7.9.11

Hefesto e os caranguejos

Postado por Alexandra Oliveira |

Quando a gente fala de caranguejo pensando na mitologia grega, a maioria pensa direto no Karkinos que ajudou a Hidra na batalha contra Héracles em Lerna e que Hera transformou na constelação de Câncer (veja aqui). Mas há outra história com caranguejos (li neste livro), que me deixou feliz quando soube, pois quase todo fim de semana eu costumo saboreá-los.

O caranguejo está associado a Hefesto. Hesíquio dizia que os caranguejos eram filhos de Hefesto e de Cabiro (filha de Proteu, rei das focas). Vejam que tanto as focas (cultuadas em Rodes em relação com os Telquines) quanto os caranguejos (cultuados em Lemnos como os deuses Cabiros) têm um caminhar meio desajeitado como o do deus coxo, e o caranguejo - além de membros estranhos - têm uma ligação com a metalurgia por conta de seus tenazes (pinças, alicates). Tanto que karkínos também significa a tenaz do ferreiro, em grego.

Uma antologia palatina descreve o caranguejo como um "monstro de pernas retorcidas, de duas pinças, que se enfia sobre a areia, caminha recuando". Ou seja, ele anda enviesado. Aristóteles dizia que os animais se deslocam na diagonal, sendo o caranguejo o único que caminha de lado. Um provérbio grego diz "jamais farás um caranguejo andar reto". Suas patas são tortas e na frente da carapaça há duas pinças (que também não são iguais uma da outra). Ainda Aristóteles o descreve: "as pinças do caranguejo não servem para andar, mas para aprender a segurar, como fariam as mãos, e é por isso que as pinças se dobram no sentido contrário ao das patas; estas se dobram para dentro, as pinças se dobram para fora". Assim, ele possui duas orientações.

A aparência física de Hefesto é descrita por três epítetos principais, que se relacionam à forma curva, o caráter mutilado e a dupla orientação em sentidos opostos. Hefesto Kyllopodion, o deus dos pés curvos, de membros tortos - sendo "kyllos" (visto em Aristófanes) uma designação tanto do coxo quanto de uma mão recurvada e pontiaguda, como uma pinça. Recurvar os dedos, torcendo-os para dentro, é "fazer uma mão de caranguejo" (karkinoún toús daktýlous), segundo Antífanes. Hefesto Kholós é o deus deformado, mutilado, estropiado. Antígono e Apolodoro falavam que Hefesto é mutilado nas duas pernas - isto é, não é coxo, já que se trata de ambos os membros mutilados. E o epíteto homérico de Hefesto Amphigyéeis lembra esse curvo nas duas pernas, o de direção dupla e divergente, com alguns vasos representando-o com um pé esquerdo para a frente e um pé direito torcido para trás.

Em certas sociedades australianas, germânicas, mongólicas e até entre as guerreiras Amazonas, parece ter existido a crença de uma relação entre a doença/mutilação e os ofícios de mágico/ferreiro. Por um lado essa mutilação servia como a 'desculpa' para eles ficarem forjando as armas em vez de irem para a guerra, mas, por outro, significa que somente um ser dotado de uma direção dupla é capaz de dominar coisas móveis, fluidas e polimorfas - como o fogo, o mineral e os ventos com que trabalha o ferreiro. E, fechando os quatro elementos, caranguejos e focas são seres marinhos, parte imersos em água.

Agora sempre que alguém fala em caranguejo me vem um sorriso nos lábios à lembrança de Hefesto, de sua capacidade de nos inspirar, de sua habilidade, de sua fluidez, e do quanto ele nos é querido quando nos permitimos conhecê-lo melhor. Assim, a exemplo de algumas crenças indígenas, espero adquirir as boas características dos seres dos quais me alimento e poder honrar Hefesto com toda essa tenacidade típica dele.


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