10.6.12

O Trânsito de Afrodite

Postado por Alexandra Oliveira |


Semana passada tivemos um alinhamento raro do planeta Vênus e esta semana teremos o dia dos namorados. Então imagino que caiba falarmos das andanças de Afrodite. E, no caso, da Afrodite na sua qualidade de mãe de Eros (o amor), nem tanto pelos seus outros epítetos. Mais especificamente, gostaria de falar sobre as suas companhias.

Quem é a "turma" de Afrodite? Com quem ela anda? Quem sempre a acompanha? Quais suas "amigas de infância"?
Graças
Detalhe das Graças, em foto de Helen Sotiriadis.
Quando Afrodite surgiu, ela foi recebida pelas três Horas. Elas quem a vestiram e a adornaram quando ela surgiu no mar. Essas foram as primeiras, que ainda andam com ela. As Horas são as deusas das estações e das porções naturais de tempo. Enquanto Deméter nos dá os frutos, na companhia das Horas, Afrodite nos dá as flores, com suas cores e beleza, principalmente a rosa, com sua essência voluptuosa e suas pétalas envolventes. Assim como os frutos têm sua hora de maturar e as flores têm sua hora de desabrochar, o amor precisa amadurecer para ser colhido, não pode ser forçado antes do tempo, antes da(s) hora(s). Afrodite e as Horas chegam juntas.

Depois a deusa Peitho juntou-se ao grupo. Antes que você pense besteira pela coincidência do nome, Peitho vem do grego e significa algo como uma delicada persuasão, uma vitoriosa eloquência. Ela que nos dá a capacidade de encantar o ser amado com palavras convincentes. Mas, ainda que seja uma persuasão poderosa, ela é doce, suave, uma conquista por consentimento (nunca pela força). O amor do reino de Afrodite só existe quando é concedido por livre e espontânea vontade - mesmo que depois você se sinta deliciosamente acorrentado ao seu amante.

E, por falar em consentimento, outras que se uniram à turma foram as Cárites. O verbo "charein" significa rejubilar-se e o nome "charis" significa uma graça ou favor livremente oferecido. Não tem muito a ver com o significado condescendente que adotou a palavra 'caridade' na cultura judaico-cristã. As Cárites são Agléia (esplêndida beleza), Eufrosina (boa disposição, alegria de pensamentos) e Tália (fartura, abundância). É por conta dessa boa disposição que, quando vemos alguém todo sorridente, já dizemos logo que ele/a "está amando". Algumas fontes diziam que as Cárites eram filhas do rio Lethe, o rio do esquecimento, o que explicaria o fato de os amantes esquecerem-se dos problemas quando Afrodite e suas amigas os movem. Essas amigas, aliás, eram as responsáveis pela toalete de Afrodite. Segundo Hesíodo, elas as banhavam e untavam seu corpo com óleos perfumados de fragrância doce. Homero também relata que, após Hefesto surpreendê-la com Ares na cama, as Cárites banharam e untaram Afrodite e a vestiram em trajes belíssimos. Essa áurea perfumada acrescenta um certo charme irresistível nos domínios do amor. As Cárites adoravam dançar juntas, principalmente nas noites enluaradas. E a noite nos lembra a outra amiga de Afrodite: Aidos.

Aidos era filha da deusa  Nyx (Noite). Ela era a deusa da modéstia, da vergonha, do auto-respeito. Ela guardava com suas asas escuras os segredos do amor e dos amantes. O amor é associado ao período noturno, às noites de lua, e não às claras vistas do sol. Um amor de verdade, um amor 'afrodisíaco', implica na presença dessa outra amiga da deusa, com um elemento de modéstia. A maioria dos animais tem uma vida sexual reservada e regulada; alguns se entocam em cavernas para se acasalar, outros têm regras de quem no bando pode fazê-lo. Quando Platão diz que a Afrodite Urania (celeste) era a do amor nobre e a Afrodite Pandemos (do povo) a do amor comum/público, faz-nos pensar que, para os gregos, o que classificava um amor como nobre era justamente a presença da deusa Aidos no ato de amor. A capacidade de sentir vergonha -- ao contrário do que pode-se pensar -- faz o amor aumentar. Quando Aidos não está, não se trata de estar livre de vergonhas, e sim de uma falta-de-vergonha mesmo, o que não é nada legal. A vergonha de Aidos é a do auto-respeito, da sensibilidade, então não tê-la é diferente de ser desavergonhado, tem a ver com a modéstia de reconhecer-se e sentir-se entregue. A intimidade de compartilhar um segredo íntimo torna o relacionamento mais pessoal, mais amoroso. 

Nocivo mesmo seria o sentir vergonha de si próprio, perder o prestígio (essa não é uma vergonha "aidos", é "aischros"), algo feio, deformado, desonroso, e que Platão diz que não tem nada a ver com a experiência do amor de Eros. Segundo Dodds ("Os gregos e o irracional"), a cultura helênica não girava em torno da culpa - como é a dos cristãos - mas girava em torno dessa vergonha devastadora de perder a consciência tranquila e a consideração pública. Os gregos tinham princípios, e só alguém com princípios pode se sentir desonrado por ter sido irresponsável, egoísta ou covarde. Quem vive sem nenhuma convicção espiritual ou moral, não tem sequer a vergonha Aidos, que dirá a outra! Aquela vergonha esmagadora de "aischros" é o que a revolução sexual tentou combater, e não a vergonha auto-respeitosa de "aidos". Uma coisa é a repressão, outra é a modéstia. Com Aidos ao lado de Afrodite, o auto-respeito e o amor andam de mãos dadas. É Aidos quem nos faz enrubescer, e esse rubor, essa face corada, demonstra o quanto as deusas não atuam apenas na alma, mas agem também sobre o nosso corpo. Em "Os Trabalhos e os Dias", Hesíodo menciona o abandono da terra por Aidos e Nêmesis como a razão para os sofrimentos dos humanos, que ficam desamparados contra os males. Aidos é quem preserva a pureza da alma e torna o ato do amor de Afrodite algo numinoso, sagrado, em uma mistura de sexo, sensualidade e religião. Uma união do êxtase com o divino. Portanto, essa união deveria ser algo ritual e secreto, e não algo realizado de qualquer jeito num motel de beira de estrada e exposto na televisão...

Modéstia, aliás, me lembra o fato de a belíssima Afrodite ter sido dada em casamento a Hefesto, um deus que é considerado "feio", talvez por ser cocho. (Um parênteses aqui para lembrar de Machado de Assis e seu Brás Cubas resmungando da moça "Por que tão bela, se coxa? Por que coxa, se bela?", hehe!) Afrodite considerava indigno alguém que só concedesse sua beleza para alguém que fosse tão belo quanto ele mesmo. Você precisa ser modesto para não ficar 'se achando' - e correndo o risco de ser castigado por Ela por conta de seu orgulho e arrogância. Eis mais uma lição de Aidos através da escolha de parceiro amoroso que Afrodite fez. 

Graças
Hipócrates (segundo citação de Viktor Salis) dizia que "quem não ama, adoece", que "a mais grave fonte de doença é ser falso com seus sentimentos com os outros e consigo" e que "entregá-los a qualquer um e de qualquer jeito é plantar dentro de si a desvalia, que resultará numa alma e corpo doentes".
Assim, quando vocês foram celebrar o amor no dia 12 de junho, lembrem-se de todas as companhias que caminham junto a Afrodite, e espalhem o amor no momento certo, com as palavras certas, com disposição, fartura e beleza, resguardando o auto-respeito e a honra de estar na presença de verdadeiras deusas agindo na sua vida, movimentando sua alma, enrubescendo seu rosto e levando seu corpo a experimentar um êxtase sagrado e secreto.

Afinal, ela, Afrodite, é uma deusa que realmente deixa "flores nos lugares que pisou"...

Hermafrodito adormecido
Detalhe de Hermafrodito adormecido, foto de Helen Sotiriadis.

3 comentários:

DarkWill Shadowdance disse...

Amei!Meus parabéns!As Amigas/Aliadas Sagradas de Afrodite nos Abençoem!Realmente Aidos saiu da Terra, uma falta de vergonha, de amor-próprio,auto-respeito neste mundo.Torna o sexo e o amor coisas impuras,sujas,feias.Sexo e Amor são Sagrados, devem ser levados à sério, com Respeito (Aidos), essa onda de sexo banal e de namoros de um dia, tipo hoje namora com um(a) depois na primeira discussãozinha se manda e acaba o relacionamento como se fosse cortar o cabelo é triste,infantil e feio.Iuuuu
Que a Deusa Afrodite nos Abençoe e Ilumine nos Ensinando à amar e sermos amados de verdade, com sexo também(oh yeah,não sou puritano e nem falso-moralista) mas com carinho,respeito e modéstia!=) =* =D

Jota Olliveira disse...

Ai, ai, o Salis! To amando o "Mitologia Viva". É a primeira vez que vejo um livro com uma abordagem psico-mitólogica que não me faz sentir que os deuses estão sendo reduzidos a arquétipos, mas sim ampliados e explanados.

Agora, falando de Aidós, o texto me fez refletir quanto a coisa da reserva quanto às práticas sexuais, não em proibí-las, mas de mantê-las em segredo: 1) pra não despertar a inveja alheia; 2)pra resguardar o seu parceiro!

:D Sempre ótima, sempre bela! Te amo!

Fábio Alves disse...

Nunca li com tanto esclarecimento assim o significado de cada companheira de Afrodite nos atos de amor.

Terei muito mais respeito e consideração por elas de agora em diante.

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