4.11.10

Mulheres de Atena

Postado por Alexandra Oliveira |

₪₪₪ Esta postagem é inspirada em escritos (traduzidos, reescritos, resumidos e comentados) dos blogs da Ellen e da Glaux, bem como de um artigo de Lucy Corcoran, linkados ao final da mesma. Já os termos linkados no corpo do texto são para outras fontes de leitura (referências mitológicas e literárias). ₪₪₪

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Eis uma pergunta intrigante: "Se as mulheres eram inferiores em Atenas, por que eles tinham uma deusa como padroeira da cidade?"

Claro que os estudiosos proporiam várias maneiras de responder a isso, e uma delas é a possibilidade de que os gregos aceitassem mais o conselho bélico de uma mulher do que de um parceiro (essa é a visão de Wilamowitz, citado em Otto, 1979). Mas vamos lá voltar um pouquinho nessa concepção de Atena como deusa do masculino por conta de ela nascer diretamente do pai e por conta do que Ésquilo, um escritor (homem) da literatura antiga, coloca em sua divina boca para defender Orestes.

Esse evento pode ser interpretado como uma demonstração de que as mulheres podem ter uma amizade verdadeira com homens (e com mulheres também) sem ter que configurá-la em algo "colorido"/sexual, mas uma amizade mental, intelectual, de companheirismo, camaradagem, de projetos em comum. E Atena tinha isso com Orestes, Odisseu, Perseu, Aquiles, Diomedes, Tydeus, e tantos outros. O que não significa que ela não tivesse esse tipo de amizade com mulheres também!

Ademais, mesmo que no caso de Orestes ela tivesse ido contra a mãe dele, pode-se ver que, em vários outros casos dos homens que ela protegia, ela o fazia de uma forma que prejudicava outros homens: como ir contra Heitor para ajudar Aquiles, auxiliar Odisseus a enfrentar 300 homens, e até atirar uma pedra no pescoço de Ares para defender Diomedes. Mas a intenção deste texto é falar sobre da relação de Atena com as mulheres, então voltemos às suas amigas.

Ela era tão amiga/irmã/querida companheira de Pallas na infância que depois acabou incorporando seu nome (tudo bem que Atena matou Pallas acidentalmente enquanto simulava uma luta com ela, mas lembre-se que Zeus semelhantemente 'devorou' Métis, se formos pensar por esse lado). Ela também foi amiga de Perséfone e Ártemis, com quem ela brinca no Hino Homérico a Deméter (verso 424). Foi amiga de Khariklo (mãe de Tirésias), a quem concedeu presentes, no poema de Calímaco. Quando Cassandra procurou refúgio no santuário de Atena durante o cerco de Tróia e foi arrastada e violentada por Ajax, Atena fica furiosa e persegue o herói até matá-lo partindo seu navio com um raio emprestado de Zeus. E, mesmo tendo de punir Medusa transformando-a em monstro, ao final ela incorpora a cabeça da górgona ao seu escudo como um emblema.

A história de Aracne também precisa de uma observação, colocando-a em um prato de balança oposto ao de Penélope. A esposa de Odisseu recebe de Atena os dons da tecelagem, da astúcia, da narração de histórias... "Athena a dotou mais do que às outras mulheres com o conhecimento de trabalhos manuais e um coração compreensivo" (Antinoos, na Odisséia de Homero, c.2 - v.115). A artimanha de Penélope é uma forma de usar a arte da tecelagem dada por Atena como uma verdadeira estratégia militar - também domínio da deusa. Já Aracne, esta usurpa e usa de forma errada a arte tecelã. Ela se gaba de seu trabalho ser melhor que o de Atena e aceita o desafio de uma competição tipicamente arrogante e insolente. Enquanto Atena tece sua imagem majestosa, Aracne retrata casos escandalosos dos deuses. Por isso sua tapeçaria é rasgada, ela é punida e transformada em uma aranha.

O curioso é que, tanto no caso da Medusa quanto no de Aracne, o relato passa a impressão de "ciúmes", que para os escritores antigos como o romano Ovídio, seria a emoção mais feminina que há. Ou seja, não combina com a ideia de uma deusa tão amplamente vista como sendo de um campo exclusivamente masculino. Parece que a relação de Atena com as mulheres passava por características dos dois gêneros, enquanto nas suas conexões com os homens não entraria essa pitada de rivalidade que é vista como típica no caso de duas mulheres.

De qualquer forma, reduzir Atena a uma deusa dominada pelo masculino num mundo em que imperaria o patriarcado é realizar um verdadeiro desserviço a ela. E a questão de ser chamada de virgem e mãe (de Erictonios) - ao mesmo tempo - talvez seja porque esse "virgem" é no antigo sentido da palavra, aquele que caracteriza uma mulher que não pertence a homem algum (e não no sentido de alguém que renega sua feminilidade). Quando homens e mulheres são iguais, não há posse, e esse reconhecimento de igualdade que estamos tentando viver nos tempos atuais só nos conclama a honrar mais ainda Atena de uma forma que vai além da tal ideia de uma filha casta.

O que ela é, é sim uma figura complexa, e todos os que a têm como padroeira das universidades, da sabedoria, do poder feminino, com certeza irão defendê-la nesse ponto (e nos outros). Em sua obra The Homeric Gods, Walter Otto chama Atena de 'deusa sempre-próxima' ("ever-near"). Ele diz que Atena é "a consumação", "o presente imediato", "a ação aqui-e-agora", "a presença espiritual redentora", "a ação veloz", "a sempre perto".

Uma das mulheres de quem ela hoje é patrona a definiu uma vez como:
"a paz solene da neblina cinzenta da manhã, espalhando seu orvalho em todas as coisas vivas [...]. Ela é o livro exato que você acaba lendo no momento perfeito. Ela é o estado meditativo que acompanha a criação de toda arte. É bom procurar por Atena, mas é melhor saber que Ela já está com você. Ela é verdadeiramente a deusa que está sempre perto." (Glaux, tradução minha)
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Fontes:
http://www.mythphile.com/2010/10/the-goddess-athena-feminist-or-misogynist/
http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/virgin-athena.html
http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/ever-near-goddess.html
http://www.ucd.ie/pages/99/articles/corcoran.pdf

3 comentários:

Rô Rezende disse...

Se eu acreditasse em coincidências ia dizer que foi muito engraçado você por esse post hoje. Mas como eu não acredito, vou ter que reconhecer a mão da própria deusa nisso.

Antes de ontem tentei me conectar com Atena, deusa que sou apaixonada desde que sou criança, a primeira grega que me fascinou: a sabedoria, a paixão pela luta e pela estratégia de guerra, as habilidades manuais, até mesmo a conexão forte que ela tem com o pai.

Porém me distanciei nos últimos anos, talvez por ter sempre a visto como uma deusa masculina, esse lance de virgindade eu também não gostava muito, não entendo a importância da castidade ainda. Mesmo assim, sempre a mantive em minhas orações.

Acho q foi quando decidi assumir mais minha feminilidade que me afastei, e essa semana decidi voltar, e me senti de novo perto dela, vi olhos verdes que nem sabia que ela tinha. E pedi para que ela se mostrasse como realmente é para mim, que eu conseguisse vê-la sem o véu que cobriu meus olhos por esses anos.

Eu acho que ler seu texto é uma das formas que ela decidiu usar para atender ao meu pedido. Obrigada a você, por ter escrito.

Ps: Desculpe o comentário gigantesco!

Jota Olliveira disse...

Amor,
O texto ficou fantástico e coube perfeitamente a análise. Adorei!

Dúvida? O "The Homeric Gods" que você citou é o mesmo que "Os Deuses da Grécia"? Ou outro?

Parabéns amor! Bjs

marinheiro disse...

belíssimo texto :)

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