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março 06, 2016

Marés Poseidônicas nos meus dias

Em novembro de 2013, escrevi o único post sobre Poseidon deste blog (veja clicando aqui). Uma postagem que não se concluía devidamente, pois eu não tinha as respostas dos motivos para senti-lo tão presente na época. Ao menos não teleologicamente (ou seja, o "para quê" eu estava sendo abordada por Ele). Dois anos depois, novembro de 2015, conheci alguém. Logo estávamos saindo, e passamos o fim de semana do ano novo juntas, quando, a 3 de janeiro, começamos a namorar. Afrodite teve muita participação nisso, fazia ritos a ela para me auxiliar, ainda mais por que o começo foi conturbado. A pessoa que os deuses me enviaram cheguei a pensar que teria algo de Zeus nela, leonina, cheia de si, líder no trabalho... 

Então, um belo dia, eu sonhei com Poseidon. Uma estátua dele em tamanho humano, no meu quarto, se mexia e eu sabia que só eu conseguia ver minhas estátuas se mexendo. Ele sorria para mim com um olhar doce, e eu colocava a mão na sua coxa, e desejava ele. Eu pensava como era bom ver esse lado leve e simpático dele, não só o de sacudidor de terras e maremotos que tudo derruba. Acordei sem entender o sonho, mas contei para um amiga e ela prontamente: será que "ela" não é de Poseidon? Eu em nenhum momento tinha pensado nisso, mas acabou fazendo todo o sentido. O lado amoroso do sonho era para mostrar que se tratava do meu relacionamento, pois o olhar e o sorriso dele eram como os dela. E aí as peças foram se encaixando. Não era Zeus - que inclusive se confunde muito com Poseidon. 

Vou falar primeiro dos aspectos físicos: os hinos homérico e órfico sobre Poseidon o descrevem como de belos cabelos escuros (ela os tem), a primeira vez que nos beijamos foi depois de ficarmos diante do mar, ela acha lindo cavalos (já cavalgou kms), ela tem um pingente de prata que dei para ela no formato de um peixe (como ela queria), ela usa um desodorante de 'minerais do mar', ela adora camisas listradas de azul e branco (tipo marinheiro), um dia eu botei um pendrive no carro com várias bandas quando estávamos namorando e ela voltou várias vezes na mesma música "Oceans" do coldplay, quando assistimos Horas Decisivas no cinema - um filme no mar - ela apertava minha mão nas horas de maior tensão (tipo quando as ondas cobriam o barco), entre outros exemplos que talvez eu não me lembre no momento. 

Agora vem o que mais pesa: os aspectos psicológicos. Primeiro: Poseidon, como a carta da Torre no tarô, vem para sacudir as estruturas, derrubar as fachadas, fazer a gente se reconstruir. Eu vinha de um longo tempo de luto, sem sair tanto de casa, agora saio quase todo dia. Segundo: os terremotos e tensões poseidônicas, que vêm em ciclos, são constantes nela e no nosso relacionamento, o que eu chamo de "as marés poseidônicas". Uma hora ela está me assustando, na outra está me conquistando. Sabe aquela frase da Marilyn Monroe "se você não consegue lidar com o meu pior, você não merece o meu melhor"? Pois é, todas as tensões que ela me causa quando joga água em cima de mim são compensadas pela beleza do oceano e pelas brisas marinhas que impulsionam meu barco na calmaria. Ouço dela tanto coisas muito duras quanto coisas muito lindas. O "uau, ela disse isso?" caberia para os dois extremos se eu lhes contar. E as coisas duras, de certa forma, fazem a gente crescer. 

 [ Como citei no post linkado acima, "A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes." ]

O mar é variável, então está muito ligado a mudanças. Uma das mudanças que tenho experimentado é no meu visual. Cortei o cabelo, repaginei meu guarda-roupa... aumentei minha auto-estima, diminuí minha insegurança. No post anterior, citei que a psicologia arquetípica falando do mar menciona que 'Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.' É bem isso o que vem acontecendo.

[imagine um casal Zeus - Poseidon, rs] 

Os amigos dela não entendem, mas eles só conhecem o lado poderoso e imponente do mar (e da leonina), eu conheço o lado que mostra a sorte que tenho de estar nesse reino de benesses e nascentes transformadoras. A minha calmaria, paciência e determinação taurinas ajudam muito a enfrentar os tsunamis, e a paixão antiga que gerações da minha família têm pelo mar deve ajudar também.  

Outra coisa curiosa é que faz tempo que não tenho sonhado mais com o mar cobrindo o lugar onde eu estava, e esses sonhos eram sempre uma constante. Talvez isso também confirme que eles anunciavam este ciclo que agora veio. Só me resta agradecer e honrar a oportunidade. Espero que ela não passe rápido como uma onda, e sim que ancore e se estabeleça como um tesouro submarino. 

dezembro 13, 2014

Xenia e Empatia

Em tempos em que Dioniso derruba máscaras e descobrimos, entre nossos amigos, pessoas que defendem os opressores, os violentadores e afins, encontrei o texto que traduzo abaixo (com grifos meus) e que espero que faça as pessoas refletirem sobre suas falas, pensamentos e ações diante das situações que andamos presenciando na mídia, nas redes sociais e no nosso dia-a-dia. Não acolher o outro, banalizar sua dor, relativizar um crime, também é Hybris, uma transgressão contra o princípio básico da nossa crença, a Xenia (hospitalidade). 

Baucis e Filemon

Segue:
Declaração de Valores
por Thenea, traduzido pela Alexandra

# Hospitalidade: Nossas portas estão abertas

A hospitalidade é um dos principais valores em todas as culturas antigas, incluindo os nórdicos, os celtas e os gregos. Alguns podem argumentar que esta é a pedra fundamental de todas as religiões indo-europeias.

Nos antigos relatos gregos, Zeus se disfarçaria de pessoas as quais a sociedade tinha marginalizado para testar a virtude de possíveis anfitriões. Se falharmos em receber bem alguém, ou falharmos em criar um espaço seguro para alguém, por qualquer razão além de um abuso direto de nossa hospitalidade, falhamos em fazer o mesmo para o Rei dos Deuses.

Oferecer hospitalidade, na Grécia antiga, significava mais do que comida e bebida. Se uma pessoa precisasse de roupas porque a jornada foi dura, ou de uma cama para dormir, estas coisas também eram providenciadas. Hospitalidade significa prover as necessidades e o conforto de alguém.

Criar um espaço sagrado não significa simplesmente ignorar fatores como ancestralidade, onde alguém está no espectro de gênero, orientação, forma do corpo, deficiência, idade, ou renda. Significa tentar entender de onde a pessoa vem, e entender o que elas precisam para se sentirem confortáveis nos espaços que criamos.

# Discurso: O Diálogo está Aberto

Não se trata apenas de honrar os deuses gregos. Trata-se de uma coisa cultural geral da Grécia Antiga. Discutir política e o estado do mundo são ambas coisas altamente tradicionais a fazer num Simpósio (uma reunião para o propósito de libações). Podemos e devemos criar espaço para o diálogo sobre esses tópicos importantes e prementes.

Precisamos falar sobre discriminação.

Ter diálogos sobre discriminação pode nos ajudar a entender como melhor respeitar as jornadas daqueles que devem enfrentá-la. Também pode nos ajudar a começar a entender como responder aos cidadãos e aos eleitores.

A base desse diálogo, porém, deve ser o respeito.

# Humildade: Nossos Corações estão Abertos

A transgressão da Hybris é normalmente enquadrada como "questionar os deuses", mas essa não é exatamente a questão, em termos de visão helênica. Nos antigos mitos gregos, os humanos geralmente não envolviam as deidades em debates filosófico pois comportar-se assim seria como pensar que eles eram iguais ou melhores que as deidades. Isso é um problema, porque se você pensa que é melhor que os deuses, como você irá tratar seus companheiros humanos? Em contra-partida, se você não pensa que é melhor que seus companheiros humanos, você não corre o risco de fazer isso com relação aos deuses.

Racismo, preconceito de gênero, de deficiência, de idade, de classe social, e outras formas de preconceito, são uma espécie de Hybris.

Humildade também significa, a meu ver, não assumir que eu sei melhor do que a outra pessoa o que ela tem sofrido, e não presumir que posso falar pelas experiências de qualquer um, nem invalidar seus discursos de qualquer forma.

É com essas virtudes que espero que possamos nos comportar nessa época de desenvolvimento de consciência do racismo e preconceito que estão infestando nossa sociedade, e é minha esperança sincera que - através da criação de um espaço seguro e do diálogo aberto com um olhar no remediar de injustiças - o progresso possa acontecer, mesmo se apenas em nossa pequena esfera de influência.


outubro 22, 2014

Tornar-se quem se é


Quando Urano não saía de cima de Gaia, isso causava a ela desconforto. O caçula, Cronos, utilizou então uma foice para cortar o membro do pai, separando o Céu da Terra, como temos hoje. Nesse intervalo entre o céu e a terra, existe o tempo e o espaço. É aí que as gerações se sucedem, que a vida ganha um começo, meio e fim. Uma vida que acaba para outra começar. Essas coisas só são possíveis no tempo e no espaço, e quem proporcionou isso foi Cronos. 

Como atacou o pai, tinha medo dos filhos, e os engolia. Ele estava numa posição confortável e não queria mais mudanças. Aquele que tinha sido subversivo com o pai Urano, tornou-­se um conservador, pois temia as alterações que ameaçassem sua soberania. Por isso que cometia as atrocidades de engolir os filhos. É assim que costumamos ver a mudança: dependendo da posição que ocupamos, do conforto que temos, do prazer que nos dá estar no lugar que estamos. Entendemos a mudança como boa ou ruim dependendo dos nossos interesses e desejos.

Mas Gaia deu-­lhe uma pedra no lugar do caçula, e assim salvou-­se Zeus, que libertou os irmãos. Mais tarde, Zeus também temeu a mudança, engolindo Métis quando esta estava grávida de Atena. Esta também deu um jeito e nasceu da cabeça do pai.

Só que Zeus fez diferente de Cronos. Zeus distribuiu o mundo entre seus correligionários. Assim, a ordem universal passou a ser baseada na justiça de dar a cada um o que lhe é devido. Zeus restabeleceu a ordem. Ninguém ficou de fora, todos tinham uma função, uma finalidade, um papel, de dependência recíproca. Agora viver bem é viver em harmonia com a ordem universal.

Cabe a nós encontrarmos o nosso lugar natural, onde desempenharemos nossa finalidade, pois, se vivermos em desarmonia com o todo, o todo sofre e nós também sofremos. E esse lugar tem a ver com o que faz nos sentirmos bem, com o nosso talento, com a nossa natureza, com a nossa aptidão. O universo espera que sejamos felizes com o que temos de melhor, de mais excelente.

Por isso é importante nos conhecermos, para saber nosso encaixe no todo. “Conhece-­te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. Quando fazemos apenas o que for preciso, se entramos num emprego 'nada-a-ver' só porque é onde tem vaga, não estamos alinhados com o nosso talento natural, e isso afeta a saúde (ordem, harmonia) do grupo inteiro. Para haver um cosmo harmônico e uma convivência feliz, os membros do cosmo também precisam estar em harmonia. “Em cima como embaixo”. O macrocosmo e o microcosmo são reflexo um do outro.

O filósofo mais conhecido com relação à mudança é Heráclito, aquele que diz que tudo flui, que nada é permanente, tudo se transforma em algo diferente, tudo deixa de ser, o tempo todo. É o cara que disse “não te banharás duas vezes no mesmo rio”, pois ou o rio mudou ou você mudou. A água é outra, a temperatura é outra, a força da correnteza é outra, sua vida se transformou... Você e o rio são dois entes em fluxo permanente, e seu encontro é sempre inédito. Somos sempre iludidos pela possibilidade de permanência: achamos que nosso cônjuge é o mesmo, a aula daquele professor é a mesma, a plantinha da varanda é a mesma, pois a mudança neles é mais sutil.

Existe uma alegoria da rã (triste, por sinal), que conta sobre uma rã que está na panela com água à temperatura ambiente, e que o cozinheiro vai aumentando aos poucos, levemente, a ponto de a rã não perceber a discreta mudança, mas no final já foi cozida e nem se deu conta. Muitas vezes acontece assim conosco. Estamos tão acostumados no dia­a­dia que nem percebemos que passaram­-se 10 anos e ficamos acostumados a acreditar que conhecemos onde estamos como a palma da nossa mão, que está tudo confortável e seguro, como sempre foi... até a água ferver. E aí percebemos tarde demais que já nos transformamos e nem soubemos lidar com isso.

Algumas das principais condições para uma mudança sadia (harmônica, ordenada) é o diálogo, como fazia Sócrates. Ele partia da premissa do “nada sei” e tentava dar uma definição ao conhecido, só para acabar percebendo que aquilo não era o que pensávamos antes. Todo aquele que está disposto a dialogar, está também disposto a mudar – o pensamento, a alma etc. Para dialogar, é preciso saber ouvir. Ouvir e considerar o que se ouviu. Considerar e admitir quando o argumento superar o seu próprio. Às vezes dói perceber que estávamos equivocados e que o outro possuía uma percepção que não tínhamos. Nascer uma nova ideia é como um parto – a arte da maiêutica. Um parto é angustiante e exige esforço, disposição, sacrifício. Mas traz benefícios. Assim é a mudança.

Para Aristóteles, toda matéria é uma potência, uma possibilidade. A determinação é que converte a matéria em forma, a potência em ato. Como um bloco de mármore que vira escultura. A matéria é o mármore, a estátua é a forma. Tudo o que existe é potência virando ato. Todos nós somos possibilidades. Precisamos atualizar com excelência ('areté') nossas potencialidades. Quando fazemos coisas para as quais não temos aptidão, nos curvando ao mediano em vez do excelente, desrespeitamos nossas potencialidades, nossos talentos. O que temos que saber é de mármore somos feitos e que escultura queremos virar.

(Texto adaptado de anotações de vídeo-aulas sobre Gestão e Mudança, do 
Prof. Clóvis de Barros Filho, graduado em direito, jornalismo e filosofia, 
com mestrado e doutorado em direito e doutorado em comunicação.)

maio 24, 2013

Mito, História, Religião

"Onde eu vejo interessantes incorporações de arquétipos que normalmente seguem jornadas similares às dos antigos heróis e que trazem ideias tanto sobre a virtude quanto sobre o vício para uma audiência moderna, outros vêem 'apenas' relatos de ficção. Onde outros vêem os antigos heróis como pessoas históricas dignas de veneração, eu sou simultaneamente cética de sua historicidade enquanto aceito a sua importância no contexto helênico. Eu apenas assumo uma abordagem um pouco mais metafórica. Se você é do tipo que tem que ver ossos e túmulos, não me importo. Eu simplesmente não preciso disso para assimilar a Verdade das histórias.
Isso significa que penso que os deuses são apenas personagens de historinhas? Claro que não. Isso significa que eu acho que os personagens nas histórias são deuses? De novo, não. O Thor dos quadrinhos e do cinema é um alienígena. O Thor dos Eddas é um deus. De fato, a maioria das representações cinemáticas de Apolo me causa arrepios porque elas não condizem com meu entendimento nem das fontes materiais primárias nem do modo que ele tem interagido comigo. [...]
Muitos de nós olha para a mitologia, digamos, dos abraâmicos, como uma coisa metafórica. Duvidamos e somos céticos de coisas como um Adão e uma Eva históricos, um arbusto que queima e não se consome, uma inundação global e um homem com uma arca. E, de fato, uma abordagem literária da bíblia cristã é algo que é tão alheia à minha crença, que eu não entendo como uma pessoa pode acreditar nisso. Mas as pessoas acreditam e, enquanto isso as tornar melhores seres no mundo e enquanto isso as preenchê-las/realizá-las sem prejudicar os outros, não tenho problemas com isso. Claro, isso me confunde e não é a minha praia, mas não posso dizer a elas no que acreditar mais do que elas podem dizer pra mim o mesmo. Do meu ponto de vista, se os mitos vão ser metafóricos, eles vão ser metafóricos e pronto. Não posso apontar a mitologia de outra pessoa e dizer 'isso aí é metafórico, mas a minha é histórica', porque eu não posso provar isso e não posso fazer isso fazer sentido pra mim.
Mas, de novo, ver os mitos como metáforas não significa que eu acredito que os deuses são apenas personagens de historinhas. Eles são meus deuses. Eu falo com eles, eu sinto sua presença, eu conheço pela experiência que eles são Reais. Eles não são reais para mim como o Samwise Gamgee. Eles são reais pra mim como meu gato é real, mas eles normalmente falam conosco em metáforas e relatos/histórias. O problema, acho, é que - como acontece com os católicos e os protestantes - estamos usando o mesmo material como fonte e muito da mesma linguagem, feriados sacros e nomes para o divino, mas não estamos praticando a mesma religião.
É útil discussões como esta para sermos respeitosamente curiosos sobre os pontos nos quais discordamos. Na minha experiência, é uma boa forma de encontrar algo em comum ou ao menos de cultivar compreensão mútua onde há pouca coisa em comum." 
(por Sunweaver, trechos de http://www.patheos.com/blogs/agora/2013/05/making-light-help-me-joe-campbell-youre-my-only-hope/, tradução da Álex)

Esse assunto dos mitos e da ficção é algo que é sempre útil repetir. Volta e meia vemos coisas como comentários sobre uma personagem em uma postagem sobre uma deidade. Tipo uma vez que alguém publicou uma imagem clássica de Atena e um indivíduo comentou "deusa inútil, vive deixando os Cavaleiros em perigo", claramente confundindo-a com a personagem de cabelo roxo do anime Cavaleiros do Zodíaco. Provavelmente há também os que acham que a deusa Diana conviveu com a Mulher Maravilha e que a Xena namorou Ares. Ou, trazendo algo mais atual, vemos as pessoas que se perguntando de que deus são filhas e querendo atravessar uma espécie de véu das brumas após terem lido a série de Percy Jackson e os olimpianos...

Aqueles são personagens de ficção. Usam o nome e umas poucas características estereotípicas dos deuses originais, mas não são os deuses que cultuamos. Ao menos não os meus. É como o exemplo do Thor dos quadrinhos e o dos mitos. 

Se os deuses fossem ressoar nossa campanha contra o sujeito da C.D.H., eles olhariam para esses personagens cinematográficos e segurariam uma plaquinha "A Marvel não me representa". Ou isso:

[ Zeus ]

Outra questão é a própria simplificação dos mitos literários, como já falamos aqui no blog, achando que os deuses descritos na Ilíada em lados diferentes da guerra são inimigos até hoje. Falta leitura de fontes diferenciadas da literatura antiga, falta leitura de teóricos modernos recomendados, e falta experiência real com os deuses pela ortopraxia diária. Senão do que adianta apontar a incongruência das alegorias de religiões/crenças alheias e não questionar o simbolismo da sua própria? 

Quando a moça do texto acima cita Joseph Campbell no título do post, lembrando a história do "mitologia é como chamamos a religião dos outros", ela deixou claro do que iria falar. 

Muitos de nós devem se lembrar como foi sua mudança de paradigmas nessa área da vida. Eu me lembro que um dia achava que existia um só deus e que a reencarnação não fazia o menor sentido, achando um absurdo quem acreditava nisso - uma vez que a população aumentava e não apenas morria e voltava. Depois de um tempo, tudo foi mudando, não consegui mais conceber a ideia de um monoteísmo e não podia negar as evidências da reencarnação até para a física quântica. Um dia eu tirava dúvidas vocacionais no catolicismo, no outro não entendia como se podem repetir dogmas como os que ouvi de uma amiga adventista ao tentar explicar para outra uma espécie de hierarquia entre as 3 pessoas do seu deus. Mas um dia estivemos do outro lado, e - a exemplo do que acreditam os hindus - cada um tem o seu jeito e caminho para buscar a verdade e o sagrado. Por isso não costumo me envolver em discussões que atacam a crença que difere da nossa. Ataco a discriminação, a injustiça, a guerra santa, a tirania, o desrespeito, a imposição de interesses, mas não a fé, não aquilo que te faz querer ser melhor, não aquilo que te dá esperança e vira um sentido pra sua vida. Ninguém tem o direito de exigir que o outro pense igual a ele/a.

Dos meus amigos de adolescência, um foi ser padre em Roma, outro foi ser monge budista tibetano na Suíça, outro é bispo evangélico nos Estados Unidos, e eu conduzindo os helenos aqui no Brasil... E isso só dos amigos que eu sei onde foram parar. Como me disse uma amiga recente, essa é a minha "egrégora", foi com essas pessoas de destino tão aparentemente diverso - embora todos relacionados ao sagrado - que eu cresci. E talvez seja justo essa diversidade que tenha me atraído para um helenismo do métron, da justa medida, do equilíbrio, da reflexão racional... com um leve toque da tolerância que vejo no hinduísmo, mas o qual não me reverbera em outros pontos (para mim, deveras exigentes e pouco explicativos) de sua doutrina. 

E é essa reflexão racional e essa experiência real com o sagrado que me levam a saber distinguir os meus deuses dos seus homônimos personagens da ficção. Melina Eleni Kanakaredes Constantinides (que, por sinal, faz aniversário no mesmo dia que eu) pode ter dado uma belíssima Athena nas telonas, mas ainda prefiro os "olhos glaucos" da minha divina patrona. Aliás, como não amar uma divindade depois que você reconhece sua ação em sua vida e sente o 'en-thus-iasmo'  de 'ter um deus dentro'? Desejar a excelência virtuosa da areté se torna algo urgente para a gente se sentir cada vez mais próximo desse "mundo cheio de deuses" do qual falou Thales. 

E você, vai preferir ficar aí, acreditando num Kratos de videogame? ;-)

outubro 30, 2011

Hera 'wins' - e um mundo de Zeus

Tendo umas coisas para falar sobre Hera e outras sobre Zeus, resolvi fazer uma "hierogamia" colocando ambos textos em uma postagem só. Vamos começar pelas damas:

HERA

No mundo moderno, as representações de Hera normalmente são de algo no estilo Endora de 'A Feiticeira', madastra-má de conto de fadas, os olhos malvados no céu do seriado de Hércules etc. Para essas pessoas que a imaginam assim, Hera seria uma espécie de megera vingativa que vive enfernizando as/os amantes do marido. Olha, para mim isso é um grande equívoco; não um mero "mistake", mas um "BIG FAIL" mesmo. E não é só pelo fato de Hera ter tanto mais trocentos atributos além de rainha e de deusa dos compromissos (sim, porque não é só do casamento, até as sociedades entrariam aí).



Quando compreendi Hera e depois acompanhei a novela 'Caminho das Índias', identifiquei prontamente algumas características da personagem da atriz Christiane Torloni (Melissa Cadore) com ela - ao menos nessa questão de administrar a relação familiar. Por quê? Porque, mesmo descobrindo que o marido tem uma amante, não é a ele que ela ataca (afinal, ela não quer permitir que uma qualquer prejudique seu casamento), mas sim à talzinha atrevida que se intrometeu no caminho interferindo sua paz. Ao mesmo tempo, ela deixa o marido saber que ela sabe de tudo e que é superior, faz com que ele perceba que não vale a pena perdê-la por outra que nunca será tão admirável quanto ela. Na novela, isso acontece no fato de ela dar uma surra na amante do marido (que inventa que apanhou porque reagiu a um assalto), pega a jóia que ele tinha dado para a amante e usa-a diante dele, que fica atônito ao reconhecer o presente da outra sendo exibido pela esposa. Sagaz. Mostrou quem manda. À maneira da natureza, que faz o macho que vence a luta corporal ganhar a fêmea, na inversão dos gêneros a amante não deu nem pro cheiro, e o macho em questão ficou com a fêmea vencedora. Não é preciso se rebaixar a uma vingança mesquinha. Basta demonstrar sua magnanimidade régia para punir a insolência da "mortal" que teve a petulante hybris de se achar boa o bastante para ser a consorte do rei/deus do pedaço. Agora sim, "BIG WIN".



Sou fã de Hera. E nem precisa ser "dia de rock, baby!".



ZEUS

Um dia desses, tive um sonho com um deus nórdico loiro de cabelos lisos compridos e nome complicado. Estávamos eu e meus amigos em um ônibus (que nos meus sonhos costuma ser a representação da parte social da minha vida), quando ele apareceu. Eu lhe perguntei o nome e a que deus se reportava, e ele respondeu 'Zeus'. Então perguntei-lhe como um deus nórdico seguia a Zeus, grego; e ele dizia que agora todos os panteões eram regidos por Zeus.

Antes que comecem a pensar que foi uma puxação de sardinha pro nosso lado, deixa eu explicar o que eu realmente interpretei disso aí, simbolicamente falando. Zeus, para mim (e o sonho era meu), estaria ali representando a ordem, com uma administração que - ao mesmo tempo centralizada - é baseada no conceito de uma imensa família que se conhece e se entende e permanece junta apesar dos pesares. Isso é uma coisa que o mundo andava e ainda anda precisando e que - aos trancos e barrancos - me parece que vem acontecendo. As distâncias se encurtaram, as pessoas se aproximaram mesmo que virtualmente, sujeitos e grupos com filosofias parecidas se uniram, forças de trabalho foram recrutadas mais facilmente em meio a redes onde uma ilibada vida pessoal 'online' pode refletir numa oportunidade profissional, e tudo isso independente da crença ou do panteão. Há uma ordem que é universal, para a qual todos caminham ou inconscientemente buscam caminhar. Aquele equilíbrio que a maioria procura, mesmo quando por vias de desagregação para remontagem de si.

Esse tipo de condução funciona para muitas coisas. E acredito que funciona para a minha vida e para o caso do nosso grupo de crenças. Mas, claro, só posso falar por esse lado, afinal era um sonho meu no mundo que eu conheço, e por isso outros terão todo o direito de pensar diferente e de funcionar de outra forma. O meu jeito é o de Zeus e o de Atena. E, pelo princípio da xenia (hospitalidade, amizade convidativa), receberei bem qualquer nórdico ou outro visitante (independente de ser lindo e louro) que quiser se apresentar.

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

abril 20, 2011

Tira-dúvidas 3: 'Ativar! Forma de...'

Alguém comentou numa rede social sobre ter lido por aí que Hécate supostamente teria 30 metros de altura (!). OK, vamos refletir juntos sobre esse negócio de antropomorfismo e afins.

Nos textos antigos, os deuses eram descritos como jovens, altos, belos e imortais - tudo o que se imagina de um 'ideal' (lógico!). Certo, então vamos começar de trás para frente: Por "imortais" não significa que todos eram "eternos", ou seja, eles não eram deuses que existiram sempre desde o início, pois eles nasceram um dia, tiveram um começo, embora não morram mais. Por "belos" entendemos da harmonia e do conceito de belo que vai além de gosto/preferência estética (como dizia Safo, "Quem é belo é belo aos olhos e basta, mas quem é bom é subitamente belo"). Esse "altos" já se esclarecia nos textos de que não significa que eles sejam descomunais (como os gigantes), e sim apenas seres de estatura elevada. E esse "jovens" refuta a imagem que se faz de deuses idosos, como se todo sábio tivesse que ser um velhinho numa montanha.

As imagens antigas de Zeus adulto o traz barbado, mas jovem. Héstia no helenismo não era uma anciã, era uma jovem. Os sincretismos de hoje que o transformaram num "deus pai" e ela numa "velha sábia" foi que influenciaram em novas representações que não existiam antes. Os deuses da Hélade eram pintados/moldados/descritos como em pleno vigor físico e mental, e não como idosos que poderiam lembrar enfraquecimento e esquecimento.

O contrário também se considera. Apesar de termos representações dos deuses bebês - porque um dia eles foram mesmo crianças -, todos cresceram. O Eros grego chegou a ser um adolescente moreno, em oposição ao romano Cupido que era um bebê loirinho, e o próprio Eros depois teria amadurecido ainda mais ao encontrar o amor de Psiquê e diminuir a sua dependência em relação à mãe Afrodite.


Nos mitos, vemos os deuses se metamorfosearem em animais (cisne, touro, urso...), plantas (jacinto, loureiro...), fenômenos atmosféricos (chuva de ouro, nuvem...) e outros seres humanos (como o marido que foi para a guerra...). E, se eles podem assumir outras formas, esse é mais um motivo para não vê-los como uma imagem fixa.


Ou seja, tudo isso são ferramentas de aproximação para podermos ter para onde olhar ao falar com eles, para termos uma ideia no que pensar, e não para levar as descrições ao pé da letra. Não é para - como aconteceu em outra rede social - discutirmos a cor do cabelo de Apolo se o tipo físico dos gregos é de serem morenos e os hinos chamam o deus de loiro por seu aspecto solar. Meu Apolo e o de muita gente vai ser pintado de loiro, quer você queira ou não. Esse tipo de coisa não invalida o meu culto. O que seria estranho era se eu oferecesse uma coisa da qual ele não gosta ou o representasse com um símbolo de uma coisa que ele não é. Mesmo as supostas 'inimizades' divinas das quais já falamos em outro momento são controversas. Se um dia Poseidon e Atena disputaram o patronato da capital da Grécia, convém lembrar que: enquanto ele é o deus dos mares, ela inventou o navio; enquanto ele é o deus dos cavalos, ela inventou as rédeas.

Agora, voltando ao início do 'post', acho que o que comentamos em outra postagem dava o suficiente para nos fazer pensar que Hécate pode tanto estar em algo tão microscópico como uma membrana celular quanto em algo tão macrocósmico como uma barreira intergaláctica. Então acredito que deve ser complicado afirmar que ela tem exatos 30 metros de altura. (Seria até difícil segurar as chaves das coisas sendo assim, rsrs.)

Portanto, cuidado com coisas rígidas demais. Apesar da nossa fama de certinhos, isso não se aplica a esquecermos o métron, o equilíbrio, a justa medida, o "nada em excesso", o evitar os exageros tanto para mais quanto para menos. Sejamos sensatos e procuremos as coisas que façam sentido. Nem tudo o que está escrito em livros é verossímil...

abril 04, 2011

Tira-dúvidas 2: Cidade?

Vamos pelo método socrático de definir as coisas antes de falar delas. Aqui escolhi usar um pouco da definição de um teórico que não é da antiguidade para a expressão "religião cívica" - até porque na antiguidade provavelmente não se falava nesses termos. Rousseau, em 'O Contrato Social', define religião cívica como um cimento social que unifica o estado e o provém de uma autoridade sacra. Isso incluiria deidades, vida após a morte, recompensa da virtude e punição do vício, e exclusão da intolerância religiosa.

Tendo definido isso, vejamos por que falamos do helenismo como uma religião cívica.

Quando tratamos da religião grega antiga, podemos abordá-la de duas formas: pelas suas origens ou pelo seu caráter cultural, de comunidade cívica. Os estudiosos dizem que a religião helênica foi estrutura junto com a pólis. Tudo o que havia antes (da pólis) foi reinterpretado e traduzido para caber no esquema das cidades.

Eis algumas coisas que demonstram essa interação:
₪ As procissões religiosas da época incluíam funcionários públicos de diversas categorias da sociedade, para que todos ficassem representados;
₪ As peças do festival da Dionísia eram compostas de temas civis ou com mitos de deuses da cidade onde estavam sendo encenadas;
₪ O fogo de Héstia da cidade ficava no prutaneion (escritório) do magistrado, e diante desse fogo é que o Conselho recebia os embaixadores estrangeiros, seguindo o princípio da xenia (hospitalidade);
₪ A refeição que conselheiros e embaixadores compartilhavam incluía uma thusia (sacrifício) e estabelecia - no 'comer junto' - laços entre os mortais e com os deuses;
₪ O Tesouro não era público, desde o ano 447 ele ficava no Parthenon, sob proteção e posse de Atena.
₪ A Justiça não era só uma alegoria (uma moça vendada com a balança para representar imparcialidade e equilíbrio), e sim algo que era cobrado por Zeus, que não deixava uma injustiça impune;
₪ ...entre outros exemplos possíveis.

Enfim, a religião não era centrada na 'alma individual', mas na corporação cívica chamada 'pólis'. Tanto era assim que cada pólis tinha seu calendário com seus festivais religiosos próprios.

Nas nossas inclusões modernas, temos ritos aos deuses da cidade em dia de Independência do Brasil, Proclamação da República e ano novo civil. E nas adaptações ao modo urbano de ser e celebrar, consideramos a 'colheita' representada pelo recebimento do salário ou qualquer outra renda que entre como resultado do fruto do nosso trabalho.

Imagem: detalhe de "Grateful Hellas" (Hélade Agradecida) - Theodoros Vryzakis, 1858.

O que difere da ideia de um estado religioso de hoje - quando esperamos mais o estado laico, que no nosso caso é melhor - é que naquela época não existia isso de a religião atrapalhar a cidade em prol de um grupo dominante (hoje os 'cristãos'); o que existia era uma religião que reunia as classes sociais em torno de um culto local comum. Além disso, se mesmo em Rousseau (que é mais 'atual') se incluía a questão da "exclusão da intolerância religiosa", parece que os antigos faziam isso com mais propriedade do que os modernos.

É interessante aproveitar para lembrar que esse é um dos motivos de nós não estarmos tentando reconstruir a sociedade grega, apenas a sua cultura. Tentar fazer as coisas serem como eram antes é algo muito mais do revivalismo do que do reconstrucionismo - que considera o fato de sermos pessoas diferentes em época diferente com todo um outro "zeitgeist" (espírito de época) por trás das modificações. Uma casa ou um vaso reconstruído nunca vai ser igual ao original e nem tem como (seria quase como fantasiar 'psicoticamente' que é o mesmo vaso e a mesmíssima casa).

No entanto, se agora não podemos atuar numa pólis inteira, ainda assim temos o dever de tentar tornar ao menos o nosso oikos (lar) semelhante ao modo virtuoso de trazer os deuses para nossos assuntos civis: celebrando com eles nossa fartura doméstica (a 'colheita'), recebendo bem nossos convidados (hospitalidade), mantendo uma chama acesa para Héstia, promovendo a justiça, compartilhando refeições que incluam ofertas, selecionando as peças/filmes que vamos assistir, praticando algo pelo bem comum, combatendo preconceitos, acolhendo tudo o que possa elevar o nosso dia comum para mais perto do sagrado.

Quem sabe de oikos em oikos um dia não reconstruímos um demos e quiçá uma nova pólis?

março 21, 2011

Pandia




Neste pôr-do-sol, além de termos o último dia da Dionísia Urbana, teremos o festival helênico da Pandia, quando honra-se Zeus Pandios (brilhante deus dos céus) e sua filha com Selene (a lua cheia), chamada Pandias ou Pandeia ("Toda-Divina" ou "Toda-Brilhante"). O festival político da Pandia foi estabelecido pelo rei de Atenas, Pandion, mas apenas um demos de Atenas, o Plótheia, o celebrava. O curioso é que encontrei algo mais sobre ele justo em um livro sobre Dionísio em sua relação com a Índia, onde "Pandia" é também o nome de uma dinastia vinda da Lua:

"Segundo o mito cretense, Lampros, esposo de Galatéia, cujos filhos eram bissexuais, era ele mesmo filho de Pandion, descendente das dinastias do Sol e da Lua. O festival ático do Pandia era celebrado com a lua cheia. O festival, cujo nome advinha de Pandion, epônimo da tribo de Pandionis, era em honra a Zeus." (R.F. Willets, Cretan Cults and Festivals, p.178)
Deve-se observar que Pandia é o nome de uma dinastia dravidiana oriunda da Lua que, desde tempos imemoriais, reinou na Índia e que também é mencionada no grande poema épico tâmul, o Shilappadikaram. Os pandavas, filhos de Pandu (o branco), eram membros da dinastia que se opôs aos arianos na guerra do Maabárata.
(Alain Daniélou, Shiva e Dioniso - 'A Religião da Natureza e do Eros', p.30)
Para quem não lembra ou não leu o Mahabharata hindu, os Pandavas lutavam contra os Kauravas, o que muitos estudiosos interpretam simbolicamente como as virtudes enfrentando os vícios. Outros dirão que os Pandavas representam o Dharma - o caminho da justiça, que se parece com a realização do nosso daimon - e os Kauravas sendo o Adharma - tudo aquilo que impede os humanos de alcançar o divino, o sagrado.

Nós podemos pensar nessa união do Sol com a Lua como uma união de opostos que traz o equilíbrio. As virtudes, para os gregos, eram exatamente esse meio termo entre dois vícios. Por exemplo, a virtude da paciência seria o equilíbrio entre o extremo do "pavio-curto" e o extremo da leniência (quando se permite/aceita tudo), os quais seriam vícios. Por conta disso, há muito mais vícios do que virtudes, assim como no Mahabharata encontramos cem Kauravas para apenas cinco Pandavas. Também podemos pensar que as virtudes nos aproximam dos deuses, da Toda-Divina, enquanto os vícios vão nos impossibilitando de alcançar esse divino.

Fica, então, a sugestão para - durante tal festival - refletirmos sobre como vencermos nossos vícios e nos aproximarmos do sagrado.

março 12, 2011

Religião, Ciência, Psicologia

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

Tudo, em toda a parte, possui uma ordem, uma lógica, que nos faz interligados. Hermes Trismegisto já dizia que o que está em cima é como o que está embaixo e vice-versa. Muitos já observaram como o átomo e o sistema solar são semelhantes - em termos de massa proporcional do núcleo/sol em relação aos elétrons/planetas e em termos de suas órbitas, por exemplo. E, quando estudamos a psicologia/filosofia (si-mesmo), a ciência/natureza (universo) e a religião/mitologia (deuses), essa máxima délfica acima demonstra cada vez mais a sua veracidade.

Bem ou mal, nosso limite é o sistema solar. A gente sabe pouco lá de fora dele. Sim, houve o telescópio Hubble como pioneiro (que existe apenas há quase 21 anos e que será desativado daqui a mais uns 4) e existiram algumas sondas que mais mandaram informação lá para fora do que trouxeram, mas uma das historinhas curiosas com relação a isso, que me fez pensar, foi a de uma sonda posterior que atingiu uma região de choque, uma camada turbulenta, ao se aproximar dos confins do sistema solar, bem ali perto de Netuno. Os antigos já falavam sobre existir uma espécie de barreira intergaláctica, e Netuno (Poseidon) é o deus responsável pelos terremotos e turbulências. Sempre que a gente chega numa situação limite, também ficamos 'balançados', 'sacudidos'. Universo, deuses, si mesmo, funcionam parecido. Conhecendo um, alcançamos a compreensão dos outros. E o que mais temos para observar, onde quer que vamos, somos nós, e em seguida a natureza.

A religião antiga se aproxima mais da ciência do que da religião moderna. Principalmente porque a religião antiga era centrada em conhecimento, não em dogmatismos como acontece na religião estabelecida pelos cristãos. Antigamente, o culto ao sagrado era uma questão de lógica, de evidência, de racionalidade, de fazer sentido. Inclusive você era justo com o próximo porque isso era parte de uma virtude racional e não porque um messias lhe ensinou a ser assim. Para os gregos, a religião ("theôn timaí" = 'veneração dos deuses') não era tanto uma questão de fé (pistis), sobre a qual não existe nenhum mito (o que existia era ser 'temente aos deuses', o "theoudés" da Odisseia, como uma virtude que garantia as outras), apenas os romanos é que começaram a trazer a noção de fé (fides). O verbo grego pistestai significa algo como "convencer, deixar-se convencer, seguir", e eles não precisavam ser convencidos nem convencer ninguém da existência dos deuses.

Quando nós - reconstrucionistas helênicos - estudamos (e somos tidos como nerds por isso) com a intenção de usar a teoria para orientar a nossa prática, mesmo sem querer acabamos encontrando evidências que nos maravilham e fortalecem nossa identificação com a cultura e os valores helênicos. Se você ler sobre os 3 Logos dos quais fala a filosofia, ler sobre os 3 fogos mencionados no oráculo caldeu, e pensar na estrutura de uma célula demonstrada pela ciência, vai conseguir relacionar essas coisas entre si, e mais uma vez confirmar a máxima délfica. Tanto a filosofia (si-mesmo) quanto o oráculo (deuses) e a célula (universo), falam de algo que cria, de onde partem as coisas; de algo que organiza as informações; e de algo que realiza essa inteligência no mundo sensível, dando-lhe inclusive uma forma física. Você pensa em fazer um copo, você reúne o que precisa para construí-lo e então efetivamente o faz. Existe uma inteligência criadora/organizadora, ela delimita o que vai usar como mensagem, e apresenta esta mensagem ao mundo. Você tem o DNA do núcleo, um meio circulante do citoplasma, e uma membrana que dá forma e permite trocas com o meio. O oráculo caldeu inclusive diz que quem fica nos limites de tudo, como intermediária, guardiã das chaves, senhora das fronteiras, é Hécate. Ela conduz as almas do mundo de lá para o de cá e vice-versa. Ela escolta Perséfone nas suas vindas e idas do submundo à Terra. Eis uma revelação divina que pode ser descoberta através de reflexões filosóficas e observações do universo, sem precisar simplesmente 'acreditar' num mito ou epíteto de Hécate.


Na maioria das vezes, o que nos falta é conhecer esse si-mesmo. Não somos nossos corpos, nosso trabalho, nossa personalidade, nossas habilidades, formações e gostos. O verdadeiro Ser que compartilhamos é outro 'esquema', outro 'lance'. Por isso acredito ser importante que se leia o trabalho dos filósofos e dos cientistas para se entender os deuses, em vez de se ler apenas mitologia e achar que aquilo é história literal. Se os mitos fossem a soma do que deveríamos acatar como verdade, os gregos teriam um livro sagrado reunindo esses mitos, coisa que eles não têm. Não existe um manual; o que você precisa é olhar para si e olhar em volta. Só assim vai perceber os deuses em tudo isso que há por aí, inclusive em você e no outro.

janeiro 02, 2011

Ano Novo Civil

Perguntaram-me sobre a Heracléia - que é sugerida na virada secular de ano novo - e resolvi dar mais informações aqui no blog para quem tiver a mesma dúvida.

Apesar de não ter existido na Antiguidade um festival a Héracles Triesperos no solstício de inverno (vide "triesperon: season festive that was never a festive"), essa Herakleia de final de ano é um festival moderno que também se baseia na mitologia, como foi o festival da Heliogenna cujos mitos foram explicados anteriormente AQUI. E o relato é o seguinte:

A família de Héracles vem de Argos, já que Alcmena é filha do rei micênico Electrion, filho de Perseu e Andrômeda, que também geraram Alcedes, pai de Anfitrião. Alcmena se casou com esse seu primo Anfitrião. Eles foram forçados a fugir da cidade porque Anfitrião matou o cunhado dele, então foram parar em Tebas. Ali, Zeus veio à terra e se relacionou com Alcmena. Algumas versões dizem que foi em forma de neve dourada, outras que foi na forma de Anfitrião (o qual tinha viajado para a guerra), fingindo ser ele. Zeus ficou com Alcmena por três noites inteiras, daí Triesperos ('tria speros' = três noites). No mito, Zeus diz ao deus solar Hélio para desatrelar sua carruagem por um dia, fazendo o mundo ficar na escuridão por 24 horas a mais, assim Zeus pôde prolongar seu romance por uma noite de 36 horas.

Assim, celebra-se o retorno do sol, trazendo felicidade a todos.

Nessa época algumas pessoas preferem celebrar os Doze Dias Dionisíacos (como estou fazendo), outras escolhem a virada de ano para celebrar Hécate - das encruzilhadas e abertura de caminhos, e outro ainda me disse que iria celebrar Apolo, deus solar.

De qualquer forma, seja como for que você entrou 2011...

Αγαθή Τύχη, Αγάπη, Ειρήνη και Ευτυχισμένος ο Καινούργιος Χρόνος!
(Boa Fortuna, Amor, Paz e Feliz Ano Novo!)

junho 29, 2010

Dipolieia/Bouphonia

Este domingo escolhi celebrar a Dipolieia/Bouphonia assistindo a uma apresentação de Boi (Bumbá) numa festa junina. Por quê? Bem, vamos ver o sentido:
DIPOLIEIA ("ao deus da cidade"): Festival em honra a Zeus Polieus (di - a zeus, polis - cidade). BOUPHONIA ("matança do boi"): Neste dia (parte do Dipolieia), algumas garotas buscam água para usar em ferramentas afiadas. Os afiadores afiam um machado com cabo e uma faca de açougueiro. Vários arados de boi são arrebanhados pelo pasto até um altar, onde cevada e trigo foram colocados. O primeiro boi que for ao altar está "consentindo" em ser sacrificado. Um homem mata o boi com o machado e outro corta sua garganta com a faca. Ambos soltam suas ferramentas e fogem. Depois o boi é retalhado e preparado para o banquete. Seu couro é estufado com palha e costurado, de forma que pareça vivo. Um julgamento então começa para determinar quem é o culpado pela morte do boi. As primeiras apontadas são as carregadoras de água. Elas culpam os afiadores, que, por sua vez, culpam os sacrificadores. Finalmente, os sacrificadores culpam o machado e a faca, que são declarados culpados e jogados ao mar. (O tema para refletir nesse festival parece ser o ato da reparação - alguém tem que pagar pelo que acontece - e de como nos livrarmos da culpa).

BUMBA-MEU-BOI: A origem dessa festa seria uma mistura, nas fazendas, de tradições africanas (como a do boi geroa) com européias (como as touradas) e alguns elementos indígenas. O enredo básico é o seguinte: um rico fazendeiro possui um boi muito bonito, que inclusive sabe dançar. Pai Chico, um trabalhador da fazenda, rouba o boi para satisfazer sua mulher Catirina (ou Catarina), que está grávida e sente uma forte vontade de comer a língua daquele boi. Os caboclos, junto com os índios e índias, procuram entre os vaqueiros quem fez isso, descobrem e prendem Chico. Quando o fazendeiro encontra o boi, ele está doente (ou morto). Os pajés curam a doença do boi (ou o ressuscitam) e descobrem a real intenção de Pai Chico. O fazendeiro o perdoa e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.
RELAÇÃO: Como a Dipolieia caiu em junho (ela costuma cair entre o final de junho e começo de julho) e aqui tem várias apresentações de Boi nessa época, sinto que é inevitável pensar na semelhança por termos a questão de um boi sendo morto e vários personagens procurando um culpado (fuga e julgamento) que é, por fim, redimido da sua culpa; fora a parte em que tentavam fazer parecer que o boi está vivo e, no mito mais atual, ele realmente ressuscitar. Além disso, o Pai Chico usa um facão nas danças, que me lembra a faca afiada do Bouphonia, e tanto a língua (no Bumba-boi) quanto a garganta (no Bouphonia) são partes da boca.

[ Nota: Curiosamente, sem saber qual grupo iria se apresentar naquele horário, assisti ao Boi de Teodoro, sendo que Teodoro vem do grego, "presente de deus", embora não tenha sido esse o motivo do nome do grupo que ali estava (que o batizou pelo seu fundador). Além disso, eles eram de Brasília, onde fui criada. Para mim, tudo foi um sinal, ou melhor, um aval.
Nota 2: Aliás, se formos mais longe, veremos que essas cerimônias com a ressurreição de um boi começaram no Egito, no culto a Ápis, no Nilo.
]

A lenda "demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força de um boi" (wikipedia). É uma festa que acontece no país inteiro, só muda o nome:
"...no Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí é chamado bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é boi-bumbá ou pavulagem; em Pernambuco é boi-calemba ou bumbá; no Ceará é boi-de-reis, boi-surubim e boi-zumbi; na Bahia é boi-janeiro, boi-estrela-do-mar, dromedário e mulinha-de-ouro; no Paraná, em Santa Catarina, é boi-de-mourão ou boi-de-mamão; em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé é bumba ou folguedo-do-boi; no Espírito Santo é boi-de-reis; no Rio Grande do Sul é bumba, boizinho, ou boi-mamão; em São Paulo é boi-de-jacá e dança-do-boi."

Então, onde quer que você more, fica a sugestão de alternativa para a sua celebração da Bouphonia na Dipolieia dos próximos anos.

maio 27, 2010

Os bisavós do mar

No Mounykhion 21 (dia 6 de maio deste ano) tivemos o sacrifício aos Tritopatores, espíritos ancestrais benevolentes. Queria ter postado sobre eles no dia, mas sempre é bom não deixar passar as coisas e ainda poder aproveitá-las nos próximos anos, então resolvi falar assim mesmo.

Os Patroios/Patroia são os deuses que recebem culto em uma nação ou família desde a época de seus antepassados ou, algumas vezes, tratam-se dos próprios ancestrais1. Zeus era, portanto, um "theos patrôios" em Atenas e também entre os heróis que traçavam sua genealogia com Ele fazendo parte de sua origem2.

Havia um santuário aos misteriosos Tritopatores/Tritopatreis (que pode significar 'bisavós' - três vezes pais), do lado de fora dos portões Dipylon da Acrópolis, ao lado do riacho Eridano, onde se eram feitas preces pedindo pelas crianças da família. Esse lugar era dedicado provavelmente aos espíritos ancestrais cultuados pelos atenienses ou aos espíritos do vento citados no mito órfico. Outra interpretação possível do nome dos Tritopatores seria 'aqueles que têm Tritão como pai', ou seja, os "sereios" (o masculino de 'sereia' é 'tritão'), conectando-os também a Atena, que era conhecida por Homero como Tritogenia (nascida de Tritão). De qualquer forma, eles estariam associados com a água, já que seu santuário ficava perto de um riacho, e há especulações sobre terem formas serpentinas - lembrando Erictônio/Ericteu/Cécrops, um homem com cauda de serpente. Os Tritopatores eram benevolentes e eram frequentes nos cultos menores com fortes raízes locais que floresceram na antiguidade3.

Você pode fazer uma prece aos Tritopatores se lembrando de como tem sido sua relação com seus antepassados e suas terras. Li uma bem bonita sobre o mar e um ancestral marinheiro/pescador, que continha um trecho o qual traduzo aqui:

Eu me dirijo a ele (ou ela) como posso, linha após linha, canção após canção; mas meu jeito de pensar nas coisas nunca é exatamente o jeito que tudo acontece, tão arrebatador é o som das coisas mais úmidas, tão ressonante é a voz de minha mãe perto do mar chamando alto meu nome. [...] Teu seja o trovão, a pesca que trago na mão; possa o meu caminho errante em bom senso e decência ser a quilha pela qual tu ainda navegas.4

~~~

1 Luciano de Samósata - A Morte do Peregrino, 36 - "Então ele pediu incenso para jogar no fogo, [...] e -fitando o sul, disse: 'Espíritos de minha mãe e meu pai, recebam-me favoravelmente'."
2 Apolodoros - A Biblioteca, 2.8.4 - "...eles fizeram três altares para Zeus Paterno, e sacrificaram neles".
3 John Pollard - Seers Shrines and Sirens: The Greek Religious Revolution in the Sixth Century BC - traduzido e adaptado.
4 Brendan MacOdrum, 2 de novembro de 2006 - Prayer to Tritopatores - Ver completa em inglês clicando AQUI.

março 31, 2010

Coisas que me dão raiva (parte 2)

Continuando o post de 16.12.09 - Coisas que me dão raiva (parte 1).

Dia desses me pediram para ver um blog comunitário e li nele uma postagem que se baseava em autores (entre aqueles que eu já não recomendo) falando coisas que não é a primeira vez que vejo dizerem sobre os helênicos. Para muitas pessoas (ditas pagãs), como para quem escreveu no blog a que me refiro, os mitos gregos são 'uma maneira tosca' de desviar a atenção do culto à "Grande Mãe". Elas acreditam que os gregos - como uma espécie de 'ataque amedrontado para se defender' - tornaram as mulheres e deusas da mitologia helênica submissas às figuras masculinas e reduzidas a figuras relacionadas com a fertilidade.

Ora, para começar, a própria ideia de que os cultos que celebravam colheitas e partos eram uma "redução" feita ao feminino já é um preconceito de colocar a fertilidade como algo inferior, quando na verdade é ela quem cria a vida, sendo tão importante quanto os outros aspectos da existência natural e humana. Segundo que os escritos dessas pessoas, como observa uma amiga minha, sempre nos dão a impressão de que "era uma vez a 'Deusa Fofa', aí veio Zeus e acabou com tudo". Como se o fato de Zeus ser masculino representasse um patriarcado nocivo, opressor e misógino, que não é necessariamente o caso.

Depois essas pessoas citam Atena, que uma das maiores mulheres da mitologia é colocada nascendo da cabeça do pai, e não como uma suposta deidade sem pai ('filha da mãe'?) anterior, como se isso reforçasse o tom machista com que eles cantam a visão de mitologia grega que têm. O que aparenta é que elas não leram a história toda, ou que leram uma história diferente da que lemos. Zeus engoliu Métis por causa da profecia de que o rebento que ele teria com ela tomaria seu trono, mas de nada adiantou, pois Atena saiu da cabeça de Zeus já adulta e armada, quando Hefesto abriu o crânio do cronida. Veja: não foi um homem, mas uma mulher que veio com o poder suficiente para destronar o pai; uma mulher forte e guerreira e que nunca se casou, não uma semeadora fértil (o que já mostra que a teoria desse pessoal da "Deusa Fofa" se contradiz). Além disso, há na mitologia deidades sem pai aparente, por partenogênese da mãe, que é como Hera teria gerado Tífon, Ares e o próprio Hefesto. Mas os poucos deuses que saem do corpo de Zeus (Atena e Dionísio), ambos tinham uma mãe (Métis e Semele).

Somariam-se a isso outras evidências que poderiam nos levar é justamente ao contrário, a ver o poder que as mulheres tinham nos relatos mitológicos. E tudo sem contar o fato de os autores-fontes de onde essas pessoas bebem se referirem à mitologia grega falando sempre e apenas da dinastia de Zeus, desconsiderando todas as outras anteriores.

É claro que tudo acabaria sendo questão de como você lê; afinal, já dizem que "o diabo pode converter toda a bíblia a seu favor". Porém, aproveitando os recentes comentários feitos sobre o julgamento do caso Isabella: testemunhas podem mentir, evidências não. E é por essas e outras que no helenismo enfatizamos que mais valem os ritos e a práxis do que os mitos. Já que elas gostam de autores, que tal um dos nossos maiores estudiosos da religião grega? Ele diz que os ritos são mais importantes e mais instrutivos para a compreensão das religiões antigas do que os mitos que mudam tanto: “rituals are more important and more instructive for the understanding of ancient religions than are changeable myths” (Walter Burkert, ‘Greek Religion’, 54).

Então, antes de ouvir/ler as impressões que um autor (neopagão-novaera-autoajuda-etc) tem a dizer de algo, por que esse povo não lê artigos de arqueologia e de filologia, por que não se intera das descobertas relativas às práticas de culto? Sabe, acabamos caindo naquela questão de leitura crítica, de saber que nem tudo o que está escrito e impresso é verdadeiro, buscar mais coisas, mais pesquisas que corroborem o que você entendeu, e que no final faça sentido com todo o intertexto que carregamos de visões que se complementam entre si.

(E não vou nem entrar na questão de essas pessoas andarem precisando fazer as pazes com o masculino. Aliás, aproveito para indicar um blog ótimo que fala dessa questão das masculinidades, escrito por uma amigona minha: o Curiosa Identidade.)

Enfim, e só pra lembrar: se não fosse por Zeus, as pessoas provavelmente sequer teriam um mundo organizado no qual buscar esses livros que lêem...

outubro 15, 2009

O "mensageiro portador do bem"

O Agathos Daimon ("Bom Espírito") para os helênicos é um pouco semelhante ao anjo-da-guarda judaico-cristão ou o Iwa dos vodunistas ou o Genius romano ou o Dola eslávico ou o Fylgja nórdico ou o Serapis (Cnum-Agathodaemon-Aion) egípcio ou mesmo o familiar-guardião xamânico. Ele é ligado a nós no nascimento (ele é nosso e nós somos dele) e continua conosco pela vida, protegendo, guiando, dando saúde, sabedoria, abundância, e influenciando na nossa sorte. Por conta disso, às vezes era representado como o par masculino da deusa Tyche (Fortuna), segurando uma cornucópia e uma tigela em uma mão, enquanto na outra segurava uma papoula e uma espiga. Mas, antes disso, o Agathos Daimon era considerado andrógino, e provavelmente por isso era também representado como uma serpente (que antigamente acreditava-se não ter gênero/sexo), razão pela qual se fazia libações na terra (e com vinho não-misturado) para ele. Tanto a forma de serpente quanto a com cornucópia lembram os Penantes (guardiões caseiros da prosperidade) dos romanos. Era necessário agradá-lo para que ele respondesse bem e nos desse boa sorte e proteção.

Sócrates comentou que o dele dizia quando ele deveria parar de falar ou ficar quieto. Aristófanes o cita na peça 'A Paz': "Eis o momento de verter uma taça em honra do Agathos Daimon". Píndaro, Próclus e Plotino também o mencionavam. Platão o chamava de "intérprete" e de "balseiro", pois o Agathos Daimon intermedia nossa relação com os deuses. Aliás, se você precisa de orientação, é mais conveniente voltar-se primeiro para ele antes de dirigir-se a algum deus. Ele costuma ser um ótimo professor. E, se receber um belo golpe de sorte, agradeça primeiro a ele também. Como hoje não temos mais casas com chão de terra, em um lugar fechado nós podemos verter libação em um pratinho e, de vez em quando, verter esse conteúdo em algum outro lugar depois.

Algumas pessoas imaginam que talvez ele possa até desenvolver uma relação romântica com seu protegido, a exemplo da que as ninfas desenvolviam com seus ninfoleptos. Mas na maioria das vezes ele é mais como aquele amigo invisível que responde seus pensamentos e te dá a mão para atravessar em segurança e lança um sopro de sorte quando você precisa. Para honrá-lo, vertemos libação nas refeições e nos lembramos dele no segundo dia de cada mês helênico. Ele pode ser não só um mensageiro aos deuses, mas também o espírito que enviamos para ajudar aqueles nossos amigos que estão fisicamente longe de nós. O daimon é capaz inclusive de influenciar sonhos e adivinhações. Ele protege nosso bem-estar, nossos pertences, qualquer lugar onde nosso coração esteja. Qualquer lugar ao qual chamamos de lar. (Até quando o nosso lar é uma pessoa.)


Na minha experiência com essa presença invisível constante, eu o percebo como alguém que rapidamente me responde e ao mesmo tempo faz isso com toda a paciência (e nenhuma arrogância) de um verdadeiro mestre orientador. Sabe aquela pessoa que tem as respostas às suas perguntas, muitas vezes antes mesmo de você formulá-las? Alguém que sabe do que você precisa sem que você chegue a pedir? Que olha por você e lhe protege das coisas e pessoas que lhe tentem fazer mal? E que, ao mesmo tempo, é seu companheiro na bebida e nos festivais, com quem você se diverte junto? Com ele do seu lado, o "tempo" nunca fecha e há um calorzinho gostoso da presença dele ali. E, de vez em quando, esse amigo lhe dá um presente (de sorte) só porque "se lembrou" de você (não que ele alguma vez tivesse esquecido, mas agradar sempre também não surte o efeito da surpresa, não é?). Seja ou não um "melhor amigo com benefícios" românticos, nenhum momento com ele fica abaixo de expectativas, porque - mesmo quando sai diferente do que você pensava que seria - ainda assim é tudo de bom, quando não melhor.

A maioria de nós se foca nos deuses e se esquece de cultuar seu 'agathodaemon', perdendo toda a parte gostosa de um relacionamento desses. Mas nunca é tarde para começar a reparar isso, ou pelo menos para passar a chamar do nome certo aquela voz que nós já tão bem conhecemos...


junho 27, 2009

Kronos was a headbanger

Uma vez escrevi aqui sobre o festival da Galaxia, citando como os Curetes inventaram a dança em armadura, com ritmo frígio e flautas; um barulho que distraía Cronos enquanto eles mantinham Zeus escondido. Nesse dia, a Iony me perguntou como seria o ritmo frígio e eu lhe expliquei. Mas desde lá fiquei pensando que outros podem ter a mesma dúvida e que poderia aproveitar para citar os modos gregos, dando exemplos de músicas atuais. Então, como só agora parei para organizar isso, vamos lá:

~ Exemplos de músicas com os modos gregos e quando utilizá-los ~

Modo Frígio: 'Wherever I May Roam' e a transição de 'Creeping Death' (Metallica), 'Trust' e 'Symphony of Destruction' (Megadeth), 'Hunter' (Björk), 'Remember Tomorrow' (Iron Maiden), 'Sullen Girl' (Fiona Apple), 'Phrygian Gates' (John Adams), 'Would?' (Alice in Chains), 'Calling to You' (Robert Plant), 'For the Love of God' (Steve Vai), 'Deeper Underground' (Jamiroquai), 'Not to Touch the Earth' (The Doors), 'Once' (Pearl Jam), 'In the Name of God' (Dream Theater), 'If U Seek Amy' (Britney Spears). --> Principalmente nos festivais e cultos ligados a Cibele/Réia. Tenho a impressão de que os cultos a Hermes poderiam ser colocados aqui também.

Modo Dórico: início de 'Wave' (Tom Jobim), 'Eleanor Rigby' (Beatles), 'Milestones' e 'So What' (Miles Davis), 'The End' (The Doors), 'Smoke on the water' (Deep Purple). --> Nos festivais pan-helênicos, como os jogos ístmicos em Corinto, os jogos de Neméia na Argólia, os jogos pítios em Delfos e nos Jogos Olímpicos. Também no culto a Deméter.

Modo Lídio: 'Answers' e 'The Riddle' (Steve Vai), início de 'Overture 1928' (Dream Theater), 'Freewill' (Rush), estrofes de 'Man on the Moon' (R.E.M.), 'Blue Jay Way' (The Beatles, mais especificamente como George Harrison tocou na Magical Mistery Tour), introdução de guitarra no 'Dancing Days' (Led Zeppelin), 'Flying in a Blue Dream' (Joe Satriani), 'Beyond the Boundaries' (Jimmy Cliff), 'Unravel' (Björk), 'Follow my way' (Chris Cornell), 'Arcane Lifeforce Mysteria' (Dimmu Borgir), 'Little Red Corvette' (Prince), 'Every Little Thing She Does is Magic' (The Police), 'All I Need' (Radiohead), maioria dos solos de guitarra das músicas mais recentes de Frank Zappa, tema dos Jetsons, início do tema dos Simpsons. --> Cultos a Baco/Dionísio, a Héracles, a Afrodite, a Ártemis, e os festivais de Tebas.

Modo Mixolídio: blues de tom maior, como 'Scuttle Buttin' e 'Pride and Joy' (Steve Ray Vaughan), 'Norwegian Wood' (Beatles), 'The Visitors' (ABBA), 'Satisfaction' (The Rolling Stones), 'Drinking in L.A.' (Bran Van 3000). --> Dizem que este modo foi inventado por Safo, então convém associá-lo a Afrodite e Eros.

Modo Eólio: 'Fear of the dark', 'Hallowed be thy name', 'Running Free' e 'Still Life' (Iron Maiden), 'Achilles Last Stand' (Led Zeppelin). --> Cultos a Apolo, Ártemis, Atena, Hefesto, festivais da Beócia, de Lesbos e de outras colônias gregas na Ásia menor. Odisseu esteve na ilha de Eólo, que lhe proveu com Zéfiro (vento oeste).

Modo Lócrio: primeira parte de 'Painkiller' (Judas Priest), 'Symptom of the Universe' (Black Sabbath), começo de 'YYZ' (Rush), parte principal de 'Painkiller' (Judas Priest), refrão de 'Our Truth' (Lacuna Coil). --> Culto a Perséfone e aos heróis da guerra de Tróia, festivais da Magna Grécia e de Amphissa.

Modo Jônio: 'Let It Be' (Beatles), primeira parte do 'Always With Me, Always With You' (Satriani). --> Culto a Zeus, Hera, Atena, e os demais festivais mais populares.

Agora você pode criar sua "playlist" para cada cerimônia.
;D