30.10.11

Hera 'wins' - e um mundo de Zeus

Postado por Alexandra Oliveira |

Tendo umas coisas para falar sobre Hera e outras sobre Zeus, resolvi fazer uma "hierogamia" colocando ambos textos em uma postagem só. Vamos começar pelas damas:

HERA

No mundo moderno, as representações de Hera normalmente são de algo no estilo Endora de 'A Feiticeira', madastra-má de conto de fadas, os olhos malvados no céu do seriado de Hércules etc. Para essas pessoas que a imaginam assim, Hera seria uma espécie de megera vingativa que vive enfernizando as/os amantes do marido. Olha, para mim isso é um grande equívoco; não um mero "mistake", mas um "BIG FAIL" mesmo. E não é só pelo fato de Hera ter tanto mais trocentos atributos além de rainha e de deusa dos compromissos (sim, porque não é só do casamento, até as sociedades entrariam aí).



Quando compreendi Hera e depois acompanhei a novela 'Caminho das Índias', identifiquei prontamente algumas características da personagem da atriz Christiane Torloni (Melissa Cadore) com ela - ao menos nessa questão de administrar a relação familiar. Por quê? Porque, mesmo descobrindo que o marido tem uma amante, não é a ele que ela ataca (afinal, ela não quer permitir que uma qualquer prejudique seu casamento), mas sim à talzinha atrevida que se intrometeu no caminho interferindo sua paz. Ao mesmo tempo, ela deixa o marido saber que ela sabe de tudo e que é superior, faz com que ele perceba que não vale a pena perdê-la por outra que nunca será tão admirável quanto ela. Na novela, isso acontece no fato de ela dar uma surra na amante do marido (que inventa que apanhou porque reagiu a um assalto), pega a jóia que ele tinha dado para a amante e usa-a diante dele, que fica atônito ao reconhecer o presente da outra sendo exibido pela esposa. Sagaz. Mostrou quem manda. À maneira da natureza, que faz o macho que vence a luta corporal ganhar a fêmea, na inversão dos gêneros a amante não deu nem pro cheiro, e o macho em questão ficou com a fêmea vencedora. Não é preciso se rebaixar a uma vingança mesquinha. Basta demonstrar sua magnanimidade régia para punir a insolência da "mortal" que teve a petulante hybris de se achar boa o bastante para ser a consorte do rei/deus do pedaço. Agora sim, "BIG WIN".



Sou fã de Hera. E nem precisa ser "dia de rock, baby!".



ZEUS

Um dia desses, tive um sonho com um deus nórdico loiro de cabelos lisos compridos e nome complicado. Estávamos eu e meus amigos em um ônibus (que nos meus sonhos costuma ser a representação da parte social da minha vida), quando ele apareceu. Eu lhe perguntei o nome e a que deus se reportava, e ele respondeu 'Zeus'. Então perguntei-lhe como um deus nórdico seguia a Zeus, grego; e ele dizia que agora todos os panteões eram regidos por Zeus.

Antes que comecem a pensar que foi uma puxação de sardinha pro nosso lado, deixa eu explicar o que eu realmente interpretei disso aí, simbolicamente falando. Zeus, para mim (e o sonho era meu), estaria ali representando a ordem, com uma administração que - ao mesmo tempo centralizada - é baseada no conceito de uma imensa família que se conhece e se entende e permanece junta apesar dos pesares. Isso é uma coisa que o mundo andava e ainda anda precisando e que - aos trancos e barrancos - me parece que vem acontecendo. As distâncias se encurtaram, as pessoas se aproximaram mesmo que virtualmente, sujeitos e grupos com filosofias parecidas se uniram, forças de trabalho foram recrutadas mais facilmente em meio a redes onde uma ilibada vida pessoal 'online' pode refletir numa oportunidade profissional, e tudo isso independente da crença ou do panteão. Há uma ordem que é universal, para a qual todos caminham ou inconscientemente buscam caminhar. Aquele equilíbrio que a maioria procura, mesmo quando por vias de desagregação para remontagem de si.

Esse tipo de condução funciona para muitas coisas. E acredito que funciona para a minha vida e para o caso do nosso grupo de crenças. Mas, claro, só posso falar por esse lado, afinal era um sonho meu no mundo que eu conheço, e por isso outros terão todo o direito de pensar diferente e de funcionar de outra forma. O meu jeito é o de Zeus e o de Atena. E, pelo princípio da xenia (hospitalidade, amizade convidativa), receberei bem qualquer nórdico ou outro visitante (independente de ser lindo e louro) que quiser se apresentar.

13.10.11

Aprender e Compartilhar

Postado por Alexandra Oliveira |

Outro dia dei uma olhada na novela que está acabando, das sete. O que era padre e deu um tempo na batina para tentar namorar ficou amargurado e a sua amada preferiu vê-lo feliz e livre do que com ela. Eu me identifiquei com a conversa que eles tiveram, sobre ele sentir falta das preces, do silêncio, da penumbra da igreja, e até da solidão, e sobre ela sentir que a missão dele era algo maior que as coisas do mundo, que ele não foi feito para amar uma só pessoa, mas toda a humanidade. É difícil explicar isso pros outros, a maioria não acredita que fico mais feliz sem dividir minha devoção com um ser humano e deixar de ter tempo para todos os outros que precisam. Mas é assim mesmo. Os estóicos acreditavam que os professores não deveriam se casar (e não era questão de ser celibatário, mas de 'casar' mesmo), porque as obrigações domésticas tomariam muito do tempo deles. (Hoje a gente tem outras alternativas, as coisas estão mais automatizadas e acaba sendo uma questão de organização e prioridades.) De qualquer forma, quando você abre de verdade seu coração para essa totalidade, quando deixa de se sentir separado do resto, ao mesmo tempo em que você deixa de ter necessidade de estar sempre junto, você deixa de se sentir sozinho.

Já vi muitos casos de peregrinos que chegaram em centros religiosos (seja na Índia, em Compostela, numa tribo afastada etc) procurando se sentir unida àquelas pessoas porque "não há um grupo na minha cidade e eu queria ver como se faz", e o seu orientador (seja guru, seja sacerdote, xamã etc) dizer algo do tipo "se você praticar de coração, seja onde estiver, você estará praticando com todos nós". Portanto, não se sinta vazio porque está inseguro de não ter alguém olhando para ver se você fez certo. Não se sinta menor porque fez as coisas sem uma sequência ou porque seu rito foi muito rápido. Não pense que os deuses não compareceram, se aborreceram com a simplicidade da sua oferta e preferiram ir pro rito de outro 'banbanbam' qualquer do helenismo. Se Eles só pudessem estar em um lugar e momento por vez, não seriam lá muito dignos desse título de 'deuses', não?

A gente sempre vai encontrar dificuldades e dúvidas quando busca fazer as coisas de forma genuína. Quando elas surgirem, não transforme-as em pedras que atravancam seu caminho como se fossem desculpas para não tentar de novo. Não seja orgulhoso demais em admitir as próprias falhas, mas procure entender quais foram, escute-as como se estivesse ouvindo algo de um professor de verdade (porque no fundo está). Não existe um tempo fixo para dizer "daqui a dois anos eu vou entender completamente disso". Em qualquer momento a gente pode fazer besteira. A questão é aceitar e acreditar que aquilo pode ser um presente para nos transformar e nos fazer acordar para algumas coisas que antes não enxergávamos. Não fique confuso com as curvas sinuosas do caminho, pense nelas como um tempo extra que você ganhou para estar na estrada com Eles - afinal, curvas são mais emocionantes e duradouras do que as retas monótonas e previsíveis. Ter fé, aqui, é ter força para continuar por essa estrada.

Agora entra um 'ponto-porém' aqui. Embora você possa fazer algo você-Eles e embora não precise estar fisicamente onde outros estão, ainda é necessário existir alguém/algo que te oriente, o que implica em uma aceitação paciente e amável do que quer que se apresente. Se a gente aprende a prestar atenção (perscrutar) e agradecer por cada coisa, cada presente inesperado, cada folhinha esvoaçante, cada ideia inspiradora, certamente não deveríamos negligenciar a orientação voluntária de um professor instruído, criterioso, informado. Cada coisa ou pessoa que vem à sua frente deveria ser tomada com um amor e devoção sinceros. Nossos 'mentores' são ligações importantes, são laços personificados com os caminhos divinos que vão se desdobrando em nossa direção, se revelando além das névoas do desconhecido. Não dá para achar sua cadeira no teatro desse espetáculo sem um lanterninha pra te guiar, e nem dá para encontrar um bom lanterninha se você não demonstrar a intenção de vislumbrar - admirado - o espetáculo.

Convém lembrar também que o lanterninha, o professor, o orientador, é um ser humano. Ele espera uma conexão. Você saberia responder o que ele acha mais importante no momento? Você pensa sobre as coisas que ele lhe apresenta? Você é honesto ao contar-lhes suas experiências e reflexões? Você se coloca no lugar dele e pensa também no que ele faria no seu lugar? Você agradece a ele? Você demonstra o que ele significa para você? O que você oferece em troca? Qual a sua contribuição nesse 'banquete'? Concentração, empatia e gratidão podem fortalecer e tornar as relações mais leves, mais alegres... Pra que esperar uma crise para precisar sentir a falta e tentar correr atrás de recuperar o perdido? Aproveite o tempo que você tem com os que se dispõem a caminhar com você. E pise com gentileza pela trilha. Valorize suas conexões. Todos podemos aprender uns com os outros -- ou, como pregaria Platão, ajudar a nos lembrarmos do que sempre soubemos.

Pensando nisso, o RHB está formando orientadores. No próximo ano civil eu espero que já os tenhamos mais disponíveis. A princípio eles já podem responder suas dúvidas e atuar como oráculos. Mas nossa intenção é ir além e ajudar cada vez mais, com organização e disciplina. Já ouvi falar que algumas pessoas se identificam mais com este ou com aquele outro, e acredito que essa afinidade ajuda na motivação. Assim, sugiro que vocês já vão conhecendo nossos queridos voluntários e criando seus laços com eles. Até porque eles irão formar outros. Ainda sonho com uma rede que não é corrente, com uma rede flexível e firme o bastante para não deixar ninguém se machucar ao dar um passo em falso no trapézio. É essa rede que eu espero formar para o nosso grupo. Uma rede com laços mas sem nós, mais resistente que metal de elo de corrente que machuca, e mais macia também.

Parece que comecei falando de uma coisa e fui puxando outra e acabei formando um texto-tricô, rsrs. Mas acho que no fim das contas o sentido dessa malha foi capturado e vai te ajudar a enfrentar o frio. Ao menos conto com isso. Porque a gente não é e nem está sozinho. 

;))

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