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novembro 13, 2016

o lado astral do natal

Desde 10.000 AEC existem pinturas e registros arqueológicos que refletem o respeito e a adoração pelo sol. Também se observavam as estrelas para saber coisas como eclipses e fases da lua. Uma das figuras mais antigas da história humana é a roda zodiacal. Ela reflete o trajeto do sol pelo ano, 12 meses, 4 estações etc. As civilizações personificavam o sol e as estrelas com figuras humanas ou animais e elementos da natureza significativos naquela época do ano.

Há vários mitos, desde 3.000 AEC, – no Egito, Frígia, Pérsia, Grécia, Índia etc – sobre um filho de deus nascido de uma virgem, anunciado por uma estrela ao leste, adorado por reis, com feitos miraculosos, que passou pela morte e ressurreição ao terceiro dia, com títulos como ‘a verdade’, ‘a luz do mundo’, ‘filho ungido de deus’, ‘bom pastor’, ‘o cordeiro’, ‘o alfa e omega’, e até com dia de adoração no domingo (em inglês “Sunday”, dia do sol). Muitas deidades e heróis do mundo todo preenchiam características semelhantes. Mas por que esses atributos?

É astrológico. A estrela mais brilhante no céu na noite de 24 de dezembro é Sírius, que nesse dia se alinha a leste com as três estrelas mais brilhantes do cinturão de Órion – os três reis. Elas apontam para o local de nascimento do sol a 25 de dezembro, ‘seguindo’ a estrela do leste (Sírius).

A constelação de Virgem é conhecida como “a casa do pão”, sua representação é uma mulher segurando um galho de trigo. Virgem é o signo entre agosto e setembro, tempo da colheita. O nome original da cidade de Belém,“bethlehem”, signfica “casa do pão”.

A 22 de dezembro ocorre o solstício de inverno no hemisfério norte, os dias ficam mais curtos, o sol parece menor, há a perda da colheita, a escuridão, tudo que se associa à morte, no caso a morte do sol. Nesse dia, o sol pára de se mover para o sul (para onde se movia por seis meses), fica ali por três dias (22, 23, 24), e nessa pausa ele reside nas redondezas da constelação do Cruzeiro do Sul (uma cruz). No dia 25, ele se move um grau para o norte, prenunciando dias melhores, mais calor, e a primavera. 

O sol morreu no cruzeiro/cruz, ficou inerte/morto por três dias e se reergueu/ressuscitou. No entanto, a ressurreição só é celebrada na Páscoa (na primavera), que é quando o sol oficialmente domina as trevas e a vida renasce.

Quanto aos 12 discípulos, seriam as doze constelações ou casas astrológicas com as quais o sol viaja.

Na cruz do desenho do zodíaco, o sol fica ao centro, por isso, nas primeiras representações de Jesus, ele tinha atrás da cabeça uma roda com a cruz. Ele é “a luz do mundo” que “afasta as trevas”, que “renasce”, que pode “ser visto através das nuvens” (todas menções bíblicas). A própria coroa de espinhos pode representar os raios do sol.

(do documentário Zeitgeist)

Nas escrituras, há inúmeras referências a “eras” ou “idades”. Precisamos aqui entender a precessão dos equinócios. Os egípcios e outras culturas anteriores reconheceram que, a cada 2.150 anos, o nascer do sol na primavera ocorria num signo diferente do zodíaco, por causa da lenta oscilação angular da Terra. As constelações aí vão para trás (precessão). As antigas civilizações chamavam esses 2.150 anos de “era”. De 4300 AEC a 2150 AEC era a era de touro, de 2150 AEC a 1 EC a era de áries, de 1 a 2150 a era de peixes e a partir de 2150 seria a era de aquário. Moisés quando desceu do monte ficou aborrecido por ver o povo cultuando um touro. Moisés representa a era de áries, por isso até hoje os judeus sopram o chifre do carneiro.

Em outras culturas, Mitra mata o touro, Teseu vence o minotauro, por exemplo.

Jesus seria o portador da era de peixes. A constelação é representada por dois peixes. Jesus alimenta as pessoas com pães e 2 peixes. Na Galiléia, conhece 2 pescadores que o seguem. O símbolo do cristianismo é um peixe. E se assumiu que o seu nascimento tenha sido no ano 1 dessa era, mesmo que alguns estudiosos digam que ele nasceu alguns anos antes.

Em Lucas 22,10, Jesus fala sobre um ‘homem carregando um cântaro de água’ e diz para os discípulos o seguirem até a ‘casa’ onde ele entrar. Esse é o símbolo de aquário, a próxima casa astrológica. Quando em Mateus 28,20 Jesus diz que estará com eles até o fim do “mundo”, essa palavra foi mal traduzida, pois ele teria usado “aeon” (“era”). Ele está até o fim da era. A era de peixes. Não é um “fim do mundo”.

Para não me estender em outros temas que não o natal/nascimento, termino o texto aqui, mas deixo a questão de se buscar a referência astrológica ou astronômica por trás das coisas em comum nos mitos das mais diversas culturas.


agosto 17, 2013

Christine & Erik -- Perséfone & Hades?

Estes dias estive assistindo o DVD dos 25 anos (2011) do musical "O Fantasma da Ópera", gravado no Royal Albert Hall de Londres, e - vendo Christine e Eric (o "fantasma") - não pude deixar de pensar em outro casal que conhecemos: Perséfone e Hades. Então trouxe alguns trechos do musical, para quem nunca se deu conta dessa possível comparação.

A começar por um trecho em que a mocinha se refere às estações:
CHRISTINE
"Think of August when the trees were green,
don't think about the way things might have been..."

(Pense em agosto, quando as árvores estavam verdes,
não pense na forma que as coisas deveriam ter sido...)
E "o invisível" declara suas intenções:
ERIK
"You have come here, for one purpose, and one alone;
Since the moment I first heard you sing, I have needed you with me..."

(Você veio para cá com um propósito, e apenas um;
Desde o primeiro momento em que escutei você cantar, eu precisei de você comigo...)
E apresenta o seu mundo a ela, um mundo que ao mesmo tempo entorpece e intensifica os sentidos:
ERIK
"Night-time sharpens, heightens each sensation,
Darkness stirs and wakes imagination;
Silently the senses abandon their defences...
Slowly, gently, night unfurls its splendour;
Grasp it, sense it - tremulous and tender,
Turn your face away from the garish light of day,
Turn your thoughts away from cold, unfeeling light -
And listen to the music of the night.
Close your eyes and surrender to your darkest dreams!
Purge your thoughts of the life you knew before!
Close your eyes, let your spirit start to soar!
And you'll live as you've never lived before.
Softly, deftly, music shall caress you
Feel it, hear it, secretly possess you.
Open up your mind, let your fantasies unwind,
In this darkness which you know you cannot fight -
The darkness of the music of the night.
Let your mind start a journey through a strange new world!
Leave all thoughts of the world you knew before!
Let your soul take you where you long to be !
Only then can you belong to me.
Floating, falling, sweet intoxication!
Touch me, trust me, savour each sensation!
Let the dream begin, let your darker side give in
To the power of the music that I write..."

(A noite aponta, e intensifica cada sensação,
A escuridão agita e desperta a imaginação;
Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas...
Lentamente, gentilmente, a noite estende seu esplendor;
Agarre-o, sinta-o, trêmulo e terno,
Vire seu rosto para longe da luz gritante do dia,
Afaste seus pensamentos da luz fria e insensível -
E ouça a música da noite.
Feche seus olhos e se entregue a seus sonhos mais sombrios!
Purifique seus pensamentos da vida que você conheceu antes!
Feche seus olhos, deixe seu espírito começar a se elevar!
E você viverá como nunca viveu antes.
Suave, primorosamente, a música deverá te acariciar
Sinta-a, ouça-a, secretamente lhe possuindo.
Abra sua mente, deixe suas fantasias se desatarem,
Nesta escuridão contra a qual você sabe que não pode lutar -
A escuridão da música da noite.
Deixe sua mente começar uma jornada através de um estranho e novo mundo!
Abandone todos os pensamentos do mundo que conheceu antes!
Deixe sua alma lhe levar para o lugar ao qual você pertence!
Só então você pode pertencer a mim.
Flutuando, caindo, numa doce intoxicação!
Toque-me, confie em mim, saboreie cada sensação!
Deixe o sonho começar, deixe seu lado mais escuro ceder
Ao poder da música que eu escrevo...")
E ela descreve a sensação de estar em um lugar sombrio e sinistro, mas no qual habita alguém que lhe produz um efeito de elevação espiritual através do poder de sua música:
CHRISTINE
"I've been there - to his world of unending night,
To a world where the daylight dissolves into darkness...
But his voice filled my spirit with a strange, sweet sound;
In that night there was music in my mind.
And through music my soul began to soar!"

(Eu estive lá - no seu mundo de noite infindável,
Um mundo onde a luz do dia se dissolve em escuridão...
Mas sua voz preencheu meu espírito com um estranho e doce som;
Naquela noite, havia música na minha mente.
E, através da música, minha alma começou a se elevar!)
No meio da peça, temos um baile de máscaras, que me lembrou muito Dioniso. No mito órfico, Dioniso é rebento de Perséfone. A letra dessa parte fala inclusive de Sátiros e dos Campos Elísios.
VÁRIAS PESSOAS NO BAILE
"Masquerade! Leering satyrs, peering eye;
Masquerade! Run and hide - but a face will still pursue you...
Six months: Of relief! Of delight! Of Elysian peace!...
Masquerade! Paper faces on parade!
Masquerade! Hide your face, so the world will never find you!
Masquerade! Every face a different shade!
Masquerade! Look around - there's another mask behind you!"

(Mascarado! Sátiros com um olhar de soslaio;
Mascarado! Corra e se esconde - mas um rosto ainda te perseguirá...
Seis meses: de alívio! de delícias! da paz dos Elísios!...
Mascarado! Rostos de papel na parada!
Mascarado! Esconda seu rosto, para que o mundo nunca lhe encontre!
Mascarado! Cada rosto um sombreado diferente!
Mascarado! Olhe em volta - há outra máscara atrás de você!)
Christine também fala com Raoul, que a corteja, sobre o fantasma e a gratidão/lealdade que lhe deveria ter:
CHRISTINE
"It scares me - don't put me through this ordeal by fire.
He'll take me, I know; we'll be parted for ever.
He won't let me go, what I once used to dream I now dread.
If he finds me, it won't ever end;
And he'll always be there, singing songs in my head...
Am I to risk my life, to win the chance to live?
Can I betray the man who once inspired my voice?
Do I become his prey? Do I have any choice?"

(Isso me assusta - não me coloque nessa provação pelo fogo.
Ele irá me levar, eu sei; ficaremos separados para sempre.
Ele não vai me deixar ir, o que antes eu sonhava agora eu temo.
Se ele me encontrar, isso nunca terminará;
E ele estará sempre lá, cantando canções na minha cabeça...
Estou disposta a arriscar minha vida para ter a chance de viver?
Posso trair o homem que um dia inspirou minha voz?
Eu me torno sua presa? Eu tenho alguma escolha?)
Cantando juntos, numa cena que se passa em um cemitério, o fantasma cita mais uma estação (o inverno), e Christine reconhece que - por mais que sua mente o resista - sua alma o obedece. Aqui também aparece a menção à "verdadeira beleza". No conto de Apuleio, Psiquê vai até Perséfone para pegar uma caixinha com o segredo da beleza eterna, a pedido de Afrodite, sem saber que a beleza eterna não é nada mais do que a morte. É no reino dos mortos, de Hades, que reside a "verdadeira beleza". E Raoul tenta afastar de Christine essa imagem paternal que ela tem do fantasma, assim como Hades é tio de Perséfone. Raoul então ressalta que Christine não amará o fantasma se ela for sua prisioneira, assim também Perséfone não passa o ano todo com Hades, ela se divide:
ERIK
"Wandering child, so lost, so helpless; yearning for my guidance...
Too long you've wandered in winter, far from my far-reaching gaze,"
(Criança que vagueia, tão perdida, tão desamparada; ansiando por minha orientação...
Por tanto tempo você perambulou no inverno, longe do meu olhar que alcança longe,)
CHRISTINE
"Wildly my mind beats against you;"
(Freneticamente minha mente luta contra você;)
ERIK
"You resist,"
(Você resiste)
AMBOS
"Yet your/the soul obeys..."
(No entanto, sua/a alma obedece)
ERIK
"You denied me, turning from true beauty..."
(Você me negou, se afastando da verdadeira beleza...)
CHRISTINE
"I denied you, turning from true beauty... "
(Eu neguei você, me afastando da verdadeira beleza...)
ERIK
"Come to me..."
(Venha pra mim...)
RAOUL
"Christine, listen to me!
Whatever you may believe, this man, this thing, is not your father!..."
(Christine, me escute!
Seja o que for no que você acredite, esse homem, essa coisa, não é o seu pai!)
"You can't win her love by making her your prisoner."
(Você não pode ganhar o amor dela tornando-a sua prisioneira.)

A cena mais relevante, porém, que trago em vídeo abaixo do próximo trecho, é quando Erik encena sua ópera como Don Juan, com Christine no papel de Aminta, ela com uma maçã na mão que me lembra a romã do mito, e o diálogo totalmente a ver com o mesmo. Alguns autores dizem que, quando Coré colhia flores, ela buscava uma experiência diferente, uma vez que entre essas flores estavam narcóticos narcisos e outros possíveis psicotrópicos. Na busca desse desejo, ela é tragada pela terra. Imerge, sucumbe, se entrega, não tem mais volta ("cuidado com o que você deseja"). Então, a letra aqui fala em fogo, em um "rico desejo" (Hades é Pluto - "o rico"), em sedução, em sonho, em segredo. Fala também no silêncio (que também lembra "o indizível"). Christine, interpretando Aminta, pergunta sobre sangue (oferta que se fazia aos mortos), sobre um botão abrindo em flor (as flores que Coré colheu e que ela mesma acabou desabrochando em Perséfone), sobre as chamas que os consumirão... Erik, agora já desvestido do papel de Don Juan, pede que ela lhe salve da solidão e compartilhe uma vida com ele. Não é mais o sedutor que passa de amante em amante (Don Juan), mas aquele que pede que a amada fique para sempre a seu lado. Eis a letra e, em seguida, o vídeo:
ERIK (como Don Juan)
"You have come here in pursuit of your deepest urge,
in pursuit of that wish, which till now has been silent.
I have brought you, that our passions may fuse and merge -
in your mind you've already succumbed to me
dropped all defences completely succumbed to me -
now you are here with me: no second thoughts, you've decided.
Past the point of no return - no backward glances:
the games we've played till now are at an end.
Past all thought of "if" or "when" - no use resisting:
abandon thought, and let the dream descend.
What raging fire shall flood the soul?
What rich desire unlocks its door?
What sweet seduction lies before us?
Past the point of no return, the final threshold -
what warm, unspoken secrets will we learn?
Beyond the point of no return."

(Você veio aqui em busca dos seus anseios mais profundos,
em busca daquele desejo, o qual até agora tem permanecido em silêncio.
Eu trouxe você, para que nossas paixões possam se fundir e imergir -
na sua mente você já sucumbiu a mim
deixou cair todas as defesas, completamente sucumbiu a mim -
agora você está aqui comigo: não há como mudar de ideia, você decidiu.
Passado o ponto em que não há retorno - não se pode olhar para trás:
os jogos que jogamos até agora estão no final.
Passado todo o pensamento de "se" e "quando" - não adianta resistir:
abandone os pensamentos e deixe o sonho sobrevir.
Que fogo intenso deve inundar a alma?
Que rico desejo destrava sua porta?
Que doce sedução jaz diante de nós?
Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
que segredos calorosos e inexprimíveis iremos aprender?
Além do ponto do qual não há retorno.)
CHRISTINE (como Aminta)
"You have brought me to that moment where words run dry,
to that moment where speech disappears into silence.
I have come here, hardly knowing the reason why;
In my mind, I've already imagined our bodies entwining,
defenceless and silent - and now I am here with you:
no second thoughts, I've decided.
Past the point of no return - no going back now:
our passion-play has now, at last, begun.
Past all thought of right or wrong - one final question:
how long should we two wait, before we're one?
When will the blood begin to race
the sleeping bud burst into bloom?
When will the flames, at last, consume us?"

(Você me trouxe a aquele momento no qual as palavras secam,
a aquele momento onde o discurso desaparece no silêncio.
Eu vim aqui, mal sabendo por que razão;
Na minha mente, eu já imaginei nossos corpos entrelaçados,
sem defesa e em silêncio -  e agora estou aqui com você:
sem poder mudar de ideia, eu decidi.
Passado o ponto em que não há retorno - não há volta agora:
nosso jogo de paixão agora finalmente começou.
Passado todo o pensamento de certo e errado - uma pergunta final:
quanto tempo deveríamos esperar antes de sermos um?
Quando o sangue começará a correr
e o botão adormecido se abrir em flor?
Quando as chamas irão, afinal, nos consumir?)
AMBOS
"Past the point of no return, the final threshold -
the bridge is crossed, so stand and watch it burn;
We've passed the point of no return..."

(Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
a ponte foi cruzada, então fique parado e assista ela queimar;
Nós passamos do ponto do qual não há retorno...)
ERIK
"Say you'll share with me one love, one lifetime;
Lead me, save me from my solitude..."

(Diga que você compartilhará comigo um amor, um tempo de vida;
Conduza-me, salve-me da minha solidão...)
[vídeo retirado e aparado daqui: https://www.youtube.com/watch?v=h7IZNfGEcFk]

Coré deixa sua ingenuidade e não pode escapar da situação em que precisa amadurecer. Todos precisamos passar por essa transformação um dia. Não adianta resistir:
CHRISTINE 
"One by one, I've watched illusions shattered."
(Uma por uma, eu assisti minhas ilusões se despedaçarem.)
ERIK
"Past all hope of cries for help: no point in fighting."
(Passada toda a esperança por gritos de ajuda; não adianta lutar.)
E então que os deuses a ajudem a aceitar a missão de acompanhá-lo:
CHRISTINE
"Pitiful creature of darkness, what kind of life have you known?
God give me courage to show you you are not alone."

(Deplorável criatura da escuridão, que tipo de vida você conhece?
Deus me dê coragem para lhe mostrar que você não está sozinho.)
Enfim, somente com o "espírito" dele e a "voz" dela, a "música da noite" se elevará:
ERIK
"You alone can make my song take flight -
It's over now, the music of the night."

(Só você pode fazer minha canção alçar voo -
Está acabada agora, a música da noite.)
Poderíamos viajar bem mais no musical inteiro, incluindo as músicas e não só as letras, mas acredito que dar o gostinho aqui e deixar que cada um descubra suas próprias impressões é mais prazeroso. Concordam?

agosto 11, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 5

Três questões continuam sendo perguntadas sobre os mistérios: se havia torturas, se havia sexo nas "orgias", e se havia o uso de drogas. As tentativas de responder a elas vão novamente variar dependendo de cada mistério (Eleusis, Dioniso, Mitra, Magna Mater, Ísis etc).

1. DOR?

Vamos começar pela dor. Aqui teremos que separar os mistérios de Mitra de todos os outros. Pra começar, lembremos que não é incomum vermos pessoas sendo humilhadas e machucadas nas iniciações, desde os aborígenes australianos até os calouros de universidades de hoje. Existem testemunhos sobre os mistérios de Mitra sobre "50 dias de jejum, 2 dias de açoites, 20 dias na neve", mas isso parece estranho, até por que é difícil imaginar neve na África. Outro relato (reproduzido em afrescos) dizia que os candidatos eram vendados e ouviam o som de corvos e leões, e os de maior grau de iniciação tinham as mãos amarradas com tripas de galinha e jogados numa bacia de água onde um homem cortava as amarras e se dizia o "libertador". E encontramos ainda outras formas que pareciam um zombar da morte. Ou seja, os mistérios mitraicos se pareciam muito mais com uma iniciação dolorosa do tipo de que conhecemos do que os outros mistérios antigos. 

Nos outros mistérios, as experiências de humilhação e dor desse tipo parecem estar visivelmente ausentes. Em seu lugar, existia a "purificação". Mas, mesmo assim, havia certo terror psicológico, como vemos Plutarco dizer sobre "todas aquelas terríveis coisas, pânico e tremores e suor". De acordo com Prudêncio, os devotos da Magna Mater recebiam uma tatuagem no corpo, queimada na pele com agulhas quentes. No reino de Ptolomeu IV Filopator, havia uma prática parecida nos mistérios de Dioniso, com tatuagens de lírios, tímpanos (tambores) ou coroas de hera; mas isso parecia um caso excepcional. Na imagem que vimos na postagem anterior, da Vila dos Mistérios, há uma moça ajoelhada com a cabeça no colo de uma mulher sentada e de olhos fechados, enquanto uma figura feminina sinistra ergue uma vara, o que poderia sugerir açoite; mas a figura ameaçadora tem asas negras, ou seja, ela não é deste mundo, é mais uma personagem alegórica. Nas peças dionisíacas, a 'mania'/loucura é comparada a um açoite (de novo, figurativamente). Horácio sugere que nem mesmo Afrodite abriria mão de um "sublime flagellum" para colocar uma garota arrogante no seu devido lugar. Ou seja, a flagelação era puro simbolismo, como uma metáfora para a possessão da loucura divina, tanto que - no mesmo afresco da Vila dos Mistérios - a garota depois se levanta transformada em uma verdadeira bacante, dançando freneticamente junto a outra dançarina na cena seguinte. Pode-se até pensar na flagelação real como uma forma de catarse/purificação, mas ainda assim - se acontecia ou não nos mistérios - a arte consegue deixar isso intencionalmente ambíguo.

2. SEXO?

Como já vimos, o uso moderno da palavra "orgia" reflete as piores suspeitas puritanas com relação aos ritos noturnos secretos. Certo, havia a presença de um Príapo Itífalo em quase todos os mistérios, mas isso era mais em um caráter jocoso, de brincadeira e risadas, e dificilmente tinha a ver com a questão central dos mistérios. As procissões com um falo gigante aconteciam mais nos festivais a Dioniso do que nos mistérios. Nas iniciações da puberdade, é claro que o encontro com a sexualidade é normal e necessário. O encontro com o falo desvelado, que aparece nas cenas de iniciação, pode ser interpretado como uma preparação para o casamento ou uma forma de Matronalia romana (festival a Juno Lucina como deusa do parto, da maternidade e das mulheres). Os vasos apulios de uso funerário, do quarto século, relacionados aos mistérios de Dioniso, normalmente retratavam o encontro de um macho e uma fêmea num ambiente báquico, e são uma iconografia que se acredita referir-se a uma "escatogamia" (um casamento num mundo futuro) nos Campos Elísios, a felicidade final no além, como se os festivais dos iniciados continuassem acontecendo depois da morte. Ou seja, o que encontramos é mais simbolismo - simbolismo sexual, claro, mas de uma forma que não violasse a integridade do corpo dos participantes e nem de suas fantasias, mesmo quando havia uma resposta emocional ao falo exposto no 'liknon'. Era o simbolismo que moldava as formas do ritual, e não as orgias de verdade (no seu sentido moderno). 

Nos mistérios de Sabazius, uma serpente de metal passava pelas roupas dos iniciandos. Era o "deus pelo colo" ('Theos dia kolpou'), uma forma de união sexual com o deus, lembrando de como Perséfone teria sido impregnada por Zeus na forma de uma serpente, e supostamente também Olímpia sendo impregnada por Dioniso e gerando Alexandre o Grande. Mas, mesmo aqui, a sexualidade em si não era o segredo do mistério. 

Os mistérios de Eleusis, por sua vez, eram conhecidos por sua "pureza". Não havia simbolismo fálico, e - se existiu algo sexual no contexto das cerimônias noturnas - o segredo foi bem guardado. 

Sobre os mistérios de Eros, praticamente só temos "O Banquete", de Platão. Era como se um amante propusesse ao outro iniciação aos mistérios desse deus em especial.

Nos mistérios mitraicos, a virilidade de guerra era mais importante do que a intimidade sexual, afinal, dizem que Mitra odeia mulheres (Pseudo-Plutarco, 'De fluviis' 23, 507: "Mitra, desejoso em ter um filho, ainda que odiasse as mulheres, se deita com uma pedra"). 

A castração nos mistérios da Méter tem um caráter interessante: de certa forma, através de sua negação radical, a sexualidade aqui se torna algo até mais obsessivo do que nos outros mistérios. Isso nos lembra da cortina no leito matrimonial que aparece nos mistérios de Átis. 

No culto de Ísis, não há símbolos sexuais evidentes. As cabeças raspadas, as roupas de linho, as procissões, preces, água, incenso, sistro (instrumento musical sagrado), tudo parece muito austero e puritano, mesmo que a água do Nilo lembre fertilidade. Ainda assim, o culto de Ísis influenciou não apenas as 'hetairas', mas há o relato de uma romana chamada Paulina, indo ao templo de Ísis para dormir com o deus Anúbis, que a teria chamado. Ele, na verdade, era um romano usando uma máscara de chacal. Esse escândalo fez o imperador Tibério banir as sacerdotisas de Ísis de Roma. No entanto, a abstinência sexual que existia como preparação para as cerimônias de Ísis, nos chama a atenção. Provavelmente havia, no centro do mistério, algum casamento sagrado correspondente ao mito de Osíris. 

A abstinência, aliás, era um pré-requisito normal para participar em praticamente todos os mistérios e em alguns outros cultos (Ovídio fala da abstinência no mistério de Dioniso, Marinus fala da abstinência no da Méter e de Ísis, Burkert cita o uso de um veneno que o hierofante de Eleusis usaria para uma "castração" química temporária). Isso estimularia as expectativas e aumentaria nosso nível de atenção a certos sinais. A sexualidade era mais um meio de representar uma quebra na rotina (como os próprios mistérios o eram) do que um fim em si mesma. 

3. DROGAS?

O uso de drogas nos contextos religiosos é um estudo mais recente. Algumas pessoas acham até que não existiam mistérios sem drogas, por elas serem a forma mais fácil de ter uma experiência incomum. Kerényi chegou a pensar que o ingrediente do 'kykeon' bebido em Eleusis (o poejo, 'glechon') fosse levemente alucinogênico, e a turma de Wasson (Wasson, Hofmann e Ruck: "The Road to Eleusis") acha que o que estava na bebida de Eleusis era o ergot, um fungo que crescia no grão de centeio. Entre os constituintes solúveis em água dessa ergotina, estariam alguns traços de LSD. Mas, mesmo que os grãos de Eleusis fossem infectados por tal peste, a gente precisaria imaginar qual a quantidade necessária para milhares de participantes (que era o número em cada iniciação eleusina) terem visões felizes, ainda mais que os relatos de experiência com envenenamento por ergotina são mais de algo desprazeroso do que de estados eufóricos. Outra hipótese seria o ópio por conta das papoulas também serem uma planta atribuída a Deméter. Ovídio tem uma representação de Deméter colocando a criança eleusina (Triptólemo) para dormir com um suco de papoula. Mas nesse caso também continuamos com a dúvida de como eles conseguiriam ópio numa quantidade tão grande para milhares de iniciados que nem sequer eram fumantes. Quanto ao álcool, éclaro que o 'krater' com vinho estava no centro da maioria dos cultos báquicos, mas a inebriação pelo vinho podia ser tanto "liberação" (com Dioniso Lysios) quanto "loucura" em um sentido de punição por um deus (Dioniso Bakcheios), como Platão indica nas suas Leis. O vinho em si não é suficiente para induzir ao êxtase divino. Em Eurípides, vemos que "muitos são os portadores do tirso, mas poucos os iniciados" - muitos podem ficar bêbados, mas nem todos são bacantes.

Além disso, as drogas muitas vezes levam mais ao isolamento do que criam um senso de comunidade; e todos os mistérios enfatizavam mais uma alegria em comunidade, incluindo banquetes onde compartilhavam opulentas refeições. Os servos da Méter, os 'galloi', eram proibidos de comer cereais, mas podiam comer a carne dos sacrifícios, tendo grandes banquetes. Nos cultos a Ísis e Sarapis, o jantar ('deipna') está entre os fatos mais certos: os participantes se reuniam em uma casa ('oikos') e reclinavam-se em sofás ('klinai'), se preparando para comer e beber. Nas escavações relacionadas a Mitra, encontraram restos de ossos animais de várias espécies perto dos sofás, mostrando que eles não eram usados só para posições de preces, mas para refeições. Mitra e Hélio banqueteam-se juntos nas iconografias mitraicas, enquanto os iniciados de graus menores (do Corvo ao Leão) servem a mesa. Novamente, os grandes banquetes eram uma quebra na parcimônia da vida cotidiana. Beber do 'kykeon', que era uma espécie de sopa de cevada, era um evento importante nos mistérios Eleusinos, ele marcava o fim do jejum. Nos mistérios báquicos, a felicidade ('makaria') era apresentada ao iniciado na forma de um bolo. No culto a Asclépio, a saúde poderia ser ingerida, na forma da deusa Higeia. 

A alteração no estado de consciência através do êxtase era mais presente nos mistérios de Dioniso e da Méter. No primeiro, pela loucura divina, no segundo porque os devotos da deusa frígia eram 'entheoi' ou 'theophoretoi' (carregados pela divindade) sob o efeito de certos tipos de música. Temos inclusive uma descrição clínica do êxtase no culto da Méter, na qual o doutor relata que os 'galloi' "se animam ao som da flauta e da alegria no coração ['thymedie'], ou pela bebida, ou pela incitação dos presentes", e ele fala também do efeito catártico disso, "essa loucura é possessão divina; quando eles terminam o estado de loucura, eles estão com boa disposição, livres de tristezas, como se estivessem consagrados ao deus". A catarse nos mistérios de Dioniso é relatada pelo musicólogo Aristides Quintilianus: "este é o propósito da iniciação báquica, que a ansiedade depressiva ['ptoiesis'] das pessoas menos educadas, produzida por seu estado de vida ou por algum infortúnio, seja lavada através de melodias e danças do ritual de uma forma alegre e divertida". Então, parecia com uma terapia. Tito Lívio também falou do êxtase na bacanália, dizendo que era simplesmente a falta de sono, e o vinho, e os sons musicais e gritos pela noite, que deixava as pessoas atordoadas/embriagadas. Nos mistérios de Eleusis, de Ísis, e de Mitra, parece não ter existido um êxtase desse tipo. 

[Hélio e Mitra sendo servidos em um banquete.]

Vamos terminar com o que Proclus escreveu sobre os mistérios: 
"Eles causam simpatia das almas com o ritual, de uma forma que é incompreensível a nós, e divina, de forma que alguns dos iniciandos são tomados por pânico, sendo preenchidos com um divino assombro; outros assimilam a si mesmos com os símbolos sagrados, deixando sua própria identidade, se sentindo em casa com os deuses, e experimentam uma possessão divina."
Essa simpatia ('sympatheia') das almas com os rituais é como uma forma de ressonância que sacudia os alicerces da realidade, nos trazendo uma transformação. Não sabemos o que acontecia nos rituais, e muito menos conseguiríamos reproduzi-los, não podemos recriar tal experiência, mas podemos reconhecer que ela existia como uma chance de unir a alma do iniciando à da comunidade, em um sentimento de felicidade e união com o sagrado. 

Enfim, era mais o senso de comunidade, os banquetes, as músicas e danças, o efeito do jejum e da falta de sono, o assombro com o desconhecido, entre outras coisas semelhantes, que causava sensações diversas e experiências extáticas fora do comum. Provavelmente, a ideia de torturas, orgias sexuais e drogas, surgiu apenas da falta de conhecimento e de preconceitos mais modernos com relação ao "mistério nos mistérios". Por não sabermos como era, tudo acaba sendo possível de se conjeturar. Mas quase nada pode ser definitivamente afirmado.


agosto 06, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 4

Uma característica primordial dos mistérios é o 'makarismos', a exaltação do estado abençoado daqueles que "viram" os mistérios. Essas "testemunhas oculares" eram chamadas de 'epoptai'. Os festivais de mistério devem ter sido eventos inesquecíveis, daqueles que proporcionam experiências que mudam nossa existência e influenciam toda uma vida futura. O efeito esperado era de que algo estivesse prestes a acontecer na alma, como um encontro com o divino. Psicologicamente falando, era uma experiência de mudança de consciência, bem diferente de algo que se encontraria na vida cotidiana. Nesta postagem, veremos algumas afirmações dos antigos sobre os mistérios.

Aristóteles dizia que no estágio final dos mistérios, não haveria mais "aprendizagem" ('mathein') e sim "experiência" ('pathein') e uma mudança no estado mental ('diatethenai'). Um prato dourado de Thurii trazia as palavras "fique feliz de ter sofrido o sofrimento que você nunca sofreu antes". Aelius Aristides diz que Eleusis era tanto a experiência mais assustadora quanto a mais resplandecente entre tudo o que é divino para o ser humano. Dio de Prusa foi ainda mais explícito:
"Se alguém trouxesse um homem, grego ou bárbaro, para ser iniciado em um retiro místico, sobrepujado por sua beleza e tamanho, de forma que ele presenciasse muitas visões e ouvisse muitos sons do tipo, com escuridão e luz aparecendo em repentinas mudanças e outras coisas inumeráveis acontecendo; e mesmo - como fazem na chamada cerimônia de entronização ['thronismos'], nas quais os iniciandos se sentam e os outros dançam em torno deles - se tudo isso estivesse acontecendo, seria possível que tal homem não conseguisse experimentar simplesmente nada em sua alma, que ele não viesse a conjeturar que há algum plano e percepção mais sábios em tudo aquilo que estava acontecendo, mesmo tendo ele vindo da mais extrema barbárie?"
O filósofo estoico Cleanthes fazia essa comparação do cosmo conhecido (a dança das estrelas e do sol em torno da terra) com um salão de mistério. Sopatros, numa descrição retórica da experiência de Eleusis, disse que saiu do salão dos mistérios sentindo-se um estranho a si mesmo. Marco Aurélio colocava os mistérios numa categoria entre as visões oníricas e as curas miraculosas. 

Dio Crisóstomo descreve os estranhos aos portões do salão como servos dos mistérios, os quais, do lado de fora das portas, adornavam os pórticos e os altares públicos, mas que nunca entravam; eles ainda percebiam algumas das coisas acontecendo lá dentro, seja uma palavra mística que alguém gritava, seja o fogo que era visto sobre os muros, mas eles continuavam sendo servos, e não "iniciados" ('mystai').

Diz-se que Diágoras de Melos teria contado pelas ruas segredos dos mistérios, assim como um escritor gnóstico naasseno da "seita da serpente" teria exposto segredos. Assim, temos dois lampejos da celebração: "os atenienses, celebrando os mistérios Eleusinos, mostram aos 'epoptai' o grande, admirável e mais perfeito segredo epóptico, em silêncio, uma espiga de milho ceifada" e "O hierofante, na noite em Eleusis, celebrando os grandes e inexprimíveis mistérios ao pé de um grande fogo, gritando que A Senhora deu à luz um filho sagrado, Brimo gerou Brimos". 

Plutarco tenta descrever o presumido processo de morte em termos de uma iniciação nos mistérios. Ele diz que, no momento da morte,
"a alma sofre uma experiência similar a aqueles que celebram grandes iniciações... Perambulações errantes no começo, cansativas caminhadas em círculos, alguns caminhos aterrorizantes na escuridão que não levam a lugar nenhum; e então, imediatamente antes do fim, todas as terríveis coisas, pânico e tremedeiras e suor, e assombro. E então alguma luz maravilhosa vem te encontrar, regiões puras e prados estão lá para te saudar, com sons e danças e solenidades, palavras sagradas e visões sacras; e ali o iniciado, agora perfeito, se liberta e se solta de toda servidão, caminha em torno, coroado com uma grinalda, celebrando o festival unto com as outras pessoas sagradas e puras, e ele olha para baixo, para os não-iniciados, para a multidão não-purificada neste mundo, em lama e névoa debaixo de seus pés".
Um dos textos mais influentes sobre a experiência dos mistérios aparece no "Fedro" de Platão. Já em "O Banquete", quando Eros revela sobre o verdadeiro Ser, diferenciando a "iniciação preliminar" ('myein') e os "mistérios perfeitos e epópticos", ele provavelmente estava se referindo a Eleusis. Em Fedro, Platão acrescenta a imagem inesquecível da carruagem da alma subindo até o céu no despertar dos deuses, para cima do mais alto cume, onde uma visão além do céu é possível. Alguma memória turva dessa visão permanece em certas almas, ressurgindo repentinamente através de algumas imagens de beleza encontradas neste mundo. Quando isso acontece, nos lembramos do quão resplandecente era a beleza que vimos, quando estávamos juntos com o coro abençoado, tendo uma alegre visão, celebrando o encontro na iniciação mais abençoada de todas, como 'mystai' e 'epoptai', felizes aparições de puro esplendor, totalmente purificados. 

O único relato de experiência com os mistérios escrito em primeira pessoa foi o da iniciação a Ísis, feito por Apuleio, em "Metamorfoses". Porém, além de ser um texto de ficção, em um estilo meio de romance paródico, ele é figurativo e jocosamente insinuativo, com a clara intenção de frustrar nossa curiosidade. Eis a introdução de uma das partes mais citadas:
"Eu me aproximei da fronteira da morte, eu coloquei os pés na trincheira de Perséfone, eu passei por uma jornada através de todos os elementos e voltei. Eu vi à meia-noite o sol, brilhando em luz branca, eu me aproximei dos deuses do mundo superior e inferior, e os adorei de perto."
O poeta Mesomedes, em seu Hino a Ísis, se refere a um "casamento subterrâneo" e ao "nascimento de plantas" - o que nos lembra Perséfone - e a "os desejos de Afrodite, o nascimento de uma criança, o perfeito e inenarrável fogo, os Curetes de Reia, a ceifa de Cronos, o auriga - tudo isso sendo dançado para Ísis". O nascimento da criança e o grande fogo, a colheita do grão, e o auriga Triptolemo, claramente são cenários eleusinos. Mas claro que esse resumo mítico não substitui a experiência.

A "senha" ('synthema') para os Mistérios de Eleusis, que conhecemos por transmissão de Clemente de Alexandria, era algo intencionalmente enigmático: "eu jejuei, eu bebi do 'kykeon', eu tirei do cesto coberto ['kiste'], eu trabalhei e coloquei de volta no cesto alto ['kalathos'], e dali para dentro de outro cesto ['kiste']". O que significa esse "trabalhar" é incerto, mas a explicação mais plausível vem de Teofrasto, sobre pilar o grão, como se o iniciado tivesse que triturar um pouco de grão em um pilão. O simbolismo desse ato é que continua obscuro.

Clemente também fala que, nos mistérios da Méter, o 'synthema' era parecido, mas se referia a instrumentos musicais: "Eu comi do 'tympanon' [tambor/pandeiro], eu bebi do 'cymbalon' [címbalo/pratos], eu carreguei o 'kernos' [vasilha] da mistura, eu deslizei sob o 'pastos' [pálio/dossel]" ou, em outra versão, "eu me tornei um 'mystes' [iniciado] de Átis". Aqui o pálio/dossel (cortina da cama) provavelmente é uma alusão a casamento.

Ainda nos mistérios da Magna Mater, o famoso 'taurobolium' é na verdade descrito por autores cristãos: o iniciando, agachado em um poço, é inundado com litros de sangue do touro agonizando acima dele. Ainda assim, se a descrição era mesmo fiel, esse emergir do poço e ser "adorado" pelos outros, como se o iniciado tivesse alcançado um estado superior, certamente provocava um sentimento de liberação e de nova vida, após escapar do horror anterior.

Os mistérios de Mitra são quase sempre algo à parte. Para começar, não havia uma única iniciação, mas sete graus de iniciados: o corvo, a crisálida, o soldado, o leão, o persa, o corredor-do-sol, e o pai. Respectivamente: 'korax/corvus', 'nymphus', 'stratiotes/miles', 'leo', 'Persa', 'heliodromus', 'pater'. Então fica mais complicado falar do culto mitraico aqui.

Um testemunho relacionado com iniciações dionisíacas enfatiza a purificação e a mudança de status ou até de identidade. No discurso de Demóstenes contra Ésquines, encontramos relatos sobre uma cerimônia noturna a qual incluía colocar uma pele de gamo/cervo e encher um 'krater' (jarra em forma de taça) com vinho. Ali, os iniciandos, sentados, são então lambuzados com uma mistura de barro e resíduos de cereais; o sacerdote surge da escuridão como se fosse um espírito aterrorizante; os iniciados são limpos e se erguem de pé, exclamando "eu escapei do mal, eu encontrei algo melhor", e os presentes gritavam em uma voz aguda e alta ('ololyge') como se estivessem na presença de algum agente divino. Na manhã seguinte, os iniciados eram integrados ao grupo de celebrantes, com o 'thiasos' se movendo pelas ruas, pessoas coroadas com funcho (erva-doce) e álamo/choupo branco, dançando e pronunciando gritos rítmicos, carregando o 'kiste' (cesto) e o 'liknon' (peneira), e alguns brandindo serpentes vivas. O terror teria se tornado algo administrável para o iniciado.

Há uma interessante iconografia referente às iniciações a Dioniso, a começar pelo famoso afresco da Vila dos Mistérios em Pompeia (vide imagem abaixo) e os relevos da Vila Farnesina em Roma, e passando por relevos arquitetônicos, cenas em sarcófagos, e um mosaico na Algéria que enfeitava um aposento de culto. O item mais intrigante dessas imagens é um imenso falo ereto em uma peneira ('liknon'), coberto por um pano, sendo desvelado ou por uma mulher ajoelhada ou por um sileno em frente de um rapaz que avança. [De uma forma geral, procissões com falo sempre estiveram presentes no culto a Dioniso. Mas um falo não era um segredo maior do que uma espiga de grãos; o mistério não estava no objeto.] O friso da Vila segue uma sequência: começa com uma mulher entrando pela esquerda e prosseguindo até a purificação, um breve idílo de vida satírica, a revelação misteriosa do deus no centro do mural, duas manifestações principais de Dioniso (sátiros manipulando uma tigela prateada e uma máscara, e uma garota desvelando o falo), depois uma cena de flagelação e uma dança frenética (indicando uma espécie de humilhação e a alegria/êxtase final).



Enfim, existia um paradoxo dinâmico de morte e vida nos mistérios, associado com os opostos de noite e dia, escuridão e luz, abaixo e acima, mas nada explicitamente parecido com uma "ressurreição" semelhante aos evangelhos cristãos. Burkert ressalta que, mesmo havendo purificação e aspersão de água, no paganismo não existiria um "batismo" no sentido de imersão em um rio ou bacia para renascer para uma nova vida. Mesmo nos santuários de Ísis, onde havia um receptáculo de água, o que poderia parecer uma referência ao batismo, o que existia mesmo era o uso dessa água para representar a enchente do Nilo. Lembrem que o helenismo não pertence a um mundo de opostos do tipo "bem x mal", um vencendo o outro, e sim de uma busca pelo equilíbrio, pela justa medida, pois é no 'métron' que reside a virtude.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

agosto 01, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 3

As fontes literárias sobre os mistérios, por serem mistérios, são todas indiretas. Não se trata apenas de dizer que uma biblioteca específica sobre os mistérios nunca foi encontrada, porque na verdade ela nunca existiu. Os tipos de textos que restaram, dos quais se procura extrair alguma coisa sobre os mistérios, são principalmente três: escritos herméticos/gnósticos, papiros mágicos, e os romances gregos. Cada um tem seus próprios problemas em servirem como fonte.

A interpretação dos romances como textos de mistérios é algo meio recente. Eles não raro introduzem cenas elaboradas de rituais religiosos, com descrições vívidas da religião antiga, mas é difícil saber se isso era só por efeito literário ou indicava um envolvimento mais profundo real, e também saber se tratava-se de um tema isolado ou de símbolos que pertenciam à estrutura do todo. Um dos romances que mais tinham uma dimensão religiosa, o "Etiópica" de Heliodoro, não centra propriamente nos mistérios, mas no culto de Hélio. Ou seja, os romances serviam pelos detalhes ilustrativos, mas não podiam ser usados independentemente como chave para os mistérios.

No caso da literatura hermética/gnóstica, apesar de pré-cristã, ela não é pré-judaica, ela era ligada ao judaísmo helênico. O tratado de Poimandres que abre o Corpus Hermeticum, tem um "background" judaico-cristão. Nela, os elementtos pagãos são modificados pelo filtro de um sistema religioso que difere radicalmente do ambiente dos mistérios pagãos antigos. 

O interesse nos papiros mágicos começou com um livro que contava dos mistérios de Mitra como se fosse uma viagem particular em busca de uma revelação oracular, e não um rito de mistério propriamente. Os livros mágicos encontrados no Egito praticamente não tem nenhuma relação com Eleusis ou Dioniso ou com a Magna Mater. Uma das grandes diferenças entre religião e magia aqui é que: enquanto os mistérios integravam o iniciado em um grupo, os magos "continuavam solitários entre seus sonhos de onipotência, almejando ao mesmo tempo finalidades práticas de conhecimento do futuro, posse de riquezas e concubinas" (Walter Burkert, Ancient Mystery Cults, pag.68). A cura ficava em segundo plano nos papiros mágicos, deixada para Asclépio ou para a medicina científica. 

Aristóteles uma vez disse que aqueles que passam pelos mistérios não deveriam "aprender" ('mathein'), mas sim "serem afetados", "experienciarem" ('pathein'). Ainda assim, existem alguns testemunhos sobre a "aprendizagem" ou "transmissão" preparatória que acontecia nos mistérios. A palavra/razão/discurso ('logos') tinha um importante papel a desempenhar, e a prescrição de "não contar" o que se via nos Mistérios acontecia porque a verbalização tinha um papel central nos procedimentos. Era como um "relato sagrado" ('hieros logos'). O estóico Crisipo considerava a transmissão do 'logos' sobre os deuses (ou seja, a "teologia") como sendo a essência da iniciação. Isso pode ser percebido também em Empédocles, Parmênides, e no discurso de Diotima em "O Banquete" de Platão. Porém, mesmo havendo a possibilidade de existirem livros ou arquivos, não existia uma biblioteca de teologia; afinal, o culto da Méter e os Mistérios Eleusinos eram mais como uma tradição familiar.

O fato de existirem 'logoi' e até textos escritos nos mistérios, como em outros cultos pagãos, não significa que esses textos formassem a base de religião - do jeito que acontece com a bíblia, o torah e o alcorão no caso do cristianismo, judaísmo e islamismo, respectivamente. Conforme conta Platão em "Meno", quando Sócrates introduz a doutrina da metempsicose, ele finge ter aprendido isso de "homens e mulheres que são sábios sobre as coisas divinas", de "sacerdotes e sacerdotisas que zelam por serem capazes de dar um relato do que eles estão fazendo". Isso implica que existiam também sacerdotes e sacerdotisas que não zelavam pelo que faziam e simplesmente executavam suas manipulações sem nenhuma explicação, nenhum 'logos' a ser comunicado aos outros. Esse relato, no entanto, não era fixado pela tradição, e nunca se tornava um dogma; nem mesmo havia uma organização por trás para controlá-lo. No papiro de Derveni, há uma passagem em que o autor reclama de certos oficiantes dos mistérios privados que só tomavam dinheiro sem conduzir seus clientes ao conhecimento; clientes estes que eram tímidos e confusos demais até para fazer perguntas, e por isso que perdiam seu dinheiro e sua esperança de alcançar o conhecimento. 


Existiam também três tipos de 'logoi': mito, alegoria natural, e metafísica. 

Martin Nilsson, que costuma negligenciar a importância do mito para a religião, ao falar sobre Eleusis, admite que "o mito tinha um efeito pervasivo incomum na religião de Deméter". Mas o mesmo podemos dizer da Méter, de Dioniso, e de Ísis. No caso dos mistérios órficos de Dioniso, o mito mais relevante para eles é o do seu nascimento de Perséfone e seu massacre pelos Titãs. A maioria dos mitos ligados aos mistérios, aliás, é de um deus que passa por um 'sofrimento': Perséfone abduzida, Dioniso retalhado, Osíris morto; e depois um luto que termina com uma alegria do retorno: tochas brandindo pela retorno de Perséfone à sua mãe, o dia de júblio ('Hilária') no festival da Magna Mater, a festa pela alegria de Ísis ao reencontrar Osíris. Essa rota da catástrofe à salvação parece lembrar o iniciado para ser confiante, pois assim como o deus se salvou você também vai se livrar dos seus apuros. Mas cuidado para não confundir isso com ressurreição inspirada num ciclo agrário (como pensava Frazer), pois não há evidência de Átis ter ressuscitado, Osíris continua entre os mortos, Perséfone vai e volta todo ano... Ou seja, não há nada que explicite uma ressurreição, embora existam relatos de deuses que podiam morrer e voltar nos mitos não relacionados com os mistérios. Hércules sofreu, morreu, ascendeu ao Olimpo, mas não se criou um mistério de Héracles por isso. E nos Mistérios de Mitra não tem nenhum mito de um "deus que sofre". Plutarco dizia que os sofrimentos de Ísis, ao serem reencenados, deveriam ser uma lição de piedade/devoção e um consolo para homens e mulheres que se vissem em situação similar de sofrimento. O mito também comunicava uma experiência viva que era reencenada: se Deméter jejuou de tristeza no mito, o iniciado de Eleusis também se abstinha de comida até a primeira estrela ser vista no céu; se Deméter acendeu tochas nas chamas do Monte Etna, eles também carregavam tochas; se ela se sentou num banquinho e velou sua cabeça, mantendo o silêncio e depois rindo e provando do kykeon, eles também o faziam. Os seguidores de Ísis a imitavam batendo no peito e pranteando Osíris, pra depois comemorarem quando ele era encontrado novamente. Os castrados da Méter também personificavam Átis e, uma vez que acreditava-se que Átis tivesse morrido debaixo de um pinheiro, essa árvore era levada ao santuário com fitas penduradas em seus galhos para representar as ataduras com as quais a Méter tentou estancar o sangue de Átis, e ela o enfeitou com flores primaveris, como as flores que se penduravam nas árvores. Nos mistérios de Dioniso, os iniciados usavam guirlandas de álamo preto porque acreditava-se que essa árvore crescia no mundo inferior, lar do Dioniso Ctônico. Quando Platão fala da amizade que surge entre os companheiros de iniciação nos mistérios, esse tipo de comunidade é chamada de "parentesco de almas e corpos" ('syngeneia psychon kai somaton'). 

A alegoria normalmente era considerada uma espécie de raciocínio sofístico, um exercício de retórica, em vez de um genuíno sentimento ou perspectiva religiosos, mas existem dois caminhos na elaboração de uma alegoria: há a conceituação abstrata vestida com uma roupa quase-mística de um lado, e há um relato tradicional que é parcialmente decodificado com referência a um sistema mais racional de pensamento. Na verdade, é a visão de mundo pré-socrática, centrada na Natureza ('physis'), e refinada (embora não alterada) pelos estóicos, que vem a ser o sistema de referência para a alegoria grega. Na era helênica, a alegoria era inclusive normalmente chamada de "mística". Os seguidores de Heráclito acreditavam que "a natureza deseja ser ocultada", se referindo aos segredos dos mistérios. A alegoria, portanto, era mais necessária nos mistérios do que em cultos menos secretos. Se a natureza era "misteriosa", então toda alegoria feita em um contexto religioso poderia ser chamada de "mística". Se tentarmos focar não no uso retórico das metáforas e sim no próprio fenômeno refletido em seu uso/aplicação, podemos fazer duas observações: primeiro, ao alegorizar os mistérios em termos de natureza, os sacerdotes e sacerdotisas poderiam dar um relato do que estavam fazendo. Por exemplo: em Eleusis, poderia-se reconhecer Deméter como a Mãe Terra e Perséfone como um grão que é levado para baixo da terra e retorna de uma maneira cíclica a cada ano; no Egito, Osíris estava ligado ao Nilo e Ísis à Terra; as iconografias mostram Mitra como um sol; nos mistérios da Magna Mater, os 'galloi' se cortavam para representar as feridas causadas na terra pelo arado - ou seja, esse aparente "ato de loucura" tinha uma explicação alegórica. Foi assim que a alegoria abriu caminho para a liturgia (do grego λειτουργία, "serviço/trabalho público"). 

No caso da metafísica, ela seria um nível mais elevado de interpretação. Aqui, acreditava-se que os princípios do universo não poderiam ser incorporados; ou seja, nem a terra nem a água poderia ser divinas por si só, e sim seriam permeadas por potências superiores. Os princípios de criação e união e os de dispersão e aniquilação trabalhariam juntos na matéria, a qual receberia seus impactos. Assim, os eleusinos estariam menos preocupados com o destino de Kore (mito) e a semeadura do grão (alegoria) do que com alguns procedimentos do hierofante no grande festival noturno. O estranho fenômeno da castração nos cultos à Méter não era só por conta do debulhar (mito) ou do cortar da terra (alegoria), mas trazia uma fascínio mais sublime relacionado à evolução do ser transcendente: o iniciado não pode mais gerar porque ele já chegou ao seu ápice em termos de procriação e agora precisa se estabilizar da forma mais segura possível para poder voltar às suas origens - além de representar uma tentativa de deter o fluxo de mudanças que conduziria a uma transformação do mundo a algo não mais ligado à natureza. 

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

julho 30, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 2

Os antigos cultos de mistérios não eram uniformes, havia diferenças importantes entre eles, com relação inclusive à sua organização social, mas nenhum se aproxima do modelo cristão de uma igreja ('ekklesia'), e muito menos se poderia falar de "religiões" separadas e autossuficientes. Ainda assim, de uma forma didática, podemos separá-los em três tipos principais de organização na prática dos mistérios: o praticante itinerante ou carismático; o clero pertencente/ligado a um santuário; e a associação de cultuadores na forma de um "clube" (o 'thiasos').

O primeiro, o itinerante carismático, possuía um estilo de vida mântico e místico. Tratava-se de um vidente e sacerdote andarilho, que lidava com purificações e iniciações. Nos papiros Derveni, ele é caracterizado como "aquele que torna sacra a habilidade" - um artesão da religião, ou seja, alguém que aprende o ofício de um mestre, de um 'pai' real ou espiritual, e depois trabalha sozinho, para seu próprio lucro, por sua conta e risco. Não havia o apoio de uma corporação ou de uma comunidade. Alguns exemplos seriam Apolônio de Tiana, Epimenides, e Empédocles. Nos antigos mistérios, o itinerante carismático era mais encontrado nos ritos de Dioniso e da Méter. Um documento antigo (210 AEC) dá ordens para que "aqueles que realizam iniciações para Dioniso no país" viajarem para a Alexandria para se registrarem e declararem "de quem eles receberam as coisas sagradas, até três gerações, e entregar o exemplar selado no hieros logos". Ou seja, eles deveriam saber quem era não só o seu "pai" espiritual, mas também o "avô" e o "bisavô". Quando Dioniso aparece disfarçado de um estranho da Lídia na casa de Penteu ("As Bacantes", de Eurípides), ele estaria oferecendo seu serviço de místico e executando milagres, dizendo ter recebido sua iniciação através de revelação direta do deus. No século III AEC, Mileto descreve que as mulheres que "realizam iniciações para Dioniso na cidade ou no interior" deveriam se reportar aos sacerdotes oficiais de Dioniso naquela cidade e pagar uma taxa. O culto à Méter Theon na Grécia também começou de uma forma similar, com especialistas itinerantes, conhecidos como 'metragyrtai' (mendigos da Mãe) que declaradamente se sustentavam com seu ofício sagrado. 
  
O segundo tipo, o clero de um santuário, era mais comum no Egito do que na Grécia, já que os santuários gregos não eram unidades econômicas independentes, eram mais algo ligado à pólis ou de propriedade familiar. Mas os oráculos do período arcaico e os santuários de Asclépio no período clássico se tornaram organizações bem sucedidas desse tipo. Os sacerdotes que oficiavam ali podiam ser claramente distinguidos como itinerante por terem uma estabilidade local e uma relativa segurança, mas ao mesmo tempo eles tinham que aceitar certa hierarquia. Havia santuários à Méter assim, como o de Pessinus, na Anatólia, onde existiam sacerdotes eunucos (os 'galloi'). Ser um dos 'galloi', além de ser um modo de vida reconhecido e lucrativo, fazia os indivíduos ficarem atados à sua deusa e a seu santuário para o resto da vida. Segundo os mitos contam, os Mistérios de Eleusis, na Grécia, só poderiam ser celebrados num lugar selecionado pela própria Deméter, caracterizando-o também como um culto ligado a um santuário específico. O termo 'adelphos' (irmão) era usado para aqueles que recebiam sua iniciação juntos, nem tanto em um sentido de afeto emocional (afinal, em Eleusis, centenas de milhares de pessoas eram iniciadas juntas), e sim mais no sentido de ser parte de uma espécie de clã.

O terceiro tipo, que pode ser chamado de "clube", era o 'thiasos' ou simplesmente 'koinon' ("comum"), ou seja, uma associação, uma "comunidade". Os detalhes diferem, mas essencialmente eles eram a união de iguais em torno de um interesse comum. Os indivíduos permaneciam independentes, na sua família e pólis, mas contribuíam com seu interesse, seu tempo, sua influência, e parte de sua propriedade particular, para aquela causa em comum. Esse tipo de associação tem um status legal e um lugar para reuniões (normalmente uma propriedade comunitária), mas não havia hierarquia estável e nem um líder carismático. Os devotos se dedicavam ao deus e a seus amigos iniciados (os 'symmystai'), num apego mútuo entre eles, realizando atividades comuns, sacrifícios em conjunto, refeição cerimonial, e procissões - que deixavam claro quem fazia parte do grupo. Existiam vários 'thiasoi' a Dioniso, embora muitas vezes dependentes de um fundador ou presidente rico, ou ligado a uma casa, porque a competição ('Agon') era estimulada para promover a honra ('timé') entre os 'symmystai' de um 'thiasos', honra esta premiada principalmente com generosas contribuições financeiras. Também os egípcios, quando emigravam para outras terras, fundavam uma espécie de 'thiasos' grego, na forma de associações de 'sarapiastai', 'isiastai' e 'anubiastai' (iniciados nos mistérios de Sarapis, Ísis e Anúbis, respectivamente). Nos mistérios de Mitra, não encontramos nem itinerantes carismáticos, nem 'thiasos' públicos, nem templos com clero, pois tudo se centrava numa iniciação realizada por clubes secretos (algo semelhante aos maçons, com graus hierárquicos de iniciação) e num número limitado de participantes (cerca de vinte membros); mas, sendo "clubes", podemos incluí-los neste terceiro tipo.


De qualquer forma, a unidade em todos esses grupos estava na ação e na experiência, e não na "fé" - no sentido de professar um Credo. O ritual não precisava de uma teologia explícita para ser efetivo. Mesmo que os órficos prescrevessem certo estilo de vida (como não ingerir ovos), que os mitraicos se identificassem com o seu deus, que os eleusinos evitassem comer o peixe salmonete, isso não era explicitado em nenhum tipo de Credo ou fórmula doutrinária. Eles também tinham a característica do segredo (afinal, eram Mistérios), então não tinham a intenção de propagar uma religião. Além disso, se um membro de um 'thiasos' quisesse deixar o grupo, ele poderia sair sem problemas, sem perda de identidade, sem medo de trauma, sem dramas e maldições. A ausência de demarcação religiosa e a consciência da identidade do grupo evitava qualquer fronteira rígida entre cultos distintos, assim como a ausência de qualquer conceito de heresia e de excomunhão. Os deuses não tinham ciúmes uns dos outros, eram mais como uma sociedade aberta. As pessoas podiam inclusive participar de vários cultos, como se sabe de uma sacerdotisa de Ísis que servia como 'iakchagogos' (a que conduzia a estátua de Iaco/Baco) no culto eleusino de Atenas e a filha de um sacerdote de Sarápis que atuava como 'kistophoros' (carregadora da cesta) a Dioniso. Isso não significava uma "conversão" tipo "queime tudo o que você cultuava antes", e sim um aprofundamento e extensão da sua natureza de devoção para uma nova intimidade com o divino/sagrado, tanto com aqueles com quem você já tinha familiaridade quanto com os que você passava a conhecer.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]


julho 28, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 1

Por conta de uma dúvida postada no grupo dos helenos no facebook sobre a Méter Theon, ou Magna Mater, pediram-me, em mensagem privada, para contar mais sobre suas "orgia". Originalmente, "orgia" (ὄργια, plural de 'orgion' - ὄργιον) eram ritos de êxtase característicos dos cultos de mistério gregos. 
"Diferentemente da religião pública ou das práticas religiosas do lar, os mistérios eram abertos apenas a iniciados, portanto 'secretos', e muitos aconteciam à noite. As orgias eram parte dos Mistérios Eleusinos, dos Mistérios Dionisíacos, e do culto à Cibele. Por serem secretas, noturnas, e não-documentadas, elas foram objeto de especulação e tratadas com suspeita, principalmente pelos romanos, que tentaram suprimir os bacanais em 186 AEC. Embora se pense que orgias envolvam sexo, a sexualidade e a fertilidade estavam relacionadas ao culto, e o objetivo principal das orgias era alcançar uma união em êxtase com o divino." (wikipedia
Para falar do assunto, usarei como fonte principal o livro de Walter Burkert, "Ancient mystery cults". Mas, antes de começar a explicar o tema, vamos primeiro desfazer alguns estereótipos e 'pré-conceitos' sobre os cultos de mistério:
1) "Os cultos de mistério são tardios, do final do período helenístico ou período imperial, conduzindo à Idade Média" - Não, os Mistérios de Eleusis, por exemplo, floresceram por volta do século VI AEC em diante. O culto à Magna Mater desde o período arcaico, o culto de Ísis em Roma era no século I EC, o culto mitraico no século II EC, e por aí vai.
2) "Os cultos de mistério têm origem e estilo oriental, é como uma espiritualidade oriental numa forma helenizada" - Não, ainda que a Magna Mater fosse a deusa frígia Cibele e Ísis fosse egípcia e Mitra iraniano, eles refletiam o culto de mistério que já existia em Eleusis e nos mistérios de Dioniso. Além disso, a Anatólia, o Egito e o Irã antigos eram mundos separados, não eram exatamente 'orientais'.
3) "Os cultos de mistério é uma busca pagã por uma espiritualidade mais elevada, que teria levado ao cristianismo" - Não, apesar de o cristianismo ter assimilado muito do paganismo e do pensamento platônico, não se pode dizer que os cultos de mistério eram algo predestinado a virar cristianismo, pois há diferenças radicais entre os dois sistemas.
4) "Os cultos de mistério são uma espécie de rito de passagem realizado num ambiente noturno" - Não, os mistérios antigos não eram ritos de puberdade em nível tribal, sua admissão não dependia de idade ou sexo ou classe, não havia mudança externa visível (só interiormente, na relação do iniciado com as deidades), podiam ser feitos repetidas vezes, e não eram obrigatórios (era escolha pessoal, não algo prescrito pela família ou pela tribo ou clã).
5) "Podemos falar em 'religiões' de mistério" - Nem sempre, pois os mistérios eram uma forma especial (e opcional) de culto, oferecido dentro do contexto maior da prática religiosa. É semelhante a falar sobre a peregrinação para Santiago de Compostela dentro do sistema cristão (não uma religião à parte). Portanto, "religião de mistério", como um sistema fechado, não seria um termo adequado. Porém, se você considerar "religião" como uma forma pessoal de culto, aí sim cabe falar dessa forma.


De onde vêm os cultos de mistério?
Os mistérios eram uma forma pessoal de culto, cujo pano de fundo é constituído pelas religiões "votivas" (a prática de fazer votos), algo que é tão comum que pouco se fala hoje em dia: fazer promessas de ofertas aos deuses em troca de seu auxílio em alguma questão. Cada objeto ofertado testemunha uma história pessoal, de ansiedade, esperança, prece, realização etc. Para a classe superior, o risco maior era a guerra, então se faziam votos para controlá-la; para a classe média, eram as incertezas nos negócios, os períodos de viagem maritma, os riscos no parto, e os sofrimentos recorrentes das doenças. 
Isso nos ajudava a lidar com as incertezas do futuro, a administrar o tempo através de um 'contrato', com a estrutura do "se... então...": Se a salvação da ansiedade e incômodo atuais ocorrer, se o sucesso ou lucro esperado for alcançado; então uma renúncia especial e definida seria feita, uma perda limitada em interesse de um ganho maior. Uma tendência à perpetuação também era presente, pois o mortal incluía na sua prece o pedido para que a deidade concedesse a ocasião para ele estabelecer outra vez o relacionamento ("me lembrarei de ti e de outra canção também"). Não raro, as inscrições votivas também se referiam a intervenções sobrenaturais na tomada de decisões, em sonhos, visões, ou ordens divinas, mencionando depois a experiência bem-sucedida.
Mesmo que nem todos os pedidos fossem 'atendidos' sempre, o fato é que a religião votiva provinha ajuda ao dar esperanças, socializar ansiedades e sofrimentos, encorajar o indivíduo a tentar mais uma vez, fazê-lo encontrar interesse e apoio dos sacerdotes e companheiros de culto. O voto era feito em público, a oferta pela realização era feita em público, e muitos se beneficiavam do investimento.
Mas, na religião votiva, "fé" (pistis) e "salvação" (soteira) não implicava em "conversão" no sentido cristão, ainda que um indivíduo pudesse mudar sua orientação e se voltar para um deus específico após ter seu pedido atendido por ele. Nesse caso, ele "incluía" a nova deidade, e não "substituía" a anterior, por isso não é uma "conversão". E a crença era de troca, não de uma "fé" em alguém que vai te ajudar sem você fazer nada além de acreditar. 

A relevância de se falar em religião votiva para os cultos de mistério é tripla:
1) A prática pessoal nos mistérios, em motivação e função, era paralela à prática votiva, pois era como uma nova forma de buscar salvação (salvação aqui no sentido vivo de "âncora", de "salvar dos perigos", "salvar das águas turbulentas" etc, não no sentido de salvar da morte em um mundo posterior), de buscar um contato mais íntimo e pessoal com a deidade, visando uma mudança de mentalidade através da experiência do sagrado.
2) O aparecimento de novas formas de cultos de mistério com novos deuses é exatamente o que se esperaria como resultado dessas funções práticas.
3) A expansão das assim-chamadas 'religiões orientais de mistério' ocorreu primeiramente como forma de religião votiva, com os mistérios às vezes formando apenas um apêndice ao movimento geral.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

dezembro 23, 2012

Formas de Devoção


Existem dois conceitos hindus que li num livro de bhakti yoga que servem para várias crenças religiosas e que trouxe para compartilhar com vocês.

O primeiro é com relação a como nos aproximamos da deidade. Diz-se que existem cinco tipos de "bhavas":

  • No Shanta, você se aproxima do deus com uma mente pacífica e plácida (é o nível mais elevado de 'bhava', o da paz). Exemplo: o personagem Bhishma no épico Mahabharata.
  • No Dasya, você se aproxima do deus como um servo. Exemplo: Hanuman no épico Ramayana, que era devoto de Rama.
  • No Sakhya, você se aproxima do deus como um amigo. Exemplo: Arjuna com Krishna no Mahabharata.
  • No Batsalya, você se aproxima do deus como um filho. Exemplo: Yosoda com Krishna.
  • E no Madhura, você se aproxima do deus como um amante. Exemplo: Radha com Krishna, humanos como Chaitanya Deva (santo hindu e reformista social), Jay Deva (poeta do Gita Govinda), Mirabai (santa hindu e poetisa), e o próprio Jesus que pregava o amor e falava da igreja como a esposa do cristo.

Apesar de termos exemplos literários de cada tipo, não precisamos utilizar só um deles, podemos ter uma relação com deus que se mistura a de um amante, um amigo, um filho etc. Mas, ainda assim, essa visão é útil para tentarmos observar como cada grupo se coloca. Poderíamos pensar que nas religiões afro se pratica mais o Batsalya, já que as pessoas dali são "filhos" de orixás. E serve também para analisarmos os nossos próprios helenos conhecidos. Será que Odisseu não se encaixaria no Sakhya em sua relação com Atena? E as/os amantes mortais (voluntárias/os) dos deuses não estariam praticando o Madhura? Já pensou com qual desses 'bhavas' você se identifica mais?

O outro conceito diz respeito aos caminhos de devoção. Existem seis tipos de "bhakti":

  • No Sravana, ouvimos, lemos, assistimos filmes sobre as glórias e manifestações da deidade. Assim como os muçulmanos acreditam que ouvir/ler o Alcorão ajuda alguém a se tornar devoto verdadeiro de Alá. É a melhor forma de 'bhakti' para as pessoas comuns. 
  • No Kirtana, cantamos, pois a poesia e a música têm um impacto na mente, que se afeta profundamente ao se cantar as glórias da deidade. Essa é uma parte essencial da religião sikh, e do vaishnavismo, no qual os devotos cantam o nome de Krishna no maha-mantra.
  • No Smarana, nos lembramos da deidade, com sentimentos divinos constantes e meditação contínua. É a forma mais elevada de 'bhakti'.
  • No Padasevana, servimos aos pés da deidade, como fez a deusa Parvati aos pés de Shiva e a deusa Lakshmi aos pés de Vishnu. Uma vez que não enxergamos os deuses, a alternativa seria servir aos pés de uma estatueta ou - melhor ainda - servir aos seres humanos e ao universo como uma manifestação de uma deidade escondida.
  • No Archana, prestamos culto à deidade através de um símbolo ou de uma estátua ou mentalmente. Nesse caso, existe o perigo de se degenerar para a idolatria e para um ritualismo mecânico.
  • E no Vandana, prostramo-nos (deitamo-nos) diante do símbolo ou da estatueta da deidade.

Para nós helenos, caberia-nos no princípio os tipos Sravana e Archana, depois procuraríamos desenvolver o Padasevana com os seres humanos (como uma 'xenia' aos mortais para refletir uma 'charis' com os deuses), sendo que poderíamos incluir também o Kirtana, e - claro - tentaríamos alcançar o Smarana. O Vandana seria relizado apenas com os deuses ctônicos.

Porém, que fique claro que a profundidade desses conceitos dentro do hinduísmo não é transferível para o helenismo, estou apenas utilizando-os de uma forma didática aqui. Até porque conheço apenas a definição de cada um, sem grandes implicações, portanto não se faz necessário sequer decorarmos esses nomes, uma vez que não pertencem à nossa crença.

Seria apenas o caso de refletirmos sobre o nosso tipo de prática de um modo um pouco mais comparativo "teologicamente". Espero que isso fique compreendido, e que essas informações que achei tão interessantes tenham sido úteis também para vocês.

E, já que estamos no ritmo da teologia comparada, vamos ficar com um pouco de Rumi (poeta persa muçulmano), que provavelmente praticava o Madhura:


"Ruínas
são lindas
quando tocadas
pelo Sol dourado.

Assim também, o coração partido
se torna lindo

como um espelho despedaçado captura
e expande dentro dos milhares 
um único

raio de luz..."

(Rumi, século XIII)


junho 05, 2012

Voa, voa, "brabuleta"...


"A asa é o elemento corpóreo que é mais assemelhado ao Divino, e a qual por natureza tende a se elevar bem alto e carregar o que gravita para baixo até a região superior, que é a habitação dos Deuses. O Divino é Beleza, Sabedoria, Bondade, e tudo o que é semelhante a isso; e por essas qualidades a asa da alma é nutrida, e cresce em ritmo acelerado; mas quando alimentada com o mal e a impureza e o oposto do que é bom, a asa desgasta-se e cai." (Platão, trecho de "Fedro")
Hoje estava vendo uns anéis em formato de asas e percebendo novamente como as pessoas só associam asas a anjos, como se estivéssemos cristianizando as imagens quando as ilustramos com asas. Para começar, até anjo vem do grego (angelos = mensageiro). Segundo, várias deidades gregas são representadas aladas: Eros, Psiquê, Nikê, Hermes, Hypnos, Íris... Terceiro, a simbologia das asas é muito mais antiga do que se imagina. A associação mais comum é da alma com asas e, em casos particulares, com borboletas. Então é desse mais geral até esse mais específico que vou recordar aqui: almas - asas - borboletas.

No Egito Antigo, uma ave com cabeça humana correspondia à alma de cada pessoa. Em concepções populares da África do Norte, o corpo possuía duas almas, sendo que uma seria o suporte onde a outra 'pousaria' na forma de um pássaro, abelha ou borboleta. Para os yacutes, tchuvaches e outros povos da Estônia, a alma sai pela boca de quem dorme, para viajar, sob a forma de um inseto ou borboleta. A maioria dos povos turco-mongóis acredita que a alma pode viver separada do corpo sob a forma de um animal, inseto, pássaro ou peixe. 

As asas nos lembram o alçar voo, a leveza, o alívio, a liberdade. Quando o xamã sai do corpo é nesse sentido de liberação e poder. As asas nunca são recebidas e sim conquistadas - através de ritos iniciáticos. Os taoístas acreditavam que só os que tinham a leveza e o poder de voar chegariam às Ilhas dos Imortais - o corpo sutil alçaria voo como um embrião de imortal; por isso seus hábitos seriam parecidos com os das aves. O Rig-Veda hindu diz que "a inteligência é o mais rápido dos pássaros" e um dos Bramanas diz que "aquele que compreende tem asas". No cristianismo, claro, os anjos são alados e o Espírito Santo é representado por uma pomba. Em suas escrituras, fala-se sobre as asas de Deus, as quais designam seu poder, beatitude e incorruptibilidade (vide, por exemplo, o salmo 16,8 "tu me protegerás às sombras de tuas asas"). E, se o homem é imagem e semelhança desse deus, ele teria suas próprias asas, mas as teria perdido ao pecar; caso se redima, as recupera para elevar-se ao divino. Como vimos na citação do início da postagem, essa ideia cristã muito provavelmente teve origem no Fedro de Platão. Já as asas dos calcanhares de Hermes simbolizaria o viajante noturno, o voo onírico, o instante dinâmico. Os santos budistas também tinham essa ideia de 'pés ligeiros' a viajarem pelos ares; e os contos de fadas também falam das botas de sete léguas. As asas nas omoplatas lembram espiritualização, as nos calcanhares lembram dinamismo. Na literatura, tanto o poeta quanto o profeta desenvolveriam asas no momento de sua inspiração.

Quanto ao simbolismo da borboleta, podemos pensar na saída da crisálida como uma saída do túmulo, uma ressurreição em outra forma, desta vez alada: a alma liberta de seu invólucro carnal. Entre os astecas, a borboleta é um símbolo da alma que escapa pela boca de quem está morrendo. Se uma borboleta brinca entre as flores, eles entendiam como a alma de um guerreiro morto em batalha, o qual acompanhava o sol até o meio-dia e depois descia à terra em forma de colibri ou borboleta. No Zaire central, fala-se de uma analogia da vida humana ao ciclo da borboleta: lagarta pequena na infância, lagarta grande na maturidade, crisálida na velhice, casulo no túmulo, borboleta quando alma liberta, e ovos de borboleta quando reencarnando. Entre algumas populações turcas na Ásia central, as quais sofreram influência iraniana, acreditava-se que os defuntos poderiam aparecer na forma de uma mariposa. Nos afrescos de Pompeia, Psiquê era representada como uma menininha alada, semelhante a uma borboleta - talvez também porque a mesma palavra grega "psique" servia para significar tanto "alma" quanto "borboleta".

Quando uma borboleta passa por mim, sempre me vem a imagem de alguém que já morreu, então considero uma saudação que aquela pessoa me faz, através daquelas asinhas que farfalham ao meu redor. Não sei vocês, mas eu reconheço a figura das asas como algo muito mais profundo e anterior à simples associação aos anjos. E espero que todos tenham essa liberdade de desenhar asas nas almas sem sentirem que estão sendo influenciados por uma crença que na verdade foi antes influenciada pela nossa. Fora que a filosofia de Platão fica acima de qualquer filiação religiosa...

Assim termino esses 'pensamentos em voz alta', e adejo meus cílios em um beijo de borboleta a todos que aqui me leram.


(PS.: O título à moda de Chayene da novela fica só por publicidade. *rsrs*)

maio 15, 2012

Até os contos de fadas são helenos

Duas traduções em uma, a primeira de uma notícia recente em grego e a segunda da wiki em inglês:

Chapeuzinho Vermelho tem 2.600 anos e... é grega!
Antropólogos e biólogos uniram forças para decidir a origem dos contos de fadas e focaram a atenção nas variações transferidas de uma cultura para outra. Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, e principalmente Chapeuzinho Vermelho e outros heróis da infância atraíram e mantiveram a atenção dos cientistas sobre eles.

A conclusão, que veio de um extenso processo, é de que cada parte do enredo vem de uma fonte comum e única.

O Dr Jamie Tehrani, antropólogo da Universidade Durham, e sua equipe cuidadosamente examinaram 35 versões conhecidas da Chapeuzinho Vermelho. A narrativa europeia apresenta o relato de uma menininha, cujo lobo mau se disfarça como sua vovó favorita e tenta lhe fazer mal. Os chineses trocam o animal perigoso e astucioso para um imenso tigre. No Irã, por causa do preconceito religioso, o caso é estrelado por um menininho.

Então, ao contrário da visão de que o conto que acompanha os pequeninos em todas suas refeições infantis surgiu no século XVII, Dr Tehrani argumenta fortemente que todas essas mudanças tem um ancestral comum de mais de 2.600 anos.

"Na época, os famosos e amados contos de fadas se tornaram algo como um corpo humano. O relato mais antigo encontramos nas fábulos de Esopo, de 6 séculos AEC. Temos certeza de que em algum lugar jaz a razão para esse ancestral supostamente descender de 'O Lobo e as crianças'."

De acordo com a pesquisa, então, o tataravô de Chapeuzinho Vermelho foram todos os contos de Esopo!

Quem era Esopo?

Esopo era um antigo contador de histórias grego, um dos principais a "ensinar mitologia". As evidências anedóticas sobre sua vida não são nada práticas e muitos ainda duvidam de sua existência. Os mitos eram sempre orais, então nem mesmo se salvou um registro escrito deles. Esopo apareceu no século VI AEC e provavelmente nasceu de uma família de escravos em 625 AEC na Frígia. Sua morte provavelmente foi em Delfos, quando em 560 AEC foi enviado para lá pelo Rei Croesus para consultar um oráculo. Ele teria sido acusado de heresia e sentenciado à morte, sendo destruído no topo do monte Parnaso.

Os contos de fadas armazenados em nossos cérebros...

O professor alemão da Universidade de Minnesota Tzak Zipes, que devotou muito de sua vida procurando a origem dos contos de fadas que fascinaram todas as crianças a despeito de raça, religião e origem, fala sobre a excelente qualidade dessa pesquisa: "Acho que todos esses contos podem ajudar os pais a entender como explicar o risco e o aumento dos atos de violência. É claro que as adaptações são diretamente relacionadas ao nosso meio-ambiente. Por essa razão, toda a informação é transferida de geração a geração e armazenada em nossos cérebros. Dessa forma, os mitos de Esospo, que 'viajaram' pelo mundo e foram adaptados às épocas modernas, ainda estão entre nós! "
(Fonte: http://www.thebest.gr/news/index/viewStory/12343225/04/2012, tradução da Álex)


Cinderela também é grega
"Rhodopis" (Ροδώπις) é a versão antiga e original do conto da Cinderela. Registrada pela primeira vez no século I AEC pelo historiador grego Strabo, ela é considerada o mais antigo relato de Cinderela.

# Enredo:
Rhodopis (a "de bochechas rosadas"), uma escrava grega, trabalha na casa de seu mestre egípcio. Embora gentil, seu mestre mais velho passa a maior parte do tempo dormindo, e - portanto - não fica sabendo do tratamento ríspido dado à escrava pelas mãos de suas outras servas. Por Rhodopis ser bela e estrangeira, as outras caçoam dela e lhe dão ordens pela casa.
Depois de seu mestre ver Rhodopis dançando habilmente sozinha, ele lhe dá um par de sandálias trançadas de rosas. As outras servas ficam ressentidas desse tratamento dele e tratam Rhodopis de forma mais severa do que antes.
Um dia, o faraó Ahmose II convida o povo do Egito a uma celebração no rio Mênfis (Memphis). As outras servas impedem Rhodopis de ir com elas, dando-lhe uma longa lista de tarefas para completar.
Enquanto ela está à beira do rio lavando roupa, suas sandálias se molham e ela as coloca ao sol para secar. De repente, o falcão Hórus se arremete abaixo, agarra uma das sandálias, e voa com ela.
Rhodopis guarda a outra sandália em suas vestes.
Durante a celebração no Mênfis, o falcão solta a sandália no colo do faraó. Percebendo que era um sinal de Hórus, ele decreta que todas as donzelas do reino devem experimentar a sandália, e que ele se casará com aquela cujo pé couber nela.
A busca do faraó pela dona da sandália o leva até a casa de Rhodopis. Embora ela esteja cavalgando quando vê o barco do faraó, ele a vê e pede a ela para experimentar a sandália. Depois de demonstrar que cabe nela, ela puxa o outro lado do par, e o faraó declara que se casará com ela.
Esopo tem uma breve menção nesse relato. Quando ela era uma escrava antes de ir para um lar egípcio, Rhodopis teria conhecido Esopo, que lhe contou muitas histórias.

# Contexto histórico:
O geógrafo grego Strabo (64/63 AEC a +/- 24 EC) foi o primeiro que relatou o conto da garota greco-egípcia Rhodopis, considerado como a primeira variante do conto de Cinderela. Outro relato de Rhodopis sobreviveu nas escritas do autor romano Aeliano (175 - +/- 235 EC), mostrando que o tema de Cinderela continuou conhecido pela antiguidade. Talvez as origens da figura desse conto de fadas pode ser traçada a uma cortesã trácia de verdade, Rhodopis, que viveu na época do faraó Amasis (570-536 AEC) e conheceu o antigo contador de histórias Esopo. Rhodopis é também a esposa do épico Asam, que morreu e ressuscitou e recebeu uma nova esposa chamada Rhodopa.
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Rhodopis, tradução da Álex)

[Imagem]: pintura em prato grego de 490-480 AEC