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março 16, 2019

Recomeçando

Este ano observei algumas coisas com relação à abordagem que cada um dá aos deuses. Percebi quatro movimentos diferentes de quatro pessoas. Um não acredita que os deuses nos dão tudo o que pedimos, outro acredita que não importa o que ele resolva porque no final sai do jeito que os deuses queriam, outra acredita que toma bordoada quando erra, e outra acredita que os deuses sempre nos dão o que pedimos quando temos um bom relacionamento com eles. Da minha parte, percebi que essa resposta positiva se dava mais com posturas do que com ritos. Recentemente fiz um rito a Hermes (todo certinho, com sinais indicando sobre as ofertas, e até no dia e horário mais propícios) esperando um resultado o qual não tive de pronto, mas depois adotei atitudes que me levaram à resposta favorável que eu queria. Levar a energia da deidade para a vida foi mais eficaz do que uma comunicação ritual momentânea. Então talvez aquela primeira pessoa que citei não recebe o que pede porque falta levar pro cotidiano aquele sentimento e atitude próprias de alguém com uma boa conexão com o sagrado. E os outros três casos não se anulam entre si. 

Outra coisa com relação a essa questão de o que pedimos e o que recebemos também foi assunto de uma conversa atual. Muitas vezes o que precisamos para conseguir realizar as coisas necessárias ao nosso crescimento e evolução são provenientes de energias as quais costumamos temer. Hades, Ares, Poseidon, são exemplos de deuses que as pessoas têm medo, mas que realizam grandes coisas em nossas vidas se nos sintonizarmos e equalizarmos com eles. Grandes mudanças assustam, mas não se trata de deixar ser levada pelo maremoto, mas de aprender a surfar ondas gigantes. Às vezes precisamos violar uma embalagem para conseguir trazer pra fora o que tem dentro dela e o qual estamos há muito tempo querendo. Já citei em outro texto sobre como Ares te tira do sofá, e seguidamente falei como Poseidon sacudiu minhas estruturas, sem contar como Perséfone vira rainha após ser levada por Hades. Não são forças das quais sentir medo, mas ao mesmo tempo precisamos estar maduros para lidar com elas sem sermos levados na correnteza. Aproveitar essa zona do medo como uma ponte entre a zona de conforto e a zona de aprendizagem, no caminho para a zona de superação/realização. 

E, voltando ao ponto sobre o "fazer correto" para não "levar bordoada", me lembrei de uma dúvida que tiraram comigo este mês. Quiseram saber se poderiam relacionar o porquinho-da-índia a Apolo, já que ele é um roedor e os ratos são dEle. É preciso tomar certo cuidado com essas associações. Os ratos são ligados a Apolo por serem pragas e não por serem roedores (e fofinho) como o porquinho-da-índia. Além disso, se pesquisarmos as civilizações onde esse animal existia nos cultos (já que na Grécia antiga não encontramos registros), veremos que entre os incas o porquinho-da-índia era ofertado à deusa da terra e ao deus da montanha, o que, por um certo sincretismo mais intuitivo do que direto, poderíamos ligar a Deméter e Dioniso

Há outra questão sobre esse "conseguir o que pede" que também observei nessas últimas semanas. Uma pessoa pediu aos deuses algo que ela achava o melhor para a outra, mas não era o que a outra realmente queria para si. E, claro, acabou não dando certo. Apenas quando a primeira reconheceu que estava sendo influenciada por seus próprios sentimentos é que ela, eticamente, pediu a uma terceira que fizesse o rito pela segunda pessoa, por aquilo que esta realmente queria, e aí sim começou a dar certo. 

Esses movimentos todos de depoimentos e perguntas e de gente voltando a me procurar me fez sentir um retorno importante depois daquele tempo tentando estabilizar meus próprios movimentos. Consegui inclusive ler um livro que vou trazer a síntese aqui em uma próxima postagem. Sinto que as coisas vão aos poucos se assentando, e as marolas estão voltando a encontrar a praia, mesmo nesta cidade de instabilidades climáticas e garoinhas refrescantes. 

Voltei a ter sonhos dos quais percebia depois a sincronicidade deles com o relato de outros helenos. Estou tentando me reconstruir junto com o reconstrucionismo. Estou buscando novamente me tornar quem eu sou, como ensinava Píndaro. 

E espero que esse novo espiral de percepções e conexões me leve a escrever mais por aqui. 


[ PS.: O blog está com um layout diferentinho, arrumei para ficar mais clean e mais prático. ]

setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


outubro 12, 2017

Pontes e pontífices

Tudo bem sermos uma religião filosófica de mentes pensantes e espíritos livres, mas isso não significa que não precisamos de estrutura. Estrutura traz estabilidade e organização, o que é melhor que ter um caos. 

A ideia de ser livre não precisa nos fazer rejeitar qualquer tipo de autoridade, pois até mesmo pessoas unidas com um propósito é algo parecido com uma instituição. Uma comunidade é uma conexão, construída com paciência, planejamento e estrutura. Você não perde sua autonomia pessoal se procurar orientação de um grupo ou de uma pessoa mais experiente. Afinal, os outros só podem fazer isso: orientar; mas a decisão sobre o que fazer é só sua. 

Tem gente que acha bonito e rebelde afirmar que só os deuses podem lhe dizer o que fazer. Mas a questão é se essa pessoa tem o filtro certo para saber qual mensagem vem dos deuses e qual não vem. E a outra questão é: se você pretende ajudar os outros, precisa saber/aprender a ser ajudado e a deixar seu ego de lado. 

Para conseguir isso, precisamos reconhecer quando é melhor envolver outra pessoa. Estar todos no comando ao mesmo tempo ou não estar ninguém no comando normalmente não funciona. Podemos ter nossa individualidade e ao mesmo tempo servirmos os outros, sermos livres e ao mesmo tempo reconhecermos que outra pessoa tem melhor capacidade de nos ajudar a decidir. 

Nesses casos, a autoridade dos outros não está sobre a gente e sim sobre o objetivo que todos estamos querendo alcançar juntos. Sem isso em mente, não vamos conseguir realizar muita coisa. 

Xenócrates dizia que o Universo é composto de 3 partes: Sol com as estrelas, Terra com suas águas, e Lua com seus ares. A do Sol e estrelas seria o lugar onde os deuses habitam, a da Terra e suas águas seria o lugar onde os homens habitam, e a da Lua e ares lunares seria onde os daimones habitam, e estes são similares tanto aos deuses quanto aos homens em sua natureza. Sem os daimones, não haveria comunicação dos deuses com os humanos, assim como sem a lua o universo se desuniria. 

Ou seja, o terceiro elemento intermediário é necessário para essa comunicação. Zeus tinha Hermes como seu mensageiro, Hera tinha Íris. Perséfone é escoltada por Hécate ao sair e entrar do Hades. Hécate, aliás, é vista como tríplice exatamente por ser a deusa que intermedia dois outros elementos (reinos, mundos, seres etc). A fronteira é um terceiro elemento que une os outros dois e que possibilita - como uma membrana seletiva - que esses dois se comuniquem de forma efetiva. 

Também por isso Hécate esteja associada com a Lua. Dois séculos antes, quem era associada à Lua era Ártemis. E Selene era a lua em si. A Lua era uma estrela terrena ou uma terra estrelar, sendo assim um domínio de Hécate - que é tanto celeste quanto ctônica. 

Hécate é também a senhora e rainha dos daimones. Os daimones são espíritos imortais mas não divinos, que cuidam dos humanos. Eles tomam conta dos oráculos, comparecem aos ritos místicos, salvam os homens na guerra ou no mar, punem os transgressores, entre outras coisas. 

Mediadores são importantes. Recusar a ação deles para “não ter intermediários” não é rebeldia ou autonomia, é infantilidade e teimosia, sem falar em falta de humildade. Isso pode atrasar seu desenvolvimento em vez de demonstrar liberdade. 

Então vamos aceitar que somos limitados e aproveitar a disposição de quem pode nos ajudar a alcançar os objetivos que todos temos em comum. Não é vergonha nenhuma isso, e nem dependência ou insegurança, mas sim confiança, consideração e maturidade. 

Isso demonstra que você reconhece e é grato pelo trabalho do outro, seja ele um orientador, um deus ou um daimone. 

Mas é bom lembrar que um dos nossos maiores princípios éticos é o equilíbrio (métron, a justa medida). Logo, também não podemos deixar as decisões nas mãos do outro, precisamos ser responsáveis. O outro só pode nos orientar, mas é a gente que resolve o que fazer e assume a responsabilidade sobre o que decidiu. 

Com os deuses, por exemplo, eles fazem o que a gente pede/decide, e a gente que lide com as consequências. Já dizia Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas será sempre refém das suas consequências.”

Portanto, o melhor é ter alguém que nos ajude a pensar antes de escolher. E aceitar isso não desconfigura sermos de uma religião de liberdade, autonomia e inteligência. Não confie apenas no seu próprio julgamento, ele também pode falhar às vezes. 

outubro 06, 2012

Saúde mental... como ajudar?


Esta semana uma politeísta dos EUA mentalmente enferma veio a falecer em um incêndio em seu quarto, aparentemente provocado por ela mesma. Isso suscitou em muitos de nós uma reflexão sobre como poderíamos agir em situações semelhantes, como grupo, como apoio religioso mesmo. Afinal, era iminente que algo acontecesse, já que para os mais próximos ela falava sobre o fogo como meio de acessar o divino, embora ao mesmo tempo viesse ordenando pedras linearmente numa mesa como se quisesse se reorganizar, como se buscasse por aquilo que nos traz de volta a uma realidade saudável. Talvez por isso que não se imaginava que as coisas chegariam a tal ponto. O fato é que - como no caso de muitas aflições mentais - algumas pessoas achavam que ela só estava se comportando mal ao dizer que era esposa de Hermes, e não que fosse um problema real. Achavam que era apenas uma "drama queen" e não alguém que precisava de ajuda. Mas se alguma coisa boa surgiu do evento trágico, foi a reflexão que suscitou em nós, que nos provocou a pensar sobre nossa própria organização como rede, como um todo. Até porque foi um choque. Eu havia conversado com ela algumas vezes, e fiquei sentida de alguma forma. 

O fato é que até os estudiosos têm dúvidas sobre o uso da religião no tratamento de distúrbios mentais, se é algo útil ou prejudicial. Algumas pesquisas mostram que religiões relacionadas com possessão e exorcismo são mais prejudiciais a longo prazo do que as que se baseiam em prece e meditação. Há um estudo que mostra um templo na Índia utilizado para a cura, onde as pessoas passam um tempo lá - o que me lembrou muito Epidauro, de Asclépio. No estudo, aplicaram um teste psicológico antes e depois do período no templo, e o teste na saída chegou a mostrar melhores de 12%. Mas outras pesquisas relatam como a superstição de origem religiosa pode abalar ainda mais a razão de uma pessoa.

Nossa crença é de certa forma relacionada com a filosofia, o que poderia fazer alguns pensaram na "filosofia clínica" que afirma "mais Platão, menos Prozac"; e, embora eu não goste de como eles lidam com isso e saiba que algumas questões não podem ser tratadas só filosofando, há algo bem útil relacionado com o pensamento básico de a filosofia nos ajudando a lidar com o mundo. Quando tomamos os mitos por si, eles têm coisas muito estranhas que só entendemos quando lemos a análise que os filósofos fazem daqueles mitos. 

E, mais recentemente, temos as teorias da psicologia analítica dos junguianos e pós-junguianos considerando a mitologia uma forma de acessar nossas verdades interiores e nos tornar seres humanos melhores. Podemos listar uma série de escritores que seguem este caminho. Mas mesmo Jung dizia que: devemos aprender tudo sobre o máximo de coisas, mas na terapia devemos ser apenas um ser humano diante de outro ser humano. Muitos entendem isso como "estude mitologia, mas saiba que a pessoa que você está tentando ajudar não é Héracles ou Perséfone, são apenas elas mesmas".

Se olharmos alguns personagens míticos, encontraremos Héracles na sua loucura matando a esposa e filhos, e depois sendo purificado ou reparando o ato através do trabalho. Isso poderia nos fazer pensar sobre ter um emprego ou tarefas para fazer a fim de curar nossa enfermidade. Isso se parece muito com o que pretende a arte-terapia e a terapia-ocupacional.

Por outro lado, temos Odisseu fingindo estar louco para não ser convocado para a guerra em Tróia. Palamedes descobre o truque de Odisseu. Ou seja, a loucura pode então ser simulada, e é talvez por isso que alguns familiares têm uma resistência em acreditar que se trata de uma doença e considera aquilo apenas um "mau comportamento".

Dioniso era um estranho para os gregos, eles temiam o desconhecido, a diferença. As pessoas com distúrbios mentais normalmente se sentem desconfortáveis com um estranho, e elas mesmas se sentem estranhas no mundo. Alguns pais também pensam que nem todo comportamento de uma pessoa com enfermidade mental é por causa da doença, eles acham que algumas de suas respostas são coisa de criança, preguiça, "falta de Deus" e coisas do tipo. Eles procuram por médicos que dizem que é uma psicose, procuram por sacerdotes que dizem que é um problema espiritual, e acabam acreditando nos dois ao mesmo tempo.

Em outras religiões, há também uma sintomatologia psiquiátrica causada por ação sobrenatural, similar à possessão e usada como punição (vocês podem procurar pelo relato de Nabucodonosor ou mesmo o de Saul, na bíblia).

Então vemos que a mitologia às vezes ajuda e às vezes alimenta/aumenta os problemas; depende de como a utilizamos - se como uma ferramenta/muleta ou se como uma fuga/tábua-de-salvação. No caso da garota que tentou alcançar o divino ateando-se fogo, as informações (sabe-se lá de qual fonte de estudos mitológicos/espirituais) que ela acessou só pioraram sua disposição original.

Talvez a melhor forma de agir como grupo religioso seria apoiar as pessoas como faríamos fora da religião (listo algumas dicas abaixo, ainda nesta postagem), e mostrar a elas que há exemplos na Antiga Hélade que eram solucionados assim como eles podem solucionar suas questões com a ajuda que terão dos amigos e dos Deuses; como as coisas acontecem por uma razão; como deveríamos tomar as rédeas das nossas vidas como heróis, realizando um feito por vez; como até os deuses (como Dioniso) não eram totalmente compreendidos também; como erros do passado podem ser purificados e reparados... e toda essa maravilhosa visão ética de mundo que o modo heleno antigo de viver nos ensina.

É difícil propor algo de forma geral assim sobre esse tema, mas poderíamos nos unir para ajudar caso a caso se nos propormos a procurar pelo auxílio do grupo quando vemos alguém precisando. Talvez, se tívessemos nos unido para ajudar a moça que morreu (em vez de julgá-la, falar com ela privadamente, deixar ela pra lá, parar de procurá-la para conversar), sua situação teria outro desfecho.

Ajudar 'online' é dificilmente muito efetivo, mas ainda podemos fazer algo. Se as pessoas sentirem nosso comprometimento em ajudar, se sentirem que têm apoio nos seus esforços para melhorar, se sentirem-se seguras para tentar coisas que de outra forma (sozinhas) seria assustador, se perceberem que não precisam passar pelos problemas sozinhas, já estaríamos ajudando. Nós podemos insuflar coragem à sua falta de esperança, mas provavelmente teríamos que verificar se nós próprios somos fortes para fazer isso. Às vezes ajuda ter o mesmo problema para compartilhar experiências, mas às vezes ajuda mais se fizermos elas perceberem que podem confiar na nossa força, como alguém que é capaz de "salvá-las".

Coisas que nós NÃO devemos fazer: ficar bravos com elas; evitá-las; julgá-las; dar conselhos que elas não pediram; prometer coisas que não podemos cumprir; falar sobre o problema delas o tempo todo; minimizar o problema tipo dizendo "sai dessa" (se pudessem, já o teriam feito); dizer que sabemos o que elas estão passando (outra pessoa nunca sabe o que estamos passando, ela não tem a mesma história e personalidade que temos); ficar falando sempre sobre o passado (seus problemas são aqui-agora).

Coisas que DEVEMOS fazer: aceitar o fato de que elas têm uma doença (muitas pessoas não vêem as doenças mentais como doenças, mas são); aprender/estudar sobre seus distúrbios e como lidar com isso; ajudá-las a identificar os sintomas (incluindo os físicos); ouvir com atenção; encorajar seu envolvimento em atividades que elas gostem (esportes, hobbies, atividades culturais), embora não em muitas de uma só vez (se elas se envolvem em muitas atividades, o excesso de demandas vai fazer elas pensarem são um fracasso - por não conseguirem cumprir todas); encorajá-las a procurar ajuda médica; sugerir que elas mantenham um registro escrito; entre outras coisas.

É legal lembrá-las das coisas boas que elas têm, sorrir pra elas (ainda que por carinhas de internet), oferecer ajuda nas tarefas diárias (há coisas que é mais fácil para você terminar do que pra elas), mostrar que você sente muito pelo que elas estão passando, perguntar como podemos ajudar...  Também é importante demonstrar que você está percebendo o progresso delas, o que elas já conseguiram realizar, e que elas não precisam ter pressa - elas podem fazer um pouquinho por dia, e ainda podem ter a nossa ajuda para fazê-lo.


Não sei se sou uma boa fonte para falar dessas coisas, faz anos que não lido com psicologia, mas espero ter ajudado a despertar alguma percepção útil aqui. E espero sinceramente que não precisemos de mais "baixas de guerra" para nos apontar que deveríamos ser mais unidos como grupo para ajudar nossos semelhantes, ainda mais aqueles que compartilham de nossas crenças.


agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

fevereiro 20, 2011

"Família... janta junto todo dia!"

Prolongando um pouco as postagens nas quais falei das maneiras de vermos os deuses, como seus "pets" ou como seus "amores", desta vez vim defender nossa visão como família.

Não sei vocês, mas dentro da minha família há pessoas que me fizeram muito mal, e já vi alguns parentes entrarem em pé de guerra uns contra os outros, com histórias de trapaças e até embates corpo a corpo. E, no final das contas, estamos todos lá juntos e declaradamente irmãos, primos, tios, sobrinhos etc. (Até os monstros da família Addams ficam unidos.) Se nós - com toda a nossa herança titânica de vileza e animalidade - conseguimos deixar o passado para trás e separar as coisas, por que tantos insistem de que esta e aquela deidade "não se dão bem" e não podem ser colocados juntos no mesmo espaço?

Além de a mitologia lidar com símbolos, o fato de os deuses efetivamente tomarem partido de um lado e outro na Guerra de Tróia há milênios atrás não quer dizer que eles tomaram birra, fizeram beicinho e emburraram metade de cada lado do mundo e do Olimpo pelo resto das eras. E, mesmo no mito, quando Hefesto tenta violentar Atena e o sêmen cai na terra, Atena considera o filho de Gaia como sendo dela própria com ele. Se Páris escolhe Afrodite em detrimento de Atena e Hera, é ele o abestado de ficar dividido, não acho que três DEUSAS iriam ficar de frescurinha para sempre por conta da decisão de um pastor que há muito já morreu.

É engraçado como uma hora falam tanto de opostos complementares que se equilibram e em outra fazem questão de inimizar deidades baseando-se em algum recorte da história sem considerar todo o resto. Dionísio é um que costumam opor a Hera, sendo que foi ele que a ajudou no rolo que estava dando com Hefesto. E também não acredito que seja por acaso que a planta de Dionísio se chame "hera" em português. O próprio Héracles a quem a deusa teria tanto perseguido carrega no nome uma homenagem à própria. E, falando de imposição de tarefas, se Afrodite não tivesse exigido-as de Psiquê, esta não teria evoluído a ponto de merecer ser deificada e nem Eros teria crescido e adquirido a maturidade necessária para sair da casa da mãe. E que irmão nunca pegou o brinquedo do outro como Hermes roubou as 'pelúcias' (ovelhas) de Apolo?

Uma vez eu estava conversando sobre isso com o Jota e ele me lembrou que Otto fala das divindades não serem invejosas entre si, que eles apenas não admitiriam serem subestimados. É como sempre procuro reforçar com relação ao métron (justa medida): o "nada em excesso"; então é claro que não se trata nem de algo do tipo 'todo mundo é feliz, vamos dar as mãos e abraçar a criação', mas também não é algo do tipo 'sou teimoso e guardo rancor igual adolescente'. Fui então dar uma checada no Otto, e eis algumas coisas que eu trouxe de lá (com negritos meus):
"A divindade grega [...] não faz destacar-se a sua personalidade com base no ciúme de outros deuses. Ela não espera que o homem viva para servi-la, nem que realize suas melhores ações para glorificar sua pessoa. O culto que para si reivindica não é de tal ordem que ao lado dele nenhum outro possa ser admitido. Ela se alegra com a liberdade do espírito e requer da vida humana muito mais sentido e inteligência que a fidelidade a determinadas fórmulas, atos e objetivações." (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 231)

"Atena [...] por certo exige, como qualquer outro deus, que seu poder e sua sabedoria sejam reconhecidos e que o herói não se julgue capaz de prescindir de sua ajuda. Mas nem por isso ela faz depender seu auxílio de que a pessoa se dedique a seu serviço com fervor ou mesmo com exclusividade. [...] De sua própria boca ouvimos que é a coragem do valoroso que a atrai, não a boa vontade ou a dedicação à sua pessoa. [...] Em seu famoso diálogo com Odisseu (Odisséia 13, 287 e seguintes) [...], ela lhe diz diretamente que é o seu espírito superior que a agrada e o liga solidamente a ela". (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 214)
Aliás, Atena é uma que o povo gosta de rivalizar com Ares. Isso é uma coisa que nunca entrou na minha cabeça, eu inclusive os colocava no mesmo altar de guerra. Nesse quesito Otto parece concordar com a visão fechada da guerra como algo nocivo e diz que Ares - que teria "eterno amor a contendas, guerras e batalhas", sendo um "destruidor" de homens - não se daria com o espírito grego da temperança. Eu não entendo assim, eu acredito que uma das demonstrações de temperança é saber o momento certo para cada coisa, e, no meio da guerra - no calor da batalha -, há de se ter mesmo sangue frio. Quando Otto aponta o fato de Ares não se importar com de que lado está lutando, desde que a guerra continue, eu vejo certo preconceito do autor (que inclusive diz que Ares muda de lado só para se "refestelar" com o combate). Para mim, isso é mais questão de ser um soldado e guerreiro do que de ser inconstante ou volúvel; um soldado que apóia todos os soldados, independente de sob qual comando estão. Quem não pode mudar de lado é Atena, porque ela sim é a general, a estratégia, o mental, a que precisa ser racional e coerente. Ares é o fogo, ele vai duelar, pelejar, batalhar, com quem tiver para lutar com ele; é como se ele estivesse em um constante exercício de alerta. E não consigo ver um exército feito só por soldados ou só por generais, essas duas figuras têm que trabalhar juntas, têm que cultivar um bom relacionamento, têm que se complementar.

Por falar nisso, acho que nem preciso me demorar neste texto relembrando a oposição que Nietzsche coloca para Apolo e Dionísio, porque esta - além de didática - sempre foi de complementaridade mesmo.

Só espero que mais uma vez isto ajude a desfazer fórmulas pré-concebidas que as pessoas não têm o costume de questionar. A religião dos gregos antigos era extremamente racional, não se podia acreditar em uma coisa sem antes investigá-la ao máximo, até que ela fizesse algum sentido. Por isso me entristece ver pessoas repetindo o que outras dizem só por lhes terem um crédito de confiança e não sabendo argumentar quando alguém aponta reflexões contrárias que possuem toda uma lógica sustentando-as. É por isso que, quando nós (reconstrucionistas) insistimos em trazer textos e teoria, é apenas para fundamentar a nossa prática e termos certeza do que estamos fazendo, e não para exibir um conhecimento não-refletido e que não encontra ressonância na realidade cotidiana...

Mas lembrem-se: sem rivalidades, pois na nossa família somos "tutti buona gente"!

outubro 07, 2010

Sonho com Hermes

Estes dias tivemos um rito para as Ninfas, Akhelous e Hermes. Para celebrar esses sacrifícios, que aconteciam na antiga Erchia, usei bonequinhas de ninfas em cima de um mapa dos Bálcãs (que inclui a Grécia, para lembrar o rio Akhelous) onde também estão algumas das minhas jardineiras de plantas (para lembrar também Gaia, com a terra), uma pedra cortada de interior de cristal para Hermes ('hermai') e uma vela de canela. Consagrei a chama à Héstia e fiz duas preces, uma para Akhelous e Hermes e outra para as ninfas e Gaia (veja as duas no site). Refleti um pouco sobre essas deidades e o aspecto mensageiro de Hermes, como deus das estradas e tudo o mais. Foi um rito super-rápido e eu fiquei meio sentida por não ter conseguido ir até um rio ou lagoa, porque estava muito cheio de carros perto quando passei por lá, então fiquei pensando se tinha valido algo tão simples.

Mas na noite seguinte ao rito, no meio de um sonho normal, vejo 'um cara' andando rápido entre as pessoas e reparei que era Hermes, pois estava com um capacete que parecia casco de tartaruga (pelo formato, mas era liso - sem aqueles desenhos geométricos), com asinhas na cabeça (não sei se na cabeça ou no capacete) e nos pés, e roupa vermelha grega. O curioso é que não era nem chiton nem himation nem exomis, era uma peça única leve e aberta, que ao acordar imaginei que fosse uma clâmide. Fui olhar no nosso site e não lembrava que a clâmide - além de ser roupa de soldado, com a abertura para deixar a mão da espada livre - era também roupa de mensageiro, porque deixa o braço livre para conduzir carruagem e entregar coisas. E ele era magro, provavelmente pela questão da agilidade.

Então, mesmo na sua típica pressa, ele encontrou uma forma de me mostrar que meu momento valeu a pena sim, que ele gostou da lembrança. E eu pela primeira vez o vi "em pessoa" assim tão claramente (ao menos o que dá para vermos de alguém que está passando no meio do povo... rsrs!).

Espero que isto sirva de reflexão para quem ainda acha que Eles não respondem ou não se importam...

janeiro 29, 2010

Adivinha quem é!

~ Vamos ver a originalidade dos relatos que ouvimos? ~

Ele era filho do deus da luz, realizava curas (do corpo e da alma), curava enfermos e deficientes, ressuscitava os mortos, era chamado de salvador e redentor, recebia todas as classes e gêneros de pessoas; uma vez um paralítico veio a ele e se levantou e saiu andando depois que ele o tocou. Quem é?

ASCLÉPIO!

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Ele era filho de uma virgem mortal com um deus, era conhecido como 'salvador do mundo', antes de ele nascer seus pais terrestres se mudaram para uma cidade maior, profetas previram seu nascimento e que ele seria um rei, por isso ele foi perseguido ainda criança por uma figura poderosa que o queria matar; após crescer observou os reinos do mundo de cima de uma montanha, depois sabia o momento que iria morrer, mas disse que não se preocupassem pois ele estava indo para o "céu". Quem é?

HÉRACLES!

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Ele era o redentor, o verdadeiro salvador da humanidade, que enfrentou as autoridades para ajudá-la, trazendo a luz (fogo), e - por amor e piedade e compaixão dos pecaminosos humanos - se deixou ser sacrificado para salvá-los. Quem é?

PROMETEU!

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Ele era o filho de um deus com uma virgem mortal, representado por vezes como deus-menino e outras vezes como homem barbado, além de ser retratado montado em um burrinho; ele que transformou água em vinho, que teve significativos encontros com pescadores, que realizou curas, que morreu violentamente e ressuscitou (tornando-se imortal); cujos seguidores comiam o pão e o vinho em honra de seu corpo e sangue em uma espécie de união sagrada com ele para tentar alcançar a vida eterna, e de quem se conhece a imagem de uma cruz com ele nela e letras de uma língua antiga em volta da mesma. Quem é?

DIONÍSIO / BACO!

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Ele era o "bom pastor", representado com um cajado ou com uma ovelha ao ombro, era condutor das almas pelos prados e campinas daqui e do mundo de lá, ele transmutava elementos, andava pelas estradas, era o intermediário entre os homens e deus(es), e sabia se comunicar como ninguém. Quem é?

HERMES!

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Ele era a luz do mundo, era identificado com o sol, e pregava a moderação e a harmonia. Quem é?

APOLO!

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Ele era capaz de caminhar sobre as águas. Quem é?

ÓRION!

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Ele era a "luz do mundo", o deus nascido de uma virgem, o primeiro rei verdadeiro do povo, que se ergueu do túmulo e subiu ao céu, derrotando a morte. Quem é?

OSÍRIS!

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Ele era chamado de "bom pastor", "luz do mundo", "o cordeiro", era "o caminho, a verdade e a vida", e era identificado com uma cruz. Quem é?

HÓRUS!

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Ele era "a luz do mundo", mediador entre deus e os homens, nasceu a 25 de dezembro, pastores do lugar testemunharam seu nascimento e lhe deram presentes; ele tinha 12 discípulos, que no final se reuniram para uma ceia e então ele subiu ao céu; no dia do juízo final ele voltaria para julgar os vivos e os mortos, os justos subiriam com ele e os pecadores seriam mortos em um imenso fogo; seu dia sagrado é o domingo, sua religião foi que nos deu sete dias na semana; seus seguidores se chamavam de "irmãos" e seus líderes de "pais"; ele praticou o batismo, fez rituais de refeição sagrada nos quais carne e sangue eram consumidos simbolicamente pelos iniciados, e eles acreditavam que sobre a terra havia um céu e sob ela havia um inferno escuro com demônios e pecadores. Quem é?

MITRA!

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Ele foi concebido de forma miraculosa, homens sábios foram guiados até ele por uma estrela, o governante local quis matá-lo e começou a caçar a criança, seus pais foram avisados por um mensageiro celeste e fugiram pelo rio com o menino sagrado, ele se encontrou com pastores, cresceu fazendo grandes feitos e era o mediador entre deus e os homens. Quem é?

KRISHNA!

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Um "anjo" disse à mãe dele que ela geraria uma criança sagrada destinada a ser um salvador, ele foi instruído por sacerdotes no templo em assuntos religiosos enquanto seus pais procuravam por ele, ele começou sua carreira religiosa quando tinha 30 anos de idade, era cercado por 12 discípulos (dos quais um era seu favorito e outro era um traidor), seus discípulos se abstiveram de riquezas materiais e viajaram falando em parábolas e metáforas, ele se auto-proclamava "filho do homem" e lhe chamavam de "profeta" e "mestre" e "senhor", ele fez maravilhas e curou enfermos e deficientes, ele caminhou na água (e, quando um de seus discípulos tentou fazer o mesmo, começou a afundar porque sua fé não era forte o bastante). Quem é?

BUDA!

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Ele era o deus-homem, o profeta, fundador de uma grande religião monoteísta que ainda existe, ele pregou que só havia um deus; seus ensinamentos se focavam na eterna luta entre o bem e o mal, incluíam a ideia de um salvador que levantaria os mortos e julgaria a todos, os justos iriam ao paraíso e os pecadores ao inferno (a palavra "paraíso" veio dessa religião); o semi-deus começou sua carreira no começo dos 30 anos e tinha discípulos que eram um monte de monges perambulando para pregar sua palavra; ele depois foi morto e subiu ao céu. Quem é?

ZARATUSTRA ou ZOROASTRO!

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Todos esses que se encaixam na imagem de um deus-homem salvador-do-mundo eram muito mais antigos do que Jesus! Martin Nilsson, em "A Origem Micênica da Mitologia Grega" (1931) afirmava que os mitos gregos datam do segundo milênio Antes da Era Cristã, muito antes da decifração da escrita Linear-B (vide Moses Finley, "O Legado da Grécia ", 1998). Os outros citados também eram antigos: egípcios (Osíris e Hórus) eram bem conhecidos antes dos gregos, Buda (Siddhartha Gautama) também era anterior a Jesus (cerca de 563 a 483 AEC), a primeira menção do persa Mitra é de 1400 AEC, Zoroastro era do século VII AEC, e o hindu Krishna é citado no Maabárata/Mahabarata do século IV AEC.

Às vezes as pessoas acham que a origem de uma história está no primeiro lugar de onde ela a escutou, sem pesquisar o que veio antes (vide o povo que acha que Tolkien "inventou" as runas, que Perséfone é só uma personagem do filme Matrix e que Atena vem de um desenho animado japonês), e de paráfrase em paráfrase vai-se acreditando em qualquer coisa...

novembro 22, 2009

Hermes Noumios/Oeopolus/Kriophoros (o bom pastor)

Minha versão do Salmo 23, feita de última hora depois de ver o mesmo postado em um blog :

Hermes é teu pastor, nada te faltará.
Se precisar, roubará para ti o rebanho de Apolo e se deitará em verdes pastos, tocando mansamente a lira de um casco de tartaruga.
Condutor de almas, ele as guia pelos campos de asfódelos e pelas planícies serenas do Hades.
Mas nada hás de temer, pois é também dele a transformação da alquimia e a abertura de estradas, o deus da travessia e das travessuras.
Seu caduceu e o adejar de suas asas nos confortam.
Levará rapidamente tua mensagem aos deuses e trará deles, na mesma velocidade, as bênçãos que cobrirão de movimento os teus dias.
Por todos os aeons, por todas as eras.
Ésto. Ghénoito. (Assim seja.)

~ Álex, 22/11/2009 ~

maio 02, 2009

Triplamente Feliz

Estou lá eu em um museu de arte e cultura, onde fomos olhar coisas barrocas para a aula de literatura, e do nada encontro três estátuas grandonas (do tamanho de um adulto mais alto do que eu) de Ceres, Mercúrio e Minerva no jardim. O guia/monitor disse que elas originalmente estavam em uma fábrica antiga e as levaram para lá, mas nem ele soube explicar porque elas existiam. E ele só sabia que eram deuses, eu que tive que dizer para ele quais eram. Semana passada eu tinha feito papel de Vênus de "Os Lusíadas" na faculdade (aliás, teve uma menina de outro semestre que veio falar comigo muito admirada porque disse que viu uma própria deusa grega no palco), então hoje, quando meu amigo virou e disse "Olha você ali!" apontando para a estátua, eu disse "não, aquela é Minerva (Atena), não Vênus" e ele "não, mas não é por isso, é pelo rosto, é igualzinha você; se tirar o capacete, fica a sua cara", ao que eu respondi "ah, mas ela é minha patrona mesmo", ainda que ele não entendesse do que eu estava falando. Fiquei feliz com o comentário que confirma o que outras pessoas já tinham me dito, ainda mais vindo de alguém que não sabe da minha paixão pelos deuses. Ele desconhece, mas Eles não... ;D

O que disse a menina me deixou feliz, o que disse o colega me deixou feliz, e a notícia de que uma grande amiga está melhorando de saúde foi a terceira coisa feliz deste fim de semana. =))

março 16, 2009

O líquido tem que fluir entre as duas taças...

Estes dias vinha me sentido um pouco como Dionísio sendo despedaçado e em minhas preces pedia para ser salva e restaurada das partes de mim que ainda estão vivas e não foram comidas por "monstros". Então tentei me cuidar para manter algo ainda disponível para ser escolhido pelos deuses como forma de me recriar. E acredito estar melhorando. Como Hermes (Mercúrio, para os romanos) é um deus também da 'sorte', esperava que ele viesse mudar a minha para algo mais agradável.

Fui por acaso folhear um livro hindu e notei isso:
"रसस्य मनसश्छैव छञ्छलत्वं सवभावतः |
रसो बद्धो मनो बद्धं किं न सिद्ध्यति भूतले || २६ ||

rasasya manasaśchaiva chañchalatvaṃ svabhāvataḥ |
raso baddho mano baddhaṃ kiṃ na siddhyati bhūtale || 26 ||

By nature, Mercury and mind are unsteady: there is nothing in the world which cannot be accomplished when these are made steady.

Por natureza, Mercúrio e a mente são instávels: não há nada no mundo que não possa ser realizado quando eles são feitos estáveis."

(Hatha Yoga Pradipika)
Isso me fez pensar que eu ainda estaria estancada no lugar, sem realizar nada, se as coisas continuassem do jeito que estavam. O choque ao menos fará o que é necessário mudar e sair do lugar.

março 11, 2009

Uma 'grega' na yoga (parte II)

Hoje estávamos trabalhando o equilíbrio, e a professora falou que equilíbrio não é um ponto entre duas forças, mas uma ausência de forças conflitantes. Quando ela estava falando nisso, veio à minha cabeça Hermes entre Dionísio e Apolo. Eles não são opostos que precisem do deus mensageiro no meio para amenizar nada. Eles se completam.

Em nenhum momento do tema "equilíbrio" eu pensei em justiça ou balança ou Têmis, mas sim fiquei pensando em Hermes, o qual veio, voando até parar flutuando, pouco vestido, e envolto em faixas brancas esvoaçantes. Puxou-me então pela cintura, me carregando de costas para Ele.

Mais tarde, ela nos fez ter uma visualização com um beija-flor. Achei isso interessante, porque para mim o beija-flor estava associado a Hermes também, mas eu não tinha certeza. Então fui pesquisar e descobri que os incas honravam o beija-flor como pertencente ao deus Q'enti, que tem muitas semelhanças com Hermes, por ser um mensageiro do mundo superior e ser respeitado por sua velocidade e precisão.

Ao procurar uma imagem de Hermes, encontrei uma parecida com a preparação para um dos ásanas que fizemos. Ainda não achei foto da postura para comparar, mas já imaginem aí pela figura...