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outubro 12, 2017

Pontes e pontífices

Tudo bem sermos uma religião filosófica de mentes pensantes e espíritos livres, mas isso não significa que não precisamos de estrutura. Estrutura traz estabilidade e organização, o que é melhor que ter um caos. 

A ideia de ser livre não precisa nos fazer rejeitar qualquer tipo de autoridade, pois até mesmo pessoas unidas com um propósito é algo parecido com uma instituição. Uma comunidade é uma conexão, construída com paciência, planejamento e estrutura. Você não perde sua autonomia pessoal se procurar orientação de um grupo ou de uma pessoa mais experiente. Afinal, os outros só podem fazer isso: orientar; mas a decisão sobre o que fazer é só sua. 

Tem gente que acha bonito e rebelde afirmar que só os deuses podem lhe dizer o que fazer. Mas a questão é se essa pessoa tem o filtro certo para saber qual mensagem vem dos deuses e qual não vem. E a outra questão é: se você pretende ajudar os outros, precisa saber/aprender a ser ajudado e a deixar seu ego de lado. 

Para conseguir isso, precisamos reconhecer quando é melhor envolver outra pessoa. Estar todos no comando ao mesmo tempo ou não estar ninguém no comando normalmente não funciona. Podemos ter nossa individualidade e ao mesmo tempo servirmos os outros, sermos livres e ao mesmo tempo reconhecermos que outra pessoa tem melhor capacidade de nos ajudar a decidir. 

Nesses casos, a autoridade dos outros não está sobre a gente e sim sobre o objetivo que todos estamos querendo alcançar juntos. Sem isso em mente, não vamos conseguir realizar muita coisa. 

Xenócrates dizia que o Universo é composto de 3 partes: Sol com as estrelas, Terra com suas águas, e Lua com seus ares. A do Sol e estrelas seria o lugar onde os deuses habitam, a da Terra e suas águas seria o lugar onde os homens habitam, e a da Lua e ares lunares seria onde os daimones habitam, e estes são similares tanto aos deuses quanto aos homens em sua natureza. Sem os daimones, não haveria comunicação dos deuses com os humanos, assim como sem a lua o universo se desuniria. 

Ou seja, o terceiro elemento intermediário é necessário para essa comunicação. Zeus tinha Hermes como seu mensageiro, Hera tinha Íris. Perséfone é escoltada por Hécate ao sair e entrar do Hades. Hécate, aliás, é vista como tríplice exatamente por ser a deusa que intermedia dois outros elementos (reinos, mundos, seres etc). A fronteira é um terceiro elemento que une os outros dois e que possibilita - como uma membrana seletiva - que esses dois se comuniquem de forma efetiva. 

Também por isso Hécate esteja associada com a Lua. Dois séculos antes, quem era associada à Lua era Ártemis. E Selene era a lua em si. A Lua era uma estrela terrena ou uma terra estrelar, sendo assim um domínio de Hécate - que é tanto celeste quanto ctônica. 

Hécate é também a senhora e rainha dos daimones. Os daimones são espíritos imortais mas não divinos, que cuidam dos humanos. Eles tomam conta dos oráculos, comparecem aos ritos místicos, salvam os homens na guerra ou no mar, punem os transgressores, entre outras coisas. 

Mediadores são importantes. Recusar a ação deles para “não ter intermediários” não é rebeldia ou autonomia, é infantilidade e teimosia, sem falar em falta de humildade. Isso pode atrasar seu desenvolvimento em vez de demonstrar liberdade. 

Então vamos aceitar que somos limitados e aproveitar a disposição de quem pode nos ajudar a alcançar os objetivos que todos temos em comum. Não é vergonha nenhuma isso, e nem dependência ou insegurança, mas sim confiança, consideração e maturidade. 

Isso demonstra que você reconhece e é grato pelo trabalho do outro, seja ele um orientador, um deus ou um daimone. 

Mas é bom lembrar que um dos nossos maiores princípios éticos é o equilíbrio (métron, a justa medida). Logo, também não podemos deixar as decisões nas mãos do outro, precisamos ser responsáveis. O outro só pode nos orientar, mas é a gente que resolve o que fazer e assume a responsabilidade sobre o que decidiu. 

Com os deuses, por exemplo, eles fazem o que a gente pede/decide, e a gente que lide com as consequências. Já dizia Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas será sempre refém das suas consequências.”

Portanto, o melhor é ter alguém que nos ajude a pensar antes de escolher. E aceitar isso não desconfigura sermos de uma religião de liberdade, autonomia e inteligência. Não confie apenas no seu próprio julgamento, ele também pode falhar às vezes. 

abril 11, 2015

Altares, imagens, ritos?

PARA QUE AS ESTATUETAS E IMAGENS?

Especular sobre a aparência dos deuses é natural, é como alguém que não conhece seu pai biológico e fica imaginando como ele seria. Mas nem sempre o que imaginamos corresponde à realidade, e as escrituras de várias crenças nos advertem a não "gravar em madeira ou pedra" essas nossas especulações e render homenagem a tais ilusões. Mas uma coisa é bastante provável: os deuses são belos. E, tentando ver a beleza dos deuses, procuramos coisas belas que os representem. No entanto, todas elas são temporárias, já que são materiais, e a beleza divina é transcendente.

Quando se cria algo caprichosamente e se adora esse algo como se fosse um deus, isso é idolatria, pois não se está adorando uma deidade e sim algo inventado pela sua imaginação. Outros, ainda, acham que deus não tem forma, que é impessoal ou vazio, mas isso não é verdade. Se existem "forças" ou "energias" funcionando no universo, algo (alguém) impulsiona/m essas forças (como estudamos em Física). E, se esse alguém existe, ele/a/s deve/m ter uma imagem, um nome e características próprias suas.

Dizem que uma árvore se conhece pelos seus frutos. Os frutos mais elevados que conhecemos da criação material são os seres humanos, então é natural imaginarmos os deuses (fonte de tudo) como antropomorfos. Podemos nos basear nos hinos e outros textos antigos para tentar descobrir a forma dos deuses. Deles é que sabemos que Atena tem brilhantes olhos verde-acizentados ('glaukopis'), por exemplo.

De qualquer maneira, mesmo entre nós mortais, uma representação raramente corresponde ao real. Quantas vezes você se achou diferente nas fotografias? E, vamos mais longe, você sequer 'é' o seu corpo, você 'tem' um corpo, você pode inclusive não se reconhecer como sendo daquela forma. Muita gente acha estranho quando se olha no espelho. Porém, os deuses não estão presos a um corpo e, por isso mesmo, por essa não-dualidade, eles podem ser um só com as estátuas e representações que atribuímos a eles. Os deuses não estão submissos às leis materiais como nós, eles estão acima disso. Então não estaríamos adorando "ídolos de pedras" e sim fixando o olhar em algo que tenta se aproximar do belo que é divino e próprio dos deuses. Para os deuses não existirá ali uma distinção entre o objeto material e sua essência espiritual. Quando usamos os hinos para chamá-los, eles podem transformar aquela madeira ou pedra em algo transcendente. É como a energia elétrica: a mesma energia pode fazer funcionar uma geladeira ou um fogão, então a energia espiritual também pode entrar no material para fazê-lo funcionar com o motivo para o qual foi criado.

Quanto esculpimos e/ou pintamos uma imagem de um/a deus/a, a oferecemos a ele/a como oferta votiva e ele/a a aceita, então aquela é uma imagem válida. Ela vai servir para purificar nosso olhar, nossa mente, nossos sentidos. E para nos aproximar da beleza, da bondade, da justiça. Se você o tratar como um ídolo de madeira, ele será só isso, mas se mudar o seu olhar e postura, o que receberá de volta também será diferente. E melhor.


PARA QUE FAZER RITOS?

Todos nós precisamos nos sentir seguros e amparados. Quando bebês, dependemos de um adulto pois sabemos pouca coisa desse mundo e não alcançamos tudo. Mas, mesmo quando crescemos, continuamos sujeitos a coisas que não conhecemos e/ou não controlamos. E, para muitas coisas, outro ser humano não resolverá, porque ele está na mesma situação que nós. Quem pode nos confortar da ansiedade com relação ao dia seguinte, ou nos aliviar da angústia de sermos finitos? Quem pode afirmar com certeza que não vamos pegar uma doença amanhã? Somente quem não estiver sujeito às mesmas limitações que estamos. E a comunicação com esse ser se dá através dos rituais e preces, que são as formas mais eficientes que encontramos para acessar o sagrado e dele obter ajuda, graças e favores.

Um ritual tem duas realidades. A primeira é imediata, e não inclui só a visão da chama da vela, o cheiro do incenso, a demonstração de aceitação das comidas e flores ofertadas e demais imagens sensoriais afins, mas também a sensação de tranquilidade mental, o desenvolvimento da concentração e organização das ideias, e outras percepções sutis. A segunda não é notada a princípio, mas se manifestará em algum momento, como uma resposta ao que fizemos. Além disso, o ritual pode corrigir nossas ações errôneas (numa espécie de crédito para cobrir o débito da sua conta espiritual), abranda a 'hybris', purifica o miasma, nos auxilia a obtermos o que desejamos (por comunicar o pedido aos deuses e estabelecer um laço de amizade), entre outras consequências positivas.

Para um ritual dar certo, ele depende cerca de 70% da gente e só 30% dos deuses, embora a parte deles seja a mais importante. Precisamos ter uma direção sobre a prática correta, precisamos separar um tempo adequado para o rito, e precisamos nos esforçar para realizá-lo devidamente. E eles precisam nos ser favoráveis. Mas a gente também influencia nessa parte, dando-lhes motivos para merecer seu favor, ou seja, desenvolvendo um relacionamento com eles através das preces, da prática da virtude, das ações corretas, do reconhecimento e gratidão.

Não se trata, portanto, de superstição, mas de confiança, aceitação, amizade. O ritual é necessário e benéfico. Antes de perder a oportunidade de realizá-lo, ou de ficar com medo de fazer algo errado, tente pensar que o máximo que pode acontecer é você fazer os seus 70% (o que já bastaria para você se sentir bem, tranquilo, focado etc) e não ter os 30% de lá (ao menos não desta vez, embora isso já ajude no relacionamento que está se formando), mas mal não vai fazer. Então por que não?

dezembro 13, 2014

Xenia e Empatia

Em tempos em que Dioniso derruba máscaras e descobrimos, entre nossos amigos, pessoas que defendem os opressores, os violentadores e afins, encontrei o texto que traduzo abaixo (com grifos meus) e que espero que faça as pessoas refletirem sobre suas falas, pensamentos e ações diante das situações que andamos presenciando na mídia, nas redes sociais e no nosso dia-a-dia. Não acolher o outro, banalizar sua dor, relativizar um crime, também é Hybris, uma transgressão contra o princípio básico da nossa crença, a Xenia (hospitalidade). 

Baucis e Filemon

Segue:
Declaração de Valores
por Thenea, traduzido pela Alexandra

# Hospitalidade: Nossas portas estão abertas

A hospitalidade é um dos principais valores em todas as culturas antigas, incluindo os nórdicos, os celtas e os gregos. Alguns podem argumentar que esta é a pedra fundamental de todas as religiões indo-europeias.

Nos antigos relatos gregos, Zeus se disfarçaria de pessoas as quais a sociedade tinha marginalizado para testar a virtude de possíveis anfitriões. Se falharmos em receber bem alguém, ou falharmos em criar um espaço seguro para alguém, por qualquer razão além de um abuso direto de nossa hospitalidade, falhamos em fazer o mesmo para o Rei dos Deuses.

Oferecer hospitalidade, na Grécia antiga, significava mais do que comida e bebida. Se uma pessoa precisasse de roupas porque a jornada foi dura, ou de uma cama para dormir, estas coisas também eram providenciadas. Hospitalidade significa prover as necessidades e o conforto de alguém.

Criar um espaço sagrado não significa simplesmente ignorar fatores como ancestralidade, onde alguém está no espectro de gênero, orientação, forma do corpo, deficiência, idade, ou renda. Significa tentar entender de onde a pessoa vem, e entender o que elas precisam para se sentirem confortáveis nos espaços que criamos.

# Discurso: O Diálogo está Aberto

Não se trata apenas de honrar os deuses gregos. Trata-se de uma coisa cultural geral da Grécia Antiga. Discutir política e o estado do mundo são ambas coisas altamente tradicionais a fazer num Simpósio (uma reunião para o propósito de libações). Podemos e devemos criar espaço para o diálogo sobre esses tópicos importantes e prementes.

Precisamos falar sobre discriminação.

Ter diálogos sobre discriminação pode nos ajudar a entender como melhor respeitar as jornadas daqueles que devem enfrentá-la. Também pode nos ajudar a começar a entender como responder aos cidadãos e aos eleitores.

A base desse diálogo, porém, deve ser o respeito.

# Humildade: Nossos Corações estão Abertos

A transgressão da Hybris é normalmente enquadrada como "questionar os deuses", mas essa não é exatamente a questão, em termos de visão helênica. Nos antigos mitos gregos, os humanos geralmente não envolviam as deidades em debates filosófico pois comportar-se assim seria como pensar que eles eram iguais ou melhores que as deidades. Isso é um problema, porque se você pensa que é melhor que os deuses, como você irá tratar seus companheiros humanos? Em contra-partida, se você não pensa que é melhor que seus companheiros humanos, você não corre o risco de fazer isso com relação aos deuses.

Racismo, preconceito de gênero, de deficiência, de idade, de classe social, e outras formas de preconceito, são uma espécie de Hybris.

Humildade também significa, a meu ver, não assumir que eu sei melhor do que a outra pessoa o que ela tem sofrido, e não presumir que posso falar pelas experiências de qualquer um, nem invalidar seus discursos de qualquer forma.

É com essas virtudes que espero que possamos nos comportar nessa época de desenvolvimento de consciência do racismo e preconceito que estão infestando nossa sociedade, e é minha esperança sincera que - através da criação de um espaço seguro e do diálogo aberto com um olhar no remediar de injustiças - o progresso possa acontecer, mesmo se apenas em nossa pequena esfera de influência.


outubro 30, 2014

Como um cabrito no leite

Esta semana o pai de uma helena faleceu. Um poeta comprometido com a pólis, as Musas e os deuses. Não pude deixar de pensar nos órficos ao fazer um rito por ele, com incenso grego em grãos de ópio, libação de mel por uma doce passagem, lanterna de vela na parede para iluminar o caminho, estola nos ombros, altares estratégicos e uma série de fórmulas que deixou o ambiente com uma energia sublime. Além disso, o cenário era um pôr-do-sol, e ele se põe na direção da janela de onde eu estava. Apolo Pythio completou a cerimônia com um breve oráculo para a família.


Há uma famosa inscrição encontrada em lâminas douradas em túmulos de Thurii, Hipponium, Thessalia e Creta (século IV AEC e seguintes) dando instruções aos mortos. Quando o falecido chega no submundo, ele encontra obstáculos a confrontar, como o de não beber do rio Lethe (Esquecimento) próximo aos ciprestes brancos e sim do poço de Mnemosine (Memória). Ele também deve se apresentar aos guardiões do pós-morte dizendo "Sou filho da Terra e do céu estrelado. Estou seco de sede e estou morrendo; mas rapidamente me concedam água fria do Lago da Memória para beber." Porém, além deste, outros textos órficos me vieram à mente.

A tábua dourada órfica de Pelinna traz o seguinte: "Agora você morreu e agora você nasceu, três vezes abençoado, neste dia. Diga a Perséfone que o próprio Baco te libertou. Um touro você correu ao leite. Rapidamente, você correu ao leite. Um carneiro você caiu dentro do leite. Você tem o vinho como sua honra fortunada. E os ritos esperam você abaixo da terra, assim como os outros abençoados." E a tábua dourada órfica de Thurii diz assim: "Rejubile-se na experiência! Você nunca experimentou isso antes. Você se tornou divino em vez de mortal. Você caiu como um cabrito no leite. Saudação, saudação, enquanto viajas na noite através do Prado Sagrado e dos Bosques de Perséfone."   

Edward Butler interpreta esse motivo recorrente assim: o slogan órfico "Um cabrito, eu caí no leite" seria como dizer que fui jogado em um mundo não de minha criação, mas que descobri que foi feito de significados. Não seria uma questão de interpretar nossa própria vida, mas que nos tornamos um "fenômeno" a ser interpretado por outros. É isso que um herói é, um mortal que se tornou um campo de significados. Essa não-indiferença do mundo também está na base das representações da "ama mística" de animais. Lá, porém, a bacante provém leite para uma alma representada como um jovem animal selvagem. Isso sugere tanto que, ao nos tornarmos iluminados, nos tornamos uma luz para outros, e também que trazemos à luz as partes não-desenvolvidas de nós mesmos. Portanto, as descrições do iniciado como "límpido" não são mero entusiasmo, o iniciado é como um novo Phanes.

A isso, Sannion respondeu: "o universo no qual esses mitos se desenrolam é fundamentalmente um universo trágico – até os deuses experimentam vicissitudes, então o homem não tem esperança de escapar delas. Mais que isso, devemos usar o conflito que inevitavelmente enfrentaremos para aperfeiçoar a nós mesmos e enobrecer nossos espíritos. Devemos passar através do pesar até o júbilo, deixando queimar tudo o que for falso e inútil dentro de nós – você não consegue alcançar um senão pelo outro. Devemos encontrar o divino no monstruoso, o profano no sagrado, sermos destruídos para conhecer a medida completa da vida – somente quando estamos no limite, sem nada mais a perder e nenhum pensamento pelo qual poderíamos ganhar, seremos verdadeiramente livres, verdadeiramente vivos. A filosofia heróica é a que Orfeu ensinou aos gregos; como sofrer bem e ansiar pela morte."

E então o Mr. VI (do blog Cold Albion) acrescentou: "Como filho da terra e do céu estrelado, o iniciado é elevado na morte – todos os heróis estão mortos afinal, voltando para interceder e conectar; rostos familiares como máscaras nas quais podemos ver nossa própria semelhança e reconhecer nossa natureza como mortais daimonicamente imortais."

Para mim, cair como um cabrito no leite é como mergulhar na fonte da qual você bebia, é imergir na totalidade do elemento que te dava vida, tornar-se um com aquilo que te alimentava. A energia divina te impregna e você "se tornou divino em vez de mortal", ao alcançar os bosques sagrados e receber a honra de ter vinho e leite libados em sua memória. "Três vezes abençoado" como o Dioniso trinascido, você encontra seu elemento e ganha nova vida. Isso é uma das coisas que acontecem quando trilhamos os caminhos órficos e dionisíacos.

Quanto ao nosso amigo, espero que beba da ciência dos deuses, livre das dores e limitações do corpo físico, e possa repetir que "o próprio Baco me libertou"...


(Fontes -
http://thehouseofvines.com/2014/09/07/all-the-good-stuff-is-real-but-isnt-myself-included
http://thehouseofvines.com/2014/09/07/orphic-rap-battle/
http://www.cold-albion.net/2014/09/orphic-slogan-thoughts/ e
http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic212431.files/The_Orphic_Lamellae.pdf)

janeiro 25, 2014

Uma breve introdução sobre Kharis (Reciprocidade)

Pediram-me para ensinar sobre Kharis, então pensei que isso poderia ser útil para mais pessoas do que apenas uma resposta particular. Então, como fazia Sócrates, vamos primeiro definir as coisas antes de falar delas...
χάρις (kháris ou cháris) 
I. no sentido objetivo, graça ou favor visível;
beleza, propriedade de pessoas em seus retratos;
graça de coisas, de trabalhos;
glória.
II. no sentido subjetivo, graça ou favor sentido, seja pela parte de quem o faz quanto de quem o recebe;
da parte de quem faz - graça, gentileza, boa vontade, direcionada a alguém;
da parte de quem recebe, senso de favor recebido, agradecimento, gratidão por algo, reconhecer um favor, sentir-se grato.
III. no sentido concreto, um favor feito ou retornado, um benefício/bênção;
conferir um favor a alguém, fazer algo para favorecê-lo (e compeli-lo a cumprir um acordo);
retornar um favor;
pedir a retribuição, um retorno por algo que se recebeu;
concessão feita de forma legal;
favores prestados.
IV. gratificação, deleite.
V. [em referência a divindades] devida homenagem a eles, a seu culto, majestade;
ação de graças, presente em comum.
VI. usos especiais: retorno pelo favor de alguém, para agradá-lo, pelo bem dele;
por causa de alguém, para contentar o coração de alguém;
VII. metaforicamente: do cipreste, de alguma espécie de mirto/murta;
de sal;
Charis, esposa de Hefesto;
no plural Chárites, as Graças, três em número, usado também como um elogio; acompanhantes de Afrodite, pareadas com as Musas;
cultuadas em Orchomenus na Beócia, mas em Lacedaemon e Atenas apenas duas eram cultuadas, em evocações. 
(definições do Liddel & Scott 'Intermediate Greek-English Lexicon', traduzido pela Álex)

A religião grega antiga era mais baseada na ortopraxia (prática correta) do que na ortodoxia (crença correta). Martin Nilsson, em "Greek Folk Religion" (traduzido pelo nosso grupo AQUI) já citava que a devoção dos antigos era expressa principalmente por atos. 

O ritual grego pode quase sempre ser classificado como uma expressão de 'kharis', de reciprocidade. Walter Burkert, em "Greek Religion", diz que "O laço entre o homem e o sagrado é consumado na contínua troca de presente por presente" - aqui o original traz "gift for gift", que poderíamos traduzir "dom por presente" se considerarmos que recebemos graças dos deuses e lhes retribuímos com mimos.

Algumas pessoas podem entender esse processo de forma equivocada como uma forma crua de "pagamento" por uma boa sorte recebida, mas a kharis é algo bem mais sutil e de mais longo prazo do que isso. Simon Price, em "Religions of the Ancient Greeks", afirma que "o sistema ritual grego assumia uma escolha de ambos os lados. Presentes aos deuses não era uma maneira de comprar os deuses, mas sim de criar uma boa-vontade (disposição, afeição) da qual os humanos poderiam esperar se beneficiar no futuro". Assim como você dá presentes a quem você gosta para agradá-lo/a sem ser aniversário dele/a nem nada, e esse ato cria um laço amável e recíproco entre vocês, assim fazemos coisas para agradar aos deuses sabendo que eles também nos darão coisas legais quando for a hora certa.

Às vezes o povo acha que, por os deuses nos conhecerem internamente, eles saberiam que gostamos deles e não precisaríamos demonstrar isso externamente, visivelmente. Isso é uma ideia totalmente moderna (e provavelmente de gente preguiçosa, egoísta e acomodada), que foi influenciada pelo cristianismo. Os antigos sempre foram pessoas de atitude, de coisas reais, palpáveis, tangíveis. Se você está sempre ocupado demais para dar atenção, não quer gastar dinheiro com presentes, manda outra pessoa comprar uma lembrancinha por você, seu cônjuge/amigo/parente vai acabar te deixando. São nossos atos que tornam nossa devoção real - e não mero sentimento de crença. Afinal, os deuses não nos concedem apenas bons sentimentos, eles nos presenteiam com coisas reais também, então por que seriam obrigados a aceitar apenas sentimentos em troca? Seria negligência nossa ignorar isso.

E o que podemos ofertar? Carne, frutas, bolos, refeições especiais, coroas de flores, mechas de cabelo, incenso... Burkert menciona que o ato de oferta mais difundido/conhecido é espalhar um grão de incenso de olíbano ('frankincense') nas chamas. Em termo de ofertas líquidas, as libações de azeite, mel, vinho, água, leite, além de outras bebidas mais modernas. Além das ofertas perecíveis, existem também as ofertas votivas (como cumprimento de um voto ou como presente devocional), que incluem estatuetas dos deuses ou de seus animais, tripodes, vasos, tecidos, anéis, armaduras, máscaras, frascos de óleo, taças, relevos, fitas, cristais, coisas com os símbolos sagrados deles etc - como disse William Rouse em "Greek Votive Offerings": "Não há nada no mundo que não possa se tornar uma oferta votiva". 

O ritual no helenismo é algo bem simples, não precisa de uma série de palavras mágicas especiais, nem de penduricalhos e utensílios caros, nem de um monte de gente cada um com um papel a desempenhar. Lave as mãos, acenda a vela, jogue cevada no altar, leia um hino, faça uma oferta. Fazer alguma coisa visualmente bonita já vale muito, sem precisar de discursos e roupas estilosas junto. Pode-se incluir tudo isso se lhe agradar e se lhe ajudar a se concentrar, mas não é exigência. Provavelmente os antigos sacaram que o importante é poder fazer algo em qualquer lugar, sem ter que esperar ter dinheiro ou tempo para ir comprar algo, sem ter que passar dias se preparando etc. 

Além de através do ritual, pode-se desenvolver Kharis através do relacionamento com os deuses. Os deuses são reais, não são abstrações ou conceitos. Eles testemunham nossas vidas e nos permitem que testemunhemos as deles, mesmo se isso for além da nossa compreensão e com as nossas limitações de percepção do mundo. Atividades devocionais incluem escrever hinos, dançar, praticar esportes, preservar o ambiente, entre outras coisas, dependendo da deidade a quem se dirigem. Marcel Detienne e Giulia Sissa, em "The Daily Life of the Greek Gods", escreveram: "A crença grega incorporava tudo que era devido aos deuses: sacrifícios, preces, hinos, danças, purificações, ou seja, todos os 'ritos' - as práticas reconhecidas, as quais estavam em conformidade com o que se aparentava dizer ou fazer... Mas 'crença nos deuses' também significava que alguém vivia com eles, tinha negócios com eles, procurava a companhia deles. Socializar com os deuses, cultivá-los, em ambos os sentidos da expressão - tanto de devotar um culto a eles quanto de manter relações amigáveis com eles - frequentando seus altares, se dando bem com os poderes divinos: todas essas coisas eram maneiras senso-comum de dizer que a gente acreditava nos deuses, que lidávamos com eles socialmente". Drew Campbell, em "Old Stones, New Temples" também diz que as pessoas usavam a linguagem do ritual, da arte, da poesia, da música e da dança para expressar seu maravilhamento e gratidão aos deuses gregos. Ele acrescenta que "nossas ofertas de primeiros-frutos, nossas libações, são nosso próprio jeito de dizer o que os Helenos sempre disseram aos deuses: 'Por favor' e 'Obrigado'". 

E essas coisas são muito boas! Por isso que vamos terminar este texto indo para as fontes antigas, nesta citação de Plutarco: "nenhuma visita nos deleita mais do que aquelas a santuários, nenhuma ocasião é mais agradável do que a dos festivais, nada que fazemos ou vemos é mais doce do que nossas ações e visões diante dos deuses, quando tomamos parte em cerimônias e danças". 

(Referência: "Kharis - Hellenic Polytheism Explored", de Sarah Kate Istra Winter. Todos os trechos citados foram traduzidos do inglês pela Alexandra.)


Outras postagens de blogs helênicos que falam de Kharis, em inglês:

Artigo:

Livro:



dezembro 17, 2013

Os 10 problemas mais comuns nos rituais

É claro que o que vamos elencar aqui são erros que vários de nós cometemos enquanto estamos engatinhando na prática de ser politeísta, mas isso faz parte da aprendizagem. Não devemos nos 'martirizar' se nos identificarmos com muita coisa, e muito menos deixar de fazer as coisas por medo de errar; apenas vamos tentar fazer melhor da próxima vez. No geral, essas observações surgem de quando vemos rituais que parecem mais centrados nas pessoas ali reunidas do que nos deuses a que se dedicam. 


1- Forçar intimidade em público

A pessoa decide fazer um ritual a certa deidade que ele não tem nenhum contato, só porque quer a ajuda dela em certo propósito; aí estuda o que ela gosta de receber e chama a galera para o rito onde lê os hinos a convidando para perto. Na cabeça dessa pessoa, que nunca contatou aquela divindade antes, basta fazer umas ofertas que a deidade vai trabalhar pra ela. É tipo, você quer ser cineasta, aí chama o Steven Spielberg pra te ajudar e espera não só que ele apareça na sua casa como te ensine tudo o que ele sabe em troca de lhe servir sua torta favorita. Não interessa se ele nunca ouviu falar de você, que você não conversou com o empresário dele antes, que não o chamou para tomar um café e ficou amigo dele aos poucos, antes de esperar que ele te visitasse e resolvesse seus problemas. Não é o mais lógico? Primeiro, estabeleça um relacionamento com aquele/a deus/a, em particular. Depois que você sentir sua presença mais constante na sua vida, aí sim você pode lhe apresentar seus amigos e fazer um rito público. Não saia exigindo que Apolo lhe faça virar um Beethoven se você não sabe nem de onde veio a lira dele.

2- Chamar e ignorar

A pessoa faz as preces chamando a deidade para perto, daí continua fazendo as coisas do ritual como se nada tivesse acontecido. Ora, você chamou o deus e agora age como se ele tivesse entrado na sua cabeça e pronto. Deixa eu te falar: eles são reais. Sinta-os, escute-os. Você pode ler os hinos, cantar, rezar, falar o que deseja dizer, mas e depois? E na hora de eles retribuírem essa energia, você não faz uma pausa para recebê-la? Quando você sentir que já chegaram, comunique-se com eles. Não desligue o "telefone" antes de eles responderem seu "alô". Pode demorar a estabelecer conexão, mas uma hora dá linha, e não fará sentido ligar pra alguém sem a intenção de escutar a voz dela. E, sabe, na real às vezes a gente não precisa dizer nada, a pessoa (e a deidade) só quer sentir que você está ali por ela. Como disse a Suzana lá no grupo do facebook, "o importante é se expressar de forma bela e solene, seja no silêncio ou nas palavras, o Sagrado requer um tipo de elegância que é estranha ao profano". Seja elegante. O conceito principal do helenismo com certeza é o de 'kalós', o "belo".

3- Esquecer-se da "xenia" (hospitalidade, amizade convidativa)

A pessoa chama a deidade pra sua casa, mas não a trata como um convidado. Não lhe dá conforto e respeito. Parece repartição: "que bom que você chegou, vamos trabalhar". Com um convidado, a gente conversa com ele, guarda seu casaco, oferece um bom lugar pra sentar, pergunta se quer beber alguma coisa, se interessa em saber como está sua vida, antes de começar a conversar sobre trabalho. Em termos de ritual, significa que, depois de chamar a deidade, você deve lhe fazer ofertas, libações, agradecer (não só pedir coisas pra você), sentir/ouvir o que ela deseja, deixar a relação fluir em vez de seguir um 'script' que você escreveu. Saia um pouco do roteiro para dar lugar ao inesperado. Às vezes os planos dos deuses te levam por outro caminho que você se surpreende de um jeito bom. Se isso te assusta, se não quer perder as rédeas da situação e entregá-la nas mãos dos deuses, então isso não é um relacionamento ritual, é uma "performance" teatral (e de monólogo). Deixe espaço no seu ritual para sentir coisas, ou mesmo para consultar oráculos com a intenção de ler o que quer que eles queiram te dizer. Inclusive pode ser que surja algo que foge daquilo que você conhece. Por exemplo, uma vez ganhei uma pedra que historicamente estava associada com certo deus, mas na hora de torná-la oferta votiva, foi outro deus que me a pediu para o altar dele. E, ao pesquisar depois sobre ela, vi que fazia todo o sentido estar ali. Quando a dúvida bater, sempre é bom pesquisar para ficarmos mais seguros.

4- Esquecer-se da "kharis" (reciprocidade)

A reciprocidade é comumente mal compreendida. Não é "magia", não é uma transação comercial, 'eu te dou vinho e flores e você me dá favores'. OK, isso funciona, mas só em curto prazo. Se você quer ficar confortavelmente no rasinho da piscina devocional, limite-se a isso aí e pronto - e depois não reclame que os deuses só te ajudam quando querem alguma coisa em troca. Mas, se quer criar um relacionamento verdadeiro com eles, tipo daquelas amizades em que qualquer presente que a pessoa querida lhe dá seja significativo, que se você está em apuros ela corre para te socorrer sem pensar duas vezes, e coisas do tipo, então nade pro fundo, naquele lugar onde não dá mais pé na piscina. Faça ofertas regulares sem precisar de grandes rituais. Faça rituais dedicados à natureza, à cura do planeta, a coisas mais de comunhão e devoção do que para você. Torne essas práticas uma forma de 'apro-fundar' (ir 'pro fundo', lembra?) seu relacionamento com os deuses. Aí você vai ver o que acontece quando você precisar de ajuda em algo. Seja aquele amigo sempre presente, sempre cedendo seu tempo e sua atenção, sempre pensando no outro, comprometido e cuidadoso, interessado e sincero, constante e disponível. A reciprocidade vai acontecer e você vai nadar e mergulhar sem medo. É melhor do que ficar no rasinho segurando na boia.

5- Querer impor sua vontade

Essa é uma das principais razões de não praticarmos magia de coerção. Não se deve tipo mandar os deuses virem, ordenar que eles façam tal coisa, despachá-los depois para irem embora e esperar que desapareçam. Não os use, eles têm vontade própria, e eles podem escolher não te responder, não se envolver com você, não te ajudar, não estar presente. Diga "obrigado" e "por favor" e "olá" e "até logo". Eles não são ferramentas que você coloca de volta na estante e que espera que lhe sirvam pra seu próprio benefício. Não são instrumentos inanimados. Eles são reais e vivos. E muito mais sábios do que você... Confie no julgamento deles!

6- Não respeitar os amigos em rito em grupo

Aqui vão vários conselhos em um só item: Se alguém está concentrado meditando, não o perturbe. Se for tirar uma foto, peça permissão a quem vai aparecer no enquadramento, pode ser que a pessoa não queira expor sua religião pro mundo. Não apareça no ritual cheio do álcool ou intoxicado. Não fique pegando nas coisas dos outros sem permissão, mesmo que você ache lindo e queira ver de perto aquele pingente que ela está usando. Não fique julgando o preço dos artefatos que as pessoas trouxeram. Leve suas próprias ofertas. Não chegue atrasado. Não jogue ofertas no fogo sem ter sido convidado a fazê-lo. Se alguém lhe pedir para fazer algo, tipo ler um hino, leia; todos ali são voluntários também, e ninguém está só assistindo enquanto come pipoca. Se você não tiver com quem deixar as crianças e precisar levá-los para lá, fique de olho neles, eles são seus filhos, não espere que os outros participantes cuidem deles pra você. Se alguém ofereceu a casa dele/a para o rito do grupo, leve um presentinho ou ofereça ajuda na arrumação. Enfim, seja educado.

7- Deixar de fazer ritual porque não tem oferta material

Olha, as atitudes valem mais do que os presentes. De que adianta eu dar uma estatueta de bronze para Ártemis e jogar lixo na rua? Tem tanta coisa que você pode fazer como oferta... Além disso, você sempre tem algo físico para oferecer sim. Não precisa ser cevada e vinho, pode ser pão e água. O importante é o sentimento, a meditação, o contato, a lembrança, o exemplo que você passa pro mundo.

8- Fazer rito só em dia de festival

Se você se limitar aos festivais para se aproximar dos deuses, é como se esperasse o dia dos namorados e o aniversário de casamento para fazer algo legal pro seu cônjuge. Se você age assim, ele pode acabar se separando de você. Assim como é preciso demonstrar seu amor no cotidiano, você precisa fazer seus ritos de coração, não por obrigação de uma agenda. Além disso, na Grécia Antiga, cada polis tinha um calendário diferente. Não é preciso seguir piamente um calendário oficial; estamos falando de 're-ligião', de se 're-ligar' aos deuses, e isso independe de datas. Não estou dizendo para esquecer os festivais, apenas para não limitar seu relacionamento/prática espiritual a eles.

9- Fazer as coisas com pressa e sem intenção

Como falamos no item 2, às vezes pode demorar a estabelecer conexão, a se sintonizar no ritual. Uma coisa é você estar passando por um altar e rapidinho soprar um beijo ou deixar uma flor, isso sim é ótimo para mostrar que você se lembrou deles, que tem o desejo de manter contato e estabelecer constância no relacionamento de vocês. Outra coisa é dizer que vai fazer um ritual, lavar as mãos como de costume, aí chegar lá, acender a vela, ler um hino, fazer um pedido, apagar a vela (tipo bolo de aniversário), ir embora, e postar nas redes sociais que realizou um festival. Faz toda uma produção no altar pra sair bonito na foto, mas não se concentra, não escuta a deidade, não reflete no sentido da data, não traz nada de ensinamento pra sua vida, e ainda acha uma chatice ter que pausar seu videogame pra fazer o "rito". Olha, fazer um rito direitinho também dá XP, ok? Não no seu joguinho, mas na sua vida.

10- Virar um robô

Você pode achar legal os novos drones e afins, mas os robôs devem servir você e não você virar um deles. Você é humano. Isso significa principalmente duas coisas: que você falha e que você é capaz de agir sem programação. Em termos de ritual, significa: purifique-se antes (tome um banho ou pelo menos lave as mãos) e seja espontâneo. Ninguém gosta - nem os deuses - de se relacionar com máquinas sem emoção, que ficam repetindo um hino perfeito (até em grego clássico com a tônica correta) e não sentem nada daquilo que estão dizendo. Uma estrada reta é monótona, são as curvas que nos deixam animados. Faça curvas. Mude o roteiro. Surpreenda. Mostre que está vivo - e que pensa. Os deuses gregos, ao contrário do deus abraâmico, gostam de heróis virtuosos e não de servos pecadores. Deixe-os orgulhosos, e não com pena de você. Mostre que valeu a pena eles te darem atenção.

Essas foram as coisas das quais conseguimos lembrar. Se você já cometeu alguma delas, é natural. Só tente fazer melhor das próximas vezes.

janeiro 13, 2013

Todos gregos


«Na Grécia Antiga, o costume religioso podia variar consideravelmente de lugar a lugar: 'pólis' (cidade) diferente, 'nomos' (costume) diferente, dizemos. E, ainda assim, todas as práticas eram reconhecidamente parte da mesma religião, com os mesmos deuses, a mesma mitologia, a mesma história. [...] minha comunidade é baseada na da Atenas clássica. Se você procurar por outros rituais, especialmente online, encontrará algumas variações: um grupo faz duas libações, outro circula o altar, outro celebra tanto a Dionísia Rural quanto o Lenaia, o outro prefere a cosmologia órfica à de Hesíodo e Homero. Essa variedade é, acredito eu, a marca de uma crença viva, uma que mobiliza as pessoas a honrar os deuses de coração e de uma forma vital, e de um jeito que faça sentido para suas famílias, suas comunidades. Pois, como Shelley disse uma vez (num contexto bem diferente), "Somos todos gregos".» 
(Drew Campbell - 'Old Stones, New Temples'; traduzido pela Álex)


Ano passado tivemos algumas sugestões de páginas de facebook querendo fazer parceria conosco. Eu sinceramente acho desnecessário que haja separações em vez de nos unirmos no RHB. Se o grupo fosse de outro país, eclético, alexandrino, tudo bem, mas se são todos brasileiros, reconstrucionistas e helênicos, e se sempre acolhemos bem todo mundo (acredito eu), não vejo razão - pois "Somos todos gregos". Além disso, vi dois problemas com essa situação. Um é que um dos grupos é uma tentativa de popularizar internacionalmente "o grupo de Fulano" criando grupos que representem o grupo dele em outro país. Acho estranho, até porque nesse caso sim acho melhor parceria (como temos com o grupo Thyrsos na Grécia e com a Hellenion nos EUA) do que impor seu próprio grupo em uma terra estrangeira que JÁ tem um grupo ali. O outro é o desconhecimento que ainda temos desses outros grupos mais novos. 

Não raro já observei pessoas perambulando por lugares dos quais depois se decepcionaram e largaram - normalmente com algum estresse e chateação. Por isso, imagino que seria útil um 'checklist' para pensarmos bem antes de decidirmos nos envolver com um ou outro grupo sobre o qual estamos incertos. Há algumas coisas que podemos identificar e ficar com um pé atrás quando isso acontecer. Assim a gente evita o famoso "ah, se eu soubesse disso na época...". A primeira coisa é pesquisarmos não apenas o site de um grupo, mas também o relacionamento entre os membros e se existem 'ex-membros' (e o motivo de estes terem saído). A partir daí podemos incluir, por exemplo:

1. Tome cuidado com auto-proclamações. Do tipo quando eles dizem que são descendentes diretos de Hércules, de Ulisses, do Batman (rs), de tradição milenar com ensinamentos repassados diretamente de Triptólemo etc; e desconfie se eles exigem que você os chame por títulos magnânimos e vivem se gabando por terem tantos anos de estudos e diplomas e falar dezenas de dialetos, passando o tempo todo lembrando as pessoas disso.
2. Atente para os custos para se filiar ou continuar sendo membro. Gente que cobra os olhos da cara normalmente criou a organização mais para gerar receita do que para dar um ensinamento espiritual genuíno.
3. Estranhe se você ouvir conversas sobre os 'poderes sobre-humanos' dos líderes; do tipo "eles sabem tudo de você", "eles nunca erram", "se eles disseram para fazer assim, é melhor obedecer" etc.
4. Se eles dizem de quem você pode ou não pode ser amigo, fuja. Amizade não precisa ser exclusiva entre os membros de um grupo/crença, ainda mais por alguém ter 'mandado' sem você nem ter conhecido a pessoa ou experimentado um relacionamento com ela por si mesmo.
5. Desconfie se eles dizem que alguns livros são "proibidos" (não "evitados") porque tais livros vão lhe fazer mal, vão atrasar sua evolução espiritual, vão lhe fazer ter pesadelos terríveis, vão macular sua alma (:P) etc.
6. Evite-os se eles fazem uma tempestade em copo d'água quando alguém comete algum engano e/ou crucificam a pessoa por isso, deixando todos desconfortáveis e com aquele receio constante de errar.
7. Fuja dos extremos ao perceber que eles estão SEMPRE tensos e estressados (sem se permitirem um gracejo de vez em quando, isso pode ser insegurança) ou SEMPRE alienados e 'ligados na bateria' (sem levar as coisas a sério e sem procurar um equilíbrio).
8. Repare se eles não parecem ser todos fiéis ardorosos de certos aspectos de Ares, de Éris e dos Titãs (ou seja, se estão sempre combatendo os inimigos, promovendo discórdia e se envolvendo em guerrinhas de poder).
9. Veja se eles zombam de quem pede auxílio para entender alguma experiência espiritual particular dizendo que a pessoa está "viajando" e trata-a como se o relato fosse ridículo ou estúpido e como se comentar sobre isso fosse perda de tempo. Se não existe nem o básico da educação e respeito, não se pode esperar que surja algo melhor.
10. Observe se eles não mantém uma hierarquia muito rígida, baseada na instalação do medo de se confrontar alguém e na proibição de se avançar muito rápido nos níveis da "ordem".
11. Estranhe se, ao mesmo tempo em que eles ficam tentando angariar seguidores fazendo rituais para questões mundiais (por exemplo: a paz, o combate à fome, o meio ambiente), eles mesmos não cuidam sequer das questões internas (por exemplo: a concórdia entre si, a saúde dos membros, a educação para coleta de lixo em casa).
12. E, por fim, siga sua intuição e o bom senso! Sentir-se incomodado nem sempre é por conta da nossa inexperiência, muitas vezes é um sinal de coisa errada apitando nossa percepção interior.

Talvez, se os novos grupos tiverem propostas diferentes que não a reconstrução da religião helênica antiga, e se - com o tempo - a gente perceber que eles são corretos, aí tudo bem sermos grupos distintos e parceiros. Pode até virar uma rede bem útil e funcional! 

Assim estaremos seguindo dois princípios de Sólon: "Não se associe com pessoas que fazem coisas ruins" e "Não seja precipitado em fazer amigos, mas não os abandone uma vez feitos".

Afinal, não é a ética um dos principais aspectos a serem observados pelos helenos? ;D

outubro 06, 2012

Saúde mental... como ajudar?


Esta semana uma politeísta dos EUA mentalmente enferma veio a falecer em um incêndio em seu quarto, aparentemente provocado por ela mesma. Isso suscitou em muitos de nós uma reflexão sobre como poderíamos agir em situações semelhantes, como grupo, como apoio religioso mesmo. Afinal, era iminente que algo acontecesse, já que para os mais próximos ela falava sobre o fogo como meio de acessar o divino, embora ao mesmo tempo viesse ordenando pedras linearmente numa mesa como se quisesse se reorganizar, como se buscasse por aquilo que nos traz de volta a uma realidade saudável. Talvez por isso que não se imaginava que as coisas chegariam a tal ponto. O fato é que - como no caso de muitas aflições mentais - algumas pessoas achavam que ela só estava se comportando mal ao dizer que era esposa de Hermes, e não que fosse um problema real. Achavam que era apenas uma "drama queen" e não alguém que precisava de ajuda. Mas se alguma coisa boa surgiu do evento trágico, foi a reflexão que suscitou em nós, que nos provocou a pensar sobre nossa própria organização como rede, como um todo. Até porque foi um choque. Eu havia conversado com ela algumas vezes, e fiquei sentida de alguma forma. 

O fato é que até os estudiosos têm dúvidas sobre o uso da religião no tratamento de distúrbios mentais, se é algo útil ou prejudicial. Algumas pesquisas mostram que religiões relacionadas com possessão e exorcismo são mais prejudiciais a longo prazo do que as que se baseiam em prece e meditação. Há um estudo que mostra um templo na Índia utilizado para a cura, onde as pessoas passam um tempo lá - o que me lembrou muito Epidauro, de Asclépio. No estudo, aplicaram um teste psicológico antes e depois do período no templo, e o teste na saída chegou a mostrar melhores de 12%. Mas outras pesquisas relatam como a superstição de origem religiosa pode abalar ainda mais a razão de uma pessoa.

Nossa crença é de certa forma relacionada com a filosofia, o que poderia fazer alguns pensaram na "filosofia clínica" que afirma "mais Platão, menos Prozac"; e, embora eu não goste de como eles lidam com isso e saiba que algumas questões não podem ser tratadas só filosofando, há algo bem útil relacionado com o pensamento básico de a filosofia nos ajudando a lidar com o mundo. Quando tomamos os mitos por si, eles têm coisas muito estranhas que só entendemos quando lemos a análise que os filósofos fazem daqueles mitos. 

E, mais recentemente, temos as teorias da psicologia analítica dos junguianos e pós-junguianos considerando a mitologia uma forma de acessar nossas verdades interiores e nos tornar seres humanos melhores. Podemos listar uma série de escritores que seguem este caminho. Mas mesmo Jung dizia que: devemos aprender tudo sobre o máximo de coisas, mas na terapia devemos ser apenas um ser humano diante de outro ser humano. Muitos entendem isso como "estude mitologia, mas saiba que a pessoa que você está tentando ajudar não é Héracles ou Perséfone, são apenas elas mesmas".

Se olharmos alguns personagens míticos, encontraremos Héracles na sua loucura matando a esposa e filhos, e depois sendo purificado ou reparando o ato através do trabalho. Isso poderia nos fazer pensar sobre ter um emprego ou tarefas para fazer a fim de curar nossa enfermidade. Isso se parece muito com o que pretende a arte-terapia e a terapia-ocupacional.

Por outro lado, temos Odisseu fingindo estar louco para não ser convocado para a guerra em Tróia. Palamedes descobre o truque de Odisseu. Ou seja, a loucura pode então ser simulada, e é talvez por isso que alguns familiares têm uma resistência em acreditar que se trata de uma doença e considera aquilo apenas um "mau comportamento".

Dioniso era um estranho para os gregos, eles temiam o desconhecido, a diferença. As pessoas com distúrbios mentais normalmente se sentem desconfortáveis com um estranho, e elas mesmas se sentem estranhas no mundo. Alguns pais também pensam que nem todo comportamento de uma pessoa com enfermidade mental é por causa da doença, eles acham que algumas de suas respostas são coisa de criança, preguiça, "falta de Deus" e coisas do tipo. Eles procuram por médicos que dizem que é uma psicose, procuram por sacerdotes que dizem que é um problema espiritual, e acabam acreditando nos dois ao mesmo tempo.

Em outras religiões, há também uma sintomatologia psiquiátrica causada por ação sobrenatural, similar à possessão e usada como punição (vocês podem procurar pelo relato de Nabucodonosor ou mesmo o de Saul, na bíblia).

Então vemos que a mitologia às vezes ajuda e às vezes alimenta/aumenta os problemas; depende de como a utilizamos - se como uma ferramenta/muleta ou se como uma fuga/tábua-de-salvação. No caso da garota que tentou alcançar o divino ateando-se fogo, as informações (sabe-se lá de qual fonte de estudos mitológicos/espirituais) que ela acessou só pioraram sua disposição original.

Talvez a melhor forma de agir como grupo religioso seria apoiar as pessoas como faríamos fora da religião (listo algumas dicas abaixo, ainda nesta postagem), e mostrar a elas que há exemplos na Antiga Hélade que eram solucionados assim como eles podem solucionar suas questões com a ajuda que terão dos amigos e dos Deuses; como as coisas acontecem por uma razão; como deveríamos tomar as rédeas das nossas vidas como heróis, realizando um feito por vez; como até os deuses (como Dioniso) não eram totalmente compreendidos também; como erros do passado podem ser purificados e reparados... e toda essa maravilhosa visão ética de mundo que o modo heleno antigo de viver nos ensina.

É difícil propor algo de forma geral assim sobre esse tema, mas poderíamos nos unir para ajudar caso a caso se nos propormos a procurar pelo auxílio do grupo quando vemos alguém precisando. Talvez, se tívessemos nos unido para ajudar a moça que morreu (em vez de julgá-la, falar com ela privadamente, deixar ela pra lá, parar de procurá-la para conversar), sua situação teria outro desfecho.

Ajudar 'online' é dificilmente muito efetivo, mas ainda podemos fazer algo. Se as pessoas sentirem nosso comprometimento em ajudar, se sentirem que têm apoio nos seus esforços para melhorar, se sentirem-se seguras para tentar coisas que de outra forma (sozinhas) seria assustador, se perceberem que não precisam passar pelos problemas sozinhas, já estaríamos ajudando. Nós podemos insuflar coragem à sua falta de esperança, mas provavelmente teríamos que verificar se nós próprios somos fortes para fazer isso. Às vezes ajuda ter o mesmo problema para compartilhar experiências, mas às vezes ajuda mais se fizermos elas perceberem que podem confiar na nossa força, como alguém que é capaz de "salvá-las".

Coisas que nós NÃO devemos fazer: ficar bravos com elas; evitá-las; julgá-las; dar conselhos que elas não pediram; prometer coisas que não podemos cumprir; falar sobre o problema delas o tempo todo; minimizar o problema tipo dizendo "sai dessa" (se pudessem, já o teriam feito); dizer que sabemos o que elas estão passando (outra pessoa nunca sabe o que estamos passando, ela não tem a mesma história e personalidade que temos); ficar falando sempre sobre o passado (seus problemas são aqui-agora).

Coisas que DEVEMOS fazer: aceitar o fato de que elas têm uma doença (muitas pessoas não vêem as doenças mentais como doenças, mas são); aprender/estudar sobre seus distúrbios e como lidar com isso; ajudá-las a identificar os sintomas (incluindo os físicos); ouvir com atenção; encorajar seu envolvimento em atividades que elas gostem (esportes, hobbies, atividades culturais), embora não em muitas de uma só vez (se elas se envolvem em muitas atividades, o excesso de demandas vai fazer elas pensarem são um fracasso - por não conseguirem cumprir todas); encorajá-las a procurar ajuda médica; sugerir que elas mantenham um registro escrito; entre outras coisas.

É legal lembrá-las das coisas boas que elas têm, sorrir pra elas (ainda que por carinhas de internet), oferecer ajuda nas tarefas diárias (há coisas que é mais fácil para você terminar do que pra elas), mostrar que você sente muito pelo que elas estão passando, perguntar como podemos ajudar...  Também é importante demonstrar que você está percebendo o progresso delas, o que elas já conseguiram realizar, e que elas não precisam ter pressa - elas podem fazer um pouquinho por dia, e ainda podem ter a nossa ajuda para fazê-lo.


Não sei se sou uma boa fonte para falar dessas coisas, faz anos que não lido com psicologia, mas espero ter ajudado a despertar alguma percepção útil aqui. E espero sinceramente que não precisemos de mais "baixas de guerra" para nos apontar que deveríamos ser mais unidos como grupo para ajudar nossos semelhantes, ainda mais aqueles que compartilham de nossas crenças.


outubro 13, 2011

Aprender e Compartilhar

Outro dia dei uma olhada na novela que está acabando, das sete. O que era padre e deu um tempo na batina para tentar namorar ficou amargurado e a sua amada preferiu vê-lo feliz e livre do que com ela. Eu me identifiquei com a conversa que eles tiveram, sobre ele sentir falta das preces, do silêncio, da penumbra da igreja, e até da solidão, e sobre ela sentir que a missão dele era algo maior que as coisas do mundo, que ele não foi feito para amar uma só pessoa, mas toda a humanidade. É difícil explicar isso pros outros, a maioria não acredita que fico mais feliz sem dividir minha devoção com um ser humano e deixar de ter tempo para todos os outros que precisam. Mas é assim mesmo. Os estóicos acreditavam que os professores não deveriam se casar (e não era questão de ser celibatário, mas de 'casar' mesmo), porque as obrigações domésticas tomariam muito do tempo deles. (Hoje a gente tem outras alternativas, as coisas estão mais automatizadas e acaba sendo uma questão de organização e prioridades.) De qualquer forma, quando você abre de verdade seu coração para essa totalidade, quando deixa de se sentir separado do resto, ao mesmo tempo em que você deixa de ter necessidade de estar sempre junto, você deixa de se sentir sozinho.

Já vi muitos casos de peregrinos que chegaram em centros religiosos (seja na Índia, em Compostela, numa tribo afastada etc) procurando se sentir unida àquelas pessoas porque "não há um grupo na minha cidade e eu queria ver como se faz", e o seu orientador (seja guru, seja sacerdote, xamã etc) dizer algo do tipo "se você praticar de coração, seja onde estiver, você estará praticando com todos nós". Portanto, não se sinta vazio porque está inseguro de não ter alguém olhando para ver se você fez certo. Não se sinta menor porque fez as coisas sem uma sequência ou porque seu rito foi muito rápido. Não pense que os deuses não compareceram, se aborreceram com a simplicidade da sua oferta e preferiram ir pro rito de outro 'banbanbam' qualquer do helenismo. Se Eles só pudessem estar em um lugar e momento por vez, não seriam lá muito dignos desse título de 'deuses', não?

A gente sempre vai encontrar dificuldades e dúvidas quando busca fazer as coisas de forma genuína. Quando elas surgirem, não transforme-as em pedras que atravancam seu caminho como se fossem desculpas para não tentar de novo. Não seja orgulhoso demais em admitir as próprias falhas, mas procure entender quais foram, escute-as como se estivesse ouvindo algo de um professor de verdade (porque no fundo está). Não existe um tempo fixo para dizer "daqui a dois anos eu vou entender completamente disso". Em qualquer momento a gente pode fazer besteira. A questão é aceitar e acreditar que aquilo pode ser um presente para nos transformar e nos fazer acordar para algumas coisas que antes não enxergávamos. Não fique confuso com as curvas sinuosas do caminho, pense nelas como um tempo extra que você ganhou para estar na estrada com Eles - afinal, curvas são mais emocionantes e duradouras do que as retas monótonas e previsíveis. Ter fé, aqui, é ter força para continuar por essa estrada.

Agora entra um 'ponto-porém' aqui. Embora você possa fazer algo você-Eles e embora não precise estar fisicamente onde outros estão, ainda é necessário existir alguém/algo que te oriente, o que implica em uma aceitação paciente e amável do que quer que se apresente. Se a gente aprende a prestar atenção (perscrutar) e agradecer por cada coisa, cada presente inesperado, cada folhinha esvoaçante, cada ideia inspiradora, certamente não deveríamos negligenciar a orientação voluntária de um professor instruído, criterioso, informado. Cada coisa ou pessoa que vem à sua frente deveria ser tomada com um amor e devoção sinceros. Nossos 'mentores' são ligações importantes, são laços personificados com os caminhos divinos que vão se desdobrando em nossa direção, se revelando além das névoas do desconhecido. Não dá para achar sua cadeira no teatro desse espetáculo sem um lanterninha pra te guiar, e nem dá para encontrar um bom lanterninha se você não demonstrar a intenção de vislumbrar - admirado - o espetáculo.

Convém lembrar também que o lanterninha, o professor, o orientador, é um ser humano. Ele espera uma conexão. Você saberia responder o que ele acha mais importante no momento? Você pensa sobre as coisas que ele lhe apresenta? Você é honesto ao contar-lhes suas experiências e reflexões? Você se coloca no lugar dele e pensa também no que ele faria no seu lugar? Você agradece a ele? Você demonstra o que ele significa para você? O que você oferece em troca? Qual a sua contribuição nesse 'banquete'? Concentração, empatia e gratidão podem fortalecer e tornar as relações mais leves, mais alegres... Pra que esperar uma crise para precisar sentir a falta e tentar correr atrás de recuperar o perdido? Aproveite o tempo que você tem com os que se dispõem a caminhar com você. E pise com gentileza pela trilha. Valorize suas conexões. Todos podemos aprender uns com os outros -- ou, como pregaria Platão, ajudar a nos lembrarmos do que sempre soubemos.

Pensando nisso, o RHB está formando orientadores. No próximo ano civil eu espero que já os tenhamos mais disponíveis. A princípio eles já podem responder suas dúvidas e atuar como oráculos. Mas nossa intenção é ir além e ajudar cada vez mais, com organização e disciplina. Já ouvi falar que algumas pessoas se identificam mais com este ou com aquele outro, e acredito que essa afinidade ajuda na motivação. Assim, sugiro que vocês já vão conhecendo nossos queridos voluntários e criando seus laços com eles. Até porque eles irão formar outros. Ainda sonho com uma rede que não é corrente, com uma rede flexível e firme o bastante para não deixar ninguém se machucar ao dar um passo em falso no trapézio. É essa rede que eu espero formar para o nosso grupo. Uma rede com laços mas sem nós, mais resistente que metal de elo de corrente que machuca, e mais macia também.

Parece que comecei falando de uma coisa e fui puxando outra e acabei formando um texto-tricô, rsrs. Mas acho que no fim das contas o sentido dessa malha foi capturado e vai te ajudar a enfrentar o frio. Ao menos conto com isso. Porque a gente não é e nem está sozinho. 

;))

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

agosto 07, 2011

Se a montanha não vem, vá até ela

Às vezes me perguntam onde eu encontro os objetos helênicos que tenho, ou como eu consegui 'adivinhar' (colocar em palavras) o que as pessoas andavam precisando ler/ouvir. Mesmo que sejamos instrumentos dos deuses, a gente tem que saber se colocar como tal. Precisamos mudar de cenário.

E, em se tratando de adivinhação, um dos métodos mais antigos é o de perscrutar, descobrir por observação, pela concentração, pela fixação do olhar em algo, como um cristal, uma chama, um espelho, uma pedra, qualquer coisa, libertando a consciência e acessando o mundo de lá. Em inglês o termo é "scrying", um ver claro, um escaneamento através de alguma coisa.

Então, tudo o que a gente realmente precisa é dos cinco sentidos funcionando. Ver, ouvir, cheirar, provar, tocar, são coisas que podemos fazer em qualquer lugar, sem precisar de acessórios como bola de cristal ou baralhos. Einstein dizia que não podemos solucionar os problemas se usarmos o mesmo tipo de pensamento que usamos ao criá-los. Não há como obtermos respostas sem 'trocarmos de estação'.

Por isso é que, se você quer resolver suas dúvidas e encontrar suas ferramentas, você precisa mudar de enquadramento e referência. Ontem eu estava procurando na internet um conjunto de símbolos que eu pudesse usar comigo, e nada me chamou a atenção. Então eu deixei pra lá e fui passear no shopping. Comprei uns DVDs e fui olhar uns anéis, porque o meu preferido (que sumiu por um ano e reapareceu) já sumiu novamente. E eis que, no meio dos anéis, encontro um pingente com motivos gregos e vários símbolos que significam diversas coisas para mim.

Os deuses estão em toda a parte. Se você quer ver coisas diferentes, vá dar uma caminhada. Mude seu pensamento de canal. A maioria das minhas estatuetas eu encontrei em feiras de artesanato quando fui comprar bijuteria ou lojas de decoração quando fui comprar uma vela colorida ou lojas de produtos light quando fui comprar cevada e incenso. Você esbarra com a imagem mais perfeita e não tem como não levar.

Eles - e os daimones que Os acompanham - estão ali, para serem vistos, ouvidos, cheirados, sentidos, acariciados, abraçados... ao vivo e há milênios. Estão enviando mensagens numa borboleta que cruza o seu caminho, em um peixinho que tremeluz aos raios de sol no laguinho da praça, em um galho retorcido de árvore que forma a figura de um sátiro, no padrão geométrico da calçada que lembra um motivo cretense. As respostas estão também nesses lugares. É só saber voltar o nosso olhar para onde iremos descobri-las.

Acredito que, mesmo quem mora em uma metrópole ainda tem como passar por árvores e corpos d'água e outros lugares onde podemos perscrutar. No começo, caminhe com vivacidade, deixando seu coração acelerar, respirando fundo e fazendo o oxigênio fluir ao cérebro. Mantenha-se atento/a, procure por formas aleatórias que possam fazer sentido. Se encontrar, pare e medite. Não ligue se vão lhe olhar e pensar no que você está fazendo parado ali. Quando voltar para casa, aproveite a caminhada para pensar no que viu, conclua sua 'adivinhação'/consulta, e renove sua confiança no conhecimento que lhe foi concedido.

Por vezes ajuda se você pensar em 'naipes' ou 'elementos', como no tarô. Por exemplo, se você está querendo uma resposta sobre coisas intelectuais (como seus estudos), que é um lado mais de 'espadas', do 'ar', você pode procurar as respostas nas formas das nuvens ou na fumaça do incenso. Se quer saber do financeiro, da 'terra', observe árvores, pedras, marcas no solo. Se a questão é sentimental, "leia" o movimento da água. Mas não fique preso/a ao elemento, a resposta pode vir de outro, talvez porque você precise resolver esse outro aspecto para chegar ao que você imagina ser o que está confuso. Normalmente a imagem salta na sua frente e o reconhecimento é imediato.

Se possível, tire uma foto ou faça um desenho do que viu. Guarde-o em seu diário. É legal olhar para trás e ver como os deuses vão nos orientando tão sabiamente. Muitas das coisas que vemos só vão revelar seu completo sentido mais tarde.

Pense na resposta como uma gentileza dos daimones e deidades daquela área específica. E retribua a gentileza deixando uma oferta em agradecimento para a ninfa da referida árvore, ainda que seja uma prece de coração ou a promessa de levar algo depois (lembre-se de cumpri-la). Os espíritos e deuses ficarão mais propensos a repetir o auxílio em lembrança à amizade que vocês desenvolveram e cultivaram.

Com o tempo, também você vai ficando mais 'desperto'. Confesso que vejo coisas novas até nos imutáveis padrões marmorizados dos azulejos do meu banheiro. A gente passa a reparar nos desvios de um gramado, nas rachaduras do granito, no canto trinado de um pássaro, no aroma repentino de um barro de cerâmica, na sensação de areia roçando nossos pés que estão bem longe da praia. Sim, porque não precisamos apenas ver coisas, podemos receber respostas através de todos os outros sentidos. Incluindo do sexto. E dos sonhos, que também é outra mudança de realidade(s).

Mantenha igualmente o bom senso. Cada vez vai ficando mais fácil saber se algo era mesmo um 'sinal' ou pura imaginação da sua cabeça. Mas não se torture demais em dúvidas - em último caso, lembre que também foram os deuses quem lhe infundiram imaginação em sua essência. Se o seu modo de ser inclui uma mente imaginativa, use isso da melhor forma que puder. No mais, confie no que recebeu e espere ter a compreensão correta de tal revelação. Como tudo na vida, a comunicação com Eles também se desenvolve através da prática e de muito treino. O que não pode é parar de se abrir e desistir antes de tentar.