26.1.11

D.R.* com os deuses

Postado por Alexandra Oliveira |

*D.R. = discussão de relação / discutir relacionamento

Há várias maneiras de se pensar nosso relacionamento com os deuses. Em outra postagem comparei-nos a bichinhos de estimação. Hoje queria pensar como a relação de um casal, principalmente no que diz respeito à ortopraxia (prática correta) e rituais.

Às vezes eu me perguntava se um ritual tão simples e rápido valia a pena, se não seria melhor deixar para fazer só os grandes - dos festivais que conhecemos melhor, se gestos fáceis e parecidos com outras coisas do dia-a-dia poderiam ser configurados como sagrados. E Eles me respondiam por texto ou me mostravam por sonho que tinha valido sim. Primeiro porque o cerne do ritual, o sacrifício, não significa algo enfadonho (vide meu texto sobre sacrifício na revista Ideon Antron nº2). Segundo porque, em vez de pensar que tudo o que se parece é profano, há de se pensar o contrário, que nosso dia secular também tem o seu quê de sacro, visto que faz parte do cumprimento do trabalho de tecelagem das Moiras.

Mas o mais importante - que é onde eu queria chegar - é ver nessa relação algumas similaridades com aquelas relações que conhecemos. Então tente imaginar junto comigo: seu cônjuge/consorte sabe que você tem seus afazeres, que precisa trabalhar, escovar dente, jogar com os amigos, fazer suas leituras, visitar a mãe etc. Porém, o que você não pode é agir como se ele/a fosse invisível ou que só esteja ali para lhe servir. É necessário demonstrar que ele/a faz parte da sua vida, que você o/a ama, que considera a opinião dele/a, que quer compartilhar suas coisas com ele/a, que se lembra dele/a durante uma viagem ou ao ver o doce preferido dele/a quando você estava na padaria e decidiu comprar para lho dar. Enfim, precisamos deixar claro a importância e a gratidão que temos com quem divide sua vida conosco, e sentirmo-nos plenos ao vê-los sorrir de satisfação com algo que fizemos ou lhes dissemos. É melhor falar-lhes dos nossos sentimentos ou lhes dar um bombom de 60 centavos do que simplesmente não fazer nada porque achou que um bombom ou uma flor seria muito pouco.

Pois bem, saibam que não é muito diferente com os deuses. Eles sabem e vêem que o nosso dia é cheio e corrido, mas aqueles dez minutinhos que tiramos para acender uma vela, um incenso, recitar hinos e verter uma libação antes de já desfazer o arranjo de um altar improvisado, só isso já demonstra o quanto queremos preservar essa nossa parceria com Eles, que queremos que continuem ao nosso lado. Ver uma concha e trazer para sua imagem de Afrodite, um arranjo de trigo para oferecer para Deméter, um anel de serpente para nos lembrar do daimon, uma corujinha ao altar de Atena, é como o doce ou a flor que vemos na rua - no meio daquele dia atribulado - e levamos para casa, entregando ao ser amado ao chegarmos. Se tivermos a sorte de acertar em agradar, podemos ganhar não só sorrisos, mas beijos, carinho, quem sabe algo mais, fora a vontade que deixaremos nele/a de nos retribuir o mimo. E a retribuição de um deus renovadamente apaixonado por seus afilhados terrestres é bem maior e duradoura do que a de qualquer humano.

Tem mais: quando temos um/a companheiro/a feliz, ele/a dirá a seus parentes e amigos que fez uma boa escolha ao nos ter ao lado, e os outros se sentirão mais predispostos a nos ajudar e defender e tratar bem, pois estamos fazendo felizes alguém com quem eles se importam. Agora imagine quais são os amigos e parentes dos deuses! Nossa rede de relacionamentos, aquela do "o que vale é quem você conhece" vai ter a galera mais poderosa do mundo, imortal e capaz de realizar praticamente tudo.

Por isso que antes de achar que é bobagem ler um "poema" e "derramar" um pouco da sua bebida para Eles, pense que é sempre melhor agradar com pouco do que não fazer nada. Claro que o inverso também serve: se você chegar para a sua namorada com um saco de milho, ela pode ficar brava achando que você a está chamando de galinha. E aí você pode até levar uma surra (hehe). A gente tem que saber como agradar. Mas, no caso de deidades que existem há milênios e das quais dispomos de textos contando suas histórias, fica até mais fácil conhecer o que eles gostam.

Temos que cuidar também do que vamos pedir. Suponho que tenha coisas que você não faria por seu parceiro e talvez até se ofendesse se ele lhe as pedisse. É o tal daquele relato: uma vez chamei Afrodite para fazer um negócio pra mim e ela me bate com uma vara de marmelo.
Sei que tem gente que acha que um deus fica ali em cima no céu só controlando o mundo sem ser amante de ninguém. Mas deixa eu lhes dizer uma coisa: nem o deus cristão é necessariamente assim. Existiram santos com relacionamento íntimo de/com seu deus, e a própria igreja católica tem livros amorosos sobre a ideia da igreja (que é composta por seus membros) como noiva de seu cristo.

Imagina se Zeus não fosse um bom amante humano, quantos heróis (semideuses) da história não teriam nascido. Imagine se Dionísio não deixasse as mênades em êxtase sem sequer lhes tocar, como entenderíamos da Mania, o frenesi que surge com a lua minguante? Imagina se os poetas e artistas em geral não fossem ardorosamente movidos pelas musas, quão pobre seria a nossa literatura e cultura?

Então, da próxima vez em que for afirmar que adora os deuses, não diga isso pros outros, demonstre isso para Eles. Do que adianta se gabar do quanto você ama e do quanto é feliz por ter a pessoa que tem ao seu lado se nunca diz ou mostra isso pra ela?...


4 comentários:

Rô! - @robertarez disse...

Muito bom post! Gostei bastante dessa analogia de relações e acho que facilita muito na hora de pensar no que fazer ou deixar de fazer para os deuses. E como em relações amorosas conhecer e entender o parceiro é essencial, só assim saberemos do que ele irá gostar e tudo o mais.

marinheiro disse...

Nossa Álex esse texto é belíssimo! Realmente cheio de inspiração! As vezes eu penso que minha relação com Afrodite é tão intensa! não exatamente a de um amante, mas mto forte, talvez até melhor!


PS: vc podia por esse texto nos artigos do site,se encaixaria bem! :)

JOTA OLLIVEIRA disse...

Adorei a proposta Álex!

Agradar aos deuses é mesmo fantástico, eles são relações próximas de nós, da nossa vida. Compartilham do nosso sucesso e do nosso fracasso.
Só espero que quem leia a parte do sobre "ter a galera mais poderosa do mundo, imortal e capaz de realizar praticamente tudo" não leve isso como um jogo de interesses que incorre em hubris. Nem os relacionamentos humanos deveriam ser com essa intenção...

Tinhamu!

Você é fantástica ;)

Espartana disse...

Que bom que gostaram!

Então, estou até pensando em prolongar esse assunto... rsrsrs!

Pois é, Jota, se não se deve ser assim com as pessoas, ainda mais com os deuses que são ainda melhores companheiros do que os humanos. Por isso que Eles merecem ainda mais atenção e dedicação, em um amor que seja de total entrega - e não essa coisa de 'deus lá no céu e eu aqui'.

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