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outubro 12, 2017

Pontes e pontífices

Tudo bem sermos uma religião filosófica de mentes pensantes e espíritos livres, mas isso não significa que não precisamos de estrutura. Estrutura traz estabilidade e organização, o que é melhor que ter um caos. 

A ideia de ser livre não precisa nos fazer rejeitar qualquer tipo de autoridade, pois até mesmo pessoas unidas com um propósito é algo parecido com uma instituição. Uma comunidade é uma conexão, construída com paciência, planejamento e estrutura. Você não perde sua autonomia pessoal se procurar orientação de um grupo ou de uma pessoa mais experiente. Afinal, os outros só podem fazer isso: orientar; mas a decisão sobre o que fazer é só sua. 

Tem gente que acha bonito e rebelde afirmar que só os deuses podem lhe dizer o que fazer. Mas a questão é se essa pessoa tem o filtro certo para saber qual mensagem vem dos deuses e qual não vem. E a outra questão é: se você pretende ajudar os outros, precisa saber/aprender a ser ajudado e a deixar seu ego de lado. 

Para conseguir isso, precisamos reconhecer quando é melhor envolver outra pessoa. Estar todos no comando ao mesmo tempo ou não estar ninguém no comando normalmente não funciona. Podemos ter nossa individualidade e ao mesmo tempo servirmos os outros, sermos livres e ao mesmo tempo reconhecermos que outra pessoa tem melhor capacidade de nos ajudar a decidir. 

Nesses casos, a autoridade dos outros não está sobre a gente e sim sobre o objetivo que todos estamos querendo alcançar juntos. Sem isso em mente, não vamos conseguir realizar muita coisa. 

Xenócrates dizia que o Universo é composto de 3 partes: Sol com as estrelas, Terra com suas águas, e Lua com seus ares. A do Sol e estrelas seria o lugar onde os deuses habitam, a da Terra e suas águas seria o lugar onde os homens habitam, e a da Lua e ares lunares seria onde os daimones habitam, e estes são similares tanto aos deuses quanto aos homens em sua natureza. Sem os daimones, não haveria comunicação dos deuses com os humanos, assim como sem a lua o universo se desuniria. 

Ou seja, o terceiro elemento intermediário é necessário para essa comunicação. Zeus tinha Hermes como seu mensageiro, Hera tinha Íris. Perséfone é escoltada por Hécate ao sair e entrar do Hades. Hécate, aliás, é vista como tríplice exatamente por ser a deusa que intermedia dois outros elementos (reinos, mundos, seres etc). A fronteira é um terceiro elemento que une os outros dois e que possibilita - como uma membrana seletiva - que esses dois se comuniquem de forma efetiva. 

Também por isso Hécate esteja associada com a Lua. Dois séculos antes, quem era associada à Lua era Ártemis. E Selene era a lua em si. A Lua era uma estrela terrena ou uma terra estrelar, sendo assim um domínio de Hécate - que é tanto celeste quanto ctônica. 

Hécate é também a senhora e rainha dos daimones. Os daimones são espíritos imortais mas não divinos, que cuidam dos humanos. Eles tomam conta dos oráculos, comparecem aos ritos místicos, salvam os homens na guerra ou no mar, punem os transgressores, entre outras coisas. 

Mediadores são importantes. Recusar a ação deles para “não ter intermediários” não é rebeldia ou autonomia, é infantilidade e teimosia, sem falar em falta de humildade. Isso pode atrasar seu desenvolvimento em vez de demonstrar liberdade. 

Então vamos aceitar que somos limitados e aproveitar a disposição de quem pode nos ajudar a alcançar os objetivos que todos temos em comum. Não é vergonha nenhuma isso, e nem dependência ou insegurança, mas sim confiança, consideração e maturidade. 

Isso demonstra que você reconhece e é grato pelo trabalho do outro, seja ele um orientador, um deus ou um daimone. 

Mas é bom lembrar que um dos nossos maiores princípios éticos é o equilíbrio (métron, a justa medida). Logo, também não podemos deixar as decisões nas mãos do outro, precisamos ser responsáveis. O outro só pode nos orientar, mas é a gente que resolve o que fazer e assume a responsabilidade sobre o que decidiu. 

Com os deuses, por exemplo, eles fazem o que a gente pede/decide, e a gente que lide com as consequências. Já dizia Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas será sempre refém das suas consequências.”

Portanto, o melhor é ter alguém que nos ajude a pensar antes de escolher. E aceitar isso não desconfigura sermos de uma religião de liberdade, autonomia e inteligência. Não confie apenas no seu próprio julgamento, ele também pode falhar às vezes. 

julho 16, 2017

"Torna-te quem tu és." (Píndaro)


As teorias psicológicas geralmente carregam uma visão bem traumática dos primeiros anos de vida, tornando nossas lembranças e a narrativa da nossa história pessoal algo infiltrado por essa ideia, que nos faz pensar na infância como uma época de calamidades desnecessárias e causadas pelos outros, as quais teriam moldado nossa personalidade de forma errada. Mas nossas vidas são mais prejudicadas por essas ideias do que pelos traumas em si. Nossas vidas são determinadas não tanto por como foi nossa infância, mas por como aprendemos a imaginá-la. Olhamos para a vida como uma narrativa cronológica e sem um roteiro, transitando entre ressentimentos sobre o passado e ansiedades quanto ao futuro. 

Para sairmos dessa identidade de produto social determinado por eventos aleatórios e reações estranhas, precisamos buscar não o sentido da vida em geral, mas uma razão pessoal para estarmos aqui. A beleza, o mistério, a mitologia por trás da nossa vida em particular. As teorias que misturam genética e meio-ambiente, inato e aprendido, hereditário e social, se esquecem de falar sobre o que é aquela coisa específica que faz você ser você, que vai além de ser apenas um resultado entre essas duas forças. Quanto mais dissermos que somos produto dos nossos cromossomos aliado ao que nossos pais nos fizeram numa época que já passou há muito tempo, mais nossas biografias vão ser todas parecidas com a história de uma vítima e bastante acidental. Mesmo que depois você vire o outro lado da moeda da vítima, que é a do heroi que sobreviveu, venceu e "se fez sozinho".

O cronológico não importa tanto. Não importa qual pincelada o pintor deu primeiro, o que você vê já é a arte pronta. Você é uma imagem completa, no agora. Como disse Picasso, "eu não me desenvolvo, eu sou". Essa sua essência pode ser ignorada o quanto você quiser, mas um dia vai sair e te tomar. Às vezes sua essência não aparece quando criança, porque você não está pronto. Por exemplo, pode ser que você vá ser um escritor, mas que nunca sentiu urgência em escrever quando novo, porque antes de criar você precisava aprender, olhar, ler, sentir, cheirar, viver, para não escrever besteira. Mas podemos ter percepções disso desde a infância sim, então seria bom tentar lembrar mais dessas percepções do que dos eventos traumáticos dessa época. São dicas, intuições, sopros, impulsos, estranhezas, urgências, que perturbam a vida natural e que estranhamente rotulamos de sintomas. Mas, para brincar com a linguagem, esse "sim, toma" é um presente pra você. Há uma razão para essas coisas te escolherem. E o início da palavra sintoma vem do grego "sym" (combinação, conjunto). Não estamos sozinhos. 

A psicologia é sim uma ciência, mas seu nome começa com "psyche", "alma" em grego, então ela porta muito do que seria identificado como espiritual ou religioso. Dizer que "o coração tem razões", que "há algo de inconsciente nas nossas intenções", que "nada acontece por acaso" etc, tudo isso é convencional e aceitável. E quando pensamos que estamos aqui por um motivo que não nos deixa morrer quando caímos da escada ou quando nos enchemos de vírus e bactérias? Podemos chamar isso de instinto, de autopreservação, de sexto sentido, de consciência subliminar, de energia universal ou de anjo da guarda - todas essas coisas são invisíveis e as sentimos presentes. Mas a sociedade prefere que você compre a história do sobrevivente que se fez sozinho do que a história de que você é amado por uma providência que guia você e de que você está aqui por ser necessário no mundo. E não estou falando necessariamente de deus/es externo/s. 

No mundo atual parece que estamos mais distraídos do que motivados. Procuramos coisas para fazer para evitar pensar, e não coisas para nos inspirar a criar. Porque dá trabalho descobrir sua missão e cumprir as exigências que vem com ela. Estamos cada vez mais fugindo de ser responsáveis, por isso também a teoria de culpar a infância é bem cômoda. Ora, se a cada 7 anos todas as nossas células do corpo se renovam, por que eu vou deixar que me definam pelo que me aconteceu na infância? O que eu passei pode explicar muito do meu comportamento hoje, mas não mudou quem eu sou ou o que eu acredito que vim fazer no mundo. 

Em vez de sermos apenas "estudos de caso", deveríamos ler a história de cada um além do eixo biológico-social, talvez algo mais parecido com o filosófico ou antropológico, mas sem o etnocentrismo típico. Podíamos realizar nossa análise menos em estatísticas e diagnósticos e mais em imaginação e mito-poesia. Assim veríamos as perturbações na infância menos como problemas de desenvolvimento e mais como emblemas que revelam muito do chamado individual, da descoberta da importância que tem aquela vida em particular. O maior pecado da psicologia é ignorar a beleza, a apreciação estética de cada história de vida. Cada mudança de situação na vida tem um sentido e uma interpretação, mas também tem uma beleza. Falar apenas em estruturas cognitivas e afins não tem graça. E ver a beleza em algo nos faz amá-lo. Ficar apenas procurando "problemas" torna a todos ansiosos - terapeutas, pais, crianças, pesquisadores. 

A descoberta do nosso chamado é algo que ao mesmo tempo ancora lentamente e voa bem rápido. É como uma árvore que tanto cresce para cima quanto se enraíza mais fundo. Quanto mais nos afastamos dele, mais nos despersonalizamos e menos vivemos. Viramos estatística dentro de um grupo. Sei que é melhor ser sobrevivente do que ser vítima, mas melhor que sobreviver é viver plenamente. Além de me identificar com milhares de pessoas que passaram pelas mesmas coisas que eu, também posso encontrar o que me torna única

Essa busca pela diferenciação é o que talvez nos faz mudar coisas visíveis e aparentes, como fazer uma tatuagem, adotar um novo estilo de se vestir etc. São coisas externas que expressam a necessidade de algo interior que nos defina. Quem sou eu especificamente? Algo que vai muito além da minha genética e acontecimentos do passado e vivência social. Achar esse algo é que são elas. De qualquer forma, na sua procura pelo autoconhecimento (que é o mote tanto da terapia quanto do helenismo), é melhor ir por esse caminho atemporal do que percorrer mil vezes aquela narrativa cronológica sem roteiro, que pode trazer muitos avanços mas que raramente nos deixa satisfeitos. 

Como ensinava Píndaro, primeiro precisamos descobrir quem somos, para depois agirmos de acordo com o que descobrimos.

Independente do nome que você lhe dá (gênio, daimon, anjo da guarda, ochema, fortuna, sorte, jinn, ka, ba, animal de poder, eu-superior, self, chi, ruah, pneuma etc), já pensou um pouco sobre qual o seu chamado?

novembro 20, 2016

Tirania, Trump, Temer, Textinho...

Vamos olhar o presente com a mente de uma época que nos ensinou a pensar? 


Na antiguidade, a tirania referia-se a governantes que adquiriam o poder através de meios ilegítimos, normalmente com o apoio da pobreza rural, embora nem sempre o tirano fosse um bandidão. Por exemplo, Heródoto descreveu como Pisístrato tomou o poder em Atenas no século VI AEC - simulando uma tentativa de assassinato e convencendo as pessoas de que precisava de guarda-costas, mas relata que o mesmo administrou o Estado de forma constitucional e organizou os assuntos públicos com propriedade e bem. Pisístrato era um tirano que não era ruim. Então "tirano" sem sempre foi um insulto. 

Ainda assim, Platão criticou a tirania, dizendo ser uma forma maligna de governo. Não pela forma em que os tiranos tomavam o poder, mas por causa da alma distorcida dos mesmos. Eles não amavam a sabedoria e a justiça, e sim a aprovação do público e o prazer físico. E, como esse tipo de gratificação é efêmera, os tiranos nunca estavam satisfeitos, procurando cada vez mais prazer até decair à loucura. Hoje costuma-se pensar nas formas de governo como estruturas institucionais, mas - para Platão - a tirania era uma condição psicológica. 

Sócrates argumenta que a alma tirânica tende a surgir nas democracias. Essas almas são especialmente comuns entre os filhos dos homens proeminentes que não desfrutam de tanto prestígio quanto acham que merecem. Os tiranos adquirem o poder quando conquistam a aliança dos pobres, geralmente se voltando contra sua própria classe elitizada no processo. Os paralelos com o ano de 2016 são bem evidentes. 

Apesar de criticar os tiranos como os homens mais infelizes da terra e a tirania como a pior forma de governo, Platão parece ter se perguntado se um governo tirânico poderia ser utilizado para bons propósitos. Plutarco conta que Platão aceitou um convite da cidade siciliana de Siracusa para educar o tirano Dionísio, mas a experiência deu errado: Dionísio expulsou Platão de Siracusa e deu um jeito de vendê-lo como escravo em vez de devolvê-lo a Atenas.

Outros filósofos gregos imaginaram se os tiranos poderiam ser bons governantes apesar dos riscos. Xenofonte, por exemplo, escreveu um diálogo entre o sábio poeta Simonides e o tirano Hiero. Quando Hiero reclama de ser infeliz e solitário, Simonides argumenta de que ele poderia ganhar a estima que ele anseia praticando justiça e governando para o bem comum, assim tanto os desejos do tirano quanto as necessidades da comunidade seriam satisfeitos.

Aristóteles também ofereceu sugestões para a reforma da tirania. Para ele, o tirano deveria se apresentar aos seus súditos não como um tirano e sim como um criado e rei. Se ele não governasse como um tirano, seu poder duraria mais. Aristóteles percebeu que argumentos morais não convenceriam um tirano, por isso apelou para o excessivo desejo de ser estimado que o tirano tem. 

As reflexões gregas sobre tirania emergem quando se fala de uma liderança decisiva em períodos de crise, como se um pouco de tirania às vezes fosse necessária para salvar a democracia. Mas isso só revive o antigo dilema: poderá um governo desses ser o meio para atingir os finais certos ou ele - que já nasce de uma maneira corrupta - corromperá todos que participam dele?

Apesar de reconhecer o lado apelativo da tirania, os gregos nos lembram que os governantes com almas distorcidas são perigosos. Mesmo que eles anseiem pelo apoio das pessoas, os tiranos se preocupam apenas consigo mesmos. Na sétima carta que Platão escreve depois de voltar de Siracusa, ele argumenta que, com relação ao Estado, esteja ele sob um único governante ou mais de um, quando um governo é conduzido metodicamente e da maneira correta, ele pede conselho sobre qualquer detalhe na política, e é função de um homem sábio aconselhar tais pessoas. Mas, ainda segundo Platão, homens sábios e bons cidadãos deveriam se recusar a colaborar com governantes que desprezam a lei e a justiça

De algo que já começa de forma ilegítima e anti-democrática não se pode esperar muita coisa boa. 

junho 28, 2015

Patronato parte 4

Do texto "Patron Gods & Polytheism" de Ian Corrigan, com tradução resumida e adaptada minha:
Na minha opinião (Ian), a ideia de que os praticantes individuais tem dos deuses 'patronos' entra no neopaganismo através de duas ou três direções. Primeiro, do costume cristão ortodoxo de recebermos um santo padroeiro no batismo. Isso não parece ter raízes pagãs, mas está arraigado na imaginação ocidental. Segundo, das práticas de patronagem das Religiões Tradicionais Africanas no novo mundo. Costumes como a cerimônia vodu haitiana do "lave tet" e o "coroamento" da santeria (semelhante ao candomblé) apresenta ao cultuador como sendo naturalmente e intrinsicamente alinhado com um dos Poderes daquele sistema. O iniciado determina, através de adivinhação e ritual, quem é o 'Deus de Cabeça' e ritualmente reconhece esse relacionamento. O espírito (ou orixá) então se torna seu 'deus' pessoal de trabalho do iniciado, embora ele ou ela possa interagir com muitos outros espíritos.

Um dos problemas ao traduzir estudos sobre as religiões antigas para trabalhar no culto moderno é determinar quais dos inumeráveis Seres Sagrados devem receber nossa atenção. Nos aproximamos de um panteão étnico, fazemos nossas leituras, e começamos a fazer ofertas. Os antigos devem ter tido esse problema também, e podemos perguntar como eles resolviam isso. O foco em deidades específicas parece ter vindo de várias direções – talvez especialmente de família e casta, de profissão e de localização. Todos esses podem nos dar algum guia para nossas escolhas modernas, embora estejamos em desvantagem pela cultura que nos cerca não ser politeísta. Não iremos herdar os deuses da família, nem ter deidades locais cujos festivais sejam norma da comunidade. Mas ainda podemos tirar alguma referência da nossa carreira e escolhas artísticas na vida, e é isso o que muitos fazem hoje em dia.

Quando eu (Ian) comecei, eu me fixei na ideia do patronato, da pessoa escolhendo ou sendo escolhida por uma deidade específica que se tornaria a deidade do seu altar, da sua casa, do seu trabalho... Experimentei métodos drudas com roteiros e materiais me guiando, mas em alguns anos os problemas com aqueles modelos se tornou óbvio. Primeiro que o método era avançado demais para novos alunos, que desconheciam sobre meditação e rituais. Segundo que alguns praticantes se apegavam ao modelo e estancavam naquilo, tendo o tipo de resultados que podemos imaginar: se tornavam reais devotos de uma deidade em particular, como uma espécie de henoteísmo, com pouca vontade de cultuar os outros deuses além do patrono - e isso era inconsistente com o que conheço de politeísmo.

Isso é típico de espiritualidades auto-orientadas. A maior diferença entre nós e os sistemas das Religiões Tradicionais Africanas é a maneria pela qual os patronos são escolhidos. Nesses sistemas, isso é feito por uma autoridade externa – pela adivinhação de um sacerdote. A decisão é amarrar o iniciado independente de como ele ou ela "se sente" com o resultado. Eu entendo que mudanças e correções não passam despercebidas, mas em geral o fato é que esse patronato é imputado, não escolhido.

Não conheço nenhum sistema neopagão que esteja pronto para administrar tal coisa. Os sistemas divinatórios druídicos geram apenas indicações de vários deuses e espíritos como orientação de curso. Não tem um sistema fixo assim no ocultismo ocidental ou mesmo no paganismo. E mais, não há nenhuma linhagem ou fonte de autoridade aceita que poderia tornar as pessoas dispostas a aceitar a decisão de uma outra.

Depois de talvez meia dúzia de anos trabalhando com o modelo original, os druidas da ADF formalmente mudaram a natureza do requerimento. Em vez de prescrever a patronagem, começamos falando sobre o desenvolvimento do culto no lar. Assim focamos nas práticas primeiro, e a exigência de ter um patrono conhecido foi retirada. Essa história da ADF reflete o desenvolvimento da ideia do patronato na comunidade pagã em gearl. Ainda há um verdadeiro movimento de devoção henoteísta, mas essa exclusividade de cultuar só os patronos não reflete a prática da maioria dos politeístas tradicionais.

É necessário um equilíbrio entre intimidade e utilitarismo. Nós desenvolvemos alianças e amizades entre os espíritos através de um longo e focado trabalho. Nosso 'culto doméstico' é uma impressão única da nossa história e expressão espirituais. Muitas pessoas mantêm um relacionamento central com bem poucos deuses por muitos anos. Porém, para novos estudantes, há frequentemente um período de transição, e um sentimento de ser 'passado' de um deus pro outro.

Nenhum método formal de assegurar a patronagem se tornou aceito por todos no politeísmo moderno, e nenhum método adivinhatório ou autoridade sacerdotal apareceu também. Ainda assim, o assunto da patronagem continua a nos permear. Muitos novatos perguntam "como descubro meu patrono?" e alguns graus de confusão ainda existem. Claro que muitos chegam de sistemas religiosos que já possuem suas regras e aí se deparam com a noção de que estão livres para fazer como quiserem. A partir desse momento, podemos apenas dar algumas dicas, tais como:

• Seu caminho é só seu, mas o progresso é mais fácil em caminhos sinalizados. Escolha um sistema e trabalhe nele por pelo menos um ano, de preferência três. Ele vai se adaptar com o tempo, mas comece com um esboço.

• Escolha uma ou duas culturas antigas nas quais focar sua leitura e experiências. Comece, talvez, com as descrições dos deuses nos mitos, mas esforce-se para ler sobre os modos antigos de vida, ouvir a música daquela cultura etc.

• Monte um altar e comece a cultuar. Os espíritos não costumam falar com você ao menos que você fale com eles antes. Há muitos lugares para encontrar instruções em como começar. Se você está em dúvida de para quem fazer ofertas, há vários modelos de ofertas gerais a um panteão. • Abra seu coração. Trabalhe em habilidades meditativas e deixe as ideias das suas leituras e trabalho-ritual permearem isso. Nem todo mundo se volta para um deus específico tão rápido. Coloque muitos deuses daquela cultura no seu altar, os que você quiser, e trabalhe com eles enquanto estuda.

• Se você se ver com uma inclinação óbvia para um deus ou espírito, vá em frente. Resista à exclusividade, mas permita uma ênfase, e observe seu coração e os indícios/sinais. Use adivinhação também.

• Não resista à mudança, mas não confunda um interesse momentâneo com um chamado. Uma vez que você estabelece trabalhar com um aliado, mantenha isso mesmo se começar algo novo, tudo de acordo com o seu entendimento, claro.

• Depois de um ano ou três desse tipo de trabalho, é provável que você tenha um senso de quais deuses estão no centro da sua constelação pessoal de culto. Depois de mais uns nove anos, as coisas podem ser ou não diferentes. Não se preocupe, nosso trabalho muda de forma como a margem de um rio. Você já viu uma, né?

Uma coisa que me agrada é que muitas religiões neopagãs estão experimentando várias abordagens e mudando e respondendo aos resultados desses experimentos. Que continuemos assim! Ergam seus altares!
( http://www.patheos.com/blogs/intothemound/2015/06/patron-gods-polytheism.html )


A minha intenção ao trazer esse texto do site do Patheos é - além de reforçar a questão do politeísmo x henoteísmo (ou duoteísmo) - também porque há pessoas que estão indo buscar respostas sobre o patronato em sistemas africanos que sincretizam com o helenismo, e isso não é bom, porque são dois sistemas sendo misturados. Fora que "oráculos" afros podem errar seu "orixá" - já escutei histórias assim, e no helenismo o patrono se descobre, não se impõe, quem te conhece melhor é você ("conhece-te a ti mesmo"). Como o autor fala no primeiro item dos marcadores, "escolha um sistema e trabalhe nele". Decida se você vai ir pelo reconstrucionismo ou por outra abordagem. Misturar só pode complicar as coisas, ainda mais para quem está no começo. 

O ideal é centrar no culto doméstimo, na prática por alguns anos, depois você vê se foi criado ou não um relacionamento de patronato, o qual nem sequer é obrigatório. As pessoas que chegam no politeísmo sem um 'background' de ter "santo padroeiro" ou "orixá de cabeça", elas não costumam sentir falta de ter patronos, e isso de certa forma é bom. 

Apesar de termos feito quatro postagens sobre o patronato, no fundo o fizemos justamente para retirarmos essa preocupação com a patronagem, para mudarmos nosso foco para algo mais politeísta mesmo. Se não existe uma resposta fixa sobre patronato no nosso sistema, deve ser justamente porque ela não seja tão fundamental. Não é para buscar em outro lugar, e sim para ficarmos mais abertos a um número maior de deuses. Como o autor diz, "essa exclusividade de cultuar só os patronos não reflete a prática da maioria dos politeístas tradicionais". Então espero não precisarmos ter mais ansiedades com relação a essa questão... (mas, se você ainda tiver, pode nos chamar pra conversar).

;)

junho 27, 2015

Pelo amor e pelo afeto

Falando como alguém que tem estado próxima a Atena e Ártemis, e em concordância com muitos mestres espirituais de várias culturas - que dizem que a prática do sexo alimentaria o nosso apego aos prazeres materiais e que precisamos canalizar nossa energia sexual para algo mais sublime -, venho aqui defender o afeto. Qualquer prática sexual (homo ou hetero) poderia complicar a vida espiritual sim, mas não podemos dizer o mesmo sobre o amor. A homoafetividade não atrapalha em nada a vida espiritual (a heteroafetividade também não). E tenho certeza de que o desrespeito, a discriminação e o ódio, esses sim são bem mais prejudiciais à realização da excelência. 

Os hindus falam de três modos da natureza: o modo da ignorância, o modo da paixão e o modo da bondade. Ora, é fato de que as pessoas que discriminam, sentem ódio e preconceito, estão no modo da ignorância, o que é bem pior do que estar no modo da paixão (com os desfrutes diversos do nosso apego aos prazeres, sejam eles de que orientação forem). E, se é difícil vivermos sob o modo da bondade, se já vamos mesmo nos envolver em algo que nos distraia da caminhada espiritual, se vamos ter uma vida sexual ativa, então que seja com alguém com quem temos afeto, com quem amamos de verdade. É melhor e mais evoluído estar no modo da paixão do que no da ignorância que acha que o 'eu' é separado do 'outro'. Essas pessoas preconceituosas estão mais longe da iluminação do que as pessoas movidas pelo desejo ou pelo simples afeto por quem quer que seja.

A conquista destes últimos dias trata do casamento igualitário, do direito que as pessoas têm de registrarem que se uniram afetivamente a quem elas amam. Se depois disso elas vão pra cama e o que elas fazem em quatro paredes é indiferente para os outros, só diz respeito a elas. Isso é algo que o povo do modo da ignorância precisa entender. Nenhuma religião pode pregar contra o amor e o afeto. E nenhuma também deveria se intrometer na vida íntima, já que o caminho evolutivo é pessoal, mas, ainda assim, se vão pregar contra algo, que seja contra o sexo em geral, não contra o afeto LGBT. ("Ah, mas é que dois iguais não procriam" já não é desculpa, os diferentes que são estéreis ou esterilizados também não procriam e ninguém faz marcha contra eles.) 

Alguns podem querer vir aqui dizer que o sexo é a expressão do amor, mas no fundo vocês sabem que não é bem assim. Já estive sexualmente envolvida com pessoas que eu jamais amaria, assim como acredito que a maior intimidade não é ficar nu diante do outro. Provavelmente é mais íntimo um/a amigo/a que dormiu comigo num acampamento - com quem nos deixamos estar inconscientes e entregues ao lado, sem saber se iremos falar algo, se iremos roncar, se vai cortar nosso cabelo ou nos matar, se vai nos deixar sozinho e sair correndo caso aviste uma cobra - do que um/a 'peguete' de uma noite física com duas pessoas despertas que mal sabem o nome um do outro.

Por isso que às vezes podem achar que jogo um banho de água fria quando alguém vem me pedir que eu realize o casamento deles após poucos meses que se conhecem. Mas me parece que só acham isso no início, depois entendem que eu os fiz refletir sobre as razões de quererem se casar. Qual a idealização que se fez daquela cerimônia, em termos de mudança de vida? É uma celebração do amor ou é uma garantia de posse ('meu' marido) e uma expressão de apego a alguém que lhe desperta desejo? Independente de hetero ou homo, o afeto deve prevalecer. Não sou contra o casamento, mas como orientadora espiritual eu não posso deixar de instingar as pessoas a refletirem sobre suas motivações. No entanto, se mesmo sabendo que é apenas desejo físico, ainda assim quererem se casar, elas têm esse direito. 

Tenho observado que meus contatos das redes sociais que são espiritualizados são os que mais apoiam a causa da diversidade sexual. Porque aqueles que, apesar de religiosos, não são evoluídos espiritualmente, vão estar se apegando à "heresia da separatividade", no modo da ignorância, e combatendo o direito que o outro tem de ser diferente dele.

Portanto, se você se acha religioso e ainda acha "errado" o amor, ou chama de "modinha" a defesa aos direitos igualitários, repense suas atitudes, e aprenda a não julgar o afeto, que em nada se relaciona com os "prazeres da carne" e sim com o movimento de dirigir sua ternura a outra alma que lhe é complementar. 

Se abandonar o apego material é difícil, ao menos abandonemos o ódio e fiquemos no meio-termo entre a ignorância e a bondade, tentando vencer nossas paixões aos poucos, mas sempre com muito respeito.

E possamos celebrar o orgulho de termos conseguido avançar nesse caminho.



junho 15, 2015

Não Somos Duoteístas! (ou 'Patronato - Parte 3')

Atena. Just because. rsrs

Precisamos mais uma vez esclarecer sobre os patronos. O maior equívoco que tenho percebido com várias pessoas é uma excessiva preocupação com a descoberta dos patronos de uma forma que se assemelha a um duoteísmo. Não sei se isso é influência das religiões afro em que se tem um orixá de cabeça e de corpo, ou das ficções mitológicas que pregam o ser "filho" de um deus e/ou deusa, mas a patronagem no helenismo não é bem assim. Sim, nós costumamos ter um par de deuses como patronos, mas não são os exclusivos em culto. Por exemplo, eu estou numa fase super Ártemis, e já tive essa fase várias vezes, mas não questiono ser de Atena. A maioria das pessoas fica em crise quando está numa relação forte com um deus, achando que ele está se mostrando o patrono. Ora, a gente pode ter um relacionamento profundo com diversos deuses. Não é tipo termos uma familiaridade com "pai e mãe" e todo o resto não ser família, os outros deuses serem só amigos, não é isso. Até quando me perguntam quais meus principais deuses de culto, eu não cito só Atena e Zeus. Nós celebramos todos os deuses possíveis, mas existem alguns que têm mais a ver com o nosso modo de ser e viver no mundo. 

O que percebo é que os patronos são deuses que honramos com a nossa vida. Eu não faço todos os festivais a Atena, mas eu a honro com a minha conduta. Sempre que ajo com sabedoria ou astúcia, por exemplo, vou estar agradando Atena; se eu demonstrar 'xenia' (hospitalidade) e tiver liderança de grupo, agrado a Zeus. Posso estar cultuando Ártemis ultimamente, mas continuo honrando Atena na maneira que levo a vida. Os outros deuses eu preciso fazer um esforcinho maior para honrar. Eu tenho que parar para pensar um pouco, não é tão natural. Por mais que eu ame ambientalismo e tente viver com os ideais amazonas, não sou tão fisicamente forte/esportista como Ártemis, tão pouco me ligo no lado cuidadora de bebês dela. Essa questão dos epítetos também é interessante - quando mais nova, eu tinha o lado sedutor de Zeus, hoje estou mais para o lado líder e organizada, saindo de um aspecto para outro. Dioniso veio como uma grande paixão na época das minhas pós-graduações, mas seu lado caótico entrou em conflito com a ordem de Zeus e a sobriedade de Atena. Já Zeus me chegou muito discreto. Eu poderia ter resistido a ele em nome de um suposto feminismo diânico anti-deuses-paternos e preferir Dioniso que é mais "trans", mas eu não precisei me esforçar para aceitar Zeus, porque quando o conhecemos de verdade sabemos que ele é maravilhoso. Mas também é maravilhoso Hermes que nos acompanha no trânsito, na comunicação, no trabalho... E igualmente lindo é Apolo, com o qual sonhei após tocar numa píton albina e isso ter melhorado minhas leituras oraculares. E o que falar de Ares, que me apareceu num sonho com uma tribo amazona? São tantos, e é tão bom existirem tantos, que eu não quero me apegar apenas aos patronos, e nem devo ser ingrata de excluir os outros da minha vida.

Há uma pessoa que me disse que achava que era de um patrono, depois achou que era de outro, daí "se despediu" do primeiro, agradecendo e se colocando à disposição e sem tirá-lo do altar. Isso não entrou na minha cabeça. Parecia uma "demissão"! A pessoa me disse que era tipo uma satisfação, mas Otto já falava que os deuses gregos não precisam de satisfação de que você está "namorando"/cultuando outro, porque eles não são ciumentos. Aí a pessoa disse que não era ciúmes, era como um "olha, eu não estou te ignorando nem estou bravo com você, só não estou aqui porque fui ali". Ora, isso não parece paternalismo? Tipo 'neném, papai vai sair com mamãe, você fica aqui com a babá e mais tarde eu volto, viu?' ou 'bem, me apaixonei por outra pessoa, vou ali viver isso'. Uma conversa normal tudo bem, mas "se despedir" ou "se explicar" é como dizer 'tchau, já que você não é meu patrono, não vou mais te dar a mesma atenção'. E esse "vou me dedicar aos meus patronos" (nesse caso) para mim é duoteísmo.

Mas, ainda assim, muita gente fica angustiado querendo saber seus patronos. Vou dar algumas dicas nesse caminho. Primeiro que nós helenos somos de razão, de análise, de percepção, de lógica, de intuição... não de fé. "Conhece-te a ti mesmo" e não "pergunta para fulano de quem você é". A pessoa precisa se perceber, eu no máximo posso dar pitaco. Oráculos costumam ter muito de projeção psicológica pessoal, por um lado é bom para nos conhecermos, mas por outro não podemos ter uma fé cega numa autoridade (oracular ou não), essas projeções muitas vezes só nos dizem o que queremos ouvir, o que nem sempre corresponde ao real. Fique aberto e descubra as convergências. Sei que muitas vezes uma deidade vem muito forte e nos faz questionar o patronato que acreditávamos ter, mas pode ser que não seja por aí, ou talvez esteja mesmo desconstruindo. 

Outra questão é a das relações. Ultimamente tenho recitado o hino de Proclo a Atena multiversátil, e nele fala da relação dela com outros deuses, e isso é muito legal. No entanto, já vi gente querendo justificar um patrono diferente dizendo que se confundiu porque o anterior tinha uma relação com o atual num referido mito ou aspecto. Isso é complicado, porque praticamente todos os deuses têm relação uns com os outros. Se for por essa lógica, poderíamos ser de qualquer um e pegar as histórias dos outros deuses para justificar, então não faz sentido esse argumento de "é porque fulano tem relação com cicrano". Exemplo: lobos têm a ver com Zeus Lykaios, mas também com Apolo Hiperbóreo, que tem relação com Dioniso, que seria avô de Mileto, que foi criado por lobos, cuja mãe era uma deusa agrária e do séquito de Afrodite (Ufa!). É meio como um mapa astral: "meu sol em touro me faz odiar mudanças, mas meu ascendente em gêmeos me faz amar mudanças, e meu vênus em áries me faz guerreira no amor, só que o marte em peixes me deixa calminha..." Tudo dá para achar uma relação. Por isso também não devemos nos apegar a patronos, é como se nos apegássemos ao signo solar na hora de ler o horóscopo. 

Mais um exemplo de interpretação que pode confundir é o caso da liderança. Há um livro chamado 'Os Deuses da Administração' que identifica quatro tipos de liderança. A liderança de Zeus seria a cultura de grupo, mais ligada a uma família, uma teia de aranha em que tudo parte da aranha. Mas há também a liderança de Apolo (cultura de fundação), de Atena (cultura de tarefa) e de Dioniso (cultura existencial). Em Atena há criatividade para solucionar problemas, em Dioniso o essencial é o talento ou a habilidade individual, alinhando isso a um objetivo comum, sem imposição. Quem quiser ler um resumo do livro, encontrei um doc neste link: Clique Aqui

Outra percepção questionável: me falaram que alguém poderia ser de Hades porque é monogâmico. Primeiro que tanto Hades quanto Perséfone deram suas escapadas, no caso de Hades teve no mínimo a ninfa Minta que foi transformada na planta menta. Segundo que a fidelidade dessa pessoa não estava no patrono, mas na patrona, que poderia ser Hera ou Deméter (esta também pode ser vista como possessiva, pois - se ela perde a filha - o mundo inteiro passa fome). E o lado ascético e regrado da pessoa poderia vir de Apolo, não de Hades. Por isso é importante analisarmos diversas coisas.

Os deuses são vários, incríveis e muito espertos. Notei nesses muitos anos de helenismo que há deuses que nos preparam para outros, vi isso principalmente nas crianças. A filha de uma conhecida era de Afrodite, mas era muito pequena para ser de uma deusa tão sensual, então um dia a mãe me contou que a filha tinha visto um rapaz moreno alado voando do quarto dela. Logo percebi que Eros cuidava da menina, a preparando para Afrodite. Mais tarde, uma amiga com dois filhos, senti que a menina estava sendo cuidada por Íris, a preparando para Hera, e que o menino tinha uma relação com Quíron e Asclépio, por uma ligação com Apolo. Eu nem os conhecia muito bem na época, mas depois a mãe foi me contando várias histórias que confirmavam isso, como a menina que desenhava sempre arco-íris e agia de forma majestosa em diversas situações, e o menino que desenhava unicórnios (que lembra centauros) e que se interessava muito por coisas belas e iluminadas. Achei curioso como Íris apareceu ligada a Hera, já que na mitologia ela é mesmo a sua mensageira. A mãe dessas crianças sempre se viu envolta pela presença de Atena, mas descobriu um patronato em Afrodite com o qual se sentiu bastante confortável

Por vezes, essa certeza é tão profunda que não sentimos necessidade de questionar, porque estamos nos sentindo bem ali. E sentir-se em casa deve significar alguma coisa. Se há essa insistência de ver os patronos como pai e mãe, então essa relação deveria ser confortável e segura como a de uma família mesmo, e deveríamos deixar os pais orgulhosos com a nossa conduta, uma conduta que corresponda ao que eles nos ensinaram. Por isso falei tanto que os patronos se relacionam com a nossa vida. E a nossa versão do "honrar pai e mãe", nesse caso, é bem por aí, no exemplo cotidiano, não numa aproximação que depende de muitos sacrifícios e horários e disposições. 

Espero que isso ajude a esclarecer mais um pouco como vejo essa questão, e diminua as limitações das pessoas em achar que devem se "dedicar" a apenas dois deuses em vez de a vasta e maravilhosa gama de deidades com as quais podemos nos relacionar.

dezembro 13, 2014

Xenia e Empatia

Em tempos em que Dioniso derruba máscaras e descobrimos, entre nossos amigos, pessoas que defendem os opressores, os violentadores e afins, encontrei o texto que traduzo abaixo (com grifos meus) e que espero que faça as pessoas refletirem sobre suas falas, pensamentos e ações diante das situações que andamos presenciando na mídia, nas redes sociais e no nosso dia-a-dia. Não acolher o outro, banalizar sua dor, relativizar um crime, também é Hybris, uma transgressão contra o princípio básico da nossa crença, a Xenia (hospitalidade). 

Baucis e Filemon

Segue:
Declaração de Valores
por Thenea, traduzido pela Alexandra

# Hospitalidade: Nossas portas estão abertas

A hospitalidade é um dos principais valores em todas as culturas antigas, incluindo os nórdicos, os celtas e os gregos. Alguns podem argumentar que esta é a pedra fundamental de todas as religiões indo-europeias.

Nos antigos relatos gregos, Zeus se disfarçaria de pessoas as quais a sociedade tinha marginalizado para testar a virtude de possíveis anfitriões. Se falharmos em receber bem alguém, ou falharmos em criar um espaço seguro para alguém, por qualquer razão além de um abuso direto de nossa hospitalidade, falhamos em fazer o mesmo para o Rei dos Deuses.

Oferecer hospitalidade, na Grécia antiga, significava mais do que comida e bebida. Se uma pessoa precisasse de roupas porque a jornada foi dura, ou de uma cama para dormir, estas coisas também eram providenciadas. Hospitalidade significa prover as necessidades e o conforto de alguém.

Criar um espaço sagrado não significa simplesmente ignorar fatores como ancestralidade, onde alguém está no espectro de gênero, orientação, forma do corpo, deficiência, idade, ou renda. Significa tentar entender de onde a pessoa vem, e entender o que elas precisam para se sentirem confortáveis nos espaços que criamos.

# Discurso: O Diálogo está Aberto

Não se trata apenas de honrar os deuses gregos. Trata-se de uma coisa cultural geral da Grécia Antiga. Discutir política e o estado do mundo são ambas coisas altamente tradicionais a fazer num Simpósio (uma reunião para o propósito de libações). Podemos e devemos criar espaço para o diálogo sobre esses tópicos importantes e prementes.

Precisamos falar sobre discriminação.

Ter diálogos sobre discriminação pode nos ajudar a entender como melhor respeitar as jornadas daqueles que devem enfrentá-la. Também pode nos ajudar a começar a entender como responder aos cidadãos e aos eleitores.

A base desse diálogo, porém, deve ser o respeito.

# Humildade: Nossos Corações estão Abertos

A transgressão da Hybris é normalmente enquadrada como "questionar os deuses", mas essa não é exatamente a questão, em termos de visão helênica. Nos antigos mitos gregos, os humanos geralmente não envolviam as deidades em debates filosófico pois comportar-se assim seria como pensar que eles eram iguais ou melhores que as deidades. Isso é um problema, porque se você pensa que é melhor que os deuses, como você irá tratar seus companheiros humanos? Em contra-partida, se você não pensa que é melhor que seus companheiros humanos, você não corre o risco de fazer isso com relação aos deuses.

Racismo, preconceito de gênero, de deficiência, de idade, de classe social, e outras formas de preconceito, são uma espécie de Hybris.

Humildade também significa, a meu ver, não assumir que eu sei melhor do que a outra pessoa o que ela tem sofrido, e não presumir que posso falar pelas experiências de qualquer um, nem invalidar seus discursos de qualquer forma.

É com essas virtudes que espero que possamos nos comportar nessa época de desenvolvimento de consciência do racismo e preconceito que estão infestando nossa sociedade, e é minha esperança sincera que - através da criação de um espaço seguro e do diálogo aberto com um olhar no remediar de injustiças - o progresso possa acontecer, mesmo se apenas em nossa pequena esfera de influência.


agosto 19, 2014

'Meditação Sobre a Lua'

Aldous Huxley tem um texto criticando as filosofias excludentes que afirmam que uma coisa são apenas uma coisa e não outra, sem considerar a multiplicidade do ser e suas mudanças. Ele explica isso com o exemplo da lua, de uma forma mitopoética permeada de lógica e filosofia - a lua não é só uma pedra, mas também uma deusa. Sua luz numinosa se lança do céu sobre nós. Segue a tradução do que escreve Huxley: 



MEDITAÇÃO SOBRE A LUA 
por Aldous Huxley (1931), tradução da Álex (2014)

Materialismo e mentalismo - as filosofias do 'nada além.' O quão extremamente familiar nos tornamos com aquele 'nada além de espaço, tempo, matéria e movimento', que 'nada além de sexo', que 'nada além de economia'! E o não menos ignorante 'nada além de espírito', 'nada além da consciência', 'nada além de psicologia' - o quão tedioso e cansativo eles também são!O 'nada além' é tão maligno quanto idiota. Falta generosidade. Chega disso. É hora de dizer novamente, com o primitivo senso comum (mas por razões melhores) , 'não só, mas também'.

Do lado de fora da minha janela, a noite está se esforçando para acordar; na luz da lua, o jardim escurecido sonha tão vividamente com suas cores perdidas que as rosas negras são quase carmim, as árvores permanecem em expectativa no limiar de um verde vívido. O parapeito do terraço branco e límpido brilha contra o céu azul-escuro. (O oasis jaz ali embaixo e, além da última das palmeiras, é aquilo o deserto?) Os muros brancos da casa friamente reverberam a radiação lunar. (Devo me virar para olhar as dolomitas se erguendo nuas para fora das longas ladeiras de neve?) A lua está cheia. E não só cheia, mas também linda. E não só linda, mas também...

Sócrates foi acusado por seus inimigos de ter afirmado, hereticamente, que a lua era uma pedra. Ele negou a acusação. Todos os homens, disse ele, sabiam que a lua é uma deusa, e ele concordava com todos os homens. Como resposta à filosofia materialista do 'nada além', sua réplica foi sensível e até científica. Mais sensível e científica, por exemplo, que a réplica inventada por D. H. Lawrence em seu estranho livro, tão verdadeira em sua substância psicológica, tão absurda, muito frequentemente, em sua forma pseudo-científica, Fantasia do Inconsciente. 'A lua', escreve Lawrence 'certamente não é um nevoso mundo gélido, como se o nosso mundo tivesse ficado frio. Baboseira. Ela é um globo de substância dinâmica, como rádio ou fósforo, coagulada sobre um vívido polo de energia'. A falha nessa afirmação é que ela se revela demonstrativamente falsa. A lua certamente não é feita de rádio ou fósforo. A lua é, materialmente, 'uma pedra'. Lawrence estava irritado (e com razão) com os filósofos do nada-além que insistiam que a lua era apenas uma pedra. Ele sabia que era algo mais; ele tinha a certeza empírica de seu profundo significado e importância. Mas ele tentou explicar esse fato empiricamente estabelecido com os termos errados, em termos de matéria e não de espírito. Dizer que a lua é feita de rádio é bobagem. Mas dizer, como Sócrates, que ela é feita de algo divino é bastante acurado. Pois não há nada, claro, que impeça a lua de ser tanto uma pedra quanto uma deusa. A evidência para sua mineralidade pode ser encontrada em qualquer enciclopédia infantil. É uma convicção absoluta. Não menos convincente, porém, é a evidência para a divindade da lua. Ela pode ser extraída de nossas próprias experiências, dos escritos dos poetas, e, fragmentalmente, até de certos livros-textos de fisiologia e medicina.

Mas o que é essa 'divindade'? Como devemos definir um 'deus'? Expressado em termos psicológicos (que são primários - sem nada por trás), um deus é algo que nos dá a peculiar espécie de sentimento que o Professor Otto chamou de 'numinoso' (do latim 'numen', um ser sobrenatural). Sentimentos numinosos são a coisa divina original, da qual a mente que elabora teorias extrai os deuses individualizados dos panteões, os vários atributos do Uno. Uma vez formulada, uma teoria evoca, por sua vez, sentimentos numinosos. Portanto, o terror dos homens em face do universo enigmamente perigoso os leva a postular a existência de deuses irritados; e, mais tarde, pensar sobre esses deuses irritados os fazia sentir terror, mesmo quando o universo não lhes dava qualquer motivo para alarde no momento. Emoção, racionalização, emoção - o processo é circular e contínuo. A vida religiosa do homem trabalha no princípio de um sistema de água quente.

A lua é uma pedra; mas é uma pedra altamente numinosa. Ou, para ser mais preciso, é uma pedra sobre a qual e por causa da qual homens e mulheres têm sentimentos numinosos. Portanto, há um suave luar que pode nos dar uma paz que fica além da nossa compreensão. Há um luar que inspira uma espécie de assombro. Há um frio e austero luar que conta à alma de sua solidão e desesperado isolamento, seu significado ou sua falta de clareza. Há um liar amoroso instigando a amar - a amar não só um indivíduo, mas às vezes até o universo inteiro. Mas a lua brilha no corpo assim como dentro da mente, através das janelas dos olhos. Ela afeta a alma diretamente; mas pode afetá-la também por obscuros e sinuosos caminhos - através do sangue. Metade da raça humana vive em manifesta obediência ao ritmo lunar; e há evidências que demonstram que o fisiológico e consequentemente a vida espiritual, não apenas de mulheres, mas também de homens, misteriosamente mingua e cresce com as mudanças da lua. Há alegrias irracionais, tristezas inexplicáveis, risos e remorsos sem causa aparente. Suas repentinas e fantásticas alternações constituem o clima comum de nossas mentes. Esses humores - dos quais os mais gravemente numinosos podem ser hipostasiadas como deuses, os mais leves, se desejarmos, como duendes e fadas - são os filhos do samgue e dos fluidos. Mas o sangue e os fluidos obedecem, entre muitos outros mestres, a mutável lua. Tocando a alma diretamente através dos olhos e, indiretamente, junto aos canais escuros do sangue, a lua é duplamente uma divindade. Até os cachorros e lobos, a julgar pelo menos por seus uivos noturnos, parecem sentir, de alguma obscura maneira bestial, uma espécie de numinosa emoção com a lua cheia. Ártemis, a deusa das coisas selvagens, é identificada em mitologia posterior com Selene.

Mesmo se pensarmos na lua como apenas uma pedra, devemos achar sua própria mineralidade como potencialmente um numen. Uma pedra que ficou fria. Uma pedra sem ar e sem água e a imagem profética de nossa própria terra quando, a alguns milhões de anos de agora, o senescente sol tiver perdido seu atual poder de proteção... E por aí vai. Esta passagem poderia facilmente ser prolongada - um Estudo em Púrpura. Mas me abstenho. Deixo cada leitor pousar o quanto da cor retórica real ele achar de seu gosto. De qualquer modo, púrpura ou não púrpura, a pedra é pedregosa. Você não consegue pensar nisso por muito tempo sem se ver invadido por um ou outro de vários sentimentos essencialmente numinosos. Esses semtimentos pertencem a um ou outro de dois grupos contrastantes e complementares. O nome da primeira família é Sentimentos de Insignificância Humana, o nome da segunda é Sentimentos de Grandeza Humana. Ao meditar na abandonada pedra flutuando lá no abismo, você pode se sentir mais numinosamente um verme, abjeto e fútil em frente a imensidões completamente incompreensíveis. "O silêncio desses espaços infinitos me amedrontam". 

Você pode se sentir como Pascal se sentiu. Ou, alternativamente, se sentir como M. Paul Valery disse que se sentia: "O silêncio desses espaços infinitos não me amedronta". Pois o espetáculo dessa pedregosa e astronômica lua não necessariamente precisa fazer você se sentir um verme. Ele pode, ao contrário, fazer você se rejubilar exultantemente em sua condição humana. Lá flutua a pedra, o símbolo mais próximo e mais familiar de todos os horrores astronômicos; mas os astrônomos que descobriram esses horrores de espaço e tempo eram homens. O universo lança um desafio ao espírito humano; a despeito de sua insignificância e abjeção, o homem aceita. A pedra nos fita da escuridão sem fim, um 'memento mori' [lembrança da mortalidade]. Mas o fato de sabermos se tratar de um 'momento mori' justifica sentirmos um certo orgulho humano. Temos direito a nossos humores de sóbria exultação.

dezembro 17, 2013

Os 10 problemas mais comuns nos rituais

É claro que o que vamos elencar aqui são erros que vários de nós cometemos enquanto estamos engatinhando na prática de ser politeísta, mas isso faz parte da aprendizagem. Não devemos nos 'martirizar' se nos identificarmos com muita coisa, e muito menos deixar de fazer as coisas por medo de errar; apenas vamos tentar fazer melhor da próxima vez. No geral, essas observações surgem de quando vemos rituais que parecem mais centrados nas pessoas ali reunidas do que nos deuses a que se dedicam. 


1- Forçar intimidade em público

A pessoa decide fazer um ritual a certa deidade que ele não tem nenhum contato, só porque quer a ajuda dela em certo propósito; aí estuda o que ela gosta de receber e chama a galera para o rito onde lê os hinos a convidando para perto. Na cabeça dessa pessoa, que nunca contatou aquela divindade antes, basta fazer umas ofertas que a deidade vai trabalhar pra ela. É tipo, você quer ser cineasta, aí chama o Steven Spielberg pra te ajudar e espera não só que ele apareça na sua casa como te ensine tudo o que ele sabe em troca de lhe servir sua torta favorita. Não interessa se ele nunca ouviu falar de você, que você não conversou com o empresário dele antes, que não o chamou para tomar um café e ficou amigo dele aos poucos, antes de esperar que ele te visitasse e resolvesse seus problemas. Não é o mais lógico? Primeiro, estabeleça um relacionamento com aquele/a deus/a, em particular. Depois que você sentir sua presença mais constante na sua vida, aí sim você pode lhe apresentar seus amigos e fazer um rito público. Não saia exigindo que Apolo lhe faça virar um Beethoven se você não sabe nem de onde veio a lira dele.

2- Chamar e ignorar

A pessoa faz as preces chamando a deidade para perto, daí continua fazendo as coisas do ritual como se nada tivesse acontecido. Ora, você chamou o deus e agora age como se ele tivesse entrado na sua cabeça e pronto. Deixa eu te falar: eles são reais. Sinta-os, escute-os. Você pode ler os hinos, cantar, rezar, falar o que deseja dizer, mas e depois? E na hora de eles retribuírem essa energia, você não faz uma pausa para recebê-la? Quando você sentir que já chegaram, comunique-se com eles. Não desligue o "telefone" antes de eles responderem seu "alô". Pode demorar a estabelecer conexão, mas uma hora dá linha, e não fará sentido ligar pra alguém sem a intenção de escutar a voz dela. E, sabe, na real às vezes a gente não precisa dizer nada, a pessoa (e a deidade) só quer sentir que você está ali por ela. Como disse a Suzana lá no grupo do facebook, "o importante é se expressar de forma bela e solene, seja no silêncio ou nas palavras, o Sagrado requer um tipo de elegância que é estranha ao profano". Seja elegante. O conceito principal do helenismo com certeza é o de 'kalós', o "belo".

3- Esquecer-se da "xenia" (hospitalidade, amizade convidativa)

A pessoa chama a deidade pra sua casa, mas não a trata como um convidado. Não lhe dá conforto e respeito. Parece repartição: "que bom que você chegou, vamos trabalhar". Com um convidado, a gente conversa com ele, guarda seu casaco, oferece um bom lugar pra sentar, pergunta se quer beber alguma coisa, se interessa em saber como está sua vida, antes de começar a conversar sobre trabalho. Em termos de ritual, significa que, depois de chamar a deidade, você deve lhe fazer ofertas, libações, agradecer (não só pedir coisas pra você), sentir/ouvir o que ela deseja, deixar a relação fluir em vez de seguir um 'script' que você escreveu. Saia um pouco do roteiro para dar lugar ao inesperado. Às vezes os planos dos deuses te levam por outro caminho que você se surpreende de um jeito bom. Se isso te assusta, se não quer perder as rédeas da situação e entregá-la nas mãos dos deuses, então isso não é um relacionamento ritual, é uma "performance" teatral (e de monólogo). Deixe espaço no seu ritual para sentir coisas, ou mesmo para consultar oráculos com a intenção de ler o que quer que eles queiram te dizer. Inclusive pode ser que surja algo que foge daquilo que você conhece. Por exemplo, uma vez ganhei uma pedra que historicamente estava associada com certo deus, mas na hora de torná-la oferta votiva, foi outro deus que me a pediu para o altar dele. E, ao pesquisar depois sobre ela, vi que fazia todo o sentido estar ali. Quando a dúvida bater, sempre é bom pesquisar para ficarmos mais seguros.

4- Esquecer-se da "kharis" (reciprocidade)

A reciprocidade é comumente mal compreendida. Não é "magia", não é uma transação comercial, 'eu te dou vinho e flores e você me dá favores'. OK, isso funciona, mas só em curto prazo. Se você quer ficar confortavelmente no rasinho da piscina devocional, limite-se a isso aí e pronto - e depois não reclame que os deuses só te ajudam quando querem alguma coisa em troca. Mas, se quer criar um relacionamento verdadeiro com eles, tipo daquelas amizades em que qualquer presente que a pessoa querida lhe dá seja significativo, que se você está em apuros ela corre para te socorrer sem pensar duas vezes, e coisas do tipo, então nade pro fundo, naquele lugar onde não dá mais pé na piscina. Faça ofertas regulares sem precisar de grandes rituais. Faça rituais dedicados à natureza, à cura do planeta, a coisas mais de comunhão e devoção do que para você. Torne essas práticas uma forma de 'apro-fundar' (ir 'pro fundo', lembra?) seu relacionamento com os deuses. Aí você vai ver o que acontece quando você precisar de ajuda em algo. Seja aquele amigo sempre presente, sempre cedendo seu tempo e sua atenção, sempre pensando no outro, comprometido e cuidadoso, interessado e sincero, constante e disponível. A reciprocidade vai acontecer e você vai nadar e mergulhar sem medo. É melhor do que ficar no rasinho segurando na boia.

5- Querer impor sua vontade

Essa é uma das principais razões de não praticarmos magia de coerção. Não se deve tipo mandar os deuses virem, ordenar que eles façam tal coisa, despachá-los depois para irem embora e esperar que desapareçam. Não os use, eles têm vontade própria, e eles podem escolher não te responder, não se envolver com você, não te ajudar, não estar presente. Diga "obrigado" e "por favor" e "olá" e "até logo". Eles não são ferramentas que você coloca de volta na estante e que espera que lhe sirvam pra seu próprio benefício. Não são instrumentos inanimados. Eles são reais e vivos. E muito mais sábios do que você... Confie no julgamento deles!

6- Não respeitar os amigos em rito em grupo

Aqui vão vários conselhos em um só item: Se alguém está concentrado meditando, não o perturbe. Se for tirar uma foto, peça permissão a quem vai aparecer no enquadramento, pode ser que a pessoa não queira expor sua religião pro mundo. Não apareça no ritual cheio do álcool ou intoxicado. Não fique pegando nas coisas dos outros sem permissão, mesmo que você ache lindo e queira ver de perto aquele pingente que ela está usando. Não fique julgando o preço dos artefatos que as pessoas trouxeram. Leve suas próprias ofertas. Não chegue atrasado. Não jogue ofertas no fogo sem ter sido convidado a fazê-lo. Se alguém lhe pedir para fazer algo, tipo ler um hino, leia; todos ali são voluntários também, e ninguém está só assistindo enquanto come pipoca. Se você não tiver com quem deixar as crianças e precisar levá-los para lá, fique de olho neles, eles são seus filhos, não espere que os outros participantes cuidem deles pra você. Se alguém ofereceu a casa dele/a para o rito do grupo, leve um presentinho ou ofereça ajuda na arrumação. Enfim, seja educado.

7- Deixar de fazer ritual porque não tem oferta material

Olha, as atitudes valem mais do que os presentes. De que adianta eu dar uma estatueta de bronze para Ártemis e jogar lixo na rua? Tem tanta coisa que você pode fazer como oferta... Além disso, você sempre tem algo físico para oferecer sim. Não precisa ser cevada e vinho, pode ser pão e água. O importante é o sentimento, a meditação, o contato, a lembrança, o exemplo que você passa pro mundo.

8- Fazer rito só em dia de festival

Se você se limitar aos festivais para se aproximar dos deuses, é como se esperasse o dia dos namorados e o aniversário de casamento para fazer algo legal pro seu cônjuge. Se você age assim, ele pode acabar se separando de você. Assim como é preciso demonstrar seu amor no cotidiano, você precisa fazer seus ritos de coração, não por obrigação de uma agenda. Além disso, na Grécia Antiga, cada polis tinha um calendário diferente. Não é preciso seguir piamente um calendário oficial; estamos falando de 're-ligião', de se 're-ligar' aos deuses, e isso independe de datas. Não estou dizendo para esquecer os festivais, apenas para não limitar seu relacionamento/prática espiritual a eles.

9- Fazer as coisas com pressa e sem intenção

Como falamos no item 2, às vezes pode demorar a estabelecer conexão, a se sintonizar no ritual. Uma coisa é você estar passando por um altar e rapidinho soprar um beijo ou deixar uma flor, isso sim é ótimo para mostrar que você se lembrou deles, que tem o desejo de manter contato e estabelecer constância no relacionamento de vocês. Outra coisa é dizer que vai fazer um ritual, lavar as mãos como de costume, aí chegar lá, acender a vela, ler um hino, fazer um pedido, apagar a vela (tipo bolo de aniversário), ir embora, e postar nas redes sociais que realizou um festival. Faz toda uma produção no altar pra sair bonito na foto, mas não se concentra, não escuta a deidade, não reflete no sentido da data, não traz nada de ensinamento pra sua vida, e ainda acha uma chatice ter que pausar seu videogame pra fazer o "rito". Olha, fazer um rito direitinho também dá XP, ok? Não no seu joguinho, mas na sua vida.

10- Virar um robô

Você pode achar legal os novos drones e afins, mas os robôs devem servir você e não você virar um deles. Você é humano. Isso significa principalmente duas coisas: que você falha e que você é capaz de agir sem programação. Em termos de ritual, significa: purifique-se antes (tome um banho ou pelo menos lave as mãos) e seja espontâneo. Ninguém gosta - nem os deuses - de se relacionar com máquinas sem emoção, que ficam repetindo um hino perfeito (até em grego clássico com a tônica correta) e não sentem nada daquilo que estão dizendo. Uma estrada reta é monótona, são as curvas que nos deixam animados. Faça curvas. Mude o roteiro. Surpreenda. Mostre que está vivo - e que pensa. Os deuses gregos, ao contrário do deus abraâmico, gostam de heróis virtuosos e não de servos pecadores. Deixe-os orgulhosos, e não com pena de você. Mostre que valeu a pena eles te darem atenção.

Essas foram as coisas das quais conseguimos lembrar. Se você já cometeu alguma delas, é natural. Só tente fazer melhor das próximas vezes.

setembro 24, 2013

Métron

Responda A, B, ou C, para as perguntas abaixo, de acordo com o que mais se aproxima da sua visão (ou se iguala a ela):

1. O que deve ser o ser humano?
A) Um servo que cultua de joelhos a coisa mais poderosa que encontra – seja um monarca, um milionário, uma celebridade, um líder militar, um deus.
B) Um realista, que sabe que a liberdade é uma ilusão e tudo o que somos é a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência.
C) Alguém que procura se tornar consciente de seu potencial interior e não vê razão para – se for talentoso/virtuoso/evoluído o suficiente – não transformar-se ele mesmo em uma divindade. 

2. Quem é deus?
A) Deus é alheio e externo, que reside no céu desde o princípio do mundo, é algo que nunca poderemos ser, só podemos almejar conhecê-lo depois da morte.
B) Deus não existe ou Deus morreu.
C) Deus está dentro de nós e somos parte dele, podemos nos tornar um com ele, embora essa seja uma jornada de heroísmo, com perigos mortais no caminho. 

3. O que é uma enchente (e outros desastres naturais)?
A) É a vontade de deus que se indignou com o mal no mundo e mandou o dilúvio.
B) É um evento natural, consequência de um terremoto e subsequente tsunami.
C) É um movimento natural da Terra em consequência do desequilíbrio provocado pelas degradações ao meio ambiente.

4. Qual conhecimento é mais importante?
A) O derivado da percepção, dos sentidos, daquilo que experimentamos e sentimos. 
B) O derivado da razão, do pensamento, daquilo que podemos replicar em experimentos calculados.
C) O que equilibra a lógica com a intuição e o instinto.

5. O que é a 'alma' ou a 'mente'?
A) É o que ganhamos de deus e que voltará para se encontrar com ele no fim dos tempos.
B) É algo que não pode ser medido nem provado, portanto não pode servir como orientação; apenas podemos observar atividades neuronais/cerebrais, que também são físicas.
C) É algo que está em tudo e tudo tem uma mente/alma.

6. Como o mundo se desenvolve?
A) Deus o criou, fez o homem para governá-lo, e um dia voltará para terminá-lo e levar seu povo consigo, separando-o daqueles que não serão salvos.
B) Ele caminha para a desordem, para uma morte pelo fogo, segundo as leis da termodinâmica que tratam da entropia.
C) Ele se desenvolve através da resolução dos opostos.

7. O que é mais importante de se entender/estudar?
A) As escrituras sagradas.
B) A matéria, a percepção dos sentidos, o que se pode apreender pelo domínio sensorial.
C) A mente, a razão, o si-mesmo, o microcosmo como reflexo do macrocosmo e vice-versa.

8. O que é o universo?
A) O universo é algo criado por um deus que tem todas as respostas, só ele sabe os seus propósitos e desígnios, sua compreensão está fora do nosso alcance.
B) O universo é um mecanismo que funciona como um relógio, um computador natural, lógico e infalível, mas que um dia vai se desgastar.
C) O universo é um organismo vivo e cíclico, que segue dialeticamente solucionando conflitos, em busca de se aperfeiçoar.

9. E a moral?
A) A moral é algo transcendente, só existe em deus.
B) Não existe moral, o mundo é amoral.
C) A moral é algo racional e imanente.

10. Como você acha que as pessoas imaginam deus?
A) Um ‘deus’ de pura vontade – violento, irritado, cruel, caprichoso, que precisa destruir com água o mundo que criou porque errou e precisa refazer tudo de novo, que toma partido dos seus escolhidos contra o resto do povo, egoísta, e que exige que todos se ajoelhem para cultuá-lo.
B) Um ‘deus’ que é uma ordem, com tudo no seu lugar, com um lugar para tudo, com tudo funcionando harmoniosamente, tudo acontecendo de acordo com a razão e a lógica, sem contradições, sem reclamações, sem problemas, um verdadeiro computador.
C) Um ‘deus’ que reflete um cosmos orgânico que soluciona seus problemas, supera os obstáculos, busca a essência da vida, estimula as pessoas a se aperfeiçoarem até a iluminação - inclusive reencarnando quantas vezes elas precisarem.

11. O que você entende pela teleologia (estudo do "telos", da completude, do ponto último, do estado final absoluto)?
A) Ela reside em uma personalidade - deus, santo, anjo - que faz as coisas acontecerem no mundo, e prevê esse final como um Apocalipse, um Armageddon, um Arrebatamento, um Dia de Julgamento.
B) Ela demonstra que somos apenas máquinas movidas pelo determinismo, o livre-arbítrio é uma ilusão, e o universo caminha para a desordem.
C) Ela pode ser estudada pela matemática e pela filosofia, vendo o universo como um organismo vivo, capaz de gerar consciência e liberdade de escolha.

12. Com qual tipo psicológico você se parece mais?
A) Sou mais do tipo extrovertido sensação e sentimento.
B) Sou mais do tipo extrovertido sensação e pensamento. Apesar de ter pouca habilidade social, não sou introvertido, porque sempre procuro entender o mundo lá fora, o universo, e não o mundo interior.
C) Sou mais introvertido pensamento e intuição, às vezes com a função sentimento.

Se você marcou mais ‘A’, você se identifica mais com os da religião vigente, o abraamismo, de “fé”. Se você marcou mais ‘B’, com o ateísmo materialista, positivista, empirista e mecanicista, da “ciência”. Se você marcou mais ‘C’, se identifica com as religiões que buscam a iluminação ou a excelência ou algo semelhante (o “samadi”, a “areté” etc), que seguem a lógica da alma e da existência.

Agora vamos analisar um pouco algumas ideias presentes nesses itens:


I. DEIFICAÇÃO:

Abrãao não tem a simpatia de um herói. Seu compasso moral era tão falho que ele achava que estava fazendo algo bom ao ser obediente a uma voz que o mandava matar o filho. Não existe reflexão ali, só servidão a um poder maior. E obedecer é o que os abraâmicos mais fazem, e o que mais adoram fazer. Os judeus, por exemplo, obedecem a 620 mandamentos. Os muçulmanos obedecem servilmente a Alá. Os cristãos chamam Jesus de “senhor” e de “mestre”, e não de amigo, irmão, companheiro, camarada, parceiro, ou algo mais próximo. 

Os livros sagrados das religiões predominantes são cheios de histórias de controle e dominação, sobre humanos que se curvam e se prostram. Eles criam um buraco entre deus e a humanidade, a qual está sempre suplicando pela misericórdia de seu senhor e mestre. Eles precisam obedecer a comandos (‘co_manda-mentos’) e viver com medo da punição eterna se não o fizerem. 

No xadrez, um peão que chega do outro lado do tabuleiro vira rainha, a deusa do xadrez. A alma é algo similar. É um peão comum, que atravessa um imenso e perigoso campo de batalha (a vida) e é promovido à realeza. Precisamos cruzar o vasto abismo como heróis, realizando as coisas mais impressionantes, e nos tornarmos divinos. Mas esse é o destino de muito poucos peões. A maioria é levada pela mediocridade e não chega a saber o que é alcançar o outro lado, entendendo seu verdadeiro potencial. A maioria prefere cultuar a rainha que já existe do que procurar tornar-se ele mesmo uma majestade. O peão especial é aquele que enfrenta os bispos (figuras religiosas), as torres (senhores em seus castelos), os cavalos (pessoas ignorantes), e os monarcas – todos aqueles que tentam o intimidar e destruir e com os quais precisamos negociar. Esse peão sobrepuja as forças do privilégio, não se curva a ninguém, e prova o seu valor, seu mérito. 

Alguém que caminha para tornar-se divino acaba por fazer emergir naturalmente habilidades ‘paranormais’. Ele/ela adquire cada vez mais conhecimento, tolerância a frustrações, consciência da influência das coisas naturais no mundo etc. E nenhum desses “poderes” contraria a matemática. Se um poder não puder ser definido matematicamente, ele é uma fantasia. Mas superaudição, supervisão, metamorfose, entre outras coisas aparentemente sobrenaturais, todas são observáveis (principalmente entre alguns iogues na Índia) e são explicáveis matematicamente, então podem ser adquiridas. Como dizem por aí, “qualquer coisa que não é proibida, acaba acontecendo”. A sequência de reencarnações só terminaria quando o conhecimento ou iluminação ou excelência são alcançados.

Pensando assim, os deuses não “criaram” o universo, e sim são a culminação dos processos universais. São almas libertas e iluminadas. Podem então orientar os outros seres. E almas iluminadas não vão pedir que você se ajoelhe e as idolatre, nem vão te ameaçar com um castigo eterno se você as desobedecer. Um ser assim não é um iluminado! 

O ser humano começa como uma mente individual e subjetiva, com um egoísmo ingênuo e primitivo. Aí ele se reúne em grupos, forma comunidades, sociedades, Estado. Sua mente subjetiva é transformada em instituições objetivas e concretas. Depois, ele começa a retornar para si mesmo, mas em um nível superior ao anterior de onde partiu, como em uma espiral. O homem descobre três dons maravilhosos nele: a arte/beleza, o ideal religioso/divino, e o ideal filosófico/racional. Aí ele adquire independência, liberdade, conhecimento e compreensão. A filosofia é a culminação do que a arte e a religião procuram realizar. A arte e o sentimento religioso nascem do sentimento e da imaginação, mas elas falham um pouco na questão da razão. Para equilibrar isso, precisamos ser filósofos.

O teólogo Friedrich Scheleiermarcher dizia que, para o universo se realizar no seu máximo potencial, todas as partes dele deveriam também alcançar esse potencial máximo. As religiões de iluminação também pensam assim. O melhor universo possível é aquele em que cada alma alcançou o status de divindade, em que cada ser humano maximizou todas as suas habilidades. E um dos maiores obstáculos a essa realização global é o sistema de privilégios que temos, no qual uma minúscula elite se apropria de uma vasta parte dos recursos mundiais para si, negando aos outros a chance de também prosperar. 

Nietzsche ofereceu uma moralidade de auto-superação e de aperfeiçoamento até a perfeição do ‘super-homem’. Essa é uma moral racional e desejável. No entanto, Nietzsche era muito esnobe e elitista, e rejeitava a ‘massa comum’. As religiões de iluminação procuram aperfeiçoar todo mundo, e não só uns poucos favorecidos. Porque o universo evolui junto com as pessoas. A própria razão é algo que evolui do caótico a uma ordem e organização (o domínio de Zeus). Ela vive numa guerra de teses e antíteses até chegar numa síntese melhor e mais racional, e esta gera outra tese mais elevada, com outra antítese também mais elevada, que invocará uma síntese superior, e assim vai até a uma racionalidade divina.

Se todos somos partes da divindade e temos o divino em nós, quando ele evolui, nós também evoluímos. E a nossa divindade completa a divindade cósmica.

A espiral (ou hélice) simboliza a evolução, a eternidade, 
a espiritualidade, o crescimento, o DNA, a dialética...


II. DEUS(ES):

No estoicismo, a matéria mais fina (o pneuma) era conhecida também como “pyr technikon”, o fogo criativo que se assemelhava ao próprio Zeus. Ou seja, deus seria uma energia inerentemente criativa presente em todo o universo, animando tudo e governando-o de acordo com a razão (Logos) divina. Deus era tanto fogo (energia ativa) quanto logos (razão). O que deus é para o universo, a alma o é para o homem. Isto é, um homem é um universo em miniatura, um microcosmo. A alma humana (pneuma psychikon) é uma mistura de ar e fogo, uma porção do pneuma divino que permeia e rege o cosmo/universo. Os filósofos pré-socráticos também tratavam Zeus como uma espécie de mente cósmica abstrata impessoal.

Se a alma do universo é como a nossa alma, então essa força que anima o universo também sofre evolução, de algo inconsciente até a consciência. E isso requer uma multiplicidade de deuses. 


III. CRIACIONISMO – EVOLUCIONISMO – ETERNALISMO:

“Se algo existe, ele é eterno, já que nada vem do nada.” (Melissus) Assim, nada pode ser criado nem destruído (tudo é infinito), apenas transformado em manifestações diferentes da existência.  Nada pode ser acrescentado e nem subtraído. Nós fazemos descobertas matemáticas, e não inventos matemáticos. O atomista Leucipo foi o primeiro a declarar que “nada acontece do nada, mas tudo parte de alguma coisa e com alguma necessidade”. Nada aconteceria por acaso, todas as colisões atômicas são determinadas por leis que as governam. Dessa forma, até o Big Bang não seria um evento que aconteceu, e sim algo que continuaria ‘rolando’.

Algo que existe não pode surgir de algo que não existe. Isso é impossível. Todas as qualidades que se manifestam na existência já estariam presentes em formas mais simples, em unidades elementares de existência. Elas são libertas através do processo de evolução, do mais simples ao mais complexo. Descartes também argumentava sobre uma lei da 'conservação do movimento'. Nenhum novo movimento poderia entrar no universo, nem o atual ser destruído. Se algo aumentasse de velocidade num lugar, outro algo deveria necessariamente diminuir de velocidade em outro canto.

Mas há dois tipos de eternalismo: o do puro “ser”, de Parmênides, onde a mudança é ilusória; e o do puro “tornar-se”, de Heráclito, onde tudo está sempre mudando e se adaptando. Os atomistas (como Leucipo e Demócrito) tentaram resolver isso ao imaginar os átomos como entidades eternas e imutáveis (puros 'ser') que constantemente se movem e colidem, produzindo o mundo (um eterno 'tornar-se'). Porém, se tudo ocorresse via átomo se colidindo, esse seria um mundo muito materialista e científico, sem causas e propósitos. O universo estaria simplesmente se rearranjando infinitamente, sem nenhum sentido; quando – na verdade – o universo tem uma intenção, ele quer realizar algo.

Também há dois tipos de evolucionismo. Evolucionistas darwinianos são diferentes dos evolucionistas hegelianos com relação ao propósito do universo. Darwin fala das coisas se aperfeiçoando para se adaptar ao meio ambiente por seleção natural, mas não há um desejo de melhorar, de se tornar perfeito. A dialética de Hegel, por sua vez, inclui a teleologia, o universo “querendo” melhorar para se tornar mais perfeito. Hegel inclui vida e um aspecto mental ao universo, enquanto Darwin é puramente materialista. A dialética hegeliana mostra a humanidade se tornando cada vez mais perto de serem deuses, por conta do elemento divino que há em todos os seres humanos – bastaria comparar as habitações em cavernas da Idade da Pedra e as construções arquitetônicas modernas das cidades de hoje. O darwinismo não tem interesse no destino dos homens, já que não atribui nenhum propósito à vida. 

As religiões de iluminação são um meio termo entre o criacionismo mitológico e o evolucionismo lógico. O conceito de 'karma', por exemplo, que é uma dimensão moral dada ao universo, é criacionista. Mas a reencarnação e o 'samsara' são evolucionistas.

Os números, as formas geométricas, as leis das relações matemáticas, as leis da lógica, as fórmulas, equações e identidades matemáticas são ligadas ao “puro ser”. As funções matemáticas que sempre mudam e interagem, que são entidades dinâmicas, são ligadas ao “puro tornar-se”. O átomo é do ser, as combinações que formamos com eles são do tornar-se. A linguagem tem 26 letras do ser, as palavras e os pensamentos verbais são do tornar-se. 

Richard Dawkins, comparando-nos com uma enciclopédia, dizia que os átomos são como as letras, os nucleotídeos são como as palavras, os genes são como as páginas, os cromossomos como os volumes (cada livro), e o DNA como a coleção inteira com o nosso 'plano de design'. 

As camadas vão se organizando em coisas cada vez mais complexas. Essa é a essência da evolução. O sonho platônico de reconciliar Parmênides e Heráclito se realiza aí. 

Anaxágoras declarava que existiam substâncias fundamentais infinitas chamadas 'homoeomeries', de qualidades diferentes, que eram organizadas de uma forma lógica pela Mente (Nous) do cosmo. Tudo no mundo, por menor que fosse, seria composto de todas as homoeomeries possíveis (o grupo infinito inteiro). Ele dizia: “tudo tem uma porção de tudo oculto dentro de si, mas apenas aquilo que for mais numeroso será aparente”. Assim, tudo poderia ser transformado em tudo, apenas ao mudar a proporção relativa das diversas homoeomeries (ideia esta que influenciou a alquimia). Também por conta dessa ideia, tudo conteria o seu oposto, podendo dialeticamente mudar para a sua antítese. 

Se somos formados por essa substância, também nós somos eternos. E o Universo não é um mecanismo robótico estúpido, sem propósito e sem vida, como a ciência materialista crê. Ele também realiza coisas inteligentes e cheias de propósito, ele busca se completar, se tornar consciente. 


IV. MATERIALISMO/EMPIRISMO x IDEALISMO/RACIONALISMO:

Aristóteles uma vez falou sobre a esfera da lua ser a fronteira entre os céus e a Terra, onde tudo acima da lua seria etéreo e perfeito, formado da quinta essência (éter), e tudo abaixo fosse não-etéreo e imperfeito, formado dos quatro elementos (terra, água, fogo, ar). Os abraâmicos acharam isso o máximo, e resolveram dizer que seu deus estaria fisicamente no céu supervisionando tudo, o demônio fisicamente debaixo da terra tentando puxar as pessoas pras profundezas, e os humanos no meio. Só que o homem foi à lua, e observou ainda mais além, e mostrou que não era desse jeito. Ainda assim, em vez de testemunhar a descoberta da ciência e mudar sua visão de mundo, os abraâmicos simplesmente deram de ombros, deram as costas para a ciência e redobraram sua fé. A religião deles se tornou algo de pura fé. “Deus sabe mais do que os homens”, eles declaram. Ou seja, eles não nos dão esperança de que a humanidade aja racionalmente ou por argumentos válidos e justos. Ela teria que agir às cegas, por desejo e vontade (de um deus) e não pelo intelecto humano. É algo muito impreciso.

A filosofia é racional, ela busca a verdade (e não a vontade). O universo inteiro tem uma alma. Esse é um conceito que começou com Platão e foi desenvolvido pelos neoplatônicos. Os estoicos também acreditavam numa energia vital RACIONAL que dirigia o universo: a “alma cósmica”. Os humanos seriam fragmentos dessa alma, e a vida só fazia sentido se exercêssemos devidamente a razão. Se resistíssemos à razão, a vida provavelmente se tornaria algo miserável e confuso. 

A ciência é materialista, positivista, ateísta, mecanicista e determinista demais. Ela torna tudo uma cadeia inexorável de causas e efeitos determinada por forças científicas. Não dá espaço para o livre arbítrio, a alma, os deuses. O positivismo afirma que o conhecimento deve ser limitado a aquilo que pode ser observado e cientificamente compreendido. Ele só foca em fatos observáveis e proclama que qualquer proposição que não possa ser reduzida a uma afirmação simples dos fatos é ininteligível. A ciência é positivista, materialista, empirista, e – portanto – todos os cientistas são incapazes de considerar o domínio numinoso. Não devemos colocar fatos “observáveis” num pedestal. Toda hora lemos sobre algo “cientificamente provado”, mas um tempo depois o oposto da mesma coisa também é “cientificamente provado”. Isso só prova que a pessoa acredita cegamente (e aí parece fé) em qualquer coisa que um cientista diz. Isso sem mencionar o patrocínio que acontece por trás das pesquisas “científicas”. O alvo da ciência é mutável, ela sempre se contradiz e substitui velhas teorias desacreditadas por novas. A ciência não mira o conhecimento absoluto, só o conhecimento progressivamente mais confiável. 

Na verdade a ciência não prova nada. Ela só reúne teorias provisórias e evidências temporais que apoiam essas teorias. Não tem a ver com certeza, e sim com o grau de confiança que temos naquela afirmação. Quase uma crença. “Confiança” não é nem verdade nem conhecimento. A ciência trabalha com paradigmas, e paradigmas não são verdades, são apenas construções nas quais a ciência se baseia durante certos períodos. “Não há fatos, só interpretações” (Nietzsche). É diferente da matemática, na qual você tem 100% de certeza de que 1+1=2. Isso é um fato. 

Se você rejeita a alma porque a ciência não pode prová-la, então você elevou a ciência ao status de uma religião e proclamou que qualquer coisa fora do ‘Livro Sagrado das Pesquisas Científicas’ é falso. E isso é fé. Os sacerdotes da ciência transformam-na em algo dogmático, lucram com isso e assim ganham status.

Lembre-se de uma coisa: ausência de evidência científica não é evidência de ausência existencial. Só porque a ciência não pode provar que algo exista, isso não prova que esse algo não exista. 

Os materialistas e os empiristas normalmente se colocam em guerra contra os idealistas e racionalistas. Os primeiros conduzem a ciência moderna, os últimos colocam a mente acima da matéria. O materialismo científico é ótimo para estudar o universo físico, mas praticamente inútil na hora de responder perguntas sobre a vida, a mente, a consciência, deus, as almas, o pós-morte.

Nós só precisamos da ciência para explorar o mundo porque ainda não somos bons matemáticos o suficiente. O empirismo é a matemática subjetiva, e o racionalismo é a matemática objetiva. São dois aspectos da mesma coisa. O empirismo nos diz como é experimentar os sinais matemáticos. O racionalismo nos diz como executar esses sinais. Uma coisa não deveria rejeitar a outra. A informação sensorial e o raciocínio se complementam; um sem o outro se torna irrelevante. Carl Jung já dizia que “é provável que a psique e a matéria sejam dois aspectos diferentes de uma e da mesma coisa.”

Os cientistas do cérebro tentam provar que o livre-arbítrio é uma ilusão e que tudo o que fazemos nada mais é do que a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência. A mente é deixada de lado, para as conjeturas e sonhos dos idealistas. Se isso for verdade, nossa vida não tem valor, nem sentido, nem uma razão de ser. E então o universo seria uma farsa, uma simples máquina girando sem razão alguma, para cumprir um programa sem propósito. 

Mas como cada átomo no mundo “sabe” como deve obedecer/reagir às leis da causalidade científica? Seria necessário que cada pedaço do universo, cada ponto adimensional, contivesse todas as leis cósmicas em si. E ter o cosmos em si é ter uma dimensão divina em si. Mesmo que os cientistas possam argumentar que essas “leis” estão gravadas no nosso DNA, como isso se aplicaria aos átomos? Qual é o “DNA” de um elétron, de um fóton, de um quark, de uma onda de energia? Como eles sabem exatamente o que fazer? Se os átomos são o hardware, onde estariam seus softwares, e como os átomos são programados? 

Você não precisa ser ateu para ser uma pessoa de razão. Existem religiões que possibilitam pessoas racionais a se comprometerem plenamente com elas. Assim é com o helenismo, por exemplo. 

Dizem que somente uma pequena parcela da humanidade pode ser considerada “racional”, de 10 a 20%. Essas pessoas são identificadas pelo seu interesse na ciência, no ateísmo, no agnosticismo, no ceticismo, em assuntos acadêmicos, em derrubar teorias de conspiração, em filosofia. Todas têm no mínimo um pé atrás com as religiões abraâmicas e não se sentem à vontade com a ideia de “fé”.

Mas todas as pessoas, mesmo as “irracionais” (as mais “sentimentais”), são intuitivamente matemáticas. Elas gostam de música (que é matemática), elas sabem apanhar uma bola no ar sem pensar (sem ficar fazendo cálculos de projeção e velocidade do projétil etc). Todos nós resolvemos essas equações de uma forma praticamente inconsciente, porque esse elemento sagrado do Logos está presente em tudo. 

Observem os autistas. Eles fazem cálculos matemáticos como se fossem computadores, mas nem se dão conta disso. É como se a resposta simplesmente já estivesse presente ali com eles. Essa intuição reflete processos cósmicos acontecendo subliminarmente. Agora observem os abraâmicos. Muitos mal sabem contar e escrevem fora da norma culta da língua. Os muçulmanos proclamam com todo o orgulho que seu profeta Maomé era analfabeto. Você gostaria que o fundador de sua religião fosse um cara que nem sabe ler?

Heráclito criticava Homero e Hesíodo, porque as pessoas escutavam o que eles diziam e aceitavam a autoridade deles sem questionar. Heráclito queria que as pessoas pensassem por si mesmas, que vissem as coisas em vez de ouvir falar delas, que descobrissem as coisas sozinhas e não ouvindo servilmente os outros. Ele percebia que as pessoas costumavam atravessar a vida como autômatos, como robôs. Heráclito também odiava a democracia, a chamava de “ochlocracia” - o governo da multidão ignorante. 


V. FÉ x LÓGICA E VERDADE:

Roger Bacon escreveu que o triunfo da ignorância tinha quatro fontes principais: o apelo a uma autoridade inadequada, a influência indevida do costume, as opiniões de uma multidão inculta, e as demonstrações de sabedoria que simplesmente encobertavam uma ignorância. Não podemos ser guiados por crenças apenas por elas serem largamente difundidas e populares. A verdade não é democrática. Não se trata de uma disputa de popularidade. 

Schopenhauer dizia que a verdade passava por três estágios: primeiro ela é ridicularizada, depois é violentamente combatida (as pessoas se opõem a ela), e por fim ela é aceita como auto-evidente. Mesmo o “senso comum” não é algo muito acertado. Einstein dizia que o “senso comum é o conjunto de preconceitos que adquirimos por volta dos dezoito anos de idade”.

O Torá, a Bíblia e o Alcorão, todos clamam ser a revelação suprema, eterna e imutável do mesmo Deus, ainda que cada um desses 'livros sagrados' diga coisas extremamente contraditórias e diferentes um do outro. Trata-se de algo tão irracional, que não é de se estranhar que Martinho Lutero, o fundador do protestantismo, descreveu a razão como “the Devil's whore”, 'a prostituta do demônio', a arma que este usaria para te afastar da fé, que era a única coisa que importava para Lutero. Qualquer pessoa que hoje diz ser uma “pessoa de fé” está concordando com Lutero - e rejeitando a razão.

A religião vigente hoje consiste de declarações ilógicas que são consideradas aceitas simplesmente porque um grande número de pessoas as assume como certas. Para eles, o que importa é a sua popularidade e o seu poder emocional, e não sua verdade ou sua racionalidade e sentido.

Para um verdadeiro pensador, a existência de Deus(es) é irrelevante ao menos que esse(s) Deus(es) possa(m) nos prover e nos provenha(m) - com uma explicação para a existência. Desejar entender a mente de um deus é o mesmo que desejar ser como um deus, e é isso o que diferencia esses dois tipos de pessoas: os “crentes” são submissos que querem ser dominados por um ser todo-poderoso, e os “pensadores” são aqueles que nunca descansarão até conhecerem cada detalhe de como o mundo funciona.

A verdade objetiva nunca residirá em uma pessoa, mas em um sistema – um sistema platônico de verdades eternas, absolutas, indiscutíveis, imutáveis e perfeitas. Por isso que Platão falava em uma Verdade com V maiúsculo como algo eternamente perfeito, e não em uma pessoa de alegada perfeição eterna (Deus). Ele não podia imaginar um criador eterno e perfeito, as dificuldades lógicas para isso são intransponíveis. Se o criador fosse perfeito, sua criação também o seria. Já um sistema, este pode existir em um domínio perfeito (imaterial) e este mundo (material) ser só uma cópia falha dele, sendo então imperfeito. Uma pessoa (ou personalidade) poderia evoluir para a perfeição, mas isso significaria que ela antes disso era imperfeita, portanto, ela não poderia ser “eternamente” perfeita.

A verdadeira base existencial da realidade não envolve fé, obscurantismo, ocultismo, crendices, mágicas, e afins. Mas também não é a ciência que fará isso. A ciência é só um 'estagiário' da filosofia, no âmbito de responder às grandes questões existenciais. A ciência é ótima em explicar os “comos”, mas não é tão boa em explicar os “porquês”. Na matemática, por exemplo, a ciência só aceita os números reais maiores que zero e menores que infinito, porque os demais não seriam “empiricamente detectáveis”. Quando simplesmente rejeita o zero, o infinito, os números negativos e os números imaginários, sem uma razão racional para tal (já que a mente entende o que são zero e infinito etc), a ciência se aproxima de uma crença dogmática, em seu outro extremo. 

O Abraamismo é um campo sem lógica ou com algo disfarçado de lógica. A ciência é um campo com uma lógica incompleta. As religiões de aperfeiçoamento são as mais lógicas.

Gottfried Leibniz dizia que o melhor mundo é aquele que é “o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenômenos”. E, realmente, depois que a gente começa a entender essas coisas, no começo a gente pode ficar meio descrente ('des-crente'), mas depois começa a achar tudo tão óbvio, tudo nos seus lugares como deveria ser, e a ficar maravilhado em como se tratava de algo tão simples.

A metafísica (o que existe além do mundo físico), um ramo da filosofia, estuda o universo do númen, o mundo imaterial das ideias de Platão. (Para Platão, as coisas percebidas pelos sentidos são os fenômenos, e as coisas refletidas pelo pensamento/razão são os nôumenos). A religião vigente também comenta sobre o universo numinoso, mas faz isso de uma forma irracional e baseada em fé, onde as afirmações dos profetas e dos textos sagrados são consideradas uma espécie de 'verdade' absoluta revelada por 'deus'. A religião abraâmica é pouco racional e verificável. E o mais irônico é que ela diz que “a verdade vos libertará”.

Sair da fé para o conhecimento requer muito trabalho. Pensar por si mesmo (em vez de pensar como alguém lhe diz para pensar) dá trabalho. Nem todo mundo está disposto. A maioria não ‘quer’ (e age baseado nisso, no querer, na vontade, no desejo).


VI. RAZÃO x EMOÇÃO:

Apenas uma pequena proporção da humanidade é guiada pela razão. O resto é controlado pelo desejo/vontade. Assim, normalmente é pouco efetivo se dirigir às massas com argumentos racionais – é preciso atingir suas emoções e desejos se você quiser vencê-los em um debate. Por isso que os discursos de Moisés, Jesus e Maomé eram tão apelativos de emoção, com ameaças de dores eternas (no fogo do inferno) para quem os opusesse. O abraamismo gira em torno desses sentimentos. Para sair desse ciclo e caminhar em direção à divindade, precisamos abraçar a razão. Não há outro modo de fazer isso.

O abraamismo apela somente à emoção. Rezar recitando uma série de frases como se fossem encantamentos mágicos e suplicar alguns favores pessoais ao criador para você e não para os outros, é algo ilusório e emocional, não algo lógico e racional.

Os que buscam a iluminação são mais idealistas do que materialistas, mais racionalistas do que empiristas. Quem entenderá melhor a alma? Um tipo sensação ou um tipo intuição? Sendo a alma algo que não podemos tocar, cheirar, olhar, ouvir, fica evidente que a resposta é o segundo tipo. O mundo numinoso é o território natural dos idealistas, racionalistas, intuitivos.

Para os estóicos, a liberdade jaz em entender racionalmente as leis do universo. As emoções eram um desastre porque elas perturbavam nosso julgamento, obscureciam a verdade, e nos fazia querer coisas que nunca poderiam acontecer.

As pessoas mais sentimentais tendem a ser criacionistas. Eles têm medo de mudanças e do futuro, eles procuram segurança e certezas. Um criador que não muda há milênios é um símbolo dessa segurança. Tudo o que elas têm que fazer é pôr sua fé no criador e relaxar emocionalmente.

Os gregos foram os primeiros a oferecer um pensamento racional (de Logos) no lugar de um pensamento mágico (de Mitos). Mas toda religião saudável deve ser uma mistura de Mitos e Logos, de subjetivo e de objetivo. O mito às vezes esconde verdades maiores, segredos superiores, um sentido mais profundo, uma sabedoria suprema. E a razão balanceia isso para não virar superstição.


VII. TELEOLOGIA:

Quando perguntamos “por quê?” podemos ter dois tipos de resposta, uma com as causas do evento (a explicação mecanicista) e outra com os propósitos do evento (a explicação teleológica), ou seja, esta última seria mais um 'para que' do que um 'por que'. Freud gostava de buscar as causas na infância, os motivos e circunstâncias anteriores à situação atual. Já Jung gostava de se perguntar a função daquilo, a razão última para estar acontecendo, para que aquilo nos serviria.

Os cientistas acham que o destino do universo é terminar em uma morte pelo calor, quando tudo rui por conta da Segunda Lei da Termodinâmica. Isso é quase um dogma de fé para eles.

Nós não pensamos assim. A nossa não é uma religião de fé, é uma religião de razão, que oferece a todas as almas a se tornarem divinas, a atravessarem o tabuleiro de xadrez da existência e a serem promovidas de peão a rainha.

É através da razão que fazemos contato com a ordem divina. Os elementos que controlam o universo são racionais, então – quanto mais racionais formos – mais refletiremos a inteligência do cosmo. Mais as coisas farão 'sentido'. Como dizia Sócrates, “uma vida não-examinada não é digna de se viver”.

Se o seu projeto de vida não for se tornar 'divino' (ou o mais excelente/virtuoso/iluminado possível), então você está praticamente ofendendo a sua essência, está bloqueando a realização da oportunidade que a sua alma recebeu. 

Portanto, caro leitor, se você conseguiu chegar até aqui nesse longo texto, pense sobre essas coisas. Não fique preso ao lado A, nem seja tão ‘lado B’... Que tal 'ser' do 'C'?

;)