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dezembro 18, 2016

Balanço de fim de ano



Na minha vida pessoal, realizei algumas coisas este ano: namoro, carro, celular, ajudar meus pais, perder alguns medos. Mas, de um modo geral, 2016 foi um ano difícil em muitos aspectos: no mundo cultural perdemos grandes artistas, na política passamos por golpes e vimos resultados bizarros de eleições e tivemos perdas de direitos, no mundo metafísico vi muita gente sendo chacoalhado em suas crenças. Entre outras coisas que não vem ao caso escrever. E, voltando ao lado pessoal, estou meio indefinida com relação a trabalho… e meu peixe morreu. 

Quando você está de luto - seja pelo seu artista ou pelo seu país ou por uma ilusão ou sonho que perdeu - fica difícil estabelecer uma rotina religiosa de gratidão. Fica difícil focar no mundo invisível quando sua dor é real e o estresse te ocupa os dias.  

Então a gente cai naquela armadilha de fazer pouco quando mais deveria estar se apegando ao sagrado para se manter com esperanças. E se desanima. Você se sente abandonado, e Eles teriam o direito de se sentirem impacientes com você. 

Por um lado fico me perguntando se não deveríamos focar nas coisas boas e parar de reclamar, por outro fico percebendo que quem é otimista demais acaba não se mobilizando a mudar o que está errado. Com relação à política, vejo muita fala e pouca ação, muita gente se acomodando, achando ruim mas com medo de fazer algo que se prejudique ou que o tire do conforto da rotina garantida. Já com relação a crenças e relacionamentos, vejo muita reclamação de desejos não satisfeitos e pouca gratidão pela “sorte” (presente, dádiva) que temos de ter alguém - seja olhando por nós seja nos querendo. 

A verdade é que nossa memória é muito seletiva e atraída ao que nos convém. Muitas vezes este ano recebi graças dos deuses quando nem estava pedindo (estava só agradecendo o favor anterior), mas quando algo não acontece como a gente quer… aí já começamos a dizer que estamos com as crenças abaladas. Não está certo. E fim de ano é tempo de rever suas atitudes. 

Se você é de algum modo formador de opinião, se tem muitos seguidores, seria um desperdício não aproveitar essa força para mobilizar e inspirar atitudes de mudança. Acredito que a palavra para o próximo ano é coragem. Temos vivido muito anestesiados e acomodados e com medo de reagir, ficamos só assistindo os nossos direitos serem tomados e os outros nos imporem como devemos nos comportar e pensar e viver. Confiamos demais no “jeitinho brasileiro” que vai driblando as dificuldades como pode em vez de corrermos atrás de uma vida plena de verdade. 

Eu mesma estou considerando sair da minha zona de conforto de um emprego com ótimos benefícios e ir atrás de algo que faça mais diferença no mundo. Eu dizia que o que me incomodava era as pessoas perguntando por que alguém com a formação que tenho estaria num lugar tão burocrático e limitado, sendo que eu me sentia feliz ali, mas na verdade o que me incomoda talvez seja meu próprio comodismo e medo. Comodismo do apego aos benefícios materiais. E medo de não dar conta de algo maior, medo de não ser capaz de ser excelente em uma área com responsabilidades mais grandiosas. 

E, se eu convivesse com alguém com essas características, provavelmente ficaria impaciente algum dia. Não quero que os deuses me vejam assim. Quero voltar a ser alguém que os deixe orgulhosos. Quero vencer novas batalhas internas e conseguir atuar essas vitórias no mundo externo. Por isso espero que a palavra para 2017 seja coragem. Para romper barreiras, para se permitir tentar fazer dar certo, para agir de verdade e reagir diferente. 

Dizem que 2017 terá a regência de Saturno e Vênus. Na Kronia falamos de nos libertar das nossas amarras, na Aphrodisia celebramos Pandemos, que une a população em um único corpo social e político com a noção de comunidade, de “morar juntos” (synoikismos). Nós todos habitamos o mesmo espaço e precisamos fazer dele um lugar melhor para vivermos. Já está na hora. Senão o Tempo (Cronos) acabará por nos engolir. 


novembro 13, 2016

o lado astral do natal

Desde 10.000 AEC existem pinturas e registros arqueológicos que refletem o respeito e a adoração pelo sol. Também se observavam as estrelas para saber coisas como eclipses e fases da lua. Uma das figuras mais antigas da história humana é a roda zodiacal. Ela reflete o trajeto do sol pelo ano, 12 meses, 4 estações etc. As civilizações personificavam o sol e as estrelas com figuras humanas ou animais e elementos da natureza significativos naquela época do ano.

Há vários mitos, desde 3.000 AEC, – no Egito, Frígia, Pérsia, Grécia, Índia etc – sobre um filho de deus nascido de uma virgem, anunciado por uma estrela ao leste, adorado por reis, com feitos miraculosos, que passou pela morte e ressurreição ao terceiro dia, com títulos como ‘a verdade’, ‘a luz do mundo’, ‘filho ungido de deus’, ‘bom pastor’, ‘o cordeiro’, ‘o alfa e omega’, e até com dia de adoração no domingo (em inglês “Sunday”, dia do sol). Muitas deidades e heróis do mundo todo preenchiam características semelhantes. Mas por que esses atributos?

É astrológico. A estrela mais brilhante no céu na noite de 24 de dezembro é Sírius, que nesse dia se alinha a leste com as três estrelas mais brilhantes do cinturão de Órion – os três reis. Elas apontam para o local de nascimento do sol a 25 de dezembro, ‘seguindo’ a estrela do leste (Sírius).

A constelação de Virgem é conhecida como “a casa do pão”, sua representação é uma mulher segurando um galho de trigo. Virgem é o signo entre agosto e setembro, tempo da colheita. O nome original da cidade de Belém,“bethlehem”, signfica “casa do pão”.

A 22 de dezembro ocorre o solstício de inverno no hemisfério norte, os dias ficam mais curtos, o sol parece menor, há a perda da colheita, a escuridão, tudo que se associa à morte, no caso a morte do sol. Nesse dia, o sol pára de se mover para o sul (para onde se movia por seis meses), fica ali por três dias (22, 23, 24), e nessa pausa ele reside nas redondezas da constelação do Cruzeiro do Sul (uma cruz). No dia 25, ele se move um grau para o norte, prenunciando dias melhores, mais calor, e a primavera. 

O sol morreu no cruzeiro/cruz, ficou inerte/morto por três dias e se reergueu/ressuscitou. No entanto, a ressurreição só é celebrada na Páscoa (na primavera), que é quando o sol oficialmente domina as trevas e a vida renasce.

Quanto aos 12 discípulos, seriam as doze constelações ou casas astrológicas com as quais o sol viaja.

Na cruz do desenho do zodíaco, o sol fica ao centro, por isso, nas primeiras representações de Jesus, ele tinha atrás da cabeça uma roda com a cruz. Ele é “a luz do mundo” que “afasta as trevas”, que “renasce”, que pode “ser visto através das nuvens” (todas menções bíblicas). A própria coroa de espinhos pode representar os raios do sol.

(do documentário Zeitgeist)

Nas escrituras, há inúmeras referências a “eras” ou “idades”. Precisamos aqui entender a precessão dos equinócios. Os egípcios e outras culturas anteriores reconheceram que, a cada 2.150 anos, o nascer do sol na primavera ocorria num signo diferente do zodíaco, por causa da lenta oscilação angular da Terra. As constelações aí vão para trás (precessão). As antigas civilizações chamavam esses 2.150 anos de “era”. De 4300 AEC a 2150 AEC era a era de touro, de 2150 AEC a 1 EC a era de áries, de 1 a 2150 a era de peixes e a partir de 2150 seria a era de aquário. Moisés quando desceu do monte ficou aborrecido por ver o povo cultuando um touro. Moisés representa a era de áries, por isso até hoje os judeus sopram o chifre do carneiro.

Em outras culturas, Mitra mata o touro, Teseu vence o minotauro, por exemplo.

Jesus seria o portador da era de peixes. A constelação é representada por dois peixes. Jesus alimenta as pessoas com pães e 2 peixes. Na Galiléia, conhece 2 pescadores que o seguem. O símbolo do cristianismo é um peixe. E se assumiu que o seu nascimento tenha sido no ano 1 dessa era, mesmo que alguns estudiosos digam que ele nasceu alguns anos antes.

Em Lucas 22,10, Jesus fala sobre um ‘homem carregando um cântaro de água’ e diz para os discípulos o seguirem até a ‘casa’ onde ele entrar. Esse é o símbolo de aquário, a próxima casa astrológica. Quando em Mateus 28,20 Jesus diz que estará com eles até o fim do “mundo”, essa palavra foi mal traduzida, pois ele teria usado “aeon” (“era”). Ele está até o fim da era. A era de peixes. Não é um “fim do mundo”.

Para não me estender em outros temas que não o natal/nascimento, termino o texto aqui, mas deixo a questão de se buscar a referência astrológica ou astronômica por trás das coisas em comum nos mitos das mais diversas culturas.


janeiro 30, 2014

Lua Negra ou Lua Nova?

Dentre as fases da lua, a lua cheia e os seus efeitos são os mais fáceis de se perceber. A lua negra já é mais sutil, embora seja tão poderosa quanto.


Enquanto a lua cheia dura um dia, a lua negra corresponde a três. No primeiro e no último desses três dias, existe uma minúscula faixa de lua (mesmo que só visível com equipamento adequado). Apenas no segundo dia, é que a lua realmente 'desaparece', e esse é o verdadeiro dia de lua negra, o dia limítrofe entre uma coisa e outra, um momento fora do tempo.

Chamar a lua negra de “lua nova” não é muito preciso e leva a muitas confusões. A lua nova seria o terceiro dia da lua negra. Pode-se achar que é uma questão de nomenclatura e que não precisamos ser tão acurados com reação à ausência de lua visível no céu, mas isso só será verdade se você não se interessar por (ou for incapaz de sentir) as energias sutis que afetam o planeta e nossas vidas nesse período. Mas, caso se interesse e/ou seja perceptivo, notará que se tratam de dois momentos distintos.

Na Grécia Antiga, o dia da lua negra era dedicado à deusa Hécate, e seu Deipnon (jantar/ceia) sagrado era celebrado naquele dia, o que ainda é feito pelos praticantes de hoje. Mas o dia “certo” não é uma questão de interesse apenas para os helênicos. 

Alguns dias do calendário são uma questão de escolha mútua em uma comunidade, de uma convenção social. Por exemplo, o Ano Novo cai em dias diferentes em culturas diferentes (ano novo do calendário gregoriano, ano novo judeu, chinês, helênico, hindu etc). As fases da lua, no entanto, não dependem da opinião popular.

A lua negra não é um dia de novos começos (não é lua “nova”). A noite de lua negra é um momento fronteiriço, ausente de tempo cronológico, no qual pensamentos e ações dirigidos para fora têm pouco efeito, mas quando a alquimia interna é poderosa. Para aqueles que desejam a refrescância dos novos começos, a lua nova (ou seja, o terceiro dia de lua negra) é o dia mais prático e sensível para essa abordagem. A lua negra de verdade é um dia para se voltar para dentro, para ficar em silêncio, e para se 'preparar' para a ação, e não para 'iniciar' alguma nova ação.

Não faz mal chamar a lua negra de lua nova (até porque teríamos que prestar atenção em qual dos 3 dias ela está), mas se você quiser mesmo experimentar e fazer fluir as energias certas que tenham um efeito real na sua vida, é bom compreender as sutilezas e os poderes naturais dessa diferença.

dezembro 20, 2013

O bacanal não é no natal...

... e Dioníso não é 'Djísus'.


Nesta época do ano, começam a dizer que o 25 de dezembro era originalmente o aniversário de deidades antigas que foi assumido como o natal cristão. Se você falar de Mitra, é até aceitável. Se falar que o Natal teve origem no Sol Invictus ou na Saturnália, OK também. Mas dizer que era o nascimento de Dioniso, não bate. Você até pode celebrá-lo, afinal, existe o festival moderno dos "12 Dias Dionisíacos", e porque - sinceramente - sempre é época de cultuarmos Dioniso e celebrarmos sua energia de liberdade. Basta você não dizer que "na antiguidade" ele nasceu em dezembro, porque não há nada que confirme isso. 

Dioniso tem sim muita coisa a ver com o Jesus cristão em muitos aspectos que não precisamos elencar de novo aqui, mas não significa que são iguais, pois suas diferenças são maiores do que suas semelhanças. E uma delas é que não havia na Grécia Antiga um festival a Dioniso no solstício de dezembro. 

Primeiro de tudo, não existia "dezembro", o calendário era com ano solar e meses lunares, variava muito em relação ao calendário que conhecemos e utilizamos hoje, o gregoriano. Pode ser que houvesse um festival num dia do mês de Poseideon que - em algum ano aleatório - caísse no 25 de dezembro, mas isso não aconteceria todos os anos e demoraria um pouco a cair de novo na mesma data. 

Segundo, Dioniso nasceu várias vezes. Qual aniversário as pessoas alegam estar comemorando? O dia em que ele saiu dourado e alado do ovo órfico (Fragmento Órfico, 54), quando ele nasceu em Creta de Zeus e Perséfone (Biblioteca Histórica, de Diodoros Sikeliotes, 5.75.4), quando ele surgiu das chamas que queimaram Semele (Teogonia, de Hesíodo, 940), quando ele saltou da coxa de Zeus após completar sua gestação (Biblioteca de Apolodoro, 3.28), quando ele veio de Demeter (Diodoros, 3.62), de Dione (Escolástica em Píndaro, de Pitágoras, 3.177), de Amaltheia (Diodoros, 3.67), de Isis (Alexarkhos, fragmento 3.324), do Indus (Vida de Apolônio, de Filostrato, 2.9), do Lethe (Simposíacas, de Plutarco, 7.5) ou de outros tantos progenitores que se alega serem seus pais?

Terceiro, será que algum desses nascimentos foi no solstício de dezembro, início do inverno na Grécia? Vamos ver?

Diodoros (3.66.3) menciona um festival de nascimento de Dioniso em Teos: "Os teanos afirmam como prova de que o deus nasceu entre eles o fato de que, até hoje, em períodos fixos na sua cidade, uma fonte de vinho, de incomum fragrância doce, flui sozinha da terra”. Alguns acham que esse período fixo fosse no inverno, porque havia um milagre parecido em Andros, registrado por Plínio, o Velho: “Muciano, que foi três vezes cônsul, acredita que a água que flui de uma fonte no templo do Liber Pater na ilha de Andros sempre tem o sabor de vinho no dia 5 de janeiro: o dia é chamado de Dia do Presente de Deus... Se os jarros são carregados para fora da vista do templo, o gosto volta a ser de água." (História Natural 2.106; 31.16). Essa identificação tem alguns problemas, no entanto. Primeiro que as duas ilhas são muito longes uma da outra - Telos na Beócia e Andros na Eubeia - e com culturas muito diferentes. Segundo que Plínio não fala em nascimento do deus, e sim mais em uma epifania com Dioniso dispensando seus dons à humanidade de uma forma memorável. Não podemos dizer que sempre que um milagre de vinho acontece - por exemplo, quando as mênades em êxtase fazem sair vinho do chão ao baterem com o tirso nele - significa que o bebê Dioniso vai nascer.

Aelian (Sobre os Animais 12. 34) reconta um festival dionisíaco onde o nascimento do deus com chifres de touro era dramatizado: "As pessoas de Tenedos mantém uma vaca prenhe para Dioniso Anthroporraistos (Assassino de Homens) e, assim que ela tem seu bezerrinho, eles cuidam dela como se fosse uma mulher de resguardo. Eles colocam coturnos no bezerro e o sacrificam. Mas o homem que usou o machado recebe uma saraivada de pedras atiradas pela população, e ele foge até chegar ao mar." Mesmo não fornecendo datas, sabemos que esse festival não era no inverno, porque a temporada de parto do gado na Grécia é durante a primavera e o verão. Inclusive, Pausânias (8.19.2) menciona que no vilarejo arcadiano de Kynaithai, durante um festival de inverno, homens carregavam um touro (escolhido por inspiração divina) nos braços até o santuário, mostrando que o animal tinha atingido seu tamanho ideal nessa época do ano. 

Píndaro também menciona (Frag. 75) um festival em Tebas honrando Semele como mãe de Dioniso, mas este acontece “na abertura da fragrante primavera, quando as Horas trazem as plantas que exalam néctar” e “a terra imortal é decorada com violetas adoráveis e donzelas entrelaçam rosas em seus cabelos e cantam docemente acompanhadas de flautas para a deusa que ama a dança”. Essa seria uma boa razão para não crermos que Dioniso nasceu no inverno, pois no inverno as videiras parecem ramos inférteis. Dioniso tem uma conexão tão poderosa com o ciclo de vida das plantas que não faria sentido alguém dizer que essa é a época em que mais sentimos a 'juventude exuberante do deus'. Pareceria mais apropriado dizer isso na primavera, como Plutarco escreveu (Sobre Ísis e Osíris 69): “Os frígios acreditam que o deus dorme no inverno e acorda no verão, e com frenesi báquico eles celebram naquela estação o festival de ele ser ninado até o sono, chamado Kateunasmous, e na outra celebram seu despertar com o Anegerseis. Os Paflagonianos declaram que ele é agrilhoado e preso durante o inverno, mas que na primavera ele se move e se liberta novamente”. 

Diodoros (4.3.2-5) dizia que, em outras regiões, essa sequência não era encenada todo ano, mas ano sim e ano não, mantendo a rotação dos campos e o ciclo de vida da uva: "Os beócios e outros gregos e os trácios, em memória da campanha na Índia, estabeleceram sacrifícios ano sim e ano não para Dioniso, e acreditam que nessa época o deus se revela aos seres humanos. Consequentemente, em muitas cidades gregas, bandas de mulheres se reúnem ano sim e ano não, e é permitido às donzelas carregarem o tirso e se unirem na frenética folia, gritando 'Evoé!' e honrando o deus; enquanto as matronas, formando grupos, oferecem sacrifícios ao deus e celebram seus mistérios e, em geral, exaltam com hinos a presença de Dioniso, desta maneira agindo como mênades que, como registra a história, eram as antigas companheiras do deus".

Está certo que, em Delfos, esses ritos provavelmente aconteciam no inverno, conforme Plutarco (Sobre o Princípio do Frio, 18) que conta das Thyiades, as mulheres que celebravam os ritos de Dioniso, cujo nome vem de 'thýo' (sacrificar): "O frio é perceptível nas coisas mais duras e faz as coisas ficarem duras e inflexíveis. Teofrasto, por exemplo, nos diz que quando peixes congelados são soltos no chão, eles se quebram e partem em pedaços assim como objetos de vidro na louça de barro. E, em Delfos, você mesmo já escutou, tem o caso daqueles que escalaram o Parnaso para resgatar as Thyiades quando elas ficaram presas por um forte temporal e tempestade de neve, que as capas delas estavam congeladas tão duras como madeira que, quando as abriram, elas quebraram e partiram.” Mas o inverno era a época em que Dioniso controlava a Delfos de Apolo pois o arqueiro tinha partido para as Hiperbóreas, também conforme Plutarco (Sobre o E em Delfos, 9): "Dioniso não tem menos a ver com Delfos do que Apolo, embora Dioniso - a quem eles chamam Zagreus e Nyctelios e Isodaites - não é constante, e Apolo é. Há a sua passagem e a distribuição em ondas e água, e terra, e estrelas, e plantas e animais que nascem - e essa transformação eles descrevem como uma rendição e desmembramento. Pois Ésquilo diz: 'Em gritos misturados o ditirambo deve soar, com Dioniso festejando, seu Rei'. Mas Apolo tem o Peã, uma música sóbria e rígida. Apolo está sempre jovem e imutável; Dioniso tem muitas formas e muitas figuras, como representados nas pinturas e esculturas, que atribuem a Apolo a suavidade e a ordem e a gravidade sem mesclas, e a Dioniso uma mistura de esportividade e atrevimento, com seriedade e frenesi. [...] Os períodos em que eles governam não são iguais, são chamados 'saciedade' os mais longos e 'escassez' os mais curtos, preservando uma proporção, e usam o peã com seus sacrifícios para o resto do ano, mas no começo do inverno revivem o ditirambo, e param o peã, e invocam este deus em vez do outro, supondo que essa razão/proporção de três para um é a do 'Arranjo' da 'Conflagração'". 

E, um pouco depois de Dioniso dar caminho a Apolo que retornava a Delfos - ou seja, na primavera -, os atenienses celebravam a Anthesteria ou 'festa das flores', o casamento sagrado do deus com a rainha que trazia fertilidade à terra (Demóstenes, Contra Neaira 73-76): “E esta mulher ofereceu a você em nome da cidade os ritos sagrados inenarráveis, e ela viu que era apropriado a ela, sendo uma estrangeira, ver; e, sendo uma estrangeira, ela entrou onde nenhum outro ateniense, exceto a esposa do rei, entra; ela administrou o juramento às 'gerarai' que servem nos ritos, e ela foi dada a Dioniso como sua noiva, e ela executou em nome da cidade os atos tradicionais, muito sagrados e inefáveis, dirigidos aos deuses. Em tempos antigos, atenienses, havia uma monarquia em nossa cidade, e o reinado pertencia a aqueles que se sobressaíam por serem nativos. O rei costumava fazer todos os sacrifícios, e sua esposa costumava executar aqueles que eram mais sagrados e inefáveis – e apropriadamente, uma vez que ela era uma rainha. Mas quando Teseu centralizou a cidade e criou a democracia, e a cidade se tornou do populacho, as pessoas continuaram não menos do que antes a selecionar o rei, elegendo-o de entre os mais distintos em qualidades nobres. E eles passaram uma lei de que sua esposa deveria ser uma ateniense que nunca tivesse tido intercurso com outro homem, mas que se casasse virgem, para que, de acordo com o costume ancestral, ela pudesse oferecer os sagrados ritos inefáveis em nome da cidade, e que as cerimônias costumeiras deveriam ser feitas para o deus piamente, e que nada deveria ser neglicenciado ou alterado. Eles inscreveram esta lei em uma estela e a colocaram diante do altar no santuário de Dioniso em Limnais. Essa estela ainda está lá hoje, exibindo a inscrição em desgastadas letras áticas. Portanto, é pelas pessoas que testemunharam sua própria devoção aos deuses e deixaram um testamento para seus sucessores, que requeremos aquela que será dada ao deus como noiva e executamos os ritos sagrados para esse tipo de mulher. Por essas razões, eles a estabeleceram no mais antigo e sagrado templo de Dioniso em Limnai, para que a maioria das pessoas não pudesse ver a inscrição. Pois ela é aberta uma vez por ano, no décimo-segundo dia do mês de Anthesterion.”

Agora vamos pensar: durante o inverno, temos um Dioniso ctônico festejando no topo da montanha com mulheres dançarinas em frenesi, que largam o rei para ficar com ele. Parece um Dioniso bebê? Outra questão: os ritos a Dioniso (Anthesteria, Dionísia Rural, Lenaia etc) se parecem de alguma forma com o natal cristão? Não. Então, se há algum antecedente pagão para o natal, seria a Saturnália e/ou o Dies Natalis Solis Invicti – festivais os quais não têm a ver com Dioniso.

Portanto, se quisermos celebrar Dioniso, que seja sem dizer que é porque os festivais dionisíacos são a origem plagiada pelo natal cristão. Dionísio não é capricorniano. Provavelmente, seria taurino. ];o) 

(Adaptado de fontes extraídas do "Dionysos is not the reason for the season", de Sannion, com comentários meus. Todas as traduções das citações em inglês por Alexandra.)

dezembro 17, 2013

Os 10 problemas mais comuns nos rituais

É claro que o que vamos elencar aqui são erros que vários de nós cometemos enquanto estamos engatinhando na prática de ser politeísta, mas isso faz parte da aprendizagem. Não devemos nos 'martirizar' se nos identificarmos com muita coisa, e muito menos deixar de fazer as coisas por medo de errar; apenas vamos tentar fazer melhor da próxima vez. No geral, essas observações surgem de quando vemos rituais que parecem mais centrados nas pessoas ali reunidas do que nos deuses a que se dedicam. 


1- Forçar intimidade em público

A pessoa decide fazer um ritual a certa deidade que ele não tem nenhum contato, só porque quer a ajuda dela em certo propósito; aí estuda o que ela gosta de receber e chama a galera para o rito onde lê os hinos a convidando para perto. Na cabeça dessa pessoa, que nunca contatou aquela divindade antes, basta fazer umas ofertas que a deidade vai trabalhar pra ela. É tipo, você quer ser cineasta, aí chama o Steven Spielberg pra te ajudar e espera não só que ele apareça na sua casa como te ensine tudo o que ele sabe em troca de lhe servir sua torta favorita. Não interessa se ele nunca ouviu falar de você, que você não conversou com o empresário dele antes, que não o chamou para tomar um café e ficou amigo dele aos poucos, antes de esperar que ele te visitasse e resolvesse seus problemas. Não é o mais lógico? Primeiro, estabeleça um relacionamento com aquele/a deus/a, em particular. Depois que você sentir sua presença mais constante na sua vida, aí sim você pode lhe apresentar seus amigos e fazer um rito público. Não saia exigindo que Apolo lhe faça virar um Beethoven se você não sabe nem de onde veio a lira dele.

2- Chamar e ignorar

A pessoa faz as preces chamando a deidade para perto, daí continua fazendo as coisas do ritual como se nada tivesse acontecido. Ora, você chamou o deus e agora age como se ele tivesse entrado na sua cabeça e pronto. Deixa eu te falar: eles são reais. Sinta-os, escute-os. Você pode ler os hinos, cantar, rezar, falar o que deseja dizer, mas e depois? E na hora de eles retribuírem essa energia, você não faz uma pausa para recebê-la? Quando você sentir que já chegaram, comunique-se com eles. Não desligue o "telefone" antes de eles responderem seu "alô". Pode demorar a estabelecer conexão, mas uma hora dá linha, e não fará sentido ligar pra alguém sem a intenção de escutar a voz dela. E, sabe, na real às vezes a gente não precisa dizer nada, a pessoa (e a deidade) só quer sentir que você está ali por ela. Como disse a Suzana lá no grupo do facebook, "o importante é se expressar de forma bela e solene, seja no silêncio ou nas palavras, o Sagrado requer um tipo de elegância que é estranha ao profano". Seja elegante. O conceito principal do helenismo com certeza é o de 'kalós', o "belo".

3- Esquecer-se da "xenia" (hospitalidade, amizade convidativa)

A pessoa chama a deidade pra sua casa, mas não a trata como um convidado. Não lhe dá conforto e respeito. Parece repartição: "que bom que você chegou, vamos trabalhar". Com um convidado, a gente conversa com ele, guarda seu casaco, oferece um bom lugar pra sentar, pergunta se quer beber alguma coisa, se interessa em saber como está sua vida, antes de começar a conversar sobre trabalho. Em termos de ritual, significa que, depois de chamar a deidade, você deve lhe fazer ofertas, libações, agradecer (não só pedir coisas pra você), sentir/ouvir o que ela deseja, deixar a relação fluir em vez de seguir um 'script' que você escreveu. Saia um pouco do roteiro para dar lugar ao inesperado. Às vezes os planos dos deuses te levam por outro caminho que você se surpreende de um jeito bom. Se isso te assusta, se não quer perder as rédeas da situação e entregá-la nas mãos dos deuses, então isso não é um relacionamento ritual, é uma "performance" teatral (e de monólogo). Deixe espaço no seu ritual para sentir coisas, ou mesmo para consultar oráculos com a intenção de ler o que quer que eles queiram te dizer. Inclusive pode ser que surja algo que foge daquilo que você conhece. Por exemplo, uma vez ganhei uma pedra que historicamente estava associada com certo deus, mas na hora de torná-la oferta votiva, foi outro deus que me a pediu para o altar dele. E, ao pesquisar depois sobre ela, vi que fazia todo o sentido estar ali. Quando a dúvida bater, sempre é bom pesquisar para ficarmos mais seguros.

4- Esquecer-se da "kharis" (reciprocidade)

A reciprocidade é comumente mal compreendida. Não é "magia", não é uma transação comercial, 'eu te dou vinho e flores e você me dá favores'. OK, isso funciona, mas só em curto prazo. Se você quer ficar confortavelmente no rasinho da piscina devocional, limite-se a isso aí e pronto - e depois não reclame que os deuses só te ajudam quando querem alguma coisa em troca. Mas, se quer criar um relacionamento verdadeiro com eles, tipo daquelas amizades em que qualquer presente que a pessoa querida lhe dá seja significativo, que se você está em apuros ela corre para te socorrer sem pensar duas vezes, e coisas do tipo, então nade pro fundo, naquele lugar onde não dá mais pé na piscina. Faça ofertas regulares sem precisar de grandes rituais. Faça rituais dedicados à natureza, à cura do planeta, a coisas mais de comunhão e devoção do que para você. Torne essas práticas uma forma de 'apro-fundar' (ir 'pro fundo', lembra?) seu relacionamento com os deuses. Aí você vai ver o que acontece quando você precisar de ajuda em algo. Seja aquele amigo sempre presente, sempre cedendo seu tempo e sua atenção, sempre pensando no outro, comprometido e cuidadoso, interessado e sincero, constante e disponível. A reciprocidade vai acontecer e você vai nadar e mergulhar sem medo. É melhor do que ficar no rasinho segurando na boia.

5- Querer impor sua vontade

Essa é uma das principais razões de não praticarmos magia de coerção. Não se deve tipo mandar os deuses virem, ordenar que eles façam tal coisa, despachá-los depois para irem embora e esperar que desapareçam. Não os use, eles têm vontade própria, e eles podem escolher não te responder, não se envolver com você, não te ajudar, não estar presente. Diga "obrigado" e "por favor" e "olá" e "até logo". Eles não são ferramentas que você coloca de volta na estante e que espera que lhe sirvam pra seu próprio benefício. Não são instrumentos inanimados. Eles são reais e vivos. E muito mais sábios do que você... Confie no julgamento deles!

6- Não respeitar os amigos em rito em grupo

Aqui vão vários conselhos em um só item: Se alguém está concentrado meditando, não o perturbe. Se for tirar uma foto, peça permissão a quem vai aparecer no enquadramento, pode ser que a pessoa não queira expor sua religião pro mundo. Não apareça no ritual cheio do álcool ou intoxicado. Não fique pegando nas coisas dos outros sem permissão, mesmo que você ache lindo e queira ver de perto aquele pingente que ela está usando. Não fique julgando o preço dos artefatos que as pessoas trouxeram. Leve suas próprias ofertas. Não chegue atrasado. Não jogue ofertas no fogo sem ter sido convidado a fazê-lo. Se alguém lhe pedir para fazer algo, tipo ler um hino, leia; todos ali são voluntários também, e ninguém está só assistindo enquanto come pipoca. Se você não tiver com quem deixar as crianças e precisar levá-los para lá, fique de olho neles, eles são seus filhos, não espere que os outros participantes cuidem deles pra você. Se alguém ofereceu a casa dele/a para o rito do grupo, leve um presentinho ou ofereça ajuda na arrumação. Enfim, seja educado.

7- Deixar de fazer ritual porque não tem oferta material

Olha, as atitudes valem mais do que os presentes. De que adianta eu dar uma estatueta de bronze para Ártemis e jogar lixo na rua? Tem tanta coisa que você pode fazer como oferta... Além disso, você sempre tem algo físico para oferecer sim. Não precisa ser cevada e vinho, pode ser pão e água. O importante é o sentimento, a meditação, o contato, a lembrança, o exemplo que você passa pro mundo.

8- Fazer rito só em dia de festival

Se você se limitar aos festivais para se aproximar dos deuses, é como se esperasse o dia dos namorados e o aniversário de casamento para fazer algo legal pro seu cônjuge. Se você age assim, ele pode acabar se separando de você. Assim como é preciso demonstrar seu amor no cotidiano, você precisa fazer seus ritos de coração, não por obrigação de uma agenda. Além disso, na Grécia Antiga, cada polis tinha um calendário diferente. Não é preciso seguir piamente um calendário oficial; estamos falando de 're-ligião', de se 're-ligar' aos deuses, e isso independe de datas. Não estou dizendo para esquecer os festivais, apenas para não limitar seu relacionamento/prática espiritual a eles.

9- Fazer as coisas com pressa e sem intenção

Como falamos no item 2, às vezes pode demorar a estabelecer conexão, a se sintonizar no ritual. Uma coisa é você estar passando por um altar e rapidinho soprar um beijo ou deixar uma flor, isso sim é ótimo para mostrar que você se lembrou deles, que tem o desejo de manter contato e estabelecer constância no relacionamento de vocês. Outra coisa é dizer que vai fazer um ritual, lavar as mãos como de costume, aí chegar lá, acender a vela, ler um hino, fazer um pedido, apagar a vela (tipo bolo de aniversário), ir embora, e postar nas redes sociais que realizou um festival. Faz toda uma produção no altar pra sair bonito na foto, mas não se concentra, não escuta a deidade, não reflete no sentido da data, não traz nada de ensinamento pra sua vida, e ainda acha uma chatice ter que pausar seu videogame pra fazer o "rito". Olha, fazer um rito direitinho também dá XP, ok? Não no seu joguinho, mas na sua vida.

10- Virar um robô

Você pode achar legal os novos drones e afins, mas os robôs devem servir você e não você virar um deles. Você é humano. Isso significa principalmente duas coisas: que você falha e que você é capaz de agir sem programação. Em termos de ritual, significa: purifique-se antes (tome um banho ou pelo menos lave as mãos) e seja espontâneo. Ninguém gosta - nem os deuses - de se relacionar com máquinas sem emoção, que ficam repetindo um hino perfeito (até em grego clássico com a tônica correta) e não sentem nada daquilo que estão dizendo. Uma estrada reta é monótona, são as curvas que nos deixam animados. Faça curvas. Mude o roteiro. Surpreenda. Mostre que está vivo - e que pensa. Os deuses gregos, ao contrário do deus abraâmico, gostam de heróis virtuosos e não de servos pecadores. Deixe-os orgulhosos, e não com pena de você. Mostre que valeu a pena eles te darem atenção.

Essas foram as coisas das quais conseguimos lembrar. Se você já cometeu alguma delas, é natural. Só tente fazer melhor das próximas vezes.

dezembro 24, 2011

Um êxtase interior

No solstício de inverno do hemisfério norte, quando os dias são mais curtos e há menos luz, dizem que Apolo está na Hiperbórea e Dionísio fica em Delfos. É uma época em que precisamos refletir para aprender como manter a luz divina nos tempos mais escuros -- no mundo, na vida e na alma. 

Mesmo que você não siga o calendário da Hélade e queira sintonizar-se com o hemisfério sul onde mora, ainda assim temos um solstício, uma transição para uma estação onde luz e escuridão estão distribuídas de forma um tanto desigual no período de um dia. Nela, você não precisa regular seu ser interior a passar meio período ao sol das revelações e meio período ao escuro do mistério. Estar acordado é uma forma de consciência e sonhar é outra. Talvez você negue a existência de um outro estado de consciência, talvez você acredite mas coloque um como hierarquicamente superior ao outro, porém, ainda assim te digo que essa separação só está nas nossas cabeças. Nós não existimos separadamente nem do mundo físico nem do espiritual, participamos dos dois, e nossa liberdade/libertação acontece nos dois níveis. Assim como acaba não havendo muita diferença se neste fim de ano você celebra Dionísio ou Apolo.
"As bênçãos de ambos nos ajuda a entender como sermos plenamente nós mesmos, abrindo os olhos à nossa verdadeira natureza e com nossos corações livres de limitações. Desta forma, podemos atingir a 'areté'; podemos encontrar iluminação/esclarecimento." (Jess, da Hellenion, tradução minha)
Ambos os deuses te levam a um estado de consciência que poderíamos entender como o êxtase (o "ekstasis" dos gregos era quando a alma voava para fora do corpo). Só que o êxtase de Apolo é diferente do de Dionísio. Já mencionei aqui no blog sobre o êxtase do tipo dionisíaco (clique AQUI para ler), então agora vou falar do apolíneo.

Não há nada de selvagem ou perturbador no êxtase apolíneo. Este era intensamente particular, relacionado apenas ao individual (quase um "íns-tase" em vez de êxtase, rs). E acontece em tal silêncio, tranquilidade, imobilidade, que a pessoa do lado pode nem percebê-lo ou poderia até confundi-lo com alguma outra coisa. Mas é nessa calmaria que reside uma liberdade completa em um nível totalmente distinto. Nesse outro nível, a inexistência do espaço-e-tempo é simplesmente um fato, e acreditar ou duvidar disso não faz diferença. Esse é um estado em que se consegue entrar seja dormindo ou acordado, seja de olhos fechados ou abertos. É como estar acordado sem o estar e é como estar dormindo sem o estar também, é alguma coisa intermediária, para a qual não se incomodaram de encontrar um nome, porque todos sempre estiveram mais interessados na experiência do que na sua definição. É mais fácil falar o que ele não é do que o que ele é. Dizer que é um transe, um estado cataléptico, uma incubação, uma suspensão da mente, seria apenas atirar no escuro, pois esses são termos que falam mais do corpo físico do que do estado em si. A teoria não acompanhou a prática neste caso.
"Quem olhar para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda." (Carl Jung, psiquiatra)
"Sonhar é acordar-se para dentro." (Mário Quintana, poeta)
Os sacerdotes "iatromantis" (oráculos-curandeiros) de Apolo eram mestres nesse estado de consciência e, por experimentarem esse tipo de liberdade, eram chamados pelo que conhecemos em inglês de "skywalker", um caminhante do céu, termo que aparece igualzinho no oriente, em lugares como o Tibet e a Mongólia. Os antigos relatos gregos dizem que os iatromantis viajavam a longas distâncias para o norte e leste da Grécia, passando por áreas habitadas por tribos iranianas de cultura xamânica, assim como pela Sibéria e Ásia Central. Nessas horas pensamos como no fundo não existe diferença entre ocidente e oriente. Talvez por isso - e não apenas por morar perto do Equador - eu também não veja tanta diferença entre norte e sul. Acho até que na antiguidade se viajava a longas distâncias muito mais do que hoje, quando temos avião mas que já trouxemos todas as facilidades para perto a fim de não precisarmos viajar no mesmo.

Provavelmente você já deve estar visualizando o que você conhece de parecido com esse êxtase apolíneo, essa unidade indivisível que lemos em relatos e vemos em práticas paralelas - como as dos xamãs, as dos iogues, e outras. Isso é mais do que uma simples coincidência. O que era desenvolvido no oriente, era formalizado no ocidente. E o que era formal no oriente, era um mistério no ocidente. O estado intermediário entre se estar sonhando e acordado tinha seus próprios nomes em cada cultura.

Então, neste momento do ano, quer celebrando Dionísio ou Apolo, espero que, no seu êxtase, sua alma encontre o que precisa -- que pode não ser o que ela procurava, mas que vai ser mais curativo e pleno ainda se você deixar que os deuses te conduzam nesse voo (agora estranhamente sem acento), o qual é muito menos solo do que você imagina.

agosto 06, 2011

Convite do grupo Thyrsos - Lua Cheia 13/08

Lua Cheia de Agosto

"Como em agosto do ano anterior, nós lembramos novamente cada Irmão e Irmã dos Antigos Caminhos a honrar a Estátua do Céu Noturno, Selene. Na noite de sábado, dia 13, reúnam-se em grupos ou com seus amados ou mesmo sozinhos, e realizem seus Ritos e Desejos com um coração admirável, direcionando suas mentes junto para as ofertas da Rainha Dourada.
Que todos nós, o povo das Tradições Nacionais e dos Antigos Caminhos, tenhamos a chance de nos unirmos em Espírito na noite mais brilhante do solstício.

Thyrsos - Ethnikoi Hellenes
"


(tradução minha)

abril 04, 2011

Tira-dúvidas 2: Cidade?

Vamos pelo método socrático de definir as coisas antes de falar delas. Aqui escolhi usar um pouco da definição de um teórico que não é da antiguidade para a expressão "religião cívica" - até porque na antiguidade provavelmente não se falava nesses termos. Rousseau, em 'O Contrato Social', define religião cívica como um cimento social que unifica o estado e o provém de uma autoridade sacra. Isso incluiria deidades, vida após a morte, recompensa da virtude e punição do vício, e exclusão da intolerância religiosa.

Tendo definido isso, vejamos por que falamos do helenismo como uma religião cívica.

Quando tratamos da religião grega antiga, podemos abordá-la de duas formas: pelas suas origens ou pelo seu caráter cultural, de comunidade cívica. Os estudiosos dizem que a religião helênica foi estrutura junto com a pólis. Tudo o que havia antes (da pólis) foi reinterpretado e traduzido para caber no esquema das cidades.

Eis algumas coisas que demonstram essa interação:
₪ As procissões religiosas da época incluíam funcionários públicos de diversas categorias da sociedade, para que todos ficassem representados;
₪ As peças do festival da Dionísia eram compostas de temas civis ou com mitos de deuses da cidade onde estavam sendo encenadas;
₪ O fogo de Héstia da cidade ficava no prutaneion (escritório) do magistrado, e diante desse fogo é que o Conselho recebia os embaixadores estrangeiros, seguindo o princípio da xenia (hospitalidade);
₪ A refeição que conselheiros e embaixadores compartilhavam incluía uma thusia (sacrifício) e estabelecia - no 'comer junto' - laços entre os mortais e com os deuses;
₪ O Tesouro não era público, desde o ano 447 ele ficava no Parthenon, sob proteção e posse de Atena.
₪ A Justiça não era só uma alegoria (uma moça vendada com a balança para representar imparcialidade e equilíbrio), e sim algo que era cobrado por Zeus, que não deixava uma injustiça impune;
₪ ...entre outros exemplos possíveis.

Enfim, a religião não era centrada na 'alma individual', mas na corporação cívica chamada 'pólis'. Tanto era assim que cada pólis tinha seu calendário com seus festivais religiosos próprios.

Nas nossas inclusões modernas, temos ritos aos deuses da cidade em dia de Independência do Brasil, Proclamação da República e ano novo civil. E nas adaptações ao modo urbano de ser e celebrar, consideramos a 'colheita' representada pelo recebimento do salário ou qualquer outra renda que entre como resultado do fruto do nosso trabalho.

Imagem: detalhe de "Grateful Hellas" (Hélade Agradecida) - Theodoros Vryzakis, 1858.

O que difere da ideia de um estado religioso de hoje - quando esperamos mais o estado laico, que no nosso caso é melhor - é que naquela época não existia isso de a religião atrapalhar a cidade em prol de um grupo dominante (hoje os 'cristãos'); o que existia era uma religião que reunia as classes sociais em torno de um culto local comum. Além disso, se mesmo em Rousseau (que é mais 'atual') se incluía a questão da "exclusão da intolerância religiosa", parece que os antigos faziam isso com mais propriedade do que os modernos.

É interessante aproveitar para lembrar que esse é um dos motivos de nós não estarmos tentando reconstruir a sociedade grega, apenas a sua cultura. Tentar fazer as coisas serem como eram antes é algo muito mais do revivalismo do que do reconstrucionismo - que considera o fato de sermos pessoas diferentes em época diferente com todo um outro "zeitgeist" (espírito de época) por trás das modificações. Uma casa ou um vaso reconstruído nunca vai ser igual ao original e nem tem como (seria quase como fantasiar 'psicoticamente' que é o mesmo vaso e a mesmíssima casa).

No entanto, se agora não podemos atuar numa pólis inteira, ainda assim temos o dever de tentar tornar ao menos o nosso oikos (lar) semelhante ao modo virtuoso de trazer os deuses para nossos assuntos civis: celebrando com eles nossa fartura doméstica (a 'colheita'), recebendo bem nossos convidados (hospitalidade), mantendo uma chama acesa para Héstia, promovendo a justiça, compartilhando refeições que incluam ofertas, selecionando as peças/filmes que vamos assistir, praticando algo pelo bem comum, combatendo preconceitos, acolhendo tudo o que possa elevar o nosso dia comum para mais perto do sagrado.

Quem sabe de oikos em oikos um dia não reconstruímos um demos e quiçá uma nova pólis?

março 21, 2011

Pandia




Neste pôr-do-sol, além de termos o último dia da Dionísia Urbana, teremos o festival helênico da Pandia, quando honra-se Zeus Pandios (brilhante deus dos céus) e sua filha com Selene (a lua cheia), chamada Pandias ou Pandeia ("Toda-Divina" ou "Toda-Brilhante"). O festival político da Pandia foi estabelecido pelo rei de Atenas, Pandion, mas apenas um demos de Atenas, o Plótheia, o celebrava. O curioso é que encontrei algo mais sobre ele justo em um livro sobre Dionísio em sua relação com a Índia, onde "Pandia" é também o nome de uma dinastia vinda da Lua:

"Segundo o mito cretense, Lampros, esposo de Galatéia, cujos filhos eram bissexuais, era ele mesmo filho de Pandion, descendente das dinastias do Sol e da Lua. O festival ático do Pandia era celebrado com a lua cheia. O festival, cujo nome advinha de Pandion, epônimo da tribo de Pandionis, era em honra a Zeus." (R.F. Willets, Cretan Cults and Festivals, p.178)
Deve-se observar que Pandia é o nome de uma dinastia dravidiana oriunda da Lua que, desde tempos imemoriais, reinou na Índia e que também é mencionada no grande poema épico tâmul, o Shilappadikaram. Os pandavas, filhos de Pandu (o branco), eram membros da dinastia que se opôs aos arianos na guerra do Maabárata.
(Alain Daniélou, Shiva e Dioniso - 'A Religião da Natureza e do Eros', p.30)
Para quem não lembra ou não leu o Mahabharata hindu, os Pandavas lutavam contra os Kauravas, o que muitos estudiosos interpretam simbolicamente como as virtudes enfrentando os vícios. Outros dirão que os Pandavas representam o Dharma - o caminho da justiça, que se parece com a realização do nosso daimon - e os Kauravas sendo o Adharma - tudo aquilo que impede os humanos de alcançar o divino, o sagrado.

Nós podemos pensar nessa união do Sol com a Lua como uma união de opostos que traz o equilíbrio. As virtudes, para os gregos, eram exatamente esse meio termo entre dois vícios. Por exemplo, a virtude da paciência seria o equilíbrio entre o extremo do "pavio-curto" e o extremo da leniência (quando se permite/aceita tudo), os quais seriam vícios. Por conta disso, há muito mais vícios do que virtudes, assim como no Mahabharata encontramos cem Kauravas para apenas cinco Pandavas. Também podemos pensar que as virtudes nos aproximam dos deuses, da Toda-Divina, enquanto os vícios vão nos impossibilitando de alcançar esse divino.

Fica, então, a sugestão para - durante tal festival - refletirmos sobre como vencermos nossos vícios e nos aproximarmos do sagrado.

janeiro 02, 2011

Ano Novo Civil

Perguntaram-me sobre a Heracléia - que é sugerida na virada secular de ano novo - e resolvi dar mais informações aqui no blog para quem tiver a mesma dúvida.

Apesar de não ter existido na Antiguidade um festival a Héracles Triesperos no solstício de inverno (vide "triesperon: season festive that was never a festive"), essa Herakleia de final de ano é um festival moderno que também se baseia na mitologia, como foi o festival da Heliogenna cujos mitos foram explicados anteriormente AQUI. E o relato é o seguinte:

A família de Héracles vem de Argos, já que Alcmena é filha do rei micênico Electrion, filho de Perseu e Andrômeda, que também geraram Alcedes, pai de Anfitrião. Alcmena se casou com esse seu primo Anfitrião. Eles foram forçados a fugir da cidade porque Anfitrião matou o cunhado dele, então foram parar em Tebas. Ali, Zeus veio à terra e se relacionou com Alcmena. Algumas versões dizem que foi em forma de neve dourada, outras que foi na forma de Anfitrião (o qual tinha viajado para a guerra), fingindo ser ele. Zeus ficou com Alcmena por três noites inteiras, daí Triesperos ('tria speros' = três noites). No mito, Zeus diz ao deus solar Hélio para desatrelar sua carruagem por um dia, fazendo o mundo ficar na escuridão por 24 horas a mais, assim Zeus pôde prolongar seu romance por uma noite de 36 horas.

Assim, celebra-se o retorno do sol, trazendo felicidade a todos.

Nessa época algumas pessoas preferem celebrar os Doze Dias Dionisíacos (como estou fazendo), outras escolhem a virada de ano para celebrar Hécate - das encruzilhadas e abertura de caminhos, e outro ainda me disse que iria celebrar Apolo, deus solar.

De qualquer forma, seja como for que você entrou 2011...

Αγαθή Τύχη, Αγάπη, Ειρήνη και Ευτυχισμένος ο Καινούργιος Χρόνος!
(Boa Fortuna, Amor, Paz e Feliz Ano Novo!)

outubro 07, 2010

Sonho com Hermes

Estes dias tivemos um rito para as Ninfas, Akhelous e Hermes. Para celebrar esses sacrifícios, que aconteciam na antiga Erchia, usei bonequinhas de ninfas em cima de um mapa dos Bálcãs (que inclui a Grécia, para lembrar o rio Akhelous) onde também estão algumas das minhas jardineiras de plantas (para lembrar também Gaia, com a terra), uma pedra cortada de interior de cristal para Hermes ('hermai') e uma vela de canela. Consagrei a chama à Héstia e fiz duas preces, uma para Akhelous e Hermes e outra para as ninfas e Gaia (veja as duas no site). Refleti um pouco sobre essas deidades e o aspecto mensageiro de Hermes, como deus das estradas e tudo o mais. Foi um rito super-rápido e eu fiquei meio sentida por não ter conseguido ir até um rio ou lagoa, porque estava muito cheio de carros perto quando passei por lá, então fiquei pensando se tinha valido algo tão simples.

Mas na noite seguinte ao rito, no meio de um sonho normal, vejo 'um cara' andando rápido entre as pessoas e reparei que era Hermes, pois estava com um capacete que parecia casco de tartaruga (pelo formato, mas era liso - sem aqueles desenhos geométricos), com asinhas na cabeça (não sei se na cabeça ou no capacete) e nos pés, e roupa vermelha grega. O curioso é que não era nem chiton nem himation nem exomis, era uma peça única leve e aberta, que ao acordar imaginei que fosse uma clâmide. Fui olhar no nosso site e não lembrava que a clâmide - além de ser roupa de soldado, com a abertura para deixar a mão da espada livre - era também roupa de mensageiro, porque deixa o braço livre para conduzir carruagem e entregar coisas. E ele era magro, provavelmente pela questão da agilidade.

Então, mesmo na sua típica pressa, ele encontrou uma forma de me mostrar que meu momento valeu a pena sim, que ele gostou da lembrança. E eu pela primeira vez o vi "em pessoa" assim tão claramente (ao menos o que dá para vermos de alguém que está passando no meio do povo... rsrs!).

Espero que isto sirva de reflexão para quem ainda acha que Eles não respondem ou não se importam...

junho 29, 2010

Dipolieia/Bouphonia

Este domingo escolhi celebrar a Dipolieia/Bouphonia assistindo a uma apresentação de Boi (Bumbá) numa festa junina. Por quê? Bem, vamos ver o sentido:
DIPOLIEIA ("ao deus da cidade"): Festival em honra a Zeus Polieus (di - a zeus, polis - cidade). BOUPHONIA ("matança do boi"): Neste dia (parte do Dipolieia), algumas garotas buscam água para usar em ferramentas afiadas. Os afiadores afiam um machado com cabo e uma faca de açougueiro. Vários arados de boi são arrebanhados pelo pasto até um altar, onde cevada e trigo foram colocados. O primeiro boi que for ao altar está "consentindo" em ser sacrificado. Um homem mata o boi com o machado e outro corta sua garganta com a faca. Ambos soltam suas ferramentas e fogem. Depois o boi é retalhado e preparado para o banquete. Seu couro é estufado com palha e costurado, de forma que pareça vivo. Um julgamento então começa para determinar quem é o culpado pela morte do boi. As primeiras apontadas são as carregadoras de água. Elas culpam os afiadores, que, por sua vez, culpam os sacrificadores. Finalmente, os sacrificadores culpam o machado e a faca, que são declarados culpados e jogados ao mar. (O tema para refletir nesse festival parece ser o ato da reparação - alguém tem que pagar pelo que acontece - e de como nos livrarmos da culpa).

BUMBA-MEU-BOI: A origem dessa festa seria uma mistura, nas fazendas, de tradições africanas (como a do boi geroa) com européias (como as touradas) e alguns elementos indígenas. O enredo básico é o seguinte: um rico fazendeiro possui um boi muito bonito, que inclusive sabe dançar. Pai Chico, um trabalhador da fazenda, rouba o boi para satisfazer sua mulher Catirina (ou Catarina), que está grávida e sente uma forte vontade de comer a língua daquele boi. Os caboclos, junto com os índios e índias, procuram entre os vaqueiros quem fez isso, descobrem e prendem Chico. Quando o fazendeiro encontra o boi, ele está doente (ou morto). Os pajés curam a doença do boi (ou o ressuscitam) e descobrem a real intenção de Pai Chico. O fazendeiro o perdoa e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.
RELAÇÃO: Como a Dipolieia caiu em junho (ela costuma cair entre o final de junho e começo de julho) e aqui tem várias apresentações de Boi nessa época, sinto que é inevitável pensar na semelhança por termos a questão de um boi sendo morto e vários personagens procurando um culpado (fuga e julgamento) que é, por fim, redimido da sua culpa; fora a parte em que tentavam fazer parecer que o boi está vivo e, no mito mais atual, ele realmente ressuscitar. Além disso, o Pai Chico usa um facão nas danças, que me lembra a faca afiada do Bouphonia, e tanto a língua (no Bumba-boi) quanto a garganta (no Bouphonia) são partes da boca.

[ Nota: Curiosamente, sem saber qual grupo iria se apresentar naquele horário, assisti ao Boi de Teodoro, sendo que Teodoro vem do grego, "presente de deus", embora não tenha sido esse o motivo do nome do grupo que ali estava (que o batizou pelo seu fundador). Além disso, eles eram de Brasília, onde fui criada. Para mim, tudo foi um sinal, ou melhor, um aval.
Nota 2: Aliás, se formos mais longe, veremos que essas cerimônias com a ressurreição de um boi começaram no Egito, no culto a Ápis, no Nilo.
]

A lenda "demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força de um boi" (wikipedia). É uma festa que acontece no país inteiro, só muda o nome:
"...no Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí é chamado bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é boi-bumbá ou pavulagem; em Pernambuco é boi-calemba ou bumbá; no Ceará é boi-de-reis, boi-surubim e boi-zumbi; na Bahia é boi-janeiro, boi-estrela-do-mar, dromedário e mulinha-de-ouro; no Paraná, em Santa Catarina, é boi-de-mourão ou boi-de-mamão; em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé é bumba ou folguedo-do-boi; no Espírito Santo é boi-de-reis; no Rio Grande do Sul é bumba, boizinho, ou boi-mamão; em São Paulo é boi-de-jacá e dança-do-boi."

Então, onde quer que você more, fica a sugestão de alternativa para a sua celebração da Bouphonia na Dipolieia dos próximos anos.

junho 23, 2010

Skirophoria

Sexta-feira teremos o seguinte festival:
O Skirophoria (também conhecido como Skira) ocorre na época do corte e debulhamento do grão. A Sacerdotisa de Atena, o Sacerdote de Poseidon e o Sacerdote de Hélio vão para o Skiron, um lugar sagrado para Deméter, Koré, Atena Skiras e Poseidon Pater, pois lá foi onde Atenas e Elêusis se reconciliaram. Atena e Poseidon representam a vida da cidade, e Deméter e Koré representam a agricultura; Hélio testemunha Seus juramentos (como Ele testemunhou o rapto de Koré). O Skiron é onde, de acordo com a tradição, a primeira semeadura aconteceu. Um grande e branco dossel (chamado de skiron) é carregado sobre as cabeças dos sacerdotes e sacerdotisas durante a procissão. É um escudo que simboliza a proteção dos campos, fazendas e pessoas do calor escaldante, evitando a queimada e a seca. A Skirophoria é celebrada principalmente por mulheres (enquanto os homens dominam a Cidade Dionísia - ver mês de Elaphebolion). Para trazer fertilidade, elas se abstém do intercurso neste dia, e para este fim elas comem alho para manter os homens afastados. Elas também jogam ofertas dentro das megara - cavernas sagradas de Deméter: bolos em forma de cobra, falos e leitõezinhos. (Eles se tornam os Thesmoi - coisas deitadas ao chão - que são removidas na Thesmophoria, no mês de Pyanepsion). Essa cerimônia relembra o guardador de porcos Eubouleus que foi engolido/tragado com seus porcos quando Perséfone foi raptada para dentro do submundo por Hades. Os homens têm uma corrida na qual eles carregam ramos de videira do santuário de Dionísio até o templo de Atena em Skiras. O vencedor ganha a Pentaploa (Taça Quíntupla), contendo vinho, mel, queijo, algum milho e óleo de oliva. Só a ele é permitido compartilhar essa bebida com a Deusa, para quem uma libação é vertida para que Ela abençoe esses frutos da estação.
http://sites.google.com/site/helenismo/Home/festivais/skirophorion-loios
Como podemos celebrar hoje?

Na rua: se você morar na cidade, visite o campo. Se morar no campo, visite a cidade. Torne isso uma espécie de descoberta e apreciação do novo. Leve algo branco para Atena, azul para Poseidon, verde para Deméter, vermelho para Perséfone e dourado para Hélio. Se houver cinco pessoas, cada uma pode estar usando essas cores. Os homens podem fazer uma corrida levando ramos de videira.

Em casa: Faça dois altares ou divida o altar em uma parte rural (com marrom/verde) para Deméter e Koré e outra parte urbana (com cinza) para Atena e Poseidon, decorando-os com suas ofertas votivas e imagens que tiver associadas a essas deidades. Entre as duas partes, coloque algo dourado que represente Hélio e, diante desse centro, uma tigela contendo o Pentaploa: uma mistura de vinho, mel, queijo, grãos e azeite. Se possível, faça um dossel branco por cima de tudo.

Rito: Primeiro dirija suas preces e ofertas para Atena, em agradecimento por as pessoas da cidade terem a oportunidade de se alimentar dos frutos do campo. Depois dirija-as a Poseidon, agradecendo os frutos do mar que nos alimentam sem pedir quase nada em troca. Volte-se então para Deméter, comprometendo-se a manter a terra limpa para termos abundância em sua honra e que ela nos conceda uma divisão justa de seus frutos. Em seguida, agradeça a Perséfone por guardar os pensamentos e a cultura, a memória e os mistérios. Peça a Hélio para testemunhar as intenções de que os deuses mencionados protejam uns aos outros, e que Eles e nós estejamos em harmonia trabalhando pela mesma causa. Verta libações do Pentaploa esperando bênçãos de Atena aos frutos da estação e ofereça os Thesmoi (bolos em forma de cobra, falos, porcos) para Deméter. Conclua o ritual como estiver acostumado/a.

junho 09, 2010

Kallynteria e Plynteria

- imagem: detalhe de estátua em Corinto: coruja na mão de Atena -
Esta semana tivemos os festivais da Kallynteria e da Plynteria, ambos em honra a Atena.

No primeiro, que é o festival da varredura, fiz apenas uma limpeza nas ofertas votivas a ela e no altar onde elas ficam, acendendo um incenso em seguida.

No segundo, acordei pensando em como eu iria fazer para arrumar tempo para ofertar-lhe figo na praia, porque antigamente se ofertava doce de figo no litoral onde a estátua da deusa era banhada e recebia um novo vestido. Esse era também um dia 'desafortunado' pelo fato de a estátua estar fora da cidade, produzindo uma ruptura na ordem das coisas. (Quem quiser saber mais sobre ambos festivais, clique AQUI.)

Enfim, eu teria um dia cheio, mas teria que dar um jeito. E Atena providenciou esse jeito para mim.

Pois bem, fui para a minha obrigação matinal e qual não foi a minha surpresa ao perceber que terminamos tudo às 9 horas da manhã e não às 11:50 como de costume! Consegui tempo para ir ao supermercado atrás dos figos, os quais só achei enlatado e em calda, o que me fez ter que comprar um abridor de latas para não ter que voltar em casa e pegar um. Chegando na avenida, estacionei, abri a lata e a levei para uma escadaria onde costumava haver uma espécie de 'templo', umas colunas gregas que hoje estão cobertas de vegetação. No meio dessas plantas, um caminho de areia até a praia e ao mar. Foi ali na escadinha mesmo que pronunciei o "lambane anathema mou" (aceite minha oferta) enquanto entregava-lhe o doce, o qual melou um pouco minha mão e eu provei, estava bem gostoso, embora eu nunca tenha sido fã confessa de figos.

Já à noite, sozinha em casa, fui concluir meu ritual, fazendo uma mini-procissão pelos cômodos com o incenso aceso no incensário (a começar da frente da imagem de Atena que está na porta do meu armário), e tentando me lembrar de algo que fosse semelhante ao que se espera que digamos, que seria mais ou menos assim:

Hoje relembramos o festival no qual a estátua da deusa Atena era levada de seu santuário para ser banhada e receber um novo vestido. É um dia em que o véu entre os mundos fica mais tênue, não sendo um tempo propício para se honrar os mortos e sim para agradar os espíritos malignos que possam estar por perto agora que Atena se ausentou da cidade para ser lavada. É pelo exercício da Xenia (hospitalidade) que começamos a nos proteger de tais espíritos.

Usamos a água lustral esperando que a sabedoria flua como água dentro de nós. Acendemos o fogo sagrado, esperando que seu poder queime dentro de nós. Que a oliveira sagrada cresça também dentro de nós. Que, ao nos purificarmos, afastemos - de nós e deste lugar - todo o mal.

Titãs, deuses primordiais, respeitamos suas forças e prestamos-lhes nossas honras. Éris, deusa da discórdia, respeitamos seu poder de destruir o que não se mantém firme e prestamos-lhe nossas honras. E todos os outros que possuem uma poderosa lei ou que presidem questões de justiça, respeitamos vosso poder e prestamos-lhe nossas honras para que não nos causem problemas. Aceitem estas ofertas e não cruzem nossas fronteiras.

Ninfas, sátiros, mênades, dríades, naiades, oceânides e outros daimones da natureza, pedimos a vossa proteção e cuidado enquanto Atena está fora. Deuses e deusas, observem-nos enquanto executamos os ritos sagrados para Atena e não deixem o mal chegar até nós.

Agradecemos aos Destinos por nos trazerem até este dia e esperamos que teçam um belo futuro para nós. Agradecemos a Zeus por suas bênçãos e esperamos por seus favores futuros. Agradecemos a Gaia, mãe de tudo, a mais antiga, que nutre a terra e tudo o que há nela.

Atena, que, com a fumaça deste incenso, nossas preces subam a ti nas asas das corujas e nas vozes do vento. Aceite-as e abra os nossos corações às tuas bênçãos!

Prometemos trabalhar com nossos amigos para honrar os deuses, buscando a verdade (aletheia), a virtude (areté), a justiça (dikê) e a sabedoria (sofia), com alegria em nossas almas, desejando que os deuses nos abençõem a fim de que nos tornemos mais fortes e alertas às necessidades uns dos outros.

Athena, kharin echomen soi. / Atena, nós te agradecemos
Daimoni, kharin echomen hymin. / Espíritos, vos agradecemos.
Panes theon, kharin echomen hymin. / Todos os deuses, vos agradecemos.

Fizemos como nossos ancestrais nos ensinaram e como esperamos que nossos filhos um dia façam, para que os deuses nos sejam favoráveis!

Ésto! (Assim seja!)

E o seu dia, como foi?

maio 27, 2010

Os bisavós do mar

No Mounykhion 21 (dia 6 de maio deste ano) tivemos o sacrifício aos Tritopatores, espíritos ancestrais benevolentes. Queria ter postado sobre eles no dia, mas sempre é bom não deixar passar as coisas e ainda poder aproveitá-las nos próximos anos, então resolvi falar assim mesmo.

Os Patroios/Patroia são os deuses que recebem culto em uma nação ou família desde a época de seus antepassados ou, algumas vezes, tratam-se dos próprios ancestrais1. Zeus era, portanto, um "theos patrôios" em Atenas e também entre os heróis que traçavam sua genealogia com Ele fazendo parte de sua origem2.

Havia um santuário aos misteriosos Tritopatores/Tritopatreis (que pode significar 'bisavós' - três vezes pais), do lado de fora dos portões Dipylon da Acrópolis, ao lado do riacho Eridano, onde se eram feitas preces pedindo pelas crianças da família. Esse lugar era dedicado provavelmente aos espíritos ancestrais cultuados pelos atenienses ou aos espíritos do vento citados no mito órfico. Outra interpretação possível do nome dos Tritopatores seria 'aqueles que têm Tritão como pai', ou seja, os "sereios" (o masculino de 'sereia' é 'tritão'), conectando-os também a Atena, que era conhecida por Homero como Tritogenia (nascida de Tritão). De qualquer forma, eles estariam associados com a água, já que seu santuário ficava perto de um riacho, e há especulações sobre terem formas serpentinas - lembrando Erictônio/Ericteu/Cécrops, um homem com cauda de serpente. Os Tritopatores eram benevolentes e eram frequentes nos cultos menores com fortes raízes locais que floresceram na antiguidade3.

Você pode fazer uma prece aos Tritopatores se lembrando de como tem sido sua relação com seus antepassados e suas terras. Li uma bem bonita sobre o mar e um ancestral marinheiro/pescador, que continha um trecho o qual traduzo aqui:

Eu me dirijo a ele (ou ela) como posso, linha após linha, canção após canção; mas meu jeito de pensar nas coisas nunca é exatamente o jeito que tudo acontece, tão arrebatador é o som das coisas mais úmidas, tão ressonante é a voz de minha mãe perto do mar chamando alto meu nome. [...] Teu seja o trovão, a pesca que trago na mão; possa o meu caminho errante em bom senso e decência ser a quilha pela qual tu ainda navegas.4

~~~

1 Luciano de Samósata - A Morte do Peregrino, 36 - "Então ele pediu incenso para jogar no fogo, [...] e -fitando o sul, disse: 'Espíritos de minha mãe e meu pai, recebam-me favoravelmente'."
2 Apolodoros - A Biblioteca, 2.8.4 - "...eles fizeram três altares para Zeus Paterno, e sacrificaram neles".
3 John Pollard - Seers Shrines and Sirens: The Greek Religious Revolution in the Sixth Century BC - traduzido e adaptado.
4 Brendan MacOdrum, 2 de novembro de 2006 - Prayer to Tritopatores - Ver completa em inglês clicando AQUI.

abril 26, 2010

Xrónia Pollá

Sexta-feira 23 foi meu aniversário. Logo, resolvi postar sobre os motivos de como nós (seres humanos) costumamos comemorar essa data.

A crença de que a fumaça era uma boa forma de fazer suas preces subirem aos céus e o aroma do incenso ou da comida ofertada ao fogo agradaria aos deuses pode ter dado origem à tradição de acender velas sobre o bolo de aniversário. Talvez daí também venha o ato de se fazer um pedido antes de soprá-las, afinal, a fumaça só surge quando as apagamos.

Apesar de o bolo com velas ser registrado como algo que surgiu na Alemanha do século XIII, nas festas infantis (kinderfeste), sua origem - como tudo, claro, rsrsrs - é da Grécia Antiga. O bolo em si foi evolução de um preparado de mel com pão que os devotos de Ártemis levavam para ela em Éfeso. O bolo era redondo como a lua (Ártemis é uma deusa lunar) e as velas simbolizavam o luar que ilumina a terra. Ártemis também é a deusa dos nascimentos, partos, crianças, então é natural que os bolos de aniversário sejam mais frequentes nas festas infantis.

Agora, sem ter lido nada parecido em lugar algum, eu arrisco dizer que a história de o aniversariante dar o primeiro pedaço a quem lhe é mais caro lembra-me demais Héstia, a quem os helenos ofertavam sempre o primeiro e o último de tudo o que comiam e bebiam, além de fazer libações ao Agathos Daimon (o Bom Espírito). Assim, a gente escolhe se perguntar quem seria o Bom Espírito (ou a boa alma) que merece uma homenagem nossa no corrente ano.

Portanto, de hoje em diante, quando vocês estiverem presentes em um aniversário, lembrem-se dos gregos, lembrem-se de Ártemis, lembrem-se de elevarem seus pensamentos e preces aos deuses na hora em que as velas se apagam, e não se esqueçam de dar a Héstia a sua devida porção. Quando assim fazemos, qualquer mínima refeição pode virar um belo de um Banquete...

março 15, 2010

grão de outono é semente de primavera


Às vezes as pessoas acham que seguimos o calendário ao contrário, por estarmos no hemisfério sul. Mas pense como ele também faz sentido pra gente! Nas próximas duas semanas, as últimas de março, teremos a Elaphebolia de Ártemis, a Asclepieia e a Dionísia Urbana, com o outono chegando.

Outono...

Vem Dionísio, fornecedor da vinha, portador do tirso, enriquecendo-nos de frutos deliciosos, sementes de êxtase, brotos de liberdade; trazendo o mistério atrás das máscaras, o primeiro beijo que aquecerá o inverno, a fantasia em meio a colheita...

Vem Ártemis, caçadora, da lua crescente, que cuida da juventude, com toda a graça das folhas que caem e não das flores que nascem (como seria com Perséfone); é o momento da colheita das frutas, e Ártemis é deusa do nascimento, trazendo nova vida ao mundo; a Kourotrophos, que era procurada junto a Asclépio ao se pedir por um bom parto...

As cores do outono em muito combinam com as da lua crescente.
Os grãos do outono são as sementes da primavera.
A vida é algo que nunca morre, apenas se reencena - como o deus do teatro, renascido duas vezes - e uma coisa completa a outra.

Nas raízes, nos ventres, nas sombras, tudo onde só vemos o escuro e o escondido, no fundo está repleto de vida, uma vida que se prepara para nascer.
É fechando os olhos físicos que costumamos enxergar mais além.

E era assim que Asclépio curava, durante o sono, no sonho, na companhia da serpente - tão ctônica. Com ele, espera-nos alguém para nos acompanhar. Alguém que depois descobrimos ser nós mesmos. Nosso outro lado, quiçá o de dentro; aquele sábio que completa o tolo, e que se libera de sua racionalidade para vir dançar conosco nas sombras, na luz, na chuva. E ele traz a solução para os nossos males da alma e enfermidades do corpo.

Como um serpentino de Asclépio, o corpo entra na dança e o espírito entra em transe. Das árvores caem as folhas, mas da terra se erguem as forças de renovação.

Se eu sigo a pólis ou o equinócio, é o de menos. O que eu sigo mesmo é o movimento dos deuses...

dezembro 25, 2009

Os mitos da Heliogenna

Nos dias que envolvem o solstício do final de ano (inverno para a Grécia e verão para o Brasil), há a celebração moderna da Heliogenna, sugerida inicialmente para 9 dias, mas também adaptada para 3, 2 ou 1 dias. A explicação do festival você pode ler lá no site, clicando AQUI. Mas o que eu gostaria de falar nesta postagem é sobre os mitos.

Vendo o que se celebra, percebemos principalmente Hélio, Faetonte, Selene, Éos, Hécate, Hades e Perséfone. Então embora a ligação entre Hélio (sol), seu filho Faetonte (brilhante), Selene (lua) e Éos (aurora) seja mais óbvia, algumas pessoas poderiam perguntar o que os demais têm a ver com eles. Hécate, a do toucado cintilante, talvez seja mais fácil, por ela ser uma das filhas da noite e deusa da lua, carregando uma tocha. Mas esses deuses também têm mitos em comum, que vamos já saber. Também vamos perceber que é curioso não termos Ártemis incluída na Heliogenna, mesmo ela sendo considerada uma deusa lunar e figurando nos mitos correspondentes. Embora, se incluíssemos Ártemis, tivéssemos que trazer o solar Apolo também. Provavelmente não fazemos isso por conta de ser um festival dirigido a deuses de gerações anteriores à geração deles.

Seguem os breves relatos:

Hélio-Hades-Perséfone-Hécate

Em certo sentido, o deus do submundo Hades ("o invisível, o que dá a invisibilidade") parece muito mais um reverso de Hélio ("o visível, o que torna visível") do que do deus celeste Zeus. Quando Hades raptou Core, que assim virou Perséfone, ela gritou por ajuda, mas ninguém ouviu, exceto Hécate, na sua caverna, e Hélio. Depois o eco de sua voz alcançou sua mãe Deméter. Por nove dias ela andou pela terra com duas tochas nas mãos, à procura da filha. Na terceira manhã, Hécate - também com uma tocha - lhe trouxe notícias, dizendo que ouviu o grito, mas não ouviu quem tinha sido. Deméter perguntou então a Hélio e este lhe disse o que aconteceu. Aí vem todo um enorme relato de Deméter deixando o Olimpo e punindo a terra com a ausência de colheitas, e Iambe e Metanira em sua estada em Eleusis etc, que não cabe agora, e sim em outro festival. Quando Perséfone reencontra sua mãe, elas ficam abraçadas e, em seguida, vem Hécate acolher Perséfone também, passando a ser companheira delas.

Hélio-Hécate-Perséfone

A mãe de Hélio, Téia, recebia presentes de ouro, como Perséfone. A esposa de Hélio, Perse ou Perseida (com quem teve quatro filhos), era um outro nome de Hécate, "deusa que brilha amplamente". Perséfone também poderia ser uma forma mais cerimoniosa de Perse. Outra amada do deus-sol era Neera, "a nova", ou seja, a lua nova, em sua fase mais escura. Com ela, Hélio teve duas filhas. Com Climene (também chamada de Merope, "a de face virada", referência ao eclipse), ele teve sete filhas e um filho, Faetonte.

Hélio-Faetonte

Faetonte era um jovem deus do sol que uma manhã subiu no carro do pai, ergueu-se alto demais e caiu, à semelhança da estrela-da-manhã que se levanta muito cedo e logo desaparece. Ele caiu no rio Erídano e, às suas margens, suas irmãs solares o prantearam. De suas lágrimas surgiu o âmbar.

Hélio-Selene-Hécate-(Ártemis)

Hélio era irmão de Selene e de Éos. O nome Selene está ligado à palavra "selas" (luz) e "mene" (feminino de "men", que significa lua, o mês lunar). Com Zeus ela teve Pândia, "a que brilha inteiramente, a inteiramente brilhante", referência à lua cheia. Selene e Hélio eram tão fraternais quanto Ártemis e Apolo, nunca se casando entre si. Aliás, Apolo e Ártemis tinham um epíteto de Hécaton e Hécate, respectivamente, o que nos liga de novo a Hécate, "a distante", embora ela seja uma das deusas mais próximas da humanidade - como a lua é mais próxima da terra do que os planetas. A história de Ártemis como deusa da lua crescente, fechando o trio Selene-Hécate-Ártemis, parece se dever mais ao fato de ela ter um arco, que lembra o crescente, e ser irmã do solar Apolo, já que isso não se aplicava à Ártemis Táuria, Arcadiana ou Efésia.

Hélio-Éos-Selene-(Ártemis)

Éos é a deusa da manhã, da aurora, a deusa do trono de ouro, e outro reverso feminino do sol, sendo uma irmã mais selvagem e turbulenta do que Selene, visto que as histórias de amor de Éos eram mais apaixonadas que as da própria deusa da lua. Dos jovens que ela amou, muitas vezes só se conhece o nome. Em uma das histórias, ela disputou Céfalo com a esposa dele, Prócris, uma heroína que tinha características lunares. Em uma ilha grega, contava-se que Céfalo se uniu a uma ursa, animal associado a Ártemis. Pode ser que Céfalo ("cabeça") seja a cabeça da constelação de Órion, outro amado por Ártemis e Éos.

[Consultas: livro "Os Deuses Gregos", de Karl Kerényi, e Theoi project.]

Espero que, além de fazer conhecer os mitos, isso auxilie as pessoas a não verem os deuses apenas como personificações (ainda mais tão diretas), como se houvesse apenas um deus para cada coisa no mundo ou que cada deus só regesse um único domínio da realidade...