11.8.13

Antigos Cultos de Mistério - parte 5

Postado por Alexandra Oliveira |

Três questões continuam sendo perguntadas sobre os mistérios: se havia torturas, se havia sexo nas "orgias", e se havia o uso de drogas. As tentativas de responder a elas vão novamente variar dependendo de cada mistério (Eleusis, Dioniso, Mitra, Magna Mater, Ísis etc).

1. DOR?

Vamos começar pela dor. Aqui teremos que separar os mistérios de Mitra de todos os outros. Pra começar, lembremos que não é incomum vermos pessoas sendo humilhadas e machucadas nas iniciações, desde os aborígenes australianos até os calouros de universidades de hoje. Existem testemunhos sobre os mistérios de Mitra sobre "50 dias de jejum, 2 dias de açoites, 20 dias na neve", mas isso parece estranho, até por que é difícil imaginar neve na África. Outro relato (reproduzido em afrescos) dizia que os candidatos eram vendados e ouviam o som de corvos e leões, e os de maior grau de iniciação tinham as mãos amarradas com tripas de galinha e jogados numa bacia de água onde um homem cortava as amarras e se dizia o "libertador". E encontramos ainda outras formas que pareciam um zombar da morte. Ou seja, os mistérios mitraicos se pareciam muito mais com uma iniciação dolorosa do tipo de que conhecemos do que os outros mistérios antigos. 

Nos outros mistérios, as experiências de humilhação e dor desse tipo parecem estar visivelmente ausentes. Em seu lugar, existia a "purificação". Mas, mesmo assim, havia certo terror psicológico, como vemos Plutarco dizer sobre "todas aquelas terríveis coisas, pânico e tremores e suor". De acordo com Prudêncio, os devotos da Magna Mater recebiam uma tatuagem no corpo, queimada na pele com agulhas quentes. No reino de Ptolomeu IV Filopator, havia uma prática parecida nos mistérios de Dioniso, com tatuagens de lírios, tímpanos (tambores) ou coroas de hera; mas isso parecia um caso excepcional. Na imagem que vimos na postagem anterior, da Vila dos Mistérios, há uma moça ajoelhada com a cabeça no colo de uma mulher sentada e de olhos fechados, enquanto uma figura feminina sinistra ergue uma vara, o que poderia sugerir açoite; mas a figura ameaçadora tem asas negras, ou seja, ela não é deste mundo, é mais uma personagem alegórica. Nas peças dionisíacas, a 'mania'/loucura é comparada a um açoite (de novo, figurativamente). Horácio sugere que nem mesmo Afrodite abriria mão de um "sublime flagellum" para colocar uma garota arrogante no seu devido lugar. Ou seja, a flagelação era puro simbolismo, como uma metáfora para a possessão da loucura divina, tanto que - no mesmo afresco da Vila dos Mistérios - a garota depois se levanta transformada em uma verdadeira bacante, dançando freneticamente junto a outra dançarina na cena seguinte. Pode-se até pensar na flagelação real como uma forma de catarse/purificação, mas ainda assim - se acontecia ou não nos mistérios - a arte consegue deixar isso intencionalmente ambíguo.

2. SEXO?

Como já vimos, o uso moderno da palavra "orgia" reflete as piores suspeitas puritanas com relação aos ritos noturnos secretos. Certo, havia a presença de um Príapo Itífalo em quase todos os mistérios, mas isso era mais em um caráter jocoso, de brincadeira e risadas, e dificilmente tinha a ver com a questão central dos mistérios. As procissões com um falo gigante aconteciam mais nos festivais a Dioniso do que nos mistérios. Nas iniciações da puberdade, é claro que o encontro com a sexualidade é normal e necessário. O encontro com o falo desvelado, que aparece nas cenas de iniciação, pode ser interpretado como uma preparação para o casamento ou uma forma de Matronalia romana (festival a Juno Lucina como deusa do parto, da maternidade e das mulheres). Os vasos apulios de uso funerário, do quarto século, relacionados aos mistérios de Dioniso, normalmente retratavam o encontro de um macho e uma fêmea num ambiente báquico, e são uma iconografia que se acredita referir-se a uma "escatogamia" (um casamento num mundo futuro) nos Campos Elísios, a felicidade final no além, como se os festivais dos iniciados continuassem acontecendo depois da morte. Ou seja, o que encontramos é mais simbolismo - simbolismo sexual, claro, mas de uma forma que não violasse a integridade do corpo dos participantes e nem de suas fantasias, mesmo quando havia uma resposta emocional ao falo exposto no 'liknon'. Era o simbolismo que moldava as formas do ritual, e não as orgias de verdade (no seu sentido moderno). 

Nos mistérios de Sabazius, uma serpente de metal passava pelas roupas dos iniciandos. Era o "deus pelo colo" ('Theos dia kolpou'), uma forma de união sexual com o deus, lembrando de como Perséfone teria sido impregnada por Zeus na forma de uma serpente, e supostamente também Olímpia sendo impregnada por Dioniso e gerando Alexandre o Grande. Mas, mesmo aqui, a sexualidade em si não era o segredo do mistério. 

Os mistérios de Eleusis, por sua vez, eram conhecidos por sua "pureza". Não havia simbolismo fálico, e - se existiu algo sexual no contexto das cerimônias noturnas - o segredo foi bem guardado. 

Sobre os mistérios de Eros, praticamente só temos "O Banquete", de Platão. Era como se um amante propusesse ao outro iniciação aos mistérios desse deus em especial.

Nos mistérios mitraicos, a virilidade de guerra era mais importante do que a intimidade sexual, afinal, dizem que Mitra odeia mulheres (Pseudo-Plutarco, 'De fluviis' 23, 507: "Mitra, desejoso em ter um filho, ainda que odiasse as mulheres, se deita com uma pedra"). 

A castração nos mistérios da Méter tem um caráter interessante: de certa forma, através de sua negação radical, a sexualidade aqui se torna algo até mais obsessivo do que nos outros mistérios. Isso nos lembra da cortina no leito matrimonial que aparece nos mistérios de Átis. 

No culto de Ísis, não há símbolos sexuais evidentes. As cabeças raspadas, as roupas de linho, as procissões, preces, água, incenso, sistro (instrumento musical sagrado), tudo parece muito austero e puritano, mesmo que a água do Nilo lembre fertilidade. Ainda assim, o culto de Ísis influenciou não apenas as 'hetairas', mas há o relato de uma romana chamada Paulina, indo ao templo de Ísis para dormir com o deus Anúbis, que a teria chamado. Ele, na verdade, era um romano usando uma máscara de chacal. Esse escândalo fez o imperador Tibério banir as sacerdotisas de Ísis de Roma. No entanto, a abstinência sexual que existia como preparação para as cerimônias de Ísis, nos chama a atenção. Provavelmente havia, no centro do mistério, algum casamento sagrado correspondente ao mito de Osíris. 

A abstinência, aliás, era um pré-requisito normal para participar em praticamente todos os mistérios e em alguns outros cultos (Ovídio fala da abstinência no mistério de Dioniso, Marinus fala da abstinência no da Méter e de Ísis, Burkert cita o uso de um veneno que o hierofante de Eleusis usaria para uma "castração" química temporária). Isso estimularia as expectativas e aumentaria nosso nível de atenção a certos sinais. A sexualidade era mais um meio de representar uma quebra na rotina (como os próprios mistérios o eram) do que um fim em si mesma. 

3. DROGAS?

O uso de drogas nos contextos religiosos é um estudo mais recente. Algumas pessoas acham até que não existiam mistérios sem drogas, por elas serem a forma mais fácil de ter uma experiência incomum. Kerényi chegou a pensar que o ingrediente do 'kykeon' bebido em Eleusis (o poejo, 'glechon') fosse levemente alucinogênico, e a turma de Wasson (Wasson, Hofmann e Ruck: "The Road to Eleusis") acha que o que estava na bebida de Eleusis era o ergot, um fungo que crescia no grão de centeio. Entre os constituintes solúveis em água dessa ergotina, estariam alguns traços de LSD. Mas, mesmo que os grãos de Eleusis fossem infectados por tal peste, a gente precisaria imaginar qual a quantidade necessária para milhares de participantes (que era o número em cada iniciação eleusina) terem visões felizes, ainda mais que os relatos de experiência com envenenamento por ergotina são mais de algo desprazeroso do que de estados eufóricos. Outra hipótese seria o ópio por conta das papoulas também serem uma planta atribuída a Deméter. Ovídio tem uma representação de Deméter colocando a criança eleusina (Triptólemo) para dormir com um suco de papoula. Mas nesse caso também continuamos com a dúvida de como eles conseguiriam ópio numa quantidade tão grande para milhares de iniciados que nem sequer eram fumantes. Quanto ao álcool, éclaro que o 'krater' com vinho estava no centro da maioria dos cultos báquicos, mas a inebriação pelo vinho podia ser tanto "liberação" (com Dioniso Lysios) quanto "loucura" em um sentido de punição por um deus (Dioniso Bakcheios), como Platão indica nas suas Leis. O vinho em si não é suficiente para induzir ao êxtase divino. Em Eurípides, vemos que "muitos são os portadores do tirso, mas poucos os iniciados" - muitos podem ficar bêbados, mas nem todos são bacantes.

Além disso, as drogas muitas vezes levam mais ao isolamento do que criam um senso de comunidade; e todos os mistérios enfatizavam mais uma alegria em comunidade, incluindo banquetes onde compartilhavam opulentas refeições. Os servos da Méter, os 'galloi', eram proibidos de comer cereais, mas podiam comer a carne dos sacrifícios, tendo grandes banquetes. Nos cultos a Ísis e Sarapis, o jantar ('deipna') está entre os fatos mais certos: os participantes se reuniam em uma casa ('oikos') e reclinavam-se em sofás ('klinai'), se preparando para comer e beber. Nas escavações relacionadas a Mitra, encontraram restos de ossos animais de várias espécies perto dos sofás, mostrando que eles não eram usados só para posições de preces, mas para refeições. Mitra e Hélio banqueteam-se juntos nas iconografias mitraicas, enquanto os iniciados de graus menores (do Corvo ao Leão) servem a mesa. Novamente, os grandes banquetes eram uma quebra na parcimônia da vida cotidiana. Beber do 'kykeon', que era uma espécie de sopa de cevada, era um evento importante nos mistérios Eleusinos, ele marcava o fim do jejum. Nos mistérios báquicos, a felicidade ('makaria') era apresentada ao iniciado na forma de um bolo. No culto a Asclépio, a saúde poderia ser ingerida, na forma da deusa Higeia. 

A alteração no estado de consciência através do êxtase era mais presente nos mistérios de Dioniso e da Méter. No primeiro, pela loucura divina, no segundo porque os devotos da deusa frígia eram 'entheoi' ou 'theophoretoi' (carregados pela divindade) sob o efeito de certos tipos de música. Temos inclusive uma descrição clínica do êxtase no culto da Méter, na qual o doutor relata que os 'galloi' "se animam ao som da flauta e da alegria no coração ['thymedie'], ou pela bebida, ou pela incitação dos presentes", e ele fala também do efeito catártico disso, "essa loucura é possessão divina; quando eles terminam o estado de loucura, eles estão com boa disposição, livres de tristezas, como se estivessem consagrados ao deus". A catarse nos mistérios de Dioniso é relatada pelo musicólogo Aristides Quintilianus: "este é o propósito da iniciação báquica, que a ansiedade depressiva ['ptoiesis'] das pessoas menos educadas, produzida por seu estado de vida ou por algum infortúnio, seja lavada através de melodias e danças do ritual de uma forma alegre e divertida". Então, parecia com uma terapia. Tito Lívio também falou do êxtase na bacanália, dizendo que era simplesmente a falta de sono, e o vinho, e os sons musicais e gritos pela noite, que deixava as pessoas atordoadas/embriagadas. Nos mistérios de Eleusis, de Ísis, e de Mitra, parece não ter existido um êxtase desse tipo. 

[Hélio e Mitra sendo servidos em um banquete.]

Vamos terminar com o que Proclus escreveu sobre os mistérios: 
"Eles causam simpatia das almas com o ritual, de uma forma que é incompreensível a nós, e divina, de forma que alguns dos iniciandos são tomados por pânico, sendo preenchidos com um divino assombro; outros assimilam a si mesmos com os símbolos sagrados, deixando sua própria identidade, se sentindo em casa com os deuses, e experimentam uma possessão divina."
Essa simpatia ('sympatheia') das almas com os rituais é como uma forma de ressonância que sacudia os alicerces da realidade, nos trazendo uma transformação. Não sabemos o que acontecia nos rituais, e muito menos conseguiríamos reproduzi-los, não podemos recriar tal experiência, mas podemos reconhecer que ela existia como uma chance de unir a alma do iniciando à da comunidade, em um sentimento de felicidade e união com o sagrado. 

Enfim, era mais o senso de comunidade, os banquetes, as músicas e danças, o efeito do jejum e da falta de sono, o assombro com o desconhecido, entre outras coisas semelhantes, que causava sensações diversas e experiências extáticas fora do comum. Provavelmente, a ideia de torturas, orgias sexuais e drogas, surgiu apenas da falta de conhecimento e de preconceitos mais modernos com relação ao "mistério nos mistérios". Por não sabermos como era, tudo acaba sendo possível de se conjeturar. Mas quase nada pode ser definitivamente afirmado.


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