agosto 23, 2026

Afrodite, Pombinhas e Perfumes

 


Agora essas rolinhas me apareceram na ornitomancia diária. Novamente um casal, sinal de fertilidade e prosperidade. Casais aparecendo em sequência pode ser sinal de Afrodite? Ainda mais agora que são pombinhas? Então vamos falar sobre ela, a bela Afrodite se casou com Hefesto - o deus que cria coisas belas.   

Walter Burkert escreveu em 'Greek Religion' (II Ritual and Sanctuary - Working Sacred Things - Fire Rituals) que "nada confere a uma ocasião um caráter mais único e inconfundível do que uma fragrância distinta; o fogo não apela apenas à visão, à audição e à sensação física, mas também ao olfato. O sagrado é vivenciado como uma atmosfera de fragrância divina". Acredito que Afrodite tem muita relação com cheiros e com outras sensações dos cinco sentidos, como o canto e a música. Burkert também escreve que "as oferendas de incenso e os altares estão associados, em particular, aos cultos de Afrodite e de Adônis; apropriadamente, a primeira menção ao olíbano encontra-se naquele poema de Safo que evoca a epifania da deusa Afrodite em seu bosque de macieiras e rosas, entre galhos que tremulam e altares onde queima o incenso".

Pausanias ('Descrição da Grécia', 1.27.3) conta sobre um santuário a Afrodite chamado de Afrodite nos Jardins, com uma descida subterrânea. Escavações na encosta norte da Acrópole feitas por Oscar Bronner parecem ter encontrado essa passagem. Já na encosta sudoeste da Acrópole, havia um santuário a Afrodite Pandemos (a 'de todos os povos', a comum, a que une os povos), e era ali que acontecia o banho da estátua da deusa, durante o festival de Afrodisia. Nessa ocasião, outra imagem de culto que era banhada junto à de Afrodite era a da deusa Peitho (Persuasão). O banho também me lembra cheiro. Com relação a essa deusa, Erika Simon, em 'Festivals of Attica - An Archeological Commentary' (pag.50), diz que Peitho não acompanha Afrodite apenas em questões de amor, mas também na política. Nas tragédias de Ésquilo, as duas poderosas deusas se ligavam mais a a questões políticas do que de poder erótico. Perto do fim da trilogia Oresteia, Atena invoca duas vezes Peitho na situação crucial em que ela finalmente consegue persuadir as Erínias. 

Mas, voltando aos cheiros, no fragmento DK 128 de Empédocles, preservado por Porfírio em 'Sobre a Abstinência', Empédocles explica que houve uma época em que os humanos viviam sob os auspícios de Afrodite e que ofereciam à deusa apenas pinturas, perfumes e ofertas sem sangue. O filósofo contrasta essa era de ouro com a prática abominável das hecatombes, vistas como crimes que trazem culpa e impureza. Eis o trecho:

ἀλλὰ Κύπρις βασίλεια.
τὴν οἵ γ’ εὐσεβέεσσιν ἀγάλμασιν ἱλάσκοντο
γραπτοῖς τε ζῴοισι μύροισί τε δαιδαλεόδμοις (5)
σμύρνης τ’ ἀκρήτου θυσίαις λιβάνου τε θυώδους,
ξανθῶν τε σπονδὰς μελίτων ῥίπτοντες ἐς οὖδας·
ταύρων δ’ ἀκρήτοισι φόνοις οὐ δεύετο βωμός,
ἀλλὰ μύσος τοῦτ’ ἔσκεν ἐν ἀνθρώποισι μέγιστον,
θυμὸν ἀπορραίσαντας ἐ<ν>έδμεναι ἠέα γυῖα 
Para eles, nem Ares nem Kydoimos [o tumulto da batalha] eram deuses,
nem Zeus, o rei, nem Cronos, nem Poseidon;
mas Cipris [Afrodite] era a sua rainha.
A ela agradavam com presentes de devida reverência:
com imagens de animais e perfumes de fino labor,
com ofertas queimando em pura mirra e incenso de doce aroma,
e derramando mel dourado sobre o solo.
O altar não se banhava no sangue puro dos touros,
pois tal ato constituía a maior das abominações entre os homens:
extirpar a alma e devorar os membros nobres.

Em 'Inner Purity and Pollution in Greek Religion' de Andrej e Ivana Petrovic, o poder de Afrodite é descrito como "irresistível, universal e que se infiltra em tudo". De novo isso me evoca um perfume. 

Então me lembrei do estudo publicado na revista científica Oxford Journal of Archaeology, em que a pesquisadora Cecile Brøns buscou documentos antigos descrevendo a prática de perfumar estátuas - tanto com cera e rosas quanto com óleos naturais, e percebeu que essa atividade era mais comum do que já se pensava. Ela encontrou vários textos gregos e romanos. Uma das fontes foram inscrições em diversos templos antigos em Delos, na Grécia, que descrevem o uso de um perfume chamado Myron rhodion, uma fragrância feita de rosas. No Hino Homérico V a Afrodite, a atividade da kosmesis (ato de enfeitar) com óleos protetivos é descrita no santuário da deusa na ilha de Pafos. O hino está lá no site helenos, e o trecho diz:

 E quando depois o viu, Afrodite que ama o sorriso
 o desejou, e a paixão capturou profundamente o seu ânimo
 Foi em direção à Chipre, e entrou no perfumado templo,
 em Pafos, onde possui um santuário e um altar perfumado.
 Quando entrou, fechou a porta resplandecente,
 e as Graças a banharam, e a ungiram com um unguento sobrenatural
 que oloriza os deuses que vivem eternamente,
 divino, dolce, que foi perfumado para ela.
 E depois de haver bem vestido todas as suas belas vestes,
 adonar-se de ouro, Afrodite que ama o sorriso
 se apressou em direção à Tróia, deixando o jardim perfumado,
 e cumpriu rapidamente a sua viagem, no alto, entre as nuvens.

Assim, ao prestar culto à deusa, considerem (e isso me inclui em uma próxima oportunidade) focar bastante nas ofertas de fragâncias e odores, banhos e óleos, incensos e velas perfumadas. E com boa qualidade e pureza. Certamente ela irá gostar das honras e tender a nos ser favorável e propícia. 

Como ela mesma diz no trecho da peça 'Hipólito' de Eurípides:
τοὺς μὲν σέβοντας τἀμὰ πρεσβεύω κράτη,
σφάλλω δ’ ὅσοι φρονοῦσιν εἰς ἡμᾶς μέγα.
ἔνεστι γὰρ δὴ κἀν θεῶν γένει τόδε·
τιμώμενοι χαίρουσιν ἀνθρώπων ὕπο.
Àqueles que honram o meu poder, dou prioridade,
mas derrubo todos os que nutrem pensamentos de soberba para comigo;
pois ocorre também o seguinte entre a estirpe divina:
quando recebem honras dos humanos, eles se regozijam.
E que a inspiração da beleza nos tome sempre.

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