31.3.10

Coisas que me dão raiva (parte 2)

Postado por Alexandra Oliveira |

Continuando o post de 16.12.09 - Coisas que me dão raiva (parte 1).

Dia desses me pediram para ver um blog comunitário e li nele uma postagem que se baseava em autores (entre aqueles que eu já não recomendo) falando coisas que não é a primeira vez que vejo dizerem sobre os helênicos. Para muitas pessoas (ditas pagãs), como para quem escreveu no blog a que me refiro, os mitos gregos são 'uma maneira tosca' de desviar a atenção do culto à "Grande Mãe". Elas acreditam que os gregos - como uma espécie de 'ataque amedrontado para se defender' - tornaram as mulheres e deusas da mitologia helênica submissas às figuras masculinas e reduzidas a figuras relacionadas com a fertilidade.

Ora, para começar, a própria ideia de que os cultos que celebravam colheitas e partos eram uma "redução" feita ao feminino já é um preconceito de colocar a fertilidade como algo inferior, quando na verdade é ela quem cria a vida, sendo tão importante quanto os outros aspectos da existência natural e humana. Segundo que os escritos dessas pessoas, como observa uma amiga minha, sempre nos dão a impressão de que "era uma vez a 'Deusa Fofa', aí veio Zeus e acabou com tudo". Como se o fato de Zeus ser masculino representasse um patriarcado nocivo, opressor e misógino, que não é necessariamente o caso.

Depois essas pessoas citam Atena, que uma das maiores mulheres da mitologia é colocada nascendo da cabeça do pai, e não como uma suposta deidade sem pai ('filha da mãe'?) anterior, como se isso reforçasse o tom machista com que eles cantam a visão de mitologia grega que têm. O que aparenta é que elas não leram a história toda, ou que leram uma história diferente da que lemos. Zeus engoliu Métis por causa da profecia de que o rebento que ele teria com ela tomaria seu trono, mas de nada adiantou, pois Atena saiu da cabeça de Zeus já adulta e armada, quando Hefesto abriu o crânio do cronida. Veja: não foi um homem, mas uma mulher que veio com o poder suficiente para destronar o pai; uma mulher forte e guerreira e que nunca se casou, não uma semeadora fértil (o que já mostra que a teoria desse pessoal da "Deusa Fofa" se contradiz). Além disso, há na mitologia deidades sem pai aparente, por partenogênese da mãe, que é como Hera teria gerado Tífon, Ares e o próprio Hefesto. Mas os poucos deuses que saem do corpo de Zeus (Atena e Dionísio), ambos tinham uma mãe (Métis e Semele).

Somariam-se a isso outras evidências que poderiam nos levar é justamente ao contrário, a ver o poder que as mulheres tinham nos relatos mitológicos. E tudo sem contar o fato de os autores-fontes de onde essas pessoas bebem se referirem à mitologia grega falando sempre e apenas da dinastia de Zeus, desconsiderando todas as outras anteriores.

É claro que tudo acabaria sendo questão de como você lê; afinal, já dizem que "o diabo pode converter toda a bíblia a seu favor". Porém, aproveitando os recentes comentários feitos sobre o julgamento do caso Isabella: testemunhas podem mentir, evidências não. E é por essas e outras que no helenismo enfatizamos que mais valem os ritos e a práxis do que os mitos. Já que elas gostam de autores, que tal um dos nossos maiores estudiosos da religião grega? Ele diz que os ritos são mais importantes e mais instrutivos para a compreensão das religiões antigas do que os mitos que mudam tanto: “rituals are more important and more instructive for the understanding of ancient religions than are changeable myths” (Walter Burkert, ‘Greek Religion’, 54).

Então, antes de ouvir/ler as impressões que um autor (neopagão-novaera-autoajuda-etc) tem a dizer de algo, por que esse povo não lê artigos de arqueologia e de filologia, por que não se intera das descobertas relativas às práticas de culto? Sabe, acabamos caindo naquela questão de leitura crítica, de saber que nem tudo o que está escrito e impresso é verdadeiro, buscar mais coisas, mais pesquisas que corroborem o que você entendeu, e que no final faça sentido com todo o intertexto que carregamos de visões que se complementam entre si.

(E não vou nem entrar na questão de essas pessoas andarem precisando fazer as pazes com o masculino. Aliás, aproveito para indicar um blog ótimo que fala dessa questão das masculinidades, escrito por uma amigona minha: o Curiosa Identidade.)

Enfim, e só pra lembrar: se não fosse por Zeus, as pessoas provavelmente sequer teriam um mundo organizado no qual buscar esses livros que lêem...


Às vezes as pessoas acham que seguimos o calendário ao contrário, por estarmos no hemisfério sul. Mas pense como ele também faz sentido pra gente! Nas próximas duas semanas, as últimas de março, teremos a Elaphebolia de Ártemis, a Asclepieia e a Dionísia Urbana, com o outono chegando.

Outono...

Vem Dionísio, fornecedor da vinha, portador do tirso, enriquecendo-nos de frutos deliciosos, sementes de êxtase, brotos de liberdade; trazendo o mistério atrás das máscaras, o primeiro beijo que aquecerá o inverno, a fantasia em meio a colheita...

Vem Ártemis, caçadora, da lua crescente, que cuida da juventude, com toda a graça das folhas que caem e não das flores que nascem (como seria com Perséfone); é o momento da colheita das frutas, e Ártemis é deusa do nascimento, trazendo nova vida ao mundo; a Kourotrophos, que era procurada junto a Asclépio ao se pedir por um bom parto...

As cores do outono em muito combinam com as da lua crescente.
Os grãos do outono são as sementes da primavera.
A vida é algo que nunca morre, apenas se reencena - como o deus do teatro, renascido duas vezes - e uma coisa completa a outra.

Nas raízes, nos ventres, nas sombras, tudo onde só vemos o escuro e o escondido, no fundo está repleto de vida, uma vida que se prepara para nascer.
É fechando os olhos físicos que costumamos enxergar mais além.

E era assim que Asclépio curava, durante o sono, no sonho, na companhia da serpente - tão ctônica. Com ele, espera-nos alguém para nos acompanhar. Alguém que depois descobrimos ser nós mesmos. Nosso outro lado, quiçá o de dentro; aquele sábio que completa o tolo, e que se libera de sua racionalidade para vir dançar conosco nas sombras, na luz, na chuva. E ele traz a solução para os nossos males da alma e enfermidades do corpo.

Como um serpentino de Asclépio, o corpo entra na dança e o espírito entra em transe. Das árvores caem as folhas, mas da terra se erguem as forças de renovação.

Se eu sigo a pólis ou o equinócio, é o de menos. O que eu sigo mesmo é o movimento dos deuses...

13.3.10

Aithaloeis Hephaestos

Postado por Alexandra Oliveira |

Há uma coisa que eu penso e, como diz uma amiga: EU penso, opinião MINHA, desta pessoa que aqui vos escreve, e não algo oficial ou documentado. Nem sei se chega a ser propriamente uma UPG. Mas, enfim, eu acho que Hefesto tem traços de negro. Nem que não seja na cor da pele, mas por ele oficialmente ter olhos e cabelos escuros e seu nariz não ser dos mais finos.

Isso vem primeiro de quando li em "Casa Grande e Senzala" sobre as habilidades que certos africanos tinham com os metais. Depois do fato de acharem, no mito, que ele era "feio" só porque era diferente. Junta-se a isso o seu epíteto de "Aithaloeis Theos (deus coberto de fuligem)" e o fato de - por acaso - "ferreiro" em inglês ser "[black] smith". Aliás, Aithaloeis é traduzido em inglês por "sooty", que significa *"1 fuliginoso, coberto de fuligem. 2 preto, escuro.", segundo o Dicionário Michaelis. No grego moderno, temos termos do tipo:
# aitháli (αιθάλη) = fuligem;
# aíthalon (αίθαλον) = bistre, ou seja, da cor marrom-escura do corante feito de fuligem, como a sépia das fotografias;
# aithalódis (αιθαλώδης) = "sooty"*;
# aithalomíxli (αιθαλομίχλη) = uma fumaça com neblina, como a que se vê em centros urbanos.

Hefesto. Seu nome é de origem desconhecida, pré-helênica, mas dizem que pode vir de 'hemera phaestos' - o que brilha de dia. (Engraçado, porque descobri que os angolanos dizem que brilham, enquanto acham os congoleses baços, os namibianos cinzentos e os guineenses quase azuis.) Seria mais um indício?

Aí um belo dia eu vou assistir "O Ladrão de Raios" e aparece no Olimpo um deus interpretado por um ator afro-americano: Conrad Coates. Quem era? Hefesto! Achei muita coincidência, considerando que não sou nada afeita ao que fizeram no filme (não só com relação aos deuses, mas principalmente por não ser nada como o livro) e do escritor da série ser um cristão carola. Se bem que não sei quem definiu que Hefesto seria negro ali. E que - às vezes - os deuses escrevem certo por 'autores' tortos.

Além das descrições de que ele era coxo, Homero diz, na Ilíada (18), que Hefesto tinha um pescoço massivo e pêlo no peito. No mais, só podemos observar as representações dos artistas. Reparem nos traços destas; uma do século V AEC, uma da Roma Imperial e uma moderna (clique para ver maior):


Hoje foi dia de libação a ele, então voltei a pensar nessas minhas questões. Será que elas têm alguma razão de ser?...

3.3.10

Blogagem Coletiva: 8 de março

Postado por Alexandra Oliveira |

Participe!




As 130 mulheres que morreram naquela fábrica de tecidos de algodão e indústria têxtil em 1857, homeageadas com um Dia Internacional da Mulher a partir de 1910, eram tecelãs que marcharam por melhores condições de trabalho, diminuição da carga horária e igualdade de direitos.

Isso me faz lembrar das Moiras, as deusas do Destino, que fiam, tecem e arrematam as vidas de todos, e me faz pensar que uma das coisas a comemorarmos neste 8 de março é o fato de hoje termos mais oportunidades de sermos agentes nos próprios destinos, fazendo as nossas escolhas que geram as consequências as quais formam as imagens da tapeçaria no tear das deusas, e não mais deixando que alguém apresente um modelo formado e estabelecido para uma classe - a das mulheres.

E não eram só os homens que faziam isso, muitas mulheres mesmo tinham a atitude de perpetuar sua dependência e os valores que internalizaram sem questionar, que aprendiam e transmitiam sem jugar sua validade. O grande lance não é sair de casa, deixar de acompanhar o crescimento dos filhos, precisar trabalhar fora para se sustentar etc, mas sim ter o direito ao livre-arbítrio, o de escolher ficar em casa, e não ser obrigada a ficar em casa porque nasceu-se biologicamente mulher. Aliás, isso expande-se ao direito do homem também ser um pai menos ausente e um marido com menos responsabilidade por pessoas que lhe seriam totalmente dependentes (principalmente em termos financeiros).

Quando paramos de comprar telas pintadas nas quais costuramos ou bordamos em cima de um desenho pré-fabricado (e com as cores também já determinadas) e resolvemos criar a partir de um novelo cru em uma tela branca, damos às mulheres mais chances de conhecer o mundo e damos aos homens mais chances de conviver com sua família, entre outras oportunidades que criamos para ambos ao deixá-los escolher que desenho de tapete irá mostrar quando Átropos cortar nosso fio. Cloto tece-o, Láquesis puxa-o e enrola-o, mas a direção e a forma dos pontos dados cabe apenas a nós. E cada vez cabe mais a nós do que aos outros.

Pode parecer mais fácil deixar de fazer escolhas, esperar que alguém nos diga o que fazer, em quem votar, para que time torcer, em que deus acreditar, qual profissão seguir, não ter culpa pelos resultados das escolhas erradas e tudo o mais. Só que ao fazermos isso, não vivemos nossa vida, vivemos a vida de outro. E desperdiçar uma vida inteira é muito tempo perdido e inutilizado, quando poderíamos estar realizando o nosso daimone, aquilo para o qual viemos ao mundo, o que viemos fazer, a nossa missão e talento.

Então neste 8 de março de 2010 eu escolho comemorar a ampliação da nossa oportunidade de fazer escolhas.

E que, em homenagens a aquelas tecelãs do passado, possamos criar imagens cada vez mais belas e significativas no tear dos Destinos!

1.3.10

Rapidinha: ecletismo, magia e valores

Postado por Alexandra Oliveira |

OK, esse é um assunto do qual já falei várias vezes, mas - como volta e meia uma pessoa nova no caminho dos deuses me pergunta sobre ele - vou retornar um pouquinho nisso para esclarecer algumas coisas de uma forma mais direta.


Ecletismo, sincretismo et al. Algumas pessoas, que me ouvem sugerir que a prática delas poderia seguir mais pelo ecletismo do que pelo reconstrucionismo, vêem isso como uma limitação, e não é! Nem o reconstrucionismo é melhor que o ecletismo nem o revivalismo é melhor que o reconstrucionismo. A questão é como você lida com isso. Você pode aprender sobre coisas diferentes, mas tem que considerar como as coisas eram feitas.

Antes de mais nada, parte desta postagem foi inspirada num áudio da K. Pythia Theocritos, em inglês, disponível AQUI. Então, resumindo e organizando (e traduzindo) o que ela fala:

Não há problema existir um eclético do tipo que cultua os deuses gregos e segue uma filosofia budista, por exemplo. São posturas que se reconciliam bem. Mas há outras práticas que possuem métodos totalmente diferentes de culto/rito, com deuses de dimensões muito diferentes, que fica difícil manter os princípios helênicos e colocar todas essas coisas junto.

Provavelmente você já ouviu alguém dizer coisas do tipo "eu USO Afrodite em feitiços de amor". Como assim você USA? Isso não soa ofensivo? Ninguém gosta de ser usado, que dirá uma deidade!


Ou que tal alguém dizendo "eu sigo a lei tríplice (do retorno triplo), mas eu cultuo Ares"... Hein? Como assim? Se tudo o que você fizer volta para você, você não vai sair da cama e agir, tomar uma atitude, como Ares espera que você faça. Há momentos em que você precisa chutar o pau da barraca mesmo!

Sem falar em quando as pessoas associam Hécate APENAS a uma deusa das bruxas. Nenhum deus ou deusa era só uma coisa. É frustrante quando alguém fala "Atena é a deusa da sabedoria, Poseidon é o deus do oceano etc", porque eles não são só isso.

E a questão de sempre dar uma importância extrema para a lua cheia? Nós celebramos a lua nova, que inicia os meses helênicos. Como você pode ser helênico invertendo algo básico da prática ritual?

Sim, porque o helenismo não é só ler os mitos. Quantas vezes você diz que cultua os deuses e alguém te diz "ah, eu gosto muito de mitologia também". O que fazemos é mais do que mito e história e literatura clássica. Para entender os deuses, é preciso entender as pessoas que os cultuam. Mas muitos não querem sequer fazer libações...

Agora, outra questão que me apareceu pela 'trocentésima' vez e que continuam surgindo pessoas com dúvida: a história de que no reconstrucionismo não se "permite" a magia. O que falamos nisso é com relação a não cometer Hybris, a não interferir no livre-arbítrio e na ordem natural das coisas. Ou seja, tudo bem você usar ervas, oráculos, incenso, óleos, fazer preces pedindo por coisas aos deuses e fazer ofertas em agradecimento antecipado pela Sua ajuda, esperando que nos orientem e façam o que acharem melhor dentro do julgamento dEles. Mas outra coisa é você fazer um feitiço/simpatia que "garanta" que o "seu" desejo seja realizado da maneira que "você" acha que é a melhor. (Fora que isso tira toda a surpresa que dá graça à vida, hehe!)

Nós estudamos a magia homérica, as tábuas de imprecação, os papiros mágicos gregos, as amarrações etc, mas o interesse é bem mais acadêmico do que outra coisa, pois não podemos cair na Asebia ou na Deisidaimonia, ou seja, não podemos dar todo o crédito do que acontece para nós mesmos nem podemos ficar super-dependente dos deuses, tendo superstição com tudo.

Enfim, há que se manter o Métron entre Agon e Sophrosine, entre a competição/tensão e a gentileza/prudência. No final das contas, acaba sendo tudo uma questão de bom senso... Então que Métis nos ajude!

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