agosto 06, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 4

Uma característica primordial dos mistérios é o 'makarismos', a exaltação do estado abençoado daqueles que "viram" os mistérios. Essas "testemunhas oculares" eram chamadas de 'epoptai'. Os festivais de mistério devem ter sido eventos inesquecíveis, daqueles que proporcionam experiências que mudam nossa existência e influenciam toda uma vida futura. O efeito esperado era de que algo estivesse prestes a acontecer na alma, como um encontro com o divino. Psicologicamente falando, era uma experiência de mudança de consciência, bem diferente de algo que se encontraria na vida cotidiana. Nesta postagem, veremos algumas afirmações dos antigos sobre os mistérios.

Aristóteles dizia que no estágio final dos mistérios, não haveria mais "aprendizagem" ('mathein') e sim "experiência" ('pathein') e uma mudança no estado mental ('diatethenai'). Um prato dourado de Thurii trazia as palavras "fique feliz de ter sofrido o sofrimento que você nunca sofreu antes". Aelius Aristides diz que Eleusis era tanto a experiência mais assustadora quanto a mais resplandecente entre tudo o que é divino para o ser humano. Dio de Prusa foi ainda mais explícito:
"Se alguém trouxesse um homem, grego ou bárbaro, para ser iniciado em um retiro místico, sobrepujado por sua beleza e tamanho, de forma que ele presenciasse muitas visões e ouvisse muitos sons do tipo, com escuridão e luz aparecendo em repentinas mudanças e outras coisas inumeráveis acontecendo; e mesmo - como fazem na chamada cerimônia de entronização ['thronismos'], nas quais os iniciandos se sentam e os outros dançam em torno deles - se tudo isso estivesse acontecendo, seria possível que tal homem não conseguisse experimentar simplesmente nada em sua alma, que ele não viesse a conjeturar que há algum plano e percepção mais sábios em tudo aquilo que estava acontecendo, mesmo tendo ele vindo da mais extrema barbárie?"
O filósofo estoico Cleanthes fazia essa comparação do cosmo conhecido (a dança das estrelas e do sol em torno da terra) com um salão de mistério. Sopatros, numa descrição retórica da experiência de Eleusis, disse que saiu do salão dos mistérios sentindo-se um estranho a si mesmo. Marco Aurélio colocava os mistérios numa categoria entre as visões oníricas e as curas miraculosas. 

Dio Crisóstomo descreve os estranhos aos portões do salão como servos dos mistérios, os quais, do lado de fora das portas, adornavam os pórticos e os altares públicos, mas que nunca entravam; eles ainda percebiam algumas das coisas acontecendo lá dentro, seja uma palavra mística que alguém gritava, seja o fogo que era visto sobre os muros, mas eles continuavam sendo servos, e não "iniciados" ('mystai').

Diz-se que Diágoras de Melos teria contado pelas ruas segredos dos mistérios, assim como um escritor gnóstico naasseno da "seita da serpente" teria exposto segredos. Assim, temos dois lampejos da celebração: "os atenienses, celebrando os mistérios Eleusinos, mostram aos 'epoptai' o grande, admirável e mais perfeito segredo epóptico, em silêncio, uma espiga de milho ceifada" e "O hierofante, na noite em Eleusis, celebrando os grandes e inexprimíveis mistérios ao pé de um grande fogo, gritando que A Senhora deu à luz um filho sagrado, Brimo gerou Brimos". 

Plutarco tenta descrever o presumido processo de morte em termos de uma iniciação nos mistérios. Ele diz que, no momento da morte,
"a alma sofre uma experiência similar a aqueles que celebram grandes iniciações... Perambulações errantes no começo, cansativas caminhadas em círculos, alguns caminhos aterrorizantes na escuridão que não levam a lugar nenhum; e então, imediatamente antes do fim, todas as terríveis coisas, pânico e tremedeiras e suor, e assombro. E então alguma luz maravilhosa vem te encontrar, regiões puras e prados estão lá para te saudar, com sons e danças e solenidades, palavras sagradas e visões sacras; e ali o iniciado, agora perfeito, se liberta e se solta de toda servidão, caminha em torno, coroado com uma grinalda, celebrando o festival unto com as outras pessoas sagradas e puras, e ele olha para baixo, para os não-iniciados, para a multidão não-purificada neste mundo, em lama e névoa debaixo de seus pés".
Um dos textos mais influentes sobre a experiência dos mistérios aparece no "Fedro" de Platão. Já em "O Banquete", quando Eros revela sobre o verdadeiro Ser, diferenciando a "iniciação preliminar" ('myein') e os "mistérios perfeitos e epópticos", ele provavelmente estava se referindo a Eleusis. Em Fedro, Platão acrescenta a imagem inesquecível da carruagem da alma subindo até o céu no despertar dos deuses, para cima do mais alto cume, onde uma visão além do céu é possível. Alguma memória turva dessa visão permanece em certas almas, ressurgindo repentinamente através de algumas imagens de beleza encontradas neste mundo. Quando isso acontece, nos lembramos do quão resplandecente era a beleza que vimos, quando estávamos juntos com o coro abençoado, tendo uma alegre visão, celebrando o encontro na iniciação mais abençoada de todas, como 'mystai' e 'epoptai', felizes aparições de puro esplendor, totalmente purificados. 

O único relato de experiência com os mistérios escrito em primeira pessoa foi o da iniciação a Ísis, feito por Apuleio, em "Metamorfoses". Porém, além de ser um texto de ficção, em um estilo meio de romance paródico, ele é figurativo e jocosamente insinuativo, com a clara intenção de frustrar nossa curiosidade. Eis a introdução de uma das partes mais citadas:
"Eu me aproximei da fronteira da morte, eu coloquei os pés na trincheira de Perséfone, eu passei por uma jornada através de todos os elementos e voltei. Eu vi à meia-noite o sol, brilhando em luz branca, eu me aproximei dos deuses do mundo superior e inferior, e os adorei de perto."
O poeta Mesomedes, em seu Hino a Ísis, se refere a um "casamento subterrâneo" e ao "nascimento de plantas" - o que nos lembra Perséfone - e a "os desejos de Afrodite, o nascimento de uma criança, o perfeito e inenarrável fogo, os Curetes de Reia, a ceifa de Cronos, o auriga - tudo isso sendo dançado para Ísis". O nascimento da criança e o grande fogo, a colheita do grão, e o auriga Triptolemo, claramente são cenários eleusinos. Mas claro que esse resumo mítico não substitui a experiência.

A "senha" ('synthema') para os Mistérios de Eleusis, que conhecemos por transmissão de Clemente de Alexandria, era algo intencionalmente enigmático: "eu jejuei, eu bebi do 'kykeon', eu tirei do cesto coberto ['kiste'], eu trabalhei e coloquei de volta no cesto alto ['kalathos'], e dali para dentro de outro cesto ['kiste']". O que significa esse "trabalhar" é incerto, mas a explicação mais plausível vem de Teofrasto, sobre pilar o grão, como se o iniciado tivesse que triturar um pouco de grão em um pilão. O simbolismo desse ato é que continua obscuro.

Clemente também fala que, nos mistérios da Méter, o 'synthema' era parecido, mas se referia a instrumentos musicais: "Eu comi do 'tympanon' [tambor/pandeiro], eu bebi do 'cymbalon' [címbalo/pratos], eu carreguei o 'kernos' [vasilha] da mistura, eu deslizei sob o 'pastos' [pálio/dossel]" ou, em outra versão, "eu me tornei um 'mystes' [iniciado] de Átis". Aqui o pálio/dossel (cortina da cama) provavelmente é uma alusão a casamento.

Ainda nos mistérios da Magna Mater, o famoso 'taurobolium' é na verdade descrito por autores cristãos: o iniciando, agachado em um poço, é inundado com litros de sangue do touro agonizando acima dele. Ainda assim, se a descrição era mesmo fiel, esse emergir do poço e ser "adorado" pelos outros, como se o iniciado tivesse alcançado um estado superior, certamente provocava um sentimento de liberação e de nova vida, após escapar do horror anterior.

Os mistérios de Mitra são quase sempre algo à parte. Para começar, não havia uma única iniciação, mas sete graus de iniciados: o corvo, a crisálida, o soldado, o leão, o persa, o corredor-do-sol, e o pai. Respectivamente: 'korax/corvus', 'nymphus', 'stratiotes/miles', 'leo', 'Persa', 'heliodromus', 'pater'. Então fica mais complicado falar do culto mitraico aqui.

Um testemunho relacionado com iniciações dionisíacas enfatiza a purificação e a mudança de status ou até de identidade. No discurso de Demóstenes contra Ésquines, encontramos relatos sobre uma cerimônia noturna a qual incluía colocar uma pele de gamo/cervo e encher um 'krater' (jarra em forma de taça) com vinho. Ali, os iniciandos, sentados, são então lambuzados com uma mistura de barro e resíduos de cereais; o sacerdote surge da escuridão como se fosse um espírito aterrorizante; os iniciados são limpos e se erguem de pé, exclamando "eu escapei do mal, eu encontrei algo melhor", e os presentes gritavam em uma voz aguda e alta ('ololyge') como se estivessem na presença de algum agente divino. Na manhã seguinte, os iniciados eram integrados ao grupo de celebrantes, com o 'thiasos' se movendo pelas ruas, pessoas coroadas com funcho (erva-doce) e álamo/choupo branco, dançando e pronunciando gritos rítmicos, carregando o 'kiste' (cesto) e o 'liknon' (peneira), e alguns brandindo serpentes vivas. O terror teria se tornado algo administrável para o iniciado.

Há uma interessante iconografia referente às iniciações a Dioniso, a começar pelo famoso afresco da Vila dos Mistérios em Pompeia (vide imagem abaixo) e os relevos da Vila Farnesina em Roma, e passando por relevos arquitetônicos, cenas em sarcófagos, e um mosaico na Algéria que enfeitava um aposento de culto. O item mais intrigante dessas imagens é um imenso falo ereto em uma peneira ('liknon'), coberto por um pano, sendo desvelado ou por uma mulher ajoelhada ou por um sileno em frente de um rapaz que avança. [De uma forma geral, procissões com falo sempre estiveram presentes no culto a Dioniso. Mas um falo não era um segredo maior do que uma espiga de grãos; o mistério não estava no objeto.] O friso da Vila segue uma sequência: começa com uma mulher entrando pela esquerda e prosseguindo até a purificação, um breve idílo de vida satírica, a revelação misteriosa do deus no centro do mural, duas manifestações principais de Dioniso (sátiros manipulando uma tigela prateada e uma máscara, e uma garota desvelando o falo), depois uma cena de flagelação e uma dança frenética (indicando uma espécie de humilhação e a alegria/êxtase final).



Enfim, existia um paradoxo dinâmico de morte e vida nos mistérios, associado com os opostos de noite e dia, escuridão e luz, abaixo e acima, mas nada explicitamente parecido com uma "ressurreição" semelhante aos evangelhos cristãos. Burkert ressalta que, mesmo havendo purificação e aspersão de água, no paganismo não existiria um "batismo" no sentido de imersão em um rio ou bacia para renascer para uma nova vida. Mesmo nos santuários de Ísis, onde havia um receptáculo de água, o que poderia parecer uma referência ao batismo, o que existia mesmo era o uso dessa água para representar a enchente do Nilo. Lembrem que o helenismo não pertence a um mundo de opostos do tipo "bem x mal", um vencendo o outro, e sim de uma busca pelo equilíbrio, pela justa medida, pois é no 'métron' que reside a virtude.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

agosto 01, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 3

As fontes literárias sobre os mistérios, por serem mistérios, são todas indiretas. Não se trata apenas de dizer que uma biblioteca específica sobre os mistérios nunca foi encontrada, porque na verdade ela nunca existiu. Os tipos de textos que restaram, dos quais se procura extrair alguma coisa sobre os mistérios, são principalmente três: escritos herméticos/gnósticos, papiros mágicos, e os romances gregos. Cada um tem seus próprios problemas em servirem como fonte.

A interpretação dos romances como textos de mistérios é algo meio recente. Eles não raro introduzem cenas elaboradas de rituais religiosos, com descrições vívidas da religião antiga, mas é difícil saber se isso era só por efeito literário ou indicava um envolvimento mais profundo real, e também saber se tratava-se de um tema isolado ou de símbolos que pertenciam à estrutura do todo. Um dos romances que mais tinham uma dimensão religiosa, o "Etiópica" de Heliodoro, não centra propriamente nos mistérios, mas no culto de Hélio. Ou seja, os romances serviam pelos detalhes ilustrativos, mas não podiam ser usados independentemente como chave para os mistérios.

No caso da literatura hermética/gnóstica, apesar de pré-cristã, ela não é pré-judaica, ela era ligada ao judaísmo helênico. O tratado de Poimandres que abre o Corpus Hermeticum, tem um "background" judaico-cristão. Nela, os elementtos pagãos são modificados pelo filtro de um sistema religioso que difere radicalmente do ambiente dos mistérios pagãos antigos. 

O interesse nos papiros mágicos começou com um livro que contava dos mistérios de Mitra como se fosse uma viagem particular em busca de uma revelação oracular, e não um rito de mistério propriamente. Os livros mágicos encontrados no Egito praticamente não tem nenhuma relação com Eleusis ou Dioniso ou com a Magna Mater. Uma das grandes diferenças entre religião e magia aqui é que: enquanto os mistérios integravam o iniciado em um grupo, os magos "continuavam solitários entre seus sonhos de onipotência, almejando ao mesmo tempo finalidades práticas de conhecimento do futuro, posse de riquezas e concubinas" (Walter Burkert, Ancient Mystery Cults, pag.68). A cura ficava em segundo plano nos papiros mágicos, deixada para Asclépio ou para a medicina científica. 

Aristóteles uma vez disse que aqueles que passam pelos mistérios não deveriam "aprender" ('mathein'), mas sim "serem afetados", "experienciarem" ('pathein'). Ainda assim, existem alguns testemunhos sobre a "aprendizagem" ou "transmissão" preparatória que acontecia nos mistérios. A palavra/razão/discurso ('logos') tinha um importante papel a desempenhar, e a prescrição de "não contar" o que se via nos Mistérios acontecia porque a verbalização tinha um papel central nos procedimentos. Era como um "relato sagrado" ('hieros logos'). O estóico Crisipo considerava a transmissão do 'logos' sobre os deuses (ou seja, a "teologia") como sendo a essência da iniciação. Isso pode ser percebido também em Empédocles, Parmênides, e no discurso de Diotima em "O Banquete" de Platão. Porém, mesmo havendo a possibilidade de existirem livros ou arquivos, não existia uma biblioteca de teologia; afinal, o culto da Méter e os Mistérios Eleusinos eram mais como uma tradição familiar.

O fato de existirem 'logoi' e até textos escritos nos mistérios, como em outros cultos pagãos, não significa que esses textos formassem a base de religião - do jeito que acontece com a bíblia, o torah e o alcorão no caso do cristianismo, judaísmo e islamismo, respectivamente. Conforme conta Platão em "Meno", quando Sócrates introduz a doutrina da metempsicose, ele finge ter aprendido isso de "homens e mulheres que são sábios sobre as coisas divinas", de "sacerdotes e sacerdotisas que zelam por serem capazes de dar um relato do que eles estão fazendo". Isso implica que existiam também sacerdotes e sacerdotisas que não zelavam pelo que faziam e simplesmente executavam suas manipulações sem nenhuma explicação, nenhum 'logos' a ser comunicado aos outros. Esse relato, no entanto, não era fixado pela tradição, e nunca se tornava um dogma; nem mesmo havia uma organização por trás para controlá-lo. No papiro de Derveni, há uma passagem em que o autor reclama de certos oficiantes dos mistérios privados que só tomavam dinheiro sem conduzir seus clientes ao conhecimento; clientes estes que eram tímidos e confusos demais até para fazer perguntas, e por isso que perdiam seu dinheiro e sua esperança de alcançar o conhecimento. 


Existiam também três tipos de 'logoi': mito, alegoria natural, e metafísica. 

Martin Nilsson, que costuma negligenciar a importância do mito para a religião, ao falar sobre Eleusis, admite que "o mito tinha um efeito pervasivo incomum na religião de Deméter". Mas o mesmo podemos dizer da Méter, de Dioniso, e de Ísis. No caso dos mistérios órficos de Dioniso, o mito mais relevante para eles é o do seu nascimento de Perséfone e seu massacre pelos Titãs. A maioria dos mitos ligados aos mistérios, aliás, é de um deus que passa por um 'sofrimento': Perséfone abduzida, Dioniso retalhado, Osíris morto; e depois um luto que termina com uma alegria do retorno: tochas brandindo pela retorno de Perséfone à sua mãe, o dia de júblio ('Hilária') no festival da Magna Mater, a festa pela alegria de Ísis ao reencontrar Osíris. Essa rota da catástrofe à salvação parece lembrar o iniciado para ser confiante, pois assim como o deus se salvou você também vai se livrar dos seus apuros. Mas cuidado para não confundir isso com ressurreição inspirada num ciclo agrário (como pensava Frazer), pois não há evidência de Átis ter ressuscitado, Osíris continua entre os mortos, Perséfone vai e volta todo ano... Ou seja, não há nada que explicite uma ressurreição, embora existam relatos de deuses que podiam morrer e voltar nos mitos não relacionados com os mistérios. Hércules sofreu, morreu, ascendeu ao Olimpo, mas não se criou um mistério de Héracles por isso. E nos Mistérios de Mitra não tem nenhum mito de um "deus que sofre". Plutarco dizia que os sofrimentos de Ísis, ao serem reencenados, deveriam ser uma lição de piedade/devoção e um consolo para homens e mulheres que se vissem em situação similar de sofrimento. O mito também comunicava uma experiência viva que era reencenada: se Deméter jejuou de tristeza no mito, o iniciado de Eleusis também se abstinha de comida até a primeira estrela ser vista no céu; se Deméter acendeu tochas nas chamas do Monte Etna, eles também carregavam tochas; se ela se sentou num banquinho e velou sua cabeça, mantendo o silêncio e depois rindo e provando do kykeon, eles também o faziam. Os seguidores de Ísis a imitavam batendo no peito e pranteando Osíris, pra depois comemorarem quando ele era encontrado novamente. Os castrados da Méter também personificavam Átis e, uma vez que acreditava-se que Átis tivesse morrido debaixo de um pinheiro, essa árvore era levada ao santuário com fitas penduradas em seus galhos para representar as ataduras com as quais a Méter tentou estancar o sangue de Átis, e ela o enfeitou com flores primaveris, como as flores que se penduravam nas árvores. Nos mistérios de Dioniso, os iniciados usavam guirlandas de álamo preto porque acreditava-se que essa árvore crescia no mundo inferior, lar do Dioniso Ctônico. Quando Platão fala da amizade que surge entre os companheiros de iniciação nos mistérios, esse tipo de comunidade é chamada de "parentesco de almas e corpos" ('syngeneia psychon kai somaton'). 

A alegoria normalmente era considerada uma espécie de raciocínio sofístico, um exercício de retórica, em vez de um genuíno sentimento ou perspectiva religiosos, mas existem dois caminhos na elaboração de uma alegoria: há a conceituação abstrata vestida com uma roupa quase-mística de um lado, e há um relato tradicional que é parcialmente decodificado com referência a um sistema mais racional de pensamento. Na verdade, é a visão de mundo pré-socrática, centrada na Natureza ('physis'), e refinada (embora não alterada) pelos estóicos, que vem a ser o sistema de referência para a alegoria grega. Na era helênica, a alegoria era inclusive normalmente chamada de "mística". Os seguidores de Heráclito acreditavam que "a natureza deseja ser ocultada", se referindo aos segredos dos mistérios. A alegoria, portanto, era mais necessária nos mistérios do que em cultos menos secretos. Se a natureza era "misteriosa", então toda alegoria feita em um contexto religioso poderia ser chamada de "mística". Se tentarmos focar não no uso retórico das metáforas e sim no próprio fenômeno refletido em seu uso/aplicação, podemos fazer duas observações: primeiro, ao alegorizar os mistérios em termos de natureza, os sacerdotes e sacerdotisas poderiam dar um relato do que estavam fazendo. Por exemplo: em Eleusis, poderia-se reconhecer Deméter como a Mãe Terra e Perséfone como um grão que é levado para baixo da terra e retorna de uma maneira cíclica a cada ano; no Egito, Osíris estava ligado ao Nilo e Ísis à Terra; as iconografias mostram Mitra como um sol; nos mistérios da Magna Mater, os 'galloi' se cortavam para representar as feridas causadas na terra pelo arado - ou seja, esse aparente "ato de loucura" tinha uma explicação alegórica. Foi assim que a alegoria abriu caminho para a liturgia (do grego λειτουργία, "serviço/trabalho público"). 

No caso da metafísica, ela seria um nível mais elevado de interpretação. Aqui, acreditava-se que os princípios do universo não poderiam ser incorporados; ou seja, nem a terra nem a água poderia ser divinas por si só, e sim seriam permeadas por potências superiores. Os princípios de criação e união e os de dispersão e aniquilação trabalhariam juntos na matéria, a qual receberia seus impactos. Assim, os eleusinos estariam menos preocupados com o destino de Kore (mito) e a semeadura do grão (alegoria) do que com alguns procedimentos do hierofante no grande festival noturno. O estranho fenômeno da castração nos cultos à Méter não era só por conta do debulhar (mito) ou do cortar da terra (alegoria), mas trazia uma fascínio mais sublime relacionado à evolução do ser transcendente: o iniciado não pode mais gerar porque ele já chegou ao seu ápice em termos de procriação e agora precisa se estabilizar da forma mais segura possível para poder voltar às suas origens - além de representar uma tentativa de deter o fluxo de mudanças que conduziria a uma transformação do mundo a algo não mais ligado à natureza. 

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

julho 30, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 2

Os antigos cultos de mistérios não eram uniformes, havia diferenças importantes entre eles, com relação inclusive à sua organização social, mas nenhum se aproxima do modelo cristão de uma igreja ('ekklesia'), e muito menos se poderia falar de "religiões" separadas e autossuficientes. Ainda assim, de uma forma didática, podemos separá-los em três tipos principais de organização na prática dos mistérios: o praticante itinerante ou carismático; o clero pertencente/ligado a um santuário; e a associação de cultuadores na forma de um "clube" (o 'thiasos').

O primeiro, o itinerante carismático, possuía um estilo de vida mântico e místico. Tratava-se de um vidente e sacerdote andarilho, que lidava com purificações e iniciações. Nos papiros Derveni, ele é caracterizado como "aquele que torna sacra a habilidade" - um artesão da religião, ou seja, alguém que aprende o ofício de um mestre, de um 'pai' real ou espiritual, e depois trabalha sozinho, para seu próprio lucro, por sua conta e risco. Não havia o apoio de uma corporação ou de uma comunidade. Alguns exemplos seriam Apolônio de Tiana, Epimenides, e Empédocles. Nos antigos mistérios, o itinerante carismático era mais encontrado nos ritos de Dioniso e da Méter. Um documento antigo (210 AEC) dá ordens para que "aqueles que realizam iniciações para Dioniso no país" viajarem para a Alexandria para se registrarem e declararem "de quem eles receberam as coisas sagradas, até três gerações, e entregar o exemplar selado no hieros logos". Ou seja, eles deveriam saber quem era não só o seu "pai" espiritual, mas também o "avô" e o "bisavô". Quando Dioniso aparece disfarçado de um estranho da Lídia na casa de Penteu ("As Bacantes", de Eurípides), ele estaria oferecendo seu serviço de místico e executando milagres, dizendo ter recebido sua iniciação através de revelação direta do deus. No século III AEC, Mileto descreve que as mulheres que "realizam iniciações para Dioniso na cidade ou no interior" deveriam se reportar aos sacerdotes oficiais de Dioniso naquela cidade e pagar uma taxa. O culto à Méter Theon na Grécia também começou de uma forma similar, com especialistas itinerantes, conhecidos como 'metragyrtai' (mendigos da Mãe) que declaradamente se sustentavam com seu ofício sagrado. 
  
O segundo tipo, o clero de um santuário, era mais comum no Egito do que na Grécia, já que os santuários gregos não eram unidades econômicas independentes, eram mais algo ligado à pólis ou de propriedade familiar. Mas os oráculos do período arcaico e os santuários de Asclépio no período clássico se tornaram organizações bem sucedidas desse tipo. Os sacerdotes que oficiavam ali podiam ser claramente distinguidos como itinerante por terem uma estabilidade local e uma relativa segurança, mas ao mesmo tempo eles tinham que aceitar certa hierarquia. Havia santuários à Méter assim, como o de Pessinus, na Anatólia, onde existiam sacerdotes eunucos (os 'galloi'). Ser um dos 'galloi', além de ser um modo de vida reconhecido e lucrativo, fazia os indivíduos ficarem atados à sua deusa e a seu santuário para o resto da vida. Segundo os mitos contam, os Mistérios de Eleusis, na Grécia, só poderiam ser celebrados num lugar selecionado pela própria Deméter, caracterizando-o também como um culto ligado a um santuário específico. O termo 'adelphos' (irmão) era usado para aqueles que recebiam sua iniciação juntos, nem tanto em um sentido de afeto emocional (afinal, em Eleusis, centenas de milhares de pessoas eram iniciadas juntas), e sim mais no sentido de ser parte de uma espécie de clã.

O terceiro tipo, que pode ser chamado de "clube", era o 'thiasos' ou simplesmente 'koinon' ("comum"), ou seja, uma associação, uma "comunidade". Os detalhes diferem, mas essencialmente eles eram a união de iguais em torno de um interesse comum. Os indivíduos permaneciam independentes, na sua família e pólis, mas contribuíam com seu interesse, seu tempo, sua influência, e parte de sua propriedade particular, para aquela causa em comum. Esse tipo de associação tem um status legal e um lugar para reuniões (normalmente uma propriedade comunitária), mas não havia hierarquia estável e nem um líder carismático. Os devotos se dedicavam ao deus e a seus amigos iniciados (os 'symmystai'), num apego mútuo entre eles, realizando atividades comuns, sacrifícios em conjunto, refeição cerimonial, e procissões - que deixavam claro quem fazia parte do grupo. Existiam vários 'thiasoi' a Dioniso, embora muitas vezes dependentes de um fundador ou presidente rico, ou ligado a uma casa, porque a competição ('Agon') era estimulada para promover a honra ('timé') entre os 'symmystai' de um 'thiasos', honra esta premiada principalmente com generosas contribuições financeiras. Também os egípcios, quando emigravam para outras terras, fundavam uma espécie de 'thiasos' grego, na forma de associações de 'sarapiastai', 'isiastai' e 'anubiastai' (iniciados nos mistérios de Sarapis, Ísis e Anúbis, respectivamente). Nos mistérios de Mitra, não encontramos nem itinerantes carismáticos, nem 'thiasos' públicos, nem templos com clero, pois tudo se centrava numa iniciação realizada por clubes secretos (algo semelhante aos maçons, com graus hierárquicos de iniciação) e num número limitado de participantes (cerca de vinte membros); mas, sendo "clubes", podemos incluí-los neste terceiro tipo.


De qualquer forma, a unidade em todos esses grupos estava na ação e na experiência, e não na "fé" - no sentido de professar um Credo. O ritual não precisava de uma teologia explícita para ser efetivo. Mesmo que os órficos prescrevessem certo estilo de vida (como não ingerir ovos), que os mitraicos se identificassem com o seu deus, que os eleusinos evitassem comer o peixe salmonete, isso não era explicitado em nenhum tipo de Credo ou fórmula doutrinária. Eles também tinham a característica do segredo (afinal, eram Mistérios), então não tinham a intenção de propagar uma religião. Além disso, se um membro de um 'thiasos' quisesse deixar o grupo, ele poderia sair sem problemas, sem perda de identidade, sem medo de trauma, sem dramas e maldições. A ausência de demarcação religiosa e a consciência da identidade do grupo evitava qualquer fronteira rígida entre cultos distintos, assim como a ausência de qualquer conceito de heresia e de excomunhão. Os deuses não tinham ciúmes uns dos outros, eram mais como uma sociedade aberta. As pessoas podiam inclusive participar de vários cultos, como se sabe de uma sacerdotisa de Ísis que servia como 'iakchagogos' (a que conduzia a estátua de Iaco/Baco) no culto eleusino de Atenas e a filha de um sacerdote de Sarápis que atuava como 'kistophoros' (carregadora da cesta) a Dioniso. Isso não significava uma "conversão" tipo "queime tudo o que você cultuava antes", e sim um aprofundamento e extensão da sua natureza de devoção para uma nova intimidade com o divino/sagrado, tanto com aqueles com quem você já tinha familiaridade quanto com os que você passava a conhecer.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]


julho 28, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 1

Por conta de uma dúvida postada no grupo dos helenos no facebook sobre a Méter Theon, ou Magna Mater, pediram-me, em mensagem privada, para contar mais sobre suas "orgia". Originalmente, "orgia" (ὄργια, plural de 'orgion' - ὄργιον) eram ritos de êxtase característicos dos cultos de mistério gregos. 
"Diferentemente da religião pública ou das práticas religiosas do lar, os mistérios eram abertos apenas a iniciados, portanto 'secretos', e muitos aconteciam à noite. As orgias eram parte dos Mistérios Eleusinos, dos Mistérios Dionisíacos, e do culto à Cibele. Por serem secretas, noturnas, e não-documentadas, elas foram objeto de especulação e tratadas com suspeita, principalmente pelos romanos, que tentaram suprimir os bacanais em 186 AEC. Embora se pense que orgias envolvam sexo, a sexualidade e a fertilidade estavam relacionadas ao culto, e o objetivo principal das orgias era alcançar uma união em êxtase com o divino." (wikipedia) 
Para falar do assunto, usarei como fonte principal o livro de Walter Burkert, "Ancient mystery cults". Mas, antes de começar a explicar o tema, vamos primeiro desfazer alguns estereótipos e 'pré-conceitos' sobre os cultos de mistério:
1) "Os cultos de mistério são tardios, do final do período helenístico ou período imperial, conduzindo à Idade Média" - Não, os Mistérios de Eleusis, por exemplo, floresceram por volta do século VI AEC em diante. O culto à Magna Mater desde o período arcaico, o culto de Ísis em Roma era no século I EC, o culto mitraico no século II EC, e por aí vai.
2) "Os cultos de mistério têm origem e estilo oriental, é como uma espiritualidade oriental numa forma helenizada" - Não, ainda que a Magna Mater fosse a deusa frígia Cibele e Ísis fosse egípcia e Mitra iraniano, eles refletiam o culto de mistério que já existia em Eleusis e nos mistérios de Dioniso. Além disso, a Anatólia, o Egito e o Irã antigos eram mundos separados, não eram exatamente 'orientais'.
3) "Os cultos de mistério é uma busca pagã por uma espiritualidade mais elevada, que teria levado ao cristianismo" - Não, apesar de o cristianismo ter assimilado muito do paganismo e do pensamento platônico, não se pode dizer que os cultos de mistério eram algo predestinado a virar cristianismo, pois há diferenças radicais entre os dois sistemas.
4) "Os cultos de mistério são uma espécie de rito de passagem realizado num ambiente noturno" - Não, os mistérios antigos não eram ritos de puberdade em nível tribal, sua admissão não dependia de idade ou sexo ou classe, não havia mudança externa visível (só interiormente, na relação do iniciado com as deidades), podiam ser feitos repetidas vezes, e não eram obrigatórios (era escolha pessoal, não algo prescrito pela família ou pela tribo ou clã).
5) "Podemos falar em 'religiões' de mistério" - Nem sempre, pois os mistérios eram uma forma especial (e opcional) de culto, oferecido dentro do contexto maior da prática religiosa. É semelhante a falar sobre a peregrinação para Santiago de Compostela dentro do sistema cristão (não uma religião à parte). Portanto, "religião de mistério", como um sistema fechado, não seria um termo adequado. Porém, se você considerar "religião" como uma forma pessoal de culto, aí sim cabe falar dessa forma.


De onde vêm os cultos de mistério?
Os mistérios eram uma forma pessoal de culto, cujo pano de fundo é constituído pelas religiões "votivas" (a prática de fazer votos), algo que é tão comum que pouco se fala hoje em dia: fazer promessas de ofertas aos deuses em troca de seu auxílio em alguma questão. Cada objeto ofertado testemunha uma história pessoal, de ansiedade, esperança, prece, realização etc. Para a classe superior, o risco maior era a guerra, então se faziam votos para controlá-la; para a classe média, eram as incertezas nos negócios, os períodos de viagem maritma, os riscos no parto, e os sofrimentos recorrentes das doenças. 
Isso nos ajudava a lidar com as incertezas do futuro, a administrar o tempo através de um 'contrato', com a estrutura do "se... então...": Se a salvação da ansiedade e incômodo atuais ocorrer, se o sucesso ou lucro esperado for alcançado; então uma renúncia especial e definida seria feita, uma perda limitada em interesse de um ganho maior. Uma tendência à perpetuação também era presente, pois o mortal incluía na sua prece o pedido para que a deidade concedesse a ocasião para ele estabelecer outra vez o relacionamento ("me lembrarei de ti e de outra canção também"). Não raro, as inscrições votivas também se referiam a intervenções sobrenaturais na tomada de decisões, em sonhos, visões, ou ordens divinas, mencionando depois a experiência bem-sucedida.
Mesmo que nem todos os pedidos fossem 'atendidos' sempre, o fato é que a religião votiva provinha ajuda ao dar esperanças, socializar ansiedades e sofrimentos, encorajar o indivíduo a tentar mais uma vez, fazê-lo encontrar interesse e apoio dos sacerdotes e companheiros de culto. O voto era feito em público, a oferta pela realização era feita em público, e muitos se beneficiavam do investimento.
Mas, na religião votiva, "fé" (pistis) e "salvação" (soteira) não implicava em "conversão" no sentido cristão, ainda que um indivíduo pudesse mudar sua orientação e se voltar para um deus específico após ter seu pedido atendido por ele. Nesse caso, ele "incluía" a nova deidade, e não "substituía" a anterior, por isso não é uma "conversão". E a crença era de troca, não de uma "fé" em alguém que vai te ajudar sem você fazer nada além de acreditar. 

A relevância de se falar em religião votiva para os cultos de mistério é tripla:
1) A prática pessoal nos mistérios, em motivação e função, era paralela à prática votiva, pois era como uma nova forma de buscar salvação (salvação aqui no sentido vivo de "âncora", de "salvar dos perigos", "salvar das águas turbulentas" etc, não no sentido de salvar da morte em um mundo posterior), de buscar um contato mais íntimo e pessoal com a deidade, visando uma mudança de mentalidade através da experiência do sagrado.
2) O aparecimento de novas formas de cultos de mistério com novos deuses é exatamente o que se esperaria como resultado dessas funções práticas.
3) A expansão das assim-chamadas 'religiões orientais de mistério' ocorreu primeiramente como forma de religião votiva, com os mistérios às vezes formando apenas um apêndice ao movimento geral.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

junho 16, 2013

Sol, Som, Siringe, Silvo, Serpente

Saindo um pouquinho da fórmula de textos mais abrangentes que podem ser assimilados até por quem está começando, hoje venho trazer algo um pouco mais profundo, ainda que também tentando falar disso de uma forma mais universalmente compreensível, para que todos possam absorver e aproveitar propriamente do assunto.

Parmênides era um sacerdote de Apolo. Seu poema "Da Natureza" tem uma construção incomum, que alguns estudiosos acreditam se tratar de uma técnica para criar um efeito encantador, podendo ser usado para a cura ou para levar as pessoas a outro estado de consciência. Sabemos que algumas formas de se conseguir esse estado (e o xamanismo pode confirmá-las) é a repetição, a dança, a música. Mas existe uma particularidade nesse poema, que é o fato de durante toda a jornada narrada pelo autor ele não mencionar nenhum som, apenas aquele que é feito pela carruagem conduzida pelas filhas do Sol: o som de uma flauta de tubo como a de Pã, uma "siringe" ("pipe" em inglês, "syrinx" em grego). A flauta "syrinx" fazia um som parecido com um apito, um som chamado "syrigmos". 

O curioso aqui é que, para os gregos antigos, o som de flauta e apito era também o som do silvo feito pelas serpentes. Tomando um pouco do hinduísmo, sabemos que o poder serpentino da Kundalini - quase completamente adormecido nos seres humanos - faz um som de silvo quando começa a despertar. Em um papiro grego antigo, guardado na biblioteca de Paris, conta-se sobre uma jornada cósmica a outro estado de consciência até a origem da vida humana, o sol. Nessa jornada, o orientador do iniciado diz que ele precisa produzir um som de silvo/flauta/apito ("syrinx") como parte do exercício de controle de respiração para ajudar a entrar no estado do despertar da consciência. Seria um chamado "mágico" conhecido como "o som do silêncio".

Esse som do silêncio seria o som da criação. O som feito pelas estrelas e planetas enquanto eles rotacionam e transladam nas órbitas. A famosa "harmonia das esferas". É assim que nos aproximaríamos do sol como uma deidade. Fazer o caminho do sol (celebrando o ciclo semanal de Apolo, os dois solstícios anuais etc) para - quem sabe - passear na carruagem de Hélio um dia. 

Por isso que o som do silvo tem uma ligação tão especial com o sol. Também por isso (embora não só por isso) que a serpente - a exemplo da Píton - é tão próxima de Apolo. E ele a princípio não a destrói, apenas a tira do caminho, a "atira longe" (como vemos nos hinos), e, mesmo quando a mata, o faz para absorver os poderes proféticos que ela representa, e assim adquire um novo epíteto, como Apolo Pítio. Quando li sobre isso no livro de Peter Kingsley ("In the Dark Places of Wisdom"), anos antes eu já havia feito uma excursão noturna na lua cheia, no zoológico de Belo Horizonte, onde pudemos tocar uma moderna pitón albina nas mãos do tratador - e nessa mesma noite sonhei com Apolo vestido em peles (e, sim, meus oráculos realmente melhoraram depois daquele dia).

Voltando ao som da "siringe", ele também era associado às práticas de Asclépio, quando o enfermo se deitava e tinha um sonho de cura do deus, naquele estado liminar entre o dormir e o despertar. Asclépio (filho de Apolo) é outro que traz uma serpente em seu bastão. Dizia-se que o som do silvo ("syrigmos") era o som da presença de Asclépio. Na Índia, era também antes de se entrar no samadhi, aquele estado entre o dormir e o despertar, que havia uma vibração poderosa soando como um silvo, ligada ao despertar da kundalini. 

Para muitos antigos, a jornada para uma realidade superior era feita através do silêncio, no silêncio e para dentro do silêncio. A última senha era o som da siringe, o som do silêncio. E, antes de chegar nessa realidade superior, era preciso que convencêssemos os deuses de pertencermos a aquele lugar. Por isso as famosas palavras do "eu também sou uma estrela, vagando e girando junto a vocês, brilhando para fora das profundezas". Como o sol.

Dependendo do quão alto ou quieto é o som, ele pode parecer um apito ou uma rajada de vento, mas - de qualquer forma - não é um som qualquer. Um oráculo de Apolo na Anatólia afirma isso também. Ele fala que, após o contato com a fonte do som, não há mais separação. E isso é algo muito importante para entendermos a receita da imortalidade: a proximidade com o sol. O sol se põe e nasce de novo, assim seus iniciados devem trilhar o caminho do sol.

Não é surpresa que haja imagens representando um tubo pendurado no sol (quem leu Jung e o mito aborígene do vento produzido por um falo do sol, vai lembrar). Na antiguidade, essa imagem era a de um tubo musical, de uma flauta.

Em um hino órfico, o sol recebe o título de "syriktes" (o flautista, o tocador de siringe). O som que Parmênides relata da carruagem do sol em movimento parece, então, algo mais fácil se compreender.

Mas agora vamos tirar algo prático disso tudo. A questão é: nós OUVIMOS isso o tempo todo! Pode não ser como o silvo de uma serpente, talvez se pareça mais com um chiado de televisão com o som abaixado num quarto vazio. Se você ler sobre experiências fora-do-corpo ou experiências de quase-morte ou mesmo estados alterados de consciência, normalmente você vai notar o relato de um estágio vibracional, quando energias fluem do corpo fazendo sons de murmúrio, junto a sensações de entorpecimento ou anestesia acompanhando as vibrações. A intensidade dessas vibrações e sons varia muito, de algo suave até a eventos além do físico. Os relatos podem incluir o ouvir vozes, ouvir chamarem seu nome, sentir-se pesado ou afundando, sentir leveza, sentir uma energia fluindo pelo corpo, ouvir passos ou perceber a presença de alguém, experimentar um balançar interno, uma rotação ou movimentos de qualquer tipo, ouvir sinos, engrenagens, músicas, o vento etc. 

Não faz muita diferença que crença a pessoa professa ou a que grupo religioso pertence. Duas cordas na mesma frequência sonora vão vibrar juntas, é só testar com o seu violão afinando duas cordas na mesma nota e tocando só uma. Isso é física, não é filosofia. Da mesma forma, entrar em consonância com a música das esferas faz você vibrar junto com elas.

Se você quiser tentar, deite-se num quarto silencioso. Um pouco antes de adormecer, você vai ouvir algo dentro da sua cabeça. No começo você vai dizer "ah tá, é ESSE som..." e depois, quanto mais perto do sono, mais perceptível vai se tornar a experiência. E, sim, é o mesmo som desde seus ancestrais, desde os helenos antigos, e desde sempre.

Agora só nos resta agradecer a Apolo e a Asclépio com um belo de um "Ô iê Peã!". :-)


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P.S.¹: Se você procurar por "syrinx", vai ver que é também o nome do órgão vocal dos pássaros.
P.S.²: Já reparou como os encantadores de serpente usam flautas para despertá-las?

maio 24, 2013

Mito, História, Religião

"Onde eu vejo interessantes incorporações de arquétipos que normalmente seguem jornadas similares às dos antigos heróis e que trazem ideias tanto sobre a virtude quanto sobre o vício para uma audiência moderna, outros vêem 'apenas' relatos de ficção. Onde outros vêem os antigos heróis como pessoas históricas dignas de veneração, eu sou simultaneamente cética de sua historicidade enquanto aceito a sua importância no contexto helênico. Eu apenas assumo uma abordagem um pouco mais metafórica. Se você é do tipo que tem que ver ossos e túmulos, não me importo. Eu simplesmente não preciso disso para assimilar a Verdade das histórias.
Isso significa que penso que os deuses são apenas personagens de historinhas? Claro que não. Isso significa que eu acho que os personagens nas histórias são deuses? De novo, não. O Thor dos quadrinhos e do cinema é um alienígena. O Thor dos Eddas é um deus. De fato, a maioria das representações cinemáticas de Apolo me causa arrepios porque elas não condizem com meu entendimento nem das fontes materiais primárias nem do modo que ele tem interagido comigo. [...]
Muitos de nós olha para a mitologia, digamos, dos abraâmicos, como uma coisa metafórica. Duvidamos e somos céticos de coisas como um Adão e uma Eva históricos, um arbusto que queima e não se consome, uma inundação global e um homem com uma arca. E, de fato, uma abordagem literária da bíblia cristã é algo que é tão alheia à minha crença, que eu não entendo como uma pessoa pode acreditar nisso. Mas as pessoas acreditam e, enquanto isso as tornar melhores seres no mundo e enquanto isso as preenchê-las/realizá-las sem prejudicar os outros, não tenho problemas com isso. Claro, isso me confunde e não é a minha praia, mas não posso dizer a elas no que acreditar mais do que elas podem dizer pra mim o mesmo. Do meu ponto de vista, se os mitos vão ser metafóricos, eles vão ser metafóricos e pronto. Não posso apontar a mitologia de outra pessoa e dizer 'isso aí é metafórico, mas a minha é histórica', porque eu não posso provar isso e não posso fazer isso fazer sentido pra mim.
Mas, de novo, ver os mitos como metáforas não significa que eu acredito que os deuses são apenas personagens de historinhas. Eles são meus deuses. Eu falo com eles, eu sinto sua presença, eu conheço pela experiência que eles são Reais. Eles não são reais para mim como o Samwise Gamgee. Eles são reais pra mim como meu gato é real, mas eles normalmente falam conosco em metáforas e relatos/histórias. O problema, acho, é que - como acontece com os católicos e os protestantes - estamos usando o mesmo material como fonte e muito da mesma linguagem, feriados sacros e nomes para o divino, mas não estamos praticando a mesma religião.
É útil discussões como esta para sermos respeitosamente curiosos sobre os pontos nos quais discordamos. Na minha experiência, é uma boa forma de encontrar algo em comum ou ao menos de cultivar compreensão mútua onde há pouca coisa em comum." 
(por Sunweaver, trechos de http://www.patheos.com/blogs/agora/2013/05/making-light-help-me-joe-campbell-youre-my-only-hope/, tradução da Álex)

Esse assunto dos mitos e da ficção é algo que é sempre útil repetir. Volta e meia vemos coisas como comentários sobre uma personagem em uma postagem sobre uma deidade. Tipo uma vez que alguém publicou uma imagem clássica de Atena e um indivíduo comentou "deusa inútil, vive deixando os Cavaleiros em perigo", claramente confundindo-a com a personagem de cabelo roxo do anime Cavaleiros do Zodíaco. Provavelmente há também os que acham que a deusa Diana conviveu com a Mulher Maravilha e que a Xena namorou Ares. Ou, trazendo algo mais atual, vemos as pessoas que se perguntando de que deus são filhas e querendo atravessar uma espécie de véu das brumas após terem lido a série de Percy Jackson e os olimpianos...

Aqueles são personagens de ficção. Usam o nome e umas poucas características estereotípicas dos deuses originais, mas não são os deuses que cultuamos. Ao menos não os meus. É como o exemplo do Thor dos quadrinhos e o dos mitos. 

Se os deuses fossem ressoar nossa campanha contra o sujeito da C.D.H., eles olhariam para esses personagens cinematográficos e segurariam uma plaquinha "A Marvel não me representa". Ou isso:

[ Zeus ]

Outra questão é a própria simplificação dos mitos literários, como já falamos aqui no blog, achando que os deuses descritos na Ilíada em lados diferentes da guerra são inimigos até hoje. Falta leitura de fontes diferenciadas da literatura antiga, falta leitura de teóricos modernos recomendados, e falta experiência real com os deuses pela ortopraxia diária. Senão do que adianta apontar a incongruência das alegorias de religiões/crenças alheias e não questionar o simbolismo da sua própria? 

Quando a moça do texto acima cita Joseph Campbell no título do post, lembrando a história do "mitologia é como chamamos a religião dos outros", ela deixou claro do que iria falar. 

Muitos de nós devem se lembrar como foi sua mudança de paradigmas nessa área da vida. Eu me lembro que um dia achava que existia um só deus e que a reencarnação não fazia o menor sentido, achando um absurdo quem acreditava nisso - uma vez que a população aumentava e não apenas morria e voltava. Depois de um tempo, tudo foi mudando, não consegui mais conceber a ideia de um monoteísmo e não podia negar as evidências da reencarnação até para a física quântica. Um dia eu tirava dúvidas vocacionais no catolicismo, no outro não entendia como se podem repetir dogmas como os que ouvi de uma amiga adventista ao tentar explicar para outra uma espécie de hierarquia entre as 3 pessoas do seu deus. Mas um dia estivemos do outro lado, e - a exemplo do que acreditam os hindus - cada um tem o seu jeito e caminho para buscar a verdade e o sagrado. Por isso não costumo me envolver em discussões que atacam a crença que difere da nossa. Ataco a discriminação, a injustiça, a guerra santa, a tirania, o desrespeito, a imposição de interesses, mas não a fé, não aquilo que te faz querer ser melhor, não aquilo que te dá esperança e vira um sentido pra sua vida. Ninguém tem o direito de exigir que o outro pense igual a ele/a.

Dos meus amigos de adolescência, um foi ser padre em Roma, outro foi ser monge budista tibetano na Suíça, outro é bispo evangélico nos Estados Unidos, e eu conduzindo os helenos aqui no Brasil... E isso só dos amigos que eu sei onde foram parar. Como me disse uma amiga recente, essa é a minha "egrégora", foi com essas pessoas de destino tão aparentemente diverso - embora todos relacionados ao sagrado - que eu cresci. E talvez seja justo essa diversidade que tenha me atraído para um helenismo do métron, da justa medida, do equilíbrio, da reflexão racional... com um leve toque da tolerância que vejo no hinduísmo, mas o qual não me reverbera em outros pontos (para mim, deveras exigentes e pouco explicativos) de sua doutrina. 

E é essa reflexão racional e essa experiência real com o sagrado que me levam a saber distinguir os meus deuses dos seus homônimos personagens da ficção. Melina Eleni Kanakaredes Constantinides (que, por sinal, faz aniversário no mesmo dia que eu) pode ter dado uma belíssima Athena nas telonas, mas ainda prefiro os "olhos glaucos" da minha divina patrona. Aliás, como não amar uma divindade depois que você reconhece sua ação em sua vida e sente o 'en-thus-iasmo'  de 'ter um deus dentro'? Desejar a excelência virtuosa da areté se torna algo urgente para a gente se sentir cada vez mais próximo desse "mundo cheio de deuses" do qual falou Thales. 

E você, vai preferir ficar aí, acreditando num Kratos de videogame? ;-)

janeiro 13, 2013

Todos gregos


«Na Grécia Antiga, o costume religioso podia variar consideravelmente de lugar a lugar: 'pólis' (cidade) diferente, 'nomos' (costume) diferente, dizemos. E, ainda assim, todas as práticas eram reconhecidamente parte da mesma religião, com os mesmos deuses, a mesma mitologia, a mesma história. [...] minha comunidade é baseada na da Atenas clássica. Se você procurar por outros rituais, especialmente online, encontrará algumas variações: um grupo faz duas libações, outro circula o altar, outro celebra tanto a Dionísia Rural quanto o Lenaia, o outro prefere a cosmologia órfica à de Hesíodo e Homero. Essa variedade é, acredito eu, a marca de uma crença viva, uma que mobiliza as pessoas a honrar os deuses de coração e de uma forma vital, e de um jeito que faça sentido para suas famílias, suas comunidades. Pois, como Shelley disse uma vez (num contexto bem diferente), "Somos todos gregos".» 
(Drew Campbell - 'Old Stones, New Temples'; traduzido pela Álex)


Ano passado tivemos algumas sugestões de páginas de facebook querendo fazer parceria conosco. Eu sinceramente acho desnecessário que haja separações em vez de nos unirmos no RHB. Se o grupo fosse de outro país, eclético, alexandrino, tudo bem, mas se são todos brasileiros, reconstrucionistas e helênicos, e se sempre acolhemos bem todo mundo (acredito eu), não vejo razão - pois "Somos todos gregos". Além disso, vi dois problemas com essa situação. Um é que um dos grupos é uma tentativa de popularizar internacionalmente "o grupo de Fulano" criando grupos que representem o grupo dele em outro país. Acho estranho, até porque nesse caso sim acho melhor parceria (como temos com o grupo Thyrsos na Grécia e com a Hellenion nos EUA) do que impor seu próprio grupo em uma terra estrangeira que JÁ tem um grupo ali. O outro é o desconhecimento que ainda temos desses outros grupos mais novos. 

Não raro já observei pessoas perambulando por lugares dos quais depois se decepcionaram e largaram - normalmente com algum estresse e chateação. Por isso, imagino que seria útil um 'checklist' para pensarmos bem antes de decidirmos nos envolver com um ou outro grupo sobre o qual estamos incertos. Há algumas coisas que podemos identificar e ficar com um pé atrás quando isso acontecer. Assim a gente evita o famoso "ah, se eu soubesse disso na época...". A primeira coisa é pesquisarmos não apenas o site de um grupo, mas também o relacionamento entre os membros e se existem 'ex-membros' (e o motivo de estes terem saído). A partir daí podemos incluir, por exemplo:

1. Tome cuidado com auto-proclamações. Do tipo quando eles dizem que são descendentes diretos de Hércules, de Ulisses, do Batman (rs), de tradição milenar com ensinamentos repassados diretamente de Triptólemo etc; e desconfie se eles exigem que você os chame por títulos magnânimos e vivem se gabando por terem tantos anos de estudos e diplomas e falar dezenas de dialetos, passando o tempo todo lembrando as pessoas disso.
2. Atente para os custos para se filiar ou continuar sendo membro. Gente que cobra os olhos da cara normalmente criou a organização mais para gerar receita do que para dar um ensinamento espiritual genuíno.
3. Estranhe se você ouvir conversas sobre os 'poderes sobre-humanos' dos líderes; do tipo "eles sabem tudo de você", "eles nunca erram", "se eles disseram para fazer assim, é melhor obedecer" etc.
4. Se eles dizem de quem você pode ou não pode ser amigo, fuja. Amizade não precisa ser exclusiva entre os membros de um grupo/crença, ainda mais por alguém ter 'mandado' sem você nem ter conhecido a pessoa ou experimentado um relacionamento com ela por si mesmo.
5. Desconfie se eles dizem que alguns livros são "proibidos" (não "evitados") porque tais livros vão lhe fazer mal, vão atrasar sua evolução espiritual, vão lhe fazer ter pesadelos terríveis, vão macular sua alma (:P) etc.
6. Evite-os se eles fazem uma tempestade em copo d'água quando alguém comete algum engano e/ou crucificam a pessoa por isso, deixando todos desconfortáveis e com aquele receio constante de errar.
7. Fuja dos extremos ao perceber que eles estão SEMPRE tensos e estressados (sem se permitirem um gracejo de vez em quando, isso pode ser insegurança) ou SEMPRE alienados e 'ligados na bateria' (sem levar as coisas a sério e sem procurar um equilíbrio).
8. Repare se eles não parecem ser todos fiéis ardorosos de certos aspectos de Ares, de Éris e dos Titãs (ou seja, se estão sempre combatendo os inimigos, promovendo discórdia e se envolvendo em guerrinhas de poder).
9. Veja se eles zombam de quem pede auxílio para entender alguma experiência espiritual particular dizendo que a pessoa está "viajando" e trata-a como se o relato fosse ridículo ou estúpido e como se comentar sobre isso fosse perda de tempo. Se não existe nem o básico da educação e respeito, não se pode esperar que surja algo melhor.
10. Observe se eles não mantém uma hierarquia muito rígida, baseada na instalação do medo de se confrontar alguém e na proibição de se avançar muito rápido nos níveis da "ordem".
11. Estranhe se, ao mesmo tempo em que eles ficam tentando angariar seguidores fazendo rituais para questões mundiais (por exemplo: a paz, o combate à fome, o meio ambiente), eles mesmos não cuidam sequer das questões internas (por exemplo: a concórdia entre si, a saúde dos membros, a educação para coleta de lixo em casa).
12. E, por fim, siga sua intuição e o bom senso! Sentir-se incomodado nem sempre é por conta da nossa inexperiência, muitas vezes é um sinal de coisa errada apitando nossa percepção interior.

Talvez, se os novos grupos tiverem propostas diferentes que não a reconstrução da religião helênica antiga, e se - com o tempo - a gente perceber que eles são corretos, aí tudo bem sermos grupos distintos e parceiros. Pode até virar uma rede bem útil e funcional! 

Assim estaremos seguindo dois princípios de Sólon: "Não se associe com pessoas que fazem coisas ruins" e "Não seja precipitado em fazer amigos, mas não os abandone uma vez feitos".

Afinal, não é a ética um dos principais aspectos a serem observados pelos helenos? ;D