27.6.15

Pelo amor e pelo afeto

Postado por Alexandra Oliveira |

Falando como alguém que tem estado próxima a Atena e Ártemis, e em concordância com muitos mestres espirituais de várias culturas - que dizem que a prática do sexo alimentaria o nosso apego aos prazeres materiais e que precisamos canalizar nossa energia sexual para algo mais sublime -, venho aqui defender o afeto. Qualquer prática sexual (homo ou hetero) poderia complicar a vida espiritual sim, mas não podemos dizer o mesmo sobre o amor. A homoafetividade não atrapalha em nada a vida espiritual (a heteroafetividade também não). E tenho certeza de que o desrespeito, a discriminação e o ódio, esses sim são bem mais prejudiciais à realização da excelência. 

Os hindus falam de três modos da natureza: o modo da ignorância, o modo da paixão e o modo da bondade. Ora, é fato de que as pessoas que discriminam, sentem ódio e preconceito, estão no modo da ignorância, o que é bem pior do que estar no modo da paixão (com os desfrutes diversos do nosso apego aos prazeres, sejam eles de que orientação forem). E, se é difícil vivermos sob o modo da bondade, se já vamos mesmo nos envolver em algo que nos distraia da caminhada espiritual, se vamos ter uma vida sexual ativa, então que seja com alguém com quem temos afeto, com quem amamos de verdade. É melhor e mais evoluído estar no modo da paixão do que no da ignorância que acha que o 'eu' é separado do 'outro'. Essas pessoas preconceituosas estão mais longe da iluminação do que as pessoas movidas pelo desejo ou pelo simples afeto por quem quer que seja.

A conquista destes últimos dias trata do casamento igualitário, do direito que as pessoas têm de registrarem que se uniram afetivamente a quem elas amam. Se depois disso elas vão pra cama e o que elas fazem em quatro paredes é indiferente para os outros, só diz respeito a elas. Isso é algo que o povo do modo da ignorância precisa entender. Nenhuma religião pode pregar contra o amor e o afeto. E nenhuma também deveria se intrometer na vida íntima, já que o caminho evolutivo é pessoal, mas, ainda assim, se vão pregar contra algo, que seja contra o sexo em geral, não contra o afeto LGBT. ("Ah, mas é que dois iguais não procriam" já não é desculpa, os diferentes que são estéreis ou esterilizados também não procriam e ninguém faz marcha contra eles.) 

Alguns podem querer vir aqui dizer que o sexo é a expressão do amor, mas no fundo vocês sabem que não é bem assim. Já estive sexualmente envolvida com pessoas que eu jamais amaria, assim como acredito que a maior intimidade não é ficar nu diante do outro. Provavelmente é mais íntimo um/a amigo/a que dormiu comigo num acampamento - com quem nos deixamos estar inconscientes e entregues ao lado, sem saber se iremos falar algo, se iremos roncar, se vai cortar nosso cabelo ou nos matar, se vai nos deixar sozinho e sair correndo caso aviste uma cobra - do que um/a 'peguete' de uma noite física com duas pessoas despertas que mal sabem o nome um do outro.

Por isso que às vezes podem achar que jogo um banho de água fria quando alguém vem me pedir que eu realize o casamento deles após poucos meses que se conhecem. Mas me parece que só acham isso no início, depois entendem que eu os fiz refletir sobre as razões de quererem se casar. Qual a idealização que se fez daquela cerimônia, em termos de mudança de vida? É uma celebração do amor ou é uma garantia de posse ('meu' marido) e uma expressão de apego a alguém que lhe desperta desejo? Independente de hetero ou homo, o afeto deve prevalecer. Não sou contra o casamento, mas como orientadora espiritual eu não posso deixar de instingar as pessoas a refletirem sobre suas motivações. No entanto, se mesmo sabendo que é apenas desejo físico, ainda assim quererem se casar, elas têm esse direito. 

Tenho observado que meus contatos das redes sociais que são espiritualizados são os que mais apoiam a causa da diversidade sexual. Porque aqueles que, apesar de religiosos, não são evoluídos espiritualmente, vão estar se apegando à "heresia da separatividade", no modo da ignorância, e combatendo o direito que o outro tem de ser diferente dele.

Portanto, se você se acha religioso e ainda acha "errado" o amor, ou chama de "modinha" a defesa aos direitos igualitários, repense suas atitudes, e aprenda a não julgar o afeto, que em nada se relaciona com os "prazeres da carne" e sim com o movimento de dirigir sua ternura a outra alma que lhe é complementar. 

Se abandonar o apego material é difícil, ao menos abandonemos o ódio e fiquemos no meio-termo entre a ignorância e a bondade, tentando vencer nossas paixões aos poucos, mas sempre com muito respeito.

E possamos celebrar o orgulho de termos conseguido avançar nesse caminho.



2 comentários:

Dimitri disse...

Tenho notado que o meio politeísta/pagão é realmente bem mais liberal, tolerante em relação a várias questões. Dá um baita orgulho. Agora, o que dizer quando o conflito vem do "fogo amigo"? A comunidade LGBT precisa de mais união, sou um pouco consternado com isso.

Ah, e você é lésbica? Pergunto apenas por curiosidade, não quero insinuar que você está tentando "legislar em causa própria".

Fábio Alves disse...

Concordo com o comentário do Dimitri. Precisamos de mais amor (de todos os tipos: agape, eros, philia, storge), mas a comunidade LGBT é extremamente desunida no Brasil, mais (se) atacando do que (se) ajudando.

Houve fantásticos avanços, mas enquanto não houver mais amor em nossa sociedade, continuaremos nessa "guerra" onde há cada vez mais mortes de LGBTs neste país (campeão mundial em assassinatos da nossa comunidade), que dificilmente irá compensar as nossas conquistas.

Eu já tentei, através do politeísmo (Homotheosis e outros), influenciar positivamente a nossa comunidade, mas quando entendi que era veementemente ignorado (ou melhor, eu atraía muita gente pela internet, mas entravam mudas e saíam caladas das minhas páginas, só usufruindo, mas não deixando nada em troca que justificasse mantê-las no ar). No fim, acabei desistindo e fechei as páginas, porque cansei de dar socos em ponta de prego.

Hoje sigo meu caminho solitariamente (como aliás sempre foi) e já não ligo a mínima para a desunião entre nós. Quando E SE os LGBTs brasileiros aprenderem a lição, temo que será tarde demais. E eu não vou lamentar, porque tudo o que eu tinha de lamentar eu já lamentei.

Um abraço a tod@s.

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