23.2.09

É carnaval, mas não O divido...

Postado por Alexandra Oliveira |

Acho que todos hoje em dia têm alguma noção da relação do carnaval com festivais pagãos antigos. O culto a Dionísio inspirava rituais onde mulheres dançavam, o teatro dele usava máscaras, o seu vinho levava a estados alterados de sair de si movido pela alegria, a loucura sombria se alternava com profundos silêncios, a natureza da vinha e dos sucos era celebrada, e o deus guardava uma relação especial com as mulheres, especialmente com Ariadne. Era um deus cujos mitos e festas simbolizavam uma nova vida (dio-nisio, o que nasceu duas vezes) e cujos mistérios - junto aos de Deméter - eram dos mais enigmáticos de todos.

Em Roma, os mistérios de Baco emergeram do deus italiano da fertilidade, Liber. O culto romano enfatizava os aspectos sexuais da religião e as provações assustadoras inventadas pelas deidades ctônicas para a iniciação ao seu Mistério. Por esse motivo, as autoridades romanas o baniram em 186 AEC*, alegando atividades criminosas (abuso sexual, assassinato, corrupção), por mais que as acusações não fossem comprovadas e que a opinião geral fosse de que eram apenas desculpas para deter um culto que era visto como perigoso para o Estado. O Senado Romano baniu os ritos ao deus por todo o Império e restringiu seus encontros a nada mais e um pequeno grupo de pessoas sob uma licença especial em Roma. Porém, isso só serviu para transformar o culto em algo mais 'underground', realizado em segredo.

Os ritos ganharam ainda mais infâmia quando afirmaram que a esposa de Spartacus (líder da revolta escravagista de 73 AEC) era uma iniciada nos Mistérios Trácios de Dionísio. Mas eles foram revividos por Júlio César em 50 AEC, com Marco Antonio se tornando um entusiástico devoto e ganhando mais apoio popular no processo. Tais cultos continuaram então a existir, junto com as procissões carnavalescas de rua, e foram implantados na maioria das provincias conquistadas pelos romanos.

O que vemos hoje, porém, destituiu-se quase que completamente do seu caráter religioso, tornou-se algo "profano" e sem sentido. Pode-se até esperar uma renovação da vida após o carnaval, realizado entre o começo do ano civil e o começo do ano astrológico, pode-se pensar no carnaval como a esperança retida na caixa de Pandora, de uma igualdade social em meio à celebração, e pode-se também lembrar das palavras de Blavatski ao dizer que "Dionísio é preeminentemente a deidade em quem eram centradas todas as esperanças para a vida futura" ('Ísis sem Véu'), mas na mesma frase ela também afirmava que "ele era o deus de quem se esperava que liberasse as almas dos homens de suas prisões de carne", e isso é praticamente o oposto do que se faz hoje, fazendo do carnaval uma festa do êxtase da carne, e não do êxtase espiritual que vence as limitações do corpo.

Não sei se isso é ruim ou é bom, porque por um lado me satisfaz saber que não temos que dividir nosso amado deus com quem não se digna de recebê-lo. Por esse período, faço-me amante egoísta do deus mais livre que há. Então, nestes dias fico com os versos do primeiro canto dos dez que a "escritora maldita" lhe dedicou, e peço que Ele nem apareça:
"(...) Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência."

(Hilda Hist, 'Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, de Ariana para Dionísio')

*AEC = Antes da Era Comum, datação utilizada para evitar conotações religiosas.
[Imagem: Dionísio, de Tintoretto]

3 comentários:

Filhote de Lua disse...

"Não sei se isso é ruim ou é bom, porque por um lado me satisfaz saber que não temos que dividir nosso amado deus com quem não se digna de recebê-lo. Por esse período, faço-me amante egoísta do deus mais livre que há."

adoro... e aprovo =)
é o que eu faço... embora eu sempre ache, a cada dia do ano, um motivo diferente para fazer isso de algum jeito.

Luciana Onofre disse...

muito bom o texto

DarkWill Shadowdance disse...

Amei o texto, é isso aí, às vezes é necessário sermos egoístas mesmoooooooo!!!!
Imaginem que merda não seria gente cultuando Dionísio, ouvindo pagode,kkkkkkkkkkkkkk
Por isso tb sou filho e devoto egoísta!!!!
É o que tô fazendo...=)

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