15.6.15

Não Somos Duoteístas! (ou 'Patronato - Parte 3')

Postado por Alexandra Oliveira |

Atena. Just because. rsrs

Precisamos mais uma vez esclarecer sobre os patronos. O maior equívoco que tenho percebido com várias pessoas é uma excessiva preocupação com a descoberta dos patronos de uma forma que se assemelha a um duoteísmo. Não sei se isso é influência das religiões afro em que se tem um orixá de cabeça e de corpo, ou das ficções mitológicas que pregam o ser "filho" de um deus e/ou deusa, mas a patronagem no helenismo não é bem assim. Sim, nós costumamos ter um par de deuses como patronos, mas não são os exclusivos em culto. Por exemplo, eu estou numa fase super Ártemis, e já tive essa fase várias vezes, mas não questiono ser de Atena. A maioria das pessoas fica em crise quando está numa relação forte com um deus, achando que ele está se mostrando o patrono. Ora, a gente pode ter um relacionamento profundo com diversos deuses. Não é tipo termos uma familiaridade com "pai e mãe" e todo o resto não ser família, os outros deuses serem só amigos, não é isso. Até quando me perguntam quais meus principais deuses de culto, eu não cito só Atena e Zeus. Nós celebramos todos os deuses possíveis, mas existem alguns que têm mais a ver com o nosso modo de ser e viver no mundo. 

O que percebo é que os patronos são deuses que honramos com a nossa vida. Eu não faço todos os festivais a Atena, mas eu a honro com a minha conduta. Sempre que ajo com sabedoria ou astúcia, por exemplo, vou estar agradando Atena; se eu demonstrar 'xenia' (hospitalidade) e tiver liderança de grupo, agrado a Zeus. Posso estar cultuando Ártemis ultimamente, mas continuo honrando Atena na maneira que levo a vida. Os outros deuses eu preciso fazer um esforcinho maior para honrar. Eu tenho que parar para pensar um pouco, não é tão natural. Por mais que eu ame ambientalismo e tente viver com os ideais amazonas, não sou tão fisicamente forte/esportista como Ártemis, tão pouco me ligo no lado cuidadora de bebês dela. Essa questão dos epítetos também é interessante - quando mais nova, eu tinha o lado sedutor de Zeus, hoje estou mais para o lado líder e organizada, saindo de um aspecto para outro. Dioniso veio como uma grande paixão na época das minhas pós-graduações, mas seu lado caótico entrou em conflito com a ordem de Zeus e a sobriedade de Atena. Já Zeus me chegou muito discreto. Eu poderia ter resistido a ele em nome de um suposto feminismo diânico anti-deuses-paternos e preferir Dioniso que é mais "trans", mas eu não precisei me esforçar para aceitar Zeus, porque quando o conhecemos de verdade sabemos que ele é maravilhoso. Mas também é maravilhoso Hermes que nos acompanha no trânsito, na comunicação, no trabalho... E igualmente lindo é Apolo, com o qual sonhei após tocar numa píton albina e isso ter melhorado minhas leituras oraculares. E o que falar de Ares, que me apareceu num sonho com uma tribo amazona? São tantos, e é tão bom existirem tantos, que eu não quero me apegar apenas aos patronos, e nem devo ser ingrata de excluir os outros da minha vida.

Há uma pessoa que me disse que achava que era de um patrono, depois achou que era de outro, daí "se despediu" do primeiro, agradecendo e se colocando à disposição e sem tirá-lo do altar. Isso não entrou na minha cabeça. Parecia uma "demissão"! A pessoa me disse que era tipo uma satisfação, mas Otto já falava que os deuses gregos não precisam de satisfação de que você está "namorando"/cultuando outro, porque eles não são ciumentos. Aí a pessoa disse que não era ciúmes, era como um "olha, eu não estou te ignorando nem estou bravo com você, só não estou aqui porque fui ali". Ora, isso não parece paternalismo? Tipo 'neném, papai vai sair com mamãe, você fica aqui com a babá e mais tarde eu volto, viu?' ou 'bem, me apaixonei por outra pessoa, vou ali viver isso'. Uma conversa normal tudo bem, mas "se despedir" ou "se explicar" é como dizer 'tchau, já que você não é meu patrono, não vou mais te dar a mesma atenção'. E esse "vou me dedicar aos meus patronos" (nesse caso) para mim é duoteísmo.

Mas, ainda assim, muita gente fica angustiado querendo saber seus patronos. Vou dar algumas dicas nesse caminho. Primeiro que nós helenos somos de razão, de análise, de percepção, de lógica, de intuição... não de fé. "Conhece-te a ti mesmo" e não "pergunta para fulano de quem você é". A pessoa precisa se perceber, eu no máximo posso dar pitaco. Oráculos costumam ter muito de projeção psicológica pessoal, por um lado é bom para nos conhecermos, mas por outro não podemos ter uma fé cega numa autoridade (oracular ou não), essas projeções muitas vezes só nos dizem o que queremos ouvir, o que nem sempre corresponde ao real. Fique aberto e descubra as convergências. Sei que muitas vezes uma deidade vem muito forte e nos faz questionar o patronato que acreditávamos ter, mas pode ser que não seja por aí, ou talvez esteja mesmo desconstruindo. 

Outra questão é a das relações. Ultimamente tenho recitado o hino de Proclo a Atena multiversátil, e nele fala da relação dela com outros deuses, e isso é muito legal. No entanto, já vi gente querendo justificar um patrono diferente dizendo que se confundiu porque o anterior tinha uma relação com o atual num referido mito ou aspecto. Isso é complicado, porque praticamente todos os deuses têm relação uns com os outros. Se for por essa lógica, poderíamos ser de qualquer um e pegar as histórias dos outros deuses para justificar, então não faz sentido esse argumento de "é porque fulano tem relação com cicrano". Exemplo: lobos têm a ver com Zeus Lykaios, mas também com Apolo Hiperbóreo, que tem relação com Dioniso, que seria avô de Mileto, que foi criado por lobos, cuja mãe era uma deusa agrária e do séquito de Afrodite (Ufa!). É meio como um mapa astral: "meu sol em touro me faz odiar mudanças, mas meu ascendente em gêmeos me faz amar mudanças, e meu vênus em áries me faz guerreira no amor, só que o marte em peixes me deixa calminha..." Tudo dá para achar uma relação. Por isso também não devemos nos apegar a patronos, é como se nos apegássemos ao signo solar na hora de ler o horóscopo. 

Mais um exemplo de interpretação que pode confundir é o caso da liderança. Há um livro chamado 'Os Deuses da Administração' que identifica quatro tipos de liderança. A liderança de Zeus seria a cultura de grupo, mais ligada a uma família, uma teia de aranha em que tudo parte da aranha. Mas há também a liderança de Apolo (cultura de fundação), de Atena (cultura de tarefa) e de Dioniso (cultura existencial). Em Atena há criatividade para solucionar problemas, em Dioniso o essencial é o talento ou a habilidade individual, alinhando isso a um objetivo comum, sem imposição. Quem quiser ler um resumo do livro, encontrei um doc neste link: Clique Aqui

Outra percepção questionável: me falaram que alguém poderia ser de Hades porque é monogâmico. Primeiro que tanto Hades quanto Perséfone deram suas escapadas, no caso de Hades teve no mínimo a ninfa Minta que foi transformada na planta menta. Segundo que a fidelidade dessa pessoa não estava no patrono, mas na patrona, que poderia ser Hera ou Deméter (esta também pode ser vista como possessiva, pois - se ela perde a filha - o mundo inteiro passa fome). E o lado ascético e regrado da pessoa poderia vir de Apolo, não de Hades. Por isso é importante analisarmos diversas coisas.

Os deuses são vários, incríveis e muito espertos. Notei nesses muitos anos de helenismo que há deuses que nos preparam para outros, vi isso principalmente nas crianças. A filha de uma conhecida era de Afrodite, mas era muito pequena para ser de uma deusa tão sensual, então um dia a mãe me contou que a filha tinha visto um rapaz moreno alado voando do quarto dela. Logo percebi que Eros cuidava da menina, a preparando para Afrodite. Mais tarde, uma amiga com dois filhos, senti que a menina estava sendo cuidada por Íris, a preparando para Hera, e que o menino tinha uma relação com Quíron e Asclépio, por uma ligação com Apolo. Eu nem os conhecia muito bem na época, mas depois a mãe foi me contando várias histórias que confirmavam isso, como a menina que desenhava sempre arco-íris e agia de forma majestosa em diversas situações, e o menino que desenhava unicórnios (que lembra centauros) e que se interessava muito por coisas belas e iluminadas. Achei curioso como Íris apareceu ligada a Hera, já que na mitologia ela é mesmo a sua mensageira. A mãe dessas crianças sempre se viu envolta pela presença de Atena, mas descobriu um patronato em Afrodite com o qual se sentiu bastante confortável

Por vezes, essa certeza é tão profunda que não sentimos necessidade de questionar, porque estamos nos sentindo bem ali. E sentir-se em casa deve significar alguma coisa. Se há essa insistência de ver os patronos como pai e mãe, então essa relação deveria ser confortável e segura como a de uma família mesmo, e deveríamos deixar os pais orgulhosos com a nossa conduta, uma conduta que corresponda ao que eles nos ensinaram. Por isso falei tanto que os patronos se relacionam com a nossa vida. E a nossa versão do "honrar pai e mãe", nesse caso, é bem por aí, no exemplo cotidiano, não numa aproximação que depende de muitos sacrifícios e horários e disposições. 

Espero que isso ajude a esclarecer mais um pouco como vejo essa questão, e diminua as limitações das pessoas em achar que devem se "dedicar" a apenas dois deuses em vez de a vasta e maravilhosa gama de deidades com as quais podemos nos relacionar.

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