22.10.14

Tornar-se quem se é

Postado por Alexandra Oliveira |


Quando Urano não saía de cima de Gaia, isso causava a ela desconforto. O caçula, Cronos, utilizou então uma foice para cortar o membro do pai, separando o Céu da Terra, como temos hoje. Nesse intervalo entre o céu e a terra, existe o tempo e o espaço. É aí que as gerações se sucedem, que a vida ganha um começo, meio e fim. Uma vida que acaba para outra começar. Essas coisas só são possíveis no tempo e no espaço, e quem proporcionou isso foi Cronos. 

Como atacou o pai, tinha medo dos filhos, e os engolia. Ele estava numa posição confortável e não queria mais mudanças. Aquele que tinha sido subversivo com o pai Urano, tornou-­se um conservador, pois temia as alterações que ameaçassem sua soberania. Por isso que cometia as atrocidades de engolir os filhos. É assim que costumamos ver a mudança: dependendo da posição que ocupamos, do conforto que temos, do prazer que nos dá estar no lugar que estamos. Entendemos a mudança como boa ou ruim dependendo dos nossos interesses e desejos.

Mas Gaia deu-­lhe uma pedra no lugar do caçula, e assim salvou-­se Zeus, que libertou os irmãos. Mais tarde, Zeus também temeu a mudança, engolindo Métis quando esta estava grávida de Atena. Esta também deu um jeito e nasceu da cabeça do pai.

Só que Zeus fez diferente de Cronos. Zeus distribuiu o mundo entre seus correligionários. Assim, a ordem universal passou a ser baseada na justiça de dar a cada um o que lhe é devido. Zeus restabeleceu a ordem. Ninguém ficou de fora, todos tinham uma função, uma finalidade, um papel, de dependência recíproca. Agora viver bem é viver em harmonia com a ordem universal.

Cabe a nós encontrarmos o nosso lugar natural, onde desempenharemos nossa finalidade, pois, se vivermos em desarmonia com o todo, o todo sofre e nós também sofremos. E esse lugar tem a ver com o que faz nos sentirmos bem, com o nosso talento, com a nossa natureza, com a nossa aptidão. O universo espera que sejamos felizes com o que temos de melhor, de mais excelente.

Por isso é importante nos conhecermos, para saber nosso encaixe no todo. “Conhece-­te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. Quando fazemos apenas o que for preciso, se entramos num emprego 'nada-a-ver' só porque é onde tem vaga, não estamos alinhados com o nosso talento natural, e isso afeta a saúde (ordem, harmonia) do grupo inteiro. Para haver um cosmo harmônico e uma convivência feliz, os membros do cosmo também precisam estar em harmonia. “Em cima como embaixo”. O macrocosmo e o microcosmo são reflexo um do outro.

O filósofo mais conhecido com relação à mudança é Heráclito, aquele que diz que tudo flui, que nada é permanente, tudo se transforma em algo diferente, tudo deixa de ser, o tempo todo. É o cara que disse “não te banharás duas vezes no mesmo rio”, pois ou o rio mudou ou você mudou. A água é outra, a temperatura é outra, a força da correnteza é outra, sua vida se transformou... Você e o rio são dois entes em fluxo permanente, e seu encontro é sempre inédito. Somos sempre iludidos pela possibilidade de permanência: achamos que nosso cônjuge é o mesmo, a aula daquele professor é a mesma, a plantinha da varanda é a mesma, pois a mudança neles é mais sutil.

Existe uma alegoria da rã (triste, por sinal), que conta sobre uma rã que está na panela com água à temperatura ambiente, e que o cozinheiro vai aumentando aos poucos, levemente, a ponto de a rã não perceber a discreta mudança, mas no final já foi cozida e nem se deu conta. Muitas vezes acontece assim conosco. Estamos tão acostumados no dia­a­dia que nem percebemos que passaram­-se 10 anos e ficamos acostumados a acreditar que conhecemos onde estamos como a palma da nossa mão, que está tudo confortável e seguro, como sempre foi... até a água ferver. E aí percebemos tarde demais que já nos transformamos e nem soubemos lidar com isso.

Algumas das principais condições para uma mudança sadia (harmônica, ordenada) é o diálogo, como fazia Sócrates. Ele partia da premissa do “nada sei” e tentava dar uma definição ao conhecido, só para acabar percebendo que aquilo não era o que pensávamos antes. Todo aquele que está disposto a dialogar, está também disposto a mudar – o pensamento, a alma etc. Para dialogar, é preciso saber ouvir. Ouvir e considerar o que se ouviu. Considerar e admitir quando o argumento superar o seu próprio. Às vezes dói perceber que estávamos equivocados e que o outro possuía uma percepção que não tínhamos. Nascer uma nova ideia é como um parto – a arte da maiêutica. Um parto é angustiante e exige esforço, disposição, sacrifício. Mas traz benefícios. Assim é a mudança.

Para Aristóteles, toda matéria é uma potência, uma possibilidade. A determinação é que converte a matéria em forma, a potência em ato. Como um bloco de mármore que vira escultura. A matéria é o mármore, a estátua é a forma. Tudo o que existe é potência virando ato. Todos nós somos possibilidades. Precisamos atualizar com excelência ('areté') nossas potencialidades. Quando fazemos coisas para as quais não temos aptidão, nos curvando ao mediano em vez do excelente, desrespeitamos nossas potencialidades, nossos talentos. O que temos que saber é de mármore somos feitos e que escultura queremos virar.

(Texto adaptado de anotações de vídeo-aulas sobre Gestão e Mudança, do 
Prof. Clóvis de Barros Filho, graduado em direito, jornalismo e filosofia, 
com mestrado e doutorado em direito e doutorado em comunicação.)

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