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janeiro 24, 2012

O voo da flecha (Apolo e o xamanismo)


Continuando o assunto da postagem sobre o êxtase apolíneo, e puxando o tema levantado pela Inês no blog Cerealia, quero trazer alguns trechos de Mircea Eliade no "História das crenças e das ideias religiosas", volume 1:
«Tem-se falado do "delírio pítico", mas nada indica os transes histéricos ou as "possessões" do tipo dionisíaco. Platão comparava o "delírio" (maneîsa) da pítia à inspiração poética das musas e ao arrebatamento amoroso de Afrodite. Segundo Plutarco: "O Deus contenta-se em colocar na pítia as visões e a luz que ilumina o futuro; é nisso que consiste o entusiasmo".»
Mais para frente, no texto:
«O "êxtase" apolíneo, embora provocado às vezes pela "inspiração" (isto é, a posse) pelo deus, não implicava contudo a comunhão efetuada no enthousiasmós dionisíaco. Os extáticos inspirados ou possuídos por Apolo eram conhecidos sobretudo por seus poderes catárticos e oraculares. (Em compensação, os iniciados nos mistérios de Dioniso, as bakkheia, jamais davam prova de poder profético.) Observou-se o caráter "xamânico" de certas personagens semimíticas, tidas como adoradoras por excelência de Apolo. O hiperbóreo Ábaris, sacerdote de Apolo, era dotado de poderes oraculares mágicos (por exemplo, a bilocação). Heródoto escreve que ele "passeou por toda a Terra e a sua famosa flecha sem tomar nenhum alimento", mas, desde Heráclito afirmava-se que Ábaris voava sobre uma flecha. Ora, a flecha, que desempenha determinado papel na mitologia e na religião dos citas, está presente nas cerimônias xamâncias siberianas; ela é igualmente a verdadeira arma de Apolo.»
E ainda:
«Walter Otto observava que a obtenção dos conhecimentos ocultos "está sempre associada a uma exaltação do espírito", e isso é verdadeiro mormente para o êxtase xamânico, o que explica a importância capital da música e da poesia em ambas as tradições. Os xamãs preparam seu transe cantando e tocando tambor; a mais antiga poesia épica centro-asiática e polinésia teve por modelo as aventuras dos xamãs em suas viagens extáticas. O principal atributo de Apolo é a lira; ao tocá-la, ele encanta os deuses, os animais selvagens e até as pedras.»
Eliade cita alguns personagens cujos mitos apresentam transes extáticos plausíveis de serem confundidos com a morte, bilocação, metamorfoses, descidas ao submundo etc, como: Arísteas de Proconeso, Hermotimo de Clazômenas, Epimênides de Creta, Pitágoras e Orfeu. Então vamos ver quem eram esses que ele mencionou...


Aristéas de Proconeso: Heródoto conta que o 'Ari' fez uma viagem durante a qual foi tido como morto - sumiu sem deixar rastros - e depois voltou, desaparecendo outra vez. Heródoto soube disso por meio dos citas, que souberam pelos issédones. Nos 3 livros "Arimaspea", escritos por Arísteas/Aristéas, os issedos contam sobre um povo fantástico (os arimaspos) que tinham um olho único na testa e viviam no extremo norte da Europa; os arismaspos contam sobre uns guardiões de ouro (os grifos); e os grifos contam sobre seus vizinhos (os hiperbóreos).

De Hermótimo de Clazómenas se dizia que sua alma abandonava o corpo para viajar livremente, e assim ficava por muito tempo antes de regressar. (Assim contavam Plutarco e Plínio, o Velho.) Os antigos diziam também que ele seria uma encarnação anterior de Pitágoras.

Sobre Epimênides alegavam também se dizia que ele podia viajar para fora do corpo e que tivera vidas passadas. Dizem que uma vez ele dormiu por 57 nos dentro de uma caverna.

De Pitágoras e Orfeu, acredito que nem preciso falar.

Um fato pessoal curioso é que, no sonho que tive com Apolo após tocar uma piton albina e lhe fazer uma prece (numa visita noturna ao zoológico de Belo Horizonte em plena lua cheia), ele estava vestido nos ombros com uma pele de animal peludo, numa época em que eu desconhecia sua relação com o xamanismo. Se à primeira vista pode nos parecer incompatível, quando pensamos melhor, faz muito sentido a relação racional do helenismo - dizem que Apolo é o "mais helênico dos deuses" - com uma prática extática como o xamanismo. Mesmo na época em que eu era assistente de xamã, era comum aparecerem deuses gregos nas minhas viagens ("exaltações do espírito", como disse Otto), embora o próprio Apolo só tenha me aparecido numa meditação durante uma aula de yoga, e não em uma viagem xamânica.

Para mim o xamanismo nunca foi uma "religião", e sim uma prática, que está presente em várias religiões. Assim como o reconstrucionismo também não é religião em si, mas uma abordagem, uma forma/maneira de se praticar uma religião politeísta antiga, seja helênica, celta, nórdica, egípcia etc. Por isso não existe uma incompatibilidade a ponto de se engessar em um ou outro sistema de crenças para não causar desequilíbrio. Se Apolo te conduz a uma catarse, um delírio, um transe, uma inspiração, um arrebatamento, um entusiasmo (palavra grega que significa 'ter um deus dentro'), reprimir-se com medo de estar extrapolando os limites da razão é negar um presente cheio de encantos e fechar os olhos a "as visões e a luz que ilumina o futuro".

agosto 07, 2011

Se a montanha não vem, vá até ela

Às vezes me perguntam onde eu encontro os objetos helênicos que tenho, ou como eu consegui 'adivinhar' (colocar em palavras) o que as pessoas andavam precisando ler/ouvir. Mesmo que sejamos instrumentos dos deuses, a gente tem que saber se colocar como tal. Precisamos mudar de cenário.

E, em se tratando de adivinhação, um dos métodos mais antigos é o de perscrutar, descobrir por observação, pela concentração, pela fixação do olhar em algo, como um cristal, uma chama, um espelho, uma pedra, qualquer coisa, libertando a consciência e acessando o mundo de lá. Em inglês o termo é "scrying", um ver claro, um escaneamento através de alguma coisa.

Então, tudo o que a gente realmente precisa é dos cinco sentidos funcionando. Ver, ouvir, cheirar, provar, tocar, são coisas que podemos fazer em qualquer lugar, sem precisar de acessórios como bola de cristal ou baralhos. Einstein dizia que não podemos solucionar os problemas se usarmos o mesmo tipo de pensamento que usamos ao criá-los. Não há como obtermos respostas sem 'trocarmos de estação'.

Por isso é que, se você quer resolver suas dúvidas e encontrar suas ferramentas, você precisa mudar de enquadramento e referência. Ontem eu estava procurando na internet um conjunto de símbolos que eu pudesse usar comigo, e nada me chamou a atenção. Então eu deixei pra lá e fui passear no shopping. Comprei uns DVDs e fui olhar uns anéis, porque o meu preferido (que sumiu por um ano e reapareceu) já sumiu novamente. E eis que, no meio dos anéis, encontro um pingente com motivos gregos e vários símbolos que significam diversas coisas para mim.

Os deuses estão em toda a parte. Se você quer ver coisas diferentes, vá dar uma caminhada. Mude seu pensamento de canal. A maioria das minhas estatuetas eu encontrei em feiras de artesanato quando fui comprar bijuteria ou lojas de decoração quando fui comprar uma vela colorida ou lojas de produtos light quando fui comprar cevada e incenso. Você esbarra com a imagem mais perfeita e não tem como não levar.

Eles - e os daimones que Os acompanham - estão ali, para serem vistos, ouvidos, cheirados, sentidos, acariciados, abraçados... ao vivo e há milênios. Estão enviando mensagens numa borboleta que cruza o seu caminho, em um peixinho que tremeluz aos raios de sol no laguinho da praça, em um galho retorcido de árvore que forma a figura de um sátiro, no padrão geométrico da calçada que lembra um motivo cretense. As respostas estão também nesses lugares. É só saber voltar o nosso olhar para onde iremos descobri-las.

Acredito que, mesmo quem mora em uma metrópole ainda tem como passar por árvores e corpos d'água e outros lugares onde podemos perscrutar. No começo, caminhe com vivacidade, deixando seu coração acelerar, respirando fundo e fazendo o oxigênio fluir ao cérebro. Mantenha-se atento/a, procure por formas aleatórias que possam fazer sentido. Se encontrar, pare e medite. Não ligue se vão lhe olhar e pensar no que você está fazendo parado ali. Quando voltar para casa, aproveite a caminhada para pensar no que viu, conclua sua 'adivinhação'/consulta, e renove sua confiança no conhecimento que lhe foi concedido.

Por vezes ajuda se você pensar em 'naipes' ou 'elementos', como no tarô. Por exemplo, se você está querendo uma resposta sobre coisas intelectuais (como seus estudos), que é um lado mais de 'espadas', do 'ar', você pode procurar as respostas nas formas das nuvens ou na fumaça do incenso. Se quer saber do financeiro, da 'terra', observe árvores, pedras, marcas no solo. Se a questão é sentimental, "leia" o movimento da água. Mas não fique preso/a ao elemento, a resposta pode vir de outro, talvez porque você precise resolver esse outro aspecto para chegar ao que você imagina ser o que está confuso. Normalmente a imagem salta na sua frente e o reconhecimento é imediato.

Se possível, tire uma foto ou faça um desenho do que viu. Guarde-o em seu diário. É legal olhar para trás e ver como os deuses vão nos orientando tão sabiamente. Muitas das coisas que vemos só vão revelar seu completo sentido mais tarde.

Pense na resposta como uma gentileza dos daimones e deidades daquela área específica. E retribua a gentileza deixando uma oferta em agradecimento para a ninfa da referida árvore, ainda que seja uma prece de coração ou a promessa de levar algo depois (lembre-se de cumpri-la). Os espíritos e deuses ficarão mais propensos a repetir o auxílio em lembrança à amizade que vocês desenvolveram e cultivaram.

Com o tempo, também você vai ficando mais 'desperto'. Confesso que vejo coisas novas até nos imutáveis padrões marmorizados dos azulejos do meu banheiro. A gente passa a reparar nos desvios de um gramado, nas rachaduras do granito, no canto trinado de um pássaro, no aroma repentino de um barro de cerâmica, na sensação de areia roçando nossos pés que estão bem longe da praia. Sim, porque não precisamos apenas ver coisas, podemos receber respostas através de todos os outros sentidos. Incluindo do sexto. E dos sonhos, que também é outra mudança de realidade(s).

Mantenha igualmente o bom senso. Cada vez vai ficando mais fácil saber se algo era mesmo um 'sinal' ou pura imaginação da sua cabeça. Mas não se torture demais em dúvidas - em último caso, lembre que também foram os deuses quem lhe infundiram imaginação em sua essência. Se o seu modo de ser inclui uma mente imaginativa, use isso da melhor forma que puder. No mais, confie no que recebeu e espere ter a compreensão correta de tal revelação. Como tudo na vida, a comunicação com Eles também se desenvolve através da prática e de muito treino. O que não pode é parar de se abrir e desistir antes de tentar.

março 12, 2011

Religião, Ciência, Psicologia

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

Tudo, em toda a parte, possui uma ordem, uma lógica, que nos faz interligados. Hermes Trismegisto já dizia que o que está em cima é como o que está embaixo e vice-versa. Muitos já observaram como o átomo e o sistema solar são semelhantes - em termos de massa proporcional do núcleo/sol em relação aos elétrons/planetas e em termos de suas órbitas, por exemplo. E, quando estudamos a psicologia/filosofia (si-mesmo), a ciência/natureza (universo) e a religião/mitologia (deuses), essa máxima délfica acima demonstra cada vez mais a sua veracidade.

Bem ou mal, nosso limite é o sistema solar. A gente sabe pouco lá de fora dele. Sim, houve o telescópio Hubble como pioneiro (que existe apenas há quase 21 anos e que será desativado daqui a mais uns 4) e existiram algumas sondas que mais mandaram informação lá para fora do que trouxeram, mas uma das historinhas curiosas com relação a isso, que me fez pensar, foi a de uma sonda posterior que atingiu uma região de choque, uma camada turbulenta, ao se aproximar dos confins do sistema solar, bem ali perto de Netuno. Os antigos já falavam sobre existir uma espécie de barreira intergaláctica, e Netuno (Poseidon) é o deus responsável pelos terremotos e turbulências. Sempre que a gente chega numa situação limite, também ficamos 'balançados', 'sacudidos'. Universo, deuses, si mesmo, funcionam parecido. Conhecendo um, alcançamos a compreensão dos outros. E o que mais temos para observar, onde quer que vamos, somos nós, e em seguida a natureza.

A religião antiga se aproxima mais da ciência do que da religião moderna. Principalmente porque a religião antiga era centrada em conhecimento, não em dogmatismos como acontece na religião estabelecida pelos cristãos. Antigamente, o culto ao sagrado era uma questão de lógica, de evidência, de racionalidade, de fazer sentido. Inclusive você era justo com o próximo porque isso era parte de uma virtude racional e não porque um messias lhe ensinou a ser assim. Para os gregos, a religião ("theôn timaí" = 'veneração dos deuses') não era tanto uma questão de fé (pistis), sobre a qual não existe nenhum mito (o que existia era ser 'temente aos deuses', o "theoudés" da Odisseia, como uma virtude que garantia as outras), apenas os romanos é que começaram a trazer a noção de fé (fides). O verbo grego pistestai significa algo como "convencer, deixar-se convencer, seguir", e eles não precisavam ser convencidos nem convencer ninguém da existência dos deuses.

Quando nós - reconstrucionistas helênicos - estudamos (e somos tidos como nerds por isso) com a intenção de usar a teoria para orientar a nossa prática, mesmo sem querer acabamos encontrando evidências que nos maravilham e fortalecem nossa identificação com a cultura e os valores helênicos. Se você ler sobre os 3 Logos dos quais fala a filosofia, ler sobre os 3 fogos mencionados no oráculo caldeu, e pensar na estrutura de uma célula demonstrada pela ciência, vai conseguir relacionar essas coisas entre si, e mais uma vez confirmar a máxima délfica. Tanto a filosofia (si-mesmo) quanto o oráculo (deuses) e a célula (universo), falam de algo que cria, de onde partem as coisas; de algo que organiza as informações; e de algo que realiza essa inteligência no mundo sensível, dando-lhe inclusive uma forma física. Você pensa em fazer um copo, você reúne o que precisa para construí-lo e então efetivamente o faz. Existe uma inteligência criadora/organizadora, ela delimita o que vai usar como mensagem, e apresenta esta mensagem ao mundo. Você tem o DNA do núcleo, um meio circulante do citoplasma, e uma membrana que dá forma e permite trocas com o meio. O oráculo caldeu inclusive diz que quem fica nos limites de tudo, como intermediária, guardiã das chaves, senhora das fronteiras, é Hécate. Ela conduz as almas do mundo de lá para o de cá e vice-versa. Ela escolta Perséfone nas suas vindas e idas do submundo à Terra. Eis uma revelação divina que pode ser descoberta através de reflexões filosóficas e observações do universo, sem precisar simplesmente 'acreditar' num mito ou epíteto de Hécate.


Na maioria das vezes, o que nos falta é conhecer esse si-mesmo. Não somos nossos corpos, nosso trabalho, nossa personalidade, nossas habilidades, formações e gostos. O verdadeiro Ser que compartilhamos é outro 'esquema', outro 'lance'. Por isso acredito ser importante que se leia o trabalho dos filósofos e dos cientistas para se entender os deuses, em vez de se ler apenas mitologia e achar que aquilo é história literal. Se os mitos fossem a soma do que deveríamos acatar como verdade, os gregos teriam um livro sagrado reunindo esses mitos, coisa que eles não têm. Não existe um manual; o que você precisa é olhar para si e olhar em volta. Só assim vai perceber os deuses em tudo isso que há por aí, inclusive em você e no outro.

abril 27, 2009

Seguindo os sinais

Este mês tive uns sonhos com alguém que não via há muito tempo e acabei procurando saber da pessoa, descobrindo que estava com uma doença grave e precisava da única ajuda que posso dar à distância, a espiritual. Fiquei feliz por ter seguido meus sonhos e intuições em vez de ser orgulhosa e não ir atrás. Quando atendemos a esses avisos que na hora não entendemos, acabamos tendo a compreensão posterior dos mesmos.

E, por falar em sonhos, também este mês me dei conta de que o nome dado ao ursinho de pelúcia que dorme comigo - Órion - é anagrama de Oniro ("sonho", em grego). Nada mais propício, rsrsrs.

Às vezes não sabemos de onde vêm os sonhos, os presságios, as intuições, as visões, as imagens em estado meditativo, os encontros estranhos, as impressões de termos sido chamados, a sensação de uma presença etc. Então esbarrei num artigo que nos auxiliar a clarificar um pouco quem resolveu falar conosco afinal. Traduzo-o e resumo-o aqui, do meu jeito. O original completo em inglês é de Anya Kless e está no blog "The Gods' Mouths". Eis:

1. Verifique se trata-se mesmo de um(a) deus(a).
Muitas coisas podem bagunçar com o reino humano além de uma deidade, incluindo ancestrais, anjos, demônios, espíritos errantes e tal, especialmente se você for medium. Espíritos podem se mascarar de deuses ou de outros espíritos de forma bem convincente. Como saber? Leia os sinais e presságios, consulte métodos divinatórios, principalmente com outras pessoas (mesmo que você leia tarot e oráculos, às vezes só vemos o que queremos ver, é bom ter uma opinião de fora).

2. Descubra quem é e o que quer.
Às vezes os sinais são bem claros, pra onde você olha você vê o nome ou imagem dele(a), como se os livros saltassem da estante. Nessa hora, em termos de iconografia, o panteão que trabalhamos pode nos confundir um pouco, fazendo-nos achar que se trata de Hermes quando era Mercúrio ou Loki, por exemplo. Uma boa alternativa para não se confundir é você checar como uma deidade tem costumeiramente aparecido para as outras pessoas e ver se combina com a sua experiência com ela. Consultar uma leitura oracular ou pesquisar sobre as deidades também é útil. Procure respostas em lugares improváveis, e pense bem antes de chegar a uma conclusão.

3. Saiba que há muitos tipos diferentes de relações dos deuses com os humanos.
Vocês podem ter um acordo de professor/aluno, mestre/servo, pai/filho, padrinho/afilhado, arquiteto/instrumento, amantes, esposos, amigos etc. E essas relações podem mudar ou se desenvolver com o tempo. Assim como a identidade da deidade, também é fácil se confundir aqui, até porque Ele(a) pode ter uma variedade de papéis conosco, o que nos exige uma variedade de ações e treinamentos. E nada disso é simples.

4. Saiba que você pode ter múltiplos relacionamentos com deuses em permutações bem diferentes.
Você pode - por exemplo - ser servo de Odin, aluno de Loki, filho de seus ancestrais, e eles podem esperar coisas diferentes de você, mas a obrigação que você tem com um não te exime daquelas que você tem com os outros.

5. Nem tudo é diversão e festa.
Se você teve sorte de ter um período de "lua de mel" no relacionamento com Eles, aproveite. Eles vão te apanhar com o que puderem, seja atenção, romance, poder, conhecimento, habilidade, experiência próxima à morte, instabilidade mental, tudo o que te desviar a atenção das coisas que não tenham a ver com Eles. E isso não é exatamente por você, mas porque Eles querem que você faça algo significativo. É aí que você vai ter que enfrentar seus medos e inseguranças, e não vai adiantar se você resistir, tentar ignorar ou se comportar mal. Se fizer isso, Eles te tirarão coisas, te chamarão a atenção e te darão lições para você parar de pensar que está melhor sem Eles. Há algumas deidades que, em vez de nos mostrar o caminho, preferem destruir tudo o que não seja parte desse caminho, e é melhor aceitar e aprender a utilidade disso do que tentar ir contra uma energia destrutiva.

6. As interações dEles com você podem não corresponder às suas expectativas e desejos.
Se você aceitou o serviço, eles não ligam se você gosta ou não do emprego. Você pode chorar, espernear, falar que está insatisfeito, proferir ameaças, mas vai acabar fazendo o que tem que fazer. E nem vai ser besta de tentar negligenciar as coisas ou trair a confiança dEles. Está certo que esse é um emprego que "paga bem", porque as recompensas são incontáveis, mas se trata de um cargo de muita responsabilidade, então não assuma a vaga como algo já seu e seguro, sem precisar fazer nada para mantê-la.

março 16, 2009

À portadora das chaves

"Um cão de olhos negros, ele me chamou na minha porta
O cão de olhos negros, ele pediu por mais
Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome
Eu estou ficando velho e quero ir pra casa
Eu estou ficando velho e não quero saber..."
(Nick Drake, 'Black Eyed Dog')

Estes dias o que notei de curioso foi que eu e mais dois amigos helênicos (até onde sei, mas quem sabe aconteceu com mais gente) sonhamos com uma cadela preta. Isso nos lembrou de Hécate.

Normalmente as pessoas pensam apenas na associação dEla com a magia, a bruxaria, as práticas da Trácia, suas três faces, a encruzilhada etc. Porém, não vamos ser limitados. Vamos ver pelo menos mais duas outras coisas de Hécate aqui:

# Primeiro, Hécate Trioditis, a que cruza os três mundos (Olimpo, Terra e Hades) nos dá três opções. E desta vez, conversando com uma das duas pessoas que também tiveram o sonho, eu diria que as nossas opções são duplas em cada um desses três caminhos: desamarrar-nos ou ficarmos presas ao passado; auxiliar ou prejudicar projetos de futuro; e viver ou se recusar a experimentar o presente.

A cadela negra do meu sonho parecia satisfeita e confiante em mim, como se soubesse que eu estava sendo sincera e faria a coisa certa. E eu escolho me desatar do passado para poder liberar meu futuro e ser plena no presente. Já a minha amiga, que está custando mais a se desapegar do que precisa deixar para trás, pensava na cadela do seu sonho no sentido de como ela poderia ter tanta idade e ainda estar viva, e eu - ampliando - lhe perguntei 'como pode algo passar tanto tempo e ainda existir?'. Hécate para ela parecia apontar que há outros caminhos na encruzilhada, outras possibilidades.

De qualquer forma, é esse desapego que me leva ao meu segundo ponto...

# Segundo que a gestação se realiza num local escuro. Estamos próximas à primavera de Eleusis, quando Perséfone sai do Hades e vem ao mundo terreno. Perséfone é como uma porta para o inconsciente, mas -ficar parada diante da porta- faz dela não uma passagem, e sim um obstáculo. Precisamos atravessá-la e ir para algo mais fundo, para a deusa que ajudou Deméter a encontrar Perséfone, e é justo nessa troca com Hécate que se pode aproveitar melhor a sabedoria de um mundo transpessoal e sem fronteiras.

Sei que muita gente andou com o senso de direção meio perdido, mas a gestação de que falei - ainda que se realize no escuro - acontece em um meio líquido. Flutuamos na água antes de emergir renovados para o mundo. Limpos e prontos para sair dali vislumbrando um horizonte infinito de opções e novas descobertas. Ou de voltar para o lar do nosso ser do qual não deveríamos ter nos desviado por nada nem ninguém...

março 15, 2009

Só para complementar o último post:

Minha 'Carta do Dia' no site Personare:
"Carta do Dia (Personare): O Ceifador

A importância de deixar ir

Cultivar o desapego é um dos conselhos fundamentais dado pelo arcano chamado “O Ceifador”. Existem momentos da vida em que somos desafiados a perder cascas, a compreender a importância de caminhar, deixando paisagens para trás. Ainda que isso doa, uma vez que nosso ego se estrutura a partir de apegos e identificações, é a compreensão meditativa de que tudo passa que lhe permitirá seguir caminhando e, enfim, abrir-se ao novo que belamente se introduz em sua vida, pouco a pouco, passo a passo, até que você apareça com a alma totalmente renovada. Procure se interiorizar neste momento, evitando grandes atividades sociais. Faça este contato com o núcleo da sua alma e você entenderá quais são as coisas que precisam ser deixadas para trás.

Conselho: Viver é perder cascas continuamente!"

março 01, 2009

Mais sincronicidades: a serpente e a torre

No último post, falei da Kundalini. Pois bem, sem relação alguma, leio sobre o site de um Anubis Oracle para testar a leitura online, e o que me sai? Entre outras 3 cartas, a carta da deusa-serpente Wadjet, cuja interpretação traz estas partes: "Você pode estar experienciando um poderoso processo de purificação que pode se expressar como um despertar da kundalini" e "Wadjet espirala seu caminho para dentro de nossas vidas, abrindo e limpando os centros dos nossos chakras com sua energia de kundalini (ou de força de vida)". Até no Egito tem yoga? Rsrsrs!

As imagens que encontrei de Wadjet lembravam mais uma naja, sendo que quando pesquisei da kundalini encontrei uma naja dourada com uma espécie de 'psi' desenhado nela (figura abaixo). Ah, e - por falar em serpente - em Creta, Dionísio teria difundido o segredo da serpente e do touro, sendo a serpente (que renasce) mãe do touro (que fertiliza). Meu signo ocidental é touro e, no chinês, sou serpente.


Outro dia, mencionei como a Torre tem se repetido nas minhas leituras do tarô. Pois bem, seguindo onde falava do Anubis Oracle, indicaram depois o site de um Tarô Egípcio, também com leitura online. Qual a carta que sai? Bom, melhor vocês conferirem lá mesmo o meu resultado, clicando AQUI.

E, nessas horas, até novela serve de oráculo, quando liguei a TV para botar o DVD do filme que iria assistir e estava o cara citando o livro do Gita, falando que as circunstâncias são neutras, que somos nós que temos a atitude de conferir um valor positivo ou negativo a elas, de acordo com nosso desejo ou intenção.

Ontem de madrugada fiz uma escrita intuitiva e ela também confirmou esse meu momento de transformação. Eu sinto, vejo, percebo, é notável. Até porque foi decidida, por ser iminente. Era mudar ou sucumbir... Como a Torre.

Como diz a filosofia de um amigo meu: 'desapego express'.

Agora só falta "fazer a cobra subir", rsrsrs!

fevereiro 20, 2009

Divagando

Na madrugada de terça para quarta-feira joguei o Tarô Mitológico e, para variar, ele falou tanta coisa certa que eu às vezes fico rindo na hora da leitura, de tão na cara que ele me dá, rsrsrs. Mas tem uma carta que desde os últimos meses de 2008 para cá anda reaparecendo. Desta vez não foi propriamente nas 10 cartas, mas por eu pedir uma carta extra para entender que tipo de mudanças eram aquelas das quais o jogo falava. E aí veio ela de novo: a Torre, Poseidon.

Fico imaginando nas trocentas coisas que posso entender dessa carta. A maioria delas é daquele tipo que, embora dê medo (por exemplo, dessa coisa que se desconstrói quer eu queira ou não), também traz um alívio (como o de não ter que carregar mais certos blocos de pedra). Sei que pode parecer difícil imaginar as consequências positivas de um terremoto "poseidônico", mas creio andar mesmo precisando derrubar/demolir certas coisas para ser mais livre.

O que me lembra o mineiro "Libertas Quae Sera Tamen" (liberdade, ainda que tardia), frase a qual - quando pequena - eu achava que significava 'liberta que serás [livre] também', rsrsrs! Não deixa de fazer sentido, não é? Libertar os outros faz-nos tirar nossas próprias amarras. Crianças são sábias! Talvez por ainda estarem com o conhecimento adquirido de outras vidas mais fresquinho. Acho que as águas do rio Lethes (rio do esquecimento) vão fazendo mais efeito com o tempo. Minha memória anda meio ruim para as coisas dos últimos anos, que dirá de outras eras...

Mas então, antes que eu me esqueça também, resolvi atender ao pedido da nayla e trouxe um som da Ana Vissi para curtirmos. Então fiquem com o vídeo, letra e tradução (porque, se é pra mostrar, vamos mostrar direito! hehehe):



Είσαι στο αίμα, στις φλέβες, στα κύτταρά μου
Estás no meu sangue, nas minhas veias, nas minhas células
Είσαι στον αέρα, που αναπνέω, στη μοναξιά μου
Estás no ar, o qual respiro, na minha solidão

Είσαι η μέρα μου, είσαι η νύχτα μου, είσαι το λιώμα μου
És meu dia, minha noite, meu vinho
και τα ξενύχτια μου, είσαι ο παράδεισος στις παραισθήσεις μου
E minhas noites sem dormir, és meu paraíso em minhas alucinações
Είσαι το κάρμα μου κι όλες οι αισθήσεις μου, χαχα, χαχα
És meu carma e todas minhas sensações, haha, haha

Εσύ, τη ζωή μου ορίζεις, εσύ, το μυαλό μου τρελαίνεις
Tu determinas minha vida, tu enlouqueces minha mente
Εσύ σε όλα υπάρχεις, εσύ κι ας μην είσαι εδώ
Tu estás em todas as partes, ainda que não estejas aqui...