30.7.13

Antigos Cultos de Mistério - parte 2

Postado por Alexandra Oliveira |

Os antigos cultos de mistérios não eram uniformes, havia diferenças importantes entre eles, com relação inclusive à sua organização social, mas nenhum se aproxima do modelo cristão de uma igreja ('ekklesia'), e muito menos se poderia falar de "religiões" separadas e autossuficientes. Ainda assim, de uma forma didática, podemos separá-los em três tipos principais de organização na prática dos mistérios: o praticante itinerante ou carismático; o clero pertencente/ligado a um santuário; e a associação de cultuadores na forma de um "clube" (o 'thiasos').

O primeiro, o itinerante carismático, possuía um estilo de vida mântico e místico. Tratava-se de um vidente e sacerdote andarilho, que lidava com purificações e iniciações. Nos papiros Derveni, ele é caracterizado como "aquele que torna sacra a habilidade" - um artesão da religião, ou seja, alguém que aprende o ofício de um mestre, de um 'pai' real ou espiritual, e depois trabalha sozinho, para seu próprio lucro, por sua conta e risco. Não havia o apoio de uma corporação ou de uma comunidade. Alguns exemplos seriam Apolônio de Tiana, Epimenides, e Empédocles. Nos antigos mistérios, o itinerante carismático era mais encontrado nos ritos de Dioniso e da Méter. Um documento antigo (210 AEC) dá ordens para que "aqueles que realizam iniciações para Dioniso no país" viajarem para a Alexandria para se registrarem e declararem "de quem eles receberam as coisas sagradas, até três gerações, e entregar o exemplar selado no hieros logos". Ou seja, eles deveriam saber quem era não só o seu "pai" espiritual, mas também o "avô" e o "bisavô". Quando Dioniso aparece disfarçado de um estranho da Lídia na casa de Penteu ("As Bacantes", de Eurípides), ele estaria oferecendo seu serviço de místico e executando milagres, dizendo ter recebido sua iniciação através de revelação direta do deus. No século III AEC, Mileto descreve que as mulheres que "realizam iniciações para Dioniso na cidade ou no interior" deveriam se reportar aos sacerdotes oficiais de Dioniso naquela cidade e pagar uma taxa. O culto à Méter Theon na Grécia também começou de uma forma similar, com especialistas itinerantes, conhecidos como 'metragyrtai' (mendigos da Mãe) que declaradamente se sustentavam com seu ofício sagrado. 
  
O segundo tipo, o clero de um santuário, era mais comum no Egito do que na Grécia, já que os santuários gregos não eram unidades econômicas independentes, eram mais algo ligado à pólis ou de propriedade familiar. Mas os oráculos do período arcaico e os santuários de Asclépio no período clássico se tornaram organizações bem sucedidas desse tipo. Os sacerdotes que oficiavam ali podiam ser claramente distinguidos como itinerante por terem uma estabilidade local e uma relativa segurança, mas ao mesmo tempo eles tinham que aceitar certa hierarquia. Havia santuários à Méter assim, como o de Pessinus, na Anatólia, onde existiam sacerdotes eunucos (os 'galloi'). Ser um dos 'galloi', além de ser um modo de vida reconhecido e lucrativo, fazia os indivíduos ficarem atados à sua deusa e a seu santuário para o resto da vida. Segundo os mitos contam, os Mistérios de Eleusis, na Grécia, só poderiam ser celebrados num lugar selecionado pela própria Deméter, caracterizando-o também como um culto ligado a um santuário específico. O termo 'adelphos' (irmão) era usado para aqueles que recebiam sua iniciação juntos, nem tanto em um sentido de afeto emocional (afinal, em Eleusis, centenas de milhares de pessoas eram iniciadas juntas), e sim mais no sentido de ser parte de uma espécie de clã.

O terceiro tipo, que pode ser chamado de "clube", era o 'thiasos' ou simplesmente 'koinon' ("comum"), ou seja, uma associação, uma "comunidade". Os detalhes diferem, mas essencialmente eles eram a união de iguais em torno de um interesse comum. Os indivíduos permaneciam independentes, na sua família e pólis, mas contribuíam com seu interesse, seu tempo, sua influência, e parte de sua propriedade particular, para aquela causa em comum. Esse tipo de associação tem um status legal e um lugar para reuniões (normalmente uma propriedade comunitária), mas não havia hierarquia estável e nem um líder carismático. Os devotos se dedicavam ao deus e a seus amigos iniciados (os 'symmystai'), num apego mútuo entre eles, realizando atividades comuns, sacrifícios em conjunto, refeição cerimonial, e procissões - que deixavam claro quem fazia parte do grupo. Existiam vários 'thiasoi' a Dioniso, embora muitas vezes dependentes de um fundador ou presidente rico, ou ligado a uma casa, porque a competição ('Agon') era estimulada para promover a honra ('timé') entre os 'symmystai' de um 'thiasos', honra esta premiada principalmente com generosas contribuições financeiras. Também os egípcios, quando emigravam para outras terras, fundavam uma espécie de 'thiasos' grego, na forma de associações de 'sarapiastai', 'isiastai' e 'anubiastai' (iniciados nos mistérios de Sarapis, Ísis e Anúbis, respectivamente). Nos mistérios de Mitra, não encontramos nem itinerantes carismáticos, nem 'thiasos' públicos, nem templos com clero, pois tudo se centrava numa iniciação realizada por clubes secretos (algo semelhante aos maçons, com graus hierárquicos de iniciação) e num número limitado de participantes (cerca de vinte membros); mas, sendo "clubes", podemos incluí-los neste terceiro tipo.


De qualquer forma, a unidade em todos esses grupos estava na ação e na experiência, e não na "fé" - no sentido de professar um Credo. O ritual não precisava de uma teologia explícita para ser efetivo. Mesmo que os órficos prescrevessem certo estilo de vida (como não ingerir ovos), que os mitraicos se identificassem com o seu deus, que os eleusinos evitassem comer o peixe salmonete, isso não era explicitado em nenhum tipo de Credo ou fórmula doutrinária. Eles também tinham a característica do segredo (afinal, eram Mistérios), então não tinham a intenção de propagar uma religião. Além disso, se um membro de um 'thiasos' quisesse deixar o grupo, ele poderia sair sem problemas, sem perda de identidade, sem medo de trauma, sem dramas e maldições. A ausência de demarcação religiosa e a consciência da identidade do grupo evitava qualquer fronteira rígida entre cultos distintos, assim como a ausência de qualquer conceito de heresia e de excomunhão. Os deuses não tinham ciúmes uns dos outros, eram mais como uma sociedade aberta. As pessoas podiam inclusive participar de vários cultos, como se sabe de uma sacerdotisa de Ísis que servia como 'iakchagogos' (a que conduzia a estátua de Iaco/Baco) no culto eleusino de Atenas e a filha de um sacerdote de Sarápis que atuava como 'kistophoros' (carregadora da cesta) a Dioniso. Isso não significava uma "conversão" tipo "queime tudo o que você cultuava antes", e sim um aprofundamento e extensão da sua natureza de devoção para uma nova intimidade com o divino/sagrado, tanto com aqueles com quem você já tinha familiaridade quanto com os que você passava a conhecer.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]


28.7.13

Antigos Cultos de Mistério - parte 1

Postado por Alexandra Oliveira |

Por conta de uma dúvida postada no grupo dos helenos no facebook sobre a Méter Theon, ou Magna Mater, pediram-me, em mensagem privada, para contar mais sobre suas "orgia". Originalmente, "orgia" (ὄργια, plural de 'orgion' - ὄργιον) eram ritos de êxtase característicos dos cultos de mistério gregos. 
"Diferentemente da religião pública ou das práticas religiosas do lar, os mistérios eram abertos apenas a iniciados, portanto 'secretos', e muitos aconteciam à noite. As orgias eram parte dos Mistérios Eleusinos, dos Mistérios Dionisíacos, e do culto à Cibele. Por serem secretas, noturnas, e não-documentadas, elas foram objeto de especulação e tratadas com suspeita, principalmente pelos romanos, que tentaram suprimir os bacanais em 186 AEC. Embora se pense que orgias envolvam sexo, a sexualidade e a fertilidade estavam relacionadas ao culto, e o objetivo principal das orgias era alcançar uma união em êxtase com o divino." (wikipedia
Para falar do assunto, usarei como fonte principal o livro de Walter Burkert, "Ancient mystery cults". Mas, antes de começar a explicar o tema, vamos primeiro desfazer alguns estereótipos e 'pré-conceitos' sobre os cultos de mistério:
1) "Os cultos de mistério são tardios, do final do período helenístico ou período imperial, conduzindo à Idade Média" - Não, os Mistérios de Eleusis, por exemplo, floresceram por volta do século VI AEC em diante. O culto à Magna Mater desde o período arcaico, o culto de Ísis em Roma era no século I EC, o culto mitraico no século II EC, e por aí vai.
2) "Os cultos de mistério têm origem e estilo oriental, é como uma espiritualidade oriental numa forma helenizada" - Não, ainda que a Magna Mater fosse a deusa frígia Cibele e Ísis fosse egípcia e Mitra iraniano, eles refletiam o culto de mistério que já existia em Eleusis e nos mistérios de Dioniso. Além disso, a Anatólia, o Egito e o Irã antigos eram mundos separados, não eram exatamente 'orientais'.
3) "Os cultos de mistério é uma busca pagã por uma espiritualidade mais elevada, que teria levado ao cristianismo" - Não, apesar de o cristianismo ter assimilado muito do paganismo e do pensamento platônico, não se pode dizer que os cultos de mistério eram algo predestinado a virar cristianismo, pois há diferenças radicais entre os dois sistemas.
4) "Os cultos de mistério são uma espécie de rito de passagem realizado num ambiente noturno" - Não, os mistérios antigos não eram ritos de puberdade em nível tribal, sua admissão não dependia de idade ou sexo ou classe, não havia mudança externa visível (só interiormente, na relação do iniciado com as deidades), podiam ser feitos repetidas vezes, e não eram obrigatórios (era escolha pessoal, não algo prescrito pela família ou pela tribo ou clã).
5) "Podemos falar em 'religiões' de mistério" - Nem sempre, pois os mistérios eram uma forma especial (e opcional) de culto, oferecido dentro do contexto maior da prática religiosa. É semelhante a falar sobre a peregrinação para Santiago de Compostela dentro do sistema cristão (não uma religião à parte). Portanto, "religião de mistério", como um sistema fechado, não seria um termo adequado. Porém, se você considerar "religião" como uma forma pessoal de culto, aí sim cabe falar dessa forma.


De onde vêm os cultos de mistério?
Os mistérios eram uma forma pessoal de culto, cujo pano de fundo é constituído pelas religiões "votivas" (a prática de fazer votos), algo que é tão comum que pouco se fala hoje em dia: fazer promessas de ofertas aos deuses em troca de seu auxílio em alguma questão. Cada objeto ofertado testemunha uma história pessoal, de ansiedade, esperança, prece, realização etc. Para a classe superior, o risco maior era a guerra, então se faziam votos para controlá-la; para a classe média, eram as incertezas nos negócios, os períodos de viagem maritma, os riscos no parto, e os sofrimentos recorrentes das doenças. 
Isso nos ajudava a lidar com as incertezas do futuro, a administrar o tempo através de um 'contrato', com a estrutura do "se... então...": Se a salvação da ansiedade e incômodo atuais ocorrer, se o sucesso ou lucro esperado for alcançado; então uma renúncia especial e definida seria feita, uma perda limitada em interesse de um ganho maior. Uma tendência à perpetuação também era presente, pois o mortal incluía na sua prece o pedido para que a deidade concedesse a ocasião para ele estabelecer outra vez o relacionamento ("me lembrarei de ti e de outra canção também"). Não raro, as inscrições votivas também se referiam a intervenções sobrenaturais na tomada de decisões, em sonhos, visões, ou ordens divinas, mencionando depois a experiência bem-sucedida.
Mesmo que nem todos os pedidos fossem 'atendidos' sempre, o fato é que a religião votiva provinha ajuda ao dar esperanças, socializar ansiedades e sofrimentos, encorajar o indivíduo a tentar mais uma vez, fazê-lo encontrar interesse e apoio dos sacerdotes e companheiros de culto. O voto era feito em público, a oferta pela realização era feita em público, e muitos se beneficiavam do investimento.
Mas, na religião votiva, "fé" (pistis) e "salvação" (soteira) não implicava em "conversão" no sentido cristão, ainda que um indivíduo pudesse mudar sua orientação e se voltar para um deus específico após ter seu pedido atendido por ele. Nesse caso, ele "incluía" a nova deidade, e não "substituía" a anterior, por isso não é uma "conversão". E a crença era de troca, não de uma "fé" em alguém que vai te ajudar sem você fazer nada além de acreditar. 

A relevância de se falar em religião votiva para os cultos de mistério é tripla:
1) A prática pessoal nos mistérios, em motivação e função, era paralela à prática votiva, pois era como uma nova forma de buscar salvação (salvação aqui no sentido vivo de "âncora", de "salvar dos perigos", "salvar das águas turbulentas" etc, não no sentido de salvar da morte em um mundo posterior), de buscar um contato mais íntimo e pessoal com a deidade, visando uma mudança de mentalidade através da experiência do sagrado.
2) O aparecimento de novas formas de cultos de mistério com novos deuses é exatamente o que se esperaria como resultado dessas funções práticas.
3) A expansão das assim-chamadas 'religiões orientais de mistério' ocorreu primeiramente como forma de religião votiva, com os mistérios às vezes formando apenas um apêndice ao movimento geral.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

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