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setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


maio 24, 2013

Mito, História, Religião

"Onde eu vejo interessantes incorporações de arquétipos que normalmente seguem jornadas similares às dos antigos heróis e que trazem ideias tanto sobre a virtude quanto sobre o vício para uma audiência moderna, outros vêem 'apenas' relatos de ficção. Onde outros vêem os antigos heróis como pessoas históricas dignas de veneração, eu sou simultaneamente cética de sua historicidade enquanto aceito a sua importância no contexto helênico. Eu apenas assumo uma abordagem um pouco mais metafórica. Se você é do tipo que tem que ver ossos e túmulos, não me importo. Eu simplesmente não preciso disso para assimilar a Verdade das histórias.
Isso significa que penso que os deuses são apenas personagens de historinhas? Claro que não. Isso significa que eu acho que os personagens nas histórias são deuses? De novo, não. O Thor dos quadrinhos e do cinema é um alienígena. O Thor dos Eddas é um deus. De fato, a maioria das representações cinemáticas de Apolo me causa arrepios porque elas não condizem com meu entendimento nem das fontes materiais primárias nem do modo que ele tem interagido comigo. [...]
Muitos de nós olha para a mitologia, digamos, dos abraâmicos, como uma coisa metafórica. Duvidamos e somos céticos de coisas como um Adão e uma Eva históricos, um arbusto que queima e não se consome, uma inundação global e um homem com uma arca. E, de fato, uma abordagem literária da bíblia cristã é algo que é tão alheia à minha crença, que eu não entendo como uma pessoa pode acreditar nisso. Mas as pessoas acreditam e, enquanto isso as tornar melhores seres no mundo e enquanto isso as preenchê-las/realizá-las sem prejudicar os outros, não tenho problemas com isso. Claro, isso me confunde e não é a minha praia, mas não posso dizer a elas no que acreditar mais do que elas podem dizer pra mim o mesmo. Do meu ponto de vista, se os mitos vão ser metafóricos, eles vão ser metafóricos e pronto. Não posso apontar a mitologia de outra pessoa e dizer 'isso aí é metafórico, mas a minha é histórica', porque eu não posso provar isso e não posso fazer isso fazer sentido pra mim.
Mas, de novo, ver os mitos como metáforas não significa que eu acredito que os deuses são apenas personagens de historinhas. Eles são meus deuses. Eu falo com eles, eu sinto sua presença, eu conheço pela experiência que eles são Reais. Eles não são reais para mim como o Samwise Gamgee. Eles são reais pra mim como meu gato é real, mas eles normalmente falam conosco em metáforas e relatos/histórias. O problema, acho, é que - como acontece com os católicos e os protestantes - estamos usando o mesmo material como fonte e muito da mesma linguagem, feriados sacros e nomes para o divino, mas não estamos praticando a mesma religião.
É útil discussões como esta para sermos respeitosamente curiosos sobre os pontos nos quais discordamos. Na minha experiência, é uma boa forma de encontrar algo em comum ou ao menos de cultivar compreensão mútua onde há pouca coisa em comum." 
(por Sunweaver, trechos de http://www.patheos.com/blogs/agora/2013/05/making-light-help-me-joe-campbell-youre-my-only-hope/, tradução da Álex)

Esse assunto dos mitos e da ficção é algo que é sempre útil repetir. Volta e meia vemos coisas como comentários sobre uma personagem em uma postagem sobre uma deidade. Tipo uma vez que alguém publicou uma imagem clássica de Atena e um indivíduo comentou "deusa inútil, vive deixando os Cavaleiros em perigo", claramente confundindo-a com a personagem de cabelo roxo do anime Cavaleiros do Zodíaco. Provavelmente há também os que acham que a deusa Diana conviveu com a Mulher Maravilha e que a Xena namorou Ares. Ou, trazendo algo mais atual, vemos as pessoas que se perguntando de que deus são filhas e querendo atravessar uma espécie de véu das brumas após terem lido a série de Percy Jackson e os olimpianos...

Aqueles são personagens de ficção. Usam o nome e umas poucas características estereotípicas dos deuses originais, mas não são os deuses que cultuamos. Ao menos não os meus. É como o exemplo do Thor dos quadrinhos e o dos mitos. 

Se os deuses fossem ressoar nossa campanha contra o sujeito da C.D.H., eles olhariam para esses personagens cinematográficos e segurariam uma plaquinha "A Marvel não me representa". Ou isso:

[ Zeus ]

Outra questão é a própria simplificação dos mitos literários, como já falamos aqui no blog, achando que os deuses descritos na Ilíada em lados diferentes da guerra são inimigos até hoje. Falta leitura de fontes diferenciadas da literatura antiga, falta leitura de teóricos modernos recomendados, e falta experiência real com os deuses pela ortopraxia diária. Senão do que adianta apontar a incongruência das alegorias de religiões/crenças alheias e não questionar o simbolismo da sua própria? 

Quando a moça do texto acima cita Joseph Campbell no título do post, lembrando a história do "mitologia é como chamamos a religião dos outros", ela deixou claro do que iria falar. 

Muitos de nós devem se lembrar como foi sua mudança de paradigmas nessa área da vida. Eu me lembro que um dia achava que existia um só deus e que a reencarnação não fazia o menor sentido, achando um absurdo quem acreditava nisso - uma vez que a população aumentava e não apenas morria e voltava. Depois de um tempo, tudo foi mudando, não consegui mais conceber a ideia de um monoteísmo e não podia negar as evidências da reencarnação até para a física quântica. Um dia eu tirava dúvidas vocacionais no catolicismo, no outro não entendia como se podem repetir dogmas como os que ouvi de uma amiga adventista ao tentar explicar para outra uma espécie de hierarquia entre as 3 pessoas do seu deus. Mas um dia estivemos do outro lado, e - a exemplo do que acreditam os hindus - cada um tem o seu jeito e caminho para buscar a verdade e o sagrado. Por isso não costumo me envolver em discussões que atacam a crença que difere da nossa. Ataco a discriminação, a injustiça, a guerra santa, a tirania, o desrespeito, a imposição de interesses, mas não a fé, não aquilo que te faz querer ser melhor, não aquilo que te dá esperança e vira um sentido pra sua vida. Ninguém tem o direito de exigir que o outro pense igual a ele/a.

Dos meus amigos de adolescência, um foi ser padre em Roma, outro foi ser monge budista tibetano na Suíça, outro é bispo evangélico nos Estados Unidos, e eu conduzindo os helenos aqui no Brasil... E isso só dos amigos que eu sei onde foram parar. Como me disse uma amiga recente, essa é a minha "egrégora", foi com essas pessoas de destino tão aparentemente diverso - embora todos relacionados ao sagrado - que eu cresci. E talvez seja justo essa diversidade que tenha me atraído para um helenismo do métron, da justa medida, do equilíbrio, da reflexão racional... com um leve toque da tolerância que vejo no hinduísmo, mas o qual não me reverbera em outros pontos (para mim, deveras exigentes e pouco explicativos) de sua doutrina. 

E é essa reflexão racional e essa experiência real com o sagrado que me levam a saber distinguir os meus deuses dos seus homônimos personagens da ficção. Melina Eleni Kanakaredes Constantinides (que, por sinal, faz aniversário no mesmo dia que eu) pode ter dado uma belíssima Athena nas telonas, mas ainda prefiro os "olhos glaucos" da minha divina patrona. Aliás, como não amar uma divindade depois que você reconhece sua ação em sua vida e sente o 'en-thus-iasmo'  de 'ter um deus dentro'? Desejar a excelência virtuosa da areté se torna algo urgente para a gente se sentir cada vez mais próximo desse "mundo cheio de deuses" do qual falou Thales. 

E você, vai preferir ficar aí, acreditando num Kratos de videogame? ;-)

maio 15, 2012

Até os contos de fadas são helenos

Duas traduções em uma, a primeira de uma notícia recente em grego e a segunda da wiki em inglês:

Chapeuzinho Vermelho tem 2.600 anos e... é grega!
Antropólogos e biólogos uniram forças para decidir a origem dos contos de fadas e focaram a atenção nas variações transferidas de uma cultura para outra. Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, e principalmente Chapeuzinho Vermelho e outros heróis da infância atraíram e mantiveram a atenção dos cientistas sobre eles.

A conclusão, que veio de um extenso processo, é de que cada parte do enredo vem de uma fonte comum e única.

O Dr Jamie Tehrani, antropólogo da Universidade Durham, e sua equipe cuidadosamente examinaram 35 versões conhecidas da Chapeuzinho Vermelho. A narrativa europeia apresenta o relato de uma menininha, cujo lobo mau se disfarça como sua vovó favorita e tenta lhe fazer mal. Os chineses trocam o animal perigoso e astucioso para um imenso tigre. No Irã, por causa do preconceito religioso, o caso é estrelado por um menininho.

Então, ao contrário da visão de que o conto que acompanha os pequeninos em todas suas refeições infantis surgiu no século XVII, Dr Tehrani argumenta fortemente que todas essas mudanças tem um ancestral comum de mais de 2.600 anos.

"Na época, os famosos e amados contos de fadas se tornaram algo como um corpo humano. O relato mais antigo encontramos nas fábulos de Esopo, de 6 séculos AEC. Temos certeza de que em algum lugar jaz a razão para esse ancestral supostamente descender de 'O Lobo e as crianças'."

De acordo com a pesquisa, então, o tataravô de Chapeuzinho Vermelho foram todos os contos de Esopo!

Quem era Esopo?

Esopo era um antigo contador de histórias grego, um dos principais a "ensinar mitologia". As evidências anedóticas sobre sua vida não são nada práticas e muitos ainda duvidam de sua existência. Os mitos eram sempre orais, então nem mesmo se salvou um registro escrito deles. Esopo apareceu no século VI AEC e provavelmente nasceu de uma família de escravos em 625 AEC na Frígia. Sua morte provavelmente foi em Delfos, quando em 560 AEC foi enviado para lá pelo Rei Croesus para consultar um oráculo. Ele teria sido acusado de heresia e sentenciado à morte, sendo destruído no topo do monte Parnaso.

Os contos de fadas armazenados em nossos cérebros...

O professor alemão da Universidade de Minnesota Tzak Zipes, que devotou muito de sua vida procurando a origem dos contos de fadas que fascinaram todas as crianças a despeito de raça, religião e origem, fala sobre a excelente qualidade dessa pesquisa: "Acho que todos esses contos podem ajudar os pais a entender como explicar o risco e o aumento dos atos de violência. É claro que as adaptações são diretamente relacionadas ao nosso meio-ambiente. Por essa razão, toda a informação é transferida de geração a geração e armazenada em nossos cérebros. Dessa forma, os mitos de Esospo, que 'viajaram' pelo mundo e foram adaptados às épocas modernas, ainda estão entre nós! "
(Fonte: http://www.thebest.gr/news/index/viewStory/12343225/04/2012, tradução da Álex)


Cinderela também é grega
"Rhodopis" (Ροδώπις) é a versão antiga e original do conto da Cinderela. Registrada pela primeira vez no século I AEC pelo historiador grego Strabo, ela é considerada o mais antigo relato de Cinderela.

# Enredo:
Rhodopis (a "de bochechas rosadas"), uma escrava grega, trabalha na casa de seu mestre egípcio. Embora gentil, seu mestre mais velho passa a maior parte do tempo dormindo, e - portanto - não fica sabendo do tratamento ríspido dado à escrava pelas mãos de suas outras servas. Por Rhodopis ser bela e estrangeira, as outras caçoam dela e lhe dão ordens pela casa.
Depois de seu mestre ver Rhodopis dançando habilmente sozinha, ele lhe dá um par de sandálias trançadas de rosas. As outras servas ficam ressentidas desse tratamento dele e tratam Rhodopis de forma mais severa do que antes.
Um dia, o faraó Ahmose II convida o povo do Egito a uma celebração no rio Mênfis (Memphis). As outras servas impedem Rhodopis de ir com elas, dando-lhe uma longa lista de tarefas para completar.
Enquanto ela está à beira do rio lavando roupa, suas sandálias se molham e ela as coloca ao sol para secar. De repente, o falcão Hórus se arremete abaixo, agarra uma das sandálias, e voa com ela.
Rhodopis guarda a outra sandália em suas vestes.
Durante a celebração no Mênfis, o falcão solta a sandália no colo do faraó. Percebendo que era um sinal de Hórus, ele decreta que todas as donzelas do reino devem experimentar a sandália, e que ele se casará com aquela cujo pé couber nela.
A busca do faraó pela dona da sandália o leva até a casa de Rhodopis. Embora ela esteja cavalgando quando vê o barco do faraó, ele a vê e pede a ela para experimentar a sandália. Depois de demonstrar que cabe nela, ela puxa o outro lado do par, e o faraó declara que se casará com ela.
Esopo tem uma breve menção nesse relato. Quando ela era uma escrava antes de ir para um lar egípcio, Rhodopis teria conhecido Esopo, que lhe contou muitas histórias.

# Contexto histórico:
O geógrafo grego Strabo (64/63 AEC a +/- 24 EC) foi o primeiro que relatou o conto da garota greco-egípcia Rhodopis, considerado como a primeira variante do conto de Cinderela. Outro relato de Rhodopis sobreviveu nas escritas do autor romano Aeliano (175 - +/- 235 EC), mostrando que o tema de Cinderela continuou conhecido pela antiguidade. Talvez as origens da figura desse conto de fadas pode ser traçada a uma cortesã trácia de verdade, Rhodopis, que viveu na época do faraó Amasis (570-536 AEC) e conheceu o antigo contador de histórias Esopo. Rhodopis é também a esposa do épico Asam, que morreu e ressuscitou e recebeu uma nova esposa chamada Rhodopa.
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Rhodopis, tradução da Álex)

[Imagem]: pintura em prato grego de 490-480 AEC


outubro 13, 2011

Aprender e Compartilhar

Outro dia dei uma olhada na novela que está acabando, das sete. O que era padre e deu um tempo na batina para tentar namorar ficou amargurado e a sua amada preferiu vê-lo feliz e livre do que com ela. Eu me identifiquei com a conversa que eles tiveram, sobre ele sentir falta das preces, do silêncio, da penumbra da igreja, e até da solidão, e sobre ela sentir que a missão dele era algo maior que as coisas do mundo, que ele não foi feito para amar uma só pessoa, mas toda a humanidade. É difícil explicar isso pros outros, a maioria não acredita que fico mais feliz sem dividir minha devoção com um ser humano e deixar de ter tempo para todos os outros que precisam. Mas é assim mesmo. Os estóicos acreditavam que os professores não deveriam se casar (e não era questão de ser celibatário, mas de 'casar' mesmo), porque as obrigações domésticas tomariam muito do tempo deles. (Hoje a gente tem outras alternativas, as coisas estão mais automatizadas e acaba sendo uma questão de organização e prioridades.) De qualquer forma, quando você abre de verdade seu coração para essa totalidade, quando deixa de se sentir separado do resto, ao mesmo tempo em que você deixa de ter necessidade de estar sempre junto, você deixa de se sentir sozinho.

Já vi muitos casos de peregrinos que chegaram em centros religiosos (seja na Índia, em Compostela, numa tribo afastada etc) procurando se sentir unida àquelas pessoas porque "não há um grupo na minha cidade e eu queria ver como se faz", e o seu orientador (seja guru, seja sacerdote, xamã etc) dizer algo do tipo "se você praticar de coração, seja onde estiver, você estará praticando com todos nós". Portanto, não se sinta vazio porque está inseguro de não ter alguém olhando para ver se você fez certo. Não se sinta menor porque fez as coisas sem uma sequência ou porque seu rito foi muito rápido. Não pense que os deuses não compareceram, se aborreceram com a simplicidade da sua oferta e preferiram ir pro rito de outro 'banbanbam' qualquer do helenismo. Se Eles só pudessem estar em um lugar e momento por vez, não seriam lá muito dignos desse título de 'deuses', não?

A gente sempre vai encontrar dificuldades e dúvidas quando busca fazer as coisas de forma genuína. Quando elas surgirem, não transforme-as em pedras que atravancam seu caminho como se fossem desculpas para não tentar de novo. Não seja orgulhoso demais em admitir as próprias falhas, mas procure entender quais foram, escute-as como se estivesse ouvindo algo de um professor de verdade (porque no fundo está). Não existe um tempo fixo para dizer "daqui a dois anos eu vou entender completamente disso". Em qualquer momento a gente pode fazer besteira. A questão é aceitar e acreditar que aquilo pode ser um presente para nos transformar e nos fazer acordar para algumas coisas que antes não enxergávamos. Não fique confuso com as curvas sinuosas do caminho, pense nelas como um tempo extra que você ganhou para estar na estrada com Eles - afinal, curvas são mais emocionantes e duradouras do que as retas monótonas e previsíveis. Ter fé, aqui, é ter força para continuar por essa estrada.

Agora entra um 'ponto-porém' aqui. Embora você possa fazer algo você-Eles e embora não precise estar fisicamente onde outros estão, ainda é necessário existir alguém/algo que te oriente, o que implica em uma aceitação paciente e amável do que quer que se apresente. Se a gente aprende a prestar atenção (perscrutar) e agradecer por cada coisa, cada presente inesperado, cada folhinha esvoaçante, cada ideia inspiradora, certamente não deveríamos negligenciar a orientação voluntária de um professor instruído, criterioso, informado. Cada coisa ou pessoa que vem à sua frente deveria ser tomada com um amor e devoção sinceros. Nossos 'mentores' são ligações importantes, são laços personificados com os caminhos divinos que vão se desdobrando em nossa direção, se revelando além das névoas do desconhecido. Não dá para achar sua cadeira no teatro desse espetáculo sem um lanterninha pra te guiar, e nem dá para encontrar um bom lanterninha se você não demonstrar a intenção de vislumbrar - admirado - o espetáculo.

Convém lembrar também que o lanterninha, o professor, o orientador, é um ser humano. Ele espera uma conexão. Você saberia responder o que ele acha mais importante no momento? Você pensa sobre as coisas que ele lhe apresenta? Você é honesto ao contar-lhes suas experiências e reflexões? Você se coloca no lugar dele e pensa também no que ele faria no seu lugar? Você agradece a ele? Você demonstra o que ele significa para você? O que você oferece em troca? Qual a sua contribuição nesse 'banquete'? Concentração, empatia e gratidão podem fortalecer e tornar as relações mais leves, mais alegres... Pra que esperar uma crise para precisar sentir a falta e tentar correr atrás de recuperar o perdido? Aproveite o tempo que você tem com os que se dispõem a caminhar com você. E pise com gentileza pela trilha. Valorize suas conexões. Todos podemos aprender uns com os outros -- ou, como pregaria Platão, ajudar a nos lembrarmos do que sempre soubemos.

Pensando nisso, o RHB está formando orientadores. No próximo ano civil eu espero que já os tenhamos mais disponíveis. A princípio eles já podem responder suas dúvidas e atuar como oráculos. Mas nossa intenção é ir além e ajudar cada vez mais, com organização e disciplina. Já ouvi falar que algumas pessoas se identificam mais com este ou com aquele outro, e acredito que essa afinidade ajuda na motivação. Assim, sugiro que vocês já vão conhecendo nossos queridos voluntários e criando seus laços com eles. Até porque eles irão formar outros. Ainda sonho com uma rede que não é corrente, com uma rede flexível e firme o bastante para não deixar ninguém se machucar ao dar um passo em falso no trapézio. É essa rede que eu espero formar para o nosso grupo. Uma rede com laços mas sem nós, mais resistente que metal de elo de corrente que machuca, e mais macia também.

Parece que comecei falando de uma coisa e fui puxando outra e acabei formando um texto-tricô, rsrs. Mas acho que no fim das contas o sentido dessa malha foi capturado e vai te ajudar a enfrentar o frio. Ao menos conto com isso. Porque a gente não é e nem está sozinho. 

;))

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

agosto 06, 2011

Convite do grupo Thyrsos - Lua Cheia 13/08

Lua Cheia de Agosto

"Como em agosto do ano anterior, nós lembramos novamente cada Irmão e Irmã dos Antigos Caminhos a honrar a Estátua do Céu Noturno, Selene. Na noite de sábado, dia 13, reúnam-se em grupos ou com seus amados ou mesmo sozinhos, e realizem seus Ritos e Desejos com um coração admirável, direcionando suas mentes junto para as ofertas da Rainha Dourada.
Que todos nós, o povo das Tradições Nacionais e dos Antigos Caminhos, tenhamos a chance de nos unirmos em Espírito na noite mais brilhante do solstício.

Thyrsos - Ethnikoi Hellenes
"


(tradução minha)

fevereiro 20, 2011

"Família... janta junto todo dia!"

Prolongando um pouco as postagens nas quais falei das maneiras de vermos os deuses, como seus "pets" ou como seus "amores", desta vez vim defender nossa visão como família.

Não sei vocês, mas dentro da minha família há pessoas que me fizeram muito mal, e já vi alguns parentes entrarem em pé de guerra uns contra os outros, com histórias de trapaças e até embates corpo a corpo. E, no final das contas, estamos todos lá juntos e declaradamente irmãos, primos, tios, sobrinhos etc. (Até os monstros da família Addams ficam unidos.) Se nós - com toda a nossa herança titânica de vileza e animalidade - conseguimos deixar o passado para trás e separar as coisas, por que tantos insistem de que esta e aquela deidade "não se dão bem" e não podem ser colocados juntos no mesmo espaço?

Além de a mitologia lidar com símbolos, o fato de os deuses efetivamente tomarem partido de um lado e outro na Guerra de Tróia há milênios atrás não quer dizer que eles tomaram birra, fizeram beicinho e emburraram metade de cada lado do mundo e do Olimpo pelo resto das eras. E, mesmo no mito, quando Hefesto tenta violentar Atena e o sêmen cai na terra, Atena considera o filho de Gaia como sendo dela própria com ele. Se Páris escolhe Afrodite em detrimento de Atena e Hera, é ele o abestado de ficar dividido, não acho que três DEUSAS iriam ficar de frescurinha para sempre por conta da decisão de um pastor que há muito já morreu.

É engraçado como uma hora falam tanto de opostos complementares que se equilibram e em outra fazem questão de inimizar deidades baseando-se em algum recorte da história sem considerar todo o resto. Dionísio é um que costumam opor a Hera, sendo que foi ele que a ajudou no rolo que estava dando com Hefesto. E também não acredito que seja por acaso que a planta de Dionísio se chame "hera" em português. O próprio Héracles a quem a deusa teria tanto perseguido carrega no nome uma homenagem à própria. E, falando de imposição de tarefas, se Afrodite não tivesse exigido-as de Psiquê, esta não teria evoluído a ponto de merecer ser deificada e nem Eros teria crescido e adquirido a maturidade necessária para sair da casa da mãe. E que irmão nunca pegou o brinquedo do outro como Hermes roubou as 'pelúcias' (ovelhas) de Apolo?

Uma vez eu estava conversando sobre isso com o Jota e ele me lembrou que Otto fala das divindades não serem invejosas entre si, que eles apenas não admitiriam serem subestimados. É como sempre procuro reforçar com relação ao métron (justa medida): o "nada em excesso"; então é claro que não se trata nem de algo do tipo 'todo mundo é feliz, vamos dar as mãos e abraçar a criação', mas também não é algo do tipo 'sou teimoso e guardo rancor igual adolescente'. Fui então dar uma checada no Otto, e eis algumas coisas que eu trouxe de lá (com negritos meus):
"A divindade grega [...] não faz destacar-se a sua personalidade com base no ciúme de outros deuses. Ela não espera que o homem viva para servi-la, nem que realize suas melhores ações para glorificar sua pessoa. O culto que para si reivindica não é de tal ordem que ao lado dele nenhum outro possa ser admitido. Ela se alegra com a liberdade do espírito e requer da vida humana muito mais sentido e inteligência que a fidelidade a determinadas fórmulas, atos e objetivações." (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 231)

"Atena [...] por certo exige, como qualquer outro deus, que seu poder e sua sabedoria sejam reconhecidos e que o herói não se julgue capaz de prescindir de sua ajuda. Mas nem por isso ela faz depender seu auxílio de que a pessoa se dedique a seu serviço com fervor ou mesmo com exclusividade. [...] De sua própria boca ouvimos que é a coragem do valoroso que a atrai, não a boa vontade ou a dedicação à sua pessoa. [...] Em seu famoso diálogo com Odisseu (Odisséia 13, 287 e seguintes) [...], ela lhe diz diretamente que é o seu espírito superior que a agrada e o liga solidamente a ela". (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 214)
Aliás, Atena é uma que o povo gosta de rivalizar com Ares. Isso é uma coisa que nunca entrou na minha cabeça, eu inclusive os colocava no mesmo altar de guerra. Nesse quesito Otto parece concordar com a visão fechada da guerra como algo nocivo e diz que Ares - que teria "eterno amor a contendas, guerras e batalhas", sendo um "destruidor" de homens - não se daria com o espírito grego da temperança. Eu não entendo assim, eu acredito que uma das demonstrações de temperança é saber o momento certo para cada coisa, e, no meio da guerra - no calor da batalha -, há de se ter mesmo sangue frio. Quando Otto aponta o fato de Ares não se importar com de que lado está lutando, desde que a guerra continue, eu vejo certo preconceito do autor (que inclusive diz que Ares muda de lado só para se "refestelar" com o combate). Para mim, isso é mais questão de ser um soldado e guerreiro do que de ser inconstante ou volúvel; um soldado que apóia todos os soldados, independente de sob qual comando estão. Quem não pode mudar de lado é Atena, porque ela sim é a general, a estratégia, o mental, a que precisa ser racional e coerente. Ares é o fogo, ele vai duelar, pelejar, batalhar, com quem tiver para lutar com ele; é como se ele estivesse em um constante exercício de alerta. E não consigo ver um exército feito só por soldados ou só por generais, essas duas figuras têm que trabalhar juntas, têm que cultivar um bom relacionamento, têm que se complementar.

Por falar nisso, acho que nem preciso me demorar neste texto relembrando a oposição que Nietzsche coloca para Apolo e Dionísio, porque esta - além de didática - sempre foi de complementaridade mesmo.

Só espero que mais uma vez isto ajude a desfazer fórmulas pré-concebidas que as pessoas não têm o costume de questionar. A religião dos gregos antigos era extremamente racional, não se podia acreditar em uma coisa sem antes investigá-la ao máximo, até que ela fizesse algum sentido. Por isso me entristece ver pessoas repetindo o que outras dizem só por lhes terem um crédito de confiança e não sabendo argumentar quando alguém aponta reflexões contrárias que possuem toda uma lógica sustentando-as. É por isso que, quando nós (reconstrucionistas) insistimos em trazer textos e teoria, é apenas para fundamentar a nossa prática e termos certeza do que estamos fazendo, e não para exibir um conhecimento não-refletido e que não encontra ressonância na realidade cotidiana...

Mas lembrem-se: sem rivalidades, pois na nossa família somos "tutti buona gente"!

janeiro 26, 2011

D.R.* com os deuses

*D.R. = discussão de relação / discutir relacionamento

Há várias maneiras de se pensar nosso relacionamento com os deuses. Em outra postagem comparei-nos a bichinhos de estimação. Hoje queria pensar como a relação de um casal, principalmente no que diz respeito à ortopraxia (prática correta) e rituais.

Às vezes eu me perguntava se um ritual tão simples e rápido valia a pena, se não seria melhor deixar para fazer só os grandes - dos festivais que conhecemos melhor, se gestos fáceis e parecidos com outras coisas do dia-a-dia poderiam ser configurados como sagrados. E Eles me respondiam por texto ou me mostravam por sonho que tinha valido sim. Primeiro porque o cerne do ritual, o sacrifício, não significa algo enfadonho (vide meu texto sobre sacrifício na revista Ideon Antron nº2). Segundo porque, em vez de pensar que tudo o que se parece é profano, há de se pensar o contrário, que nosso dia secular também tem o seu quê de sacro, visto que faz parte do cumprimento do trabalho de tecelagem das Moiras.

Mas o mais importante - que é onde eu queria chegar - é ver nessa relação algumas similaridades com aquelas relações que conhecemos. Então tente imaginar junto comigo: seu cônjuge/consorte sabe que você tem seus afazeres, que precisa trabalhar, escovar dente, jogar com os amigos, fazer suas leituras, visitar a mãe etc. Porém, o que você não pode é agir como se ele/a fosse invisível ou que só esteja ali para lhe servir. É necessário demonstrar que ele/a faz parte da sua vida, que você o/a ama, que considera a opinião dele/a, que quer compartilhar suas coisas com ele/a, que se lembra dele/a durante uma viagem ou ao ver o doce preferido dele/a quando você estava na padaria e decidiu comprar para lho dar. Enfim, precisamos deixar claro a importância e a gratidão que temos com quem divide sua vida conosco, e sentirmo-nos plenos ao vê-los sorrir de satisfação com algo que fizemos ou lhes dissemos. É melhor falar-lhes dos nossos sentimentos ou lhes dar um bombom de 60 centavos do que simplesmente não fazer nada porque achou que um bombom ou uma flor seria muito pouco.

Pois bem, saibam que não é muito diferente com os deuses. Eles sabem e vêem que o nosso dia é cheio e corrido, mas aqueles dez minutinhos que tiramos para acender uma vela, um incenso, recitar hinos e verter uma libação antes de já desfazer o arranjo de um altar improvisado, só isso já demonstra o quanto queremos preservar essa nossa parceria com Eles, que queremos que continuem ao nosso lado. Ver uma concha e trazer para sua imagem de Afrodite, um arranjo de trigo para oferecer para Deméter, um anel de serpente para nos lembrar do daimon, uma corujinha ao altar de Atena, é como o doce ou a flor que vemos na rua - no meio daquele dia atribulado - e levamos para casa, entregando ao ser amado ao chegarmos. Se tivermos a sorte de acertar em agradar, podemos ganhar não só sorrisos, mas beijos, carinho, quem sabe algo mais, fora a vontade que deixaremos nele/a de nos retribuir o mimo. E a retribuição de um deus renovadamente apaixonado por seus afilhados terrestres é bem maior e duradoura do que a de qualquer humano.

Tem mais: quando temos um/a companheiro/a feliz, ele/a dirá a seus parentes e amigos que fez uma boa escolha ao nos ter ao lado, e os outros se sentirão mais predispostos a nos ajudar e defender e tratar bem, pois estamos fazendo felizes alguém com quem eles se importam. Agora imagine quais são os amigos e parentes dos deuses! Nossa rede de relacionamentos, aquela do "o que vale é quem você conhece" vai ter a galera mais poderosa do mundo, imortal e capaz de realizar praticamente tudo.

Por isso que antes de achar que é bobagem ler um "poema" e "derramar" um pouco da sua bebida para Eles, pense que é sempre melhor agradar com pouco do que não fazer nada. Claro que o inverso também serve: se você chegar para a sua namorada com um saco de milho, ela pode ficar brava achando que você a está chamando de galinha. E aí você pode até levar uma surra (hehe). A gente tem que saber como agradar. Mas, no caso de deidades que existem há milênios e das quais dispomos de textos contando suas histórias, fica até mais fácil conhecer o que eles gostam.

Temos que cuidar também do que vamos pedir. Suponho que tenha coisas que você não faria por seu parceiro e talvez até se ofendesse se ele lhe as pedisse. É o tal daquele relato: uma vez chamei Afrodite para fazer um negócio pra mim e ela me bate com uma vara de marmelo.
Sei que tem gente que acha que um deus fica ali em cima no céu só controlando o mundo sem ser amante de ninguém. Mas deixa eu lhes dizer uma coisa: nem o deus cristão é necessariamente assim. Existiram santos com relacionamento íntimo de/com seu deus, e a própria igreja católica tem livros amorosos sobre a ideia da igreja (que é composta por seus membros) como noiva de seu cristo.

Imagina se Zeus não fosse um bom amante humano, quantos heróis (semideuses) da história não teriam nascido. Imagine se Dionísio não deixasse as mênades em êxtase sem sequer lhes tocar, como entenderíamos da Mania, o frenesi que surge com a lua minguante? Imagina se os poetas e artistas em geral não fossem ardorosamente movidos pelas musas, quão pobre seria a nossa literatura e cultura?

Então, da próxima vez em que for afirmar que adora os deuses, não diga isso pros outros, demonstre isso para Eles. Do que adianta se gabar do quanto você ama e do quanto é feliz por ter a pessoa que tem ao seu lado se nunca diz ou mostra isso pra ela?...


dezembro 14, 2010

É só um trovão...

(Ia postar isso ontem, mas a Internet caiu devido às chuvas.)

Anteontem minha 'sobrinha canina' entrou debaixo da minha cama e deitou-se com o focinho para fora, olhando para mim. Levantei-me para pegar água e ela veio atrás, parando à porta da cozinha para me esperar. Voltei ao quarto e ela seguiu-me, entrando novamente debaixo da cama. Fiquei ao computador com ela ali o tempo todo, até o momento em que soou um trovão. Ela saiu do seu canto, olhou para trás, de onde veio o barulho (da janela), eu olhei para ela e disse "É só um trovão, pode voltar". Ela olhou pra mim, deu meia-volta e retornou para debaixo da cama.

Mais tarde, lembrando da associação que a filhotedelua faz de sermos "pets" dos deuses, fiquei pensando nesse caso e imaginando quem seria a deidade que fala pra mim "é só um trovão, pode voltar" quando algo que não espero me deixa confusa. Seria Atena? Ártemis? Zeus?

Sei que às vezes me distraio, como esta semana que demorei a perceber que o princípio-ativo do xarope fitoterápico que tenho tomado para tratar minha tosse é de hera. Justo em dias dionisíacos, não atentei para o fato de o nome científico da planta expresso na caixa - "Hedera helix L. (Acaliaceae)" - ser o da planta desse deus. Mas, no geral, penso nEles em todos os momentos possíveis.

Dia 9, Dionísio me conduziu uma jogada do Mystic Dreamer Tarot e foi mais claro que o raio de Seu pai. Heráclito dizia que Apolo nunca é direto no oráculo ("O senhor de Delfos não fala nem esconde, mas dá um sinal."), então não sei por que eu não tinha pensado antes em recorrer a Dionísio.

Mas não, não achei que fosse Ele quem me diria que "é só um trovão", então voltei a pensar. Óbvio que a primeira a vir à minha mente com essa postura racional diante do desconhecido foi Atena. Aquela que olha para o Poseidon sacudidor-de-terra e acha que Ele é só um terremoto e que já o venceu uma vez antes, podendo vencê-lo de novo. Ou que, conhecendo bem seu pai Zeus, sabe que trovões acompanham-lhe os raios e que - apesar do estrondo - Ele é um deus (dono) tudo de bom.

Porém, ao pensar no "pode voltar", isso não me soou muito de Atena. Como estrategista, um aviso sonoro é um sinal para uma investida, e não algo que vá te fazer ignorá-lo e recuar em seguida. Não há como desfazer uma jogada. Um lance já feito não "pode voltar".

Quando esse tipo de reflexão me toma, o exercício que faço é tentar ser mais intuitiva com a energia presente do que racionalizar os sentidos de uma forma muito "logos". Até porque, pelo logos, a primeira parte da sentença poderia vir de Apolo (a luz da consciência) e a segunda de Dionísio (o deus do duplo retorno).

Então olhei para a minha estante e a estátua de Perséfone brilhou entre as outras. Ela, que vive indo e voltando do submundo - de "debaixo da cama" - e que vive em companhia daquele que costuma ser temido bem mais do que a simples trovões de chuvas ocasionais, inclusive por ser um deus daquilo que nos parece mais definitivo ('de-finito', o fim): a morte.

Olhando dessa forma, poderia ser praticamente qualquer deidade. Hera poderia me mostrar que os trovões de Zeus não assustam, Hermes poderia estar me ensinando a não temer e a vencer as adversidades, Ártemis poderia estar me abrigando entre suas crias, Deméter poderia estar exercendo seu papel de mãe, Héstia me mantendo centrada, Afrodite me chamando ao leito, Têmis me devolvendo o equilíbrio, entre outros.

No fundo, quando temos tantos "donos", todos vão cuidar da gente quando preciso. Nós ficaremos debaixo desse céu onde Eles repousam, ficaremos escondidos numa caverna sob o Monte Olimpo, nos refugiremos nos labirintos do palácio minóico, mergulharemos nas profundezas das águas oceânicas, adormeceremos na escuridão do misterioso reino das sombras, e - em todos esses caminhos - Eles poderão nos proteger e guardar; basta estarmos em busca da realização do nosso 'daimon'. E é esse daimon que me faz agir como a espécie de animalzinho que eu for a cada momento: canina, felina, equina, humana...

Ao menos sei que o bom disso tudo é que sempre haverá quem nos diga, com uma voz tranquila e confiante, que aquilo é só um trovão e que podemos voltar para onde escolhemos ficar.

Nessas horas é que agradeço por não ser um bichinho abandonado... Ou dependente de um único dono.

novembro 29, 2010

O presente é um tempo desembrulhado.

Conheço uns quatro ou cinco caminhos diferentes para ir e para voltar do meu compromisso matutino que fica a 25 minutos de carro de onde moro. Sei onde vai dar se eu virar antes ou se eu me distrair e perder uma entrada, de modo que posso optar continuar por ali e chegar aonde quero do mesmo jeito. A ida normalmente me exige que eu vá pelo caminho de menos trânsito, porque saio meio em cima da hora. Quanto à volta, todo dia me treino na escolha de por onde vou retornar para casa.

Bom, eu sei que isso não é o típico da maioria das pessoas que escolhe algo pacífico e previsível, que você possa ligar seu piloto automático e pensar em outras coisas da sua vida. Mas eu gosto de treinar meu cérebro a mudar. E faço isso não só porque antes da minha virada de Saturno o meu sol em Touro morria de medo de mudanças. Faço isso porque a gente precisa aprender a se adaptar a novas situações. Por mais interminável que algo pareça, ele não será para sempre. Nem as alegrias nem as tristezas.

Dia desses uma amiga comentou aleatoriamente comigo que me acha alguém com uma capacidade enorme para se adaptar. Foi bom ler isso. Principalmente porque nem sempre foi assim, e hoje se tornou algo um tanto quanto natural de mim.

Penso na figura do guardião da "República" de Platão, que comia o que tinha e dormia onde dava. O desapego, a coragem, a paciência, a imperturbabilidade, são coisas que me atraem...

Enfim, o fato é que, a partir do período em que você começa a vencer certas coisas na sua vida que lhe prendiam à matéria, esse tipo de vontade por responder apenas ao momento presente aumenta. Lembro de Sócrates andando pelo mercado e observando de quanta coisa ele não precisa. Ando assim ultimamente. Enquanto alguns amigos se debatem por acumular pertences, eu anseio pelo dia de me livrar da maioria dos meus. Eu adoro dar presente, jogar coisa fora, ver espaços livres serem criados, reciclar transformando cacareco em arte para embelezar a vida...

Se eu só conhecesse um caminho para os destinos que traço, se eu me detesse a seguir apenas aquela rota, isso sim seria para mim um obstáculo, uma pedra, um atraso, cacos de vidro na trilha dos pneus, reforma na rodovia que altera o seu curso.

O meu caminho é aquele em que motoristas negligentes me obrigam a reagir rápido. É a minha forma de chegar sentindo que atravessei por um campo de batalha e alcancei o outro lado com honra, merecimento e dignidade. Os motoristas lentos ou descuidados são como aquele adversário que é também teu professor. Aquele que ensina você a permanecer alerta. Não o alerta da tensão, mas o alerta da consciência.

Porque meditação não é só sentar em silêncio e esvaziar a mente. Meditação é prestar atenção ao que você faz, como você faz, como o mundo é, o que as deidades lhe mostram, o que você pode aprender de cada minuto, como cada ato é uma manifestação sagrada, como assimilar os acontecimentos como forma de auxiliar na sua evolução e aumentar seu conhecimento de si, do universo e dos deuses.

É justo por causa dos obstáculos e da percepção das vias que posso escolher todos os dias que a vida vai se tornando mais plena de sentido, como um fractal que forma um belo colorido global.

Ao sabermos disso, cada dia se torna como aquele vento que de repente sopra mais doce. E toda a espera se torna um preparo para melhor enfrentar a travessia que virá. Pois um dia eu sei que ela vai vir... Conto com isso. Até lá, convém treinar. E depois que chegar, treinar em dobro, porque a ação já vai ser real e imediata.

Nessas horas penso em meu avô, que já morou com minha mãe até na fronteira com a Bolívia e de quem contavam que tinha sido salvo por São Jorge de uns "índios" perigosos dali. Vou um pouco mais além e penso nos meus pais de outra vida que passaram perrengues nada legais também. E penso como tudo um dia liga a gente a todo o resto. Nascer no 23 de abril e ainda pertencer a uma religião que evita o contato com aquilo que um dia já me matou, bem antes de saber dessas coisas, é só um exemplo.

Os motivos retornam. Os "motifs" (na literatura, elemento recorrente que têm um significância simbólica em uma narrativa; na arte visual, um elemento com tema padrão; na música, um fragmento sucessivo de notas; na tecelagem, aquele pedaço repetido que - unido - gera um trabalho maior). Enxergá-los nos ajuda a entender a nós mesmos.

Por isso é que eu decido não parar. Ainda há padrões a descobrir. Ainda há pedacinhos a encaixar. Quero e anseio por ver qual será o trabalho maior que se apresentará ao final, no tear. A agulha e a madeira muitas vezes me machucam, mas sem mim elas não trabalham, e é pelo bem do todo que elas o fazem. A gente só fica esperando estar preparado e ter feito o melhor de si, sem desfiar antes da hora...

Esse é um dos meus muitos jeitos de refletir.

setembro 28, 2010

É nós no friso!

A organização grega Thyrsos lançou a primeira edição de sua revista IDEON ANTRON, com 60 páginas, e nela vocês encontram uma entrevista de 5 páginas comigo, representando o RHB.

Pode-se ler em grego no site da revista clicando AQUI (páginas 8 a 12).
A entrevista original em inglês pode ser lida clicando AQUI.
E a tradução em português a partir do inglês está disponível clicando AQUI.

Espero que gostem!

maio 25, 2009

'Tribalista Pagão', rsrsrs!

-{Allan}-{Elfo}- diz:
eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também!
-{Allan}-{Elfo}- diz:
falo com todos os panteões
Aleξandra diz:
rsrsrs entao vc é um 'tribalista pagão'
Aleξandra diz:

vou fazer uma paródia disso
Aleξandra diz:
kakaka
-{Allan}-{Elfo}- diz:
huhauahuahu


Paródia by Álex - 'Já sei cultuar'
(Tribalistas - 'Já sei namorar')

Já sei cultuar
Já sei fazer oferta
Agora só me resta libar
Já jogo tarô
Já sei de astrologia
Agora só me falta o tambor

Não tenho paciência para um panteão
Eu não sou exclusivo de um povo não
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Já sei entoar
Já sei abrir o círculo
Agora só me falta dançar
No meu ritual
Se você é linha reta
Eu sou mais um espiral

Não tenho paciência para um panteão
Eu não sou exclusivo de um povo não
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo com o deus que vier
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer...



( original aqui: http://www.youtube.com/watch?v=smwj7ISnwXM )
Se alguém tiver o karaokê, manda que a gente grava a letra da paródia em cima, rsrsrs!

fevereiro 14, 2009

Mais sincronicidades: curas, gregos e folhas

Ontem na aula de yoga, além de tantas outras coisas boas no trabalho com os chakras e com o físico (incluindo algo que adoro que façam: eu de bruços e a professora - que por sinal é argentina - em pé nas minhas costas), a parte das visualizações me surpreendeu mais ainda do que na primeira aula.

Primeiro porque a gente 'varreu' do corpo exatamente uma coisa que vinha me incomodando e que já tinha me provocado dois ou três pesadelos daqueles que acordamos sem ar e com o coração disparado. Nas palavras dela: "aquilo que você queria que tivesse acontecido e não aconteceu, as esperanças perdidas, o que não deu certo"...

Segundo porque reencontramos nossa criança interior e foi muito bom.

Terceiro porque, no final do exercício com a criança, eu já estava indo além, eu me vi em outro lugar, só não aprofundei mais porque ela nos chamou de volta. Não sei se voltei tanto na infância que acabei indo para outra vida, mas o que vi foi uma casa de painéis cor de palha, por onde eu passava procurando meu então pai, dizendo que se ele não estava ali então eu não poderia resolver plenamente aquele problema, pois foi ele que o tinha causado. Dali da casa eu via uma praia (areia e mar), eu era criança com uma túnica branca e um cinto marrom-dourado, e sabia que éramos uma família grega. O que eu precisava resolver não era só comigo, era algo que ele tinha feito a todos nós, no estilo dos textos antigos que mostram a infalibilidade do destino, tanto que na hora eu só conseguia pensar em Édipo, não pelo lado psicanalítico, mas sim de uma dinâmica de fatalidade que só ele poderia reparar.

Não sei se foi bom eu ter voltado porque já estava fugindo do foco ou se precisava saber mais ou se isso apenas veio confirmar e acrescentar mais um fato à história que já sei de uma vida anterior. Talvez eu deva correr atrás de esclarecer isso, mas enfim. No final da aula eu tomei um cházinho com a dona do centro, que comentou que me achou bem flexível, hehe.

Outra coisa interessante foi termos feito um ásana sobre um imaginário grupo de folhas de certa textura e, quando entrei no elevador do meu prédio voltando da aula, lá estava uma folha no chão, como a imaginei. Do nada, dentro de um elevador. É claro que eu a trouxe para casa e guardei no caderninho. Parei de pensar demais no motivo das coisas, se ela estava ali era para mim e eu tinha que trazê-la. Simples assim.