24.9.13

Métron

Postado por Alexandra Oliveira |

Responda A, B, ou C, para as perguntas abaixo, de acordo com o que mais se aproxima da sua visão (ou se iguala a ela):

1. O que deve ser o ser humano?
A) Um servo que cultua de joelhos a coisa mais poderosa que encontra – seja um monarca, um milionário, uma celebridade, um líder militar, um deus.
B) Um realista, que sabe que a liberdade é uma ilusão e tudo o que somos é a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência.
C) Alguém que procura se tornar consciente de seu potencial interior e não vê razão para – se for talentoso/virtuoso/evoluído o suficiente – não transformar-se ele mesmo em uma divindade. 

2. Quem é deus?
A) Deus é alheio e externo, que reside no céu desde o princípio do mundo, é algo que nunca poderemos ser, só podemos almejar conhecê-lo depois da morte.
B) Deus não existe ou Deus morreu.
C) Deus está dentro de nós e somos parte dele, podemos nos tornar um com ele, embora essa seja uma jornada de heroísmo, com perigos mortais no caminho. 

3. O que é uma enchente (e outros desastres naturais)?
A) É a vontade de deus que se indignou com o mal no mundo e mandou o dilúvio.
B) É um evento natural, consequência de um terremoto e subsequente tsunami.
C) É um movimento natural da Terra em consequência do desequilíbrio provocado pelas degradações ao meio ambiente.

4. Qual conhecimento é mais importante?
A) O derivado da percepção, dos sentidos, daquilo que experimentamos e sentimos. 
B) O derivado da razão, do pensamento, daquilo que podemos replicar em experimentos calculados.
C) O que equilibra a lógica com a intuição e o instinto.

5. O que é a 'alma' ou a 'mente'?
A) É o que ganhamos de deus e que voltará para se encontrar com ele no fim dos tempos.
B) É algo que não pode ser medido nem provado, portanto não pode servir como orientação; apenas podemos observar atividades neuronais/cerebrais, que também são físicas.
C) É algo que está em tudo e tudo tem uma mente/alma.

6. Como o mundo se desenvolve?
A) Deus o criou, fez o homem para governá-lo, e um dia voltará para terminá-lo e levar seu povo consigo, separando-o daqueles que não serão salvos.
B) Ele caminha para a desordem, para uma morte pelo fogo, segundo as leis da termodinâmica que tratam da entropia.
C) Ele se desenvolve através da resolução dos opostos.

7. O que é mais importante de se entender/estudar?
A) As escrituras sagradas.
B) A matéria, a percepção dos sentidos, o que se pode apreender pelo domínio sensorial.
C) A mente, a razão, o si-mesmo, o microcosmo como reflexo do macrocosmo e vice-versa.

8. O que é o universo?
A) O universo é algo criado por um deus que tem todas as respostas, só ele sabe os seus propósitos e desígnios, sua compreensão está fora do nosso alcance.
B) O universo é um mecanismo que funciona como um relógio, um computador natural, lógico e infalível, mas que um dia vai se desgastar.
C) O universo é um organismo vivo e cíclico, que segue dialeticamente solucionando conflitos, em busca de se aperfeiçoar.

9. E a moral?
A) A moral é algo transcendente, só existe em deus.
B) Não existe moral, o mundo é amoral.
C) A moral é algo racional e imanente.

10. Como você acha que as pessoas imaginam deus?
A) Um ‘deus’ de pura vontade – violento, irritado, cruel, caprichoso, que precisa destruir com água o mundo que criou porque errou e precisa refazer tudo de novo, que toma partido dos seus escolhidos contra o resto do povo, egoísta, e que exige que todos se ajoelhem para cultuá-lo.
B) Um ‘deus’ que é uma ordem, com tudo no seu lugar, com um lugar para tudo, com tudo funcionando harmoniosamente, tudo acontecendo de acordo com a razão e a lógica, sem contradições, sem reclamações, sem problemas, um verdadeiro computador.
C) Um ‘deus’ que reflete um cosmos orgânico que soluciona seus problemas, supera os obstáculos, busca a essência da vida, estimula as pessoas a se aperfeiçoarem até a iluminação - inclusive reencarnando quantas vezes elas precisarem.

11. O que você entende pela teleologia (estudo do "telos", da completude, do ponto último, do estado final absoluto)?
A) Ela reside em uma personalidade - deus, santo, anjo - que faz as coisas acontecerem no mundo, e prevê esse final como um Apocalipse, um Armageddon, um Arrebatamento, um Dia de Julgamento.
B) Ela demonstra que somos apenas máquinas movidas pelo determinismo, o livre-arbítrio é uma ilusão, e o universo caminha para a desordem.
C) Ela pode ser estudada pela matemática e pela filosofia, vendo o universo como um organismo vivo, capaz de gerar consciência e liberdade de escolha.

12. Com qual tipo psicológico você se parece mais?
A) Sou mais do tipo extrovertido sensação e sentimento.
B) Sou mais do tipo extrovertido sensação e pensamento. Apesar de ter pouca habilidade social, não sou introvertido, porque sempre procuro entender o mundo lá fora, o universo, e não o mundo interior.
C) Sou mais introvertido pensamento e intuição, às vezes com a função sentimento.

Se você marcou mais ‘A’, você se identifica mais com os da religião vigente, o abraamismo, de “fé”. Se você marcou mais ‘B’, com o ateísmo materialista, positivista, empirista e mecanicista, da “ciência”. Se você marcou mais ‘C’, se identifica com as religiões que buscam a iluminação ou a excelência ou algo semelhante (o “samadi”, a “areté” etc), que seguem a lógica da alma e da existência.

Agora vamos analisar um pouco algumas ideias presentes nesses itens:


I. DEIFICAÇÃO:

Abrãao não tem a simpatia de um herói. Seu compasso moral era tão falho que ele achava que estava fazendo algo bom ao ser obediente a uma voz que o mandava matar o filho. Não existe reflexão ali, só servidão a um poder maior. E obedecer é o que os abraâmicos mais fazem, e o que mais adoram fazer. Os judeus, por exemplo, obedecem a 620 mandamentos. Os muçulmanos obedecem servilmente a Alá. Os cristãos chamam Jesus de “senhor” e de “mestre”, e não de amigo, irmão, companheiro, camarada, parceiro, ou algo mais próximo. 

Os livros sagrados das religiões predominantes são cheios de histórias de controle e dominação, sobre humanos que se curvam e se prostram. Eles criam um buraco entre deus e a humanidade, a qual está sempre suplicando pela misericórdia de seu senhor e mestre. Eles precisam obedecer a comandos (‘co_manda-mentos’) e viver com medo da punição eterna se não o fizerem. 

No xadrez, um peão que chega do outro lado do tabuleiro vira rainha, a deusa do xadrez. A alma é algo similar. É um peão comum, que atravessa um imenso e perigoso campo de batalha (a vida) e é promovido à realeza. Precisamos cruzar o vasto abismo como heróis, realizando as coisas mais impressionantes, e nos tornarmos divinos. Mas esse é o destino de muito poucos peões. A maioria é levada pela mediocridade e não chega a saber o que é alcançar o outro lado, entendendo seu verdadeiro potencial. A maioria prefere cultuar a rainha que já existe do que procurar tornar-se ele mesmo uma majestade. O peão especial é aquele que enfrenta os bispos (figuras religiosas), as torres (senhores em seus castelos), os cavalos (pessoas ignorantes), e os monarcas – todos aqueles que tentam o intimidar e destruir e com os quais precisamos negociar. Esse peão sobrepuja as forças do privilégio, não se curva a ninguém, e prova o seu valor, seu mérito. 

Alguém que caminha para tornar-se divino acaba por fazer emergir naturalmente habilidades ‘paranormais’. Ele/ela adquire cada vez mais conhecimento, tolerância a frustrações, consciência da influência das coisas naturais no mundo etc. E nenhum desses “poderes” contraria a matemática. Se um poder não puder ser definido matematicamente, ele é uma fantasia. Mas superaudição, supervisão, metamorfose, entre outras coisas aparentemente sobrenaturais, todas são observáveis (principalmente entre alguns iogues na Índia) e são explicáveis matematicamente, então podem ser adquiridas. Como dizem por aí, “qualquer coisa que não é proibida, acaba acontecendo”. A sequência de reencarnações só terminaria quando o conhecimento ou iluminação ou excelência são alcançados.

Pensando assim, os deuses não “criaram” o universo, e sim são a culminação dos processos universais. São almas libertas e iluminadas. Podem então orientar os outros seres. E almas iluminadas não vão pedir que você se ajoelhe e as idolatre, nem vão te ameaçar com um castigo eterno se você as desobedecer. Um ser assim não é um iluminado! 

O ser humano começa como uma mente individual e subjetiva, com um egoísmo ingênuo e primitivo. Aí ele se reúne em grupos, forma comunidades, sociedades, Estado. Sua mente subjetiva é transformada em instituições objetivas e concretas. Depois, ele começa a retornar para si mesmo, mas em um nível superior ao anterior de onde partiu, como em uma espiral. O homem descobre três dons maravilhosos nele: a arte/beleza, o ideal religioso/divino, e o ideal filosófico/racional. Aí ele adquire independência, liberdade, conhecimento e compreensão. A filosofia é a culminação do que a arte e a religião procuram realizar. A arte e o sentimento religioso nascem do sentimento e da imaginação, mas elas falham um pouco na questão da razão. Para equilibrar isso, precisamos ser filósofos.

O teólogo Friedrich Scheleiermarcher dizia que, para o universo se realizar no seu máximo potencial, todas as partes dele deveriam também alcançar esse potencial máximo. As religiões de iluminação também pensam assim. O melhor universo possível é aquele em que cada alma alcançou o status de divindade, em que cada ser humano maximizou todas as suas habilidades. E um dos maiores obstáculos a essa realização global é o sistema de privilégios que temos, no qual uma minúscula elite se apropria de uma vasta parte dos recursos mundiais para si, negando aos outros a chance de também prosperar. 

Nietzsche ofereceu uma moralidade de auto-superação e de aperfeiçoamento até a perfeição do ‘super-homem’. Essa é uma moral racional e desejável. No entanto, Nietzsche era muito esnobe e elitista, e rejeitava a ‘massa comum’. As religiões de iluminação procuram aperfeiçoar todo mundo, e não só uns poucos favorecidos. Porque o universo evolui junto com as pessoas. A própria razão é algo que evolui do caótico a uma ordem e organização (o domínio de Zeus). Ela vive numa guerra de teses e antíteses até chegar numa síntese melhor e mais racional, e esta gera outra tese mais elevada, com outra antítese também mais elevada, que invocará uma síntese superior, e assim vai até a uma racionalidade divina.

Se todos somos partes da divindade e temos o divino em nós, quando ele evolui, nós também evoluímos. E a nossa divindade completa a divindade cósmica.

A espiral (ou hélice) simboliza a evolução, a eternidade, 
a espiritualidade, o crescimento, o DNA, a dialética...


II. DEUS(ES):

No estoicismo, a matéria mais fina (o pneuma) era conhecida também como “pyr technikon”, o fogo criativo que se assemelhava ao próprio Zeus. Ou seja, deus seria uma energia inerentemente criativa presente em todo o universo, animando tudo e governando-o de acordo com a razão (Logos) divina. Deus era tanto fogo (energia ativa) quanto logos (razão). O que deus é para o universo, a alma o é para o homem. Isto é, um homem é um universo em miniatura, um microcosmo. A alma humana (pneuma psychikon) é uma mistura de ar e fogo, uma porção do pneuma divino que permeia e rege o cosmo/universo. Os filósofos pré-socráticos também tratavam Zeus como uma espécie de mente cósmica abstrata impessoal.

Se a alma do universo é como a nossa alma, então essa força que anima o universo também sofre evolução, de algo inconsciente até a consciência. E isso requer uma multiplicidade de deuses. 


III. CRIACIONISMO – EVOLUCIONISMO – ETERNALISMO:

“Se algo existe, ele é eterno, já que nada vem do nada.” (Melissus) Assim, nada pode ser criado nem destruído (tudo é infinito), apenas transformado em manifestações diferentes da existência.  Nada pode ser acrescentado e nem subtraído. Nós fazemos descobertas matemáticas, e não inventos matemáticos. O atomista Leucipo foi o primeiro a declarar que “nada acontece do nada, mas tudo parte de alguma coisa e com alguma necessidade”. Nada aconteceria por acaso, todas as colisões atômicas são determinadas por leis que as governam. Dessa forma, até o Big Bang não seria um evento que aconteceu, e sim algo que continuaria ‘rolando’.

Algo que existe não pode surgir de algo que não existe. Isso é impossível. Todas as qualidades que se manifestam na existência já estariam presentes em formas mais simples, em unidades elementares de existência. Elas são libertas através do processo de evolução, do mais simples ao mais complexo. Descartes também argumentava sobre uma lei da 'conservação do movimento'. Nenhum novo movimento poderia entrar no universo, nem o atual ser destruído. Se algo aumentasse de velocidade num lugar, outro algo deveria necessariamente diminuir de velocidade em outro canto.

Mas há dois tipos de eternalismo: o do puro “ser”, de Parmênides, onde a mudança é ilusória; e o do puro “tornar-se”, de Heráclito, onde tudo está sempre mudando e se adaptando. Os atomistas (como Leucipo e Demócrito) tentaram resolver isso ao imaginar os átomos como entidades eternas e imutáveis (puros 'ser') que constantemente se movem e colidem, produzindo o mundo (um eterno 'tornar-se'). Porém, se tudo ocorresse via átomo se colidindo, esse seria um mundo muito materialista e científico, sem causas e propósitos. O universo estaria simplesmente se rearranjando infinitamente, sem nenhum sentido; quando – na verdade – o universo tem uma intenção, ele quer realizar algo.

Também há dois tipos de evolucionismo. Evolucionistas darwinianos são diferentes dos evolucionistas hegelianos com relação ao propósito do universo. Darwin fala das coisas se aperfeiçoando para se adaptar ao meio ambiente por seleção natural, mas não há um desejo de melhorar, de se tornar perfeito. A dialética de Hegel, por sua vez, inclui a teleologia, o universo “querendo” melhorar para se tornar mais perfeito. Hegel inclui vida e um aspecto mental ao universo, enquanto Darwin é puramente materialista. A dialética hegeliana mostra a humanidade se tornando cada vez mais perto de serem deuses, por conta do elemento divino que há em todos os seres humanos – bastaria comparar as habitações em cavernas da Idade da Pedra e as construções arquitetônicas modernas das cidades de hoje. O darwinismo não tem interesse no destino dos homens, já que não atribui nenhum propósito à vida. 

As religiões de iluminação são um meio termo entre o criacionismo mitológico e o evolucionismo lógico. O conceito de 'karma', por exemplo, que é uma dimensão moral dada ao universo, é criacionista. Mas a reencarnação e o 'samsara' são evolucionistas.

Os números, as formas geométricas, as leis das relações matemáticas, as leis da lógica, as fórmulas, equações e identidades matemáticas são ligadas ao “puro ser”. As funções matemáticas que sempre mudam e interagem, que são entidades dinâmicas, são ligadas ao “puro tornar-se”. O átomo é do ser, as combinações que formamos com eles são do tornar-se. A linguagem tem 26 letras do ser, as palavras e os pensamentos verbais são do tornar-se. 

Richard Dawkins, comparando-nos com uma enciclopédia, dizia que os átomos são como as letras, os nucleotídeos são como as palavras, os genes são como as páginas, os cromossomos como os volumes (cada livro), e o DNA como a coleção inteira com o nosso 'plano de design'. 

As camadas vão se organizando em coisas cada vez mais complexas. Essa é a essência da evolução. O sonho platônico de reconciliar Parmênides e Heráclito se realiza aí. 

Anaxágoras declarava que existiam substâncias fundamentais infinitas chamadas 'homoeomeries', de qualidades diferentes, que eram organizadas de uma forma lógica pela Mente (Nous) do cosmo. Tudo no mundo, por menor que fosse, seria composto de todas as homoeomeries possíveis (o grupo infinito inteiro). Ele dizia: “tudo tem uma porção de tudo oculto dentro de si, mas apenas aquilo que for mais numeroso será aparente”. Assim, tudo poderia ser transformado em tudo, apenas ao mudar a proporção relativa das diversas homoeomeries (ideia esta que influenciou a alquimia). Também por conta dessa ideia, tudo conteria o seu oposto, podendo dialeticamente mudar para a sua antítese. 

Se somos formados por essa substância, também nós somos eternos. E o Universo não é um mecanismo robótico estúpido, sem propósito e sem vida, como a ciência materialista crê. Ele também realiza coisas inteligentes e cheias de propósito, ele busca se completar, se tornar consciente. 


IV. MATERIALISMO/EMPIRISMO x IDEALISMO/RACIONALISMO:

Aristóteles uma vez falou sobre a esfera da lua ser a fronteira entre os céus e a Terra, onde tudo acima da lua seria etéreo e perfeito, formado da quinta essência (éter), e tudo abaixo fosse não-etéreo e imperfeito, formado dos quatro elementos (terra, água, fogo, ar). Os abraâmicos acharam isso o máximo, e resolveram dizer que seu deus estaria fisicamente no céu supervisionando tudo, o demônio fisicamente debaixo da terra tentando puxar as pessoas pras profundezas, e os humanos no meio. Só que o homem foi à lua, e observou ainda mais além, e mostrou que não era desse jeito. Ainda assim, em vez de testemunhar a descoberta da ciência e mudar sua visão de mundo, os abraâmicos simplesmente deram de ombros, deram as costas para a ciência e redobraram sua fé. A religião deles se tornou algo de pura fé. “Deus sabe mais do que os homens”, eles declaram. Ou seja, eles não nos dão esperança de que a humanidade aja racionalmente ou por argumentos válidos e justos. Ela teria que agir às cegas, por desejo e vontade (de um deus) e não pelo intelecto humano. É algo muito impreciso.

A filosofia é racional, ela busca a verdade (e não a vontade). O universo inteiro tem uma alma. Esse é um conceito que começou com Platão e foi desenvolvido pelos neoplatônicos. Os estoicos também acreditavam numa energia vital RACIONAL que dirigia o universo: a “alma cósmica”. Os humanos seriam fragmentos dessa alma, e a vida só fazia sentido se exercêssemos devidamente a razão. Se resistíssemos à razão, a vida provavelmente se tornaria algo miserável e confuso. 

A ciência é materialista, positivista, ateísta, mecanicista e determinista demais. Ela torna tudo uma cadeia inexorável de causas e efeitos determinada por forças científicas. Não dá espaço para o livre arbítrio, a alma, os deuses. O positivismo afirma que o conhecimento deve ser limitado a aquilo que pode ser observado e cientificamente compreendido. Ele só foca em fatos observáveis e proclama que qualquer proposição que não possa ser reduzida a uma afirmação simples dos fatos é ininteligível. A ciência é positivista, materialista, empirista, e – portanto – todos os cientistas são incapazes de considerar o domínio numinoso. Não devemos colocar fatos “observáveis” num pedestal. Toda hora lemos sobre algo “cientificamente provado”, mas um tempo depois o oposto da mesma coisa também é “cientificamente provado”. Isso só prova que a pessoa acredita cegamente (e aí parece fé) em qualquer coisa que um cientista diz. Isso sem mencionar o patrocínio que acontece por trás das pesquisas “científicas”. O alvo da ciência é mutável, ela sempre se contradiz e substitui velhas teorias desacreditadas por novas. A ciência não mira o conhecimento absoluto, só o conhecimento progressivamente mais confiável. 

Na verdade a ciência não prova nada. Ela só reúne teorias provisórias e evidências temporais que apoiam essas teorias. Não tem a ver com certeza, e sim com o grau de confiança que temos naquela afirmação. Quase uma crença. “Confiança” não é nem verdade nem conhecimento. A ciência trabalha com paradigmas, e paradigmas não são verdades, são apenas construções nas quais a ciência se baseia durante certos períodos. “Não há fatos, só interpretações” (Nietzsche). É diferente da matemática, na qual você tem 100% de certeza de que 1+1=2. Isso é um fato. 

Se você rejeita a alma porque a ciência não pode prová-la, então você elevou a ciência ao status de uma religião e proclamou que qualquer coisa fora do ‘Livro Sagrado das Pesquisas Científicas’ é falso. E isso é fé. Os sacerdotes da ciência transformam-na em algo dogmático, lucram com isso e assim ganham status.

Lembre-se de uma coisa: ausência de evidência científica não é evidência de ausência existencial. Só porque a ciência não pode provar que algo exista, isso não prova que esse algo não exista. 

Os materialistas e os empiristas normalmente se colocam em guerra contra os idealistas e racionalistas. Os primeiros conduzem a ciência moderna, os últimos colocam a mente acima da matéria. O materialismo científico é ótimo para estudar o universo físico, mas praticamente inútil na hora de responder perguntas sobre a vida, a mente, a consciência, deus, as almas, o pós-morte.

Nós só precisamos da ciência para explorar o mundo porque ainda não somos bons matemáticos o suficiente. O empirismo é a matemática subjetiva, e o racionalismo é a matemática objetiva. São dois aspectos da mesma coisa. O empirismo nos diz como é experimentar os sinais matemáticos. O racionalismo nos diz como executar esses sinais. Uma coisa não deveria rejeitar a outra. A informação sensorial e o raciocínio se complementam; um sem o outro se torna irrelevante. Carl Jung já dizia que “é provável que a psique e a matéria sejam dois aspectos diferentes de uma e da mesma coisa.”

Os cientistas do cérebro tentam provar que o livre-arbítrio é uma ilusão e que tudo o que fazemos nada mais é do que a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência. A mente é deixada de lado, para as conjeturas e sonhos dos idealistas. Se isso for verdade, nossa vida não tem valor, nem sentido, nem uma razão de ser. E então o universo seria uma farsa, uma simples máquina girando sem razão alguma, para cumprir um programa sem propósito. 

Mas como cada átomo no mundo “sabe” como deve obedecer/reagir às leis da causalidade científica? Seria necessário que cada pedaço do universo, cada ponto adimensional, contivesse todas as leis cósmicas em si. E ter o cosmos em si é ter uma dimensão divina em si. Mesmo que os cientistas possam argumentar que essas “leis” estão gravadas no nosso DNA, como isso se aplicaria aos átomos? Qual é o “DNA” de um elétron, de um fóton, de um quark, de uma onda de energia? Como eles sabem exatamente o que fazer? Se os átomos são o hardware, onde estariam seus softwares, e como os átomos são programados? 

Você não precisa ser ateu para ser uma pessoa de razão. Existem religiões que possibilitam pessoas racionais a se comprometerem plenamente com elas. Assim é com o helenismo, por exemplo. 

Dizem que somente uma pequena parcela da humanidade pode ser considerada “racional”, de 10 a 20%. Essas pessoas são identificadas pelo seu interesse na ciência, no ateísmo, no agnosticismo, no ceticismo, em assuntos acadêmicos, em derrubar teorias de conspiração, em filosofia. Todas têm no mínimo um pé atrás com as religiões abraâmicas e não se sentem à vontade com a ideia de “fé”.

Mas todas as pessoas, mesmo as “irracionais” (as mais “sentimentais”), são intuitivamente matemáticas. Elas gostam de música (que é matemática), elas sabem apanhar uma bola no ar sem pensar (sem ficar fazendo cálculos de projeção e velocidade do projétil etc). Todos nós resolvemos essas equações de uma forma praticamente inconsciente, porque esse elemento sagrado do Logos está presente em tudo. 

Observem os autistas. Eles fazem cálculos matemáticos como se fossem computadores, mas nem se dão conta disso. É como se a resposta simplesmente já estivesse presente ali com eles. Essa intuição reflete processos cósmicos acontecendo subliminarmente. Agora observem os abraâmicos. Muitos mal sabem contar e escrevem fora da norma culta da língua. Os muçulmanos proclamam com todo o orgulho que seu profeta Maomé era analfabeto. Você gostaria que o fundador de sua religião fosse um cara que nem sabe ler?

Heráclito criticava Homero e Hesíodo, porque as pessoas escutavam o que eles diziam e aceitavam a autoridade deles sem questionar. Heráclito queria que as pessoas pensassem por si mesmas, que vissem as coisas em vez de ouvir falar delas, que descobrissem as coisas sozinhas e não ouvindo servilmente os outros. Ele percebia que as pessoas costumavam atravessar a vida como autômatos, como robôs. Heráclito também odiava a democracia, a chamava de “ochlocracia” - o governo da multidão ignorante. 


V. FÉ x LÓGICA E VERDADE:

Roger Bacon escreveu que o triunfo da ignorância tinha quatro fontes principais: o apelo a uma autoridade inadequada, a influência indevida do costume, as opiniões de uma multidão inculta, e as demonstrações de sabedoria que simplesmente encobertavam uma ignorância. Não podemos ser guiados por crenças apenas por elas serem largamente difundidas e populares. A verdade não é democrática. Não se trata de uma disputa de popularidade. 

Schopenhauer dizia que a verdade passava por três estágios: primeiro ela é ridicularizada, depois é violentamente combatida (as pessoas se opõem a ela), e por fim ela é aceita como auto-evidente. Mesmo o “senso comum” não é algo muito acertado. Einstein dizia que o “senso comum é o conjunto de preconceitos que adquirimos por volta dos dezoito anos de idade”.

O Torá, a Bíblia e o Alcorão, todos clamam ser a revelação suprema, eterna e imutável do mesmo Deus, ainda que cada um desses 'livros sagrados' diga coisas extremamente contraditórias e diferentes um do outro. Trata-se de algo tão irracional, que não é de se estranhar que Martinho Lutero, o fundador do protestantismo, descreveu a razão como “the Devil's whore”, 'a prostituta do demônio', a arma que este usaria para te afastar da fé, que era a única coisa que importava para Lutero. Qualquer pessoa que hoje diz ser uma “pessoa de fé” está concordando com Lutero - e rejeitando a razão.

A religião vigente hoje consiste de declarações ilógicas que são consideradas aceitas simplesmente porque um grande número de pessoas as assume como certas. Para eles, o que importa é a sua popularidade e o seu poder emocional, e não sua verdade ou sua racionalidade e sentido.

Para um verdadeiro pensador, a existência de Deus(es) é irrelevante ao menos que esse(s) Deus(es) possa(m) nos prover e nos provenha(m) - com uma explicação para a existência. Desejar entender a mente de um deus é o mesmo que desejar ser como um deus, e é isso o que diferencia esses dois tipos de pessoas: os “crentes” são submissos que querem ser dominados por um ser todo-poderoso, e os “pensadores” são aqueles que nunca descansarão até conhecerem cada detalhe de como o mundo funciona.

A verdade objetiva nunca residirá em uma pessoa, mas em um sistema – um sistema platônico de verdades eternas, absolutas, indiscutíveis, imutáveis e perfeitas. Por isso que Platão falava em uma Verdade com V maiúsculo como algo eternamente perfeito, e não em uma pessoa de alegada perfeição eterna (Deus). Ele não podia imaginar um criador eterno e perfeito, as dificuldades lógicas para isso são intransponíveis. Se o criador fosse perfeito, sua criação também o seria. Já um sistema, este pode existir em um domínio perfeito (imaterial) e este mundo (material) ser só uma cópia falha dele, sendo então imperfeito. Uma pessoa (ou personalidade) poderia evoluir para a perfeição, mas isso significaria que ela antes disso era imperfeita, portanto, ela não poderia ser “eternamente” perfeita.

A verdadeira base existencial da realidade não envolve fé, obscurantismo, ocultismo, crendices, mágicas, e afins. Mas também não é a ciência que fará isso. A ciência é só um 'estagiário' da filosofia, no âmbito de responder às grandes questões existenciais. A ciência é ótima em explicar os “comos”, mas não é tão boa em explicar os “porquês”. Na matemática, por exemplo, a ciência só aceita os números reais maiores que zero e menores que infinito, porque os demais não seriam “empiricamente detectáveis”. Quando simplesmente rejeita o zero, o infinito, os números negativos e os números imaginários, sem uma razão racional para tal (já que a mente entende o que são zero e infinito etc), a ciência se aproxima de uma crença dogmática, em seu outro extremo. 

O Abraamismo é um campo sem lógica ou com algo disfarçado de lógica. A ciência é um campo com uma lógica incompleta. As religiões de aperfeiçoamento são as mais lógicas.

Gottfried Leibniz dizia que o melhor mundo é aquele que é “o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenômenos”. E, realmente, depois que a gente começa a entender essas coisas, no começo a gente pode ficar meio descrente ('des-crente'), mas depois começa a achar tudo tão óbvio, tudo nos seus lugares como deveria ser, e a ficar maravilhado em como se tratava de algo tão simples.

A metafísica (o que existe além do mundo físico), um ramo da filosofia, estuda o universo do númen, o mundo imaterial das ideias de Platão. (Para Platão, as coisas percebidas pelos sentidos são os fenômenos, e as coisas refletidas pelo pensamento/razão são os nôumenos). A religião vigente também comenta sobre o universo numinoso, mas faz isso de uma forma irracional e baseada em fé, onde as afirmações dos profetas e dos textos sagrados são consideradas uma espécie de 'verdade' absoluta revelada por 'deus'. A religião abraâmica é pouco racional e verificável. E o mais irônico é que ela diz que “a verdade vos libertará”.

Sair da fé para o conhecimento requer muito trabalho. Pensar por si mesmo (em vez de pensar como alguém lhe diz para pensar) dá trabalho. Nem todo mundo está disposto. A maioria não ‘quer’ (e age baseado nisso, no querer, na vontade, no desejo).


VI. RAZÃO x EMOÇÃO:

Apenas uma pequena proporção da humanidade é guiada pela razão. O resto é controlado pelo desejo/vontade. Assim, normalmente é pouco efetivo se dirigir às massas com argumentos racionais – é preciso atingir suas emoções e desejos se você quiser vencê-los em um debate. Por isso que os discursos de Moisés, Jesus e Maomé eram tão apelativos de emoção, com ameaças de dores eternas (no fogo do inferno) para quem os opusesse. O abraamismo gira em torno desses sentimentos. Para sair desse ciclo e caminhar em direção à divindade, precisamos abraçar a razão. Não há outro modo de fazer isso.

O abraamismo apela somente à emoção. Rezar recitando uma série de frases como se fossem encantamentos mágicos e suplicar alguns favores pessoais ao criador para você e não para os outros, é algo ilusório e emocional, não algo lógico e racional.

Os que buscam a iluminação são mais idealistas do que materialistas, mais racionalistas do que empiristas. Quem entenderá melhor a alma? Um tipo sensação ou um tipo intuição? Sendo a alma algo que não podemos tocar, cheirar, olhar, ouvir, fica evidente que a resposta é o segundo tipo. O mundo numinoso é o território natural dos idealistas, racionalistas, intuitivos.

Para os estóicos, a liberdade jaz em entender racionalmente as leis do universo. As emoções eram um desastre porque elas perturbavam nosso julgamento, obscureciam a verdade, e nos fazia querer coisas que nunca poderiam acontecer.

As pessoas mais sentimentais tendem a ser criacionistas. Eles têm medo de mudanças e do futuro, eles procuram segurança e certezas. Um criador que não muda há milênios é um símbolo dessa segurança. Tudo o que elas têm que fazer é pôr sua fé no criador e relaxar emocionalmente.

Os gregos foram os primeiros a oferecer um pensamento racional (de Logos) no lugar de um pensamento mágico (de Mitos). Mas toda religião saudável deve ser uma mistura de Mitos e Logos, de subjetivo e de objetivo. O mito às vezes esconde verdades maiores, segredos superiores, um sentido mais profundo, uma sabedoria suprema. E a razão balanceia isso para não virar superstição.


VII. TELEOLOGIA:

Quando perguntamos “por quê?” podemos ter dois tipos de resposta, uma com as causas do evento (a explicação mecanicista) e outra com os propósitos do evento (a explicação teleológica), ou seja, esta última seria mais um 'para que' do que um 'por que'. Freud gostava de buscar as causas na infância, os motivos e circunstâncias anteriores à situação atual. Já Jung gostava de se perguntar a função daquilo, a razão última para estar acontecendo, para que aquilo nos serviria.

Os cientistas acham que o destino do universo é terminar em uma morte pelo calor, quando tudo rui por conta da Segunda Lei da Termodinâmica. Isso é quase um dogma de fé para eles.

Nós não pensamos assim. A nossa não é uma religião de fé, é uma religião de razão, que oferece a todas as almas a se tornarem divinas, a atravessarem o tabuleiro de xadrez da existência e a serem promovidas de peão a rainha.

É através da razão que fazemos contato com a ordem divina. Os elementos que controlam o universo são racionais, então – quanto mais racionais formos – mais refletiremos a inteligência do cosmo. Mais as coisas farão 'sentido'. Como dizia Sócrates, “uma vida não-examinada não é digna de se viver”.

Se o seu projeto de vida não for se tornar 'divino' (ou o mais excelente/virtuoso/iluminado possível), então você está praticamente ofendendo a sua essência, está bloqueando a realização da oportunidade que a sua alma recebeu. 

Portanto, caro leitor, se você conseguiu chegar até aqui nesse longo texto, pense sobre essas coisas. Não fique preso ao lado A, nem seja tão ‘lado B’... Que tal 'ser' do 'C'?

;) 


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