12.9.10

Estado, política, eleições, cidadania, educação...

Postado por Alexandra Oliveira |

Como estamos em ano de eleição, resolvi comentar um pouco da reflexão que costumo fazer sobre a questão do Estado que Platão explicita em A República.

Sócrates dizia que formar um Estado não significava alcançar a felicidade de alguns, mas de todos, um cidade/unidade, e isso tem a ver com Princípios. Por isso, a Educação exerceria um papel fundamental, formando cidadãos íntegros, virtuosos, que respeitassem as leis, as regras, as normas, as tradições, os mais velhos etc. Um Estado perfeito deveria ter prudência, valor, temperança e justiça. E aí é preciso esclarecer o que cada um desses quatro princípios significa, já que precisamos definir as coisas antes de falar delas.

Prudência seria a sabedoria de acertar em suas deliberações, o que torna essa virtude essencial aos guardiões da cidade. Valor é a coragem e preservação de critérios sobre a natureza, uma virtude esperada nos guerreiros. Temperança é a harmonia, o equilíbrio, a ordem, o domínio das melhores partes sobre as inferiores (isso inclui dominar as paixões), virtude necessária à cidade inteira. Justiça é dar a cada um de acordo com sua natureza e merecimento, cada um fazer o que lhe compete por natureza e atos, ocupar-se do que é próprio, disciplinar-se, governar-se, ser amigo (e senhor) de si mesmo, harmonizar nous/psique/soma e sentir-se parte de uma unidade. A Justiça é uma virtude que todos e cada um deveriam seguir. Injustiça seria inverter os papéis, como esperar que um sapateiro vá para a guerra ou que um indivíduo irracional se transforme em líder.

Por essas coisas que imagino que hoje não temos um Estado. Para começar, os deputados não pensam no benefício de todos, cada um defende um segmento da sociedade o qual vota nele (professores, policiais, GLBT, evangélicos etc). Além disso, não temos uma educação de formação humana, e sim uma educação de formação intelectual/instrucional, na qual você só adquire conhecimento para passar em provas e entrar no mercado de trabalho; você não sai da escola uma pessoa melhor - boa, justa, equilibrada, virtuosa e tal. E o governo não demonstra ser justo, prudente, valoroso e com temperança.

Na Grécia Antiga (não em todas as pólis, mas na maioria delas), você precisava demonstrar por alguns anos o seu valor para poder receber o título de 'cidadão' (que pertence à 'cidade'), o que incluía o direito a votar. O que temos hoje é que qualquer pessoa que tire documento (certidão de nascimento) já passa a automaticamente a ser considerado cidadão, por mais vil que ela seja. E o voto, em vez de um direito concedido aos mais bem preparados, passou a ser obrigatório (um dever - nem sempre consciente) para todos.

Então eu sempre me entristeço ao ver o estado (sem Estado) em que nos encontramos. Para você ter uma ideia, os filhos dos guardiões do ideal platônico seriam considerados filhos de todos os guardiões, e criados por todos eles, assim evitar-se-ia o apego individualista; bem o contrário do tanto de nepotismo que temos hoje na política. Sócrates inclusive menciona que os ofícios não eram herdados, os filhos de guardiões sem aptidão eram deslocados a outros cargos e os filhos de outras classes poderiam se tornar guardiões. Muitas sociedades antigas tinham essa compreensão, de que cargo era questão de valor e não de parentesco.

Por isso também me irrito quando as pessoas pensam que o tempo melhora as coisas, que a modernidade é sinônimo de progresso. Nós melhoramos em tecnologia e talvez em tolerância, mas decaímos muito em humanidade e alma. Ainda assim, eu prefiro não acreditar no tal "bons tempos que não voltam mais" e imaginar que tudo é cíclico e um dia voltaremos a evoluir no que mais importa. Afinal, se o sonho do imperador Juliano não for só uma lenda, faltam apenas alguns séculos para a águia de Roma retornar do oriente e restituir-nos a cultura antiga do mediterrâneo...

3 comentários:

Edson Bueno de Camargo disse...

Convivemos com uma sociedade que perdeu o sentido da honra, os políticos são reflexos dela.

Incrível como Sócrates desvenda o mistério a mais de dois mil anos, e as "pessoas da sala de jantar" não enxergam.

As crianças são educadas para serem idiotas repetidores, e acabam por não se tornarem pessoas integrais, não tem equilíbrio suficiente para encontrar a felicidade.

Vivemos uma jornada do herói, em que a húbris vem antes do ato heroico, passamos para o excesso antes de fazer qualquer coisa pela comunidade.

Mandos Fëantur disse...

Faz muitos anos que li A República, mas lembro que um dos pontos chave era a forma como cada um seria educado. E esse é exatamente o principal ponto em que nossa sociedade falha hoje, e de onde decorrem os outros vícios. Eu sinto um frio na espinha cada vez que vejo candidatos falando em escolas técnicas, e preparar os jovens pro mercado de trabalho, mas nenhum fala em formação humana, desenvolver pensamento crítico, estimular a leitura, permitir acesso às artes ou qualquer outra coisa que se desvie do conceito de medir o ser humano pela sua força de produção.

Jota Olliveira disse...

Mandos concordo plenamente contigo. O governo segue um modelo de pensamento igual ao da Revolução Francesa onde foram criadas as escolas politécnicas visando ampliação do mercado.

Infelizmente a realidade do Brasil é essa: Formação de "peões" pro mercado. E todo mundo bate palma. Mas melhorar o ensino pra formar verdadeiros cidadãos que contribuem para a sociedade de maneira significativa: Jámais!

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