manhã, quando chego no meu carro, vejo um pássaro morto no chão abaixo e à frente dele. Nossa primeira reação tende a ser um susto, mas - conhecendo as curvas da ornitomancia - sei que funciona diferente (como a carta da morte no tarô). Fiz preces a Hécate e Hermes encaminhando o pequeno ser, e mandei foto para a minha terapeuta holística. Ela, que conhece bem os meus processos, disse que - no ponto de vista dela - poderiam ser 3 coisas: "Comunicação de mortos; Ciclo que se encerrou; Uma libertação que aconteceu". O que me fez todo o sentido. No artigo sobre ornitomancia do meu site, inclusive, tem o trecho que diz "Se você vê um pássaro morto na estrada ou bate em um, por mais que a morte seja algo ruim talvez isso signifique que a dor vai acabar: a dor do seu coração partido, a dor de estar procurando um emprego... A morte do pássaro pode anunciar o final da sua busca e/ou do seu esforço". Com relação ao pássaro, me pareceu um sabiá, que é da família do tordo. O tordo é uma ave associada a Euterpe, a musa da música. Bem apropriado também para quem acabou de customizar uma lira. 

    É importante a gente fazer essas costuras entre as coisas e ir percebendo as sincronicidades como pontos nos teares dos destinos (Moiras). Claro que sempre com moderação, na justa medida (métron), para não extrapolar para uma superstição (deisidaimonia). Quando cheguei na casa da minha mãe em outra cidade, soube que teve um tornado num município que fica a 2 horas daqui, no mesmo 08/08, mas lógico que é algo rolando com todo mundo (o tal do portal) e não algo que gire em torno da gente. O importante é enxergar algumas coisas como se fossem uma resposta às suas ações, um resultado dos seus esforços e investimentos. O ditado da antiguidade era "junto com Atena, erga também sua mão". O de hoje em dia é "deus ajuda quem se ajuda". Faça sua parte e confie, mas não deixe de fazer a sua parte. 

    Esses sinais nos servem para ensinar a sermos gratos. Agradecer um presente faz o outro ter mais disposição de te presentear novamente, enquanto que achar defeito tira a vontade de tentar te agradar de novo. Semelhante atrai (e cura o) semelhante.

    Pensei se deveria esperar mais o desenrolar das coisas antes de escrever aqui, mas acredito que já imagino o que virá e que precisarei separar o que já é publicável e o que ainda será surpresa.

    Por ora, deixo essa dica: aproveite sua energia para o que realmente vale a pena, e a resposta dEles virá.

minha lira


setembro 13, 2015

Ofensa e Purificação

No último mês, dois rapazes coincidentemente vieram me perguntar sobre estatuetas quebradas acidentalmente, as quais haviam tentado consertar, mas temiam estar cometendo alguma ofensa ou miasma mantendo-as assim no altar. Analisando ambos os casos, vimos que não havia problema. Então acredito que a dúvida pode ser compartilhada aqui, acrescida de outros exemplos sobre essa questão do que é ou não ofensa. 

Claro que há situações em que existe sim uma ofensa, como a de Hipólito a Afrodite ao desprezá-la, a de Niobe a Leto ao se achar melhor do que ela, entre outras. E claro que, antes de rituais e ofertas, deve-se pelo menos lavar as mãos, se possível tomar banho e vestir roupas limpas: 
"Nunca verta uma libação do cintilante vinho a Zeus depois da aurora com mãos não-lavadas, nem a outros dos deuses imortais; senão eles não só não ouvirão suas preces como também as cuspirão de volta." (Hesíodo, 'Os Trabalhos e os Dias', verso 724ss)
“...além disso, eu tenho pavor de com mãos não-lavadas verter libação do ardente vinho a Zeus; nem deve um homem sábio fazer preces ao filho de Cronos, senhor das nuvens escuras, todo sujo/coberto de sangue e imundície." (Homero, 'Ilíada', VI, 265ss)
"Ela então se banhou, e colocou vestes limpas no corpo, e subiu para a câmara superior com suas criadas, e - colocando grãos de cevada em um cesto - fez preces a Atena." (Homero, 'Odisseia', IV, 749ss)

Em primeiro lugar, tenham em mente que os grandes miasmas são do tipo morte, sexo, vícios, crimes, hybris, calamidades, pragas, epidemias, injustiças, impiedade etc. São coisas que perturbam a lei natural e mudam a ordem da vida, como o contato com agentes estranhos, com nascimento, com morte, com crime, com lugares violados, ou com o resultado de ações que desagradaram aos deuses. Em segundo lugar, lembrem que miasmas podem ser purificados pela catarse. O próprio lavar as mãos e tornar a água lustral é um exemplo. Você pode se purificar com água, purificar o ambiente com incenso, expulsar agentes de miasma com aspersão e palavras, purificar a alma com música e dança, e fazer rituais específicos de purificação nos festivais (Diasia, Thargelia etc). 

Ou seja, não há motivo para deixar o medo da ofensa lhe paralisar

Quando li os dois casos da estatueta, considerei o ato não-intencional ser sinal de que a deidade estava lhes defendendo de alguma coisa ruim, mas se a rachadura foi pequena ou pôde ser consertada, isso demonstrou o cuidado do devoto, e não havia por que jogá-la fora ou tirá-la do altar. Impiedade é não ser pio, não ser devoto, e em ambos os casos eles foram pios ao se preocuparem com o caso, não houve miasma de impiedade ou ofensa. Uma estatueta pôde ser consertada, outra ficou com o que chamei de "cicatriz de batalha", mas nada que desabone a presença dessas ofertas votivas no altar.

De qualquer forma, na dúvida se algo gerou ou não miasma, faça uma catarse/purificação. Mas não fique impedido ou desanimado de fazer as coisas por temer retaliações. Cada caso pode ser diferente do outro, mas nenhum é irreversível. 

Esta semana eu utilizei meu pirógrafo para fazer uma gravura que não era dos deuses. Eu não me lembrava se tinha ou não consagrado o pirógrafo para trabalhos devocionais, mas mesmo assim o usei. Antes de terminar, ele esquentou tanto que derreteu o botão e quebrou. Levei minha bordoada (inclusive financeira), pois tive que encomendar outro. Mas é isso, aprendi e assim seguimos em frente. Se não erramos, não aprendemos.

Em suma, não deixe de lavar as mãos antes de fazer ofertas ou ritos, purifique-se após o contato com coisas geradoras de miasma (mesmo que em dúvida se são ou não), observe as consequências das coisas para aprender com elas e, no mais, não fique paralisado pelo medo de ofender. 

Há males que vêm para o bem, como algo que quebra para afastar coisas piores, ou como precisar comprar uma máquina de pirografia melhorzinha e novinha, rs. Mantenha-se centrado e busque o equilíbrio, o resto se ajeita. 

dezembro 01, 2014

Sacerdotisas - Breve Introdução Histórica

Os gregos antigos não tinham sequer uma palavra separada para "religião", uma vez que não existia nenhuma área da vida que não houvesse um aspecto religioso (Bremmer, "Greek Religion", 1994). Ora, se os gregos não distinguiam entre "igreja" e "estado", se as coisas sagradas não estavam separadas das seculares (Bremmer, "Religion, Ritual, and the Opposition of Sacred vs Profane", 1998, e Connor, "Sacred and Secular", 1988), então a posição de liderança das sacerdotisas não era periférica, mas primária aos centros de poder e influência. 

A questão da "invisibilidade" das mulheres atenienses como cidadãs de segunda categoria silenciosas e submissas, restritas aos limites de suas casas, envoltas em tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, vinha sendo aceita nas últimas décadas baseado em textos bem difundidos, especialmente de Xenofonte, Platão e Tucídides, e em algumas peças de teatro. Mas há sérias contradições entre os ideais culturais da literatura e as práticas sociais da vida real. Evidências arqueológicas (Nevett, "Gender Relations in the Classical Greek Household: The Archaeological Evidence", 1995) demonstram que as mulheres tinham um papel ativo na esfera econômica, decidindo sobre o dinheiro (Harris, "Women and Lending in Athenian Society", 1992), controlando propriedades (Foxhall, "Household, Gender and Property in Classical Athens", 1989), efetuando discursos (Blok, "Virtual Voices: Toward a Choreography of Women's Speech in Classical Athens, 2001). Blok estima que as mulheres atenienses estavam envolvidas em cerca de 85% de todos os eventos religiosos. Nos textos, temos Heródoto com 62 referências a sacerdotisas em "Histórias" e Pausânias que informa sobre atividades de sacerdotisas e santuários por toda a Grécia, além do tratado de Licurgo "Sobre as Sacerdotisas". Demóstenes e Plutarco também fazem referências a sacerdotisas. Enquanto isso, Tucídides não menciona sacerdotisas e Platão só as discute numa função de um "estado ideal". 

A primeira menção a sacerdotisas foi encontrada ainda na escrita Linear-B de antes de 400 AEC, em uma tabuleta micena do palácio de Pylos que cita Erita, uma sacerdotisa do santuário local. Ela era dona de terras e outras propriedades, tinha uma posição legítima dentro da sua comunidade e era auxiliada por servos sagrados (Ventris e Chadwick, "Documents in Mycenaean Greek", 1973). Também em Linear-B se lê a palavra "hiereia" e "hiereus", sacerdotisa e sacerdote. Normalmente, os cultos a deidades masculinas era oficiado por sacerdotes, e os de deidades femininas por sacerdotisas, mas há famosas exceções, como: sacerdotisas de Dionysos Anthios, Helios, Apollo Deiradiotes, Apollo Lykeios, Apollo Delphinios, Zeus em Dodona, e alguns cultos a Poseidon; assim como sacerdotes de Deméter, Afrodite e Atena.

As sacerdotisas em geral acumulavam um prestígio, liderando procissões públicas, supervisionando festivais da cidade, tendo assentos reservados nos teatros, tendo imagens erguidas em santuários, e tudo isso lhes garantia uma importância que não pode ser subestimada em um mundo no qual o status carregava consigo um poder duradouro. Escolher se tornar uma sacerdotisa era escolher se tornar extraordinária (Turner, "Hiereia: The Acquisition of Feminine Priesthoods", 1983). O status social e os recursos financeiros da sua família eram fatores determinantes em qualificá-la para o ofício sagrado. Dedicações inscritas atestam a generosidade de sacerdotisas em obras beneficentes, seu orgulho em inaugurar imagens, e sua autoridade em estabelecer leis para o santuário. Elas também eram publicamente honradas com coroas douradas, estátuas delas mesmas e assentos privilegiados nos teatros. Há sacerdotisas retratadas em placas de madeira, relevos votivos, monumentos funerais, vasos, escudos pintados, e implementos de bronze e marfim. Antes dessas descobertas, nos diziam que as sacerdotisas não tinham importância na história da religião (Feaver, "Historical Development in the Priesthoods of Athena", 1957). 

Chrysis, sacerdotisa de Athena Polias, recebeu em Delfos a coroa de Apolo, e o povo votou para lhe conceder também uma série de direitos e privilégios: ela era representante de Atenas em Delfos, tinha direito a consultar o oráculo, prioridade em julgamentos, inviolabilidade, isenção de impostos, um assento frontal nas competições, o direito a possuir terras e casas, e todas as outras honras costumeiras para os cônsuls e benfeitores da cidade ("Inscriptiones Graecae", 1913). Mais tarde ela ganhou inclusive uma estátua na acrópole ateniense.

Poderíamos pensar "mas nem todas eram sacerdotisas". Acontece que, ao contrário das preposições cristãs, eram raros os sacerdócios que duravam uma vida inteira. A maioria dos cultos exigia que se servisse apenas por um período, um ano ou mesmo um único ciclo de festivais. A ideia moderna de que sacerdotes sejam pessoas entre os deuses e os humanos é alheia aos antigos helenos. Todos tinham acesso aos deuses, todos podiam oferecer preces, pedidos, agradecimentos, presentes, e executar sacrifícios diretamente (Dickerson, "Priests and Power in Classical Athens", 1991). Heródoto, quando observou as práticas persas, estranhou que eles exigissem a presença de um sacerdote (o 'magus') em cada sacrifício. Porém, é claro que os sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes e sacerdotisas tinham seu próprio status especial. 

Além disso, a hierarquia do culto incluía uma horda de oficiais religiosos, seja com deveres específicos seja com responsabilidades mais gerais. Por exemplo, atendentes do templo (neokoroi), fazedores das coisas sagradas (hieropoioi), guardiães do templo (naophylakes), tesoureiros dos fundos sagrados (tamiai), carregadores de lã (pektriai), fiandeiros (alakateiai), tecedores (histeiai), fazedores de farinha (meletriai), varredores sagrados (karutieiao), portadores das chaves (kleidouchoi), tecelãs (esgastinai), moedores de grãos (aletrides), líderes do sacrifício (hieragogoi), condutores do sacrifício (hierophoroi), presidentes do ritos sagrados (hierarchai), buscador das coisas sagradas (hieronostoi), encarregados do templo (hierakomoi), administradores do templo (hieronomoi), sacerdotes participantes (hieroparektes), leitores de auspícios nos sacrifícios (hieroskopoi), escribas sagrados (hierogrammateis), guardas sagrados (hierophylakes), coletores de dinheiro sagrado (hierotamiai), cantores e harpistas sagrados (hieropsaltai), carregadores das cestas (kanephoroi), carregadores dos sacras (arrephoroi), carregadores da água (hydrophoroi), carregadores das flores (anthesphoroi), carregadores da mesa (trapezophoroi), lavadores da estátua (loutrides), decoradores da estátua (kosmeteriai), além das ursas de Ártemis (arktoi), as abelhas de Deméter (melissai), as donzelas de Apolo em Delos (deliades), as corredoras espartanas de Dioniso (dionysiades) etc. 

Estima-se que existiam dois mil cultos operando na Ática durante o período clássico. Com cerca de 170 festivais por ano no seu calendário, Atenas tinha um público de oficiantes que lotava a arena. Aliás, 'onde' as coisas aconteciam era fundamental para entender 'como' as coisas aconteciam na antiga Hélade, pois os cultos variavam entre as pólis. Os próprios gregos divergiam e tinham maneiras contraditórias de olhar para a própria religião. Mas uma coisa é certa: o sistema deles era um em que o mito, o culto, o ritual e as imagens visuais eram totalmente interdependentes e que se apoiavam mutualmente.


Um aspecto importante que não podemos deixar de falar sobre as sacerdotisas é a diferença entre o que se conhece do celibato cristão e o helênico antigo. O requisito da virgindade na Hélade era mantido só por um breve período, até o casamento. O celibato perpétuo, além de raro, era mais comum entre mulheres mais velhas, que já tinham tido filhos, eram viúvas e pretendiam terminar sua atividade sexual. As sacerdotisas em geral eram mulheres normais, casadas, com filhos. O próprio termo "parthenos" não significa virgindade num sentido de 'inviolabilidade' como temos hoje, e sim no sentido de uma moça que tinha passado pela puberdade e não tinha ainda se casado. O exemplo das virgens vestais romanas era um caso totalmente fora das normas, elas ficavam intactas por trinta anos, depois se casavam ou não, e eram punidas se violassem o voto, enfim, nada parecido com o que acontecia na Grécia. A ideia cristã de uma virgem como alguém 'dedicado ao senhor', 'uma oferta humana votiva', 'um templo sagrado inviolável' não tinha paralelo na antiguidade grega, porque para os helenos a virgindade não era nem um estado de perfeição e nem uma garantia de salvação. Ou seja, ser virgem não garante pureza ou nobreza alguma, uma virgem não é separada do resto como algo abençoado a ser venerado. O ideal, na verdade, era passar por todos os estágios da vida social, então sacerdotisas casadas e viúvas eram mais comuns no culto grego. Mesmo as famosas "prostitutas sagradas" é um conceito muito controverso, porque não há evidências antigas muito seguras dele. Alega-se que essa prática acontecia em Corinto, Éfeso e Pafos, lugares portuários onde o apóstolo Paulo pregou desde cedo (Winter, "After Paul Left Corinth", 2001), e o fenômeno urbano de marinheiros e prostitutas nesses locais litorâneos com prática de culto deve ser o que mais provavelmente levou à atitude negativa cristã de produzir tal ideia sobre as tradições religiosas dali.

Quando, em vez de usarmos o termo "servas sagradas", usamos "agentes de culto", trazemos para o sacerdócio feminino uma dimensão mais ativa, administrativa, de resultados, do que uma imagem de auxiliar submissa. As sacerdotisas tinham mais coisas em comum com os homens do seu nível social do que com as mulheres de níveis inferiores. Precisamos lembrar disso ao considerarmos as forças que definem suas identidades e que propiciam suas ações. O avô materno de Chrysis, que mencionei acima, era sacerdote de Asclépio, seu tataravô materno era supervisor (epimeletes) dos Mistérios Eleusinos, tudo indica que ela herdou seu sacerdócio matrilinearmente. Seu status de sacerdotisa não veio de uma veia patriarcal. Uma história que consiste de um controle monolítico patriarcal sobre as mulheres como vítimas passivas, interrompido esporadicamente por intervenções feministas, já foi desacreditado (Broude and Garrard, "Reclaming Female Agency: Feminist Art History after Postmodernism", 2005). Ainda assim, muitos autores desatualizados insistem em relacionar toda ação social da pólis a atividades masculinas. Isso não significa abandonar a luta por equidade de gêneros e minimizar a opressão sofrida, muito pelo contrário, queremos é empoderar as mulheres ao mostrar a elas que sua força e importância é legítima e atávica. 

Eis por que o helenismo é algo tão rico: ao mesmo tempo em que inclui a dificuldade do estudo para se inteirar das novas descobertas, permite que constantemente estejamos trazendo um novo e atual olhar sobre o que o passado nos apresenta, visto que os autores e tradutores são apenas testemunhas, que interpretam os fatos de acordo com a visão que possuem. O olhar deve ser revisitado e reexaminado dialeticamente, sempre. Já dizia Sócrates, "uma vida não examinada não é digna de ser vivida".

(Postagem elaborada após a leitura de "Portrait of a Priestess", de Joan Breton Connelly, 2007, capítulo 1.)