19.9.10

Coisas que me dão raiva (parte 3)

Postado por Alexandra Oliveira |

(parte 1) e (parte 2)
Inspirado em (ou suscitado por): Depois da Dança - Aquilo que se pode ofertar

Para 'variar', a terceira coisa que me dá raiva é também relacionado a estupidezes de pessoas que com certeza Platão colocaria no grupo ou dos ignorantes ou dos opiniáticos. Mais provável que neste último, já que eles não admitem desconhecer as coisas e sim dão suas sentenças em cima delas, baseados apenas em seus conceitos, preconceitos e achismos.

Alguns desses seres criticam quem compra comida pronta para ritual, porque - segundo eles - você não fez um sacrifício, e os deuses 'passariam longe' do seu rito. Eu não sei se essas pessoas ganham dinheiro sem sacrifício ou acham que cozinhar é uma droga, porque o meu é suado e pra mim culinária é um prazer.

Eu costumo usar as coisas que os deuses me apontam (além de saber quais aromas, plantas, símbolos, cores etc agradam a cada um deles). Imagina se você sugere discretamente ao seu amigo uma coisa pronta que você acha linda, dando a dica de ele comprar para você, aí ele vai e faz uma imitação ele mesmo. Não é a mesma coisa, você queria a que viu e não a que ele fez só porque ele teve o "sacrifício" de fazer sozinho. E nem vou passar longe do presente que ele me compra se ele batalhou pela grana que pagou pelo produto.

Esta semana eu comprei uma tigela com banho de prata, com alças tipo ânfora, com figuras que pareciam sereias de navio (com asas) abaixo das alças, lindíssima. Ela apareceu por acaso quando fui comprar verniz numa loja de construção. Isso pra mim é como os deuses me dando uma dica de como retribuir as milhares de coisas que Eles fazem por mim, e eu fico feliz de poder ser grata de alguma forma, com algo que Eles gostem e colocam na minha frente. Nessas horas eu não ligo se foi caro ou se o preço compensou o tamanho. Acho ridículo medir esse tipo de coisa quando é para os deuses que merecem o melhor que eu posso dar.

E não estou me contradizendo ao falar que usamos coisas simples e compradas, se essas coisas compradas forem mais elaboradas. Os deuses sabem o que podemos dar e o que eles querem receber. O aparato apareceu pronto na minha frente, não foi um amigo falando "encontrei alguém que faz réplica de metal pra gente" ou "encontrei um manual de fundição e uma forja para alugar". Eles sabiam que eu podia pagar por aquilo (que nem foi tão caro assim), e ao mesmo tempo eu poderia escolher não comprar, já que estava acompanhada (o que às vezes parece um teste de disposição/serviço), e cada vez menos eu deixo passar oportunidades ou fico com vergonha de alguma coisa. Aliás, faz muito tempo que não deixo passar, e já venho falando muito mais da minha crença com pessoas aleatórias do que antes.

Não sou dos que acham que os deuses só aceitam oferta em taça de cristal lapidado, mas também acho que deve-se ter respeito pelo relacionamento que vocês (indivíduo e deidade) têm. Isso significa seguir o que Eles estão te mostrando (incluso coisas para comprar) e respeitar quando Eles mostram algo para outra pessoa (não querer ficar imitando). Isso inclui não ficar perguntando pro seu amigo quanto custou e qual tamanho tinha o que ele conseguiu (como se medindo se vale a pena você comprar também quando a coisa não veio para você, sem contar quando é ele que vai ter que fazer tal serviço por você que não mora na mesma cidade).

Estava conversando com uma amiga sobre eu me irritar mais quando falam das pessoas que eu gosto do que de mim, então o post da Sarah e alguns comentários posteriores mexeram comigo a este ponto de vir falar aqui.

O que soa mais absurdo nisso tudo é pensar que esses sujeitos se acham uma espécie de "patrulha divina" e fica vendo foto dos ritos alheios para avaliar quem oferta o quê. Acredito que está na hora de eles olharem o seu, em vez de ficar 'curiando' os outros.

Essa postura de achar que um deus passa direto por uma oferta sem dar bola pro seu rito é ter uma visão muito servil (talvez resquício cristão) de deus, como se caso você não fizer direitinho você vai ter que se confessar e rezar tantas preces em penitência porque comprou a comida em vez de fazê-la. Nessas horas os deuses dessas pessoas não parecem os mesmos dos meus, porque os meus são pais, protetores, dedicados, orgulhosos donos dos 'bichinhos de estimação' que somos, que acham bonitinho quando você vai buscar o jornal e os chinelos deles, e não uma pessoa/deidade folgada sentada num trono observando e concedendo favores a alguém que fica ostentando (olha a hubris!) sua parafernália ritual em cristais dourados e dotes culinários excepcionalmente elaborados.


Piedade: amar a Ele (e não admirar a si mesmo).

Para os gregos (e tantas outras tradições), o certo é o métron, a justa medida, nada em excesso, a correção. Nisso constitui a virtude. O resto é vício. Então, nada de passar direto pelos sinais e fazer as coisas de qualquer jeito, mas também nada de achar que só vai "funcionar" se você fizer o que toma mais tempo e custa mais grana.

Com o tempo, você vai achando seu modo de saber onde é o ponto de equilíbrio da balança. Mas, para isso, como tudo na vida, a grande questão (e a grande resposta) é treinar. Só fazendo é que aprendemos a fazer, e isso requer prática constante, e não uma prática que fique esperando um dia que você tenha dinheiro e tempo para fazer. Lembrando os escoteiros, é preciso ficar "sempre alerta" e fazer uma 'boa ação' todos os dias...

2 comentários:

Jota Olliveira disse...

Lembro que há uns dois anos atrás, quando comecei a cultuar os deuses eu era desse grupinho que achava que 'qualquer coisa' não servia. Que só o melhor, mais caro, maior e mais bonito servia. Isso só me ferrou. Deixei de lado momentos ótimos que eu poderia viver por besteira.

Hoje é tão diferente... As vezes passo no mercado vejo uma ameixa que oferendo pra Zeus. Na maioria das vezes, aqui em SP, às sextas é dia de peixe nos restaurantes e não consigo deixar de pensar que estou banqueteando com Poseidon e Afrodite. Enfim... pequenas coisinhas que ganham proporções mais significativas não pelo valor ou quantidade, mas pelo simples momento de sentar a mesa, respirar fundo e ofertar minha primeira parte pra Héstia. Mesmo que as vezes, seja apenas uma gota da minha bebida derramada no guardanapo, quando o prato ainda não chegou à mesa.

Quem se prende ao grande, esquece de apreciar os menores momentos e não vive! I've learn it with U!

Espartana disse...

Trecho de um diálogo com um filósofo 'cínico' (no bom sentido):

"Cínico - Mas me diga uma coisa. Um homem rico, voluntária e amigavelmente, convida e recebe à sua mesa, ao mesmo tempo, muitas pessoas e em condições diversas, algumas doentes, outras saudáveis e oferecendo a elas muitas e variadas iguarias; se uma dessas pessoas avançasse em tudo e comesse de tudo, não só o que estivesse perto, como também o distante, reservado aos doentes e, mesmo sendo saudável, precisando de pouco para se nutrir e dono de um único estômago, ainda assim estivesse a ponto de se consumir pelo excesso, como julgaria tal homem? Razoável?

Licino - Não para mim.

Cínico - O que então? Sensato?

Licino - Isso também não.

Cínico - E se um outro conviva dessa mesma mesa, se abstendo da quantidade e da variedade, e dentre os pratos oferecidos escolhesse o mais próximo, bastante à sua necessidade, e o comesse comedidamente e só desse se servisse, não cobiçando os demais, não consideraria esse homem mais sensato e melhor do que aquele outro?

Licino - Claro.

Cínico - Compreende agora ou tenho que explicar mais?

Licino - O que?

Cínico - Que os deuses são bem parecidos com esse anfitrião, pois fizeram disponíveis muitas e diferentes coisas, de variados tipos, de modo que cada um tenha o que lhe é adequado: certas coisas para os que estão doentes, certas coisas para os que estão com saúde, umas para os fortes, outras para os que estão fracos e não para que todos nós nos sirvamos de tudo: a cada um uma coisa e mesmo assim conforme àquilo de que esteja mais necessitado.
Vocês, por causa da insaciedade e da intemperança, com aquele que avança em tudo são bem parecidos, pois julgam correto se apropriar de todas as coisas de todas as partes e não só do que está perto. Julgam não serem suficientes a própria terra e o próprio mar e lá dos confins do mundo importam prazeres e preferem o exótico ao comum, o caro ao barato e o custoso ao mais fácil. Em suma, escolhem mesmo ter problemas e males ao invés de viver sem problemas, porque essas coisas, motivo de tanta felicidade, conseguidas por alto preço e com as quais vocês se deleitam, vêm através de muito sofrimento e tristeza. É só olhar o cobiçado ouro, a prata, as casas caras, as roupas dispendiosas; olha bem tudo o que as acompanha, por quantas atribulações estão corrompidas, quantos sacrifícios, quantos perigos, e mais: por sangue, por morte e por destruição de homens. E isso não apenas porque muitos navegantes perecem ao ir buscá-las ou porque também os que as fabricam sofrem indignidades, mas principalmenteporque são objetos constantes de luta e por elas conspiram uns contra os outros, pais contra filhos e mulheres contra homens. Assim, penso, por ouro também Erifile traiu seu marido.
Tudo isso de fato acontece, embora mantos enfeitados não possam aquecer mais, nem casas de teto de ouro abrigar melhor, nem taças de prata tornar mais saborosa a bebida, nem as de ouro. Também leitos de marfim não trazem sono mais agradável: você verá, muitas vezes, sobre um leito de marfim e entre cobertas de luxo, felizardos incapazes de conciliar o sono. Sem falar que os requintes exagerados na comida em nada nutrem melhor, pelo contrário: prejudicam o corpo e nele provocam doenças."

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