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setembro 13, 2015

Ofensa e Purificação

No último mês, dois rapazes coincidentemente vieram me perguntar sobre estatuetas quebradas acidentalmente, as quais haviam tentado consertar, mas temiam estar cometendo alguma ofensa ou miasma mantendo-as assim no altar. Analisando ambos os casos, vimos que não havia problema. Então acredito que a dúvida pode ser compartilhada aqui, acrescida de outros exemplos sobre essa questão do que é ou não ofensa. 

Claro que há situações em que existe sim uma ofensa, como a de Hipólito a Afrodite ao desprezá-la, a de Niobe a Leto ao se achar melhor do que ela, entre outras. E claro que, antes de rituais e ofertas, deve-se pelo menos lavar as mãos, se possível tomar banho e vestir roupas limpas: 
"Nunca verta uma libação do cintilante vinho a Zeus depois da aurora com mãos não-lavadas, nem a outros dos deuses imortais; senão eles não só não ouvirão suas preces como também as cuspirão de volta." (Hesíodo, 'Os Trabalhos e os Dias', verso 724ss)
“...além disso, eu tenho pavor de com mãos não-lavadas verter libação do ardente vinho a Zeus; nem deve um homem sábio fazer preces ao filho de Cronos, senhor das nuvens escuras, todo sujo/coberto de sangue e imundície." (Homero, 'Ilíada', VI, 265ss)
"Ela então se banhou, e colocou vestes limpas no corpo, e subiu para a câmara superior com suas criadas, e - colocando grãos de cevada em um cesto - fez preces a Atena." (Homero, 'Odisseia', IV, 749ss)

Em primeiro lugar, tenham em mente que os grandes miasmas são do tipo morte, sexo, vícios, crimes, hybris, calamidades, pragas, epidemias, injustiças, impiedade etc. São coisas que perturbam a lei natural e mudam a ordem da vida, como o contato com agentes estranhos, com nascimento, com morte, com crime, com lugares violados, ou com o resultado de ações que desagradaram aos deuses. Em segundo lugar, lembrem que miasmas podem ser purificados pela catarse. O próprio lavar as mãos e tornar a água lustral é um exemplo. Você pode se purificar com água, purificar o ambiente com incenso, expulsar agentes de miasma com aspersão e palavras, purificar a alma com música e dança, e fazer rituais específicos de purificação nos festivais (Diasia, Thargelia etc). 

Ou seja, não há motivo para deixar o medo da ofensa lhe paralisar

Quando li os dois casos da estatueta, considerei o ato não-intencional ser sinal de que a deidade estava lhes defendendo de alguma coisa ruim, mas se a rachadura foi pequena ou pôde ser consertada, isso demonstrou o cuidado do devoto, e não havia por que jogá-la fora ou tirá-la do altar. Impiedade é não ser pio, não ser devoto, e em ambos os casos eles foram pios ao se preocuparem com o caso, não houve miasma de impiedade ou ofensa. Uma estatueta pôde ser consertada, outra ficou com o que chamei de "cicatriz de batalha", mas nada que desabone a presença dessas ofertas votivas no altar.

De qualquer forma, na dúvida se algo gerou ou não miasma, faça uma catarse/purificação. Mas não fique impedido ou desanimado de fazer as coisas por temer retaliações. Cada caso pode ser diferente do outro, mas nenhum é irreversível. 

Esta semana eu utilizei meu pirógrafo para fazer uma gravura que não era dos deuses. Eu não me lembrava se tinha ou não consagrado o pirógrafo para trabalhos devocionais, mas mesmo assim o usei. Antes de terminar, ele esquentou tanto que derreteu o botão e quebrou. Levei minha bordoada (inclusive financeira), pois tive que encomendar outro. Mas é isso, aprendi e assim seguimos em frente. Se não erramos, não aprendemos.

Em suma, não deixe de lavar as mãos antes de fazer ofertas ou ritos, purifique-se após o contato com coisas geradoras de miasma (mesmo que em dúvida se são ou não), observe as consequências das coisas para aprender com elas e, no mais, não fique paralisado pelo medo de ofender. 

Há males que vêm para o bem, como algo que quebra para afastar coisas piores, ou como precisar comprar uma máquina de pirografia melhorzinha e novinha, rs. Mantenha-se centrado e busque o equilíbrio, o resto se ajeita. 

abril 11, 2015

Altares, imagens, ritos?

PARA QUE AS ESTATUETAS E IMAGENS?

Especular sobre a aparência dos deuses é natural, é como alguém que não conhece seu pai biológico e fica imaginando como ele seria. Mas nem sempre o que imaginamos corresponde à realidade, e as escrituras de várias crenças nos advertem a não "gravar em madeira ou pedra" essas nossas especulações e render homenagem a tais ilusões. Mas uma coisa é bastante provável: os deuses são belos. E, tentando ver a beleza dos deuses, procuramos coisas belas que os representem. No entanto, todas elas são temporárias, já que são materiais, e a beleza divina é transcendente.

Quando se cria algo caprichosamente e se adora esse algo como se fosse um deus, isso é idolatria, pois não se está adorando uma deidade e sim algo inventado pela sua imaginação. Outros, ainda, acham que deus não tem forma, que é impessoal ou vazio, mas isso não é verdade. Se existem "forças" ou "energias" funcionando no universo, algo (alguém) impulsiona/m essas forças (como estudamos em Física). E, se esse alguém existe, ele/a/s deve/m ter uma imagem, um nome e características próprias suas.

Dizem que uma árvore se conhece pelos seus frutos. Os frutos mais elevados que conhecemos da criação material são os seres humanos, então é natural imaginarmos os deuses (fonte de tudo) como antropomorfos. Podemos nos basear nos hinos e outros textos antigos para tentar descobrir a forma dos deuses. Deles é que sabemos que Atena tem brilhantes olhos verde-acizentados ('glaukopis'), por exemplo.

De qualquer maneira, mesmo entre nós mortais, uma representação raramente corresponde ao real. Quantas vezes você se achou diferente nas fotografias? E, vamos mais longe, você sequer 'é' o seu corpo, você 'tem' um corpo, você pode inclusive não se reconhecer como sendo daquela forma. Muita gente acha estranho quando se olha no espelho. Porém, os deuses não estão presos a um corpo e, por isso mesmo, por essa não-dualidade, eles podem ser um só com as estátuas e representações que atribuímos a eles. Os deuses não estão submissos às leis materiais como nós, eles estão acima disso. Então não estaríamos adorando "ídolos de pedras" e sim fixando o olhar em algo que tenta se aproximar do belo que é divino e próprio dos deuses. Para os deuses não existirá ali uma distinção entre o objeto material e sua essência espiritual. Quando usamos os hinos para chamá-los, eles podem transformar aquela madeira ou pedra em algo transcendente. É como a energia elétrica: a mesma energia pode fazer funcionar uma geladeira ou um fogão, então a energia espiritual também pode entrar no material para fazê-lo funcionar com o motivo para o qual foi criado.

Quanto esculpimos e/ou pintamos uma imagem de um/a deus/a, a oferecemos a ele/a como oferta votiva e ele/a a aceita, então aquela é uma imagem válida. Ela vai servir para purificar nosso olhar, nossa mente, nossos sentidos. E para nos aproximar da beleza, da bondade, da justiça. Se você o tratar como um ídolo de madeira, ele será só isso, mas se mudar o seu olhar e postura, o que receberá de volta também será diferente. E melhor.


PARA QUE FAZER RITOS?

Todos nós precisamos nos sentir seguros e amparados. Quando bebês, dependemos de um adulto pois sabemos pouca coisa desse mundo e não alcançamos tudo. Mas, mesmo quando crescemos, continuamos sujeitos a coisas que não conhecemos e/ou não controlamos. E, para muitas coisas, outro ser humano não resolverá, porque ele está na mesma situação que nós. Quem pode nos confortar da ansiedade com relação ao dia seguinte, ou nos aliviar da angústia de sermos finitos? Quem pode afirmar com certeza que não vamos pegar uma doença amanhã? Somente quem não estiver sujeito às mesmas limitações que estamos. E a comunicação com esse ser se dá através dos rituais e preces, que são as formas mais eficientes que encontramos para acessar o sagrado e dele obter ajuda, graças e favores.

Um ritual tem duas realidades. A primeira é imediata, e não inclui só a visão da chama da vela, o cheiro do incenso, a demonstração de aceitação das comidas e flores ofertadas e demais imagens sensoriais afins, mas também a sensação de tranquilidade mental, o desenvolvimento da concentração e organização das ideias, e outras percepções sutis. A segunda não é notada a princípio, mas se manifestará em algum momento, como uma resposta ao que fizemos. Além disso, o ritual pode corrigir nossas ações errôneas (numa espécie de crédito para cobrir o débito da sua conta espiritual), abranda a 'hybris', purifica o miasma, nos auxilia a obtermos o que desejamos (por comunicar o pedido aos deuses e estabelecer um laço de amizade), entre outras consequências positivas.

Para um ritual dar certo, ele depende cerca de 70% da gente e só 30% dos deuses, embora a parte deles seja a mais importante. Precisamos ter uma direção sobre a prática correta, precisamos separar um tempo adequado para o rito, e precisamos nos esforçar para realizá-lo devidamente. E eles precisam nos ser favoráveis. Mas a gente também influencia nessa parte, dando-lhes motivos para merecer seu favor, ou seja, desenvolvendo um relacionamento com eles através das preces, da prática da virtude, das ações corretas, do reconhecimento e gratidão.

Não se trata, portanto, de superstição, mas de confiança, aceitação, amizade. O ritual é necessário e benéfico. Antes de perder a oportunidade de realizá-lo, ou de ficar com medo de fazer algo errado, tente pensar que o máximo que pode acontecer é você fazer os seus 70% (o que já bastaria para você se sentir bem, tranquilo, focado etc) e não ter os 30% de lá (ao menos não desta vez, embora isso já ajude no relacionamento que está se formando), mas mal não vai fazer. Então por que não?

dezembro 28, 2014

O Uso do Sino em Rituais

Após ver uma sugestão de ritual que incluía o uso de um sino, resolvi pesquisar se tal prática possuía ressonância na antiguidade. Encontrei um artigo chamado "For whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond" (Por quem os sinos dobravam na Grécia antiga? Sinos gregos arcaicos e clássicos em Esparta e além), de Alexandra Villing. São 74 páginas, mas faço aqui uma breve resenha. Adquiri também um sino com cabo de madeira para pirografar nele algo que o identificasse como de uso ritual. Depois, no texto, descobri que existiam mesmo inscrições votivas em alguns sinos de culto, especialmente a Atena.

HISTÓRIA

Os antigos não eram acostumados a sinos enormes como aqueles que soam nas igrejas de hoje, e sim a sinos portáteis de não mais do que uns 10 cm. Esses sinos de tamanho pequeno eram comuns na Grécia Antiga do período arcaico em diante, tanto em bronze quanto em terracota. Eles eram encontrados em santuários, túmulos e casas, e serviam para vários propósitos. Fontes arqueológicas, iconográficas e literárias atestam o seu uso como ofertas votivas no ritual e em situações funerárias, também como instrumento de sinalização dos guardas da cidade, como amuletos para crianças e mulheres, e num contexto dionisíaco no sul da Itália. A origem dos sinos é da área oriental e caucasiana, por onde eles encontraram entrada na antiga Samos e Chipre e depois na Grécia continental. O maior complexo de sinos encontrado, da era clássica, vem de escavações no santuário de Atena na acrópole espartana. Veremos que, além de Esparta, outros lugares também associavam o som do sino a algo protetor, purificador e apotropaico (que afasta os males). Os sinos de terracota eram claramente imitações baratas dos sinos de bronze, e serviam para efeitos de dedicação, podendo ser comparados a miniaturas de vasos, de armas ou estatuetas de animais usados como ofertas votivas.

Os sinos em maior número foram encontrados no santuário de Atena Khalkioikos na acrópole espartana em 1907, embora só em 1925 se tenha anunciado e poucos deles tenham sido apresentados ao público, tendo apenas se publicado alguns desenhos e as inscrições votivas encontradas neles. Depois, uma pesquisa no Museu de Esparta revelou que, nessa escavação, eles haviam encontrado 34 sinos de bronze e 102 sinos de terracota (ou fragmentos deles). É difícil saber o local exato dos sinos no santuário, pois parece que estavam em toda a parte, desde o sul do precinto até os fundos do teatro (incluindo a pequena construção que servia como santuário de Atena Ergane). O que se sabe claramente é que eles eram dedicados a Atena com os epítetos de Khalkioikos ("da casa de bronze") e Poliouchos ("suporte da cidade"), já que os sinos possuíam inscrições votivas a ela. O tamanho deles variava entre 2 e 8 cm de altura. No texto que li, a autora descreve a forma, a alça, os pés, como foram feitos etc, e traz desenhos dos mesmos. Quase todos os sinos tinham ao menos um buraco em cima para prender o badalo, o qual era sempre de ferro. Sete desses sinos tinham inscrições, três deles com dedicatórias completas, que indica se tratarem de ofertas votivas de um homem e duas mulheres. Outros três tinham abreviações (ΑΘΑ para ΑΘΗΝΑ - Atena). No sétimo parecia ter uma inscrição longa, mas agora só um A é claramente visível. As inscrições são claramente em lacônico do século V AEC.


No Menelaion de Esparta, no santuário rural de Aegina provavemente dedicado a Ártemis, e no santuário de Apolo Korynthos na Messenia, haviam sinos muito parecidos com os dedicados a Atena em Esparta. Eles tinham a forma de cúpula, com uma beirada mais grossa e com pés. 


Além desses lugares, os sinos mais antigos vêm de Atenas, onde três sinos de terracota decorados foram encontrados no túmulo de uma criança, também do século V AEC. Também encontraram-se sinos na Beócia (no túmulo de uma criança e em santuários de Deméter e dos Cabiros), em Selinous na Arcádia (no santuário de Deméter Malophoros), em Perachora (no temenos de Hera Limenia), em Pherai na Tessália (provavelmente vindos dos santuários de Ártemis Enodia e de Zeus Thaulios), em Olímpia, em Idalion no Chipre, e no argivo Heraion de Samos. 


Em Samos, a influência oriental (da Mesopotâmia, Babilônia, Assíria e Fenícia) aparece não só nos sinos, mas também em estatuetas de chumbo e em máscaras dedicadas a Ártemis Orthia.

Dessa parte introdutória, podemos resumir que, em termos de história dos sinos, há cinco pontos chaves a se mencionar. Primeiro, os sinos se encontravam por praticamente toda a Grécia e mundo grego, particularmente em santuários e túmulos. Segundo, a maioria dos sinos gregos eram feitos de bronze ou terracota, alguns de metais preciosos. Terceiro, os sinos de Samos, do Chipre, da Tessália e de Aegina eram baseados em modelos orientais. Quarto, os sinos gregos são normalmente pequenos e mais ou menos em forma de abóbada/cúpula, embora também apareçam sinos cônicos e hemisféricos; a parte de segurar era em arco ou alça, e inscrições neles eram raras. Quinto, não havia um padrão particulas: os sinos tebanos de bronze dos Cabiros e os lacônicos de Ártemis eram ofertas votivas, assim como os sinos espartanos de terracota para Helena e Menelau no Menelaion e os beócios para Deméter em Eutresis. Também se encontraram sinos em santuários a Hera (em Samos, Argos e Perachora), a Atena (em Esparta, em Idalion e talvez em Delfos), a Afrodite (em Mileto), e a Apolo (na Messenia e em Chios).

FUNÇÃO

Os sinos encontrados em Esparta eram claramente funcionais. Afinal, quase todos tinham badalo, o que também nos faz concluir que era improvável que eles tivessem sido usados como instrumentos musicais, já que, no caso, se bateriam com baquetas por fora do sino. Pode ser que eles fossem suspensos ou usados na mão. Uma vez que muitos tinham pés, eles provavemente não só ficavam pendurados mas podiam ser colocados em uma superfície para ficar de fácil acesso ao usuário.

Em Roma, os sinos eram usados para anunciar abertura de mercados e banhos, para acordar e chamar escravos etc, mas na Grécia Antiga esses usos não se confirmam, embora o sino seja conhecido nos tempos de Demóstenes como um meio de atrair a atenção. Na Grécia, os sinos eram carregados pelos guardas - tanto os comediantes Nicofon e Aristófanes quanto o historiador Tucídides mencionam o sino nesse contexto. Os guardas podiam usá-lo como adorno ameaçador da armadura, e o inspetor podia usar o sino para ver se os guardas estavam acordados. Sinos em animais, como cavalos, aparecem em Chipre com influência assíria, mas não se atesta o mesmo na Grécia em si. Em suma, o sino funcionava principalmente para duas coisas: como um sinal e com o aspecto ameaçador-protetor. Este último guarda uma conexão especial dos sinos com Atena como deusa da guerra e das habilidades manuais.

A palavra usada nas fontes literárias para se referir a sino é κώδων ("kódon"). Entre as fontes mais antigas a mencioná-la, está Empédocles, no século V AEC, quando ele descreve como o som é percebido dentro do ouvido. Ele diz que o órgão da audição é uma espécie de sino que reproduz ecos que se parecem com os sons de fora. Aécio, quando comenta isso, fala de uma parte cartilaginosa que balança quando é golpeada, um instrumento que produz som reverberante. Esse som dos sinos, especialmente o som do bronze, tem uma ligação muito grande com o som da batalha: os metais se colidindo poderiam induzir medo e ter o propósito de afugentar o inimigo. Vernant (em "Mito e Pensamento entre os Gregos") dizia que o som do bronze contra o bronze repele a bruxaria do inimigo. A própria voz de Atena é descrita por Píndaro como o som do bronze, seu grito um clamor penetrante. Outros autores a comparam com o som agudo do trompete, que era usado como instrumento de sinalização na guerra e que parece ser associado a Atena em Argos. Mas, quando Sófocles liga a voz de Atena ao som do trompete, a palavra que ele usa é κώδων, sino, um sino de bronze, uma vez que a parte frontal do trompete também era chamada de κώδων. Além disso, o epíteto de Atena em Esparta era Khalkioikos ("da casa de bronze"). Pausânias diz que o revestimento do templo dela na acrópole espartana era parcialmente decorado com folhas de bronze. Mas há mais: o culto de Atena Ergane como patrona dos trabalhadores de bronze em Atenas (principalmente no festival da Khalkeia) sugere que ela era patrona da forja de armas e que ofertas de bronze tinham lugar em seu culto. A própria palavra "khalkeion" (cesto de bronze) poderia se referir na verdade a um sino.

Porém, explicar o papel dos sinos como ofertas votivas meramente pela sua habilidade de reproduzir o som da batalha seria inconcluso, até porque há outros instrumentos mais efetivos que poderiam ser imaginados nesse contexto, e isso também não explicaria o envolvimento de mulheres como dedicantes. O uso no pescoço de animais de sacrifício também não cabe, porque só se encontrou uma representação assim pintada no altar de uma casa em Delos, para um festival romano, é improvável que os animais de sacrifício na Grécia usassem sinos. Há a possibilidade do uso do sino como objeto apotropaico e o seu inverso (ou seja, para afastar o mal e para atrair bons espíritos).

A evidência literária e pictográfica aponta que os sinos tinham de fato uma relação com o culto de Dioniso. Strabo chama o uso de sinos e o bater de tímpanos ma atividade dionisíaca, e Nonno chama uma das mênades de Kodone. Vasos do século IV AEC ao sul da Itália representam Dioniso e membros de seu 'thiasos' (séquito) ou segurando um sino ou com um sino amarrado no pulso ou amarrado ao tirso. Em pelo menos um, Dioniso segura o sino alto como se para dar um sinal ao seu thiasos. [Figura 3] 


Poderia-se imaginar os sinos sendo usados para chamar os mortos a um feliz pós-vida dionisíaco, mas isso não tem evidências suficientes nos registros arqueológicos, já que poucos sinos foram encontrados em túmulos ao sul da Itália. Também poderia-se imaginar que o som do sino provinha uma proteção mágica em particular para os períodos vulneráveis de abandono extático no ritual dionisíaco. Na Índia, por exemplo, mulheres e meninas de famílias ricas usavam tradicionalmente sinos para suas danças rituais. Dedicar um sino de bronze deveria mesmo ser algo caro.

A autora aqui pergunta "Isso tudo poderia implicar que a Atena espartana tinha uma face oculta no estilo da folia dionisíaca? Será que os homens e mulheres espartanas executavam danças em sua honra, enfeitados com sinos?". A dança sem dúvida era um aspecto importante na vida ritual de Esparta. Se confiarmos em Aristófanes, existiam danças associadas com o culto da Atena espartana: em Lisístrata, o coro chama Helena a conduzir a dança no santuário de Atena Khalkioikos. Uma estatueta arcaica de uma mulher tocando címbalos foi encontrada no santuário de Ártemis Orthia e o braço de uma estatueta similar foi encontrado no santuário de Atena na acrópole espartana. Mas não há evidência de sinos sendo parte de danças rituais nem para Ártemis nem para Atena. Em geral, os sinos eram menos adequados como instrumentos para acompanhar a dança rítmica, se usavam mais címbalos mesmo. No contexto dionisíaco, o sino era mais o caso de um instrumento para sinalizar e com um significado mais apotropaico relacionado ao som dele.

Há uma passagem de Teócrito que fala que "a ctônica Ártemis está se aproximando, façam do local um solo sagrado pelo bater do bronze". Ele cita a obra 'Sobre os Deuses', de Apolodoro, uma fonte que fala que o som do bronze desempenhava um papel em todas as espécies de rituais purificatórios: por ser puro e por afastar o miasma, ele era empregado durante os eclipses lunares e os funerais. Essa interpretação é apoiada por várias fontes romanas posteriores, atenstando que o som do sino era usado para afastar poderes malignos. No culto extático de Dioniso, o barulho do bronze poderia servir para manter os maus espíritos (que conhecemos como as 'keres') longe. No culto a Deméter, o barulho do bronze também aparece. Píndaro a chama de "Khalkokrótou Damáteros", pelo barulho dos címbalos e tambores de bronze que ressoavam na busca por Perséfone. Assim como a dança dos Curetes e Coribantes também usavam o bater de escudos para afastar o mal do bebê Zeus, sabemos que Deméter é patrona da maternidade, e o parto pode ter usado o som do bronze para afastar o mal da criança e da mãe. Isso explicaria por que encontramos sinos em túmulos infantis.

Em resumo, os sinos eram usados como ofertas votivas, como instrumento de sinalização, e como amuleto protetor apotropaico. O som do bronze do sino tinha qualidades potencialmente amedrontadoras, afastando o mal. E, em Esparta, os sinos eram oferecidos principalmente a Atena.

Segue a imagem do sino que comprei:




junho 29, 2012

Máximas Délficas (parte 3) - Autoridade e Poder


Seguindo a lógica das postagens, falamos de riquezas e posses, o que tem muita relação com o poder e a autoridade, uma vez que tratamos de que o mal está nos excessos, e isso permeia este novo grupo de máximas, que inclui uma vigilância contra o orgulho excessivo, a arrogância, o desrespeito, a ganância cega por riqueza e poder.


3. Respeite os Deuses (Θεους σεβου)

'Sebou' é a forma imperativa de 'sebas' (respeito), então a Máxima diz que devemos respeitar os deuses, todos eles - sem especificar nome, origem, raça, cultura ou credo.
Os antigos respeitavam os deuses alheios, embora se tratasse de um respeito muito mais de estado mental do que de uma ação em si. Os problemas que temos com as outras religiões não é com os deuses delas - os quais devemos respeitar - e sim com as pessoas. Mesmo os questionamentos que fizemos da atitude do deus da bíblia se refere a escritos feitos pelos homens, que o descreveram daquela forma. A ação dos seguidores daquele deus não necessariamente refletem a vontade dele. 

42. Tenha respeito pelos suplicantes (Ικετας αιδου)

'Iketas' é uma forma plural que vem de 'ikesia', mesma origem de Zeus Ikesios e Zeus Iktaios, o patrono dos suplicantes, o deus que realiza os pedidos de justiça e proteção. Essa súplica não é um apelo geral e indiscriminado por ajuda, mas sim um pedido de se preencher uma necessidade imediata que é dirigida diretamente a alguém que está na posição de ajudar o suplicante. Recusar-se a atender os 'iketis' ou 'iketria' é uma contravenção que leva ao erro ('hamartia') e à poluição ('miasma') a quem recebe e ignora o pedido. A súplica está ligada às leis filantrópicas da hospitalidade ('philoxenia'). Já 'aidou' é o imperativo de 'aidos', a sensação de vergonha, de ser honrável, virtuoso, ter digna auto-estima, sentir respeito e dignidade. O oposto disso seria o 'anaideia' (desaforo, descaramento, desrespeito). Trata-se de uma consciência ética interna adquirida pela compreensão do nosso dever social, e não de uma lei que te força a agir de forma ética. Já falei da relação de Aidos com o amor e a decência ('kosmiotita') aqui, agora lembro da relação que Aristóteles faz de Aidos com a boa ordem ('eutaxia') e a prudência ('sophrosyne'). "Iketas aidou" nos ensina a não envergonhar os suplicantes e garantir que o devido respeito seja dado a eles.
Agora entra a questão de quem é um 'iketes', uma vez que para algumas pessoas mendigar é uma profissão e para algumas entidades assistenciais a caridade é lucrativa. Quais seriam então as coisas que poderíamos observar? Primeiro se o pedido vai para alguém que esteja em posição de ajudar (você pode ajudar e a pessoa está sendo sincera em pedir o que precisa?); segundo sobre a melhor forma de ajudar sem necessariamente ser o que foi pedido (por exemplo, alguém te pede dinheiro que você não sabe se é para comprar álcool e aí você prefere dar um lanche pra ele; ou você resolve o problema imediato da fome e causa o problema maior da dependência à ajuda dos outros, o que não seria uma solução para a súplica). Se você não está em condição de ajudar, piedade não é respeito; o verdadeiro respeito começa com o respeito próprio, reconhecer suas limitações e poderes. Até porque, grande parte das vezes, a solução para os problemas sociais é muito cara ou irreal.
Não precisamos entrar aqui em discussões políticas sobre o sistema. De qualquer forma, como é muito difícil saber com quem estamos lidando, é melhor tratar a todos com respeito. Acredito que, na maioria das vezes, a gente sente quando deve e quando não deve ajudar, e - nas vezes que, por costume, nos recusamos a ajudar e acabamos nos sentindo desconfortáveis - isso já é um sinal de que estávamos seguindo nossa intuição. No mais, é se colocar no lugar do outro, pois só assim vamos sentir e saber quem está realmente precisando e suplicando por meio dos deuses ou quem está apenas tentando se aproveitar e acomodado ao assistencialismo alheio.

48. Seja um amante/amigo da sabedoria (Φιλοσοφος γινου)

'Philosophos' todos sabem que significa amante ou amigo ('philos') da sabedoria ('sofia'), palavra cunhada por Pitágoras. 'Ginou' é o imperativo do verbo 'gignosko' (tornar-se). Então, "torne-se um filósofo" não significa que é para você fazer faculdade de filosofia, e sim que você se transforme em um amante/amigo da sabedoria, alguém que a busca. Através do acolhimento da sabedoria, surge a compreensão e o respeito pela ordem natural, por isso incluímos esta Máxima no grupo - porque a ausência de sabedoria (quando não a reconhecemos ou não a aceitamos) é o que leva à insolência e ao desrespeito aos Deuses. Às vezes as pessoas respeitam as coisas sem ter consciência, sem saber o que estão fazendo. Um amigo da sabedoria precisa estar consciente dos seus motivos e da sua posição, precisa estar sempre questionando as coisas em vez de aceitá-las como sempre foram. Um filósofo é, acima de tudo, um buscador da verdade. Ele vai testar a autoridade conferida e respeitar a verdadeira autoridade. Em todos os momentos há formas sábias e formas tolas de se abordar algo - precisamos escolher o jeito mais sábio. Obedecer cegamente não é sábio, a sabedoria não acontece no vácuo, ela surge da reflexão. Nosso ditado "manda quem pode, obedece quem tem juízo" serviria para pensarmos que respeitar a verdadeira autoridade (quem realmente "pode") é um sinal de racionalidade ("juízo"), nesse sentido filosófico.

53. Consulte os sábios (Σοφοις χρω)

'Sophois' se refere ao plural de pessoas que são sábias e prudentes, e 'khro' é o imperativo do verbo 'khrao' (prover com o que é necessário). Por conta de frases do tipo "khromeno en Delphis" (consulte o oráculo), de Tucídides, e "oi khromenoi" (os consulentes), de Eurípides, podemos traduzir como "consulte os sábios". Além disso, prover os sábios com o que eles precisam seria pensarmos que o que eles precisam é justamente compartilhar a sabedoria, pois - como amigos dela - queremos mais é que ela esteja em toda a parte. 
A grande questão é como reconhecer quem é sábio. Todo mundo tem alguma coisa para ensinar, muitos tem bastante conhecimento, mas poucos tem sabedoria. De qualquer forma, podemos pensar na ideia mais socrática de considerar aqueles que já passaram pelas mesmas coisas antes, e podemos consultar sua experiência no assunto que abordamos. Em Esparta, se não me engano, existia um juramento ('orkos') que cada jovem ('ephebos') fazia para ser introduzido na irmandade ('phratria'), no qual se incluía a promessa de preservar o que eles tinham recebido como herança e de garantir que eles não passariam menos do que aquilo para a próxima geração. Ou seja, os mais novos sempre recebiam ou igual ou maior porção de conhecimento, pois o tempo havia ensinado aos mais velhos mais do que eles tinham aprendido ao ingressar na comunidade, e era dever dos mais jovens aprender ainda mais antes da próxima geração.
Se consultamos os sábios, é também por conta da autoridade que eles têm, uma autoridade que vem não de hierarquia imposta/concedida, mas de experiência adquirida, uma autoridade natural, pelo direito dos anos como buscador da verdade e amante da sabedoria. E eles têm o poder de ajudar quem lhes consulta.

65. Honre quem é bom (Αγαθους τιμα)

'Agathous' vem do termo 'agathon' que a filosofia define como aquilo que é bom em termos do que é benéfico. Já falamos do 'agathós' no blog dos exegetas. 'Tima' vem de 'timé' (honra) e 'timao' (honrar), normalmente usado para denotar a honra dirigida aos deuses, ancestrais, anciãos, governantes, convidados e outros superiores. Então a Máxima nos diz para dar a devida honra aqueles que são bons, que são beneficentes, que trazem benefícios.
Ou seja, não é qualquer uma dessas pessoas que a honra/timé denota, mas apenas aqueles que são mesmo benéficos para a comunidade, os realmente bons/agathoi. A gente sabe que grande parte dos governantes atuais não são benéficos - são aquilo que falamos sobre os corruptos, anti-éticos, interesseiros e inescrupulosos na postagem anterior; aqueles que excedem a justa medida.

109. Tema o poder/autoridade/governo (Το κρατουν φοβου)

'Kratoun' vem de 'kratos' (força, poder), independente de ser um poder dos deuses, do governo ou do poder pessoal, tanto que é a origem da palavra 'demokratia' (governo do povo) e virou nome de personagem fortão de videogame. 'Phobou' (tema, tenha medo) é o imperativo de 'phobos' (medo), o mesmo que dá nome a um dos filhos de Ares. O uso dessa palavra em vez de 'deos' (temor no sentido de reverência, admiração) acentua a força da atitude. Não se trata, portanto, de admirar e reverenciar a força/poder/autoridade (ou governo), e sim de temê-los mesmo. 
Podemos tirar várias reflexões dessa Máxima. Uma é que o poder é algo potencialmente perigoso, então há razão em temê-lo. Outra é que devemos escolher com sabedoria o que tomaremos como autoridade e ficarmos atento de que, ao transformá-lo numa autoridade, estamos lhe conferindo poder e passaremos a temê-la (o que, a meu ver, só os imortais seriam dignos de tal aceitação, e alguns humanos só depois de escolher com muito cuidado através da observação de ser alguém virtuoso em conhecimento, prática e sabedoria). Outra reflexão ainda é de que deveríamos evitar nos tornarmos autoridades, uma vez que o verbo 'fobomai' remete também a 'fugir de', então estaríamos fugindo (não da responsabilidade, mas) de sermos autocratas ou tiranos.  
Acredito que podemos olhar essa Máxima lembrando da que comentamos anteriormente: "honre quem é bom". Existem bons e maus governos, boas e más pessoas no poder, e o mais sábil é desenvolver um medo saudável, aquele mesmo medo que temos de nos queimarmos que faz lidarmos com o fogo de uma maneira segura. Governos e autoridades são coisas necessárias (como necessitamos do fogo) e o poder pode ser algo perigoso (como o fogo), por isso a cautela -- não a admiração ('deos'), mas realmente o temor ('phobos'), um "medo" saudável e seguro.

130. Não comece a ser insolente OU Não seja abusivo com a autoridade (Μη αρχε υβριζειν)

'Arkhe' tanto pode ser derivado do verbo 'arkho' (governar, supervisionar) quando da palavra 'arkhé' (começo, princípio). Elas são parecidas no sentido de supervisionar que as ofertas sejam as dos primeiros frutos e no sentido de a primeira causa ser a que domina e tem autoridade sobre as outras. Todas as teorias sobre o princípio de tudo (para Anaxímenes o ar, para Xenófanes a terra, para Heráclito o fogo, etc) concordam que a primeira causa está no 'kosmos', é parte dele, uma vez que o que está fora do cosmo é desconhecido para os humanos. Sócrates se perguntou "o que é 'arkhe' e como isso funciona uma vez que funciona como um princípio?" Para Aristóteles, o 'arkhé' é sempre divino, devido à sua capacidade de se auto-gerar e auto-sustentar e das coisas se originarem dele. 'Ybrikzein' é a forma imperativa de 'hybris', uma insolência ou impertinência de sentimentos exagerados de poder, que resultam na transgressão do 'métron' (justa medida) através da arrogância, ganância, excesso, perseguição cega por riqueza e poder. A 'hybris' é uma audácia e um desrespeito desavergonhado pela ordem ética do cosmo. Trata-se de um desprezo pelos deuses ('theoi') ou de uma violação das leis da natureza ('physis'). A híbris traz vergonha para a vítima, não por punição, mas porque - ao restaurar o equilíbrio do cosmo - o transgressor recebe em retorno a porção de disciplina e consciência que lhe faltou. Essa restauração é feita pela deusa Nêmesis, personificação da revanche, da vingança. Então, se pensarmos em autoridade e na primeira causa de tudo, podemos dizer que a Máxima lembra daqueles que pensam que tratando mal os outros vão garantir sua superioridade sobre eles, quando na verdade vão é atrair uma reparação sobre si. Não comece (arkhe) a transgredir (hybris), abusando (hybris) da verdadeira autoridade (arkhe), pois a origem das coisas está no cosmos divino e não em você. Para quem está familiarizado com os conceitos da 'hybris' (transgressão) e da 'arkhe' (origem divina das coisas no 'kosmos'), poderíamos entender essa tradução como "não cometa híbris com as primeiras causas" ou "não seja insolente com a autoridade dos deuses".
Existe uma distinção entre a híbris no sentido comum, no termo jurídico e no termo filosófico. Para a filosofia, a híbris é o que foge do métron, do padrão, e os excessos são reconhecidos ao examinar a causa da híbris. No senso comum, a híbris é qualquer insulto. No sentido jurídico, a híbris é a violação de normas sociais motivada por arrogância sem a devida causa. A híbris poderia ser vista como um "erro fatal" que inicia um processo de eventos trágicos como consequência. Porém, no sentido moderno, você xingar quem cortou a frente do seu carro na estrada é híbris na língua grega, uma híbris que não guarda o mesmo peso daquela do sistema legal/jurídico daquela da ideia filosófica.
Essa Máxima também poderia ser traduzida como "não seja a causa da hybris" no sentido do uso excessivo e inapropiado da violência que os tiranos fazem ao agir unilateralmente como se fossem deuses. Ser insolente com a autoridade, faltar com o respeito pelo poder, não é sábio porque os irrita ao ponto de eles cometerem atos de híbris. É como sacudir um pano na frente do touro - a não ser que a sua intenção seja mesmo a de irritar o touro para que ele ataque.
Isso, no entanto, é diferente de se opor ao tirano. Você pode se opor à autoridade de alguém sem precisar ser insolente. Há uma diferença entre insolência e desobediência. A híbris é uma "arrogância presunçosa que causa humilhação e vergonha" (Aristóteles), uma ofensa que vai além de um ataque verbal ou de um ato de desobediência. Os filósofos Cínicos, inclusive, achavam que o menosprezo e o insulto eram deveres sagrados contra a hipocrisia e a corrupção, da mesma forma que a sátira desempenhava um papel político importante. É fácil se erguer e criticar o governo ou uma figura de autoridade, mas a tarefa deles não era simples e nem era para qualquer pessoa. Se alguém tivesse verdadeiramente a solução para os problemas da sociedade, ele/a tinha o dever social de se levantar no ofício público e falar, mas aqueles que não tinham solução não teriam o direito de questionar a autoridade. Além disso, é fácil insultar fulano ou beltrano em vez de discutir os problemas reais e encontrar soluções reais para eles. As pessoas só querem ser críticos sentados na sua poltrona; que acham que nada está bom, mas que também não sabem qual seria a solução para os problemas. 
Assim, essa Máxima também pode chamar nossa atenção para as dificuldades em ser uma autoridade nesse mundo e nos fazer questionar o quão realística são as nossas expectativas quando nos sentimos compelidos a criticar ou insultar uma autoridade. Talvez os outros não verão essa Máxima sob essa luz, mas não custa levantar esse pensamento.


Há um diálogo - de um dos sete sábios que compuseram as Máximas - que diz assim:
"Quilon de Esparta (560 AEC): O que Zeus está fazendo?
 Esopo: Ele está rebaixando os orgulhosos e exaltando os humildes."

fevereiro 26, 2012

Purificação e Inspiração



"O homem é o sonho de uma sombra;
mas quando os deuses lhe enviam um simples raio de luz, 
uma aura radiosa o envolve 
e sua existência conhece a doçura do mel." 
(Píndaro, VIII Ode Pítica)


Tudo o que é ligado aos deuses é sagrado. E o que é sagrado é separado daquilo que não é. Os antigos helenos acreditavam que para estar na presença do que é puro era preciso estar puro. Ter contato com coisas comuns, principalmente as causadoras de miasma, era uma forma de poluição. Para evitar isso, nos purificamos antes de iniciar um ritual, mesmo que seja apenas com o lavar as mãos na água lustral. Em Elêusis, os candidatos à iniciação nos Mistérios tomavam um banho de mar antes do rito. Em várias religiões, muitas coisas são capazes de purificar uma pessoa: jejuns, abstinências, sacrifícios, provações etc, mas o lavar-se com água parece ser o mais comum em todas elas.

É claro que uma purificação real é algo que se estende para todos os níveis do ser (físico, mental, espiritual), mas lavar o corpo é a realidade mais palpável que temos, na qual a mente vê uma clara demonstração do que vem a seguir, em um nível mais profundo. Em um ritual de transição, como num batismo ou iniciação, é como morrer para renascer renovado. Uma morte na qual, em vez de terra (enterrar-se), cobre-se com água. Desce-se a um mundo inferior e ergue-se novamente, emergindo não só renascido, mas limpo pelas águas. Espera-se que essa simples 'performance' tenha o poder de influenciar a mente/alma a uma experiência mais consciente de si. Por isso que não adianta apenas participar de um batismo aspergindo-se água e recitando algumas preces, ainda mais sendo criança como acontece no cristianismo. O caminho do "batismo" teria quer ser um 'rito de passagem', e não apenas uma 'rota de passagem' para fazer parte de um grupo/comunidade religioso/a. Seria preciso mergulhar no seu sentido, no seu simbolismo, na questão da "ressurreição/renascimento" para que produzisse algum efeito purificador na alma humana. 

Há vários mitos com esse tema em várias crenças, e mesmo entre os gregos há diversos, como o de Dioniso, de Héracles, de Psiquê, de Orfeu, entre outros. Eles falam especialmente sobre uma figura que é parte mortal e parte divina e que se debate para purificar-se reunindo essas duas naturezas e ascendendo até um lugar entre os imortais.

Esses mitos também mostram várias formas de se conseguir isso. Quando Dioniso eleva sua mãe Sêmele à morada dos deuses e lhe coroa com a Thyone (inspiração), ele o faz através de seus rituais orgiásticos, dança, canto, êxtase, mântica, inspiração, iluminação. Já os órficos vão acrescentar um toque apolíneo na selvageria de Dioniso e criam uma tradição mais reservada, contemplativa, asceta, embora com a mesma ideia central: a da consciência, da iluminação de perceber sua natureza divina, de acordar da ilusão para a verdade, de escapar das brumas da morte e do esquecimento que lhe envolvem. Como acreditava Platão, nós não aprendemos nada, só nos lembramos do que já sabíamos, porque nossa alma conhecia tudo antes de nascer ("conhecer é recordar verdades que já existem em nós").

Todos nós temos uma pureza interior que vaga no meio da nossa confusão interna. O fato de estar de noite não significa que o sol morreu, ele só está fora de nossa vista. Orfeu dizia: "Meus puros amigos, filhos e filhas da terra e do céu estrelado; escapem do Fuso da Necessidade e da tristeza, desgastado em torno da Roda do Nascimento! Entrem na grinalda do céu dos mortais que se tornam Deuses!"

Filhos da terra e do céu, somos constituídos parte da impureza dos Titãs e parte da pureza de um Deus (Dio). Lord Byron também vai dizer que somos "metade poeira e metade deidade". Mas parece que nos esquecemos dessa parte de clareza e liberdade e nos apegamos à parte que é limitação e confusão. Precisamos escapar desse fuso de tristeza e sofrimento. Hesíodo dizia que a melhor prece que alguém pode oferecer aos Deuses é estar continuamente em paz consigo mesmo. E até George Harrison compôs uma música para Krishna cuja letra inclui "keep me free from birth" (mantenha-me livre do nascimento).

Mas o Fuso da Necessidade, a Roda da Fortuna, o Tear dos Destinos, não é algo ruim por si. Afinal, é ele/a que nos põe em movimento. Tudo no mundo gira e demonstra seu lado oposto. Quando a roda muda, o sofrimento nos faz conhecer a alegria e o amor, por mais que se acredite que ele sempre volta e nos leve embora quem amamos e nos faz felizes; porque aquele ciclo se fechou e outra coisa vai surgir para trabalharmos nossa evolução. A vida é algo maior que nós mesmos. Não somos 'egocentricamente' responsáveis por como o universo funciona e sempre funcionou antes mesmo de estarmos aqui, e nem ele funciona desse jeito para nos punir ou recompensar. As pessoas não sofrem porque um ancestral delas foi desobediente e comeu uma maçã proibida. A gente sofre porque faz parte do estágio de se conhecer, de se dar valor ao que se conquista, de aprender com as leis da natureza, de se caminhar ao encontro de nosso lado divino. Só assim se obtém o conhecimento que nos aproxima dos deuses.

Muitos gostam de chorar, soluçar, gritar de raiva, perguntar "por quê?" e "o que eu fiz pra merecer isso?". Não existe um porquê. E nem tudo depende unicamente do que você faz. A verdadeira resposta não é nem uma resposta, é uma percepção, um 'insight', de que tudo aquilo tinha que acontecer e de que não adianta fantasiar um drama (ou uma tragédia grega) sobre a nossa "desgraça". A solução é procurar entender, visualizar, enxergar as coisas sem ficar com desejos tolos e preocupações irreais. Em vez de se perguntar "por quê", faz mais efeito perguntar-se o "para quê". Nem tudo é culpa sua, assim como nem tudo é resultado de sermos marionetes de algo maior. Plutarco já dizia que a verdadeira piedade (ser pio, acreditar) é o meio-termo entre um medo excessivo do sobrenatural e uma indiferença ateísta, assim como Aristóteles já ensinava sobre a virtude ser a justa medida entre dois extremos de vícios.

Mesmo o mito de um pecado original não dizia que o paraíso foi destruído, ele continuou lá. A paz e a beleza originais existem em algum lugar do mundo, a gente só se esqueceu do caminho que nos leva para onde eles estão. E esse lugar existe fora e dentro. Nesse sentido, por mais que não sejamos o centro do mundo, nossas conquistas são também a de todo o resto, porque refletimos o cosmo e o divino reside em cada um. "Assim como em cima, é embaixo", diz Hermes Trismegisto. Só que é tão nocivo se esquecer da sua parte humana desimportante quanto o é esquecer-se da sua parte sagrada fundamental.

O despertar é conhecer o propósito das coisas e ficar em paz. O difícil é atravessar a estrada longa até esse estágio. Vamos desdobrando os véus que cobrem a realidade à medida que nos colocamos em marcha, na direção de amar, ajudar os outros, lutar por uma causa, sentir, pensar, refletir, meditar, conectar-se ao sagrado, buscar a sabedoria, neutralizar o sofrimento e o efeito da dor.

A grinalda de flores ou folhas que coroa os vitoriosos é circular. O final e o começo de um círculo são o mesmo. É um símbolo de algo eterno e perpétuo, como são os deuses e a roda da vida, que reúne mortais e imortais. Somos partes deles e não podemos nos separar deles, como os puros se unem aos puros. Perceber isso é inspiração, é 'thyone', é elevar-se à "grinalda do céu".

"Um deus, uma deusa, reside dentro de cada um de nós. 
Quando o espírito se levanta, radiamos com um brilho interior, uma aura
É esse espírito sagrado que planta as sementes de tudo que somos e fazemos. 
Esse espírito sagrado é a nossa inspiração." (Ovídio)

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

maio 09, 2010

Miasma e Catarse

Sugeriram-me falar sobre o Miasma, já que muitos ainda confundem tanto ele quanto a Hybris com uma noção de "pecado" que não cabe nesses conceitos, visto que o miasma é um termo sem peso moral, algo bem mais metafisicamente complexo do que uma transgressão que gera "culpa" - como entendemos o pecado. Miasma é uma poluição, contaminação, mas essa "poluição" a que o miasma se refere não necessariamente tem a ver com "sujeira", assim como "purificar-se" não é exatamente "se limpar".

Portanto, reunindo leituras que fiz de postagens da Eleuthera (2), do Ruadhan e outras fontes (livros e companhia), fiz um apanhado breve e geral aqui para vocês.

Antes de tudo, convém lembrarmos que há vários tipos de miasma: o do corpo (como doenças e morte), o da alma (como impiedade, vícios, crimes e a hybris), o da casa (como misérias, desgraças, calamidades), o da cidade (como pragas, injustiça, desastres naturais), o do planeta (como febres, epidemias).

Há também diversas causas do miasma, todas referentes à perturbação da lei natural e a mudanças da ordem da vida na Terra: contato com agentes estranhos (espíritos de gente assassinada, espíritos de pessoas que morreram com miasma, almas que não receberam os ritos fúnebres); contato com o nascimento ou com a morte natural; contato com certas ações criminosas ou injustas; contato com lugares que passaram por eventos trágicos ou violentos ou sacrílegos; ou resultado de ações que desagradaram aos deuses.

A lei natural é representada por Themis. Sempre que ela é transgredida, aparece Nemesis, sua antítese. As filhas de Nemesis - Erínias - são as agentes do miasma, trazendo consigo a ira.

Isso acontece porque é preciso haver justiça, ou seja, se existem ações criminosas, elas devem gerar reações recíprocas para o equilíbrio e a equidade. Então, realizamos a Catarse (purificação) para nos reconciliar com os agentes sobrenaturais que poderiam nos punir, assim como para nos purificar dos efeitos físicos que o miasma provoca.

A Catarse [Katharsis] pode acontecer através de: purificações menores e anteriores às preces/ritos (como lavar as mãos e rosto, tornar a água lustral etc); purificações após o contato com o parto ou a morte de alguém; purificação da atmosfera de algum lugar; expulsão de agentes de miasma; purificação através de curas e remédios; purificação da alma em forma de música e dança; purificação de uma casa e seus membros; purificação de uma vítima de crime violento; purificação de alguém que matou sem intenção; purificação da alma para fins de culto; rituais específicos de purificação (Diasia, Thargelia etc).

Vamos ver então miasmas e catarses específicos de cada caso:

1) Morte natural - os olhos e boca do cadáver ficam fechados e o corpo dele é lavado com água do mar ou salgada (se houver feridas de morte violenta, elas devem ser limpas e cobertas); os parentes do morto devem ser purificados antes dos ritos fúnebres e depois que o período de luto passar (mulheres grávidas não podem ter contato com o corpo do morto); visitantes devem se purificar após sair do velório (lavando suas mãos em água salubre ou lustral que esteja do lado de fora da porta da casa); a casa deve ser purificada com água do mar três dias depois da morte; o suprimento de água da casa deve ser trocado e o fogo do altar deve ficar apagado e só será aceso novamente no terceiro dia de catarse; o morto pode receber ovos e comidas no túmulo (ovos têm enxofre, que é bom para expulsar miasma).

2) Parto - nem a mãe nem o bebê são fontes de miasma, e sim o ato de nascer é que tem tais propriedades, então o lugar onde ele ocorre é tratado da mesma forma como o do caso acima, com algumas diferenças: a casa é purificada no quinto, no décimo e no quadragésimo dia após o nascimento; as pessoas que tiverem contato com a mãe nos cinco primeiros dias também precisarão se purificar.

3) Intercurso Sexual - esse é um miasma de natureza menor e costumava se relacionar mais aos fluidos masculinos do que aos femininos. Deve-se tomar banho antes de se apresentar diante dos deuses para preces/ofertas/ritos. No caso de crimes sexuais, cujo miasma era maior, o ritual era outro, com detalhes ainda desconhecidos, mas acredita-se que consistia de sacrifícios no templo de Apolo.

4) Assassinato - o pior dos miasmas, que não vinha apenas como punição ao assassino, mas também à sua família, descendentes e até à cidade de residência dele. É por isso que assassinos eram exilados, pois o contato com ele poderia levar à infertilidade das pessoas, animais e plantações. Com relação ao local do crime, temos o exemplo de quando Odisseu limpa sua casa (com enxofre e fogo) do miasma de ter matado os pretendentes de Penélope. Outra forma de purificação é pelo sacrifício ritual de um Pharmakos (bode-expiatório). Neste caso, a catarse tinha dois momentos: primeiro o assassino teria que ser liberto dos desejos de vingança da alma do assassinato, depois teria que ser purificado do miasma do próprio crime.

5) Lar - como o miasma afetava famílias e gerações e atraía coisas ruins para o lar, e como às vezes o parto e a morte aconteciam na casa, esta precisava ser purificada.

6) Terra/Água/Atmosfera - os helenos se preocupavam com a harmonia entre alma, corpo e meio-ambiente, então as condições sanitárias da cidade e do planeta também nos importam. Acreditava-se que certos lamaçais, brejos e pântanos continham propriedades de miasma e causavam febre nas pessoas dali, assim como se acreditava que usar a mesma água usada por alguém com miasma poluiria a outra pessoa também. Pragas e epidemias eram resultado de miasma na atmosfera, então se deveria acender fogueiras com unguentos de cheiro doce e coroas de flores para purificar o ar.

[ Abrindo um parênteses aqui, é bom ressaltar que menstruação NÃO é miasma, a quantidade de sangue presente num fluxo (que combina mais pedaços de tecido e mucos do que sangue) às vezes é maior que o sangue que sai de um corte acidental no dedo. Essa ideia de impureza relacionada a coisas femininas veio de séculos de influência judaico-cristã, que não estavam presentes no helenismo. O que recomenda-se é: no caso de cortar o dedo, lave a ferida, faça preces a Asclépio, bote um band-aid e esqueça; no caso de menstruação, tome um banho relaxante, troque seu absorvente/tampão/toalhinha, faça preces a Higéia e Réia e esqueça. Siga então para o seu ritual tranquila. ]

É verdade que os partos no mundo antigo não eram tão esterilizados como hoje, assim como os ritos fúnebres não deveriam ser muito higiênicos e que, em compensação, hoje a gente provavelmente polui muito mais o meio-ambiente. No entanto, miasma não significa falta de higiene e catarse não significa limpeza do corpo.

Ainda assim, não há razão para se apavorar com a questão do miasma a ponto de achar que não pode fazer nada e tem que parar com todos seus rituais por medo de estar impuro. Tente olhar pelo lado da saúde, do equilíbrio e da justiça, de uma forma bem prática.

Para cada tipo de miasma há uma maneira de se realizar catarse, e não existe nenhuma pessoa ou crime que não possa ser purificado.

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PS.: A Sarinha já falou dos pensamentos dela sobre o miasma, clique AQUI para ler.