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julho 26, 2019

Da Dor


"Será que você vai saber
O quanto penso em você
Com o meu coração?
Quem está agora ao teu lado?
Quem para sempre está?
Quem para sempre estará?”
(Legião Urbana)


Ontem assisti à palestra de uma psicóloga sobre o tema do suicídio. Ela trouxe dados do tipo: de cada 17 pessoas que pensam em se matar, 5 traçam um plano de como vão fazer isso, 3 realmente tentam e 1 consegue. Então as estatística são sempre maiores nessas proporções. E as principais coisas que levam a esses pensamentos são 4 Ds: depressão, desespero, desesperança e desamparo. 

Pra mim a desesperança vem atrelada à incerteza, a não saber o que vai acontecer, no que alguém está pensando em fazer, que decisão radical poderá tomar. Isso vai me trazendo o desespero e a depressão, e sentir desamparo é quase que inevitável quando a incerteza vem exatamente da única pessoa com quem você costuma contar. 

Nessas horas a gente tem que se apegar à energia de Perséfone para não sucumbir ao Hades. Ela pode te fazer processar as coisas, enquanto que chegar nele não tem saída. O torpor do narciso que Perséfone colhia e sua ligação com as coisas ocultas podem te ajudar a conhecer outras formas de consciência, ainda que despertas e racionais. Precisamos intelectualizar para não patologizar o que sentimos. 

Muitas vezes somos nós mesmos que amplificamos o problema, outras vezes é o outro que o torna um maremoto. Mas não é morrendo nem matando que vai fazer ficar tudo bem. Esse racionalizar me ajuda às vezes. Das coisas que penso: E se os suicidas forem pra um lugar pior depois da morte? E, se depois de vencer isso, fosse me acontecer algo muito bom? E se matar o fulano me trouxer "carma ruim"? E se o espírito dele ficar me vigiando e me atrapalhando? Enquanto houver essas 'desculpas', ainda será sinal de que eu só desejo acabar com o sofrimento e não com a vida. 

Voltando à deusa, foi Perséfone quem ajudou Orfeu. E acho curioso que, toda vez que penso no tema da morte, me lembro que ainda não decorei os versos órficos que precisamos dizer a ela quando atravessamos pro outro lado. Por mais que eu tente, na hora decoro e depois me esqueço. Acho que isso é meu inconsciente se recusando a me deixar desistir de tentar ficar.

A gente não pode esperar que as pessoas sejam perfeitas, nem pode achar que somos melhores que elas também. Não dá para ficar comparando sofrimento. Cada um carrega a pedra que é capaz de suportar. O que precisamos é não deixar que vire uma pedra de Sísifo que nunca evolui nem transcende. 

Eu ainda não sei qual será a conclusão do meu sofrimento atual. Não sei que pena terei que cumprir. Nem questiono se será justa. Mas escrever sobre a dor me ajuda a aguentar mais um pouquinho até saber o desfecho dela. Isso me lembra que eu gostava de dois livros da Marguerite Duras ("O Amante"e "A Dor"). Acho que para ela também funcionava lidar com isso escrevendo. 

Outra coisa que me ajuda é música. (Olha aí Orfeu de novo.) Acho que isso é algo que ajuda muita gente. Alguns colocam música alegre para espantar a tristeza, outros colocam música depressiva para expurgar de vez tudo o que se está sentindo, talvez até para ter essa sensação de que não é o único, que não está sozinho na dor.

Um dos possíveis significados do nome de Perséfone é "a que destrói a luz", por isso que é nela que penso quando estou nesses lugares sombrios da minha mente e coração. Ela ajuda a atravessar entre os mundos. E quando essa dor é por causa de algo do passado, talvez a gente precise se lembrar da Medusa, a que petrifica, aquelas coisas que fomos cristalizando e que não conseguimos destruir. Talvez um espelho te ajude, como ajudou Perseu. Olhe como você cresceu e tudo o que já venceu e como pode realizar mais feitos heróicos ainda... 


Mas, se você ver alguém triste, o que não funciona é dizer "fica bem". Esse 'conselho' não ajuda, porque ninguém escolhe estar triste. A gente pode escolher permanecer remoendo, mas não é com frases motivacionais que se sai do ciclo. Na palestra foi falado que a sociedade ainda não sabe lidar com a tristeza dos outros. 

Então ou a gente procura ajuda profissional ou usa dos artifícios que conhece que nos fazem sentir melhor. Se for muita coisa para superar, não tenha vergonha de pedir essa ajuda. Eu ainda vou esperar o meu desfecho antes de saber a quem recorrer - seja deus ou mortal. Mas se você também está às voltas com esse tipo de energia, não se cale, conversar ou escrever serão sempre catarses válidas para lidar com o que polui o nosso templo (físico, mental e espiritual).

Desejo sorte e paz para a gente. E que o amor prevaleça sobre o erro. 


junho 10, 2019

"A Feitiçaria na Atenas Clássica"

Há alguns meses terminei a leitura do livro "A Feitiçaria na Atenas Clássica" da Profª Drª Maria Regina Candido. Não posso me estender muito nos comentários para não revelar tudo do livro, mas tentarei fazer uma resenha e especialmente demonstrar como essa leitura só me confirmou ainda mais como é acertado que o reconstrucionismo não enverede por essa área da magia (ou do feitiço)

O livro foca nos katádesmoi, as tábuas de imprecação. Para começar, o fato de o uso dessas tabuletas aparecer na virada do século V para o IV AEC contextua muita coisa. Nesse período pós guerra do Peloponeso e de participação pelo voto, temos uma transição dos interesses públicos (to koinon) para os privados (to idion) e isso gerou um recuo da sophrosyne (o autocontrole, a justa medida). A sociedade que era de logos, tradição, coesão cívica, ritos ancestrais, começou a ceder espaço para práticas individuais, para relações com a morte e para o uso de maldições para "fazer mal ao inimigo". A magia, que era desviante, retorna como parte do cotidiano. Isso por que os atenienses ora seguros se deparam com situações imprevisíveis, inusitadas, incertezas e novidades que a comunidade da pólis não consegue responder. A crise das cidades atingiu as áreas econômicas, sociais, políticas, religiosas, intelectuais e artísticas, fazendo desse um período bem específico da história. 

As lâminas de chumbo estudadas no livro são de três tipos: as imprecações contra atividades de comerciantes, as testemunhas no tribunais, e os rivais de relações amorosas. O significado do termo katadesmoi remete aos sentidos de amarrar, prender, imobilizar alguém embaixo da terra, ou afundar, enterrar, ocultar alguém no submundo. Já o termo latino, defíxios, seria sinônimo de um tablete que pretende "fazer mal ao inimigo". 

Os nomes nas lâminas apontam para grupos sociais provenientes desde a Liga de Delos até o pós-guerra do Peloponeso, o que leva a autora a acreditar que os indivíduos que faziam uso dos katadesmoi pertenciam a segmentos sociais de prestígio político e/ou exerciam atividades econômicas consideráveis. Eles se sentiriam ameaçados (na sua riqueza, prestígio e honra), com o risco de perder seus recursos para concorrentes ou no tribunal, ou de serem difamados e terem sua atividade prejudicada. O prejuízo poderia ser moral, pecuniário ou mesmo de levar à morte. Por temer essas coisas, se recorria à magia para a imposição da vontade do usuário

Por mais que os princípios tradicionais permitissem "ajudar os amigos e prejudicar os inimigos" e legitimar a auto-defesa e a indenização, essa indignação do cidadão que se sentia lesado em seus direitos deveria ser levada para o contexto público do tribunal, enquanto que no contexto das lâminas havia uma violência privada, uma vingança de interesse individual, insubordinada às leis. Nem todos tinham o poder da oratória para vencer nos tribunais, então procurava-se outros meios. Nas tábuas estudadas, o solicitante objetivava tanto paralisar a ação do inimigo quanto exigir a destruição total do adversário, levando-o à morte, às vezes junto com a família e pessoas próximas. Platão cita em Fédon que o mal-olhado (baskanía) podia interromper a fala de um orador no momento decisivo da argumentação. O usuário das tábuas acreditava na eficácia de enviar essas maldições, e lemos em algumas tábuas ele solicitando que se paralisasse a voz, as mãos, os pés e a mente do adversário.

O problema se tornava ético quando a motivação do solicitante era a sua própria incapacidade pessoal, ou seja, por inveja (fthónos) e rancor acumulado diante do adversário bem-sucedido. Aristóteles, na Retórica, fala que a inveja tem por princípio a rivalidade de alguém que aspira as mesmas coisas que dão sucesso a outra, isto é, alguém possuir algo que prospera e o que invejoso não consegue alcançar por ser pessoalmente incapaz. Um político famoso por ser um invejoso especialista em calúnias era Aristogeiton. Ele buscava fatos que podiam ser transformados em recebimento de dividendos, e andava sempre acompanhado por testemunhas ímpias e más.

O valor do comércio parece ter sido alimentado no período de Pisístratos, que incentivou as atividades comerciais na área urbana. Também houve a mudança da rota comercial no Mediterrâneo beneficiando Atenas por conta do porto de Pireu, que foi melhorado no tempo de Temístocles e no governo de Péricles. Após o conflito com os persas, Atenas tornou-se uma potência mercantil devido a sua posição hegemônica no mar Egeu. As pessoas migraram do campo para a cidade para trabalhar como artesãos e comerciantes, enriquecendo alguns setores da economia. Mas essa riqueza recente oriunda do comércio era considerada de má qualidade, os emergentes não seriam qualificados a participar da administração da pólis. Acreditava-se que a riqueza proveniente da agricultura era a mais adequada para a formação do cidadão-camponês-soldado. Xenofontes diz que através do cultivo da terra adquire-se status, prestígio e virtudes. 

A riqueza fomentava a hýbris, e a pobreza despertava a inveja. Ambas levavam os indivíduos a cometerem injustiças, transgressões e crimes. Uma das razões da magia dos katadesmoi estaria, então, na concorrência. Solicitava-se às potências sobrenaturais a ruína das atividades e a eliminação física do oponente, assim como a desarticulação da sua família, o que, fatalmente, prejudicaria a sua oficina. As dificuldades econômicas do momento redirecionam também as atividades femininas, levando as mulheres a deixarem a reclusão para atuar na garantia da sobrevivência da família. Também se inseriram no comércio os metecos (estrangeiros), aumentando a concorrência. A profissão de kapelikós (comércio de varejo) podia ser exercida por homens, mulheres e escravos. 

As tábuas eram executadas de maneira oculta e dissimulada, uma ação desviante à religião oficial da pólis, e eram específicas do espaço urbano. Algumas inclusive eram escritas invertidas, de trás para a frente, e com palavras incompreensíveis e indecodificáveis. Além disso, o solicitante contava com o sigilo, pois seu nome nunca constava na lâmina. A ágora era o espaço da palavra falada, dos debates, mas a palavra escrita pertencia aos templos e santuários, por isso também sua relação com a magia, pois a escrita dava sacralidade ao acordo, como uma forma de garantir que este seria cumprido. Além disso, as imprecações eram gravadas em materiais como chumbo e bronze - duráveis e indestrutíveis (o chumbo, por ser cinza e frio, também lembrava a morte). Elas eram depositadas nas poças, nos leitos de rio, nas sepulturas do cemitério e nas fendas dos santuários e templos de deuses ctônicos. Os verbos eram na primeira pessoa: eu enterro/afundo/amarro. E há cinco termos constantemente citados: 'enterro' 'sua casa' 'sua vida' 'corpo' 'ofício'. 

O mago que grafava nas lâminas para o solicitante deveria ser alguém capaz de grafar e imprecar da forma precisa e de acreditar na eficácia das lâminas. Esses 'magoi' faziam a 'goetía', a magia negativa de fazer mal ao inimigo, e divulgavam serem capazes de persuadir os deuses a serem seus servidores. Esses especialistas costumavam ser homens à margem da sociedade que surgiram no final do século V AEC entre os atenienses, desprezados por uns e procurados secretamente por outros. Sua clientela eram de insatisfeitos, amargurados e inconformados, e esses usuários preferiam manipular as almas que ainda não haviam chegado ao Hades.

Nos séculos IV e III, houve um acentuado esforço na realização de desejos e satisfação individual, e é quando vemos os katadesmoi amorosos, um pouco diferentes dos katadesmoi contra ofícios e os contra os processos. Nos amorosos, se citava no máximo duas ou três pessoas, e às vezes não se pretendia fazer mal ao adversário e sim ao ser amado. Quando não se conseguia despertar a sua adoração ou fidelidade, se recorria à sua destruição. O amor ou paixão não-correspondidos levava a vítima a agir como se estivesse acometida por uma doença. Nas obras de Eurípides, Fedra parece ser alguém vítima de uma imprecação (há três dias sem comer por conta de uma dor da paixão), assim como Medeia (que "jaz sem alimento, corpo dado às dores, debulhado em lágrimas"). Já no relato de Teócrito, Samanta não se conformou com o abandono e reagiu usando a magia ("assim como este ramo de louro arde em brasa, que arda também o corpo de Delfos", "se ele me desprezar, baterá na porta do Hades levado pelas Moiras e pela potência do meu veneno" e "quem se deitar com ele, homem ou mulher, será esquecido completamente, como Teseu esqueceu Ariadne"). Nos textos, Medeia e Samanta dão a entender que a mais grave atitude diante de uma vítima de desprezo e fracasso era o riso (ghélos), e somente a vingança da morte poderia reverter essa situação e trazer-lhes a vitória. 

Em resumo, os katadesmoi têm sua elaboração relacionada a um contexto de crise, de incerteza, e da supremacia do interesse individual ao interesse coletivo. A autora diz que: "A crença na eficácia da magia se deve ao contexto de crise na organização da políade que deixou de atender as necessidades dos seus cidadãos. Estes não deixaram de reagir e buscaram nas práticas mágicas as respostas, os auxílios e as alternativas visando remover obstáculos e solucionar as disputas".

Vale ressaltar que não havia culpa nem tempo para o arrependimento, pois desfazer uma imprecação era muito difícil. 

Essa discussão me lembrou uma postagem do site do Patheos, "Bruxaria é política". Traduzo aqui resumidamente o que a autora (Scarlet Magdalene) diz: 
Hécate é uma deusa dos marginalizados e a bruxaria é uma ferramenta dos desprovidos de direitos. Hécate é um exemplo popular de um tópico e deidade que é terrivelmente mal-interpretada, mal-representada e normalmente ignorada por causa de sua popularidade ser vista como um incômodo e não como uma característica. Não só por ela ser uma deusa da bruxaria, mas por ser uma deusa de muitas funções e muitos epítetos. “Soteira” (Σώτειρα) significa “salvadora”, um de seus epítetos. Seu deipnon (ceia), durante a lua nova, não era apenas uma forma de lhe fazer ofertas, mas também de prover comida para os desabrigados e famintos. Ajudar os necessitados era uma forma de oferta a ela, por mais que alguns torçam o nariz. Sendo uma deusa de fronteiras e lugares limítrofes, faz sentido ela ser associada com os marginalizados, com a periferia. Aristófanes cita "Pergunte a Hécate se é melhor ser rico ou faminto; ela lhe dirá que os ricos lhe enviam uma refeição todo mês e que os pobres a fazem desaparecer antes mesmo de ser servida". Ela também era solicitada em questões de justiça e decisões em assuntos domésticos: "Um dia os atenienses acessariam a justiça em seus próprios lares, cada cidadão teria um pequeno tribunal construído em sua varanda, similar aos altares a Hécate (Hekataion) e haveria tal coisa diante de cada porta" (Aristófanes, 'As Vespas'). A deusa também tinha um culto onde se acreditava que os doentes mentais eram curados. Ela também é patrona de mulheres feiticeiras como Circe e Medeia. Recorria-se a Ela tanto para fazer quanto para se proteger de bruxaria. Hécate é descrita no Oxford Classical Dictionary como "mais em casa e arredores do que no centro do politeísmo grego. Intrinsecamente ambivalente e polimorfa, ela ultrapassa as fronteiras convencionais". Nos arredores é que estão os pobres, os doentes mentais, as mulheres, e outros que não eram admitidos na política. 

Como vemos do livro, os comerciantes mercantis também se encaixavam nesses "emergentes excluídos" que não eram virtuosos por não terem adquirido sua riqueza da agricultura. A procura pelas tábuas de imprecação emergiu de uma situação histórica/política de transição. E é nessa situação de incerteza e crise que se buscam os meios 'alternativos' e 'sobrenaturais' de se conseguir alcançar seus objetivos pessoais em detrimento do interesse comum.

Portanto, esse tipo de magia era mal-visto, pois sabemos que desejar - por interesse pessoal - que um adversário e sua família sejam paralisados ou mortos nunca se encaixará nos princípios de uma religião cívica de amizade (philía) e autocontrole (sophrosine). 

março 16, 2019

Recomeçando

Este ano observei algumas coisas com relação à abordagem que cada um dá aos deuses. Percebi quatro movimentos diferentes de quatro pessoas. Um não acredita que os deuses nos dão tudo o que pedimos, outro acredita que não importa o que ele resolva porque no final sai do jeito que os deuses queriam, outra acredita que toma bordoada quando erra, e outra acredita que os deuses sempre nos dão o que pedimos quando temos um bom relacionamento com eles. Da minha parte, percebi que essa resposta positiva se dava mais com posturas do que com ritos. Recentemente fiz um rito a Hermes (todo certinho, com sinais indicando sobre as ofertas, e até no dia e horário mais propícios) esperando um resultado o qual não tive de pronto, mas depois adotei atitudes que me levaram à resposta favorável que eu queria. Levar a energia da deidade para a vida foi mais eficaz do que uma comunicação ritual momentânea. Então talvez aquela primeira pessoa que citei não recebe o que pede porque falta levar pro cotidiano aquele sentimento e atitude próprias de alguém com uma boa conexão com o sagrado. E os outros três casos não se anulam entre si. 

Outra coisa com relação a essa questão de o que pedimos e o que recebemos também foi assunto de uma conversa atual. Muitas vezes o que precisamos para conseguir realizar as coisas necessárias ao nosso crescimento e evolução são provenientes de energias as quais costumamos temer. Hades, Ares, Poseidon, são exemplos de deuses que as pessoas têm medo, mas que realizam grandes coisas em nossas vidas se nos sintonizarmos e equalizarmos com eles. Grandes mudanças assustam, mas não se trata de deixar ser levada pelo maremoto, mas de aprender a surfar ondas gigantes. Às vezes precisamos violar uma embalagem para conseguir trazer pra fora o que tem dentro dela e o qual estamos há muito tempo querendo. Já citei em outro texto sobre como Ares te tira do sofá, e seguidamente falei como Poseidon sacudiu minhas estruturas, sem contar como Perséfone vira rainha após ser levada por Hades. Não são forças das quais sentir medo, mas ao mesmo tempo precisamos estar maduros para lidar com elas sem sermos levados na correnteza. Aproveitar essa zona do medo como uma ponte entre a zona de conforto e a zona de aprendizagem, no caminho para a zona de superação/realização. 

E, voltando ao ponto sobre o "fazer correto" para não "levar bordoada", me lembrei de uma dúvida que tiraram comigo este mês. Quiseram saber se poderiam relacionar o porquinho-da-índia a Apolo, já que ele é um roedor e os ratos são dEle. É preciso tomar certo cuidado com essas associações. Os ratos são ligados a Apolo por serem pragas e não por serem roedores (e fofinho) como o porquinho-da-índia. Além disso, se pesquisarmos as civilizações onde esse animal existia nos cultos (já que na Grécia antiga não encontramos registros), veremos que entre os incas o porquinho-da-índia era ofertado à deusa da terra e ao deus da montanha, o que, por um certo sincretismo mais intuitivo do que direto, poderíamos ligar a Deméter e Dioniso

Há outra questão sobre esse "conseguir o que pede" que também observei nessas últimas semanas. Uma pessoa pediu aos deuses algo que ela achava o melhor para a outra, mas não era o que a outra realmente queria para si. E, claro, acabou não dando certo. Apenas quando a primeira reconheceu que estava sendo influenciada por seus próprios sentimentos é que ela, eticamente, pediu a uma terceira que fizesse o rito pela segunda pessoa, por aquilo que esta realmente queria, e aí sim começou a dar certo. 

Esses movimentos todos de depoimentos e perguntas e de gente voltando a me procurar me fez sentir um retorno importante depois daquele tempo tentando estabilizar meus próprios movimentos. Consegui inclusive ler um livro que vou trazer a síntese aqui em uma próxima postagem. Sinto que as coisas vão aos poucos se assentando, e as marolas estão voltando a encontrar a praia, mesmo nesta cidade de instabilidades climáticas e garoinhas refrescantes. 

Voltei a ter sonhos dos quais percebia depois a sincronicidade deles com o relato de outros helenos. Estou tentando me reconstruir junto com o reconstrucionismo. Estou buscando novamente me tornar quem eu sou, como ensinava Píndaro. 

E espero que esse novo espiral de percepções e conexões me leve a escrever mais por aqui. 


[ PS.: O blog está com um layout diferentinho, arrumei para ficar mais clean e mais prático. ]

setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


novembro 19, 2014

Em defesa de Hades

Por Dawn Black, traduzido e adaptado pela Alexandra:

Quando recontam o mito da abdução de Perséfone, normalmente o fazem de uma forma limitada e um tanto equivocada.

Primeiro, Hades não é o belzebu grego. Ele não governa um inferno. Os helenos não associam a morte com o mal. A morte é algo que acontece com todo mundo, não importa o quão bom ou mau alguém é ou quantas coisas boas ou ruins lhe aconteceram.

Segundo, se ele rege o submundo para onde vão os mortos, não é porque ele gosta de gente morta ou porque ele é cruel e sinistro. Ele ganhou essa função quando Zeus, Poseidon e ele tiraram na sorte quem iria ficar com qual reino (Céu, Mar, Submundo). Ou seja, foi pelo acaso de um sorteio, não propriamente por afinidade.

OK, é verdade que os antigos se aproximavam dele com cuidado, evitando jurar em seu nome e chamando-o por apelidos para não atrair sua atenção, porque ninguém estava com pressa em morrer. Mas Hades não é a morte (a morte é Thanatos), Hades não mata e nem ordena a morte (isso fariam as Moiras). E, apesar de presidir as punições dos que fizeram algo errado, não é ele quem julga também (os juízes são Minos, Radamantis e Éaco, e algumas pessoas que cometem crimes graves vão direto para o Tártaro sem passar por eles). 

Coitado, é como se Hades fosse um gerente que tivesse que lidar com os clientes que lhe culpam pela burocracia que já existia antes de ele assumir o posto. 

De acordo com muitos relatos, Hades é bastante ‘relax’, ‘de boa’. Um dos seus apelidos é “o hospitaleiro”, afinal é sua função prover hospitalidade aos mortos, e ele faz isso muito bem. Ele não parece ter um temperamento tão forte quanto o de seus irmãos Poseidon e Zeus, e só se registrou ele ficando bem irritado umas poucas vezes, tipo quando Pirithous tentou sequestrar Perséfone (e está amarrado numa cadeira até hoje) ou quando pessoas interferiam com as práticas funerárias. De fato, na maioria das vezes ele parece bastante tranquilo, inclusive aceitando acordos de trocar uma alma pela outra ou mesmo soltando almas ocasionalmente (tipo Eurídice), embora isso nunca tenha funcionado muito bem. 

Então, temos um cara num emprego difícil, vivendo no escuro e cercado de lamentadores, seria legal ter uma companheira por perto. Ele sai procurando e escolhe Perséfone. E aí, senhoras e senhores, aí ele pergunta a Zeus se pode. Ele faz o que sempre se fez: pediu a permissão do pai da garota. Pode ser que Zeus não seja pai de Perséfone, mas ele é o rei dela e serve. Zeus diz tipo ‘vai fundo’ e ele diz a Hades que este vai ter que agarrá-la às escondidas, porque Deméter é uma daquelas mães helicopterizadas; daí eles pedem ajuda à vovó Gaia e ela ajuda de bom grado a conseguir que a garota ficasse sozinha para que ele pudesse apanhá-la e levá-la para casa.

Vejam isso aconteceu num mundo no qual os homens tomavam esposas como espólio de guerra e isso era normal e OK. No mundo celta também era normal, os homens roubavam o gado do pai e pediam de resgate a filha. Não se consultava a moça.

Uma das coisas que dá nos nervos na língua inglesa é chamarem o rapto (“rapt”) de Perséfone de estupro (“rape”). Não sabemos se isso aconteceu, se ela consentiu ou não, o mito não fala o que ele fez com ela quando chegaram na casa dele. O mito só fala da abdução, do arrebatamento ("rapture"). Hoje em dia ‘arrebatamento’ está associado com júbilo e movimento para cima, não para baixo, mas com certeza isso é influência cristã. O arrebatamento tem a ver com ser transportada para outro plano, não necessariamente o céu e a felicidade.

Até então, todas as ações de Hades com relação a Perséfone foram compreensíveis e não foi a pior coisa que poderia ter acontecido a ela. A coisa incomum mesmo foi a reação de Deméter. OK, não saber onde Perséfone estava e se preocupar foi perfeitamente normal, o que foi incomum foi sua recusa a aceitar o par, mesmo depois de vários outros deuses lhe encorajarem a aceitar, dizendo que Perséfone poderia estar em situação pior do que estar com o Governante de Muitos. Pode ser que fosse legal Hades ter falado com ela, mas ele é atado ao seu reino, a responsabilidade de lidar com Deméter no Olimpo é de Zeus.

Será que Deméter teria recusado a oferta de casamento se lhe dessem escolha? Provavelmente. Não porque Hades fosse um mau partido, mas porque Deméter é um olimpiana e Hades é do submundo, o que significaria que ela não iria mais ver Perséfone com ela morando lá com ele. Ela não a poderia visitar, ao menos que um psicopompo como Hécate ou Hermes a escoltasse e com a permissão de ambos os reis. Apenas alguns deuses tiveram passagem livre para transitar entre os reinos. Mãe e filha não se veriam mais.

Essa situação difícil de Deméter não era incomum no mundo antigo. Os pais davam as filhas em casamento, os maridos as levavam para longe e às vezes as mães não as viam mais. Era comum naquela cultura. E as mães lamentavam sim. Mas quando as mortais lamentavam, isso não resultava na fome mundial.

Perséfone também estava infeliz como milhões de garotas ficavam ao serem levadas da família e arredores para viver com um estranho num lugar estranho. No mundo em que vivemos, estamos tão mal-acostumados que nosso ultraje é um luxo. Como muitas, ela teria que se ajustar e talvez aprender a amar seu novo par e sua vida e (agora como poucas) aprender a abraçar sua impressionante posição como Anfitriã de Muitos, Rainha do Submundo. Esse é um título bem legal.

E, de acordo com todos os relatos, foi o que ela fez. Hades a traiu algumas vezes (ao que sabemos, duas) e ela as transformou em plantas e teve um cacho de filhos com pessoas que não eram ele, mas isso me parece um relacionamento divino normal. Talvez até mais saudável do que o de Zeus com Hera e de Afrodite com Hefesto (espero não ser atingido por um raio ao dizer isso).

E quanto a romã? Hades lhe deu antes de ela voltar para Deméter, com medo de que sua mãe não deixasse sua esposa legítima voltar para ele. Mas ela sabia que isso significaria que ela teria que voltar? E, se sabia, ele a forçou? Como se força alguém a comer? Pode ser que ela soubesse e quisesse voltar ou pode ser que ela fosse tão jovem e inocente que não soubesse o que significaria comer no submundo. A romã é a chave da questão se Perséfone se apaixonou ou não por Hades naquele ponto. E esse momento foi um bom tempo depois da abdução. Talvez nunca saberemos.

Claro que estou conjeturando e sei que os deuses não precisam da minha defesa, mas os mitos talvez precisem. É um desserviço quando feminimizamos os mitos, dando mais poder a Perséfone, transformando Hades num vilão maligno ou num cara charmoso e misterioso sedutor, ou ignorando as regras sobre quem pode ou não pode cruzar fronteiras. É preciso considerar a cultura, porque se ignorarmos ou removermos o contexto desses relatos, podemos perder o x da questão. Há verdade nesses mitos, afinal nos interessamos por eles, mas encontraremos muito menos se nossa visão for turvada pelo preconceito moderno ocidental. 

( Fonte: http://blog.sacredhearth.com/2014/10/in-defense-of-hades-a-closer-look-at-the-abduction-of-persephone/ )

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Nota da Tradução: Na hora de trazer para a nossa vida atual, claro que temos que ajustar às conquistas que tivemos, mas o que não podemos é julgar (e condenar) com olhos atuais sem considerar o contexto histórico - nesse sentido é que a adaptação dos mitos não serve, que é um 'desserviço'. Mas teve algumas coisas no texto original que eu retirei ou modifiquei exatamente por achar sexista (por isso está escrito 'traduzido e adaptado'); tipo dizer que o deus precisava de uma mulher "para iluminar" o lugar ou que o autor estava falando dos deuses "como uma dona de casa fofoqueira".
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agosto 17, 2013

Christine & Erik -- Perséfone & Hades?

Estes dias estive assistindo o DVD dos 25 anos (2011) do musical "O Fantasma da Ópera", gravado no Royal Albert Hall de Londres, e - vendo Christine e Eric (o "fantasma") - não pude deixar de pensar em outro casal que conhecemos: Perséfone e Hades. Então trouxe alguns trechos do musical, para quem nunca se deu conta dessa possível comparação.

A começar por um trecho em que a mocinha se refere às estações:
CHRISTINE
"Think of August when the trees were green,
don't think about the way things might have been..."

(Pense em agosto, quando as árvores estavam verdes,
não pense na forma que as coisas deveriam ter sido...)
E "o invisível" declara suas intenções:
ERIK
"You have come here, for one purpose, and one alone;
Since the moment I first heard you sing, I have needed you with me..."

(Você veio para cá com um propósito, e apenas um;
Desde o primeiro momento em que escutei você cantar, eu precisei de você comigo...)
E apresenta o seu mundo a ela, um mundo que ao mesmo tempo entorpece e intensifica os sentidos:
ERIK
"Night-time sharpens, heightens each sensation,
Darkness stirs and wakes imagination;
Silently the senses abandon their defences...
Slowly, gently, night unfurls its splendour;
Grasp it, sense it - tremulous and tender,
Turn your face away from the garish light of day,
Turn your thoughts away from cold, unfeeling light -
And listen to the music of the night.
Close your eyes and surrender to your darkest dreams!
Purge your thoughts of the life you knew before!
Close your eyes, let your spirit start to soar!
And you'll live as you've never lived before.
Softly, deftly, music shall caress you
Feel it, hear it, secretly possess you.
Open up your mind, let your fantasies unwind,
In this darkness which you know you cannot fight -
The darkness of the music of the night.
Let your mind start a journey through a strange new world!
Leave all thoughts of the world you knew before!
Let your soul take you where you long to be !
Only then can you belong to me.
Floating, falling, sweet intoxication!
Touch me, trust me, savour each sensation!
Let the dream begin, let your darker side give in
To the power of the music that I write..."

(A noite aponta, e intensifica cada sensação,
A escuridão agita e desperta a imaginação;
Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas...
Lentamente, gentilmente, a noite estende seu esplendor;
Agarre-o, sinta-o, trêmulo e terno,
Vire seu rosto para longe da luz gritante do dia,
Afaste seus pensamentos da luz fria e insensível -
E ouça a música da noite.
Feche seus olhos e se entregue a seus sonhos mais sombrios!
Purifique seus pensamentos da vida que você conheceu antes!
Feche seus olhos, deixe seu espírito começar a se elevar!
E você viverá como nunca viveu antes.
Suave, primorosamente, a música deverá te acariciar
Sinta-a, ouça-a, secretamente lhe possuindo.
Abra sua mente, deixe suas fantasias se desatarem,
Nesta escuridão contra a qual você sabe que não pode lutar -
A escuridão da música da noite.
Deixe sua mente começar uma jornada através de um estranho e novo mundo!
Abandone todos os pensamentos do mundo que conheceu antes!
Deixe sua alma lhe levar para o lugar ao qual você pertence!
Só então você pode pertencer a mim.
Flutuando, caindo, numa doce intoxicação!
Toque-me, confie em mim, saboreie cada sensação!
Deixe o sonho começar, deixe seu lado mais escuro ceder
Ao poder da música que eu escrevo...")
E ela descreve a sensação de estar em um lugar sombrio e sinistro, mas no qual habita alguém que lhe produz um efeito de elevação espiritual através do poder de sua música:
CHRISTINE
"I've been there - to his world of unending night,
To a world where the daylight dissolves into darkness...
But his voice filled my spirit with a strange, sweet sound;
In that night there was music in my mind.
And through music my soul began to soar!"

(Eu estive lá - no seu mundo de noite infindável,
Um mundo onde a luz do dia se dissolve em escuridão...
Mas sua voz preencheu meu espírito com um estranho e doce som;
Naquela noite, havia música na minha mente.
E, através da música, minha alma começou a se elevar!)
No meio da peça, temos um baile de máscaras, que me lembrou muito Dioniso. No mito órfico, Dioniso é rebento de Perséfone. A letra dessa parte fala inclusive de Sátiros e dos Campos Elísios.
VÁRIAS PESSOAS NO BAILE
"Masquerade! Leering satyrs, peering eye;
Masquerade! Run and hide - but a face will still pursue you...
Six months: Of relief! Of delight! Of Elysian peace!...
Masquerade! Paper faces on parade!
Masquerade! Hide your face, so the world will never find you!
Masquerade! Every face a different shade!
Masquerade! Look around - there's another mask behind you!"

(Mascarado! Sátiros com um olhar de soslaio;
Mascarado! Corra e se esconde - mas um rosto ainda te perseguirá...
Seis meses: de alívio! de delícias! da paz dos Elísios!...
Mascarado! Rostos de papel na parada!
Mascarado! Esconda seu rosto, para que o mundo nunca lhe encontre!
Mascarado! Cada rosto um sombreado diferente!
Mascarado! Olhe em volta - há outra máscara atrás de você!)
Christine também fala com Raoul, que a corteja, sobre o fantasma e a gratidão/lealdade que lhe deveria ter:
CHRISTINE
"It scares me - don't put me through this ordeal by fire.
He'll take me, I know; we'll be parted for ever.
He won't let me go, what I once used to dream I now dread.
If he finds me, it won't ever end;
And he'll always be there, singing songs in my head...
Am I to risk my life, to win the chance to live?
Can I betray the man who once inspired my voice?
Do I become his prey? Do I have any choice?"

(Isso me assusta - não me coloque nessa provação pelo fogo.
Ele irá me levar, eu sei; ficaremos separados para sempre.
Ele não vai me deixar ir, o que antes eu sonhava agora eu temo.
Se ele me encontrar, isso nunca terminará;
E ele estará sempre lá, cantando canções na minha cabeça...
Estou disposta a arriscar minha vida para ter a chance de viver?
Posso trair o homem que um dia inspirou minha voz?
Eu me torno sua presa? Eu tenho alguma escolha?)
Cantando juntos, numa cena que se passa em um cemitério, o fantasma cita mais uma estação (o inverno), e Christine reconhece que - por mais que sua mente o resista - sua alma o obedece. Aqui também aparece a menção à "verdadeira beleza". No conto de Apuleio, Psiquê vai até Perséfone para pegar uma caixinha com o segredo da beleza eterna, a pedido de Afrodite, sem saber que a beleza eterna não é nada mais do que a morte. É no reino dos mortos, de Hades, que reside a "verdadeira beleza". E Raoul tenta afastar de Christine essa imagem paternal que ela tem do fantasma, assim como Hades é tio de Perséfone. Raoul então ressalta que Christine não amará o fantasma se ela for sua prisioneira, assim também Perséfone não passa o ano todo com Hades, ela se divide:
ERIK
"Wandering child, so lost, so helpless; yearning for my guidance...
Too long you've wandered in winter, far from my far-reaching gaze,"
(Criança que vagueia, tão perdida, tão desamparada; ansiando por minha orientação...
Por tanto tempo você perambulou no inverno, longe do meu olhar que alcança longe,)
CHRISTINE
"Wildly my mind beats against you;"
(Freneticamente minha mente luta contra você;)
ERIK
"You resist,"
(Você resiste)
AMBOS
"Yet your/the soul obeys..."
(No entanto, sua/a alma obedece)
ERIK
"You denied me, turning from true beauty..."
(Você me negou, se afastando da verdadeira beleza...)
CHRISTINE
"I denied you, turning from true beauty... "
(Eu neguei você, me afastando da verdadeira beleza...)
ERIK
"Come to me..."
(Venha pra mim...)
RAOUL
"Christine, listen to me!
Whatever you may believe, this man, this thing, is not your father!..."
(Christine, me escute!
Seja o que for no que você acredite, esse homem, essa coisa, não é o seu pai!)
"You can't win her love by making her your prisoner."
(Você não pode ganhar o amor dela tornando-a sua prisioneira.)

A cena mais relevante, porém, que trago em vídeo abaixo do próximo trecho, é quando Erik encena sua ópera como Don Juan, com Christine no papel de Aminta, ela com uma maçã na mão que me lembra a romã do mito, e o diálogo totalmente a ver com o mesmo. Alguns autores dizem que, quando Coré colhia flores, ela buscava uma experiência diferente, uma vez que entre essas flores estavam narcóticos narcisos e outros possíveis psicotrópicos. Na busca desse desejo, ela é tragada pela terra. Imerge, sucumbe, se entrega, não tem mais volta ("cuidado com o que você deseja"). Então, a letra aqui fala em fogo, em um "rico desejo" (Hades é Pluto - "o rico"), em sedução, em sonho, em segredo. Fala também no silêncio (que também lembra "o indizível"). Christine, interpretando Aminta, pergunta sobre sangue (oferta que se fazia aos mortos), sobre um botão abrindo em flor (as flores que Coré colheu e que ela mesma acabou desabrochando em Perséfone), sobre as chamas que os consumirão... Erik, agora já desvestido do papel de Don Juan, pede que ela lhe salve da solidão e compartilhe uma vida com ele. Não é mais o sedutor que passa de amante em amante (Don Juan), mas aquele que pede que a amada fique para sempre a seu lado. Eis a letra e, em seguida, o vídeo:
ERIK (como Don Juan)
"You have come here in pursuit of your deepest urge,
in pursuit of that wish, which till now has been silent.
I have brought you, that our passions may fuse and merge -
in your mind you've already succumbed to me
dropped all defences completely succumbed to me -
now you are here with me: no second thoughts, you've decided.
Past the point of no return - no backward glances:
the games we've played till now are at an end.
Past all thought of "if" or "when" - no use resisting:
abandon thought, and let the dream descend.
What raging fire shall flood the soul?
What rich desire unlocks its door?
What sweet seduction lies before us?
Past the point of no return, the final threshold -
what warm, unspoken secrets will we learn?
Beyond the point of no return."

(Você veio aqui em busca dos seus anseios mais profundos,
em busca daquele desejo, o qual até agora tem permanecido em silêncio.
Eu trouxe você, para que nossas paixões possam se fundir e imergir -
na sua mente você já sucumbiu a mim
deixou cair todas as defesas, completamente sucumbiu a mim -
agora você está aqui comigo: não há como mudar de ideia, você decidiu.
Passado o ponto em que não há retorno - não se pode olhar para trás:
os jogos que jogamos até agora estão no final.
Passado todo o pensamento de "se" e "quando" - não adianta resistir:
abandone os pensamentos e deixe o sonho sobrevir.
Que fogo intenso deve inundar a alma?
Que rico desejo destrava sua porta?
Que doce sedução jaz diante de nós?
Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
que segredos calorosos e inexprimíveis iremos aprender?
Além do ponto do qual não há retorno.)
CHRISTINE (como Aminta)
"You have brought me to that moment where words run dry,
to that moment where speech disappears into silence.
I have come here, hardly knowing the reason why;
In my mind, I've already imagined our bodies entwining,
defenceless and silent - and now I am here with you:
no second thoughts, I've decided.
Past the point of no return - no going back now:
our passion-play has now, at last, begun.
Past all thought of right or wrong - one final question:
how long should we two wait, before we're one?
When will the blood begin to race
the sleeping bud burst into bloom?
When will the flames, at last, consume us?"

(Você me trouxe a aquele momento no qual as palavras secam,
a aquele momento onde o discurso desaparece no silêncio.
Eu vim aqui, mal sabendo por que razão;
Na minha mente, eu já imaginei nossos corpos entrelaçados,
sem defesa e em silêncio -  e agora estou aqui com você:
sem poder mudar de ideia, eu decidi.
Passado o ponto em que não há retorno - não há volta agora:
nosso jogo de paixão agora finalmente começou.
Passado todo o pensamento de certo e errado - uma pergunta final:
quanto tempo deveríamos esperar antes de sermos um?
Quando o sangue começará a correr
e o botão adormecido se abrir em flor?
Quando as chamas irão, afinal, nos consumir?)
AMBOS
"Past the point of no return, the final threshold -
the bridge is crossed, so stand and watch it burn;
We've passed the point of no return..."

(Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
a ponte foi cruzada, então fique parado e assista ela queimar;
Nós passamos do ponto do qual não há retorno...)
ERIK
"Say you'll share with me one love, one lifetime;
Lead me, save me from my solitude..."

(Diga que você compartilhará comigo um amor, um tempo de vida;
Conduza-me, salve-me da minha solidão...)
[vídeo retirado e aparado daqui: https://www.youtube.com/watch?v=h7IZNfGEcFk]

Coré deixa sua ingenuidade e não pode escapar da situação em que precisa amadurecer. Todos precisamos passar por essa transformação um dia. Não adianta resistir:
CHRISTINE 
"One by one, I've watched illusions shattered."
(Uma por uma, eu assisti minhas ilusões se despedaçarem.)
ERIK
"Past all hope of cries for help: no point in fighting."
(Passada toda a esperança por gritos de ajuda; não adianta lutar.)
E então que os deuses a ajudem a aceitar a missão de acompanhá-lo:
CHRISTINE
"Pitiful creature of darkness, what kind of life have you known?
God give me courage to show you you are not alone."

(Deplorável criatura da escuridão, que tipo de vida você conhece?
Deus me dê coragem para lhe mostrar que você não está sozinho.)
Enfim, somente com o "espírito" dele e a "voz" dela, a "música da noite" se elevará:
ERIK
"You alone can make my song take flight -
It's over now, the music of the night."

(Só você pode fazer minha canção alçar voo -
Está acabada agora, a música da noite.)
Poderíamos viajar bem mais no musical inteiro, incluindo as músicas e não só as letras, mas acredito que dar o gostinho aqui e deixar que cada um descubra suas próprias impressões é mais prazeroso. Concordam?