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junho 05, 2012

Voa, voa, "brabuleta"...


"A asa é o elemento corpóreo que é mais assemelhado ao Divino, e a qual por natureza tende a se elevar bem alto e carregar o que gravita para baixo até a região superior, que é a habitação dos Deuses. O Divino é Beleza, Sabedoria, Bondade, e tudo o que é semelhante a isso; e por essas qualidades a asa da alma é nutrida, e cresce em ritmo acelerado; mas quando alimentada com o mal e a impureza e o oposto do que é bom, a asa desgasta-se e cai." (Platão, trecho de "Fedro")
Hoje estava vendo uns anéis em formato de asas e percebendo novamente como as pessoas só associam asas a anjos, como se estivéssemos cristianizando as imagens quando as ilustramos com asas. Para começar, até anjo vem do grego (angelos = mensageiro). Segundo, várias deidades gregas são representadas aladas: Eros, Psiquê, Nikê, Hermes, Hypnos, Íris... Terceiro, a simbologia das asas é muito mais antiga do que se imagina. A associação mais comum é da alma com asas e, em casos particulares, com borboletas. Então é desse mais geral até esse mais específico que vou recordar aqui: almas - asas - borboletas.

No Egito Antigo, uma ave com cabeça humana correspondia à alma de cada pessoa. Em concepções populares da África do Norte, o corpo possuía duas almas, sendo que uma seria o suporte onde a outra 'pousaria' na forma de um pássaro, abelha ou borboleta. Para os yacutes, tchuvaches e outros povos da Estônia, a alma sai pela boca de quem dorme, para viajar, sob a forma de um inseto ou borboleta. A maioria dos povos turco-mongóis acredita que a alma pode viver separada do corpo sob a forma de um animal, inseto, pássaro ou peixe. 

As asas nos lembram o alçar voo, a leveza, o alívio, a liberdade. Quando o xamã sai do corpo é nesse sentido de liberação e poder. As asas nunca são recebidas e sim conquistadas - através de ritos iniciáticos. Os taoístas acreditavam que só os que tinham a leveza e o poder de voar chegariam às Ilhas dos Imortais - o corpo sutil alçaria voo como um embrião de imortal; por isso seus hábitos seriam parecidos com os das aves. O Rig-Veda hindu diz que "a inteligência é o mais rápido dos pássaros" e um dos Bramanas diz que "aquele que compreende tem asas". No cristianismo, claro, os anjos são alados e o Espírito Santo é representado por uma pomba. Em suas escrituras, fala-se sobre as asas de Deus, as quais designam seu poder, beatitude e incorruptibilidade (vide, por exemplo, o salmo 16,8 "tu me protegerás às sombras de tuas asas"). E, se o homem é imagem e semelhança desse deus, ele teria suas próprias asas, mas as teria perdido ao pecar; caso se redima, as recupera para elevar-se ao divino. Como vimos na citação do início da postagem, essa ideia cristã muito provavelmente teve origem no Fedro de Platão. Já as asas dos calcanhares de Hermes simbolizaria o viajante noturno, o voo onírico, o instante dinâmico. Os santos budistas também tinham essa ideia de 'pés ligeiros' a viajarem pelos ares; e os contos de fadas também falam das botas de sete léguas. As asas nas omoplatas lembram espiritualização, as nos calcanhares lembram dinamismo. Na literatura, tanto o poeta quanto o profeta desenvolveriam asas no momento de sua inspiração.

Quanto ao simbolismo da borboleta, podemos pensar na saída da crisálida como uma saída do túmulo, uma ressurreição em outra forma, desta vez alada: a alma liberta de seu invólucro carnal. Entre os astecas, a borboleta é um símbolo da alma que escapa pela boca de quem está morrendo. Se uma borboleta brinca entre as flores, eles entendiam como a alma de um guerreiro morto em batalha, o qual acompanhava o sol até o meio-dia e depois descia à terra em forma de colibri ou borboleta. No Zaire central, fala-se de uma analogia da vida humana ao ciclo da borboleta: lagarta pequena na infância, lagarta grande na maturidade, crisálida na velhice, casulo no túmulo, borboleta quando alma liberta, e ovos de borboleta quando reencarnando. Entre algumas populações turcas na Ásia central, as quais sofreram influência iraniana, acreditava-se que os defuntos poderiam aparecer na forma de uma mariposa. Nos afrescos de Pompeia, Psiquê era representada como uma menininha alada, semelhante a uma borboleta - talvez também porque a mesma palavra grega "psique" servia para significar tanto "alma" quanto "borboleta".

Quando uma borboleta passa por mim, sempre me vem a imagem de alguém que já morreu, então considero uma saudação que aquela pessoa me faz, através daquelas asinhas que farfalham ao meu redor. Não sei vocês, mas eu reconheço a figura das asas como algo muito mais profundo e anterior à simples associação aos anjos. E espero que todos tenham essa liberdade de desenhar asas nas almas sem sentirem que estão sendo influenciados por uma crença que na verdade foi antes influenciada pela nossa. Fora que a filosofia de Platão fica acima de qualquer filiação religiosa...

Assim termino esses 'pensamentos em voz alta', e adejo meus cílios em um beijo de borboleta a todos que aqui me leram.


(PS.: O título à moda de Chayene da novela fica só por publicidade. *rsrs*)

fevereiro 26, 2012

Purificação e Inspiração



"O homem é o sonho de uma sombra;
mas quando os deuses lhe enviam um simples raio de luz, 
uma aura radiosa o envolve 
e sua existência conhece a doçura do mel." 
(Píndaro, VIII Ode Pítica)


Tudo o que é ligado aos deuses é sagrado. E o que é sagrado é separado daquilo que não é. Os antigos helenos acreditavam que para estar na presença do que é puro era preciso estar puro. Ter contato com coisas comuns, principalmente as causadoras de miasma, era uma forma de poluição. Para evitar isso, nos purificamos antes de iniciar um ritual, mesmo que seja apenas com o lavar as mãos na água lustral. Em Elêusis, os candidatos à iniciação nos Mistérios tomavam um banho de mar antes do rito. Em várias religiões, muitas coisas são capazes de purificar uma pessoa: jejuns, abstinências, sacrifícios, provações etc, mas o lavar-se com água parece ser o mais comum em todas elas.

É claro que uma purificação real é algo que se estende para todos os níveis do ser (físico, mental, espiritual), mas lavar o corpo é a realidade mais palpável que temos, na qual a mente vê uma clara demonstração do que vem a seguir, em um nível mais profundo. Em um ritual de transição, como num batismo ou iniciação, é como morrer para renascer renovado. Uma morte na qual, em vez de terra (enterrar-se), cobre-se com água. Desce-se a um mundo inferior e ergue-se novamente, emergindo não só renascido, mas limpo pelas águas. Espera-se que essa simples 'performance' tenha o poder de influenciar a mente/alma a uma experiência mais consciente de si. Por isso que não adianta apenas participar de um batismo aspergindo-se água e recitando algumas preces, ainda mais sendo criança como acontece no cristianismo. O caminho do "batismo" teria quer ser um 'rito de passagem', e não apenas uma 'rota de passagem' para fazer parte de um grupo/comunidade religioso/a. Seria preciso mergulhar no seu sentido, no seu simbolismo, na questão da "ressurreição/renascimento" para que produzisse algum efeito purificador na alma humana. 

Há vários mitos com esse tema em várias crenças, e mesmo entre os gregos há diversos, como o de Dioniso, de Héracles, de Psiquê, de Orfeu, entre outros. Eles falam especialmente sobre uma figura que é parte mortal e parte divina e que se debate para purificar-se reunindo essas duas naturezas e ascendendo até um lugar entre os imortais.

Esses mitos também mostram várias formas de se conseguir isso. Quando Dioniso eleva sua mãe Sêmele à morada dos deuses e lhe coroa com a Thyone (inspiração), ele o faz através de seus rituais orgiásticos, dança, canto, êxtase, mântica, inspiração, iluminação. Já os órficos vão acrescentar um toque apolíneo na selvageria de Dioniso e criam uma tradição mais reservada, contemplativa, asceta, embora com a mesma ideia central: a da consciência, da iluminação de perceber sua natureza divina, de acordar da ilusão para a verdade, de escapar das brumas da morte e do esquecimento que lhe envolvem. Como acreditava Platão, nós não aprendemos nada, só nos lembramos do que já sabíamos, porque nossa alma conhecia tudo antes de nascer ("conhecer é recordar verdades que já existem em nós").

Todos nós temos uma pureza interior que vaga no meio da nossa confusão interna. O fato de estar de noite não significa que o sol morreu, ele só está fora de nossa vista. Orfeu dizia: "Meus puros amigos, filhos e filhas da terra e do céu estrelado; escapem do Fuso da Necessidade e da tristeza, desgastado em torno da Roda do Nascimento! Entrem na grinalda do céu dos mortais que se tornam Deuses!"

Filhos da terra e do céu, somos constituídos parte da impureza dos Titãs e parte da pureza de um Deus (Dio). Lord Byron também vai dizer que somos "metade poeira e metade deidade". Mas parece que nos esquecemos dessa parte de clareza e liberdade e nos apegamos à parte que é limitação e confusão. Precisamos escapar desse fuso de tristeza e sofrimento. Hesíodo dizia que a melhor prece que alguém pode oferecer aos Deuses é estar continuamente em paz consigo mesmo. E até George Harrison compôs uma música para Krishna cuja letra inclui "keep me free from birth" (mantenha-me livre do nascimento).

Mas o Fuso da Necessidade, a Roda da Fortuna, o Tear dos Destinos, não é algo ruim por si. Afinal, é ele/a que nos põe em movimento. Tudo no mundo gira e demonstra seu lado oposto. Quando a roda muda, o sofrimento nos faz conhecer a alegria e o amor, por mais que se acredite que ele sempre volta e nos leve embora quem amamos e nos faz felizes; porque aquele ciclo se fechou e outra coisa vai surgir para trabalharmos nossa evolução. A vida é algo maior que nós mesmos. Não somos 'egocentricamente' responsáveis por como o universo funciona e sempre funcionou antes mesmo de estarmos aqui, e nem ele funciona desse jeito para nos punir ou recompensar. As pessoas não sofrem porque um ancestral delas foi desobediente e comeu uma maçã proibida. A gente sofre porque faz parte do estágio de se conhecer, de se dar valor ao que se conquista, de aprender com as leis da natureza, de se caminhar ao encontro de nosso lado divino. Só assim se obtém o conhecimento que nos aproxima dos deuses.

Muitos gostam de chorar, soluçar, gritar de raiva, perguntar "por quê?" e "o que eu fiz pra merecer isso?". Não existe um porquê. E nem tudo depende unicamente do que você faz. A verdadeira resposta não é nem uma resposta, é uma percepção, um 'insight', de que tudo aquilo tinha que acontecer e de que não adianta fantasiar um drama (ou uma tragédia grega) sobre a nossa "desgraça". A solução é procurar entender, visualizar, enxergar as coisas sem ficar com desejos tolos e preocupações irreais. Em vez de se perguntar "por quê", faz mais efeito perguntar-se o "para quê". Nem tudo é culpa sua, assim como nem tudo é resultado de sermos marionetes de algo maior. Plutarco já dizia que a verdadeira piedade (ser pio, acreditar) é o meio-termo entre um medo excessivo do sobrenatural e uma indiferença ateísta, assim como Aristóteles já ensinava sobre a virtude ser a justa medida entre dois extremos de vícios.

Mesmo o mito de um pecado original não dizia que o paraíso foi destruído, ele continuou lá. A paz e a beleza originais existem em algum lugar do mundo, a gente só se esqueceu do caminho que nos leva para onde eles estão. E esse lugar existe fora e dentro. Nesse sentido, por mais que não sejamos o centro do mundo, nossas conquistas são também a de todo o resto, porque refletimos o cosmo e o divino reside em cada um. "Assim como em cima, é embaixo", diz Hermes Trismegisto. Só que é tão nocivo se esquecer da sua parte humana desimportante quanto o é esquecer-se da sua parte sagrada fundamental.

O despertar é conhecer o propósito das coisas e ficar em paz. O difícil é atravessar a estrada longa até esse estágio. Vamos desdobrando os véus que cobrem a realidade à medida que nos colocamos em marcha, na direção de amar, ajudar os outros, lutar por uma causa, sentir, pensar, refletir, meditar, conectar-se ao sagrado, buscar a sabedoria, neutralizar o sofrimento e o efeito da dor.

A grinalda de flores ou folhas que coroa os vitoriosos é circular. O final e o começo de um círculo são o mesmo. É um símbolo de algo eterno e perpétuo, como são os deuses e a roda da vida, que reúne mortais e imortais. Somos partes deles e não podemos nos separar deles, como os puros se unem aos puros. Perceber isso é inspiração, é 'thyone', é elevar-se à "grinalda do céu".

"Um deus, uma deusa, reside dentro de cada um de nós. 
Quando o espírito se levanta, radiamos com um brilho interior, uma aura
É esse espírito sagrado que planta as sementes de tudo que somos e fazemos. 
Esse espírito sagrado é a nossa inspiração." (Ovídio)

fevereiro 11, 2009

Azuis...

Primeira aula de Hatha Yoga!

Entre as várias coisas legais (professora com sotaque latino, colega da área de Letras, começar com dor nas costas e sair levinha, voltar a enxergar auras como há muito tempo não acontecia, 'ver' uma rosa e espirais de papel azul, 'virar' cobra, gente, borboleta, saber que o centro vai funcionar no carnaval etc), queria compartilhar uma visualização que tive durante um exercício. Aliás, isso de fechar os olhos e transportar-se para outros lugares me lembrou um pouco do xamanismo.

Quando estava como borboleta, primeiro vi perspectivas de uma parte da faculdade, depois eu me virava pelo ar e me vi voando entre uma espécie de céu e mar (tipo acolchoados e texturizados), ambos azuis (em tonalidades diferentes), meio surreais, acima e abaixo de mim, depois vi um ponto de onde saíam raios, isso eu ainda voando na direção do ponto, mas ele foi se abrindo (aumentando) para revelar que era tipo uma luz em final de túnel, eu via o túnel e o asfalto abaixo, mas ainda era tudo azul (escuro embaixo e claro em cima) - exceto pela paisagem colorida e iluminada lá do outro lado. Antes de chegar a sair do túnel, veio um monte de água - azul - inundando o lugar, vindo em minha direção. Mas eu não tinha medo nem me afogava, eu deixava ela vir me lavar.

Vou me limitar a apenas deixar esse relato, sem ir além em ampliações simbólicas. Voltei satisfeita e sinto que as aulas me farão bem, só senti falta desse momento de compartilhar o que vemos, então vou ter que fazer isso com vocês, rsrsrs!

A professora usa Namaskár em vez de Namastê, mas achei uma explicação AQUI, de que no fundo são a mesma coisa. Então eu lhes saúdo com a força de minha mente e o amor de meu coração...