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Blog pessoal sobre religiosidade e espiritualidade helênicas, voltado para quem se identifica com a religião politeísta grega antiga e procura praticá-la adaptada à realidade atual. Inclui vivências e experiências com os deuses da Antiga Grécia e outras deidades afins, suas conexões práticas e filosóficas. Abarca também a psicologia como autoconhecimento.
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maio 09, 2020
julho 16, 2017
"Torna-te quem tu és." (Píndaro)
As teorias psicológicas geralmente carregam uma visão bem traumática dos primeiros anos de vida, tornando nossas lembranças e a narrativa da nossa história pessoal algo infiltrado por essa ideia, que nos faz pensar na infância como uma época de calamidades desnecessárias e causadas pelos outros, as quais teriam moldado nossa personalidade de forma errada. Mas nossas vidas são mais prejudicadas por essas ideias do que pelos traumas em si. Nossas vidas são determinadas não tanto por como foi nossa infância, mas por como aprendemos a imaginá-la. Olhamos para a vida como uma narrativa cronológica e sem um roteiro, transitando entre ressentimentos sobre o passado e ansiedades quanto ao futuro.
Para sairmos dessa identidade de produto social determinado por eventos aleatórios e reações estranhas, precisamos buscar não o sentido da vida em geral, mas uma razão pessoal para estarmos aqui. A beleza, o mistério, a mitologia por trás da nossa vida em particular. As teorias que misturam genética e meio-ambiente, inato e aprendido, hereditário e social, se esquecem de falar sobre o que é aquela coisa específica que faz você ser você, que vai além de ser apenas um resultado entre essas duas forças. Quanto mais dissermos que somos produto dos nossos cromossomos aliado ao que nossos pais nos fizeram numa época que já passou há muito tempo, mais nossas biografias vão ser todas parecidas com a história de uma vítima e bastante acidental. Mesmo que depois você vire o outro lado da moeda da vítima, que é a do heroi que sobreviveu, venceu e "se fez sozinho".
O cronológico não importa tanto. Não importa qual pincelada o pintor deu primeiro, o que você vê já é a arte pronta. Você é uma imagem completa, no agora. Como disse Picasso, "eu não me desenvolvo, eu sou". Essa sua essência pode ser ignorada o quanto você quiser, mas um dia vai sair e te tomar. Às vezes sua essência não aparece quando criança, porque você não está pronto. Por exemplo, pode ser que você vá ser um escritor, mas que nunca sentiu urgência em escrever quando novo, porque antes de criar você precisava aprender, olhar, ler, sentir, cheirar, viver, para não escrever besteira. Mas podemos ter percepções disso desde a infância sim, então seria bom tentar lembrar mais dessas percepções do que dos eventos traumáticos dessa época. São dicas, intuições, sopros, impulsos, estranhezas, urgências, que perturbam a vida natural e que estranhamente rotulamos de sintomas. Mas, para brincar com a linguagem, esse "sim, toma" é um presente pra você. Há uma razão para essas coisas te escolherem. E o início da palavra sintoma vem do grego "sym" (combinação, conjunto). Não estamos sozinhos.
A psicologia é sim uma ciência, mas seu nome começa com "psyche", "alma" em grego, então ela porta muito do que seria identificado como espiritual ou religioso. Dizer que "o coração tem razões", que "há algo de inconsciente nas nossas intenções", que "nada acontece por acaso" etc, tudo isso é convencional e aceitável. E quando pensamos que estamos aqui por um motivo que não nos deixa morrer quando caímos da escada ou quando nos enchemos de vírus e bactérias? Podemos chamar isso de instinto, de autopreservação, de sexto sentido, de consciência subliminar, de energia universal ou de anjo da guarda - todas essas coisas são invisíveis e as sentimos presentes. Mas a sociedade prefere que você compre a história do sobrevivente que se fez sozinho do que a história de que você é amado por uma providência que guia você e de que você está aqui por ser necessário no mundo. E não estou falando necessariamente de deus/es externo/s.
No mundo atual parece que estamos mais distraídos do que motivados. Procuramos coisas para fazer para evitar pensar, e não coisas para nos inspirar a criar. Porque dá trabalho descobrir sua missão e cumprir as exigências que vem com ela. Estamos cada vez mais fugindo de ser responsáveis, por isso também a teoria de culpar a infância é bem cômoda. Ora, se a cada 7 anos todas as nossas células do corpo se renovam, por que eu vou deixar que me definam pelo que me aconteceu na infância? O que eu passei pode explicar muito do meu comportamento hoje, mas não mudou quem eu sou ou o que eu acredito que vim fazer no mundo.
Em vez de sermos apenas "estudos de caso", deveríamos ler a história de cada um além do eixo biológico-social, talvez algo mais parecido com o filosófico ou antropológico, mas sem o etnocentrismo típico. Podíamos realizar nossa análise menos em estatísticas e diagnósticos e mais em imaginação e mito-poesia. Assim veríamos as perturbações na infância menos como problemas de desenvolvimento e mais como emblemas que revelam muito do chamado individual, da descoberta da importância que tem aquela vida em particular. O maior pecado da psicologia é ignorar a beleza, a apreciação estética de cada história de vida. Cada mudança de situação na vida tem um sentido e uma interpretação, mas também tem uma beleza. Falar apenas em estruturas cognitivas e afins não tem graça. E ver a beleza em algo nos faz amá-lo. Ficar apenas procurando "problemas" torna a todos ansiosos - terapeutas, pais, crianças, pesquisadores.
A descoberta do nosso chamado é algo que ao mesmo tempo ancora lentamente e voa bem rápido. É como uma árvore que tanto cresce para cima quanto se enraíza mais fundo. Quanto mais nos afastamos dele, mais nos despersonalizamos e menos vivemos. Viramos estatística dentro de um grupo. Sei que é melhor ser sobrevivente do que ser vítima, mas melhor que sobreviver é viver plenamente. Além de me identificar com milhares de pessoas que passaram pelas mesmas coisas que eu, também posso encontrar o que me torna única.
Essa busca pela diferenciação é o que talvez nos faz mudar coisas visíveis e aparentes, como fazer uma tatuagem, adotar um novo estilo de se vestir etc. São coisas externas que expressam a necessidade de algo interior que nos defina. Quem sou eu especificamente? Algo que vai muito além da minha genética e acontecimentos do passado e vivência social. Achar esse algo é que são elas. De qualquer forma, na sua procura pelo autoconhecimento (que é o mote tanto da terapia quanto do helenismo), é melhor ir por esse caminho atemporal do que percorrer mil vezes aquela narrativa cronológica sem roteiro, que pode trazer muitos avanços mas que raramente nos deixa satisfeitos.
Como ensinava Píndaro, primeiro precisamos descobrir quem somos, para depois agirmos de acordo com o que descobrimos.
Independente do nome que você lhe dá (gênio, daimon, anjo da guarda, ochema, fortuna, sorte, jinn, ka, ba, animal de poder, eu-superior, self, chi, ruah, pneuma etc), já pensou um pouco sobre qual o seu chamado?
abril 11, 2015
Altares, imagens, ritos?
PARA QUE AS ESTATUETAS E IMAGENS?
PARA QUE FAZER RITOS?
Todos nós precisamos nos sentir seguros e amparados. Quando bebês, dependemos de um adulto pois sabemos pouca coisa desse mundo e não alcançamos tudo. Mas, mesmo quando crescemos, continuamos sujeitos a coisas que não conhecemos e/ou não controlamos. E, para muitas coisas, outro ser humano não resolverá, porque ele está na mesma situação que nós. Quem pode nos confortar da ansiedade com relação ao dia seguinte, ou nos aliviar da angústia de sermos finitos? Quem pode afirmar com certeza que não vamos pegar uma doença amanhã? Somente quem não estiver sujeito às mesmas limitações que estamos. E a comunicação com esse ser se dá através dos rituais e preces, que são as formas mais eficientes que encontramos para acessar o sagrado e dele obter ajuda, graças e favores.
Um ritual tem duas realidades. A primeira é imediata, e não inclui só a visão da chama da vela, o cheiro do incenso, a demonstração de aceitação das comidas e flores ofertadas e demais imagens sensoriais afins, mas também a sensação de tranquilidade mental, o desenvolvimento da concentração e organização das ideias, e outras percepções sutis. A segunda não é notada a princípio, mas se manifestará em algum momento, como uma resposta ao que fizemos. Além disso, o ritual pode corrigir nossas ações errôneas (numa espécie de crédito para cobrir o débito da sua conta espiritual), abranda a 'hybris', purifica o miasma, nos auxilia a obtermos o que desejamos (por comunicar o pedido aos deuses e estabelecer um laço de amizade), entre outras consequências positivas.
Para um ritual dar certo, ele depende cerca de 70% da gente e só 30% dos deuses, embora a parte deles seja a mais importante. Precisamos ter uma direção sobre a prática correta, precisamos separar um tempo adequado para o rito, e precisamos nos esforçar para realizá-lo devidamente. E eles precisam nos ser favoráveis. Mas a gente também influencia nessa parte, dando-lhes motivos para merecer seu favor, ou seja, desenvolvendo um relacionamento com eles através das preces, da prática da virtude, das ações corretas, do reconhecimento e gratidão.
Não se trata, portanto, de superstição, mas de confiança, aceitação, amizade. O ritual é necessário e benéfico. Antes de perder a oportunidade de realizá-lo, ou de ficar com medo de fazer algo errado, tente pensar que o máximo que pode acontecer é você fazer os seus 70% (o que já bastaria para você se sentir bem, tranquilo, focado etc) e não ter os 30% de lá (ao menos não desta vez, embora isso já ajude no relacionamento que está se formando), mas mal não vai fazer. Então por que não?
Especular sobre a aparência dos deuses é natural, é como alguém que não conhece seu pai biológico e fica imaginando como ele seria. Mas nem sempre o que imaginamos corresponde à realidade, e as escrituras de várias crenças nos advertem a não "gravar em madeira ou pedra" essas nossas especulações e render homenagem a tais ilusões. Mas uma coisa é bastante provável: os deuses são belos. E, tentando ver a beleza dos deuses, procuramos coisas belas que os representem. No entanto, todas elas são temporárias, já que são materiais, e a beleza divina é transcendente.
Quando se cria algo caprichosamente e se adora esse algo como se fosse um deus, isso é idolatria, pois não se está adorando uma deidade e sim algo inventado pela sua imaginação. Outros, ainda, acham que deus não tem forma, que é impessoal ou vazio, mas isso não é verdade. Se existem "forças" ou "energias" funcionando no universo, algo (alguém) impulsiona/m essas forças (como estudamos em Física). E, se esse alguém existe, ele/a/s deve/m ter uma imagem, um nome e características próprias suas.
Dizem que uma árvore se conhece pelos seus frutos. Os frutos mais elevados que conhecemos da criação material são os seres humanos, então é natural imaginarmos os deuses (fonte de tudo) como antropomorfos. Podemos nos basear nos hinos e outros textos antigos para tentar descobrir a forma dos deuses. Deles é que sabemos que Atena tem brilhantes olhos verde-acizentados ('glaukopis'), por exemplo.
De qualquer maneira, mesmo entre nós mortais, uma representação raramente corresponde ao real. Quantas vezes você se achou diferente nas fotografias? E, vamos mais longe, você sequer 'é' o seu corpo, você 'tem' um corpo, você pode inclusive não se reconhecer como sendo daquela forma. Muita gente acha estranho quando se olha no espelho. Porém, os deuses não estão presos a um corpo e, por isso mesmo, por essa não-dualidade, eles podem ser um só com as estátuas e representações que atribuímos a eles. Os deuses não estão submissos às leis materiais como nós, eles estão acima disso. Então não estaríamos adorando "ídolos de pedras" e sim fixando o olhar em algo que tenta se aproximar do belo que é divino e próprio dos deuses. Para os deuses não existirá ali uma distinção entre o objeto material e sua essência espiritual. Quando usamos os hinos para chamá-los, eles podem transformar aquela madeira ou pedra em algo transcendente. É como a energia elétrica: a mesma energia pode fazer funcionar uma geladeira ou um fogão, então a energia espiritual também pode entrar no material para fazê-lo funcionar com o motivo para o qual foi criado.
Quanto esculpimos e/ou pintamos uma imagem de um/a deus/a, a oferecemos a ele/a como oferta votiva e ele/a a aceita, então aquela é uma imagem válida. Ela vai servir para purificar nosso olhar, nossa mente, nossos sentidos. E para nos aproximar da beleza, da bondade, da justiça. Se você o tratar como um ídolo de madeira, ele será só isso, mas se mudar o seu olhar e postura, o que receberá de volta também será diferente. E melhor.
PARA QUE FAZER RITOS?
Todos nós precisamos nos sentir seguros e amparados. Quando bebês, dependemos de um adulto pois sabemos pouca coisa desse mundo e não alcançamos tudo. Mas, mesmo quando crescemos, continuamos sujeitos a coisas que não conhecemos e/ou não controlamos. E, para muitas coisas, outro ser humano não resolverá, porque ele está na mesma situação que nós. Quem pode nos confortar da ansiedade com relação ao dia seguinte, ou nos aliviar da angústia de sermos finitos? Quem pode afirmar com certeza que não vamos pegar uma doença amanhã? Somente quem não estiver sujeito às mesmas limitações que estamos. E a comunicação com esse ser se dá através dos rituais e preces, que são as formas mais eficientes que encontramos para acessar o sagrado e dele obter ajuda, graças e favores.
Um ritual tem duas realidades. A primeira é imediata, e não inclui só a visão da chama da vela, o cheiro do incenso, a demonstração de aceitação das comidas e flores ofertadas e demais imagens sensoriais afins, mas também a sensação de tranquilidade mental, o desenvolvimento da concentração e organização das ideias, e outras percepções sutis. A segunda não é notada a princípio, mas se manifestará em algum momento, como uma resposta ao que fizemos. Além disso, o ritual pode corrigir nossas ações errôneas (numa espécie de crédito para cobrir o débito da sua conta espiritual), abranda a 'hybris', purifica o miasma, nos auxilia a obtermos o que desejamos (por comunicar o pedido aos deuses e estabelecer um laço de amizade), entre outras consequências positivas.
Para um ritual dar certo, ele depende cerca de 70% da gente e só 30% dos deuses, embora a parte deles seja a mais importante. Precisamos ter uma direção sobre a prática correta, precisamos separar um tempo adequado para o rito, e precisamos nos esforçar para realizá-lo devidamente. E eles precisam nos ser favoráveis. Mas a gente também influencia nessa parte, dando-lhes motivos para merecer seu favor, ou seja, desenvolvendo um relacionamento com eles através das preces, da prática da virtude, das ações corretas, do reconhecimento e gratidão.
Não se trata, portanto, de superstição, mas de confiança, aceitação, amizade. O ritual é necessário e benéfico. Antes de perder a oportunidade de realizá-lo, ou de ficar com medo de fazer algo errado, tente pensar que o máximo que pode acontecer é você fazer os seus 70% (o que já bastaria para você se sentir bem, tranquilo, focado etc) e não ter os 30% de lá (ao menos não desta vez, embora isso já ajude no relacionamento que está se formando), mas mal não vai fazer. Então por que não?
dezembro 28, 2014
O Uso do Sino em Rituais
Após ver uma sugestão de ritual que incluía o uso de um sino, resolvi pesquisar se tal prática possuía ressonância na antiguidade. Encontrei um artigo chamado "For whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond" (Por quem os sinos dobravam na Grécia antiga? Sinos gregos arcaicos e clássicos em Esparta e além), de Alexandra Villing. São 74 páginas, mas faço aqui uma breve resenha. Adquiri também um sino com cabo de madeira para pirografar nele algo que o identificasse como de uso ritual. Depois, no texto, descobri que existiam mesmo inscrições votivas em alguns sinos de culto, especialmente a Atena.
HISTÓRIA
Os antigos não eram acostumados a sinos enormes como aqueles que soam nas igrejas de hoje, e sim a sinos portáteis de não mais do que uns 10 cm. Esses sinos de tamanho pequeno eram comuns na Grécia Antiga do período arcaico em diante, tanto em bronze quanto em terracota. Eles eram encontrados em santuários, túmulos e casas, e serviam para vários propósitos. Fontes arqueológicas, iconográficas e literárias atestam o seu uso como ofertas votivas no ritual e em situações funerárias, também como instrumento de sinalização dos guardas da cidade, como amuletos para crianças e mulheres, e num contexto dionisíaco no sul da Itália. A origem dos sinos é da área oriental e caucasiana, por onde eles encontraram entrada na antiga Samos e Chipre e depois na Grécia continental. O maior complexo de sinos encontrado, da era clássica, vem de escavações no santuário de Atena na acrópole espartana. Veremos que, além de Esparta, outros lugares também associavam o som do sino a algo protetor, purificador e apotropaico (que afasta os males). Os sinos de terracota eram claramente imitações baratas dos sinos de bronze, e serviam para efeitos de dedicação, podendo ser comparados a miniaturas de vasos, de armas ou estatuetas de animais usados como ofertas votivas.
Os sinos em maior número foram encontrados no santuário de Atena Khalkioikos na acrópole espartana em 1907, embora só em 1925 se tenha anunciado e poucos deles tenham sido apresentados ao público, tendo apenas se publicado alguns desenhos e as inscrições votivas encontradas neles. Depois, uma pesquisa no Museu de Esparta revelou que, nessa escavação, eles haviam encontrado 34 sinos de bronze e 102 sinos de terracota (ou fragmentos deles). É difícil saber o local exato dos sinos no santuário, pois parece que estavam em toda a parte, desde o sul do precinto até os fundos do teatro (incluindo a pequena construção que servia como santuário de Atena Ergane). O que se sabe claramente é que eles eram dedicados a Atena com os epítetos de Khalkioikos ("da casa de bronze") e Poliouchos ("suporte da cidade"), já que os sinos possuíam inscrições votivas a ela. O tamanho deles variava entre 2 e 8 cm de altura. No texto que li, a autora descreve a forma, a alça, os pés, como foram feitos etc, e traz desenhos dos mesmos. Quase todos os sinos tinham ao menos um buraco em cima para prender o badalo, o qual era sempre de ferro. Sete desses sinos tinham inscrições, três deles com dedicatórias completas, que indica se tratarem de ofertas votivas de um homem e duas mulheres. Outros três tinham abreviações (ΑΘΑ para ΑΘΗΝΑ - Atena). No sétimo parecia ter uma inscrição longa, mas agora só um A é claramente visível. As inscrições são claramente em lacônico do século V AEC.
No Menelaion de Esparta, no santuário rural de Aegina provavemente dedicado a Ártemis, e no santuário de Apolo Korynthos na Messenia, haviam sinos muito parecidos com os dedicados a Atena em Esparta. Eles tinham a forma de cúpula, com uma beirada mais grossa e com pés.
Além desses lugares, os sinos mais antigos vêm de Atenas, onde três sinos de terracota decorados foram encontrados no túmulo de uma criança, também do século V AEC. Também encontraram-se sinos na Beócia (no túmulo de uma criança e em santuários de Deméter e dos Cabiros), em Selinous na Arcádia (no santuário de Deméter Malophoros), em Perachora (no temenos de Hera Limenia), em Pherai na Tessália (provavelmente vindos dos santuários de Ártemis Enodia e de Zeus Thaulios), em Olímpia, em Idalion no Chipre, e no argivo Heraion de Samos.
Em Samos, a influência oriental (da Mesopotâmia, Babilônia, Assíria e Fenícia) aparece não só nos sinos, mas também em estatuetas de chumbo e em máscaras dedicadas a Ártemis Orthia.
Dessa parte introdutória, podemos resumir que, em termos de história dos sinos, há cinco pontos chaves a se mencionar. Primeiro, os sinos se encontravam por praticamente toda a Grécia e mundo grego, particularmente em santuários e túmulos. Segundo, a maioria dos sinos gregos eram feitos de bronze ou terracota, alguns de metais preciosos. Terceiro, os sinos de Samos, do Chipre, da Tessália e de Aegina eram baseados em modelos orientais. Quarto, os sinos gregos são normalmente pequenos e mais ou menos em forma de abóbada/cúpula, embora também apareçam sinos cônicos e hemisféricos; a parte de segurar era em arco ou alça, e inscrições neles eram raras. Quinto, não havia um padrão particulas: os sinos tebanos de bronze dos Cabiros e os lacônicos de Ártemis eram ofertas votivas, assim como os sinos espartanos de terracota para Helena e Menelau no Menelaion e os beócios para Deméter em Eutresis. Também se encontraram sinos em santuários a Hera (em Samos, Argos e Perachora), a Atena (em Esparta, em Idalion e talvez em Delfos), a Afrodite (em Mileto), e a Apolo (na Messenia e em Chios).
FUNÇÃO
Os sinos encontrados em Esparta eram claramente funcionais. Afinal, quase todos tinham badalo, o que também nos faz concluir que era improvável que eles tivessem sido usados como instrumentos musicais, já que, no caso, se bateriam com baquetas por fora do sino. Pode ser que eles fossem suspensos ou usados na mão. Uma vez que muitos tinham pés, eles provavemente não só ficavam pendurados mas podiam ser colocados em uma superfície para ficar de fácil acesso ao usuário.
Em Roma, os sinos eram usados para anunciar abertura de mercados e banhos, para acordar e chamar escravos etc, mas na Grécia Antiga esses usos não se confirmam, embora o sino seja conhecido nos tempos de Demóstenes como um meio de atrair a atenção. Na Grécia, os sinos eram carregados pelos guardas - tanto os comediantes Nicofon e Aristófanes quanto o historiador Tucídides mencionam o sino nesse contexto. Os guardas podiam usá-lo como adorno ameaçador da armadura, e o inspetor podia usar o sino para ver se os guardas estavam acordados. Sinos em animais, como cavalos, aparecem em Chipre com influência assíria, mas não se atesta o mesmo na Grécia em si. Em suma, o sino funcionava principalmente para duas coisas: como um sinal e com o aspecto ameaçador-protetor. Este último guarda uma conexão especial dos sinos com Atena como deusa da guerra e das habilidades manuais.
A palavra usada nas fontes literárias para se referir a sino é κώδων ("kódon"). Entre as fontes mais antigas a mencioná-la, está Empédocles, no século V AEC, quando ele descreve como o som é percebido dentro do ouvido. Ele diz que o órgão da audição é uma espécie de sino que reproduz ecos que se parecem com os sons de fora. Aécio, quando comenta isso, fala de uma parte cartilaginosa que balança quando é golpeada, um instrumento que produz som reverberante. Esse som dos sinos, especialmente o som do bronze, tem uma ligação muito grande com o som da batalha: os metais se colidindo poderiam induzir medo e ter o propósito de afugentar o inimigo. Vernant (em "Mito e Pensamento entre os Gregos") dizia que o som do bronze contra o bronze repele a bruxaria do inimigo. A própria voz de Atena é descrita por Píndaro como o som do bronze, seu grito um clamor penetrante. Outros autores a comparam com o som agudo do trompete, que era usado como instrumento de sinalização na guerra e que parece ser associado a Atena em Argos. Mas, quando Sófocles liga a voz de Atena ao som do trompete, a palavra que ele usa é κώδων, sino, um sino de bronze, uma vez que a parte frontal do trompete também era chamada de κώδων. Além disso, o epíteto de Atena em Esparta era Khalkioikos ("da casa de bronze"). Pausânias diz que o revestimento do templo dela na acrópole espartana era parcialmente decorado com folhas de bronze. Mas há mais: o culto de Atena Ergane como patrona dos trabalhadores de bronze em Atenas (principalmente no festival da Khalkeia) sugere que ela era patrona da forja de armas e que ofertas de bronze tinham lugar em seu culto. A própria palavra "khalkeion" (cesto de bronze) poderia se referir na verdade a um sino.
Porém, explicar o papel dos sinos como ofertas votivas meramente pela sua habilidade de reproduzir o som da batalha seria inconcluso, até porque há outros instrumentos mais efetivos que poderiam ser imaginados nesse contexto, e isso também não explicaria o envolvimento de mulheres como dedicantes. O uso no pescoço de animais de sacrifício também não cabe, porque só se encontrou uma representação assim pintada no altar de uma casa em Delos, para um festival romano, é improvável que os animais de sacrifício na Grécia usassem sinos. Há a possibilidade do uso do sino como objeto apotropaico e o seu inverso (ou seja, para afastar o mal e para atrair bons espíritos).
A evidência literária e pictográfica aponta que os sinos tinham de fato uma relação com o culto de Dioniso. Strabo chama o uso de sinos e o bater de tímpanos ma atividade dionisíaca, e Nonno chama uma das mênades de Kodone. Vasos do século IV AEC ao sul da Itália representam Dioniso e membros de seu 'thiasos' (séquito) ou segurando um sino ou com um sino amarrado no pulso ou amarrado ao tirso. Em pelo menos um, Dioniso segura o sino alto como se para dar um sinal ao seu thiasos. [Figura 3]
Poderia-se imaginar os sinos sendo usados para chamar os mortos a um feliz pós-vida dionisíaco, mas isso não tem evidências suficientes nos registros arqueológicos, já que poucos sinos foram encontrados em túmulos ao sul da Itália. Também poderia-se imaginar que o som do sino provinha uma proteção mágica em particular para os períodos vulneráveis de abandono extático no ritual dionisíaco. Na Índia, por exemplo, mulheres e meninas de famílias ricas usavam tradicionalmente sinos para suas danças rituais. Dedicar um sino de bronze deveria mesmo ser algo caro.
A autora aqui pergunta "Isso tudo poderia implicar que a Atena espartana tinha uma face oculta no estilo da folia dionisíaca? Será que os homens e mulheres espartanas executavam danças em sua honra, enfeitados com sinos?". A dança sem dúvida era um aspecto importante na vida ritual de Esparta. Se confiarmos em Aristófanes, existiam danças associadas com o culto da Atena espartana: em Lisístrata, o coro chama Helena a conduzir a dança no santuário de Atena Khalkioikos. Uma estatueta arcaica de uma mulher tocando címbalos foi encontrada no santuário de Ártemis Orthia e o braço de uma estatueta similar foi encontrado no santuário de Atena na acrópole espartana. Mas não há evidência de sinos sendo parte de danças rituais nem para Ártemis nem para Atena. Em geral, os sinos eram menos adequados como instrumentos para acompanhar a dança rítmica, se usavam mais címbalos mesmo. No contexto dionisíaco, o sino era mais o caso de um instrumento para sinalizar e com um significado mais apotropaico relacionado ao som dele.
Há uma passagem de Teócrito que fala que "a ctônica Ártemis está se aproximando, façam do local um solo sagrado pelo bater do bronze". Ele cita a obra 'Sobre os Deuses', de Apolodoro, uma fonte que fala que o som do bronze desempenhava um papel em todas as espécies de rituais purificatórios: por ser puro e por afastar o miasma, ele era empregado durante os eclipses lunares e os funerais. Essa interpretação é apoiada por várias fontes romanas posteriores, atenstando que o som do sino era usado para afastar poderes malignos. No culto extático de Dioniso, o barulho do bronze poderia servir para manter os maus espíritos (que conhecemos como as 'keres') longe. No culto a Deméter, o barulho do bronze também aparece. Píndaro a chama de "Khalkokrótou Damáteros", pelo barulho dos címbalos e tambores de bronze que ressoavam na busca por Perséfone. Assim como a dança dos Curetes e Coribantes também usavam o bater de escudos para afastar o mal do bebê Zeus, sabemos que Deméter é patrona da maternidade, e o parto pode ter usado o som do bronze para afastar o mal da criança e da mãe. Isso explicaria por que encontramos sinos em túmulos infantis.
Em resumo, os sinos eram usados como ofertas votivas, como instrumento de sinalização, e como amuleto protetor apotropaico. O som do bronze do sino tinha qualidades potencialmente amedrontadoras, afastando o mal. E, em Esparta, os sinos eram oferecidos principalmente a Atena.
Segue a imagem do sino que comprei:
outubro 24, 2014
Os 5 Sólidos Platônicos
"E quando, depois de se despir do seu corpo mortal,
você chegar no mais puro éter,
você deverá ser um deus." (Pitágoras)
Hoje recebi um conjunto de sólidos platônicos em ametista, que encomendei, e resolvi vir aqui explicá-los. Eles aparecem no diálogo Teeteto, onde Platão afirma que só existem cinco sólidos tridimensionais uniformes regulares. Timeu, personagem em outro diálogo de Platão, associa esses sólidos aos elementos. Esses sólidos também são citados na obra Elementos, livro XIII, de Euclides.
Os pitagóricos acreditavam que o Universo e tudo nele é construído usando os sólidos platônicos. Em pequena escala, muitas moléculas têm as formas dos sólidos platônicos; em larga escala, o próprio universo parece ter sido construído usando a geometria desses sólidos. O que isso quer dizer? Que nosso universo é uma matriz fractal, elencada do infinitamente pequeno ao infinitamente grande.
Esses sólidos são cinco formas geométricas que têm lados, arestas e ângulos congruentes. Seus lados têm a mesma forma geométrica e cada ponto tem a mesma distância do centro. São eles o Tetraedro, o Cubo (Hexaedro), o Octaedro, o Icosaedro e o Dodecaedro. O cubo tem um quadrado em cada lado, o tetraedro, o octaedro e o icosaedro possuem triângulos em cada lado, e o dodecaedro tem um pentágono em cada um dos seus doze lados. Os vértices desses cinco poliedros são as mais simétricas distribuições de 4, 6, 8, 12 e 20 pontos em uma esfera (respectivamente: tetraedro, octaedro, cubo, icosaedro, dodecaedro).
Para os pitagóricos, o universo era composto de quatro elementos: fogo (radiação), terra (sólido), ar (gasoso) e água (líquido). Essas partículas estariam nos poliedros platônicos, a saber: o agudo Tetraedo era conotado com o elemento fogo (pyr=fogo, 'pyramis' era outro nome para o tetraedro, de onde vem 'pirâmide'), o Cubo com o elemento terra (estabilidade de suas bases quadradas, das quatro direções), o Octaedro com o ar (intermediário entre o fogo e a água) e o Icosaedro com a água (a água é o mais denso e mais penetrante dos elementos fluidos, como o icosaedro é o maior dos quatro primeiros sólidos). O planeta Terra seria cercado por um desses sólidos, que é cercado por outro, e assim por diante. Ou seja, a grade de linhas e vértices eletro-magnéticos da Terra é composta de grades menores, cada uma na forma de um sólido platônico diferente. Por exemplo, se você desenha uma diagonal em cada face do cubo a fim de elas se unirem num canto, você forma um tetraedro.
Mas há um quinto sólido, o dodecaedro, que é o poliedro mais difícil de construir, porque o desenho do pentágono requer uma aplicação elaborada do Teorema de Pitágoras. O elemento que estaria na forma do dodecaedro é o Éter, o espírito divino. O éter é a fonte de todas as coisas que surgem no Espaço e Tempo, e é ele que circunda a Terra e todos os outros quatro sólidos combinados. Diz-se que, entre os pitagóricos, a alusão e mesmo a pronúncia do nome do “Dodecaedro” (o mais sagrado de todos os poliedros, que encerrava as mais importantes chaves numérico-cosmogônicas) eram rigorosamente proibidos fora do recinto interno. Referiam-se a ele como "esse Deus usado no delineamento do universo" (a palavra grega no Timeu traduzida como "delineamento" é 'diazographein', pintura semelhante à vida) e como "a construção que Deus usou para tecer as constelações no céu". Aristóteles também postulou que os céus eram feitos de um quinto elemento, que ele chamava de 'aithêr' (éter). O icosaedro e o dodecaedro geometricamente formariam um par, pois cada um cria o outro a partir do centro de suas faces.
O cubo seria o homem terrestre, de ângulos retos. Nos elementos voltados para o interior (água, fogo e ar), os poliedros contêm triângulos, ou seja, figuras geométricas cujos ângulos são agudos (virados para dentro). Quando o homem se abre para o cosmo e o infinito, temos o dodecaedro, de ângulos obtusos (108º), o homem celestial.
Os sólidos platônicos também encerram curiosidades numéricas. Por exemplo:
# A soma dos ângulos das quatro faces do tetraedro (fogo) é 720. A velocidade do sistema solar é 7200 km/h, 72 graus existem entre cada ponto do pentagrama, é preciso 72 anos para a precessão dos equinócios mudar um grau, 720 = 1 × 2 × 3 × 4 × 5 × 6, a temperatura ambiente em Fahrenheit é 72, 72 é o número médio de batidas do coração de um adulto em repouso, a duração da vida de um óvulo é 72 horas, na Cabala há 72 nomes para deus, entre muitas outras observações.
# A soma dos ângulos dos oito lados do octaedro (ar) é 1440. Há 1440 minutos em um dia, 144=12x12 (há 12 horas no relógio, 12 signos do zodíaco, 12 deuses olimpianos), 144 é um número de Fibonacci com relação com a razão áurea, há 144000 dias no ciclo baktun do calendário maia etc. Cristais de fluorita normalmente são octaedros.
# A soma dos ângulos dos lados do cubo (terra) é 2160. 2160 é o número de anos numa Era Zodiacal, 2160 é o diâmetro da lua em milhas, 2160 é metade de 4320 (em média, o coração humano bate 4320 vezes numa hora e a contagem das respirações dá-nos a cifra de 18 vezes por minuto, o que totaliza 4320 vezes em 4 horas), a soma total de triângulos elementares - equiláteros e isósceles (no caso do Cubo) - contidos nos sólidos correspondentes aos 4 Elementos é 120 + 48 + 24 + 24 = 216, etc. Em 430 AEC, o oráculo de Delfos instruiu os atenienses a dobrar o volume do altar cúbico de Apolo sem alterar seu formato, um problema considerado de impossível solução se usássemos apenas a geometria euclidiana.
# A soma dos ângulos do icosaedro (água) é 3600. 360 graus é um ângulo redondo, 36 é o grau interior de cada ângulo do pentagrama, 36 deuses participaram da criação do primeiro humano num mito maori, há 36 tattvas descrevendo o absoluto no shivanismo, 36 velas são acesas no chanucá judeu, bem como 36 justos em cada geração, 36/3=12 (que já falamos acima) etc. As arestas opostas de um icosaedro formam retângulos de seção áurea.
# A soma dos ângulos do dodecaedro (éter) é 6480. 6+4+8+0=18 (36/2). A distância entre os vértices no mesmo lado não conectado por uma aresta é φ (número áureo) vezes o comprimento da aresta, o centro de cada lado do dodecaedro forma três retângulos áureos intersectos. Já falamos sobre o 12 dos seus 12 lados, mas acrescentamos que o dodecaedro também representava as 12 notas da escala musical (as 7 naturais + os 5 sustenidos). Há diversos tipos de dodecaedro, mas preste atenção para não ser feito de "tolo" com o piritoedro (dodecaedro com faces pentagonais idênticas porém irregulares, com simetria tetraédrica, como as do cristal pirita, o famoso "ouro de tolo"), vale a pena pesquisar.
# A soma dos graus dos ângulos da totalidade dos sólidos fundamentais é 14.400. Este valor multiplicado por três é igual a 43.200 - a centésima parte de um composto dos 4 Yugas. 40 “dias filosóficos” designam um período de purgação alquímica, o Dilúvio - ou “purificação pelas Águas” - teve a duração de 40 dias, é de 40 dias o tempo estimado para qualquer “quarentena” depois de um surto epidêmico, a quaresma tem a duração de 40 dias e culmina com um “renascimento espiritual”. Também já falamos desse número no octaedro.
# A soma de triângulo com quadrilátero e pentágono (3+4+5)=12, número de faces do dodecaedro, o contenedor da 5ª Essência geradora dos 4 Elementos (e o único poliedro regular no qual todos os outros se inscrevem). O Dodecaedro, considerado como o símbolo por excelência da Harmonia Cósmica por Platão (cuja reverência por Pitágoras era bem evidente), representa a amplificação da potência da “Razão Áurea” presente em todo o Universo. Esta proporção (de 1,618) mantém uma íntima relação com a chamada “Música das Esferas” ou “Harmonia das Esferas”, também um conceito de Pitágoras.
Iâmblico diz que Hipaso, um pitagórico, morreu no mar porque ficou se gabando de ter sido o primeiro a divulgar sobre "a esfera dos doze pentágonos", o dodecaedro. O dodecaedro era usado como dado, inclusive em sistemas oraculares, de adivinhação. Vários dodecaedros ocos de bronze foram encontrados em ruínas romanas da era helenística. Nos RPGs modernos também são utilizados dados de doze lados. Em Aberdeenshire, na Escócia, um grupo de pedras com o formato dos cinco sólidos, de mais de 4.000 anos de idade, foi encontrado em círculos de pedras.
Nós somos homens terrestres (cubo) que precisam se voltar para dentro (tetraedro, octaedro, icosaedro) a fim de se conhecerem para encontrar o seu eu celestial (dodecaedro). Ter a representação dos sólidos platônicos no altar é mais uma maneira de nos lembrarmos do "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses".
agosto 19, 2014
'Meditação Sobre a Lua'
Aldous Huxley tem um texto criticando as filosofias excludentes que afirmam que uma coisa são apenas uma coisa e não outra, sem considerar a multiplicidade do ser e suas mudanças. Ele explica isso com o exemplo da lua, de uma forma mitopoética permeada de lógica e filosofia - a lua não é só uma pedra, mas também uma deusa. Sua luz numinosa se lança do céu sobre nós. Segue a tradução do que escreve Huxley:
MEDITAÇÃO SOBRE A LUA
por Aldous Huxley (1931), tradução da Álex (2014)
Materialismo e mentalismo - as filosofias do 'nada além.' O quão extremamente familiar nos tornamos com aquele 'nada além de espaço, tempo, matéria e movimento', que 'nada além de sexo', que 'nada além de economia'! E o não menos ignorante 'nada além de espírito', 'nada além da consciência', 'nada além de psicologia' - o quão tedioso e cansativo eles também são!O 'nada além' é tão maligno quanto idiota. Falta generosidade. Chega disso. É hora de dizer novamente, com o primitivo senso comum (mas por razões melhores) , 'não só, mas também'.
Do lado de fora da minha janela, a noite está se esforçando para acordar; na luz da lua, o jardim escurecido sonha tão vividamente com suas cores perdidas que as rosas negras são quase carmim, as árvores permanecem em expectativa no limiar de um verde vívido. O parapeito do terraço branco e límpido brilha contra o céu azul-escuro. (O oasis jaz ali embaixo e, além da última das palmeiras, é aquilo o deserto?) Os muros brancos da casa friamente reverberam a radiação lunar. (Devo me virar para olhar as dolomitas se erguendo nuas para fora das longas ladeiras de neve?) A lua está cheia. E não só cheia, mas também linda. E não só linda, mas também...
Sócrates foi acusado por seus inimigos de ter afirmado, hereticamente, que a lua era uma pedra. Ele negou a acusação. Todos os homens, disse ele, sabiam que a lua é uma deusa, e ele concordava com todos os homens. Como resposta à filosofia materialista do 'nada além', sua réplica foi sensível e até científica. Mais sensível e científica, por exemplo, que a réplica inventada por D. H. Lawrence em seu estranho livro, tão verdadeira em sua substância psicológica, tão absurda, muito frequentemente, em sua forma pseudo-científica, Fantasia do Inconsciente. 'A lua', escreve Lawrence 'certamente não é um nevoso mundo gélido, como se o nosso mundo tivesse ficado frio. Baboseira. Ela é um globo de substância dinâmica, como rádio ou fósforo, coagulada sobre um vívido polo de energia'. A falha nessa afirmação é que ela se revela demonstrativamente falsa. A lua certamente não é feita de rádio ou fósforo. A lua é, materialmente, 'uma pedra'. Lawrence estava irritado (e com razão) com os filósofos do nada-além que insistiam que a lua era apenas uma pedra. Ele sabia que era algo mais; ele tinha a certeza empírica de seu profundo significado e importância. Mas ele tentou explicar esse fato empiricamente estabelecido com os termos errados, em termos de matéria e não de espírito. Dizer que a lua é feita de rádio é bobagem. Mas dizer, como Sócrates, que ela é feita de algo divino é bastante acurado. Pois não há nada, claro, que impeça a lua de ser tanto uma pedra quanto uma deusa. A evidência para sua mineralidade pode ser encontrada em qualquer enciclopédia infantil. É uma convicção absoluta. Não menos convincente, porém, é a evidência para a divindade da lua. Ela pode ser extraída de nossas próprias experiências, dos escritos dos poetas, e, fragmentalmente, até de certos livros-textos de fisiologia e medicina.
Mas o que é essa 'divindade'? Como devemos definir um 'deus'? Expressado em termos psicológicos (que são primários - sem nada por trás), um deus é algo que nos dá a peculiar espécie de sentimento que o Professor Otto chamou de 'numinoso' (do latim 'numen', um ser sobrenatural). Sentimentos numinosos são a coisa divina original, da qual a mente que elabora teorias extrai os deuses individualizados dos panteões, os vários atributos do Uno. Uma vez formulada, uma teoria evoca, por sua vez, sentimentos numinosos. Portanto, o terror dos homens em face do universo enigmamente perigoso os leva a postular a existência de deuses irritados; e, mais tarde, pensar sobre esses deuses irritados os fazia sentir terror, mesmo quando o universo não lhes dava qualquer motivo para alarde no momento. Emoção, racionalização, emoção - o processo é circular e contínuo. A vida religiosa do homem trabalha no princípio de um sistema de água quente.
A lua é uma pedra; mas é uma pedra altamente numinosa. Ou, para ser mais preciso, é uma pedra sobre a qual e por causa da qual homens e mulheres têm sentimentos numinosos. Portanto, há um suave luar que pode nos dar uma paz que fica além da nossa compreensão. Há um luar que inspira uma espécie de assombro. Há um frio e austero luar que conta à alma de sua solidão e desesperado isolamento, seu significado ou sua falta de clareza. Há um liar amoroso instigando a amar - a amar não só um indivíduo, mas às vezes até o universo inteiro. Mas a lua brilha no corpo assim como dentro da mente, através das janelas dos olhos. Ela afeta a alma diretamente; mas pode afetá-la também por obscuros e sinuosos caminhos - através do sangue. Metade da raça humana vive em manifesta obediência ao ritmo lunar; e há evidências que demonstram que o fisiológico e consequentemente a vida espiritual, não apenas de mulheres, mas também de homens, misteriosamente mingua e cresce com as mudanças da lua. Há alegrias irracionais, tristezas inexplicáveis, risos e remorsos sem causa aparente. Suas repentinas e fantásticas alternações constituem o clima comum de nossas mentes. Esses humores - dos quais os mais gravemente numinosos podem ser hipostasiadas como deuses, os mais leves, se desejarmos, como duendes e fadas - são os filhos do samgue e dos fluidos. Mas o sangue e os fluidos obedecem, entre muitos outros mestres, a mutável lua. Tocando a alma diretamente através dos olhos e, indiretamente, junto aos canais escuros do sangue, a lua é duplamente uma divindade. Até os cachorros e lobos, a julgar pelo menos por seus uivos noturnos, parecem sentir, de alguma obscura maneira bestial, uma espécie de numinosa emoção com a lua cheia. Ártemis, a deusa das coisas selvagens, é identificada em mitologia posterior com Selene.
Mesmo se pensarmos na lua como apenas uma pedra, devemos achar sua própria mineralidade como potencialmente um numen. Uma pedra que ficou fria. Uma pedra sem ar e sem água e a imagem profética de nossa própria terra quando, a alguns milhões de anos de agora, o senescente sol tiver perdido seu atual poder de proteção... E por aí vai. Esta passagem poderia facilmente ser prolongada - um Estudo em Púrpura. Mas me abstenho. Deixo cada leitor pousar o quanto da cor retórica real ele achar de seu gosto. De qualquer modo, púrpura ou não púrpura, a pedra é pedregosa. Você não consegue pensar nisso por muito tempo sem se ver invadido por um ou outro de vários sentimentos essencialmente numinosos. Esses semtimentos pertencem a um ou outro de dois grupos contrastantes e complementares. O nome da primeira família é Sentimentos de Insignificância Humana, o nome da segunda é Sentimentos de Grandeza Humana. Ao meditar na abandonada pedra flutuando lá no abismo, você pode se sentir mais numinosamente um verme, abjeto e fútil em frente a imensidões completamente incompreensíveis. "O silêncio desses espaços infinitos me amedrontam".
Você pode se sentir como Pascal se sentiu. Ou, alternativamente, se sentir como M. Paul Valery disse que se sentia: "O silêncio desses espaços infinitos não me amedronta". Pois o espetáculo dessa pedregosa e astronômica lua não necessariamente precisa fazer você se sentir um verme. Ele pode, ao contrário, fazer você se rejubilar exultantemente em sua condição humana. Lá flutua a pedra, o símbolo mais próximo e mais familiar de todos os horrores astronômicos; mas os astrônomos que descobriram esses horrores de espaço e tempo eram homens. O universo lança um desafio ao espírito humano; a despeito de sua insignificância e abjeção, o homem aceita. A pedra nos fita da escuridão sem fim, um 'memento mori' [lembrança da mortalidade]. Mas o fato de sabermos se tratar de um 'momento mori' justifica sentirmos um certo orgulho humano. Temos direito a nossos humores de sóbria exultação.
dezembro 17, 2013
Os 10 problemas mais comuns nos rituais
É claro que o que vamos elencar aqui são erros que vários de nós cometemos enquanto estamos engatinhando na prática de ser politeísta, mas isso faz parte da aprendizagem. Não devemos nos 'martirizar' se nos identificarmos com muita coisa, e muito menos deixar de fazer as coisas por medo de errar; apenas vamos tentar fazer melhor da próxima vez. No geral, essas observações surgem de quando vemos rituais que parecem mais centrados nas pessoas ali reunidas do que nos deuses a que se dedicam.
1- Forçar intimidade em público
A pessoa decide fazer um ritual a certa deidade que ele não tem nenhum contato, só porque quer a ajuda dela em certo propósito; aí estuda o que ela gosta de receber e chama a galera para o rito onde lê os hinos a convidando para perto. Na cabeça dessa pessoa, que nunca contatou aquela divindade antes, basta fazer umas ofertas que a deidade vai trabalhar pra ela. É tipo, você quer ser cineasta, aí chama o Steven Spielberg pra te ajudar e espera não só que ele apareça na sua casa como te ensine tudo o que ele sabe em troca de lhe servir sua torta favorita. Não interessa se ele nunca ouviu falar de você, que você não conversou com o empresário dele antes, que não o chamou para tomar um café e ficou amigo dele aos poucos, antes de esperar que ele te visitasse e resolvesse seus problemas. Não é o mais lógico? Primeiro, estabeleça um relacionamento com aquele/a deus/a, em particular. Depois que você sentir sua presença mais constante na sua vida, aí sim você pode lhe apresentar seus amigos e fazer um rito público. Não saia exigindo que Apolo lhe faça virar um Beethoven se você não sabe nem de onde veio a lira dele.
2- Chamar e ignorar
A pessoa faz as preces chamando a deidade para perto, daí continua fazendo as coisas do ritual como se nada tivesse acontecido. Ora, você chamou o deus e agora age como se ele tivesse entrado na sua cabeça e pronto. Deixa eu te falar: eles são reais. Sinta-os, escute-os. Você pode ler os hinos, cantar, rezar, falar o que deseja dizer, mas e depois? E na hora de eles retribuírem essa energia, você não faz uma pausa para recebê-la? Quando você sentir que já chegaram, comunique-se com eles. Não desligue o "telefone" antes de eles responderem seu "alô". Pode demorar a estabelecer conexão, mas uma hora dá linha, e não fará sentido ligar pra alguém sem a intenção de escutar a voz dela. E, sabe, na real às vezes a gente não precisa dizer nada, a pessoa (e a deidade) só quer sentir que você está ali por ela. Como disse a Suzana lá no grupo do facebook, "o importante é se expressar de forma bela e solene, seja no silêncio ou nas palavras, o Sagrado requer um tipo de elegância que é estranha ao profano". Seja elegante. O conceito principal do helenismo com certeza é o de 'kalós', o "belo".
3- Esquecer-se da "xenia" (hospitalidade, amizade convidativa)
A pessoa chama a deidade pra sua casa, mas não a trata como um convidado. Não lhe dá conforto e respeito. Parece repartição: "que bom que você chegou, vamos trabalhar". Com um convidado, a gente conversa com ele, guarda seu casaco, oferece um bom lugar pra sentar, pergunta se quer beber alguma coisa, se interessa em saber como está sua vida, antes de começar a conversar sobre trabalho. Em termos de ritual, significa que, depois de chamar a deidade, você deve lhe fazer ofertas, libações, agradecer (não só pedir coisas pra você), sentir/ouvir o que ela deseja, deixar a relação fluir em vez de seguir um 'script' que você escreveu. Saia um pouco do roteiro para dar lugar ao inesperado. Às vezes os planos dos deuses te levam por outro caminho que você se surpreende de um jeito bom. Se isso te assusta, se não quer perder as rédeas da situação e entregá-la nas mãos dos deuses, então isso não é um relacionamento ritual, é uma "performance" teatral (e de monólogo). Deixe espaço no seu ritual para sentir coisas, ou mesmo para consultar oráculos com a intenção de ler o que quer que eles queiram te dizer. Inclusive pode ser que surja algo que foge daquilo que você conhece. Por exemplo, uma vez ganhei uma pedra que historicamente estava associada com certo deus, mas na hora de torná-la oferta votiva, foi outro deus que me a pediu para o altar dele. E, ao pesquisar depois sobre ela, vi que fazia todo o sentido estar ali. Quando a dúvida bater, sempre é bom pesquisar para ficarmos mais seguros.
4- Esquecer-se da "kharis" (reciprocidade)
A reciprocidade é comumente mal compreendida. Não é "magia", não é uma transação comercial, 'eu te dou vinho e flores e você me dá favores'. OK, isso funciona, mas só em curto prazo. Se você quer ficar confortavelmente no rasinho da piscina devocional, limite-se a isso aí e pronto - e depois não reclame que os deuses só te ajudam quando querem alguma coisa em troca. Mas, se quer criar um relacionamento verdadeiro com eles, tipo daquelas amizades em que qualquer presente que a pessoa querida lhe dá seja significativo, que se você está em apuros ela corre para te socorrer sem pensar duas vezes, e coisas do tipo, então nade pro fundo, naquele lugar onde não dá mais pé na piscina. Faça ofertas regulares sem precisar de grandes rituais. Faça rituais dedicados à natureza, à cura do planeta, a coisas mais de comunhão e devoção do que para você. Torne essas práticas uma forma de 'apro-fundar' (ir 'pro fundo', lembra?) seu relacionamento com os deuses. Aí você vai ver o que acontece quando você precisar de ajuda em algo. Seja aquele amigo sempre presente, sempre cedendo seu tempo e sua atenção, sempre pensando no outro, comprometido e cuidadoso, interessado e sincero, constante e disponível. A reciprocidade vai acontecer e você vai nadar e mergulhar sem medo. É melhor do que ficar no rasinho segurando na boia.
5- Querer impor sua vontade
Essa é uma das principais razões de não praticarmos magia de coerção. Não se deve tipo mandar os deuses virem, ordenar que eles façam tal coisa, despachá-los depois para irem embora e esperar que desapareçam. Não os use, eles têm vontade própria, e eles podem escolher não te responder, não se envolver com você, não te ajudar, não estar presente. Diga "obrigado" e "por favor" e "olá" e "até logo". Eles não são ferramentas que você coloca de volta na estante e que espera que lhe sirvam pra seu próprio benefício. Não são instrumentos inanimados. Eles são reais e vivos. E muito mais sábios do que você... Confie no julgamento deles!
6- Não respeitar os amigos em rito em grupo
Aqui vão vários conselhos em um só item: Se alguém está concentrado meditando, não o perturbe. Se for tirar uma foto, peça permissão a quem vai aparecer no enquadramento, pode ser que a pessoa não queira expor sua religião pro mundo. Não apareça no ritual cheio do álcool ou intoxicado. Não fique pegando nas coisas dos outros sem permissão, mesmo que você ache lindo e queira ver de perto aquele pingente que ela está usando. Não fique julgando o preço dos artefatos que as pessoas trouxeram. Leve suas próprias ofertas. Não chegue atrasado. Não jogue ofertas no fogo sem ter sido convidado a fazê-lo. Se alguém lhe pedir para fazer algo, tipo ler um hino, leia; todos ali são voluntários também, e ninguém está só assistindo enquanto come pipoca. Se você não tiver com quem deixar as crianças e precisar levá-los para lá, fique de olho neles, eles são seus filhos, não espere que os outros participantes cuidem deles pra você. Se alguém ofereceu a casa dele/a para o rito do grupo, leve um presentinho ou ofereça ajuda na arrumação. Enfim, seja educado.
7- Deixar de fazer ritual porque não tem oferta material
Olha, as atitudes valem mais do que os presentes. De que adianta eu dar uma estatueta de bronze para Ártemis e jogar lixo na rua? Tem tanta coisa que você pode fazer como oferta... Além disso, você sempre tem algo físico para oferecer sim. Não precisa ser cevada e vinho, pode ser pão e água. O importante é o sentimento, a meditação, o contato, a lembrança, o exemplo que você passa pro mundo.
8- Fazer rito só em dia de festival
Se você se limitar aos festivais para se aproximar dos deuses, é como se esperasse o dia dos namorados e o aniversário de casamento para fazer algo legal pro seu cônjuge. Se você age assim, ele pode acabar se separando de você. Assim como é preciso demonstrar seu amor no cotidiano, você precisa fazer seus ritos de coração, não por obrigação de uma agenda. Além disso, na Grécia Antiga, cada polis tinha um calendário diferente. Não é preciso seguir piamente um calendário oficial; estamos falando de 're-ligião', de se 're-ligar' aos deuses, e isso independe de datas. Não estou dizendo para esquecer os festivais, apenas para não limitar seu relacionamento/prática espiritual a eles.
9- Fazer as coisas com pressa e sem intenção
Como falamos no item 2, às vezes pode demorar a estabelecer conexão, a se sintonizar no ritual. Uma coisa é você estar passando por um altar e rapidinho soprar um beijo ou deixar uma flor, isso sim é ótimo para mostrar que você se lembrou deles, que tem o desejo de manter contato e estabelecer constância no relacionamento de vocês. Outra coisa é dizer que vai fazer um ritual, lavar as mãos como de costume, aí chegar lá, acender a vela, ler um hino, fazer um pedido, apagar a vela (tipo bolo de aniversário), ir embora, e postar nas redes sociais que realizou um festival. Faz toda uma produção no altar pra sair bonito na foto, mas não se concentra, não escuta a deidade, não reflete no sentido da data, não traz nada de ensinamento pra sua vida, e ainda acha uma chatice ter que pausar seu videogame pra fazer o "rito". Olha, fazer um rito direitinho também dá XP, ok? Não no seu joguinho, mas na sua vida.
10- Virar um robô
Você pode achar legal os novos drones e afins, mas os robôs devem servir você e não você virar um deles. Você é humano. Isso significa principalmente duas coisas: que você falha e que você é capaz de agir sem programação. Em termos de ritual, significa: purifique-se antes (tome um banho ou pelo menos lave as mãos) e seja espontâneo. Ninguém gosta - nem os deuses - de se relacionar com máquinas sem emoção, que ficam repetindo um hino perfeito (até em grego clássico com a tônica correta) e não sentem nada daquilo que estão dizendo. Uma estrada reta é monótona, são as curvas que nos deixam animados. Faça curvas. Mude o roteiro. Surpreenda. Mostre que está vivo - e que pensa. Os deuses gregos, ao contrário do deus abraâmico, gostam de heróis virtuosos e não de servos pecadores. Deixe-os orgulhosos, e não com pena de você. Mostre que valeu a pena eles te darem atenção.
Essas foram as coisas das quais conseguimos lembrar. Se você já cometeu alguma delas, é natural. Só tente fazer melhor das próximas vezes.
outubro 12, 2012
Cobrir para Revelar
Há um certo movimento entre os politeístas, especialmente em honra a Héstia, mas também a outras deusas (Hera, Afrodite, Perséfone...), de mulheres cobrindo a cabeça com véus, lenços, bandanas etc. Isso tem raízes históricas e motivos diversos. Ainda assim, é importante lembrar logo no começo deste texto, que o véu não é um requisito (ou seja, não é obrigatório) e que nenhuma das mulheres que o utilizam pregam que outras o usem (apenas apoiam as que o decidem usar por vontade própria).
Para começar, o ato de cobrir os cabelos aparece em várias religiões, como - por exemplo - as desta imagem:
A ideia de usar véu é muito associada aos islâmicos e aos cristãos extremamente conservadores, como os menonitas. Mas essa prática começou antes do próprio monoteísmo. Existe evidências de que os muçulmanos/islâmicos apenas mantiveram a tradição de várias religiões politeístas da área onde surgiu o islamismo. E o conceito de mulheres cobrindo suas cabeças aparece como norma cultural desde a Assíria:
"Para conseguir distinguir as mulheres livres e honráveis das escravas e concubinas, estabeleceram-se leis. As mulheres respeitáveis foram levadas a usar o véu enquanto aquelas consideradas não-respeitáveis eram forçadas a andar com a cabeça descoberta. Assim, o véu se tornou um símbolo exclusivo de respeito; um privilégio que era negado a escravas, prostitutas e concubinas." (Alexandra Kinias, tradução minha)
No livro "Aphrodite's Tortoise: The Veiled Woman in Ancient Greece", o autor mostra que o véu era uma extensão consciente da casa e era normalmente chamado de 'tegidion', que significa 'pequeno telhado'.
Algumas mulheres das outras religiões mencionadas dirão que cobrem a cabeça em sinal de submissão à vontade de Deus. Mas cobrir a cabeça não significa necessariamente submissão. As mulheres judias costumam dizer que cobrem as cabeças para se lembrarem de que existe algo acima e além delas, no qual elas precisam prestar atenção.
Às vezes queremos ser mais espiritualizadas e ficamos só na vontade, mas quando você acrescenta um lembrete físico do seu caminho, isso vai te fazer recordar dele e de como você deveria estar se portando nesse caminho que escolheu. Você sente que não está sozinha na vida, tem algo acima de você, há deuses te cercando, te ajudando, e que estão sempre ali porque você pode senti-los. Internamente, é como usar um manto de poder espiritual que nos deixa mais confiantes. Pode até dar uma sensação de status, como uma coroa.
Outra razão para usar o véu, oposta ao status, é a da modéstia. Os dicionários costumam definir modéstia como algo moderado, sem vaidade, simples, e que tem relação com a conduta e com a maneira de se vestir. Como a máxima diz "nada em excesso", isso poderia se incluir na questão de não mostrar a todo mundo suas belas madeixas, só a alguns para quem você escolhe desvelar-se. Se nós encorajamos o direito das pessoas a usarem tatuagem e piercing, porque não lhes damos também o direito a vestir-se com recato e cobrir a cabeça? Se até os naturistas sabem respeitar quem não quer ficar nu? A diversidade humana é muito mais extensa do que conseguimos imaginar, e nossas crenças prezam pelo respeito a esse amplo espectro.
Esse vestir-se com modéstia traz também um efeito mágico das deusas donzelas-guerreiras. É como se as camadas de roupas te dessem a impressão mental de uma armadura (ou elmo), de um tornar-se intocável. Antigamente, os corseletes e corpetes eram considerados modestos, depois é que virou item sensual, talvez justamente por esse efeito de armadura. Uma vez que eles comprimem o corpo, que são durinhos, podem dar essa sensação armada. O fator sensual fica acrescentado por conta de suas curvas e decotes, e por dar uma vontade extra com a demora que há em desamarrá-los para descortinar o conteúdo. Por isso muitos vêem a modéstia como algo 'sexy'.
Há também a opção de se usar o véu apenas no ritual. É como um sinal para que, se alguém te ver te véu, ele/ela vai saber que você está envolvido em um trabalho sagrado. Quando você coloca sua roupa branca, seu peplos, seu chiton, sua roupa limpa, para participar de um ritual, você está enviando ao cérebro um sinal de que não está num espaço comum, que algo especial vai acontecer.
Da mesma forma que há tal efeito no ritual, se você passa o dia de véu, isso vai te lembrar que o seu cotidiano é especial, que o seu caminho é sagrado. Mas a dificuldade em usar o véu fora do espaço do nosso 'temenos' é que vivemos em uma cultura que não apóia essa prática, e que frequentemente pode achar que você é muçulmana, em vez de reconhecer sua crença real.
Outro efeito dado pelo véu, segundo observação de relatos de politeístas, é que a maioria delas se sentia mais madura, mais adulta - mais mulher, menos menina -, com todos os poderes e responsabilidades inerentes a isso. E, quando escolhemos o sinal de nossa maturidade (colocar o véu), isso tira o estigma biológico de marcar a idade adulta com a menstruação. Hoje, em que podemos escolher não menstruar, não faz sentido deixar de participar de ritos de passagem e de rituais relacionados à lua só por não estarmos 'sangrando'. Não somos menos mulheres por isso. Se nos seus pensamentos, no seu discurso, na sua abordagem com a vida, você se vê mais como mulher do que menina, o véu ajudaria a personificar esse sentimento.
Nessa mesma pesquisa/observação, notou-se que quase todas as politeístas que cobriam a cabeça eram reconstrucionistas de algum tipo. E algumas helenas usam o véu quando estão fazendo trabalhos domésticos, como sinal de devoção a Héstia. Além de ser mais higiênico cozinhar com os cabelos cobertos.
Hoje a nossa forma de cobrir os cabelos pode ser por véu, bandana, lenço, echarpe, entre outros. Na Grécia Antiga, usava-se uma túnica chamada chiton (χιτών) e, por cima dela, o himation (ἱμάτιον), que podia ser puxado para cima da cabeça, cobrindo várias partes, como na figura:
Com todas essas considerações, acredito que o que podemos concluir como benefício de se usar o véu é que isso encoraja outras mulheres politeístas a re-examinar nossos valores, no que acreditamos, se nossas convicções são fortes e importantes o suficiente para trazer questionamentos ao mundo de fora, se respeitamos a escolha do modo de vestir de cada pessoa.
Nós crescemos sem muitas das habilidades que nossos antepassados tinham. Nós não tecemos mais, não saímos pra caçar, não duelamos com espadas, nem navegamos mais (na água, não na Internet). Não dominamos mais todas essas artes, perdemos parte dessa herança. E não é culpa do feminismo que deixou de dividir as tarefas, e sim da industrialização que tirou a necessidade de caçarmos pra comer, de tecermos pra nos vestir, de combatermos por um pedaço de terra, de conduzirmos um barco pra viajar. Ao menos alguns costumes, como o do uso do véu, pode trazer nosso pensamento de volta a algo ancestral e autêntico, dando visibilidade real ao nosso caminho com os antigos.
Ainda assim, é difícil utilizar o véu fora do espaço sagrado de ritual, pois ainda existem perseguições a mulheres que usam véu, tanto que há um movimento internacional ("Covered in Light" - Cobertas de Luz) para conscientização dessa discriminação contra mulheres que escolhem cobrir suas cabeças. O movimento pede justamente para mostrar solidariedade a elas cobrindo a cabeça, e reunindo fotos de pinturas famosas de todas as épocas - nas quais as mulheres retratadas mostram que a beleza de mulheres com véu atravessa o tempo e a história.
Como chamei a atenção no início e ao longo do texto, o uso de véu não é uma exigência nem uma recomendação, e sim uma escolha e um direito. Quem decidir usar, deve ser respeitada. Quem não quiser, também será apoiada. Como dizia Epiteto, "cada um deve chegar ao divino por seu próprio caminho". Não tem por que impormos uma coisa ou outra.
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Fontes (em inglês):
Veiling: a Different Take on Pagan-Womanwood
Covered - the Pagan Veiling Controversy
Marriage, the Veil, and other unimportant things
Covered - the Pagan Veiling Controversy
Marriage, the Veil, and other unimportant things
Veiled Pagans
Tichel, tichel, tichel
Shaming tactics against Hellenic recon women who wear a head covering
junho 10, 2012
O Trânsito de Afrodite
Semana passada tivemos um alinhamento raro do planeta Vênus e esta semana teremos o dia dos namorados. Então imagino que caiba falarmos das andanças de Afrodite. E, no caso, da Afrodite na sua qualidade de mãe de Eros (o amor), nem tanto pelos seus outros epítetos. Mais especificamente, gostaria de falar sobre as suas companhias.
Quem é a "turma" de Afrodite? Com quem ela anda? Quem sempre a acompanha? Quais suas "amigas de infância"?
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| Detalhe das Graças, em foto de Helen Sotiriadis. |
Quando Afrodite surgiu, ela foi recebida pelas três Horas. Elas quem a vestiram e a adornaram quando ela surgiu no mar. Essas foram as primeiras, que ainda andam com ela. As Horas são as deusas das estações e das porções naturais de tempo. Enquanto Deméter nos dá os frutos, na companhia das Horas, Afrodite nos dá as flores, com suas cores e beleza, principalmente a rosa, com sua essência voluptuosa e suas pétalas envolventes. Assim como os frutos têm sua hora de maturar e as flores têm sua hora de desabrochar, o amor precisa amadurecer para ser colhido, não pode ser forçado antes do tempo, antes da(s) hora(s). Afrodite e as Horas chegam juntas.
Depois a deusa Peitho juntou-se ao grupo. Antes que você pense besteira pela coincidência do nome, Peitho vem do grego e significa algo como uma delicada persuasão, uma vitoriosa eloquência. Ela que nos dá a capacidade de encantar o ser amado com palavras convincentes. Mas, ainda que seja uma persuasão poderosa, ela é doce, suave, uma conquista por consentimento (nunca pela força). O amor do reino de Afrodite só existe quando é concedido por livre e espontânea vontade - mesmo que depois você se sinta deliciosamente acorrentado ao seu amante.
E, por falar em consentimento, outras que se uniram à turma foram as Cárites. O verbo "charein" significa rejubilar-se e o nome "charis" significa uma graça ou favor livremente oferecido. Não tem muito a ver com o significado condescendente que adotou a palavra 'caridade' na cultura judaico-cristã. As Cárites são Agléia (esplêndida beleza), Eufrosina (boa disposição, alegria de pensamentos) e Tália (fartura, abundância). É por conta dessa boa disposição que, quando vemos alguém todo sorridente, já dizemos logo que ele/a "está amando". Algumas fontes diziam que as Cárites eram filhas do rio Lethe, o rio do esquecimento, o que explicaria o fato de os amantes esquecerem-se dos problemas quando Afrodite e suas amigas os movem. Essas amigas, aliás, eram as responsáveis pela toalete de Afrodite. Segundo Hesíodo, elas as banhavam e untavam seu corpo com óleos perfumados de fragrância doce. Homero também relata que, após Hefesto surpreendê-la com Ares na cama, as Cárites banharam e untaram Afrodite e a vestiram em trajes belíssimos. Essa áurea perfumada acrescenta um certo charme irresistível nos domínios do amor. As Cárites adoravam dançar juntas, principalmente nas noites enluaradas. E a noite nos lembra a outra amiga de Afrodite: Aidos.
Aidos era filha da deusa Nyx (Noite). Ela era a deusa da modéstia, da vergonha, do auto-respeito. Ela guardava com suas asas escuras os segredos do amor e dos amantes. O amor é associado ao período noturno, às noites de lua, e não às claras vistas do sol. Um amor de verdade, um amor 'afrodisíaco', implica na presença dessa outra amiga da deusa, com um elemento de modéstia. A maioria dos animais tem uma vida sexual reservada e regulada; alguns se entocam em cavernas para se acasalar, outros têm regras de quem no bando pode fazê-lo. Quando Platão diz que a Afrodite Urania (celeste) era a do amor nobre e a Afrodite Pandemos (do povo) a do amor comum/público, faz-nos pensar que, para os gregos, o que classificava um amor como nobre era justamente a presença da deusa Aidos no ato de amor. A capacidade de sentir vergonha -- ao contrário do que pode-se pensar -- faz o amor aumentar. Quando Aidos não está, não se trata de estar livre de vergonhas, e sim de uma falta-de-vergonha mesmo, o que não é nada legal. A vergonha de Aidos é a do auto-respeito, da sensibilidade, então não tê-la é diferente de ser desavergonhado, tem a ver com a modéstia de reconhecer-se e sentir-se entregue. A intimidade de compartilhar um segredo íntimo torna o relacionamento mais pessoal, mais amoroso.
Nocivo mesmo seria o sentir vergonha de si próprio, perder o prestígio (essa não é uma vergonha "aidos", é "aischros"), algo feio, deformado, desonroso, e que Platão diz que não tem nada a ver com a experiência do amor de Eros. Segundo Dodds ("Os gregos e o irracional"), a cultura helênica não girava em torno da culpa - como é a dos cristãos - mas girava em torno dessa vergonha devastadora de perder a consciência tranquila e a consideração pública. Os gregos tinham princípios, e só alguém com princípios pode se sentir desonrado por ter sido irresponsável, egoísta ou covarde. Quem vive sem nenhuma convicção espiritual ou moral, não tem sequer a vergonha Aidos, que dirá a outra! Aquela vergonha esmagadora de "aischros" é o que a revolução sexual tentou combater, e não a vergonha auto-respeitosa de "aidos". Uma coisa é a repressão, outra é a modéstia. Com Aidos ao lado de Afrodite, o auto-respeito e o amor andam de mãos dadas. É Aidos quem nos faz enrubescer, e esse rubor, essa face corada, demonstra o quanto as deusas não atuam apenas na alma, mas agem também sobre o nosso corpo. Em "Os Trabalhos e os Dias", Hesíodo menciona o abandono da terra por Aidos e Nêmesis como a razão para os sofrimentos dos humanos, que ficam desamparados contra os males. Aidos é quem preserva a pureza da alma e torna o ato do amor de Afrodite algo numinoso, sagrado, em uma mistura de sexo, sensualidade e religião. Uma união do êxtase com o divino. Portanto, essa união deveria ser algo ritual e secreto, e não algo realizado de qualquer jeito num motel de beira de estrada e exposto na televisão...
Modéstia, aliás, me lembra o fato de a belíssima Afrodite ter sido dada em casamento a Hefesto, um deus que é considerado "feio", talvez por ser cocho. (Um parênteses aqui para lembrar de Machado de Assis e seu Brás Cubas resmungando da moça "Por que tão bela, se coxa? Por que coxa, se bela?", hehe!) Afrodite considerava indigno alguém que só concedesse sua beleza para alguém que fosse tão belo quanto ele mesmo. Você precisa ser modesto para não ficar 'se achando' - e correndo o risco de ser castigado por Ela por conta de seu orgulho e arrogância. Eis mais uma lição de Aidos através da escolha de parceiro amoroso que Afrodite fez.
Hipócrates (segundo citação de Viktor Salis) dizia que "quem não ama, adoece", que "a mais grave fonte de doença é ser falso com seus sentimentos com os outros e consigo" e que "entregá-los a qualquer um e de qualquer jeito é plantar dentro de si a desvalia, que resultará numa alma e corpo doentes".
Assim, quando vocês foram celebrar o amor no dia 12 de junho, lembrem-se de todas as companhias que caminham junto a Afrodite, e espalhem o amor no momento certo, com as palavras certas, com disposição, fartura e beleza, resguardando o auto-respeito e a honra de estar na presença de verdadeiras deusas agindo na sua vida, movimentando sua alma, enrubescendo seu rosto e levando seu corpo a experimentar um êxtase sagrado e secreto.
Afinal, ela, Afrodite, é uma deusa que realmente deixa "flores nos lugares que pisou"...
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| Detalhe de Hermafrodito adormecido, foto de Helen Sotiriadis. |
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