26.2.12

Purificação e Inspiração

Postado por Alexandra Oliveira |



"O homem é o sonho de uma sombra;
mas quando os deuses lhe enviam um simples raio de luz, 
uma aura radiosa o envolve 
e sua existência conhece a doçura do mel." 
(Píndaro, VIII Ode Pítica)


Tudo o que é ligado aos deuses é sagrado. E o que é sagrado é separado daquilo que não é. Os antigos helenos acreditavam que para estar na presença do que é puro era preciso estar puro. Ter contato com coisas comuns, principalmente as causadoras de miasma, era uma forma de poluição. Para evitar isso, nos purificamos antes de iniciar um ritual, mesmo que seja apenas com o lavar as mãos na água lustral. Em Elêusis, os candidatos à iniciação nos Mistérios tomavam um banho de mar antes do rito. Em várias religiões, muitas coisas são capazes de purificar uma pessoa: jejuns, abstinências, sacrifícios, provações etc, mas o lavar-se com água parece ser o mais comum em todas elas.

É claro que uma purificação real é algo que se estende para todos os níveis do ser (físico, mental, espiritual), mas lavar o corpo é a realidade mais palpável que temos, na qual a mente vê uma clara demonstração do que vem a seguir, em um nível mais profundo. Em um ritual de transição, como num batismo ou iniciação, é como morrer para renascer renovado. Uma morte na qual, em vez de terra (enterrar-se), cobre-se com água. Desce-se a um mundo inferior e ergue-se novamente, emergindo não só renascido, mas limpo pelas águas. Espera-se que essa simples 'performance' tenha o poder de influenciar a mente/alma a uma experiência mais consciente de si. Por isso que não adianta apenas participar de um batismo aspergindo-se água e recitando algumas preces, ainda mais sendo criança como acontece no cristianismo. O caminho do "batismo" teria quer ser um 'rito de passagem', e não apenas uma 'rota de passagem' para fazer parte de um grupo/comunidade religioso/a. Seria preciso mergulhar no seu sentido, no seu simbolismo, na questão da "ressurreição/renascimento" para que produzisse algum efeito purificador na alma humana. 

Há vários mitos com esse tema em várias crenças, e mesmo entre os gregos há diversos, como o de Dioniso, de Héracles, de Psiquê, de Orfeu, entre outros. Eles falam especialmente sobre uma figura que é parte mortal e parte divina e que se debate para purificar-se reunindo essas duas naturezas e ascendendo até um lugar entre os imortais.

Esses mitos também mostram várias formas de se conseguir isso. Quando Dioniso eleva sua mãe Sêmele à morada dos deuses e lhe coroa com a Thyone (inspiração), ele o faz através de seus rituais orgiásticos, dança, canto, êxtase, mântica, inspiração, iluminação. Já os órficos vão acrescentar um toque apolíneo na selvageria de Dioniso e criam uma tradição mais reservada, contemplativa, asceta, embora com a mesma ideia central: a da consciência, da iluminação de perceber sua natureza divina, de acordar da ilusão para a verdade, de escapar das brumas da morte e do esquecimento que lhe envolvem. Como acreditava Platão, nós não aprendemos nada, só nos lembramos do que já sabíamos, porque nossa alma conhecia tudo antes de nascer ("conhecer é recordar verdades que já existem em nós").

Todos nós temos uma pureza interior que vaga no meio da nossa confusão interna. O fato de estar de noite não significa que o sol morreu, ele só está fora de nossa vista. Orfeu dizia: "Meus puros amigos, filhos e filhas da terra e do céu estrelado; escapem do Fuso da Necessidade e da tristeza, desgastado em torno da Roda do Nascimento! Entrem na grinalda do céu dos mortais que se tornam Deuses!"

Filhos da terra e do céu, somos constituídos parte da impureza dos Titãs e parte da pureza de um Deus (Dio). Lord Byron também vai dizer que somos "metade poeira e metade deidade". Mas parece que nos esquecemos dessa parte de clareza e liberdade e nos apegamos à parte que é limitação e confusão. Precisamos escapar desse fuso de tristeza e sofrimento. Hesíodo dizia que a melhor prece que alguém pode oferecer aos Deuses é estar continuamente em paz consigo mesmo. E até George Harrison compôs uma música para Krishna cuja letra inclui "keep me free from birth" (mantenha-me livre do nascimento).

Mas o Fuso da Necessidade, a Roda da Fortuna, o Tear dos Destinos, não é algo ruim por si. Afinal, é ele/a que nos põe em movimento. Tudo no mundo gira e demonstra seu lado oposto. Quando a roda muda, o sofrimento nos faz conhecer a alegria e o amor, por mais que se acredite que ele sempre volta e nos leve embora quem amamos e nos faz felizes; porque aquele ciclo se fechou e outra coisa vai surgir para trabalharmos nossa evolução. A vida é algo maior que nós mesmos. Não somos 'egocentricamente' responsáveis por como o universo funciona e sempre funcionou antes mesmo de estarmos aqui, e nem ele funciona desse jeito para nos punir ou recompensar. As pessoas não sofrem porque um ancestral delas foi desobediente e comeu uma maçã proibida. A gente sofre porque faz parte do estágio de se conhecer, de se dar valor ao que se conquista, de aprender com as leis da natureza, de se caminhar ao encontro de nosso lado divino. Só assim se obtém o conhecimento que nos aproxima dos deuses.

Muitos gostam de chorar, soluçar, gritar de raiva, perguntar "por quê?" e "o que eu fiz pra merecer isso?". Não existe um porquê. E nem tudo depende unicamente do que você faz. A verdadeira resposta não é nem uma resposta, é uma percepção, um 'insight', de que tudo aquilo tinha que acontecer e de que não adianta fantasiar um drama (ou uma tragédia grega) sobre a nossa "desgraça". A solução é procurar entender, visualizar, enxergar as coisas sem ficar com desejos tolos e preocupações irreais. Em vez de se perguntar "por quê", faz mais efeito perguntar-se o "para quê". Nem tudo é culpa sua, assim como nem tudo é resultado de sermos marionetes de algo maior. Plutarco já dizia que a verdadeira piedade (ser pio, acreditar) é o meio-termo entre um medo excessivo do sobrenatural e uma indiferença ateísta, assim como Aristóteles já ensinava sobre a virtude ser a justa medida entre dois extremos de vícios.

Mesmo o mito de um pecado original não dizia que o paraíso foi destruído, ele continuou lá. A paz e a beleza originais existem em algum lugar do mundo, a gente só se esqueceu do caminho que nos leva para onde eles estão. E esse lugar existe fora e dentro. Nesse sentido, por mais que não sejamos o centro do mundo, nossas conquistas são também a de todo o resto, porque refletimos o cosmo e o divino reside em cada um. "Assim como em cima, é embaixo", diz Hermes Trismegisto. Só que é tão nocivo se esquecer da sua parte humana desimportante quanto o é esquecer-se da sua parte sagrada fundamental.

O despertar é conhecer o propósito das coisas e ficar em paz. O difícil é atravessar a estrada longa até esse estágio. Vamos desdobrando os véus que cobrem a realidade à medida que nos colocamos em marcha, na direção de amar, ajudar os outros, lutar por uma causa, sentir, pensar, refletir, meditar, conectar-se ao sagrado, buscar a sabedoria, neutralizar o sofrimento e o efeito da dor.

A grinalda de flores ou folhas que coroa os vitoriosos é circular. O final e o começo de um círculo são o mesmo. É um símbolo de algo eterno e perpétuo, como são os deuses e a roda da vida, que reúne mortais e imortais. Somos partes deles e não podemos nos separar deles, como os puros se unem aos puros. Perceber isso é inspiração, é 'thyone', é elevar-se à "grinalda do céu".

"Um deus, uma deusa, reside dentro de cada um de nós. 
Quando o espírito se levanta, radiamos com um brilho interior, uma aura
É esse espírito sagrado que planta as sementes de tudo que somos e fazemos. 
Esse espírito sagrado é a nossa inspiração." (Ovídio)

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