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outubro 20, 2013

Diálogo sobre o Daimon

J - Olha, falando de daimon de novo, cada vez mais começo a crer que pros arcaicos e clássicos não havia a ideia de daimon como a concebemos, e o tão famoso daimon de Sócrates é, na verdade (assim como em todos os outros casos), uma menção à sensibilidade a uma divindade da qual não se sabe o nome. Daí, pra não atribuir erroneamente a nenhuma divindade x ou y a ação, eles dizem que um daimon/nume os inspirou, agiu sobre eles.
A - Mas mesmo pra eles eram várias as concepções, né?
J - Então, no que temos de documentos literários, não. Daimon refere-se sempre a uma divindade desconhecida que age sobre algo/alguém. Isso, repito, no arcaico e clássico. Agora, se posteriormente associou-se a uma ideia de "anjo da guarda", não sei.
A - Vejo o "agathos daimon" como diferente do "daimon".
J - Mas o agathos daimon é pessoal?
A - O agathos daimon não acho, acho que é tipo uma deidade que às vezes associam com Zeus Ktesios.
J - Então...
A - Já o daimon eu veria como mais pessoal.
J - Porque assim como há o “agathos” daimon, há referencia a “kakós” daimon. 
A - Pois é, também por isso que não vejo como pessoal.
J - Mas assim, o daimon tem algo de pessoal, mas não algo de intimo. O daimon é uma divindade que age sobre um indivíduo ou comunidade, nem sempre é o mesmo daimon. Digo, não existe UM daimon que é "propriedade" de um individuo. Nesse sentido, seria mais ou menos como o anjo da guarda quando considera-se, por exemplo, que ‘n’ pessoas são protegidas de São Miguel, mas não é um anjo diferente pra todo mundo, sabe? Tem uma gama que pode reger/agir sobre.
A - Sim.
J - O Burkert fala algo sobre isso? (ainda não consegui lê-lo)
A - O Burkert, do agathos daimon fala da forma de serpente, e fala dos daimones comuns que Hesíodo cita serem os homens da raça de ouro que cuidam dos mortais e dispensam riquezas, continuando invisíveis; só se veriam seus atos, mas os pitagóricos afirmavam poder ouvi-los e vê-los.
J - É, eu iria acho que nesse sentido do Burkert também.
A - Ele também fala do daimon tipo quando, na Ilíada, Afrodite aparece para Helena como 'daimon' e um herói era 'como um daimon'.
J - É, algo numinoso/divino.
A - E tem a versão de Heráclito, que diz que o propósito de um daimon é direcionar-nos na Terra para um parentesco nos Céus, tipo uma 'planta do divino' na Terra. Platão fala dos daimones como intermediários entre deuses e homens, 'intérpretes e balseiros', mensageiros. A visão de Aristóteles é semelhante à de Platão. A de Xenócrates também, tipo almas na esfera divina abaixo da lua, mas no caso dele os daimones seriam afetados por coisas ruins, tipo sofrimento, trazer doenças e tal.
J - Quase espírita essa visão, rs.
A - Um tal de Epinomis divide um sistema dos cinco elementos, aí os semideuses seriam de natureza aquática, e os daimones de natureza aérea, sempre invisíveis.
J - Nossa... Mas ainda assim nada como individuais de cada humano, né?
A - Eu acho que a visão individual é parecida com a de Heráclito. Quando Burkert fala de Heráclito, ele diz que "o poder da compreensão intelectual é plantado como algo divino, um daimon, em um homem". Tipo o caráter da pessoa, a postura que vai diferenciá-lo. "Cada alma tem sua própria estrela da qual veio e para a qual retornará".
J - Entendi.
A - Quando o psicólogo James Hillman fala de daimon, é nesse sentido de uma coisa que você veio realizar, a semente de carvalho que vira o carvalho, você realizar o seu daimon. Ele mesmo afirma que pega muito de Heráclito.
J - Não conheço ele.
A - É num livro chamado The Soul Code, que foi traduzido como O Código do Ser. Ele dá exemplos de pessoas que desde pequena demonstravam pra que vieram ao mundo, rsrsrs. É meio motivacional até, você se anima em querer 'realizar seu destino'.
J - Hehehe, eu ainda to processando isso. Esse lance de não ter um "anjo da guarda", um intermediário, e nem mesmo um destino predeterminado como objetivo, me soam mais coerentes.
A - A de serem os homens da idade do ouro? Ou de serem deidades?
J - As duas, nesse sentido até calham, porque os homens da idade de ouro são ancestrais.
A - É.
J - Porque a gente não vê representações desses ditos daimons.
A - E aí até dá pra adaptar, dizer que são anjos da guarda 'comunitários'.
J - Rsrs, sim. Agora q estamos tendo essa conversa, confesso q me afastei um pouco também por conta dessas indefinições que pairam. Depois que comecei a faculdade, comecei a ver outras visões, que também faziam sentido e ainda to processando.
A - Quais outras visões mais você viu do daimon?
J - Só as nossas e, com a facul, essa que discuti com você.
A - Posso fazer um post sobre essas possibilidades que o Burkert cita e as nossas considerações, e postar no sofá dizendo que surgiu da nossa conversa?
J - Claro.

(Bom, resolvi postar o diálogo em vez de transformá-lo em um texto, para ficar mais fiel. Aproveito e mando um beijo a todos os que me procuram para falar desses assuntos lindos, divinos e numinosos.)  rsrs

Pietro da Cortona - "A Era Dourada"

maio 27, 2010

Os bisavós do mar

No Mounykhion 21 (dia 6 de maio deste ano) tivemos o sacrifício aos Tritopatores, espíritos ancestrais benevolentes. Queria ter postado sobre eles no dia, mas sempre é bom não deixar passar as coisas e ainda poder aproveitá-las nos próximos anos, então resolvi falar assim mesmo.

Os Patroios/Patroia são os deuses que recebem culto em uma nação ou família desde a época de seus antepassados ou, algumas vezes, tratam-se dos próprios ancestrais1. Zeus era, portanto, um "theos patrôios" em Atenas e também entre os heróis que traçavam sua genealogia com Ele fazendo parte de sua origem2.

Havia um santuário aos misteriosos Tritopatores/Tritopatreis (que pode significar 'bisavós' - três vezes pais), do lado de fora dos portões Dipylon da Acrópolis, ao lado do riacho Eridano, onde se eram feitas preces pedindo pelas crianças da família. Esse lugar era dedicado provavelmente aos espíritos ancestrais cultuados pelos atenienses ou aos espíritos do vento citados no mito órfico. Outra interpretação possível do nome dos Tritopatores seria 'aqueles que têm Tritão como pai', ou seja, os "sereios" (o masculino de 'sereia' é 'tritão'), conectando-os também a Atena, que era conhecida por Homero como Tritogenia (nascida de Tritão). De qualquer forma, eles estariam associados com a água, já que seu santuário ficava perto de um riacho, e há especulações sobre terem formas serpentinas - lembrando Erictônio/Ericteu/Cécrops, um homem com cauda de serpente. Os Tritopatores eram benevolentes e eram frequentes nos cultos menores com fortes raízes locais que floresceram na antiguidade3.

Você pode fazer uma prece aos Tritopatores se lembrando de como tem sido sua relação com seus antepassados e suas terras. Li uma bem bonita sobre o mar e um ancestral marinheiro/pescador, que continha um trecho o qual traduzo aqui:

Eu me dirijo a ele (ou ela) como posso, linha após linha, canção após canção; mas meu jeito de pensar nas coisas nunca é exatamente o jeito que tudo acontece, tão arrebatador é o som das coisas mais úmidas, tão ressonante é a voz de minha mãe perto do mar chamando alto meu nome. [...] Teu seja o trovão, a pesca que trago na mão; possa o meu caminho errante em bom senso e decência ser a quilha pela qual tu ainda navegas.4

~~~

1 Luciano de Samósata - A Morte do Peregrino, 36 - "Então ele pediu incenso para jogar no fogo, [...] e -fitando o sul, disse: 'Espíritos de minha mãe e meu pai, recebam-me favoravelmente'."
2 Apolodoros - A Biblioteca, 2.8.4 - "...eles fizeram três altares para Zeus Paterno, e sacrificaram neles".
3 John Pollard - Seers Shrines and Sirens: The Greek Religious Revolution in the Sixth Century BC - traduzido e adaptado.
4 Brendan MacOdrum, 2 de novembro de 2006 - Prayer to Tritopatores - Ver completa em inglês clicando AQUI.

outubro 15, 2009

O "mensageiro portador do bem"

O Agathos Daimon ("Bom Espírito") para os helênicos é um pouco semelhante ao anjo-da-guarda judaico-cristão ou o Iwa dos vodunistas ou o Genius romano ou o Dola eslávico ou o Fylgja nórdico ou o Serapis (Cnum-Agathodaemon-Aion) egípcio ou mesmo o familiar-guardião xamânico. Ele é ligado a nós no nascimento (ele é nosso e nós somos dele) e continua conosco pela vida, protegendo, guiando, dando saúde, sabedoria, abundância, e influenciando na nossa sorte. Por conta disso, às vezes era representado como o par masculino da deusa Tyche (Fortuna), segurando uma cornucópia e uma tigela em uma mão, enquanto na outra segurava uma papoula e uma espiga. Mas, antes disso, o Agathos Daimon era considerado andrógino, e provavelmente por isso era também representado como uma serpente (que antigamente acreditava-se não ter gênero/sexo), razão pela qual se fazia libações na terra (e com vinho não-misturado) para ele. Tanto a forma de serpente quanto a com cornucópia lembram os Penantes (guardiões caseiros da prosperidade) dos romanos. Era necessário agradá-lo para que ele respondesse bem e nos desse boa sorte e proteção.

Sócrates comentou que o dele dizia quando ele deveria parar de falar ou ficar quieto. Aristófanes o cita na peça 'A Paz': "Eis o momento de verter uma taça em honra do Agathos Daimon". Píndaro, Próclus e Plotino também o mencionavam. Platão o chamava de "intérprete" e de "balseiro", pois o Agathos Daimon intermedia nossa relação com os deuses. Aliás, se você precisa de orientação, é mais conveniente voltar-se primeiro para ele antes de dirigir-se a algum deus. Ele costuma ser um ótimo professor. E, se receber um belo golpe de sorte, agradeça primeiro a ele também. Como hoje não temos mais casas com chão de terra, em um lugar fechado nós podemos verter libação em um pratinho e, de vez em quando, verter esse conteúdo em algum outro lugar depois.

Algumas pessoas imaginam que talvez ele possa até desenvolver uma relação romântica com seu protegido, a exemplo da que as ninfas desenvolviam com seus ninfoleptos. Mas na maioria das vezes ele é mais como aquele amigo invisível que responde seus pensamentos e te dá a mão para atravessar em segurança e lança um sopro de sorte quando você precisa. Para honrá-lo, vertemos libação nas refeições e nos lembramos dele no segundo dia de cada mês helênico. Ele pode ser não só um mensageiro aos deuses, mas também o espírito que enviamos para ajudar aqueles nossos amigos que estão fisicamente longe de nós. O daimon é capaz inclusive de influenciar sonhos e adivinhações. Ele protege nosso bem-estar, nossos pertences, qualquer lugar onde nosso coração esteja. Qualquer lugar ao qual chamamos de lar. (Até quando o nosso lar é uma pessoa.)


Na minha experiência com essa presença invisível constante, eu o percebo como alguém que rapidamente me responde e ao mesmo tempo faz isso com toda a paciência (e nenhuma arrogância) de um verdadeiro mestre orientador. Sabe aquela pessoa que tem as respostas às suas perguntas, muitas vezes antes mesmo de você formulá-las? Alguém que sabe do que você precisa sem que você chegue a pedir? Que olha por você e lhe protege das coisas e pessoas que lhe tentem fazer mal? E que, ao mesmo tempo, é seu companheiro na bebida e nos festivais, com quem você se diverte junto? Com ele do seu lado, o "tempo" nunca fecha e há um calorzinho gostoso da presença dele ali. E, de vez em quando, esse amigo lhe dá um presente (de sorte) só porque "se lembrou" de você (não que ele alguma vez tivesse esquecido, mas agradar sempre também não surte o efeito da surpresa, não é?). Seja ou não um "melhor amigo com benefícios" românticos, nenhum momento com ele fica abaixo de expectativas, porque - mesmo quando sai diferente do que você pensava que seria - ainda assim é tudo de bom, quando não melhor.

A maioria de nós se foca nos deuses e se esquece de cultuar seu 'agathodaemon', perdendo toda a parte gostosa de um relacionamento desses. Mas nunca é tarde para começar a reparar isso, ou pelo menos para passar a chamar do nome certo aquela voz que nós já tão bem conhecemos...