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agosto 09, 2026

O tordo e o todo

"Day one, day one. Start over again..." (Alanis Morissette)

 Bom, vamos lá!

    Ontem foi o que chamam de um portal, pelas datas repetidas (08/08). No dia anterior, consertei algumas coisas, imprimi as partituras que cantarei no coral este semestre e comecei a trabalhar num artesanato que terminei ontem. Na manhã do sábado, banhei minha cachorrinha, fiz almoço e limpei a casa. Terminei então de customizar uma lira de tília que comprei do tipo DIY (Do it Yourself - Faça você mesmo), primeiro pirografando na madeira, depois envernizando com a cor que escolhi e depois colocando as tarrachas, ponte e cordas (foto abaixo). Claro que fiz prece a Hefesto e Atena antes do trabalho manual, mas o instrumento em si dedicarei a Apolo e Ártemis, e escrevi meu nome atrás em grego e no Linear-B micênico. Ao pôr-do-sol, fiz meu rito do sábado, com algumas alterações. No oráculo de cartas, saiu Penélope (Rainha de Espadas) e a realização pessoal de Dédalo (9 de ouros). Ressoou bem com o meu momento. Também aproveitei para colocar meus cristais para energizar na chuva. À noite tive um sonho que serviu para o meu dia dos pais, mais como mensagem para mim mesma e as imagens que criamos e que por vezes nos limitam até conseguirmos virar a chave. 

    Hoje de manhã, quando chego no meu carro, vejo um pássaro morto no chão abaixo e à frente dele. Nossa primeira reação tende a ser um susto, mas - conhecendo as curvas da ornitomancia - sei que funciona diferente (como a carta da morte no tarô). Fiz preces a Hécate e Hermes encaminhando o pequeno ser, e mandei foto para a minha terapeuta holística. Ela, que conhece bem os meus processos, disse que - no ponto de vista dela - poderiam ser 3 coisas: "Comunicação de mortos; Ciclo que se encerrou; Uma libertação que aconteceu". O que me fez todo o sentido. No artigo sobre ornitomancia do meu site, inclusive, tem o trecho que diz "Se você vê um pássaro morto na estrada ou bate em um, por mais que a morte seja algo ruim talvez isso signifique que a dor vai acabar: a dor do seu coração partido, a dor de estar procurando um emprego... A morte do pássaro pode anunciar o final da sua busca e/ou do seu esforço". Com relação ao pássaro, me pareceu um sabiá, que é da família do tordo. O tordo é uma ave associada a Euterpe, a musa da música. Bem apropriado também para quem acabou de customizar uma lira. 

    É importante a gente fazer essas costuras entre as coisas e ir percebendo as sincronicidades como pontos nos teares dos destinos (Moiras). Claro que sempre com moderação, na justa medida (métron), para não extrapolar para uma superstição (deisidaimonia). Quando cheguei na casa da minha mãe em outra cidade, soube que teve um tornado num município que fica a 2 horas daqui, no mesmo 08/08, mas lógico que é algo rolando com todo mundo (o tal do portal) e não algo que gire em torno da gente. O importante é enxergar algumas coisas como se fossem uma resposta às suas ações, um resultado dos seus esforços e investimentos. O ditado da antiguidade era "junto com Atena, erga também sua mão". O de hoje em dia é "deus ajuda quem se ajuda". Faça sua parte e confie, mas não deixe de fazer a sua parte. 

    Esses sinais nos servem para ensinar a sermos gratos. Agradecer um presente faz o outro ter mais disposição de te presentear novamente, enquanto que achar defeito tira a vontade de tentar te agradar de novo. Semelhante atrai (e cura o) semelhante.

    Pensei se deveria esperar mais o desenrolar das coisas antes de escrever aqui, mas acredito que já imagino o que virá e que precisarei separar o que já é publicável e o que ainda será surpresa.

    Por ora, deixo essa dica: aproveite sua energia para o que realmente vale a pena, e a resposta dEles virá.

minha lira


setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


junho 15, 2015

Não Somos Duoteístas! (ou 'Patronato - Parte 3')

Atena. Just because. rsrs

Precisamos mais uma vez esclarecer sobre os patronos. O maior equívoco que tenho percebido com várias pessoas é uma excessiva preocupação com a descoberta dos patronos de uma forma que se assemelha a um duoteísmo. Não sei se isso é influência das religiões afro em que se tem um orixá de cabeça e de corpo, ou das ficções mitológicas que pregam o ser "filho" de um deus e/ou deusa, mas a patronagem no helenismo não é bem assim. Sim, nós costumamos ter um par de deuses como patronos, mas não são os exclusivos em culto. Por exemplo, eu estou numa fase super Ártemis, e já tive essa fase várias vezes, mas não questiono ser de Atena. A maioria das pessoas fica em crise quando está numa relação forte com um deus, achando que ele está se mostrando o patrono. Ora, a gente pode ter um relacionamento profundo com diversos deuses. Não é tipo termos uma familiaridade com "pai e mãe" e todo o resto não ser família, os outros deuses serem só amigos, não é isso. Até quando me perguntam quais meus principais deuses de culto, eu não cito só Atena e Zeus. Nós celebramos todos os deuses possíveis, mas existem alguns que têm mais a ver com o nosso modo de ser e viver no mundo. 

O que percebo é que os patronos são deuses que honramos com a nossa vida. Eu não faço todos os festivais a Atena, mas eu a honro com a minha conduta. Sempre que ajo com sabedoria ou astúcia, por exemplo, vou estar agradando Atena; se eu demonstrar 'xenia' (hospitalidade) e tiver liderança de grupo, agrado a Zeus. Posso estar cultuando Ártemis ultimamente, mas continuo honrando Atena na maneira que levo a vida. Os outros deuses eu preciso fazer um esforcinho maior para honrar. Eu tenho que parar para pensar um pouco, não é tão natural. Por mais que eu ame ambientalismo e tente viver com os ideais amazonas, não sou tão fisicamente forte/esportista como Ártemis, tão pouco me ligo no lado cuidadora de bebês dela. Essa questão dos epítetos também é interessante - quando mais nova, eu tinha o lado sedutor de Zeus, hoje estou mais para o lado líder e organizada, saindo de um aspecto para outro. Dioniso veio como uma grande paixão na época das minhas pós-graduações, mas seu lado caótico entrou em conflito com a ordem de Zeus e a sobriedade de Atena. Já Zeus me chegou muito discreto. Eu poderia ter resistido a ele em nome de um suposto feminismo diânico anti-deuses-paternos e preferir Dioniso que é mais "trans", mas eu não precisei me esforçar para aceitar Zeus, porque quando o conhecemos de verdade sabemos que ele é maravilhoso. Mas também é maravilhoso Hermes que nos acompanha no trânsito, na comunicação, no trabalho... E igualmente lindo é Apolo, com o qual sonhei após tocar numa píton albina e isso ter melhorado minhas leituras oraculares. E o que falar de Ares, que me apareceu num sonho com uma tribo amazona? São tantos, e é tão bom existirem tantos, que eu não quero me apegar apenas aos patronos, e nem devo ser ingrata de excluir os outros da minha vida.

Há uma pessoa que me disse que achava que era de um patrono, depois achou que era de outro, daí "se despediu" do primeiro, agradecendo e se colocando à disposição e sem tirá-lo do altar. Isso não entrou na minha cabeça. Parecia uma "demissão"! A pessoa me disse que era tipo uma satisfação, mas Otto já falava que os deuses gregos não precisam de satisfação de que você está "namorando"/cultuando outro, porque eles não são ciumentos. Aí a pessoa disse que não era ciúmes, era como um "olha, eu não estou te ignorando nem estou bravo com você, só não estou aqui porque fui ali". Ora, isso não parece paternalismo? Tipo 'neném, papai vai sair com mamãe, você fica aqui com a babá e mais tarde eu volto, viu?' ou 'bem, me apaixonei por outra pessoa, vou ali viver isso'. Uma conversa normal tudo bem, mas "se despedir" ou "se explicar" é como dizer 'tchau, já que você não é meu patrono, não vou mais te dar a mesma atenção'. E esse "vou me dedicar aos meus patronos" (nesse caso) para mim é duoteísmo.

Mas, ainda assim, muita gente fica angustiado querendo saber seus patronos. Vou dar algumas dicas nesse caminho. Primeiro que nós helenos somos de razão, de análise, de percepção, de lógica, de intuição... não de fé. "Conhece-te a ti mesmo" e não "pergunta para fulano de quem você é". A pessoa precisa se perceber, eu no máximo posso dar pitaco. Oráculos costumam ter muito de projeção psicológica pessoal, por um lado é bom para nos conhecermos, mas por outro não podemos ter uma fé cega numa autoridade (oracular ou não), essas projeções muitas vezes só nos dizem o que queremos ouvir, o que nem sempre corresponde ao real. Fique aberto e descubra as convergências. Sei que muitas vezes uma deidade vem muito forte e nos faz questionar o patronato que acreditávamos ter, mas pode ser que não seja por aí, ou talvez esteja mesmo desconstruindo. 

Outra questão é a das relações. Ultimamente tenho recitado o hino de Proclo a Atena multiversátil, e nele fala da relação dela com outros deuses, e isso é muito legal. No entanto, já vi gente querendo justificar um patrono diferente dizendo que se confundiu porque o anterior tinha uma relação com o atual num referido mito ou aspecto. Isso é complicado, porque praticamente todos os deuses têm relação uns com os outros. Se for por essa lógica, poderíamos ser de qualquer um e pegar as histórias dos outros deuses para justificar, então não faz sentido esse argumento de "é porque fulano tem relação com cicrano". Exemplo: lobos têm a ver com Zeus Lykaios, mas também com Apolo Hiperbóreo, que tem relação com Dioniso, que seria avô de Mileto, que foi criado por lobos, cuja mãe era uma deusa agrária e do séquito de Afrodite (Ufa!). É meio como um mapa astral: "meu sol em touro me faz odiar mudanças, mas meu ascendente em gêmeos me faz amar mudanças, e meu vênus em áries me faz guerreira no amor, só que o marte em peixes me deixa calminha..." Tudo dá para achar uma relação. Por isso também não devemos nos apegar a patronos, é como se nos apegássemos ao signo solar na hora de ler o horóscopo. 

Mais um exemplo de interpretação que pode confundir é o caso da liderança. Há um livro chamado 'Os Deuses da Administração' que identifica quatro tipos de liderança. A liderança de Zeus seria a cultura de grupo, mais ligada a uma família, uma teia de aranha em que tudo parte da aranha. Mas há também a liderança de Apolo (cultura de fundação), de Atena (cultura de tarefa) e de Dioniso (cultura existencial). Em Atena há criatividade para solucionar problemas, em Dioniso o essencial é o talento ou a habilidade individual, alinhando isso a um objetivo comum, sem imposição. Quem quiser ler um resumo do livro, encontrei um doc neste link: Clique Aqui. 

Outra percepção questionável: me falaram que alguém poderia ser de Hades porque é monogâmico. Primeiro que tanto Hades quanto Perséfone deram suas escapadas, no caso de Hades teve no mínimo a ninfa Minta que foi transformada na planta menta. Segundo que a fidelidade dessa pessoa não estava no patrono, mas na patrona, que poderia ser Hera ou Deméter (esta também pode ser vista como possessiva, pois - se ela perde a filha - o mundo inteiro passa fome). E o lado ascético e regrado da pessoa poderia vir de Apolo, não de Hades. Por isso é importante analisarmos diversas coisas.

Os deuses são vários, incríveis e muito espertos. Notei nesses muitos anos de helenismo que há deuses que nos preparam para outros, vi isso principalmente nas crianças. A filha de uma conhecida era de Afrodite, mas era muito pequena para ser de uma deusa tão sensual, então um dia a mãe me contou que a filha tinha visto um rapaz moreno alado voando do quarto dela. Logo percebi que Eros cuidava da menina, a preparando para Afrodite. Mais tarde, uma amiga com dois filhos, senti que a menina estava sendo cuidada por Íris, a preparando para Hera, e que o menino tinha uma relação com Quíron e Asclépio, por uma ligação com Apolo. Eu nem os conhecia muito bem na época, mas depois a mãe foi me contando várias histórias que confirmavam isso, como a menina que desenhava sempre arco-íris e agia de forma majestosa em diversas situações, e o menino que desenhava unicórnios (que lembra centauros) e que se interessava muito por coisas belas e iluminadas. Achei curioso como Íris apareceu ligada a Hera, já que na mitologia ela é mesmo a sua mensageira. A mãe dessas crianças sempre se viu envolta pela presença de Atena, mas descobriu um patronato em Afrodite com o qual se sentiu bastante confortável. 

Por vezes, essa certeza é tão profunda que não sentimos necessidade de questionar, porque estamos nos sentindo bem ali. E sentir-se em casa deve significar alguma coisa. Se há essa insistência de ver os patronos como pai e mãe, então essa relação deveria ser confortável e segura como a de uma família mesmo, e deveríamos deixar os pais orgulhosos com a nossa conduta, uma conduta que corresponda ao que eles nos ensinaram. Por isso falei tanto que os patronos se relacionam com a nossa vida. E a nossa versão do "honrar pai e mãe", nesse caso, é bem por aí, no exemplo cotidiano, não numa aproximação que depende de muitos sacrifícios e horários e disposições. 

Espero que isso ajude a esclarecer mais um pouco como vejo essa questão, e diminua as limitações das pessoas em achar que devem se "dedicar" a apenas dois deuses em vez de a vasta e maravilhosa gama de deidades com as quais podemos nos relacionar.

dezembro 28, 2014

O Uso do Sino em Rituais

Após ver uma sugestão de ritual que incluía o uso de um sino, resolvi pesquisar se tal prática possuía ressonância na antiguidade. Encontrei um artigo chamado "For whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond" (Por quem os sinos dobravam na Grécia antiga? Sinos gregos arcaicos e clássicos em Esparta e além), de Alexandra Villing. São 74 páginas, mas faço aqui uma breve resenha. Adquiri também um sino com cabo de madeira para pirografar nele algo que o identificasse como de uso ritual. Depois, no texto, descobri que existiam mesmo inscrições votivas em alguns sinos de culto, especialmente a Atena.

HISTÓRIA

Os antigos não eram acostumados a sinos enormes como aqueles que soam nas igrejas de hoje, e sim a sinos portáteis de não mais do que uns 10 cm. Esses sinos de tamanho pequeno eram comuns na Grécia Antiga do período arcaico em diante, tanto em bronze quanto em terracota. Eles eram encontrados em santuários, túmulos e casas, e serviam para vários propósitos. Fontes arqueológicas, iconográficas e literárias atestam o seu uso como ofertas votivas no ritual e em situações funerárias, também como instrumento de sinalização dos guardas da cidade, como amuletos para crianças e mulheres, e num contexto dionisíaco no sul da Itália. A origem dos sinos é da área oriental e caucasiana, por onde eles encontraram entrada na antiga Samos e Chipre e depois na Grécia continental. O maior complexo de sinos encontrado, da era clássica, vem de escavações no santuário de Atena na acrópole espartana. Veremos que, além de Esparta, outros lugares também associavam o som do sino a algo protetor, purificador e apotropaico (que afasta os males). Os sinos de terracota eram claramente imitações baratas dos sinos de bronze, e serviam para efeitos de dedicação, podendo ser comparados a miniaturas de vasos, de armas ou estatuetas de animais usados como ofertas votivas.

Os sinos em maior número foram encontrados no santuário de Atena Khalkioikos na acrópole espartana em 1907, embora só em 1925 se tenha anunciado e poucos deles tenham sido apresentados ao público, tendo apenas se publicado alguns desenhos e as inscrições votivas encontradas neles. Depois, uma pesquisa no Museu de Esparta revelou que, nessa escavação, eles haviam encontrado 34 sinos de bronze e 102 sinos de terracota (ou fragmentos deles). É difícil saber o local exato dos sinos no santuário, pois parece que estavam em toda a parte, desde o sul do precinto até os fundos do teatro (incluindo a pequena construção que servia como santuário de Atena Ergane). O que se sabe claramente é que eles eram dedicados a Atena com os epítetos de Khalkioikos ("da casa de bronze") e Poliouchos ("suporte da cidade"), já que os sinos possuíam inscrições votivas a ela. O tamanho deles variava entre 2 e 8 cm de altura. No texto que li, a autora descreve a forma, a alça, os pés, como foram feitos etc, e traz desenhos dos mesmos. Quase todos os sinos tinham ao menos um buraco em cima para prender o badalo, o qual era sempre de ferro. Sete desses sinos tinham inscrições, três deles com dedicatórias completas, que indica se tratarem de ofertas votivas de um homem e duas mulheres. Outros três tinham abreviações (ΑΘΑ para ΑΘΗΝΑ - Atena). No sétimo parecia ter uma inscrição longa, mas agora só um A é claramente visível. As inscrições são claramente em lacônico do século V AEC.


No Menelaion de Esparta, no santuário rural de Aegina provavemente dedicado a Ártemis, e no santuário de Apolo Korynthos na Messenia, haviam sinos muito parecidos com os dedicados a Atena em Esparta. Eles tinham a forma de cúpula, com uma beirada mais grossa e com pés. 


Além desses lugares, os sinos mais antigos vêm de Atenas, onde três sinos de terracota decorados foram encontrados no túmulo de uma criança, também do século V AEC. Também encontraram-se sinos na Beócia (no túmulo de uma criança e em santuários de Deméter e dos Cabiros), em Selinous na Arcádia (no santuário de Deméter Malophoros), em Perachora (no temenos de Hera Limenia), em Pherai na Tessália (provavelmente vindos dos santuários de Ártemis Enodia e de Zeus Thaulios), em Olímpia, em Idalion no Chipre, e no argivo Heraion de Samos. 


Em Samos, a influência oriental (da Mesopotâmia, Babilônia, Assíria e Fenícia) aparece não só nos sinos, mas também em estatuetas de chumbo e em máscaras dedicadas a Ártemis Orthia.

Dessa parte introdutória, podemos resumir que, em termos de história dos sinos, há cinco pontos chaves a se mencionar. Primeiro, os sinos se encontravam por praticamente toda a Grécia e mundo grego, particularmente em santuários e túmulos. Segundo, a maioria dos sinos gregos eram feitos de bronze ou terracota, alguns de metais preciosos. Terceiro, os sinos de Samos, do Chipre, da Tessália e de Aegina eram baseados em modelos orientais. Quarto, os sinos gregos são normalmente pequenos e mais ou menos em forma de abóbada/cúpula, embora também apareçam sinos cônicos e hemisféricos; a parte de segurar era em arco ou alça, e inscrições neles eram raras. Quinto, não havia um padrão particulas: os sinos tebanos de bronze dos Cabiros e os lacônicos de Ártemis eram ofertas votivas, assim como os sinos espartanos de terracota para Helena e Menelau no Menelaion e os beócios para Deméter em Eutresis. Também se encontraram sinos em santuários a Hera (em Samos, Argos e Perachora), a Atena (em Esparta, em Idalion e talvez em Delfos), a Afrodite (em Mileto), e a Apolo (na Messenia e em Chios).

FUNÇÃO

Os sinos encontrados em Esparta eram claramente funcionais. Afinal, quase todos tinham badalo, o que também nos faz concluir que era improvável que eles tivessem sido usados como instrumentos musicais, já que, no caso, se bateriam com baquetas por fora do sino. Pode ser que eles fossem suspensos ou usados na mão. Uma vez que muitos tinham pés, eles provavemente não só ficavam pendurados mas podiam ser colocados em uma superfície para ficar de fácil acesso ao usuário.

Em Roma, os sinos eram usados para anunciar abertura de mercados e banhos, para acordar e chamar escravos etc, mas na Grécia Antiga esses usos não se confirmam, embora o sino seja conhecido nos tempos de Demóstenes como um meio de atrair a atenção. Na Grécia, os sinos eram carregados pelos guardas - tanto os comediantes Nicofon e Aristófanes quanto o historiador Tucídides mencionam o sino nesse contexto. Os guardas podiam usá-lo como adorno ameaçador da armadura, e o inspetor podia usar o sino para ver se os guardas estavam acordados. Sinos em animais, como cavalos, aparecem em Chipre com influência assíria, mas não se atesta o mesmo na Grécia em si. Em suma, o sino funcionava principalmente para duas coisas: como um sinal e com o aspecto ameaçador-protetor. Este último guarda uma conexão especial dos sinos com Atena como deusa da guerra e das habilidades manuais.

A palavra usada nas fontes literárias para se referir a sino é κώδων ("kódon"). Entre as fontes mais antigas a mencioná-la, está Empédocles, no século V AEC, quando ele descreve como o som é percebido dentro do ouvido. Ele diz que o órgão da audição é uma espécie de sino que reproduz ecos que se parecem com os sons de fora. Aécio, quando comenta isso, fala de uma parte cartilaginosa que balança quando é golpeada, um instrumento que produz som reverberante. Esse som dos sinos, especialmente o som do bronze, tem uma ligação muito grande com o som da batalha: os metais se colidindo poderiam induzir medo e ter o propósito de afugentar o inimigo. Vernant (em "Mito e Pensamento entre os Gregos") dizia que o som do bronze contra o bronze repele a bruxaria do inimigo. A própria voz de Atena é descrita por Píndaro como o som do bronze, seu grito um clamor penetrante. Outros autores a comparam com o som agudo do trompete, que era usado como instrumento de sinalização na guerra e que parece ser associado a Atena em Argos. Mas, quando Sófocles liga a voz de Atena ao som do trompete, a palavra que ele usa é κώδων, sino, um sino de bronze, uma vez que a parte frontal do trompete também era chamada de κώδων. Além disso, o epíteto de Atena em Esparta era Khalkioikos ("da casa de bronze"). Pausânias diz que o revestimento do templo dela na acrópole espartana era parcialmente decorado com folhas de bronze. Mas há mais: o culto de Atena Ergane como patrona dos trabalhadores de bronze em Atenas (principalmente no festival da Khalkeia) sugere que ela era patrona da forja de armas e que ofertas de bronze tinham lugar em seu culto. A própria palavra "khalkeion" (cesto de bronze) poderia se referir na verdade a um sino.

Porém, explicar o papel dos sinos como ofertas votivas meramente pela sua habilidade de reproduzir o som da batalha seria inconcluso, até porque há outros instrumentos mais efetivos que poderiam ser imaginados nesse contexto, e isso também não explicaria o envolvimento de mulheres como dedicantes. O uso no pescoço de animais de sacrifício também não cabe, porque só se encontrou uma representação assim pintada no altar de uma casa em Delos, para um festival romano, é improvável que os animais de sacrifício na Grécia usassem sinos. Há a possibilidade do uso do sino como objeto apotropaico e o seu inverso (ou seja, para afastar o mal e para atrair bons espíritos).

A evidência literária e pictográfica aponta que os sinos tinham de fato uma relação com o culto de Dioniso. Strabo chama o uso de sinos e o bater de tímpanos ma atividade dionisíaca, e Nonno chama uma das mênades de Kodone. Vasos do século IV AEC ao sul da Itália representam Dioniso e membros de seu 'thiasos' (séquito) ou segurando um sino ou com um sino amarrado no pulso ou amarrado ao tirso. Em pelo menos um, Dioniso segura o sino alto como se para dar um sinal ao seu thiasos. [Figura 3] 


Poderia-se imaginar os sinos sendo usados para chamar os mortos a um feliz pós-vida dionisíaco, mas isso não tem evidências suficientes nos registros arqueológicos, já que poucos sinos foram encontrados em túmulos ao sul da Itália. Também poderia-se imaginar que o som do sino provinha uma proteção mágica em particular para os períodos vulneráveis de abandono extático no ritual dionisíaco. Na Índia, por exemplo, mulheres e meninas de famílias ricas usavam tradicionalmente sinos para suas danças rituais. Dedicar um sino de bronze deveria mesmo ser algo caro.

A autora aqui pergunta "Isso tudo poderia implicar que a Atena espartana tinha uma face oculta no estilo da folia dionisíaca? Será que os homens e mulheres espartanas executavam danças em sua honra, enfeitados com sinos?". A dança sem dúvida era um aspecto importante na vida ritual de Esparta. Se confiarmos em Aristófanes, existiam danças associadas com o culto da Atena espartana: em Lisístrata, o coro chama Helena a conduzir a dança no santuário de Atena Khalkioikos. Uma estatueta arcaica de uma mulher tocando címbalos foi encontrada no santuário de Ártemis Orthia e o braço de uma estatueta similar foi encontrado no santuário de Atena na acrópole espartana. Mas não há evidência de sinos sendo parte de danças rituais nem para Ártemis nem para Atena. Em geral, os sinos eram menos adequados como instrumentos para acompanhar a dança rítmica, se usavam mais címbalos mesmo. No contexto dionisíaco, o sino era mais o caso de um instrumento para sinalizar e com um significado mais apotropaico relacionado ao som dele.

Há uma passagem de Teócrito que fala que "a ctônica Ártemis está se aproximando, façam do local um solo sagrado pelo bater do bronze". Ele cita a obra 'Sobre os Deuses', de Apolodoro, uma fonte que fala que o som do bronze desempenhava um papel em todas as espécies de rituais purificatórios: por ser puro e por afastar o miasma, ele era empregado durante os eclipses lunares e os funerais. Essa interpretação é apoiada por várias fontes romanas posteriores, atenstando que o som do sino era usado para afastar poderes malignos. No culto extático de Dioniso, o barulho do bronze poderia servir para manter os maus espíritos (que conhecemos como as 'keres') longe. No culto a Deméter, o barulho do bronze também aparece. Píndaro a chama de "Khalkokrótou Damáteros", pelo barulho dos címbalos e tambores de bronze que ressoavam na busca por Perséfone. Assim como a dança dos Curetes e Coribantes também usavam o bater de escudos para afastar o mal do bebê Zeus, sabemos que Deméter é patrona da maternidade, e o parto pode ter usado o som do bronze para afastar o mal da criança e da mãe. Isso explicaria por que encontramos sinos em túmulos infantis.

Em resumo, os sinos eram usados como ofertas votivas, como instrumento de sinalização, e como amuleto protetor apotropaico. O som do bronze do sino tinha qualidades potencialmente amedrontadoras, afastando o mal. E, em Esparta, os sinos eram oferecidos principalmente a Atena.

Segue a imagem do sino que comprei:




março 11, 2012

A dança como ritual (2º texto)



Os helenos acredita(va)m que a dança foi inventada pelos Deuses, como um presente dado aos mortais, e, portanto, associavam-na a cerimônias religiosas. Os textos antigos da época indicam que a dança era levada em alta consideração, principalmente por suas qualidades educativas. A dança era fundamental para os que se iniciavam em um círculo e ela terminava com os dançarinos encarando um ao outro. Quando não dançavam em círculo, eles seguravam suas mãos alto ou ondeavam-nas para um lado e para o outro. Eles também costumavam segurar címbalos ou um lenço nas mãos. Enquanto dançavam, cantavam, às vezes em uníssono, às vezes em refrão, repetindo o verso cantado pelo dançarino líder. Os que assistiam se juntavam a eles, marcando o ritmo ou cantando. Os músicos compunham letras para se adequar à ocasião. 

Em Roma, Marte tinha os "sacerdotes saltarines", que saltavam para que as plantas crescessem, em março. Cada dançarino levava uma espada no cinto, uma lança na mão direita e um escudo trácio na mão esquerda. Faziam movimentos rítmicos ao som de uma flauta e cantavam hinos tradicionais. Os escudos eram cópias do escudo de Marte que caiu do céu e foi conservado no fórum como garantia da continuidade do império.

Na Grécia, a "Dança Pírrica" (Πυρρίχιος) era executada na Panatenaia, festival a Atena, onde os dançarinos armados representavam suas tribos. Diz-se que a própria Atena dançou esse ritmo em celebração pela vitória dos olimpianos sobre os gigantes (a Gigantomaquia). Como competição atlética, existiam três categorias; meninos, imberbes e homens. O prêmio de cada um dos três desafios era um touro e 100 dracmas (quase uns 10 mil reais, creio eu). Havia um patrocinador que pagava pelo treinamento dos dançarinos de sua tribo. Os bailarinos tinham uma coreografia com movimentos de ataque e defesa derivados das artes guerreiras. Os tocadores de aulos (uma espécie de flauta dupla) acompanhavam a dança.

Eis algumas pinturas com o tema da Dança Pírrica [clique nas imagens para aumentá-las]:

Alma Tadema - A Pyrrhic Dance (1869)
Jean León Gérôme - The Pyrrhic Dance (1885)

Nonnus, na Dionisíaca, conta do casamento de Harmonia, filha de Ares, no qual "seu pai [Ares] dançou de alegria por sua garota, despido de sua armadura, um Ares dócil [...]: ele sacudia seu elmo de crina de cavalo, tão familiar na batalha, e usava grinaldas sem sangue em sua cabeça, lançando uma alegre canção para Eros."

Se até os deuses da guerra dançam e Nietzsche afirmava só acreditar em deuses que soubessem dançar, por que não espelharmos o divino e entrarmos na dança com (e para) Eles?

agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
₪ Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
₪ Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
₪ Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes:

abril 04, 2011

Tira-dúvidas 2: Cidade?

Vamos pelo método socrático de definir as coisas antes de falar delas. Aqui escolhi usar um pouco da definição de um teórico que não é da antiguidade para a expressão "religião cívica" - até porque na antiguidade provavelmente não se falava nesses termos. Rousseau, em 'O Contrato Social', define religião cívica como um cimento social que unifica o estado e o provém de uma autoridade sacra. Isso incluiria deidades, vida após a morte, recompensa da virtude e punição do vício, e exclusão da intolerância religiosa.

Tendo definido isso, vejamos por que falamos do helenismo como uma religião cívica.

Quando tratamos da religião grega antiga, podemos abordá-la de duas formas: pelas suas origens ou pelo seu caráter cultural, de comunidade cívica. Os estudiosos dizem que a religião helênica foi estrutura junto com a pólis. Tudo o que havia antes (da pólis) foi reinterpretado e traduzido para caber no esquema das cidades.

Eis algumas coisas que demonstram essa interação:
₪ As procissões religiosas da época incluíam funcionários públicos de diversas categorias da sociedade, para que todos ficassem representados;
₪ As peças do festival da Dionísia eram compostas de temas civis ou com mitos de deuses da cidade onde estavam sendo encenadas;
₪ O fogo de Héstia da cidade ficava no prutaneion (escritório) do magistrado, e diante desse fogo é que o Conselho recebia os embaixadores estrangeiros, seguindo o princípio da xenia (hospitalidade);
₪ A refeição que conselheiros e embaixadores compartilhavam incluía uma thusia (sacrifício) e estabelecia - no 'comer junto' - laços entre os mortais e com os deuses;
₪ O Tesouro não era público, desde o ano 447 ele ficava no Parthenon, sob proteção e posse de Atena.
₪ A Justiça não era só uma alegoria (uma moça vendada com a balança para representar imparcialidade e equilíbrio), e sim algo que era cobrado por Zeus, que não deixava uma injustiça impune;
₪ ...entre outros exemplos possíveis.

Enfim, a religião não era centrada na 'alma individual', mas na corporação cívica chamada 'pólis'. Tanto era assim que cada pólis tinha seu calendário com seus festivais religiosos próprios.

Nas nossas inclusões modernas, temos ritos aos deuses da cidade em dia de Independência do Brasil, Proclamação da República e ano novo civil. E nas adaptações ao modo urbano de ser e celebrar, consideramos a 'colheita' representada pelo recebimento do salário ou qualquer outra renda que entre como resultado do fruto do nosso trabalho.

Imagem: detalhe de "Grateful Hellas" (Hélade Agradecida) - Theodoros Vryzakis, 1858.

O que difere da ideia de um estado religioso de hoje - quando esperamos mais o estado laico, que no nosso caso é melhor - é que naquela época não existia isso de a religião atrapalhar a cidade em prol de um grupo dominante (hoje os 'cristãos'); o que existia era uma religião que reunia as classes sociais em torno de um culto local comum. Além disso, se mesmo em Rousseau (que é mais 'atual') se incluía a questão da "exclusão da intolerância religiosa", parece que os antigos faziam isso com mais propriedade do que os modernos.

É interessante aproveitar para lembrar que esse é um dos motivos de nós não estarmos tentando reconstruir a sociedade grega, apenas a sua cultura. Tentar fazer as coisas serem como eram antes é algo muito mais do revivalismo do que do reconstrucionismo - que considera o fato de sermos pessoas diferentes em época diferente com todo um outro "zeitgeist" (espírito de época) por trás das modificações. Uma casa ou um vaso reconstruído nunca vai ser igual ao original e nem tem como (seria quase como fantasiar 'psicoticamente' que é o mesmo vaso e a mesmíssima casa).

No entanto, se agora não podemos atuar numa pólis inteira, ainda assim temos o dever de tentar tornar ao menos o nosso oikos (lar) semelhante ao modo virtuoso de trazer os deuses para nossos assuntos civis: celebrando com eles nossa fartura doméstica (a 'colheita'), recebendo bem nossos convidados (hospitalidade), mantendo uma chama acesa para Héstia, promovendo a justiça, compartilhando refeições que incluam ofertas, selecionando as peças/filmes que vamos assistir, praticando algo pelo bem comum, combatendo preconceitos, acolhendo tudo o que possa elevar o nosso dia comum para mais perto do sagrado.

Quem sabe de oikos em oikos um dia não reconstruímos um demos e quiçá uma nova pólis?

fevereiro 20, 2011

"Família... janta junto todo dia!"

Prolongando um pouco as postagens nas quais falei das maneiras de vermos os deuses, como seus "pets" ou como seus "amores", desta vez vim defender nossa visão como família.

Não sei vocês, mas dentro da minha família há pessoas que me fizeram muito mal, e já vi alguns parentes entrarem em pé de guerra uns contra os outros, com histórias de trapaças e até embates corpo a corpo. E, no final das contas, estamos todos lá juntos e declaradamente irmãos, primos, tios, sobrinhos etc. (Até os monstros da família Addams ficam unidos.) Se nós - com toda a nossa herança titânica de vileza e animalidade - conseguimos deixar o passado para trás e separar as coisas, por que tantos insistem de que esta e aquela deidade "não se dão bem" e não podem ser colocados juntos no mesmo espaço?

Além de a mitologia lidar com símbolos, o fato de os deuses efetivamente tomarem partido de um lado e outro na Guerra de Tróia há milênios atrás não quer dizer que eles tomaram birra, fizeram beicinho e emburraram metade de cada lado do mundo e do Olimpo pelo resto das eras. E, mesmo no mito, quando Hefesto tenta violentar Atena e o sêmen cai na terra, Atena considera o filho de Gaia como sendo dela própria com ele. Se Páris escolhe Afrodite em detrimento de Atena e Hera, é ele o abestado de ficar dividido, não acho que três DEUSAS iriam ficar de frescurinha para sempre por conta da decisão de um pastor que há muito já morreu.

É engraçado como uma hora falam tanto de opostos complementares que se equilibram e em outra fazem questão de inimizar deidades baseando-se em algum recorte da história sem considerar todo o resto. Dionísio é um que costumam opor a Hera, sendo que foi ele que a ajudou no rolo que estava dando com Hefesto. E também não acredito que seja por acaso que a planta de Dionísio se chame "hera" em português. O próprio Héracles a quem a deusa teria tanto perseguido carrega no nome uma homenagem à própria. E, falando de imposição de tarefas, se Afrodite não tivesse exigido-as de Psiquê, esta não teria evoluído a ponto de merecer ser deificada e nem Eros teria crescido e adquirido a maturidade necessária para sair da casa da mãe. E que irmão nunca pegou o brinquedo do outro como Hermes roubou as 'pelúcias' (ovelhas) de Apolo?

Uma vez eu estava conversando sobre isso com o Jota e ele me lembrou que Otto fala das divindades não serem invejosas entre si, que eles apenas não admitiriam serem subestimados. É como sempre procuro reforçar com relação ao métron (justa medida): o "nada em excesso"; então é claro que não se trata nem de algo do tipo 'todo mundo é feliz, vamos dar as mãos e abraçar a criação', mas também não é algo do tipo 'sou teimoso e guardo rancor igual adolescente'. Fui então dar uma checada no Otto, e eis algumas coisas que eu trouxe de lá (com negritos meus):
"A divindade grega [...] não faz destacar-se a sua personalidade com base no ciúme de outros deuses. Ela não espera que o homem viva para servi-la, nem que realize suas melhores ações para glorificar sua pessoa. O culto que para si reivindica não é de tal ordem que ao lado dele nenhum outro possa ser admitido. Ela se alegra com a liberdade do espírito e requer da vida humana muito mais sentido e inteligência que a fidelidade a determinadas fórmulas, atos e objetivações." (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 231)

"Atena [...] por certo exige, como qualquer outro deus, que seu poder e sua sabedoria sejam reconhecidos e que o herói não se julgue capaz de prescindir de sua ajuda. Mas nem por isso ela faz depender seu auxílio de que a pessoa se dedique a seu serviço com fervor ou mesmo com exclusividade. [...] De sua própria boca ouvimos que é a coragem do valoroso que a atrai, não a boa vontade ou a dedicação à sua pessoa. [...] Em seu famoso diálogo com Odisseu (Odisséia 13, 287 e seguintes) [...], ela lhe diz diretamente que é o seu espírito superior que a agrada e o liga solidamente a ela". (Walter Friedrich Otto, 'Os Deuses da Grécia', pag. 214)
Aliás, Atena é uma que o povo gosta de rivalizar com Ares. Isso é uma coisa que nunca entrou na minha cabeça, eu inclusive os colocava no mesmo altar de guerra. Nesse quesito Otto parece concordar com a visão fechada da guerra como algo nocivo e diz que Ares - que teria "eterno amor a contendas, guerras e batalhas", sendo um "destruidor" de homens - não se daria com o espírito grego da temperança. Eu não entendo assim, eu acredito que uma das demonstrações de temperança é saber o momento certo para cada coisa, e, no meio da guerra - no calor da batalha -, há de se ter mesmo sangue frio. Quando Otto aponta o fato de Ares não se importar com de que lado está lutando, desde que a guerra continue, eu vejo certo preconceito do autor (que inclusive diz que Ares muda de lado só para se "refestelar" com o combate). Para mim, isso é mais questão de ser um soldado e guerreiro do que de ser inconstante ou volúvel; um soldado que apóia todos os soldados, independente de sob qual comando estão. Quem não pode mudar de lado é Atena, porque ela sim é a general, a estratégia, o mental, a que precisa ser racional e coerente. Ares é o fogo, ele vai duelar, pelejar, batalhar, com quem tiver para lutar com ele; é como se ele estivesse em um constante exercício de alerta. E não consigo ver um exército feito só por soldados ou só por generais, essas duas figuras têm que trabalhar juntas, têm que cultivar um bom relacionamento, têm que se complementar.

Por falar nisso, acho que nem preciso me demorar neste texto relembrando a oposição que Nietzsche coloca para Apolo e Dionísio, porque esta - além de didática - sempre foi de complementaridade mesmo.

Só espero que mais uma vez isto ajude a desfazer fórmulas pré-concebidas que as pessoas não têm o costume de questionar. A religião dos gregos antigos era extremamente racional, não se podia acreditar em uma coisa sem antes investigá-la ao máximo, até que ela fizesse algum sentido. Por isso me entristece ver pessoas repetindo o que outras dizem só por lhes terem um crédito de confiança e não sabendo argumentar quando alguém aponta reflexões contrárias que possuem toda uma lógica sustentando-as. É por isso que, quando nós (reconstrucionistas) insistimos em trazer textos e teoria, é apenas para fundamentar a nossa prática e termos certeza do que estamos fazendo, e não para exibir um conhecimento não-refletido e que não encontra ressonância na realidade cotidiana...

Mas lembrem-se: sem rivalidades, pois na nossa família somos "tutti buona gente"!

dezembro 14, 2010

É só um trovão...

(Ia postar isso ontem, mas a Internet caiu devido às chuvas.)

Anteontem minha 'sobrinha canina' entrou debaixo da minha cama e deitou-se com o focinho para fora, olhando para mim. Levantei-me para pegar água e ela veio atrás, parando à porta da cozinha para me esperar. Voltei ao quarto e ela seguiu-me, entrando novamente debaixo da cama. Fiquei ao computador com ela ali o tempo todo, até o momento em que soou um trovão. Ela saiu do seu canto, olhou para trás, de onde veio o barulho (da janela), eu olhei para ela e disse "É só um trovão, pode voltar". Ela olhou pra mim, deu meia-volta e retornou para debaixo da cama.

Mais tarde, lembrando da associação que a filhotedelua faz de sermos "pets" dos deuses, fiquei pensando nesse caso e imaginando quem seria a deidade que fala pra mim "é só um trovão, pode voltar" quando algo que não espero me deixa confusa. Seria Atena? Ártemis? Zeus?

Sei que às vezes me distraio, como esta semana que demorei a perceber que o princípio-ativo do xarope fitoterápico que tenho tomado para tratar minha tosse é de hera. Justo em dias dionisíacos, não atentei para o fato de o nome científico da planta expresso na caixa - "Hedera helix L. (Acaliaceae)" - ser o da planta desse deus. Mas, no geral, penso nEles em todos os momentos possíveis.

Dia 9, Dionísio me conduziu uma jogada do Mystic Dreamer Tarot e foi mais claro que o raio de Seu pai. Heráclito dizia que Apolo nunca é direto no oráculo ("O senhor de Delfos não fala nem esconde, mas dá um sinal."), então não sei por que eu não tinha pensado antes em recorrer a Dionísio.

Mas não, não achei que fosse Ele quem me diria que "é só um trovão", então voltei a pensar. Óbvio que a primeira a vir à minha mente com essa postura racional diante do desconhecido foi Atena. Aquela que olha para o Poseidon sacudidor-de-terra e acha que Ele é só um terremoto e que já o venceu uma vez antes, podendo vencê-lo de novo. Ou que, conhecendo bem seu pai Zeus, sabe que trovões acompanham-lhe os raios e que - apesar do estrondo - Ele é um deus (dono) tudo de bom.

Porém, ao pensar no "pode voltar", isso não me soou muito de Atena. Como estrategista, um aviso sonoro é um sinal para uma investida, e não algo que vá te fazer ignorá-lo e recuar em seguida. Não há como desfazer uma jogada. Um lance já feito não "pode voltar".

Quando esse tipo de reflexão me toma, o exercício que faço é tentar ser mais intuitiva com a energia presente do que racionalizar os sentidos de uma forma muito "logos". Até porque, pelo logos, a primeira parte da sentença poderia vir de Apolo (a luz da consciência) e a segunda de Dionísio (o deus do duplo retorno).

Então olhei para a minha estante e a estátua de Perséfone brilhou entre as outras. Ela, que vive indo e voltando do submundo - de "debaixo da cama" - e que vive em companhia daquele que costuma ser temido bem mais do que a simples trovões de chuvas ocasionais, inclusive por ser um deus daquilo que nos parece mais definitivo ('de-finito', o fim): a morte.

Olhando dessa forma, poderia ser praticamente qualquer deidade. Hera poderia me mostrar que os trovões de Zeus não assustam, Hermes poderia estar me ensinando a não temer e a vencer as adversidades, Ártemis poderia estar me abrigando entre suas crias, Deméter poderia estar exercendo seu papel de mãe, Héstia me mantendo centrada, Afrodite me chamando ao leito, Têmis me devolvendo o equilíbrio, entre outros.

No fundo, quando temos tantos "donos", todos vão cuidar da gente quando preciso. Nós ficaremos debaixo desse céu onde Eles repousam, ficaremos escondidos numa caverna sob o Monte Olimpo, nos refugiremos nos labirintos do palácio minóico, mergulharemos nas profundezas das águas oceânicas, adormeceremos na escuridão do misterioso reino das sombras, e - em todos esses caminhos - Eles poderão nos proteger e guardar; basta estarmos em busca da realização do nosso 'daimon'. E é esse daimon que me faz agir como a espécie de animalzinho que eu for a cada momento: canina, felina, equina, humana...

Ao menos sei que o bom disso tudo é que sempre haverá quem nos diga, com uma voz tranquila e confiante, que aquilo é só um trovão e que podemos voltar para onde escolhemos ficar.

Nessas horas é que agradeço por não ser um bichinho abandonado... Ou dependente de um único dono.

novembro 29, 2010

O presente é um tempo desembrulhado.

Conheço uns quatro ou cinco caminhos diferentes para ir e para voltar do meu compromisso matutino que fica a 25 minutos de carro de onde moro. Sei onde vai dar se eu virar antes ou se eu me distrair e perder uma entrada, de modo que posso optar continuar por ali e chegar aonde quero do mesmo jeito. A ida normalmente me exige que eu vá pelo caminho de menos trânsito, porque saio meio em cima da hora. Quanto à volta, todo dia me treino na escolha de por onde vou retornar para casa.

Bom, eu sei que isso não é o típico da maioria das pessoas que escolhe algo pacífico e previsível, que você possa ligar seu piloto automático e pensar em outras coisas da sua vida. Mas eu gosto de treinar meu cérebro a mudar. E faço isso não só porque antes da minha virada de Saturno o meu sol em Touro morria de medo de mudanças. Faço isso porque a gente precisa aprender a se adaptar a novas situações. Por mais interminável que algo pareça, ele não será para sempre. Nem as alegrias nem as tristezas.

Dia desses uma amiga comentou aleatoriamente comigo que me acha alguém com uma capacidade enorme para se adaptar. Foi bom ler isso. Principalmente porque nem sempre foi assim, e hoje se tornou algo um tanto quanto natural de mim.

Penso na figura do guardião da "República" de Platão, que comia o que tinha e dormia onde dava. O desapego, a coragem, a paciência, a imperturbabilidade, são coisas que me atraem...

Enfim, o fato é que, a partir do período em que você começa a vencer certas coisas na sua vida que lhe prendiam à matéria, esse tipo de vontade por responder apenas ao momento presente aumenta. Lembro de Sócrates andando pelo mercado e observando de quanta coisa ele não precisa. Ando assim ultimamente. Enquanto alguns amigos se debatem por acumular pertences, eu anseio pelo dia de me livrar da maioria dos meus. Eu adoro dar presente, jogar coisa fora, ver espaços livres serem criados, reciclar transformando cacareco em arte para embelezar a vida...

Se eu só conhecesse um caminho para os destinos que traço, se eu me detesse a seguir apenas aquela rota, isso sim seria para mim um obstáculo, uma pedra, um atraso, cacos de vidro na trilha dos pneus, reforma na rodovia que altera o seu curso.

O meu caminho é aquele em que motoristas negligentes me obrigam a reagir rápido. É a minha forma de chegar sentindo que atravessei por um campo de batalha e alcancei o outro lado com honra, merecimento e dignidade. Os motoristas lentos ou descuidados são como aquele adversário que é também teu professor. Aquele que ensina você a permanecer alerta. Não o alerta da tensão, mas o alerta da consciência.

Porque meditação não é só sentar em silêncio e esvaziar a mente. Meditação é prestar atenção ao que você faz, como você faz, como o mundo é, o que as deidades lhe mostram, o que você pode aprender de cada minuto, como cada ato é uma manifestação sagrada, como assimilar os acontecimentos como forma de auxiliar na sua evolução e aumentar seu conhecimento de si, do universo e dos deuses.

É justo por causa dos obstáculos e da percepção das vias que posso escolher todos os dias que a vida vai se tornando mais plena de sentido, como um fractal que forma um belo colorido global.

Ao sabermos disso, cada dia se torna como aquele vento que de repente sopra mais doce. E toda a espera se torna um preparo para melhor enfrentar a travessia que virá. Pois um dia eu sei que ela vai vir... Conto com isso. Até lá, convém treinar. E depois que chegar, treinar em dobro, porque a ação já vai ser real e imediata.

Nessas horas penso em meu avô, que já morou com minha mãe até na fronteira com a Bolívia e de quem contavam que tinha sido salvo por São Jorge de uns "índios" perigosos dali. Vou um pouco mais além e penso nos meus pais de outra vida que passaram perrengues nada legais também. E penso como tudo um dia liga a gente a todo o resto. Nascer no 23 de abril e ainda pertencer a uma religião que evita o contato com aquilo que um dia já me matou, bem antes de saber dessas coisas, é só um exemplo.

Os motivos retornam. Os "motifs" (na literatura, elemento recorrente que têm um significância simbólica em uma narrativa; na arte visual, um elemento com tema padrão; na música, um fragmento sucessivo de notas; na tecelagem, aquele pedaço repetido que - unido - gera um trabalho maior). Enxergá-los nos ajuda a entender a nós mesmos.

Por isso é que eu decido não parar. Ainda há padrões a descobrir. Ainda há pedacinhos a encaixar. Quero e anseio por ver qual será o trabalho maior que se apresentará ao final, no tear. A agulha e a madeira muitas vezes me machucam, mas sem mim elas não trabalham, e é pelo bem do todo que elas o fazem. A gente só fica esperando estar preparado e ter feito o melhor de si, sem desfiar antes da hora...

Esse é um dos meus muitos jeitos de refletir.

novembro 04, 2010

Mulheres de Atena

₪₪₪ Esta postagem é inspirada em escritos (traduzidos, reescritos, resumidos e comentados) dos blogs da Ellen e da Glaux, bem como de um artigo de Lucy Corcoran, linkados ao final da mesma. Já os termos linkados no corpo do texto são para outras fontes de leitura (referências mitológicas e literárias). ₪₪₪

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Eis uma pergunta intrigante: "Se as mulheres eram inferiores em Atenas, por que eles tinham uma deusa como padroeira da cidade?"

Claro que os estudiosos proporiam várias maneiras de responder a isso, e uma delas é a possibilidade de que os gregos aceitassem mais o conselho bélico de uma mulher do que de um parceiro (essa é a visão de Wilamowitz, citado em Otto, 1979). Mas vamos lá voltar um pouquinho nessa concepção de Atena como deusa do masculino por conta de ela nascer diretamente do pai e por conta do que Ésquilo, um escritor (homem) da literatura antiga, coloca em sua divina boca para defender Orestes.

Esse evento pode ser interpretado como uma demonstração de que as mulheres podem ter uma amizade verdadeira com homens (e com mulheres também) sem ter que configurá-la em algo "colorido"/sexual, mas uma amizade mental, intelectual, de companheirismo, camaradagem, de projetos em comum. E Atena tinha isso com Orestes, Odisseu, Perseu, Aquiles, Diomedes, Tydeus, e tantos outros. O que não significa que ela não tivesse esse tipo de amizade com mulheres também!

Ademais, mesmo que no caso de Orestes ela tivesse ido contra a mãe dele, pode-se ver que, em vários outros casos dos homens que ela protegia, ela o fazia de uma forma que prejudicava outros homens: como ir contra Heitor para ajudar Aquiles, auxiliar Odisseus a enfrentar 300 homens, e até atirar uma pedra no pescoço de Ares para defender Diomedes. Mas a intenção deste texto é falar sobre da relação de Atena com as mulheres, então voltemos às suas amigas.

Ela era tão amiga/irmã/querida companheira de Pallas na infância que depois acabou incorporando seu nome (tudo bem que Atena matou Pallas acidentalmente enquanto simulava uma luta com ela, mas lembre-se que Zeus semelhantemente 'devorou' Métis, se formos pensar por esse lado). Ela também foi amiga de Perséfone e Ártemis, com quem ela brinca no Hino Homérico a Deméter (verso 424). Foi amiga de Khariklo (mãe de Tirésias), a quem concedeu presentes, no poema de Calímaco. Quando Cassandra procurou refúgio no santuário de Atena durante o cerco de Tróia e foi arrastada e violentada por Ajax, Atena fica furiosa e persegue o herói até matá-lo partindo seu navio com um raio emprestado de Zeus. E, mesmo tendo de punir Medusa transformando-a em monstro, ao final ela incorpora a cabeça da górgona ao seu escudo como um emblema.

A história de Aracne também precisa de uma observação, colocando-a em um prato de balança oposto ao de Penélope. A esposa de Odisseu recebe de Atena os dons da tecelagem, da astúcia, da narração de histórias... "Athena a dotou mais do que às outras mulheres com o conhecimento de trabalhos manuais e um coração compreensivo" (Antinoos, na Odisséia de Homero, c.2 - v.115). A artimanha de Penélope é uma forma de usar a arte da tecelagem dada por Atena como uma verdadeira estratégia militar - também domínio da deusa. Já Aracne, esta usurpa e usa de forma errada a arte tecelã. Ela se gaba de seu trabalho ser melhor que o de Atena e aceita o desafio de uma competição tipicamente arrogante e insolente. Enquanto Atena tece sua imagem majestosa, Aracne retrata casos escandalosos dos deuses. Por isso sua tapeçaria é rasgada, ela é punida e transformada em uma aranha.

O curioso é que, tanto no caso da Medusa quanto no de Aracne, o relato passa a impressão de "ciúmes", que para os escritores antigos como o romano Ovídio, seria a emoção mais feminina que há. Ou seja, não combina com a ideia de uma deusa tão amplamente vista como sendo de um campo exclusivamente masculino. Parece que a relação de Atena com as mulheres passava por características dos dois gêneros, enquanto nas suas conexões com os homens não entraria essa pitada de rivalidade que é vista como típica no caso de duas mulheres.

De qualquer forma, reduzir Atena a uma deusa dominada pelo masculino num mundo em que imperaria o patriarcado é realizar um verdadeiro desserviço a ela. E a questão de ser chamada de virgem e mãe (de Erictonios) - ao mesmo tempo - talvez seja porque esse "virgem" é no antigo sentido da palavra, aquele que caracteriza uma mulher que não pertence a homem algum (e não no sentido de alguém que renega sua feminilidade). Quando homens e mulheres são iguais, não há posse, e esse reconhecimento de igualdade que estamos tentando viver nos tempos atuais só nos conclama a honrar mais ainda Atena de uma forma que vai além da tal ideia de uma filha casta.

O que ela é, é sim uma figura complexa, e todos os que a têm como padroeira das universidades, da sabedoria, do poder feminino, com certeza irão defendê-la nesse ponto (e nos outros). Em sua obra The Homeric Gods, Walter Otto chama Atena de 'deusa sempre-próxima' ("ever-near"). Ele diz que Atena é "a consumação", "o presente imediato", "a ação aqui-e-agora", "a presença espiritual redentora", "a ação veloz", "a sempre perto".

Uma das mulheres de quem ela hoje é patrona a definiu uma vez como:
"a paz solene da neblina cinzenta da manhã, espalhando seu orvalho em todas as coisas vivas [...]. Ela é o livro exato que você acaba lendo no momento perfeito. Ela é o estado meditativo que acompanha a criação de toda arte. É bom procurar por Atena, mas é melhor saber que Ela já está com você. Ela é verdadeiramente a deusa que está sempre perto." (Glaux, tradução minha)
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Fontes:
₪ http://www.mythphile.com/2010/10/the-goddess-athena-feminist-or-misogynist/
₪ http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/virgin-athena.html
₪ http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/ever-near-goddess.html
₪ http://www.ucd.ie/pages/99/articles/corcoran.pdf