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março 16, 2019

Recomeçando

Este ano observei algumas coisas com relação à abordagem que cada um dá aos deuses. Percebi quatro movimentos diferentes de quatro pessoas. Um não acredita que os deuses nos dão tudo o que pedimos, outro acredita que não importa o que ele resolva porque no final sai do jeito que os deuses queriam, outra acredita que toma bordoada quando erra, e outra acredita que os deuses sempre nos dão o que pedimos quando temos um bom relacionamento com eles. Da minha parte, percebi que essa resposta positiva se dava mais com posturas do que com ritos. Recentemente fiz um rito a Hermes (todo certinho, com sinais indicando sobre as ofertas, e até no dia e horário mais propícios) esperando um resultado o qual não tive de pronto, mas depois adotei atitudes que me levaram à resposta favorável que eu queria. Levar a energia da deidade para a vida foi mais eficaz do que uma comunicação ritual momentânea. Então talvez aquela primeira pessoa que citei não recebe o que pede porque falta levar pro cotidiano aquele sentimento e atitude próprias de alguém com uma boa conexão com o sagrado. E os outros três casos não se anulam entre si. 

Outra coisa com relação a essa questão de o que pedimos e o que recebemos também foi assunto de uma conversa atual. Muitas vezes o que precisamos para conseguir realizar as coisas necessárias ao nosso crescimento e evolução são provenientes de energias as quais costumamos temer. Hades, Ares, Poseidon, são exemplos de deuses que as pessoas têm medo, mas que realizam grandes coisas em nossas vidas se nos sintonizarmos e equalizarmos com eles. Grandes mudanças assustam, mas não se trata de deixar ser levada pelo maremoto, mas de aprender a surfar ondas gigantes. Às vezes precisamos violar uma embalagem para conseguir trazer pra fora o que tem dentro dela e o qual estamos há muito tempo querendo. Já citei em outro texto sobre como Ares te tira do sofá, e seguidamente falei como Poseidon sacudiu minhas estruturas, sem contar como Perséfone vira rainha após ser levada por Hades. Não são forças das quais sentir medo, mas ao mesmo tempo precisamos estar maduros para lidar com elas sem sermos levados na correnteza. Aproveitar essa zona do medo como uma ponte entre a zona de conforto e a zona de aprendizagem, no caminho para a zona de superação/realização. 

E, voltando ao ponto sobre o "fazer correto" para não "levar bordoada", me lembrei de uma dúvida que tiraram comigo este mês. Quiseram saber se poderiam relacionar o porquinho-da-índia a Apolo, já que ele é um roedor e os ratos são dEle. É preciso tomar certo cuidado com essas associações. Os ratos são ligados a Apolo por serem pragas e não por serem roedores (e fofinho) como o porquinho-da-índia. Além disso, se pesquisarmos as civilizações onde esse animal existia nos cultos (já que na Grécia antiga não encontramos registros), veremos que entre os incas o porquinho-da-índia era ofertado à deusa da terra e ao deus da montanha, o que, por um certo sincretismo mais intuitivo do que direto, poderíamos ligar a Deméter e Dioniso

Há outra questão sobre esse "conseguir o que pede" que também observei nessas últimas semanas. Uma pessoa pediu aos deuses algo que ela achava o melhor para a outra, mas não era o que a outra realmente queria para si. E, claro, acabou não dando certo. Apenas quando a primeira reconheceu que estava sendo influenciada por seus próprios sentimentos é que ela, eticamente, pediu a uma terceira que fizesse o rito pela segunda pessoa, por aquilo que esta realmente queria, e aí sim começou a dar certo. 

Esses movimentos todos de depoimentos e perguntas e de gente voltando a me procurar me fez sentir um retorno importante depois daquele tempo tentando estabilizar meus próprios movimentos. Consegui inclusive ler um livro que vou trazer a síntese aqui em uma próxima postagem. Sinto que as coisas vão aos poucos se assentando, e as marolas estão voltando a encontrar a praia, mesmo nesta cidade de instabilidades climáticas e garoinhas refrescantes. 

Voltei a ter sonhos dos quais percebia depois a sincronicidade deles com o relato de outros helenos. Estou tentando me reconstruir junto com o reconstrucionismo. Estou buscando novamente me tornar quem eu sou, como ensinava Píndaro. 

E espero que esse novo espiral de percepções e conexões me leve a escrever mais por aqui. 


[ PS.: O blog está com um layout diferentinho, arrumei para ficar mais clean e mais prático. ]

junho 16, 2013

Sol, Som, Siringe, Silvo, Serpente

Saindo um pouquinho da fórmula de textos mais abrangentes que podem ser assimilados até por quem está começando, hoje venho trazer algo um pouco mais profundo, ainda que também tentando falar disso de uma forma mais universalmente compreensível, para que todos possam absorver e aproveitar propriamente do assunto.

Parmênides era um sacerdote de Apolo. Seu poema "Da Natureza" tem uma construção incomum, que alguns estudiosos acreditam se tratar de uma técnica para criar um efeito encantador, podendo ser usado para a cura ou para levar as pessoas a outro estado de consciência. Sabemos que algumas formas de se conseguir esse estado (e o xamanismo pode confirmá-las) é a repetição, a dança, a música. Mas existe uma particularidade nesse poema, que é o fato de durante toda a jornada narrada pelo autor ele não mencionar nenhum som, apenas aquele que é feito pela carruagem conduzida pelas filhas do Sol: o som de uma flauta de tubo como a de Pã, uma "siringe" ("pipe" em inglês, "syrinx" em grego). A flauta "syrinx" fazia um som parecido com um apito, um som chamado "syrigmos". 

O curioso aqui é que, para os gregos antigos, o som de flauta e apito era também o som do silvo feito pelas serpentes. Tomando um pouco do hinduísmo, sabemos que o poder serpentino da Kundalini - quase completamente adormecido nos seres humanos - faz um som de silvo quando começa a despertar. Em um papiro grego antigo, guardado na biblioteca de Paris, conta-se sobre uma jornada cósmica a outro estado de consciência até a origem da vida humana, o sol. Nessa jornada, o orientador do iniciado diz que ele precisa produzir um som de silvo/flauta/apito ("syrinx") como parte do exercício de controle de respiração para ajudar a entrar no estado do despertar da consciência. Seria um chamado "mágico" conhecido como "o som do silêncio".

Esse som do silêncio seria o som da criação. O som feito pelas estrelas e planetas enquanto eles rotacionam e transladam nas órbitas. A famosa "harmonia das esferas". É assim que nos aproximaríamos do sol como uma deidade. Fazer o caminho do sol (celebrando o ciclo semanal de Apolo, os dois solstícios anuais etc) para - quem sabe - passear na carruagem de Hélio um dia. 

Por isso que o som do silvo tem uma ligação tão especial com o sol. Também por isso (embora não só por isso) que a serpente - a exemplo da Píton - é tão próxima de Apolo. E ele a princípio não a destrói, apenas a tira do caminho, a "atira longe" (como vemos nos hinos), e, mesmo quando a mata, o faz para absorver os poderes proféticos que ela representa, e assim adquire um novo epíteto, como Apolo Pítio. Quando li sobre isso no livro de Peter Kingsley ("In the Dark Places of Wisdom"), anos antes eu já havia feito uma excursão noturna na lua cheia, no zoológico de Belo Horizonte, onde pudemos tocar uma moderna pitón albina nas mãos do tratador - e nessa mesma noite sonhei com Apolo vestido em peles (e, sim, meus oráculos realmente melhoraram depois daquele dia).

Voltando ao som da "siringe", ele também era associado às práticas de Asclépio, quando o enfermo se deitava e tinha um sonho de cura do deus, naquele estado liminar entre o dormir e o despertar. Asclépio (filho de Apolo) é outro que traz uma serpente em seu bastão. Dizia-se que o som do silvo ("syrigmos") era o som da presença de Asclépio. Na Índia, era também antes de se entrar no samadhi, aquele estado entre o dormir e o despertar, que havia uma vibração poderosa soando como um silvo, ligada ao despertar da kundalini. 

Para muitos antigos, a jornada para uma realidade superior era feita através do silêncio, no silêncio e para dentro do silêncio. A última senha era o som da siringe, o som do silêncio. E, antes de chegar nessa realidade superior, era preciso que convencêssemos os deuses de pertencermos a aquele lugar. Por isso as famosas palavras do "eu também sou uma estrela, vagando e girando junto a vocês, brilhando para fora das profundezas". Como o sol.

Dependendo do quão alto ou quieto é o som, ele pode parecer um apito ou uma rajada de vento, mas - de qualquer forma - não é um som qualquer. Um oráculo de Apolo na Anatólia afirma isso também. Ele fala que, após o contato com a fonte do som, não há mais separação. E isso é algo muito importante para entendermos a receita da imortalidade: a proximidade com o sol. O sol se põe e nasce de novo, assim seus iniciados devem trilhar o caminho do sol.

Não é surpresa que haja imagens representando um tubo pendurado no sol (quem leu Jung e o mito aborígene do vento produzido por um falo do sol, vai lembrar). Na antiguidade, essa imagem era a de um tubo musical, de uma flauta.

Em um hino órfico, o sol recebe o título de "syriktes" (o flautista, o tocador de siringe). O som que Parmênides relata da carruagem do sol em movimento parece, então, algo mais fácil se compreender.

Mas agora vamos tirar algo prático disso tudo. A questão é: nós OUVIMOS isso o tempo todo! Pode não ser como o silvo de uma serpente, talvez se pareça mais com um chiado de televisão com o som abaixado num quarto vazio. Se você ler sobre experiências fora-do-corpo ou experiências de quase-morte ou mesmo estados alterados de consciência, normalmente você vai notar o relato de um estágio vibracional, quando energias fluem do corpo fazendo sons de murmúrio, junto a sensações de entorpecimento ou anestesia acompanhando as vibrações. A intensidade dessas vibrações e sons varia muito, de algo suave até a eventos além do físico. Os relatos podem incluir o ouvir vozes, ouvir chamarem seu nome, sentir-se pesado ou afundando, sentir leveza, sentir uma energia fluindo pelo corpo, ouvir passos ou perceber a presença de alguém, experimentar um balançar interno, uma rotação ou movimentos de qualquer tipo, ouvir sinos, engrenagens, músicas, o vento etc. 

Não faz muita diferença que crença a pessoa professa ou a que grupo religioso pertence. Duas cordas na mesma frequência sonora vão vibrar juntas, é só testar com o seu violão afinando duas cordas na mesma nota e tocando só uma. Isso é física, não é filosofia. Da mesma forma, entrar em consonância com a música das esferas faz você vibrar junto com elas.

Se você quiser tentar, deite-se num quarto silencioso. Um pouco antes de adormecer, você vai ouvir algo dentro da sua cabeça. No começo você vai dizer "ah tá, é ESSE som..." e depois, quanto mais perto do sono, mais perceptível vai se tornar a experiência. E, sim, é o mesmo som desde seus ancestrais, desde os helenos antigos, e desde sempre.

Agora só nos resta agradecer a Apolo e a Asclépio com um belo de um "Ô iê Peã!". :-)


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P.S.¹: Se você procurar por "syrinx", vai ver que é também o nome do órgão vocal dos pássaros.
P.S.²: Já reparou como os encantadores de serpente usam flautas para despertá-las?

fevereiro 26, 2012

Purificação e Inspiração



"O homem é o sonho de uma sombra;
mas quando os deuses lhe enviam um simples raio de luz, 
uma aura radiosa o envolve 
e sua existência conhece a doçura do mel." 
(Píndaro, VIII Ode Pítica)


Tudo o que é ligado aos deuses é sagrado. E o que é sagrado é separado daquilo que não é. Os antigos helenos acreditavam que para estar na presença do que é puro era preciso estar puro. Ter contato com coisas comuns, principalmente as causadoras de miasma, era uma forma de poluição. Para evitar isso, nos purificamos antes de iniciar um ritual, mesmo que seja apenas com o lavar as mãos na água lustral. Em Elêusis, os candidatos à iniciação nos Mistérios tomavam um banho de mar antes do rito. Em várias religiões, muitas coisas são capazes de purificar uma pessoa: jejuns, abstinências, sacrifícios, provações etc, mas o lavar-se com água parece ser o mais comum em todas elas.

É claro que uma purificação real é algo que se estende para todos os níveis do ser (físico, mental, espiritual), mas lavar o corpo é a realidade mais palpável que temos, na qual a mente vê uma clara demonstração do que vem a seguir, em um nível mais profundo. Em um ritual de transição, como num batismo ou iniciação, é como morrer para renascer renovado. Uma morte na qual, em vez de terra (enterrar-se), cobre-se com água. Desce-se a um mundo inferior e ergue-se novamente, emergindo não só renascido, mas limpo pelas águas. Espera-se que essa simples 'performance' tenha o poder de influenciar a mente/alma a uma experiência mais consciente de si. Por isso que não adianta apenas participar de um batismo aspergindo-se água e recitando algumas preces, ainda mais sendo criança como acontece no cristianismo. O caminho do "batismo" teria quer ser um 'rito de passagem', e não apenas uma 'rota de passagem' para fazer parte de um grupo/comunidade religioso/a. Seria preciso mergulhar no seu sentido, no seu simbolismo, na questão da "ressurreição/renascimento" para que produzisse algum efeito purificador na alma humana. 

Há vários mitos com esse tema em várias crenças, e mesmo entre os gregos há diversos, como o de Dioniso, de Héracles, de Psiquê, de Orfeu, entre outros. Eles falam especialmente sobre uma figura que é parte mortal e parte divina e que se debate para purificar-se reunindo essas duas naturezas e ascendendo até um lugar entre os imortais.

Esses mitos também mostram várias formas de se conseguir isso. Quando Dioniso eleva sua mãe Sêmele à morada dos deuses e lhe coroa com a Thyone (inspiração), ele o faz através de seus rituais orgiásticos, dança, canto, êxtase, mântica, inspiração, iluminação. Já os órficos vão acrescentar um toque apolíneo na selvageria de Dioniso e criam uma tradição mais reservada, contemplativa, asceta, embora com a mesma ideia central: a da consciência, da iluminação de perceber sua natureza divina, de acordar da ilusão para a verdade, de escapar das brumas da morte e do esquecimento que lhe envolvem. Como acreditava Platão, nós não aprendemos nada, só nos lembramos do que já sabíamos, porque nossa alma conhecia tudo antes de nascer ("conhecer é recordar verdades que já existem em nós").

Todos nós temos uma pureza interior que vaga no meio da nossa confusão interna. O fato de estar de noite não significa que o sol morreu, ele só está fora de nossa vista. Orfeu dizia: "Meus puros amigos, filhos e filhas da terra e do céu estrelado; escapem do Fuso da Necessidade e da tristeza, desgastado em torno da Roda do Nascimento! Entrem na grinalda do céu dos mortais que se tornam Deuses!"

Filhos da terra e do céu, somos constituídos parte da impureza dos Titãs e parte da pureza de um Deus (Dio). Lord Byron também vai dizer que somos "metade poeira e metade deidade". Mas parece que nos esquecemos dessa parte de clareza e liberdade e nos apegamos à parte que é limitação e confusão. Precisamos escapar desse fuso de tristeza e sofrimento. Hesíodo dizia que a melhor prece que alguém pode oferecer aos Deuses é estar continuamente em paz consigo mesmo. E até George Harrison compôs uma música para Krishna cuja letra inclui "keep me free from birth" (mantenha-me livre do nascimento).

Mas o Fuso da Necessidade, a Roda da Fortuna, o Tear dos Destinos, não é algo ruim por si. Afinal, é ele/a que nos põe em movimento. Tudo no mundo gira e demonstra seu lado oposto. Quando a roda muda, o sofrimento nos faz conhecer a alegria e o amor, por mais que se acredite que ele sempre volta e nos leve embora quem amamos e nos faz felizes; porque aquele ciclo se fechou e outra coisa vai surgir para trabalharmos nossa evolução. A vida é algo maior que nós mesmos. Não somos 'egocentricamente' responsáveis por como o universo funciona e sempre funcionou antes mesmo de estarmos aqui, e nem ele funciona desse jeito para nos punir ou recompensar. As pessoas não sofrem porque um ancestral delas foi desobediente e comeu uma maçã proibida. A gente sofre porque faz parte do estágio de se conhecer, de se dar valor ao que se conquista, de aprender com as leis da natureza, de se caminhar ao encontro de nosso lado divino. Só assim se obtém o conhecimento que nos aproxima dos deuses.

Muitos gostam de chorar, soluçar, gritar de raiva, perguntar "por quê?" e "o que eu fiz pra merecer isso?". Não existe um porquê. E nem tudo depende unicamente do que você faz. A verdadeira resposta não é nem uma resposta, é uma percepção, um 'insight', de que tudo aquilo tinha que acontecer e de que não adianta fantasiar um drama (ou uma tragédia grega) sobre a nossa "desgraça". A solução é procurar entender, visualizar, enxergar as coisas sem ficar com desejos tolos e preocupações irreais. Em vez de se perguntar "por quê", faz mais efeito perguntar-se o "para quê". Nem tudo é culpa sua, assim como nem tudo é resultado de sermos marionetes de algo maior. Plutarco já dizia que a verdadeira piedade (ser pio, acreditar) é o meio-termo entre um medo excessivo do sobrenatural e uma indiferença ateísta, assim como Aristóteles já ensinava sobre a virtude ser a justa medida entre dois extremos de vícios.

Mesmo o mito de um pecado original não dizia que o paraíso foi destruído, ele continuou lá. A paz e a beleza originais existem em algum lugar do mundo, a gente só se esqueceu do caminho que nos leva para onde eles estão. E esse lugar existe fora e dentro. Nesse sentido, por mais que não sejamos o centro do mundo, nossas conquistas são também a de todo o resto, porque refletimos o cosmo e o divino reside em cada um. "Assim como em cima, é embaixo", diz Hermes Trismegisto. Só que é tão nocivo se esquecer da sua parte humana desimportante quanto o é esquecer-se da sua parte sagrada fundamental.

O despertar é conhecer o propósito das coisas e ficar em paz. O difícil é atravessar a estrada longa até esse estágio. Vamos desdobrando os véus que cobrem a realidade à medida que nos colocamos em marcha, na direção de amar, ajudar os outros, lutar por uma causa, sentir, pensar, refletir, meditar, conectar-se ao sagrado, buscar a sabedoria, neutralizar o sofrimento e o efeito da dor.

A grinalda de flores ou folhas que coroa os vitoriosos é circular. O final e o começo de um círculo são o mesmo. É um símbolo de algo eterno e perpétuo, como são os deuses e a roda da vida, que reúne mortais e imortais. Somos partes deles e não podemos nos separar deles, como os puros se unem aos puros. Perceber isso é inspiração, é 'thyone', é elevar-se à "grinalda do céu".

"Um deus, uma deusa, reside dentro de cada um de nós. 
Quando o espírito se levanta, radiamos com um brilho interior, uma aura
É esse espírito sagrado que planta as sementes de tudo que somos e fazemos. 
Esse espírito sagrado é a nossa inspiração." (Ovídio)

janeiro 24, 2012

O voo da flecha (Apolo e o xamanismo)


Continuando o assunto da postagem sobre o êxtase apolíneo, e puxando o tema levantado pela Inês no blog Cerealia, quero trazer alguns trechos de Mircea Eliade no "História das crenças e das ideias religiosas", volume 1:
«Tem-se falado do "delírio pítico", mas nada indica os transes histéricos ou as "possessões" do tipo dionisíaco. Platão comparava o "delírio" (maneîsa) da pítia à inspiração poética das musas e ao arrebatamento amoroso de Afrodite. Segundo Plutarco: "O Deus contenta-se em colocar na pítia as visões e a luz que ilumina o futuro; é nisso que consiste o entusiasmo".»
Mais para frente, no texto:
«O "êxtase" apolíneo, embora provocado às vezes pela "inspiração" (isto é, a posse) pelo deus, não implicava contudo a comunhão efetuada no enthousiasmós dionisíaco. Os extáticos inspirados ou possuídos por Apolo eram conhecidos sobretudo por seus poderes catárticos e oraculares. (Em compensação, os iniciados nos mistérios de Dioniso, as bakkheia, jamais davam prova de poder profético.) Observou-se o caráter "xamânico" de certas personagens semimíticas, tidas como adoradoras por excelência de Apolo. O hiperbóreo Ábaris, sacerdote de Apolo, era dotado de poderes oraculares mágicos (por exemplo, a bilocação). Heródoto escreve que ele "passeou por toda a Terra e a sua famosa flecha sem tomar nenhum alimento", mas, desde Heráclito afirmava-se que Ábaris voava sobre uma flecha. Ora, a flecha, que desempenha determinado papel na mitologia e na religião dos citas, está presente nas cerimônias xamâncias siberianas; ela é igualmente a verdadeira arma de Apolo.»
E ainda:
«Walter Otto observava que a obtenção dos conhecimentos ocultos "está sempre associada a uma exaltação do espírito", e isso é verdadeiro mormente para o êxtase xamânico, o que explica a importância capital da música e da poesia em ambas as tradições. Os xamãs preparam seu transe cantando e tocando tambor; a mais antiga poesia épica centro-asiática e polinésia teve por modelo as aventuras dos xamãs em suas viagens extáticas. O principal atributo de Apolo é a lira; ao tocá-la, ele encanta os deuses, os animais selvagens e até as pedras.»
Eliade cita alguns personagens cujos mitos apresentam transes extáticos plausíveis de serem confundidos com a morte, bilocação, metamorfoses, descidas ao submundo etc, como: Arísteas de Proconeso, Hermotimo de Clazômenas, Epimênides de Creta, Pitágoras e Orfeu. Então vamos ver quem eram esses que ele mencionou...


Aristéas de Proconeso: Heródoto conta que o 'Ari' fez uma viagem durante a qual foi tido como morto - sumiu sem deixar rastros - e depois voltou, desaparecendo outra vez. Heródoto soube disso por meio dos citas, que souberam pelos issédones. Nos 3 livros "Arimaspea", escritos por Arísteas/Aristéas, os issedos contam sobre um povo fantástico (os arimaspos) que tinham um olho único na testa e viviam no extremo norte da Europa; os arismaspos contam sobre uns guardiões de ouro (os grifos); e os grifos contam sobre seus vizinhos (os hiperbóreos).

De Hermótimo de Clazómenas se dizia que sua alma abandonava o corpo para viajar livremente, e assim ficava por muito tempo antes de regressar. (Assim contavam Plutarco e Plínio, o Velho.) Os antigos diziam também que ele seria uma encarnação anterior de Pitágoras.

Sobre Epimênides alegavam também se dizia que ele podia viajar para fora do corpo e que tivera vidas passadas. Dizem que uma vez ele dormiu por 57 nos dentro de uma caverna.

De Pitágoras e Orfeu, acredito que nem preciso falar.

Um fato pessoal curioso é que, no sonho que tive com Apolo após tocar uma piton albina e lhe fazer uma prece (numa visita noturna ao zoológico de Belo Horizonte em plena lua cheia), ele estava vestido nos ombros com uma pele de animal peludo, numa época em que eu desconhecia sua relação com o xamanismo. Se à primeira vista pode nos parecer incompatível, quando pensamos melhor, faz muito sentido a relação racional do helenismo - dizem que Apolo é o "mais helênico dos deuses" - com uma prática extática como o xamanismo. Mesmo na época em que eu era assistente de xamã, era comum aparecerem deuses gregos nas minhas viagens ("exaltações do espírito", como disse Otto), embora o próprio Apolo só tenha me aparecido numa meditação durante uma aula de yoga, e não em uma viagem xamânica.

Para mim o xamanismo nunca foi uma "religião", e sim uma prática, que está presente em várias religiões. Assim como o reconstrucionismo também não é religião em si, mas uma abordagem, uma forma/maneira de se praticar uma religião politeísta antiga, seja helênica, celta, nórdica, egípcia etc. Por isso não existe uma incompatibilidade a ponto de se engessar em um ou outro sistema de crenças para não causar desequilíbrio. Se Apolo te conduz a uma catarse, um delírio, um transe, uma inspiração, um arrebatamento, um entusiasmo (palavra grega que significa 'ter um deus dentro'), reprimir-se com medo de estar extrapolando os limites da razão é negar um presente cheio de encantos e fechar os olhos a "as visões e a luz que ilumina o futuro".

dezembro 24, 2011

Um êxtase interior

No solstício de inverno do hemisfério norte, quando os dias são mais curtos e há menos luz, dizem que Apolo está na Hiperbórea e Dionísio fica em Delfos. É uma época em que precisamos refletir para aprender como manter a luz divina nos tempos mais escuros -- no mundo, na vida e na alma. 

Mesmo que você não siga o calendário da Hélade e queira sintonizar-se com o hemisfério sul onde mora, ainda assim temos um solstício, uma transição para uma estação onde luz e escuridão estão distribuídas de forma um tanto desigual no período de um dia. Nela, você não precisa regular seu ser interior a passar meio período ao sol das revelações e meio período ao escuro do mistério. Estar acordado é uma forma de consciência e sonhar é outra. Talvez você negue a existência de um outro estado de consciência, talvez você acredite mas coloque um como hierarquicamente superior ao outro, porém, ainda assim te digo que essa separação só está nas nossas cabeças. Nós não existimos separadamente nem do mundo físico nem do espiritual, participamos dos dois, e nossa liberdade/libertação acontece nos dois níveis. Assim como acaba não havendo muita diferença se neste fim de ano você celebra Dionísio ou Apolo.
"As bênçãos de ambos nos ajuda a entender como sermos plenamente nós mesmos, abrindo os olhos à nossa verdadeira natureza e com nossos corações livres de limitações. Desta forma, podemos atingir a 'areté'; podemos encontrar iluminação/esclarecimento." (Jess, da Hellenion, tradução minha)
Ambos os deuses te levam a um estado de consciência que poderíamos entender como o êxtase (o "ekstasis" dos gregos era quando a alma voava para fora do corpo). Só que o êxtase de Apolo é diferente do de Dionísio. Já mencionei aqui no blog sobre o êxtase do tipo dionisíaco (clique AQUI para ler), então agora vou falar do apolíneo.

Não há nada de selvagem ou perturbador no êxtase apolíneo. Este era intensamente particular, relacionado apenas ao individual (quase um "íns-tase" em vez de êxtase, rs). E acontece em tal silêncio, tranquilidade, imobilidade, que a pessoa do lado pode nem percebê-lo ou poderia até confundi-lo com alguma outra coisa. Mas é nessa calmaria que reside uma liberdade completa em um nível totalmente distinto. Nesse outro nível, a inexistência do espaço-e-tempo é simplesmente um fato, e acreditar ou duvidar disso não faz diferença. Esse é um estado em que se consegue entrar seja dormindo ou acordado, seja de olhos fechados ou abertos. É como estar acordado sem o estar e é como estar dormindo sem o estar também, é alguma coisa intermediária, para a qual não se incomodaram de encontrar um nome, porque todos sempre estiveram mais interessados na experiência do que na sua definição. É mais fácil falar o que ele não é do que o que ele é. Dizer que é um transe, um estado cataléptico, uma incubação, uma suspensão da mente, seria apenas atirar no escuro, pois esses são termos que falam mais do corpo físico do que do estado em si. A teoria não acompanhou a prática neste caso.
"Quem olhar para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda." (Carl Jung, psiquiatra)
"Sonhar é acordar-se para dentro." (Mário Quintana, poeta)
Os sacerdotes "iatromantis" (oráculos-curandeiros) de Apolo eram mestres nesse estado de consciência e, por experimentarem esse tipo de liberdade, eram chamados pelo que conhecemos em inglês de "skywalker", um caminhante do céu, termo que aparece igualzinho no oriente, em lugares como o Tibet e a Mongólia. Os antigos relatos gregos dizem que os iatromantis viajavam a longas distâncias para o norte e leste da Grécia, passando por áreas habitadas por tribos iranianas de cultura xamânica, assim como pela Sibéria e Ásia Central. Nessas horas pensamos como no fundo não existe diferença entre ocidente e oriente. Talvez por isso - e não apenas por morar perto do Equador - eu também não veja tanta diferença entre norte e sul. Acho até que na antiguidade se viajava a longas distâncias muito mais do que hoje, quando temos avião mas que já trouxemos todas as facilidades para perto a fim de não precisarmos viajar no mesmo.

Provavelmente você já deve estar visualizando o que você conhece de parecido com esse êxtase apolíneo, essa unidade indivisível que lemos em relatos e vemos em práticas paralelas - como as dos xamãs, as dos iogues, e outras. Isso é mais do que uma simples coincidência. O que era desenvolvido no oriente, era formalizado no ocidente. E o que era formal no oriente, era um mistério no ocidente. O estado intermediário entre se estar sonhando e acordado tinha seus próprios nomes em cada cultura.

Então, neste momento do ano, quer celebrando Dionísio ou Apolo, espero que, no seu êxtase, sua alma encontre o que precisa -- que pode não ser o que ela procurava, mas que vai ser mais curativo e pleno ainda se você deixar que os deuses te conduzam nesse voo (agora estranhamente sem acento), o qual é muito menos solo do que você imagina.

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

abril 20, 2011

Tira-dúvidas 3: 'Ativar! Forma de...'

Alguém comentou numa rede social sobre ter lido por aí que Hécate supostamente teria 30 metros de altura (!). OK, vamos refletir juntos sobre esse negócio de antropomorfismo e afins.

Nos textos antigos, os deuses eram descritos como jovens, altos, belos e imortais - tudo o que se imagina de um 'ideal' (lógico!). Certo, então vamos começar de trás para frente: Por "imortais" não significa que todos eram "eternos", ou seja, eles não eram deuses que existiram sempre desde o início, pois eles nasceram um dia, tiveram um começo, embora não morram mais. Por "belos" entendemos da harmonia e do conceito de belo que vai além de gosto/preferência estética (como dizia Safo, "Quem é belo é belo aos olhos e basta, mas quem é bom é subitamente belo"). Esse "altos" já se esclarecia nos textos de que não significa que eles sejam descomunais (como os gigantes), e sim apenas seres de estatura elevada. E esse "jovens" refuta a imagem que se faz de deuses idosos, como se todo sábio tivesse que ser um velhinho numa montanha.

As imagens antigas de Zeus adulto o traz barbado, mas jovem. Héstia no helenismo não era uma anciã, era uma jovem. Os sincretismos de hoje que o transformaram num "deus pai" e ela numa "velha sábia" foi que influenciaram em novas representações que não existiam antes. Os deuses da Hélade eram pintados/moldados/descritos como em pleno vigor físico e mental, e não como idosos que poderiam lembrar enfraquecimento e esquecimento.

O contrário também se considera. Apesar de termos representações dos deuses bebês - porque um dia eles foram mesmo crianças -, todos cresceram. O Eros grego chegou a ser um adolescente moreno, em oposição ao romano Cupido que era um bebê loirinho, e o próprio Eros depois teria amadurecido ainda mais ao encontrar o amor de Psiquê e diminuir a sua dependência em relação à mãe Afrodite.


Nos mitos, vemos os deuses se metamorfosearem em animais (cisne, touro, urso...), plantas (jacinto, loureiro...), fenômenos atmosféricos (chuva de ouro, nuvem...) e outros seres humanos (como o marido que foi para a guerra...). E, se eles podem assumir outras formas, esse é mais um motivo para não vê-los como uma imagem fixa.


Ou seja, tudo isso são ferramentas de aproximação para podermos ter para onde olhar ao falar com eles, para termos uma ideia no que pensar, e não para levar as descrições ao pé da letra. Não é para - como aconteceu em outra rede social - discutirmos a cor do cabelo de Apolo se o tipo físico dos gregos é de serem morenos e os hinos chamam o deus de loiro por seu aspecto solar. Meu Apolo e o de muita gente vai ser pintado de loiro, quer você queira ou não. Esse tipo de coisa não invalida o meu culto. O que seria estranho era se eu oferecesse uma coisa da qual ele não gosta ou o representasse com um símbolo de uma coisa que ele não é. Mesmo as supostas 'inimizades' divinas das quais já falamos em outro momento são controversas. Se um dia Poseidon e Atena disputaram o patronato da capital da Grécia, convém lembrar que: enquanto ele é o deus dos mares, ela inventou o navio; enquanto ele é o deus dos cavalos, ela inventou as rédeas.

Agora, voltando ao início do 'post', acho que o que comentamos em outra postagem dava o suficiente para nos fazer pensar que Hécate pode tanto estar em algo tão microscópico como uma membrana celular quanto em algo tão macrocósmico como uma barreira intergaláctica. Então acredito que deve ser complicado afirmar que ela tem exatos 30 metros de altura. (Seria até difícil segurar as chaves das coisas sendo assim, rsrs.)

Portanto, cuidado com coisas rígidas demais. Apesar da nossa fama de certinhos, isso não se aplica a esquecermos o métron, o equilíbrio, a justa medida, o "nada em excesso", o evitar os exageros tanto para mais quanto para menos. Sejamos sensatos e procuremos as coisas que façam sentido. Nem tudo o que está escrito em livros é verossímil...

março 12, 2011

Religião, Ciência, Psicologia

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

Tudo, em toda a parte, possui uma ordem, uma lógica, que nos faz interligados. Hermes Trismegisto já dizia que o que está em cima é como o que está embaixo e vice-versa. Muitos já observaram como o átomo e o sistema solar são semelhantes - em termos de massa proporcional do núcleo/sol em relação aos elétrons/planetas e em termos de suas órbitas, por exemplo. E, quando estudamos a psicologia/filosofia (si-mesmo), a ciência/natureza (universo) e a religião/mitologia (deuses), essa máxima délfica acima demonstra cada vez mais a sua veracidade.

Bem ou mal, nosso limite é o sistema solar. A gente sabe pouco lá de fora dele. Sim, houve o telescópio Hubble como pioneiro (que existe apenas há quase 21 anos e que será desativado daqui a mais uns 4) e existiram algumas sondas que mais mandaram informação lá para fora do que trouxeram, mas uma das historinhas curiosas com relação a isso, que me fez pensar, foi a de uma sonda posterior que atingiu uma região de choque, uma camada turbulenta, ao se aproximar dos confins do sistema solar, bem ali perto de Netuno. Os antigos já falavam sobre existir uma espécie de barreira intergaláctica, e Netuno (Poseidon) é o deus responsável pelos terremotos e turbulências. Sempre que a gente chega numa situação limite, também ficamos 'balançados', 'sacudidos'. Universo, deuses, si mesmo, funcionam parecido. Conhecendo um, alcançamos a compreensão dos outros. E o que mais temos para observar, onde quer que vamos, somos nós, e em seguida a natureza.

A religião antiga se aproxima mais da ciência do que da religião moderna. Principalmente porque a religião antiga era centrada em conhecimento, não em dogmatismos como acontece na religião estabelecida pelos cristãos. Antigamente, o culto ao sagrado era uma questão de lógica, de evidência, de racionalidade, de fazer sentido. Inclusive você era justo com o próximo porque isso era parte de uma virtude racional e não porque um messias lhe ensinou a ser assim. Para os gregos, a religião ("theôn timaí" = 'veneração dos deuses') não era tanto uma questão de fé (pistis), sobre a qual não existe nenhum mito (o que existia era ser 'temente aos deuses', o "theoudés" da Odisseia, como uma virtude que garantia as outras), apenas os romanos é que começaram a trazer a noção de fé (fides). O verbo grego pistestai significa algo como "convencer, deixar-se convencer, seguir", e eles não precisavam ser convencidos nem convencer ninguém da existência dos deuses.

Quando nós - reconstrucionistas helênicos - estudamos (e somos tidos como nerds por isso) com a intenção de usar a teoria para orientar a nossa prática, mesmo sem querer acabamos encontrando evidências que nos maravilham e fortalecem nossa identificação com a cultura e os valores helênicos. Se você ler sobre os 3 Logos dos quais fala a filosofia, ler sobre os 3 fogos mencionados no oráculo caldeu, e pensar na estrutura de uma célula demonstrada pela ciência, vai conseguir relacionar essas coisas entre si, e mais uma vez confirmar a máxima délfica. Tanto a filosofia (si-mesmo) quanto o oráculo (deuses) e a célula (universo), falam de algo que cria, de onde partem as coisas; de algo que organiza as informações; e de algo que realiza essa inteligência no mundo sensível, dando-lhe inclusive uma forma física. Você pensa em fazer um copo, você reúne o que precisa para construí-lo e então efetivamente o faz. Existe uma inteligência criadora/organizadora, ela delimita o que vai usar como mensagem, e apresenta esta mensagem ao mundo. Você tem o DNA do núcleo, um meio circulante do citoplasma, e uma membrana que dá forma e permite trocas com o meio. O oráculo caldeu inclusive diz que quem fica nos limites de tudo, como intermediária, guardiã das chaves, senhora das fronteiras, é Hécate. Ela conduz as almas do mundo de lá para o de cá e vice-versa. Ela escolta Perséfone nas suas vindas e idas do submundo à Terra. Eis uma revelação divina que pode ser descoberta através de reflexões filosóficas e observações do universo, sem precisar simplesmente 'acreditar' num mito ou epíteto de Hécate.


Na maioria das vezes, o que nos falta é conhecer esse si-mesmo. Não somos nossos corpos, nosso trabalho, nossa personalidade, nossas habilidades, formações e gostos. O verdadeiro Ser que compartilhamos é outro 'esquema', outro 'lance'. Por isso acredito ser importante que se leia o trabalho dos filósofos e dos cientistas para se entender os deuses, em vez de se ler apenas mitologia e achar que aquilo é história literal. Se os mitos fossem a soma do que deveríamos acatar como verdade, os gregos teriam um livro sagrado reunindo esses mitos, coisa que eles não têm. Não existe um manual; o que você precisa é olhar para si e olhar em volta. Só assim vai perceber os deuses em tudo isso que há por aí, inclusive em você e no outro.

fevereiro 20, 2011

"Família... janta junto todo dia!"

Prolongando um pouco as postagens nas quais falei das maneiras de vermos os deuses, como seus "pets" ou como seus "amores", desta vez vim defender nossa visão como família.

Não sei vocês, mas dentro da minha família há pessoas que me fizeram muito mal, e já vi alguns parentes entrarem em pé de guerra uns contra os outros, com histórias de trapaças e até embates corpo a corpo. E, no final das contas, estamos todos lá juntos e declaradamente irmãos, primos, tios, sobrinhos etc. (Até os monstros da família Addams ficam unidos.) Se nós - com toda a nossa herança titânica de vileza e animalidade - conseguimos deixar o passado para trás e separar as coisas, por que tantos insistem de que esta e aquela deidade "não se dão bem" e não podem ser colocados juntos no mesmo espaço?

Além de a mitologia lidar com símbolos, o fato de os deuses efetivamente tomarem partido de um lado e outro na Guerra de Tróia há milênios atrás não quer dizer que eles tomaram birra, fizeram beicinho e emburraram metade de cada lado do mundo e do Olimpo pelo resto das eras. E, mesmo no mito, quando Hefesto tenta violentar Atena e o sêmen cai na terra, Atena considera o filho de Gaia como sendo dela própria com ele. Se Páris escolhe Afrodite em detrimento de Atena e Hera, é ele o abestado de ficar dividido, não acho que três DEUSAS iriam ficar de frescurinha para sempre por conta da decisão de um pastor que há muito já morreu.

É engraçado como uma hora falam tanto de opostos complementares que se equilibram e em outra fazem questão de inimizar deidades baseando-se em algum recorte da história sem considerar todo o resto. Dionísio é um que costumam opor a Hera, sendo que foi ele que a ajudou no rolo que estava dando com Hefesto. E também não acredito que seja por acaso que a planta de Dionísio se chame "hera" em português. O próprio Héracles a quem a deusa teria tanto perseguido carrega no nome uma homenagem à própria. E, falando de imposição de tarefas, se Afrodite não tivesse exigido-as de Psiquê, esta não teria evoluído a ponto de merecer ser deificada e nem Eros teria crescido e adquirido a maturidade necessária para sair da casa da mãe. E que irmão nunca pegou o brinquedo do outro como Hermes roubou as 'pelúcias' (ovelhas) de Apolo?

Uma vez eu estava conversando sobre isso com o Jota e ele me lembrou que Otto fala das divindades não serem invejosas entre si, que eles apenas não admitiriam serem subestimados. É como sempre procuro reforçar com relação ao métron (justa medida): o "nada em excesso"; então é claro que não se trata nem de algo do tipo 'todo mundo é feliz, vamos dar as mãos e abraçar a criação', mas também não é algo do tipo 'sou teimoso e guardo rancor igual adolescente'. Fui então dar uma checada no Otto, e eis algumas coisas que eu trouxe de lá (com negritos meus):
"A divindade grega [...] não faz destacar-se a sua personalidade com base no ciúme de outros deuses. Ela não espera que o homem viva para servi-la, nem que realize suas melhores ações para glorificar sua pessoa. O culto que para si reivindica não é de tal ordem que ao lado dele nenhum outro possa ser admitido. Ela se alegra com a liberdade do espírito e requer da vida humana muito mais sentido e inteligência que a fidelidade a determinadas fórmulas, atos e objetivações." (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 231)

"Atena [...] por certo exige, como qualquer outro deus, que seu poder e sua sabedoria sejam reconhecidos e que o herói não se julgue capaz de prescindir de sua ajuda. Mas nem por isso ela faz depender seu auxílio de que a pessoa se dedique a seu serviço com fervor ou mesmo com exclusividade. [...] De sua própria boca ouvimos que é a coragem do valoroso que a atrai, não a boa vontade ou a dedicação à sua pessoa. [...] Em seu famoso diálogo com Odisseu (Odisséia 13, 287 e seguintes) [...], ela lhe diz diretamente que é o seu espírito superior que a agrada e o liga solidamente a ela". (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 214)
Aliás, Atena é uma que o povo gosta de rivalizar com Ares. Isso é uma coisa que nunca entrou na minha cabeça, eu inclusive os colocava no mesmo altar de guerra. Nesse quesito Otto parece concordar com a visão fechada da guerra como algo nocivo e diz que Ares - que teria "eterno amor a contendas, guerras e batalhas", sendo um "destruidor" de homens - não se daria com o espírito grego da temperança. Eu não entendo assim, eu acredito que uma das demonstrações de temperança é saber o momento certo para cada coisa, e, no meio da guerra - no calor da batalha -, há de se ter mesmo sangue frio. Quando Otto aponta o fato de Ares não se importar com de que lado está lutando, desde que a guerra continue, eu vejo certo preconceito do autor (que inclusive diz que Ares muda de lado só para se "refestelar" com o combate). Para mim, isso é mais questão de ser um soldado e guerreiro do que de ser inconstante ou volúvel; um soldado que apóia todos os soldados, independente de sob qual comando estão. Quem não pode mudar de lado é Atena, porque ela sim é a general, a estratégia, o mental, a que precisa ser racional e coerente. Ares é o fogo, ele vai duelar, pelejar, batalhar, com quem tiver para lutar com ele; é como se ele estivesse em um constante exercício de alerta. E não consigo ver um exército feito só por soldados ou só por generais, essas duas figuras têm que trabalhar juntas, têm que cultivar um bom relacionamento, têm que se complementar.

Por falar nisso, acho que nem preciso me demorar neste texto relembrando a oposição que Nietzsche coloca para Apolo e Dionísio, porque esta - além de didática - sempre foi de complementaridade mesmo.

Só espero que mais uma vez isto ajude a desfazer fórmulas pré-concebidas que as pessoas não têm o costume de questionar. A religião dos gregos antigos era extremamente racional, não se podia acreditar em uma coisa sem antes investigá-la ao máximo, até que ela fizesse algum sentido. Por isso me entristece ver pessoas repetindo o que outras dizem só por lhes terem um crédito de confiança e não sabendo argumentar quando alguém aponta reflexões contrárias que possuem toda uma lógica sustentando-as. É por isso que, quando nós (reconstrucionistas) insistimos em trazer textos e teoria, é apenas para fundamentar a nossa prática e termos certeza do que estamos fazendo, e não para exibir um conhecimento não-refletido e que não encontra ressonância na realidade cotidiana...

Mas lembrem-se: sem rivalidades, pois na nossa família somos "tutti buona gente"!

janeiro 02, 2011

Ano Novo Civil

Perguntaram-me sobre a Heracléia - que é sugerida na virada secular de ano novo - e resolvi dar mais informações aqui no blog para quem tiver a mesma dúvida.

Apesar de não ter existido na Antiguidade um festival a Héracles Triesperos no solstício de inverno (vide "triesperon: season festive that was never a festive"), essa Herakleia de final de ano é um festival moderno que também se baseia na mitologia, como foi o festival da Heliogenna cujos mitos foram explicados anteriormente AQUI. E o relato é o seguinte:

A família de Héracles vem de Argos, já que Alcmena é filha do rei micênico Electrion, filho de Perseu e Andrômeda, que também geraram Alcedes, pai de Anfitrião. Alcmena se casou com esse seu primo Anfitrião. Eles foram forçados a fugir da cidade porque Anfitrião matou o cunhado dele, então foram parar em Tebas. Ali, Zeus veio à terra e se relacionou com Alcmena. Algumas versões dizem que foi em forma de neve dourada, outras que foi na forma de Anfitrião (o qual tinha viajado para a guerra), fingindo ser ele. Zeus ficou com Alcmena por três noites inteiras, daí Triesperos ('tria speros' = três noites). No mito, Zeus diz ao deus solar Hélio para desatrelar sua carruagem por um dia, fazendo o mundo ficar na escuridão por 24 horas a mais, assim Zeus pôde prolongar seu romance por uma noite de 36 horas.

Assim, celebra-se o retorno do sol, trazendo felicidade a todos.

Nessa época algumas pessoas preferem celebrar os Doze Dias Dionisíacos (como estou fazendo), outras escolhem a virada de ano para celebrar Hécate - das encruzilhadas e abertura de caminhos, e outro ainda me disse que iria celebrar Apolo, deus solar.

De qualquer forma, seja como for que você entrou 2011...

Αγαθή Τύχη, Αγάπη, Ειρήνη και Ευτυχισμένος ο Καινούργιος Χρόνος!
(Boa Fortuna, Amor, Paz e Feliz Ano Novo!)

maio 09, 2010

Miasma e Catarse

Sugeriram-me falar sobre o Miasma, já que muitos ainda confundem tanto ele quanto a Hybris com uma noção de "pecado" que não cabe nesses conceitos, visto que o miasma é um termo sem peso moral, algo bem mais metafisicamente complexo do que uma transgressão que gera "culpa" - como entendemos o pecado. Miasma é uma poluição, contaminação, mas essa "poluição" a que o miasma se refere não necessariamente tem a ver com "sujeira", assim como "purificar-se" não é exatamente "se limpar".

Portanto, reunindo leituras que fiz de postagens da Eleuthera (2), do Ruadhan e outras fontes (livros e companhia), fiz um apanhado breve e geral aqui para vocês.

Antes de tudo, convém lembrarmos que há vários tipos de miasma: o do corpo (como doenças e morte), o da alma (como impiedade, vícios, crimes e a hybris), o da casa (como misérias, desgraças, calamidades), o da cidade (como pragas, injustiça, desastres naturais), o do planeta (como febres, epidemias).

Há também diversas causas do miasma, todas referentes à perturbação da lei natural e a mudanças da ordem da vida na Terra: contato com agentes estranhos (espíritos de gente assassinada, espíritos de pessoas que morreram com miasma, almas que não receberam os ritos fúnebres); contato com o nascimento ou com a morte natural; contato com certas ações criminosas ou injustas; contato com lugares que passaram por eventos trágicos ou violentos ou sacrílegos; ou resultado de ações que desagradaram aos deuses.

A lei natural é representada por Themis. Sempre que ela é transgredida, aparece Nemesis, sua antítese. As filhas de Nemesis - Erínias - são as agentes do miasma, trazendo consigo a ira.

Isso acontece porque é preciso haver justiça, ou seja, se existem ações criminosas, elas devem gerar reações recíprocas para o equilíbrio e a equidade. Então, realizamos a Catarse (purificação) para nos reconciliar com os agentes sobrenaturais que poderiam nos punir, assim como para nos purificar dos efeitos físicos que o miasma provoca.

A Catarse [Katharsis] pode acontecer através de: purificações menores e anteriores às preces/ritos (como lavar as mãos e rosto, tornar a água lustral etc); purificações após o contato com o parto ou a morte de alguém; purificação da atmosfera de algum lugar; expulsão de agentes de miasma; purificação através de curas e remédios; purificação da alma em forma de música e dança; purificação de uma casa e seus membros; purificação de uma vítima de crime violento; purificação de alguém que matou sem intenção; purificação da alma para fins de culto; rituais específicos de purificação (Diasia, Thargelia etc).

Vamos ver então miasmas e catarses específicos de cada caso:

1) Morte natural - os olhos e boca do cadáver ficam fechados e o corpo dele é lavado com água do mar ou salgada (se houver feridas de morte violenta, elas devem ser limpas e cobertas); os parentes do morto devem ser purificados antes dos ritos fúnebres e depois que o período de luto passar (mulheres grávidas não podem ter contato com o corpo do morto); visitantes devem se purificar após sair do velório (lavando suas mãos em água salubre ou lustral que esteja do lado de fora da porta da casa); a casa deve ser purificada com água do mar três dias depois da morte; o suprimento de água da casa deve ser trocado e o fogo do altar deve ficar apagado e só será aceso novamente no terceiro dia de catarse; o morto pode receber ovos e comidas no túmulo (ovos têm enxofre, que é bom para expulsar miasma).

2) Parto - nem a mãe nem o bebê são fontes de miasma, e sim o ato de nascer é que tem tais propriedades, então o lugar onde ele ocorre é tratado da mesma forma como o do caso acima, com algumas diferenças: a casa é purificada no quinto, no décimo e no quadragésimo dia após o nascimento; as pessoas que tiverem contato com a mãe nos cinco primeiros dias também precisarão se purificar.

3) Intercurso Sexual - esse é um miasma de natureza menor e costumava se relacionar mais aos fluidos masculinos do que aos femininos. Deve-se tomar banho antes de se apresentar diante dos deuses para preces/ofertas/ritos. No caso de crimes sexuais, cujo miasma era maior, o ritual era outro, com detalhes ainda desconhecidos, mas acredita-se que consistia de sacrifícios no templo de Apolo.

4) Assassinato - o pior dos miasmas, que não vinha apenas como punição ao assassino, mas também à sua família, descendentes e até à cidade de residência dele. É por isso que assassinos eram exilados, pois o contato com ele poderia levar à infertilidade das pessoas, animais e plantações. Com relação ao local do crime, temos o exemplo de quando Odisseu limpa sua casa (com enxofre e fogo) do miasma de ter matado os pretendentes de Penélope. Outra forma de purificação é pelo sacrifício ritual de um Pharmakos (bode-expiatório). Neste caso, a catarse tinha dois momentos: primeiro o assassino teria que ser liberto dos desejos de vingança da alma do assassinato, depois teria que ser purificado do miasma do próprio crime.

5) Lar - como o miasma afetava famílias e gerações e atraía coisas ruins para o lar, e como às vezes o parto e a morte aconteciam na casa, esta precisava ser purificada.

6) Terra/Água/Atmosfera - os helenos se preocupavam com a harmonia entre alma, corpo e meio-ambiente, então as condições sanitárias da cidade e do planeta também nos importam. Acreditava-se que certos lamaçais, brejos e pântanos continham propriedades de miasma e causavam febre nas pessoas dali, assim como se acreditava que usar a mesma água usada por alguém com miasma poluiria a outra pessoa também. Pragas e epidemias eram resultado de miasma na atmosfera, então se deveria acender fogueiras com unguentos de cheiro doce e coroas de flores para purificar o ar.

[ Abrindo um parênteses aqui, é bom ressaltar que menstruação NÃO é miasma, a quantidade de sangue presente num fluxo (que combina mais pedaços de tecido e mucos do que sangue) às vezes é maior que o sangue que sai de um corte acidental no dedo. Essa ideia de impureza relacionada a coisas femininas veio de séculos de influência judaico-cristã, que não estavam presentes no helenismo. O que recomenda-se é: no caso de cortar o dedo, lave a ferida, faça preces a Asclépio, bote um band-aid e esqueça; no caso de menstruação, tome um banho relaxante, troque seu absorvente/tampão/toalhinha, faça preces a Higéia e Réia e esqueça. Siga então para o seu ritual tranquila. ]

É verdade que os partos no mundo antigo não eram tão esterilizados como hoje, assim como os ritos fúnebres não deveriam ser muito higiênicos e que, em compensação, hoje a gente provavelmente polui muito mais o meio-ambiente. No entanto, miasma não significa falta de higiene e catarse não significa limpeza do corpo.

Ainda assim, não há razão para se apavorar com a questão do miasma a ponto de achar que não pode fazer nada e tem que parar com todos seus rituais por medo de estar impuro. Tente olhar pelo lado da saúde, do equilíbrio e da justiça, de uma forma bem prática.

Para cada tipo de miasma há uma maneira de se realizar catarse, e não existe nenhuma pessoa ou crime que não possa ser purificado.

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PS.: A Sarinha já falou dos pensamentos dela sobre o miasma, clique AQUI para ler.

janeiro 29, 2010

Adivinha quem é!

~ Vamos ver a originalidade dos relatos que ouvimos? ~

Ele era filho do deus da luz, realizava curas (do corpo e da alma), curava enfermos e deficientes, ressuscitava os mortos, era chamado de salvador e redentor, recebia todas as classes e gêneros de pessoas; uma vez um paralítico veio a ele e se levantou e saiu andando depois que ele o tocou. Quem é?

ASCLÉPIO!

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Ele era filho de uma virgem mortal com um deus, era conhecido como 'salvador do mundo', antes de ele nascer seus pais terrestres se mudaram para uma cidade maior, profetas previram seu nascimento e que ele seria um rei, por isso ele foi perseguido ainda criança por uma figura poderosa que o queria matar; após crescer observou os reinos do mundo de cima de uma montanha, depois sabia o momento que iria morrer, mas disse que não se preocupassem pois ele estava indo para o "céu". Quem é?

HÉRACLES!

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Ele era o redentor, o verdadeiro salvador da humanidade, que enfrentou as autoridades para ajudá-la, trazendo a luz (fogo), e - por amor e piedade e compaixão dos pecaminosos humanos - se deixou ser sacrificado para salvá-los. Quem é?

PROMETEU!

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Ele era o filho de um deus com uma virgem mortal, representado por vezes como deus-menino e outras vezes como homem barbado, além de ser retratado montado em um burrinho; ele que transformou água em vinho, que teve significativos encontros com pescadores, que realizou curas, que morreu violentamente e ressuscitou (tornando-se imortal); cujos seguidores comiam o pão e o vinho em honra de seu corpo e sangue em uma espécie de união sagrada com ele para tentar alcançar a vida eterna, e de quem se conhece a imagem de uma cruz com ele nela e letras de uma língua antiga em volta da mesma. Quem é?

DIONÍSIO / BACO!

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Ele era o "bom pastor", representado com um cajado ou com uma ovelha ao ombro, era condutor das almas pelos prados e campinas daqui e do mundo de lá, ele transmutava elementos, andava pelas estradas, era o intermediário entre os homens e deus(es), e sabia se comunicar como ninguém. Quem é?

HERMES!

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Ele era a luz do mundo, era identificado com o sol, e pregava a moderação e a harmonia. Quem é?

APOLO!

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Ele era capaz de caminhar sobre as águas. Quem é?

ÓRION!

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Ele era a "luz do mundo", o deus nascido de uma virgem, o primeiro rei verdadeiro do povo, que se ergueu do túmulo e subiu ao céu, derrotando a morte. Quem é?

OSÍRIS!

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Ele era chamado de "bom pastor", "luz do mundo", "o cordeiro", era "o caminho, a verdade e a vida", e era identificado com uma cruz. Quem é?

HÓRUS!

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Ele era "a luz do mundo", mediador entre deus e os homens, nasceu a 25 de dezembro, pastores do lugar testemunharam seu nascimento e lhe deram presentes; ele tinha 12 discípulos, que no final se reuniram para uma ceia e então ele subiu ao céu; no dia do juízo final ele voltaria para julgar os vivos e os mortos, os justos subiriam com ele e os pecadores seriam mortos em um imenso fogo; seu dia sagrado é o domingo, sua religião foi que nos deu sete dias na semana; seus seguidores se chamavam de "irmãos" e seus líderes de "pais"; ele praticou o batismo, fez rituais de refeição sagrada nos quais carne e sangue eram consumidos simbolicamente pelos iniciados, e eles acreditavam que sobre a terra havia um céu e sob ela havia um inferno escuro com demônios e pecadores. Quem é?

MITRA!

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Ele foi concebido de forma miraculosa, homens sábios foram guiados até ele por uma estrela, o governante local quis matá-lo e começou a caçar a criança, seus pais foram avisados por um mensageiro celeste e fugiram pelo rio com o menino sagrado, ele se encontrou com pastores, cresceu fazendo grandes feitos e era o mediador entre deus e os homens. Quem é?

KRISHNA!

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Um "anjo" disse à mãe dele que ela geraria uma criança sagrada destinada a ser um salvador, ele foi instruído por sacerdotes no templo em assuntos religiosos enquanto seus pais procuravam por ele, ele começou sua carreira religiosa quando tinha 30 anos de idade, era cercado por 12 discípulos (dos quais um era seu favorito e outro era um traidor), seus discípulos se abstiveram de riquezas materiais e viajaram falando em parábolas e metáforas, ele se auto-proclamava "filho do homem" e lhe chamavam de "profeta" e "mestre" e "senhor", ele fez maravilhas e curou enfermos e deficientes, ele caminhou na água (e, quando um de seus discípulos tentou fazer o mesmo, começou a afundar porque sua fé não era forte o bastante). Quem é?

BUDA!

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Ele era o deus-homem, o profeta, fundador de uma grande religião monoteísta que ainda existe, ele pregou que só havia um deus; seus ensinamentos se focavam na eterna luta entre o bem e o mal, incluíam a ideia de um salvador que levantaria os mortos e julgaria a todos, os justos iriam ao paraíso e os pecadores ao inferno (a palavra "paraíso" veio dessa religião); o semi-deus começou sua carreira no começo dos 30 anos e tinha discípulos que eram um monte de monges perambulando para pregar sua palavra; ele depois foi morto e subiu ao céu. Quem é?

ZARATUSTRA ou ZOROASTRO!

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Todos esses que se encaixam na imagem de um deus-homem salvador-do-mundo eram muito mais antigos do que Jesus! Martin Nilsson, em "A Origem Micênica da Mitologia Grega" (1931) afirmava que os mitos gregos datam do segundo milênio Antes da Era Cristã, muito antes da decifração da escrita Linear-B (vide Moses Finley, "O Legado da Grécia ", 1998). Os outros citados também eram antigos: egípcios (Osíris e Hórus) eram bem conhecidos antes dos gregos, Buda (Siddhartha Gautama) também era anterior a Jesus (cerca de 563 a 483 AEC), a primeira menção do persa Mitra é de 1400 AEC, Zoroastro era do século VII AEC, e o hindu Krishna é citado no Maabárata/Mahabarata do século IV AEC.

Às vezes as pessoas acham que a origem de uma história está no primeiro lugar de onde ela a escutou, sem pesquisar o que veio antes (vide o povo que acha que Tolkien "inventou" as runas, que Perséfone é só uma personagem do filme Matrix e que Atena vem de um desenho animado japonês), e de paráfrase em paráfrase vai-se acreditando em qualquer coisa...

dezembro 25, 2009

Os mitos da Heliogenna

Nos dias que envolvem o solstício do final de ano (inverno para a Grécia e verão para o Brasil), há a celebração moderna da Heliogenna, sugerida inicialmente para 9 dias, mas também adaptada para 3, 2 ou 1 dias. A explicação do festival você pode ler lá no site, clicando AQUI. Mas o que eu gostaria de falar nesta postagem é sobre os mitos.

Vendo o que se celebra, percebemos principalmente Hélio, Faetonte, Selene, Éos, Hécate, Hades e Perséfone. Então embora a ligação entre Hélio (sol), seu filho Faetonte (brilhante), Selene (lua) e Éos (aurora) seja mais óbvia, algumas pessoas poderiam perguntar o que os demais têm a ver com eles. Hécate, a do toucado cintilante, talvez seja mais fácil, por ela ser uma das filhas da noite e deusa da lua, carregando uma tocha. Mas esses deuses também têm mitos em comum, que vamos já saber. Também vamos perceber que é curioso não termos Ártemis incluída na Heliogenna, mesmo ela sendo considerada uma deusa lunar e figurando nos mitos correspondentes. Embora, se incluíssemos Ártemis, tivéssemos que trazer o solar Apolo também. Provavelmente não fazemos isso por conta de ser um festival dirigido a deuses de gerações anteriores à geração deles.

Seguem os breves relatos:

Hélio-Hades-Perséfone-Hécate

Em certo sentido, o deus do submundo Hades ("o invisível, o que dá a invisibilidade") parece muito mais um reverso de Hélio ("o visível, o que torna visível") do que do deus celeste Zeus. Quando Hades raptou Core, que assim virou Perséfone, ela gritou por ajuda, mas ninguém ouviu, exceto Hécate, na sua caverna, e Hélio. Depois o eco de sua voz alcançou sua mãe Deméter. Por nove dias ela andou pela terra com duas tochas nas mãos, à procura da filha. Na terceira manhã, Hécate - também com uma tocha - lhe trouxe notícias, dizendo que ouviu o grito, mas não ouviu quem tinha sido. Deméter perguntou então a Hélio e este lhe disse o que aconteceu. Aí vem todo um enorme relato de Deméter deixando o Olimpo e punindo a terra com a ausência de colheitas, e Iambe e Metanira em sua estada em Eleusis etc, que não cabe agora, e sim em outro festival. Quando Perséfone reencontra sua mãe, elas ficam abraçadas e, em seguida, vem Hécate acolher Perséfone também, passando a ser companheira delas.

Hélio-Hécate-Perséfone

A mãe de Hélio, Téia, recebia presentes de ouro, como Perséfone. A esposa de Hélio, Perse ou Perseida (com quem teve quatro filhos), era um outro nome de Hécate, "deusa que brilha amplamente". Perséfone também poderia ser uma forma mais cerimoniosa de Perse. Outra amada do deus-sol era Neera, "a nova", ou seja, a lua nova, em sua fase mais escura. Com ela, Hélio teve duas filhas. Com Climene (também chamada de Merope, "a de face virada", referência ao eclipse), ele teve sete filhas e um filho, Faetonte.

Hélio-Faetonte

Faetonte era um jovem deus do sol que uma manhã subiu no carro do pai, ergueu-se alto demais e caiu, à semelhança da estrela-da-manhã que se levanta muito cedo e logo desaparece. Ele caiu no rio Erídano e, às suas margens, suas irmãs solares o prantearam. De suas lágrimas surgiu o âmbar.

Hélio-Selene-Hécate-(Ártemis)

Hélio era irmão de Selene e de Éos. O nome Selene está ligado à palavra "selas" (luz) e "mene" (feminino de "men", que significa lua, o mês lunar). Com Zeus ela teve Pândia, "a que brilha inteiramente, a inteiramente brilhante", referência à lua cheia. Selene e Hélio eram tão fraternais quanto Ártemis e Apolo, nunca se casando entre si. Aliás, Apolo e Ártemis tinham um epíteto de Hécaton e Hécate, respectivamente, o que nos liga de novo a Hécate, "a distante", embora ela seja uma das deusas mais próximas da humanidade - como a lua é mais próxima da terra do que os planetas. A história de Ártemis como deusa da lua crescente, fechando o trio Selene-Hécate-Ártemis, parece se dever mais ao fato de ela ter um arco, que lembra o crescente, e ser irmã do solar Apolo, já que isso não se aplicava à Ártemis Táuria, Arcadiana ou Efésia.

Hélio-Éos-Selene-(Ártemis)

Éos é a deusa da manhã, da aurora, a deusa do trono de ouro, e outro reverso feminino do sol, sendo uma irmã mais selvagem e turbulenta do que Selene, visto que as histórias de amor de Éos eram mais apaixonadas que as da própria deusa da lua. Dos jovens que ela amou, muitas vezes só se conhece o nome. Em uma das histórias, ela disputou Céfalo com a esposa dele, Prócris, uma heroína que tinha características lunares. Em uma ilha grega, contava-se que Céfalo se uniu a uma ursa, animal associado a Ártemis. Pode ser que Céfalo ("cabeça") seja a cabeça da constelação de Órion, outro amado por Ártemis e Éos.

[Consultas: livro "Os Deuses Gregos", de Karl Kerényi, e Theoi project.]

Espero que, além de fazer conhecer os mitos, isso auxilie as pessoas a não verem os deuses apenas como personificações (ainda mais tão diretas), como se houvesse apenas um deus para cada coisa no mundo ou que cada deus só regesse um único domínio da realidade...

junho 27, 2009

Kronos was a headbanger

Uma vez escrevi aqui sobre o festival da Galaxia, citando como os Curetes inventaram a dança em armadura, com ritmo frígio e flautas; um barulho que distraía Cronos enquanto eles mantinham Zeus escondido. Nesse dia, a Iony me perguntou como seria o ritmo frígio e eu lhe expliquei. Mas desde lá fiquei pensando que outros podem ter a mesma dúvida e que poderia aproveitar para citar os modos gregos, dando exemplos de músicas atuais. Então, como só agora parei para organizar isso, vamos lá:

~ Exemplos de músicas com os modos gregos e quando utilizá-los ~

Modo Frígio: 'Wherever I May Roam' e a transição de 'Creeping Death' (Metallica), 'Trust' e 'Symphony of Destruction' (Megadeth), 'Hunter' (Björk), 'Remember Tomorrow' (Iron Maiden), 'Sullen Girl' (Fiona Apple), 'Phrygian Gates' (John Adams), 'Would?' (Alice in Chains), 'Calling to You' (Robert Plant), 'For the Love of God' (Steve Vai), 'Deeper Underground' (Jamiroquai), 'Not to Touch the Earth' (The Doors), 'Once' (Pearl Jam), 'In the Name of God' (Dream Theater), 'If U Seek Amy' (Britney Spears). --> Principalmente nos festivais e cultos ligados a Cibele/Réia. Tenho a impressão de que os cultos a Hermes poderiam ser colocados aqui também.

Modo Dórico: início de 'Wave' (Tom Jobim), 'Eleanor Rigby' (Beatles), 'Milestones' e 'So What' (Miles Davis), 'The End' (The Doors), 'Smoke on the water' (Deep Purple). --> Nos festivais pan-helênicos, como os jogos ístmicos em Corinto, os jogos de Neméia na Argólia, os jogos pítios em Delfos e nos Jogos Olímpicos. Também no culto a Deméter.

Modo Lídio: 'Answers' e 'The Riddle' (Steve Vai), início de 'Overture 1928' (Dream Theater), 'Freewill' (Rush), estrofes de 'Man on the Moon' (R.E.M.), 'Blue Jay Way' (The Beatles, mais especificamente como George Harrison tocou na Magical Mistery Tour), introdução de guitarra no 'Dancing Days' (Led Zeppelin), 'Flying in a Blue Dream' (Joe Satriani), 'Beyond the Boundaries' (Jimmy Cliff), 'Unravel' (Björk), 'Follow my way' (Chris Cornell), 'Arcane Lifeforce Mysteria' (Dimmu Borgir), 'Little Red Corvette' (Prince), 'Every Little Thing She Does is Magic' (The Police), 'All I Need' (Radiohead), maioria dos solos de guitarra das músicas mais recentes de Frank Zappa, tema dos Jetsons, início do tema dos Simpsons. --> Cultos a Baco/Dionísio, a Héracles, a Afrodite, a Ártemis, e os festivais de Tebas.

Modo Mixolídio: blues de tom maior, como 'Scuttle Buttin' e 'Pride and Joy' (Steve Ray Vaughan), 'Norwegian Wood' (Beatles), 'The Visitors' (ABBA), 'Satisfaction' (The Rolling Stones), 'Drinking in L.A.' (Bran Van 3000). --> Dizem que este modo foi inventado por Safo, então convém associá-lo a Afrodite e Eros.

Modo Eólio: 'Fear of the dark', 'Hallowed be thy name', 'Running Free' e 'Still Life' (Iron Maiden), 'Achilles Last Stand' (Led Zeppelin). --> Cultos a Apolo, Ártemis, Atena, Hefesto, festivais da Beócia, de Lesbos e de outras colônias gregas na Ásia menor. Odisseu esteve na ilha de Eólo, que lhe proveu com Zéfiro (vento oeste).

Modo Lócrio: primeira parte de 'Painkiller' (Judas Priest), 'Symptom of the Universe' (Black Sabbath), começo de 'YYZ' (Rush), parte principal de 'Painkiller' (Judas Priest), refrão de 'Our Truth' (Lacuna Coil). --> Culto a Perséfone e aos heróis da guerra de Tróia, festivais da Magna Grécia e de Amphissa.

Modo Jônio: 'Let It Be' (Beatles), primeira parte do 'Always With Me, Always With You' (Satriani). --> Culto a Zeus, Hera, Atena, e os demais festivais mais populares.

Agora você pode criar sua "playlist" para cada cerimônia.
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