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dezembro 24, 2015

Dioniso nestas datas

Há alguma evidência de que o nascimento de Dioniso fosse celebrado antigamente por volta do solstício (próximo a 25/12)? Vamos ver? 
No Panárion (Gr. Πανάριον), um tratado sobre heresias cristãs, escrito por Epifânio (Epiphanius; Gr. Ἐπιφάνιος) [315-403 EC aprox.], bispo de Salamís (Gr. Σαλαμίς), há uma passagem curiosa com relação ao 6 de janeiro, sendo esta data a festa cristã da Epifania (Gr. Ἐπιφάνεια, na antiguidade Teofania: Θεοφάνεια). Epifânio afirma que o nascimento de Jesus de Nazaré aconteceu nesse dia (mais tarde, a palavra Epifania passou a se referir ao Dia de Reis, mas aparentemente nessa época ela se referia à Natividade). Epifânio continua dizendo que, nesse mesmo dia, os pagãos estavam celebrando grandes festivais em várias localidades, e que na Alexandria havia uma festividade no templo de "Kóri" (Core ou Kore; Gr. Κόρη) ao alvorecer, celebrando o nascimento de "Aióhn" (Aion ou Aeon; Gr. Αἰών) por Kore. Aion é um Deus que é identificado com várias deidades, uma delas sendo Dioniso (Guthrie, W.K.C. A History of Greek Philosophy: The Earlier Presocratics and the Pythagoreans. Cambridge University Press, p. 478), assim como Osiris (Σοῦδα), que é normalmente identificado pelos gregos antigos como Dioniso. Epifânio continua dando exemplos, que em Pǽtra (Petra; Gr. Πέτρα), no mesmo dia, eles celebravam o nascimento do "filho do legislador de tudo" com uma virgem. Isso tudo pode ser encontrado no Panárion 51.22.3-11. 
Macrobius escreve no Saturnália (I.18.9-10) do século IV EC, equiparando Dioniso com o sol: "...algumas imagens do pai Liber estão representadas na forma de um garoto, outras de um jovem homem, às vezes também barbado, ou mesmo mais idoso... Mas as diferentes idades são para serem entendidas com referência ao sol. O sol é muito pequeno no solstício de inverno, como a imagem que os egípcios trazem de seu altar numa data fixa, com a aparência de uma criança pequena" (Macrobius Saturnalia Books 1-2, trans. Robert A. Kaster, 2011, LCL 510, Harvard Univ. Press [Cambridge MA and London England], pp. 249-251). 
O solstício é no dia 21, mas nos tempos antigos o minguante era para ocorrer vários dias depois, tipo no dia 25. E por que temos o 6 de janeiro dado por Epifânio? Podemos resolver isso como segue: "Com relação às datas, Norden demonstrou que a mudança de 6 de janeiro para 25 de dezembro pode ser explicada como resultado da reforma introduzida pelo calendário mais acurado de Juliano, usando o cálculo egípcio antigo que determinou 6 de janeiro como a data do solstício de inverno” (Greek Myths and Christian Mystery by Hugo Rahner, 1971, Biblio and Tannen [New York], p. 141). 
Aion é uma deidade identificada com Dioniso nos ensinamentos do Orfismo. Essa identificação é corroborada nesta citação das notas de um livro de Vittorio D. Macchioro: "Aion era filho de Kronos (Euripides: Heraclidai, 898), ou seja, idêntico a Protogonus de acordo com a teogonia de Hellanikos (Kern, p. 130, 54; p. 158, 85); mas Protogonus, Dioniso e Phanes eram idênticos (Aristocriton Manichæus: θεοσοφία 116, 15, Buresch; = Kern, 61). Erichepaius era idêntico a Dioniso (Hesychius: Ἠριξεπαῖος; Proclus: In Platonis Timœum, II, 102 D, E; = Kern, 170); Phanes com Erichepaius (Hinos Órficos, VI, 9). Protogonus era um dos nomes de Phanes (Damascius: Quœstiones de primis principiis, III; = Kern, 64) e de Erichepaios (Proclus: no Timeu de Platão, 29A; = Kern, 167); Phanes era Aion (Proclus: no Timeu de Platão, E; = Kern, 107). Uma inscrição de uma estátua de Aion em Eleusis (Dittenberger: Sylloge Inscriptionum, 3ª ed., 1125) confirma uma afirmação sobre a identidade de Phanes (Dioniso) e Aion. Aion era filho de Kore, ou seja, a mãe de Dioniso (Epiphonius: Panarion, 51, 22, 8-10). Epiphonius confunde a Deusa Kore com a Virgem, devido ao significado da palavra grega ϰόρη (de ORPHEUS TO PAUL: A History of Orphism by Vittorio D. Macchioro, 1930, Henry Holt and Co. [New York], pp. 251-252, nota 22.)  
Podemos seguir a sugestão moderna do festival dos Doze Dias Dionisíacos, começando dia 25 até o dia 5, e chamá-lo de Vakkhoyǽnna (Bacchogenna), genna significando nascimento + Baccho (Baco, Dioniso). Na antiguidade, existiam vários festivais nessa época. Esta é a estação brumal (inverno) e, por alguma razão, parece que essa época pertence a Dioniso, indo até a Anthesteria (festival das flores). Não tenho certeza por quê, mas talvez tivesse algo a ver com ele assumindo o trono em Delfos, o centro do mundo, no inverno. 
(texto de Kallímakhos, tradução de Alexandra) 

dezembro 28, 2014

O Uso do Sino em Rituais

Após ver uma sugestão de ritual que incluía o uso de um sino, resolvi pesquisar se tal prática possuía ressonância na antiguidade. Encontrei um artigo chamado "For whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond" (Por quem os sinos dobravam na Grécia antiga? Sinos gregos arcaicos e clássicos em Esparta e além), de Alexandra Villing. São 74 páginas, mas faço aqui uma breve resenha. Adquiri também um sino com cabo de madeira para pirografar nele algo que o identificasse como de uso ritual. Depois, no texto, descobri que existiam mesmo inscrições votivas em alguns sinos de culto, especialmente a Atena.

HISTÓRIA

Os antigos não eram acostumados a sinos enormes como aqueles que soam nas igrejas de hoje, e sim a sinos portáteis de não mais do que uns 10 cm. Esses sinos de tamanho pequeno eram comuns na Grécia Antiga do período arcaico em diante, tanto em bronze quanto em terracota. Eles eram encontrados em santuários, túmulos e casas, e serviam para vários propósitos. Fontes arqueológicas, iconográficas e literárias atestam o seu uso como ofertas votivas no ritual e em situações funerárias, também como instrumento de sinalização dos guardas da cidade, como amuletos para crianças e mulheres, e num contexto dionisíaco no sul da Itália. A origem dos sinos é da área oriental e caucasiana, por onde eles encontraram entrada na antiga Samos e Chipre e depois na Grécia continental. O maior complexo de sinos encontrado, da era clássica, vem de escavações no santuário de Atena na acrópole espartana. Veremos que, além de Esparta, outros lugares também associavam o som do sino a algo protetor, purificador e apotropaico (que afasta os males). Os sinos de terracota eram claramente imitações baratas dos sinos de bronze, e serviam para efeitos de dedicação, podendo ser comparados a miniaturas de vasos, de armas ou estatuetas de animais usados como ofertas votivas.

Os sinos em maior número foram encontrados no santuário de Atena Khalkioikos na acrópole espartana em 1907, embora só em 1925 se tenha anunciado e poucos deles tenham sido apresentados ao público, tendo apenas se publicado alguns desenhos e as inscrições votivas encontradas neles. Depois, uma pesquisa no Museu de Esparta revelou que, nessa escavação, eles haviam encontrado 34 sinos de bronze e 102 sinos de terracota (ou fragmentos deles). É difícil saber o local exato dos sinos no santuário, pois parece que estavam em toda a parte, desde o sul do precinto até os fundos do teatro (incluindo a pequena construção que servia como santuário de Atena Ergane). O que se sabe claramente é que eles eram dedicados a Atena com os epítetos de Khalkioikos ("da casa de bronze") e Poliouchos ("suporte da cidade"), já que os sinos possuíam inscrições votivas a ela. O tamanho deles variava entre 2 e 8 cm de altura. No texto que li, a autora descreve a forma, a alça, os pés, como foram feitos etc, e traz desenhos dos mesmos. Quase todos os sinos tinham ao menos um buraco em cima para prender o badalo, o qual era sempre de ferro. Sete desses sinos tinham inscrições, três deles com dedicatórias completas, que indica se tratarem de ofertas votivas de um homem e duas mulheres. Outros três tinham abreviações (ΑΘΑ para ΑΘΗΝΑ - Atena). No sétimo parecia ter uma inscrição longa, mas agora só um A é claramente visível. As inscrições são claramente em lacônico do século V AEC.


No Menelaion de Esparta, no santuário rural de Aegina provavemente dedicado a Ártemis, e no santuário de Apolo Korynthos na Messenia, haviam sinos muito parecidos com os dedicados a Atena em Esparta. Eles tinham a forma de cúpula, com uma beirada mais grossa e com pés. 


Além desses lugares, os sinos mais antigos vêm de Atenas, onde três sinos de terracota decorados foram encontrados no túmulo de uma criança, também do século V AEC. Também encontraram-se sinos na Beócia (no túmulo de uma criança e em santuários de Deméter e dos Cabiros), em Selinous na Arcádia (no santuário de Deméter Malophoros), em Perachora (no temenos de Hera Limenia), em Pherai na Tessália (provavelmente vindos dos santuários de Ártemis Enodia e de Zeus Thaulios), em Olímpia, em Idalion no Chipre, e no argivo Heraion de Samos. 


Em Samos, a influência oriental (da Mesopotâmia, Babilônia, Assíria e Fenícia) aparece não só nos sinos, mas também em estatuetas de chumbo e em máscaras dedicadas a Ártemis Orthia.

Dessa parte introdutória, podemos resumir que, em termos de história dos sinos, há cinco pontos chaves a se mencionar. Primeiro, os sinos se encontravam por praticamente toda a Grécia e mundo grego, particularmente em santuários e túmulos. Segundo, a maioria dos sinos gregos eram feitos de bronze ou terracota, alguns de metais preciosos. Terceiro, os sinos de Samos, do Chipre, da Tessália e de Aegina eram baseados em modelos orientais. Quarto, os sinos gregos são normalmente pequenos e mais ou menos em forma de abóbada/cúpula, embora também apareçam sinos cônicos e hemisféricos; a parte de segurar era em arco ou alça, e inscrições neles eram raras. Quinto, não havia um padrão particulas: os sinos tebanos de bronze dos Cabiros e os lacônicos de Ártemis eram ofertas votivas, assim como os sinos espartanos de terracota para Helena e Menelau no Menelaion e os beócios para Deméter em Eutresis. Também se encontraram sinos em santuários a Hera (em Samos, Argos e Perachora), a Atena (em Esparta, em Idalion e talvez em Delfos), a Afrodite (em Mileto), e a Apolo (na Messenia e em Chios).

FUNÇÃO

Os sinos encontrados em Esparta eram claramente funcionais. Afinal, quase todos tinham badalo, o que também nos faz concluir que era improvável que eles tivessem sido usados como instrumentos musicais, já que, no caso, se bateriam com baquetas por fora do sino. Pode ser que eles fossem suspensos ou usados na mão. Uma vez que muitos tinham pés, eles provavemente não só ficavam pendurados mas podiam ser colocados em uma superfície para ficar de fácil acesso ao usuário.

Em Roma, os sinos eram usados para anunciar abertura de mercados e banhos, para acordar e chamar escravos etc, mas na Grécia Antiga esses usos não se confirmam, embora o sino seja conhecido nos tempos de Demóstenes como um meio de atrair a atenção. Na Grécia, os sinos eram carregados pelos guardas - tanto os comediantes Nicofon e Aristófanes quanto o historiador Tucídides mencionam o sino nesse contexto. Os guardas podiam usá-lo como adorno ameaçador da armadura, e o inspetor podia usar o sino para ver se os guardas estavam acordados. Sinos em animais, como cavalos, aparecem em Chipre com influência assíria, mas não se atesta o mesmo na Grécia em si. Em suma, o sino funcionava principalmente para duas coisas: como um sinal e com o aspecto ameaçador-protetor. Este último guarda uma conexão especial dos sinos com Atena como deusa da guerra e das habilidades manuais.

A palavra usada nas fontes literárias para se referir a sino é κώδων ("kódon"). Entre as fontes mais antigas a mencioná-la, está Empédocles, no século V AEC, quando ele descreve como o som é percebido dentro do ouvido. Ele diz que o órgão da audição é uma espécie de sino que reproduz ecos que se parecem com os sons de fora. Aécio, quando comenta isso, fala de uma parte cartilaginosa que balança quando é golpeada, um instrumento que produz som reverberante. Esse som dos sinos, especialmente o som do bronze, tem uma ligação muito grande com o som da batalha: os metais se colidindo poderiam induzir medo e ter o propósito de afugentar o inimigo. Vernant (em "Mito e Pensamento entre os Gregos") dizia que o som do bronze contra o bronze repele a bruxaria do inimigo. A própria voz de Atena é descrita por Píndaro como o som do bronze, seu grito um clamor penetrante. Outros autores a comparam com o som agudo do trompete, que era usado como instrumento de sinalização na guerra e que parece ser associado a Atena em Argos. Mas, quando Sófocles liga a voz de Atena ao som do trompete, a palavra que ele usa é κώδων, sino, um sino de bronze, uma vez que a parte frontal do trompete também era chamada de κώδων. Além disso, o epíteto de Atena em Esparta era Khalkioikos ("da casa de bronze"). Pausânias diz que o revestimento do templo dela na acrópole espartana era parcialmente decorado com folhas de bronze. Mas há mais: o culto de Atena Ergane como patrona dos trabalhadores de bronze em Atenas (principalmente no festival da Khalkeia) sugere que ela era patrona da forja de armas e que ofertas de bronze tinham lugar em seu culto. A própria palavra "khalkeion" (cesto de bronze) poderia se referir na verdade a um sino.

Porém, explicar o papel dos sinos como ofertas votivas meramente pela sua habilidade de reproduzir o som da batalha seria inconcluso, até porque há outros instrumentos mais efetivos que poderiam ser imaginados nesse contexto, e isso também não explicaria o envolvimento de mulheres como dedicantes. O uso no pescoço de animais de sacrifício também não cabe, porque só se encontrou uma representação assim pintada no altar de uma casa em Delos, para um festival romano, é improvável que os animais de sacrifício na Grécia usassem sinos. Há a possibilidade do uso do sino como objeto apotropaico e o seu inverso (ou seja, para afastar o mal e para atrair bons espíritos).

A evidência literária e pictográfica aponta que os sinos tinham de fato uma relação com o culto de Dioniso. Strabo chama o uso de sinos e o bater de tímpanos ma atividade dionisíaca, e Nonno chama uma das mênades de Kodone. Vasos do século IV AEC ao sul da Itália representam Dioniso e membros de seu 'thiasos' (séquito) ou segurando um sino ou com um sino amarrado no pulso ou amarrado ao tirso. Em pelo menos um, Dioniso segura o sino alto como se para dar um sinal ao seu thiasos. [Figura 3] 


Poderia-se imaginar os sinos sendo usados para chamar os mortos a um feliz pós-vida dionisíaco, mas isso não tem evidências suficientes nos registros arqueológicos, já que poucos sinos foram encontrados em túmulos ao sul da Itália. Também poderia-se imaginar que o som do sino provinha uma proteção mágica em particular para os períodos vulneráveis de abandono extático no ritual dionisíaco. Na Índia, por exemplo, mulheres e meninas de famílias ricas usavam tradicionalmente sinos para suas danças rituais. Dedicar um sino de bronze deveria mesmo ser algo caro.

A autora aqui pergunta "Isso tudo poderia implicar que a Atena espartana tinha uma face oculta no estilo da folia dionisíaca? Será que os homens e mulheres espartanas executavam danças em sua honra, enfeitados com sinos?". A dança sem dúvida era um aspecto importante na vida ritual de Esparta. Se confiarmos em Aristófanes, existiam danças associadas com o culto da Atena espartana: em Lisístrata, o coro chama Helena a conduzir a dança no santuário de Atena Khalkioikos. Uma estatueta arcaica de uma mulher tocando címbalos foi encontrada no santuário de Ártemis Orthia e o braço de uma estatueta similar foi encontrado no santuário de Atena na acrópole espartana. Mas não há evidência de sinos sendo parte de danças rituais nem para Ártemis nem para Atena. Em geral, os sinos eram menos adequados como instrumentos para acompanhar a dança rítmica, se usavam mais címbalos mesmo. No contexto dionisíaco, o sino era mais o caso de um instrumento para sinalizar e com um significado mais apotropaico relacionado ao som dele.

Há uma passagem de Teócrito que fala que "a ctônica Ártemis está se aproximando, façam do local um solo sagrado pelo bater do bronze". Ele cita a obra 'Sobre os Deuses', de Apolodoro, uma fonte que fala que o som do bronze desempenhava um papel em todas as espécies de rituais purificatórios: por ser puro e por afastar o miasma, ele era empregado durante os eclipses lunares e os funerais. Essa interpretação é apoiada por várias fontes romanas posteriores, atenstando que o som do sino era usado para afastar poderes malignos. No culto extático de Dioniso, o barulho do bronze poderia servir para manter os maus espíritos (que conhecemos como as 'keres') longe. No culto a Deméter, o barulho do bronze também aparece. Píndaro a chama de "Khalkokrótou Damáteros", pelo barulho dos címbalos e tambores de bronze que ressoavam na busca por Perséfone. Assim como a dança dos Curetes e Coribantes também usavam o bater de escudos para afastar o mal do bebê Zeus, sabemos que Deméter é patrona da maternidade, e o parto pode ter usado o som do bronze para afastar o mal da criança e da mãe. Isso explicaria por que encontramos sinos em túmulos infantis.

Em resumo, os sinos eram usados como ofertas votivas, como instrumento de sinalização, e como amuleto protetor apotropaico. O som do bronze do sino tinha qualidades potencialmente amedrontadoras, afastando o mal. E, em Esparta, os sinos eram oferecidos principalmente a Atena.

Segue a imagem do sino que comprei:




dezembro 13, 2014

Xenia e Empatia

Em tempos em que Dioniso derruba máscaras e descobrimos, entre nossos amigos, pessoas que defendem os opressores, os violentadores e afins, encontrei o texto que traduzo abaixo (com grifos meus) e que espero que faça as pessoas refletirem sobre suas falas, pensamentos e ações diante das situações que andamos presenciando na mídia, nas redes sociais e no nosso dia-a-dia. Não acolher o outro, banalizar sua dor, relativizar um crime, também é Hybris, uma transgressão contra o princípio básico da nossa crença, a Xenia (hospitalidade). 

Baucis e Filemon

Segue:
Declaração de Valores
por Thenea, traduzido pela Alexandra

# Hospitalidade: Nossas portas estão abertas

A hospitalidade é um dos principais valores em todas as culturas antigas, incluindo os nórdicos, os celtas e os gregos. Alguns podem argumentar que esta é a pedra fundamental de todas as religiões indo-europeias.

Nos antigos relatos gregos, Zeus se disfarçaria de pessoas as quais a sociedade tinha marginalizado para testar a virtude de possíveis anfitriões. Se falharmos em receber bem alguém, ou falharmos em criar um espaço seguro para alguém, por qualquer razão além de um abuso direto de nossa hospitalidade, falhamos em fazer o mesmo para o Rei dos Deuses.

Oferecer hospitalidade, na Grécia antiga, significava mais do que comida e bebida. Se uma pessoa precisasse de roupas porque a jornada foi dura, ou de uma cama para dormir, estas coisas também eram providenciadas. Hospitalidade significa prover as necessidades e o conforto de alguém.

Criar um espaço sagrado não significa simplesmente ignorar fatores como ancestralidade, onde alguém está no espectro de gênero, orientação, forma do corpo, deficiência, idade, ou renda. Significa tentar entender de onde a pessoa vem, e entender o que elas precisam para se sentirem confortáveis nos espaços que criamos.

# Discurso: O Diálogo está Aberto

Não se trata apenas de honrar os deuses gregos. Trata-se de uma coisa cultural geral da Grécia Antiga. Discutir política e o estado do mundo são ambas coisas altamente tradicionais a fazer num Simpósio (uma reunião para o propósito de libações). Podemos e devemos criar espaço para o diálogo sobre esses tópicos importantes e prementes.

Precisamos falar sobre discriminação.

Ter diálogos sobre discriminação pode nos ajudar a entender como melhor respeitar as jornadas daqueles que devem enfrentá-la. Também pode nos ajudar a começar a entender como responder aos cidadãos e aos eleitores.

A base desse diálogo, porém, deve ser o respeito.

# Humildade: Nossos Corações estão Abertos

A transgressão da Hybris é normalmente enquadrada como "questionar os deuses", mas essa não é exatamente a questão, em termos de visão helênica. Nos antigos mitos gregos, os humanos geralmente não envolviam as deidades em debates filosófico pois comportar-se assim seria como pensar que eles eram iguais ou melhores que as deidades. Isso é um problema, porque se você pensa que é melhor que os deuses, como você irá tratar seus companheiros humanos? Em contra-partida, se você não pensa que é melhor que seus companheiros humanos, você não corre o risco de fazer isso com relação aos deuses.

Racismo, preconceito de gênero, de deficiência, de idade, de classe social, e outras formas de preconceito, são uma espécie de Hybris.

Humildade também significa, a meu ver, não assumir que eu sei melhor do que a outra pessoa o que ela tem sofrido, e não presumir que posso falar pelas experiências de qualquer um, nem invalidar seus discursos de qualquer forma.

É com essas virtudes que espero que possamos nos comportar nessa época de desenvolvimento de consciência do racismo e preconceito que estão infestando nossa sociedade, e é minha esperança sincera que - através da criação de um espaço seguro e do diálogo aberto com um olhar no remediar de injustiças - o progresso possa acontecer, mesmo se apenas em nossa pequena esfera de influência.


dezembro 01, 2014

Sacerdotisas - Breve Introdução Histórica

Os gregos antigos não tinham sequer uma palavra separada para "religião", uma vez que não existia nenhuma área da vida que não houvesse um aspecto religioso (Bremmer, "Greek Religion", 1994). Ora, se os gregos não distinguiam entre "igreja" e "estado", se as coisas sagradas não estavam separadas das seculares (Bremmer, "Religion, Ritual, and the Opposition of Sacred vs Profane", 1998, e Connor, "Sacred and Secular", 1988), então a posição de liderança das sacerdotisas não era periférica, mas primária aos centros de poder e influência. 

A questão da "invisibilidade" das mulheres atenienses como cidadãs de segunda categoria silenciosas e submissas, restritas aos limites de suas casas, envoltas em tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, vinha sendo aceita nas últimas décadas baseado em textos bem difundidos, especialmente de Xenofonte, Platão e Tucídides, e em algumas peças de teatro. Mas há sérias contradições entre os ideais culturais da literatura e as práticas sociais da vida real. Evidências arqueológicas (Nevett, "Gender Relations in the Classical Greek Household: The Archaeological Evidence", 1995) demonstram que as mulheres tinham um papel ativo na esfera econômica, decidindo sobre o dinheiro (Harris, "Women and Lending in Athenian Society", 1992), controlando propriedades (Foxhall, "Household, Gender and Property in Classical Athens", 1989), efetuando discursos (Blok, "Virtual Voices: Toward a Choreography of Women's Speech in Classical Athens, 2001). Blok estima que as mulheres atenienses estavam envolvidas em cerca de 85% de todos os eventos religiosos. Nos textos, temos Heródoto com 62 referências a sacerdotisas em "Histórias" e Pausânias que informa sobre atividades de sacerdotisas e santuários por toda a Grécia, além do tratado de Licurgo "Sobre as Sacerdotisas". Demóstenes e Plutarco também fazem referências a sacerdotisas. Enquanto isso, Tucídides não menciona sacerdotisas e Platão só as discute numa função de um "estado ideal". 

A primeira menção a sacerdotisas foi encontrada ainda na escrita Linear-B de antes de 400 AEC, em uma tabuleta micena do palácio de Pylos que cita Erita, uma sacerdotisa do santuário local. Ela era dona de terras e outras propriedades, tinha uma posição legítima dentro da sua comunidade e era auxiliada por servos sagrados (Ventris e Chadwick, "Documents in Mycenaean Greek", 1973). Também em Linear-B se lê a palavra "hiereia" e "hiereus", sacerdotisa e sacerdote. Normalmente, os cultos a deidades masculinas era oficiado por sacerdotes, e os de deidades femininas por sacerdotisas, mas há famosas exceções, como: sacerdotisas de Dionysos Anthios, Helios, Apollo Deiradiotes, Apollo Lykeios, Apollo Delphinios, Zeus em Dodona, e alguns cultos a Poseidon; assim como sacerdotes de Deméter, Afrodite e Atena.

As sacerdotisas em geral acumulavam um prestígio, liderando procissões públicas, supervisionando festivais da cidade, tendo assentos reservados nos teatros, tendo imagens erguidas em santuários, e tudo isso lhes garantia uma importância que não pode ser subestimada em um mundo no qual o status carregava consigo um poder duradouro. Escolher se tornar uma sacerdotisa era escolher se tornar extraordinária (Turner, "Hiereia: The Acquisition of Feminine Priesthoods", 1983). O status social e os recursos financeiros da sua família eram fatores determinantes em qualificá-la para o ofício sagrado. Dedicações inscritas atestam a generosidade de sacerdotisas em obras beneficentes, seu orgulho em inaugurar imagens, e sua autoridade em estabelecer leis para o santuário. Elas também eram publicamente honradas com coroas douradas, estátuas delas mesmas e assentos privilegiados nos teatros. Há sacerdotisas retratadas em placas de madeira, relevos votivos, monumentos funerais, vasos, escudos pintados, e implementos de bronze e marfim. Antes dessas descobertas, nos diziam que as sacerdotisas não tinham importância na história da religião (Feaver, "Historical Development in the Priesthoods of Athena", 1957). 

Chrysis, sacerdotisa de Athena Polias, recebeu em Delfos a coroa de Apolo, e o povo votou para lhe conceder também uma série de direitos e privilégios: ela era representante de Atenas em Delfos, tinha direito a consultar o oráculo, prioridade em julgamentos, inviolabilidade, isenção de impostos, um assento frontal nas competições, o direito a possuir terras e casas, e todas as outras honras costumeiras para os cônsuls e benfeitores da cidade ("Inscriptiones Graecae", 1913). Mais tarde ela ganhou inclusive uma estátua na acrópole ateniense.

Poderíamos pensar "mas nem todas eram sacerdotisas". Acontece que, ao contrário das preposições cristãs, eram raros os sacerdócios que duravam uma vida inteira. A maioria dos cultos exigia que se servisse apenas por um período, um ano ou mesmo um único ciclo de festivais. A ideia moderna de que sacerdotes sejam pessoas entre os deuses e os humanos é alheia aos antigos helenos. Todos tinham acesso aos deuses, todos podiam oferecer preces, pedidos, agradecimentos, presentes, e executar sacrifícios diretamente (Dickerson, "Priests and Power in Classical Athens", 1991). Heródoto, quando observou as práticas persas, estranhou que eles exigissem a presença de um sacerdote (o 'magus') em cada sacrifício. Porém, é claro que os sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes e sacerdotisas tinham seu próprio status especial. 

Além disso, a hierarquia do culto incluía uma horda de oficiais religiosos, seja com deveres específicos seja com responsabilidades mais gerais. Por exemplo, atendentes do templo (neokoroi), fazedores das coisas sagradas (hieropoioi), guardiães do templo (naophylakes), tesoureiros dos fundos sagrados (tamiai), carregadores de lã (pektriai), fiandeiros (alakateiai), tecedores (histeiai), fazedores de farinha (meletriai), varredores sagrados (karutieiao), portadores das chaves (kleidouchoi), tecelãs (esgastinai), moedores de grãos (aletrides), líderes do sacrifício (hieragogoi), condutores do sacrifício (hierophoroi), presidentes do ritos sagrados (hierarchai), buscador das coisas sagradas (hieronostoi), encarregados do templo (hierakomoi), administradores do templo (hieronomoi), sacerdotes participantes (hieroparektes), leitores de auspícios nos sacrifícios (hieroskopoi), escribas sagrados (hierogrammateis), guardas sagrados (hierophylakes), coletores de dinheiro sagrado (hierotamiai), cantores e harpistas sagrados (hieropsaltai), carregadores das cestas (kanephoroi), carregadores dos sacras (arrephoroi), carregadores da água (hydrophoroi), carregadores das flores (anthesphoroi), carregadores da mesa (trapezophoroi), lavadores da estátua (loutrides), decoradores da estátua (kosmeteriai), além das ursas de Ártemis (arktoi), as abelhas de Deméter (melissai), as donzelas de Apolo em Delos (deliades), as corredoras espartanas de Dioniso (dionysiades) etc. 

Estima-se que existiam dois mil cultos operando na Ática durante o período clássico. Com cerca de 170 festivais por ano no seu calendário, Atenas tinha um público de oficiantes que lotava a arena. Aliás, 'onde' as coisas aconteciam era fundamental para entender 'como' as coisas aconteciam na antiga Hélade, pois os cultos variavam entre as pólis. Os próprios gregos divergiam e tinham maneiras contraditórias de olhar para a própria religião. Mas uma coisa é certa: o sistema deles era um em que o mito, o culto, o ritual e as imagens visuais eram totalmente interdependentes e que se apoiavam mutualmente.


Um aspecto importante que não podemos deixar de falar sobre as sacerdotisas é a diferença entre o que se conhece do celibato cristão e o helênico antigo. O requisito da virgindade na Hélade era mantido só por um breve período, até o casamento. O celibato perpétuo, além de raro, era mais comum entre mulheres mais velhas, que já tinham tido filhos, eram viúvas e pretendiam terminar sua atividade sexual. As sacerdotisas em geral eram mulheres normais, casadas, com filhos. O próprio termo "parthenos" não significa virgindade num sentido de 'inviolabilidade' como temos hoje, e sim no sentido de uma moça que tinha passado pela puberdade e não tinha ainda se casado. O exemplo das virgens vestais romanas era um caso totalmente fora das normas, elas ficavam intactas por trinta anos, depois se casavam ou não, e eram punidas se violassem o voto, enfim, nada parecido com o que acontecia na Grécia. A ideia cristã de uma virgem como alguém 'dedicado ao senhor', 'uma oferta humana votiva', 'um templo sagrado inviolável' não tinha paralelo na antiguidade grega, porque para os helenos a virgindade não era nem um estado de perfeição e nem uma garantia de salvação. Ou seja, ser virgem não garante pureza ou nobreza alguma, uma virgem não é separada do resto como algo abençoado a ser venerado. O ideal, na verdade, era passar por todos os estágios da vida social, então sacerdotisas casadas e viúvas eram mais comuns no culto grego. Mesmo as famosas "prostitutas sagradas" é um conceito muito controverso, porque não há evidências antigas muito seguras dele. Alega-se que essa prática acontecia em Corinto, Éfeso e Pafos, lugares portuários onde o apóstolo Paulo pregou desde cedo (Winter, "After Paul Left Corinth", 2001), e o fenômeno urbano de marinheiros e prostitutas nesses locais litorâneos com prática de culto deve ser o que mais provavelmente levou à atitude negativa cristã de produzir tal ideia sobre as tradições religiosas dali.

Quando, em vez de usarmos o termo "servas sagradas", usamos "agentes de culto", trazemos para o sacerdócio feminino uma dimensão mais ativa, administrativa, de resultados, do que uma imagem de auxiliar submissa. As sacerdotisas tinham mais coisas em comum com os homens do seu nível social do que com as mulheres de níveis inferiores. Precisamos lembrar disso ao considerarmos as forças que definem suas identidades e que propiciam suas ações. O avô materno de Chrysis, que mencionei acima, era sacerdote de Asclépio, seu tataravô materno era supervisor (epimeletes) dos Mistérios Eleusinos, tudo indica que ela herdou seu sacerdócio matrilinearmente. Seu status de sacerdotisa não veio de uma veia patriarcal. Uma história que consiste de um controle monolítico patriarcal sobre as mulheres como vítimas passivas, interrompido esporadicamente por intervenções feministas, já foi desacreditado (Broude and Garrard, "Reclaming Female Agency: Feminist Art History after Postmodernism", 2005). Ainda assim, muitos autores desatualizados insistem em relacionar toda ação social da pólis a atividades masculinas. Isso não significa abandonar a luta por equidade de gêneros e minimizar a opressão sofrida, muito pelo contrário, queremos é empoderar as mulheres ao mostrar a elas que sua força e importância é legítima e atávica. 

Eis por que o helenismo é algo tão rico: ao mesmo tempo em que inclui a dificuldade do estudo para se inteirar das novas descobertas, permite que constantemente estejamos trazendo um novo e atual olhar sobre o que o passado nos apresenta, visto que os autores e tradutores são apenas testemunhas, que interpretam os fatos de acordo com a visão que possuem. O olhar deve ser revisitado e reexaminado dialeticamente, sempre. Já dizia Sócrates, "uma vida não examinada não é digna de ser vivida".

(Postagem elaborada após a leitura de "Portrait of a Priestess", de Joan Breton Connelly, 2007, capítulo 1.)

novembro 19, 2014

Em defesa de Hades

Por Dawn Black, traduzido e adaptado pela Alexandra:

Quando recontam o mito da abdução de Perséfone, normalmente o fazem de uma forma limitada e um tanto equivocada.

Primeiro, Hades não é o belzebu grego. Ele não governa um inferno. Os helenos não associam a morte com o mal. A morte é algo que acontece com todo mundo, não importa o quão bom ou mau alguém é ou quantas coisas boas ou ruins lhe aconteceram.

Segundo, se ele rege o submundo para onde vão os mortos, não é porque ele gosta de gente morta ou porque ele é cruel e sinistro. Ele ganhou essa função quando Zeus, Poseidon e ele tiraram na sorte quem iria ficar com qual reino (Céu, Mar, Submundo). Ou seja, foi pelo acaso de um sorteio, não propriamente por afinidade.

OK, é verdade que os antigos se aproximavam dele com cuidado, evitando jurar em seu nome e chamando-o por apelidos para não atrair sua atenção, porque ninguém estava com pressa em morrer. Mas Hades não é a morte (a morte é Thanatos), Hades não mata e nem ordena a morte (isso fariam as Moiras). E, apesar de presidir as punições dos que fizeram algo errado, não é ele quem julga também (os juízes são Minos, Radamantis e Éaco, e algumas pessoas que cometem crimes graves vão direto para o Tártaro sem passar por eles). 

Coitado, é como se Hades fosse um gerente que tivesse que lidar com os clientes que lhe culpam pela burocracia que já existia antes de ele assumir o posto. 

De acordo com muitos relatos, Hades é bastante ‘relax’, ‘de boa’. Um dos seus apelidos é “o hospitaleiro”, afinal é sua função prover hospitalidade aos mortos, e ele faz isso muito bem. Ele não parece ter um temperamento tão forte quanto o de seus irmãos Poseidon e Zeus, e só se registrou ele ficando bem irritado umas poucas vezes, tipo quando Pirithous tentou sequestrar Perséfone (e está amarrado numa cadeira até hoje) ou quando pessoas interferiam com as práticas funerárias. De fato, na maioria das vezes ele parece bastante tranquilo, inclusive aceitando acordos de trocar uma alma pela outra ou mesmo soltando almas ocasionalmente (tipo Eurídice), embora isso nunca tenha funcionado muito bem. 

Então, temos um cara num emprego difícil, vivendo no escuro e cercado de lamentadores, seria legal ter uma companheira por perto. Ele sai procurando e escolhe Perséfone. E aí, senhoras e senhores, aí ele pergunta a Zeus se pode. Ele faz o que sempre se fez: pediu a permissão do pai da garota. Pode ser que Zeus não seja pai de Perséfone, mas ele é o rei dela e serve. Zeus diz tipo ‘vai fundo’ e ele diz a Hades que este vai ter que agarrá-la às escondidas, porque Deméter é uma daquelas mães helicopterizadas; daí eles pedem ajuda à vovó Gaia e ela ajuda de bom grado a conseguir que a garota ficasse sozinha para que ele pudesse apanhá-la e levá-la para casa.

Vejam isso aconteceu num mundo no qual os homens tomavam esposas como espólio de guerra e isso era normal e OK. No mundo celta também era normal, os homens roubavam o gado do pai e pediam de resgate a filha. Não se consultava a moça.

Uma das coisas que dá nos nervos na língua inglesa é chamarem o rapto (“rapt”) de Perséfone de estupro (“rape”). Não sabemos se isso aconteceu, se ela consentiu ou não, o mito não fala o que ele fez com ela quando chegaram na casa dele. O mito só fala da abdução, do arrebatamento ("rapture"). Hoje em dia ‘arrebatamento’ está associado com júbilo e movimento para cima, não para baixo, mas com certeza isso é influência cristã. O arrebatamento tem a ver com ser transportada para outro plano, não necessariamente o céu e a felicidade.

Até então, todas as ações de Hades com relação a Perséfone foram compreensíveis e não foi a pior coisa que poderia ter acontecido a ela. A coisa incomum mesmo foi a reação de Deméter. OK, não saber onde Perséfone estava e se preocupar foi perfeitamente normal, o que foi incomum foi sua recusa a aceitar o par, mesmo depois de vários outros deuses lhe encorajarem a aceitar, dizendo que Perséfone poderia estar em situação pior do que estar com o Governante de Muitos. Pode ser que fosse legal Hades ter falado com ela, mas ele é atado ao seu reino, a responsabilidade de lidar com Deméter no Olimpo é de Zeus.

Será que Deméter teria recusado a oferta de casamento se lhe dessem escolha? Provavelmente. Não porque Hades fosse um mau partido, mas porque Deméter é um olimpiana e Hades é do submundo, o que significaria que ela não iria mais ver Perséfone com ela morando lá com ele. Ela não a poderia visitar, ao menos que um psicopompo como Hécate ou Hermes a escoltasse e com a permissão de ambos os reis. Apenas alguns deuses tiveram passagem livre para transitar entre os reinos. Mãe e filha não se veriam mais.

Essa situação difícil de Deméter não era incomum no mundo antigo. Os pais davam as filhas em casamento, os maridos as levavam para longe e às vezes as mães não as viam mais. Era comum naquela cultura. E as mães lamentavam sim. Mas quando as mortais lamentavam, isso não resultava na fome mundial.

Perséfone também estava infeliz como milhões de garotas ficavam ao serem levadas da família e arredores para viver com um estranho num lugar estranho. No mundo em que vivemos, estamos tão mal-acostumados que nosso ultraje é um luxo. Como muitas, ela teria que se ajustar e talvez aprender a amar seu novo par e sua vida e (agora como poucas) aprender a abraçar sua impressionante posição como Anfitriã de Muitos, Rainha do Submundo. Esse é um título bem legal.

E, de acordo com todos os relatos, foi o que ela fez. Hades a traiu algumas vezes (ao que sabemos, duas) e ela as transformou em plantas e teve um cacho de filhos com pessoas que não eram ele, mas isso me parece um relacionamento divino normal. Talvez até mais saudável do que o de Zeus com Hera e de Afrodite com Hefesto (espero não ser atingido por um raio ao dizer isso).

E quanto a romã? Hades lhe deu antes de ela voltar para Deméter, com medo de que sua mãe não deixasse sua esposa legítima voltar para ele. Mas ela sabia que isso significaria que ela teria que voltar? E, se sabia, ele a forçou? Como se força alguém a comer? Pode ser que ela soubesse e quisesse voltar ou pode ser que ela fosse tão jovem e inocente que não soubesse o que significaria comer no submundo. A romã é a chave da questão se Perséfone se apaixonou ou não por Hades naquele ponto. E esse momento foi um bom tempo depois da abdução. Talvez nunca saberemos.

Claro que estou conjeturando e sei que os deuses não precisam da minha defesa, mas os mitos talvez precisem. É um desserviço quando feminimizamos os mitos, dando mais poder a Perséfone, transformando Hades num vilão maligno ou num cara charmoso e misterioso sedutor, ou ignorando as regras sobre quem pode ou não pode cruzar fronteiras. É preciso considerar a cultura, porque se ignorarmos ou removermos o contexto desses relatos, podemos perder o x da questão. Há verdade nesses mitos, afinal nos interessamos por eles, mas encontraremos muito menos se nossa visão for turvada pelo preconceito moderno ocidental. 

( Fonte: http://blog.sacredhearth.com/2014/10/in-defense-of-hades-a-closer-look-at-the-abduction-of-persephone/ )

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Nota da Tradução: Na hora de trazer para a nossa vida atual, claro que temos que ajustar às conquistas que tivemos, mas o que não podemos é julgar (e condenar) com olhos atuais sem considerar o contexto histórico - nesse sentido é que a adaptação dos mitos não serve, que é um 'desserviço'. Mas teve algumas coisas no texto original que eu retirei ou modifiquei exatamente por achar sexista (por isso está escrito 'traduzido e adaptado'); tipo dizer que o deus precisava de uma mulher "para iluminar" o lugar ou que o autor estava falando dos deuses "como uma dona de casa fofoqueira".
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dezembro 20, 2013

O bacanal não é no natal...

... e Dioníso não é 'Djísus'.


Nesta época do ano, começam a dizer que o 25 de dezembro era originalmente o aniversário de deidades antigas que foi assumido como o natal cristão. Se você falar de Mitra, é até aceitável. Se falar que o Natal teve origem no Sol Invictus ou na Saturnália, OK também. Mas dizer que era o nascimento de Dioniso, não bate. Você até pode celebrá-lo, afinal, existe o festival moderno dos "12 Dias Dionisíacos", e porque - sinceramente - sempre é época de cultuarmos Dioniso e celebrarmos sua energia de liberdade. Basta você não dizer que "na antiguidade" ele nasceu em dezembro, porque não há nada que confirme isso. 

Dioniso tem sim muita coisa a ver com o Jesus cristão em muitos aspectos que não precisamos elencar de novo aqui, mas não significa que são iguais, pois suas diferenças são maiores do que suas semelhanças. E uma delas é que não havia na Grécia Antiga um festival a Dioniso no solstício de dezembro. 

Primeiro de tudo, não existia "dezembro", o calendário era com ano solar e meses lunares, variava muito em relação ao calendário que conhecemos e utilizamos hoje, o gregoriano. Pode ser que houvesse um festival num dia do mês de Poseideon que - em algum ano aleatório - caísse no 25 de dezembro, mas isso não aconteceria todos os anos e demoraria um pouco a cair de novo na mesma data. 

Segundo, Dioniso nasceu várias vezes. Qual aniversário as pessoas alegam estar comemorando? O dia em que ele saiu dourado e alado do ovo órfico (Fragmento Órfico, 54), quando ele nasceu em Creta de Zeus e Perséfone (Biblioteca Histórica, de Diodoros Sikeliotes, 5.75.4), quando ele surgiu das chamas que queimaram Semele (Teogonia, de Hesíodo, 940), quando ele saltou da coxa de Zeus após completar sua gestação (Biblioteca de Apolodoro, 3.28), quando ele veio de Demeter (Diodoros, 3.62), de Dione (Escolástica em Píndaro, de Pitágoras, 3.177), de Amaltheia (Diodoros, 3.67), de Isis (Alexarkhos, fragmento 3.324), do Indus (Vida de Apolônio, de Filostrato, 2.9), do Lethe (Simposíacas, de Plutarco, 7.5) ou de outros tantos progenitores que se alega serem seus pais?

Terceiro, será que algum desses nascimentos foi no solstício de dezembro, início do inverno na Grécia? Vamos ver?

Diodoros (3.66.3) menciona um festival de nascimento de Dioniso em Teos: "Os teanos afirmam como prova de que o deus nasceu entre eles o fato de que, até hoje, em períodos fixos na sua cidade, uma fonte de vinho, de incomum fragrância doce, flui sozinha da terra”. Alguns acham que esse período fixo fosse no inverno, porque havia um milagre parecido em Andros, registrado por Plínio, o Velho: “Muciano, que foi três vezes cônsul, acredita que a água que flui de uma fonte no templo do Liber Pater na ilha de Andros sempre tem o sabor de vinho no dia 5 de janeiro: o dia é chamado de Dia do Presente de Deus... Se os jarros são carregados para fora da vista do templo, o gosto volta a ser de água." (História Natural 2.106; 31.16). Essa identificação tem alguns problemas, no entanto. Primeiro que as duas ilhas são muito longes uma da outra - Telos na Beócia e Andros na Eubeia - e com culturas muito diferentes. Segundo que Plínio não fala em nascimento do deus, e sim mais em uma epifania com Dioniso dispensando seus dons à humanidade de uma forma memorável. Não podemos dizer que sempre que um milagre de vinho acontece - por exemplo, quando as mênades em êxtase fazem sair vinho do chão ao baterem com o tirso nele - significa que o bebê Dioniso vai nascer.

Aelian (Sobre os Animais 12. 34) reconta um festival dionisíaco onde o nascimento do deus com chifres de touro era dramatizado: "As pessoas de Tenedos mantém uma vaca prenhe para Dioniso Anthroporraistos (Assassino de Homens) e, assim que ela tem seu bezerrinho, eles cuidam dela como se fosse uma mulher de resguardo. Eles colocam coturnos no bezerro e o sacrificam. Mas o homem que usou o machado recebe uma saraivada de pedras atiradas pela população, e ele foge até chegar ao mar." Mesmo não fornecendo datas, sabemos que esse festival não era no inverno, porque a temporada de parto do gado na Grécia é durante a primavera e o verão. Inclusive, Pausânias (8.19.2) menciona que no vilarejo arcadiano de Kynaithai, durante um festival de inverno, homens carregavam um touro (escolhido por inspiração divina) nos braços até o santuário, mostrando que o animal tinha atingido seu tamanho ideal nessa época do ano. 

Píndaro também menciona (Frag. 75) um festival em Tebas honrando Semele como mãe de Dioniso, mas este acontece “na abertura da fragrante primavera, quando as Horas trazem as plantas que exalam néctar” e “a terra imortal é decorada com violetas adoráveis e donzelas entrelaçam rosas em seus cabelos e cantam docemente acompanhadas de flautas para a deusa que ama a dança”. Essa seria uma boa razão para não crermos que Dioniso nasceu no inverno, pois no inverno as videiras parecem ramos inférteis. Dioniso tem uma conexão tão poderosa com o ciclo de vida das plantas que não faria sentido alguém dizer que essa é a época em que mais sentimos a 'juventude exuberante do deus'. Pareceria mais apropriado dizer isso na primavera, como Plutarco escreveu (Sobre Ísis e Osíris 69): “Os frígios acreditam que o deus dorme no inverno e acorda no verão, e com frenesi báquico eles celebram naquela estação o festival de ele ser ninado até o sono, chamado Kateunasmous, e na outra celebram seu despertar com o Anegerseis. Os Paflagonianos declaram que ele é agrilhoado e preso durante o inverno, mas que na primavera ele se move e se liberta novamente”. 

Diodoros (4.3.2-5) dizia que, em outras regiões, essa sequência não era encenada todo ano, mas ano sim e ano não, mantendo a rotação dos campos e o ciclo de vida da uva: "Os beócios e outros gregos e os trácios, em memória da campanha na Índia, estabeleceram sacrifícios ano sim e ano não para Dioniso, e acreditam que nessa época o deus se revela aos seres humanos. Consequentemente, em muitas cidades gregas, bandas de mulheres se reúnem ano sim e ano não, e é permitido às donzelas carregarem o tirso e se unirem na frenética folia, gritando 'Evoé!' e honrando o deus; enquanto as matronas, formando grupos, oferecem sacrifícios ao deus e celebram seus mistérios e, em geral, exaltam com hinos a presença de Dioniso, desta maneira agindo como mênades que, como registra a história, eram as antigas companheiras do deus".

Está certo que, em Delfos, esses ritos provavelmente aconteciam no inverno, conforme Plutarco (Sobre o Princípio do Frio, 18) que conta das Thyiades, as mulheres que celebravam os ritos de Dioniso, cujo nome vem de 'thýo' (sacrificar): "O frio é perceptível nas coisas mais duras e faz as coisas ficarem duras e inflexíveis. Teofrasto, por exemplo, nos diz que quando peixes congelados são soltos no chão, eles se quebram e partem em pedaços assim como objetos de vidro na louça de barro. E, em Delfos, você mesmo já escutou, tem o caso daqueles que escalaram o Parnaso para resgatar as Thyiades quando elas ficaram presas por um forte temporal e tempestade de neve, que as capas delas estavam congeladas tão duras como madeira que, quando as abriram, elas quebraram e partiram.” Mas o inverno era a época em que Dioniso controlava a Delfos de Apolo pois o arqueiro tinha partido para as Hiperbóreas, também conforme Plutarco (Sobre o E em Delfos, 9): "Dioniso não tem menos a ver com Delfos do que Apolo, embora Dioniso - a quem eles chamam Zagreus e Nyctelios e Isodaites - não é constante, e Apolo é. Há a sua passagem e a distribuição em ondas e água, e terra, e estrelas, e plantas e animais que nascem - e essa transformação eles descrevem como uma rendição e desmembramento. Pois Ésquilo diz: 'Em gritos misturados o ditirambo deve soar, com Dioniso festejando, seu Rei'. Mas Apolo tem o Peã, uma música sóbria e rígida. Apolo está sempre jovem e imutável; Dioniso tem muitas formas e muitas figuras, como representados nas pinturas e esculturas, que atribuem a Apolo a suavidade e a ordem e a gravidade sem mesclas, e a Dioniso uma mistura de esportividade e atrevimento, com seriedade e frenesi. [...] Os períodos em que eles governam não são iguais, são chamados 'saciedade' os mais longos e 'escassez' os mais curtos, preservando uma proporção, e usam o peã com seus sacrifícios para o resto do ano, mas no começo do inverno revivem o ditirambo, e param o peã, e invocam este deus em vez do outro, supondo que essa razão/proporção de três para um é a do 'Arranjo' da 'Conflagração'". 

E, um pouco depois de Dioniso dar caminho a Apolo que retornava a Delfos - ou seja, na primavera -, os atenienses celebravam a Anthesteria ou 'festa das flores', o casamento sagrado do deus com a rainha que trazia fertilidade à terra (Demóstenes, Contra Neaira 73-76): “E esta mulher ofereceu a você em nome da cidade os ritos sagrados inenarráveis, e ela viu que era apropriado a ela, sendo uma estrangeira, ver; e, sendo uma estrangeira, ela entrou onde nenhum outro ateniense, exceto a esposa do rei, entra; ela administrou o juramento às 'gerarai' que servem nos ritos, e ela foi dada a Dioniso como sua noiva, e ela executou em nome da cidade os atos tradicionais, muito sagrados e inefáveis, dirigidos aos deuses. Em tempos antigos, atenienses, havia uma monarquia em nossa cidade, e o reinado pertencia a aqueles que se sobressaíam por serem nativos. O rei costumava fazer todos os sacrifícios, e sua esposa costumava executar aqueles que eram mais sagrados e inefáveis – e apropriadamente, uma vez que ela era uma rainha. Mas quando Teseu centralizou a cidade e criou a democracia, e a cidade se tornou do populacho, as pessoas continuaram não menos do que antes a selecionar o rei, elegendo-o de entre os mais distintos em qualidades nobres. E eles passaram uma lei de que sua esposa deveria ser uma ateniense que nunca tivesse tido intercurso com outro homem, mas que se casasse virgem, para que, de acordo com o costume ancestral, ela pudesse oferecer os sagrados ritos inefáveis em nome da cidade, e que as cerimônias costumeiras deveriam ser feitas para o deus piamente, e que nada deveria ser neglicenciado ou alterado. Eles inscreveram esta lei em uma estela e a colocaram diante do altar no santuário de Dioniso em Limnais. Essa estela ainda está lá hoje, exibindo a inscrição em desgastadas letras áticas. Portanto, é pelas pessoas que testemunharam sua própria devoção aos deuses e deixaram um testamento para seus sucessores, que requeremos aquela que será dada ao deus como noiva e executamos os ritos sagrados para esse tipo de mulher. Por essas razões, eles a estabeleceram no mais antigo e sagrado templo de Dioniso em Limnai, para que a maioria das pessoas não pudesse ver a inscrição. Pois ela é aberta uma vez por ano, no décimo-segundo dia do mês de Anthesterion.”

Agora vamos pensar: durante o inverno, temos um Dioniso ctônico festejando no topo da montanha com mulheres dançarinas em frenesi, que largam o rei para ficar com ele. Parece um Dioniso bebê? Outra questão: os ritos a Dioniso (Anthesteria, Dionísia Rural, Lenaia etc) se parecem de alguma forma com o natal cristão? Não. Então, se há algum antecedente pagão para o natal, seria a Saturnália e/ou o Dies Natalis Solis Invicti – festivais os quais não têm a ver com Dioniso.

Portanto, se quisermos celebrar Dioniso, que seja sem dizer que é porque os festivais dionisíacos são a origem plagiada pelo natal cristão. Dionísio não é capricorniano. Provavelmente, seria taurino. ];o) 

(Adaptado de fontes extraídas do "Dionysos is not the reason for the season", de Sannion, com comentários meus. Todas as traduções das citações em inglês por Alexandra.)

junho 29, 2012

Máximas Délficas (parte 3) - Autoridade e Poder


Seguindo a lógica das postagens, falamos de riquezas e posses, o que tem muita relação com o poder e a autoridade, uma vez que tratamos de que o mal está nos excessos, e isso permeia este novo grupo de máximas, que inclui uma vigilância contra o orgulho excessivo, a arrogância, o desrespeito, a ganância cega por riqueza e poder.


3. Respeite os Deuses (Θεους σεβου)

'Sebou' é a forma imperativa de 'sebas' (respeito), então a Máxima diz que devemos respeitar os deuses, todos eles - sem especificar nome, origem, raça, cultura ou credo.
Os antigos respeitavam os deuses alheios, embora se tratasse de um respeito muito mais de estado mental do que de uma ação em si. Os problemas que temos com as outras religiões não é com os deuses delas - os quais devemos respeitar - e sim com as pessoas. Mesmo os questionamentos que fizemos da atitude do deus da bíblia se refere a escritos feitos pelos homens, que o descreveram daquela forma. A ação dos seguidores daquele deus não necessariamente refletem a vontade dele. 

42. Tenha respeito pelos suplicantes (Ικετας αιδου)

'Iketas' é uma forma plural que vem de 'ikesia', mesma origem de Zeus Ikesios e Zeus Iktaios, o patrono dos suplicantes, o deus que realiza os pedidos de justiça e proteção. Essa súplica não é um apelo geral e indiscriminado por ajuda, mas sim um pedido de se preencher uma necessidade imediata que é dirigida diretamente a alguém que está na posição de ajudar o suplicante. Recusar-se a atender os 'iketis' ou 'iketria' é uma contravenção que leva ao erro ('hamartia') e à poluição ('miasma') a quem recebe e ignora o pedido. A súplica está ligada às leis filantrópicas da hospitalidade ('philoxenia'). Já 'aidou' é o imperativo de 'aidos', a sensação de vergonha, de ser honrável, virtuoso, ter digna auto-estima, sentir respeito e dignidade. O oposto disso seria o 'anaideia' (desaforo, descaramento, desrespeito). Trata-se de uma consciência ética interna adquirida pela compreensão do nosso dever social, e não de uma lei que te força a agir de forma ética. Já falei da relação de Aidos com o amor e a decência ('kosmiotita') aqui, agora lembro da relação que Aristóteles faz de Aidos com a boa ordem ('eutaxia') e a prudência ('sophrosyne'). "Iketas aidou" nos ensina a não envergonhar os suplicantes e garantir que o devido respeito seja dado a eles.
Agora entra a questão de quem é um 'iketes', uma vez que para algumas pessoas mendigar é uma profissão e para algumas entidades assistenciais a caridade é lucrativa. Quais seriam então as coisas que poderíamos observar? Primeiro se o pedido vai para alguém que esteja em posição de ajudar (você pode ajudar e a pessoa está sendo sincera em pedir o que precisa?); segundo sobre a melhor forma de ajudar sem necessariamente ser o que foi pedido (por exemplo, alguém te pede dinheiro que você não sabe se é para comprar álcool e aí você prefere dar um lanche pra ele; ou você resolve o problema imediato da fome e causa o problema maior da dependência à ajuda dos outros, o que não seria uma solução para a súplica). Se você não está em condição de ajudar, piedade não é respeito; o verdadeiro respeito começa com o respeito próprio, reconhecer suas limitações e poderes. Até porque, grande parte das vezes, a solução para os problemas sociais é muito cara ou irreal.
Não precisamos entrar aqui em discussões políticas sobre o sistema. De qualquer forma, como é muito difícil saber com quem estamos lidando, é melhor tratar a todos com respeito. Acredito que, na maioria das vezes, a gente sente quando deve e quando não deve ajudar, e - nas vezes que, por costume, nos recusamos a ajudar e acabamos nos sentindo desconfortáveis - isso já é um sinal de que estávamos seguindo nossa intuição. No mais, é se colocar no lugar do outro, pois só assim vamos sentir e saber quem está realmente precisando e suplicando por meio dos deuses ou quem está apenas tentando se aproveitar e acomodado ao assistencialismo alheio.

48. Seja um amante/amigo da sabedoria (Φιλοσοφος γινου)

'Philosophos' todos sabem que significa amante ou amigo ('philos') da sabedoria ('sofia'), palavra cunhada por Pitágoras. 'Ginou' é o imperativo do verbo 'gignosko' (tornar-se). Então, "torne-se um filósofo" não significa que é para você fazer faculdade de filosofia, e sim que você se transforme em um amante/amigo da sabedoria, alguém que a busca. Através do acolhimento da sabedoria, surge a compreensão e o respeito pela ordem natural, por isso incluímos esta Máxima no grupo - porque a ausência de sabedoria (quando não a reconhecemos ou não a aceitamos) é o que leva à insolência e ao desrespeito aos Deuses. Às vezes as pessoas respeitam as coisas sem ter consciência, sem saber o que estão fazendo. Um amigo da sabedoria precisa estar consciente dos seus motivos e da sua posição, precisa estar sempre questionando as coisas em vez de aceitá-las como sempre foram. Um filósofo é, acima de tudo, um buscador da verdade. Ele vai testar a autoridade conferida e respeitar a verdadeira autoridade. Em todos os momentos há formas sábias e formas tolas de se abordar algo - precisamos escolher o jeito mais sábio. Obedecer cegamente não é sábio, a sabedoria não acontece no vácuo, ela surge da reflexão. Nosso ditado "manda quem pode, obedece quem tem juízo" serviria para pensarmos que respeitar a verdadeira autoridade (quem realmente "pode") é um sinal de racionalidade ("juízo"), nesse sentido filosófico.

53. Consulte os sábios (Σοφοις χρω)

'Sophois' se refere ao plural de pessoas que são sábias e prudentes, e 'khro' é o imperativo do verbo 'khrao' (prover com o que é necessário). Por conta de frases do tipo "khromeno en Delphis" (consulte o oráculo), de Tucídides, e "oi khromenoi" (os consulentes), de Eurípides, podemos traduzir como "consulte os sábios". Além disso, prover os sábios com o que eles precisam seria pensarmos que o que eles precisam é justamente compartilhar a sabedoria, pois - como amigos dela - queremos mais é que ela esteja em toda a parte. 
A grande questão é como reconhecer quem é sábio. Todo mundo tem alguma coisa para ensinar, muitos tem bastante conhecimento, mas poucos tem sabedoria. De qualquer forma, podemos pensar na ideia mais socrática de considerar aqueles que já passaram pelas mesmas coisas antes, e podemos consultar sua experiência no assunto que abordamos. Em Esparta, se não me engano, existia um juramento ('orkos') que cada jovem ('ephebos') fazia para ser introduzido na irmandade ('phratria'), no qual se incluía a promessa de preservar o que eles tinham recebido como herança e de garantir que eles não passariam menos do que aquilo para a próxima geração. Ou seja, os mais novos sempre recebiam ou igual ou maior porção de conhecimento, pois o tempo havia ensinado aos mais velhos mais do que eles tinham aprendido ao ingressar na comunidade, e era dever dos mais jovens aprender ainda mais antes da próxima geração.
Se consultamos os sábios, é também por conta da autoridade que eles têm, uma autoridade que vem não de hierarquia imposta/concedida, mas de experiência adquirida, uma autoridade natural, pelo direito dos anos como buscador da verdade e amante da sabedoria. E eles têm o poder de ajudar quem lhes consulta.

65. Honre quem é bom (Αγαθους τιμα)

'Agathous' vem do termo 'agathon' que a filosofia define como aquilo que é bom em termos do que é benéfico. Já falamos do 'agathós' no blog dos exegetas. 'Tima' vem de 'timé' (honra) e 'timao' (honrar), normalmente usado para denotar a honra dirigida aos deuses, ancestrais, anciãos, governantes, convidados e outros superiores. Então a Máxima nos diz para dar a devida honra aqueles que são bons, que são beneficentes, que trazem benefícios.
Ou seja, não é qualquer uma dessas pessoas que a honra/timé denota, mas apenas aqueles que são mesmo benéficos para a comunidade, os realmente bons/agathoi. A gente sabe que grande parte dos governantes atuais não são benéficos - são aquilo que falamos sobre os corruptos, anti-éticos, interesseiros e inescrupulosos na postagem anterior; aqueles que excedem a justa medida.

109. Tema o poder/autoridade/governo (Το κρατουν φοβου)

'Kratoun' vem de 'kratos' (força, poder), independente de ser um poder dos deuses, do governo ou do poder pessoal, tanto que é a origem da palavra 'demokratia' (governo do povo) e virou nome de personagem fortão de videogame. 'Phobou' (tema, tenha medo) é o imperativo de 'phobos' (medo), o mesmo que dá nome a um dos filhos de Ares. O uso dessa palavra em vez de 'deos' (temor no sentido de reverência, admiração) acentua a força da atitude. Não se trata, portanto, de admirar e reverenciar a força/poder/autoridade (ou governo), e sim de temê-los mesmo. 
Podemos tirar várias reflexões dessa Máxima. Uma é que o poder é algo potencialmente perigoso, então há razão em temê-lo. Outra é que devemos escolher com sabedoria o que tomaremos como autoridade e ficarmos atento de que, ao transformá-lo numa autoridade, estamos lhe conferindo poder e passaremos a temê-la (o que, a meu ver, só os imortais seriam dignos de tal aceitação, e alguns humanos só depois de escolher com muito cuidado através da observação de ser alguém virtuoso em conhecimento, prática e sabedoria). Outra reflexão ainda é de que deveríamos evitar nos tornarmos autoridades, uma vez que o verbo 'fobomai' remete também a 'fugir de', então estaríamos fugindo (não da responsabilidade, mas) de sermos autocratas ou tiranos.  
Acredito que podemos olhar essa Máxima lembrando da que comentamos anteriormente: "honre quem é bom". Existem bons e maus governos, boas e más pessoas no poder, e o mais sábil é desenvolver um medo saudável, aquele mesmo medo que temos de nos queimarmos que faz lidarmos com o fogo de uma maneira segura. Governos e autoridades são coisas necessárias (como necessitamos do fogo) e o poder pode ser algo perigoso (como o fogo), por isso a cautela -- não a admiração ('deos'), mas realmente o temor ('phobos'), um "medo" saudável e seguro.

130. Não comece a ser insolente OU Não seja abusivo com a autoridade (Μη αρχε υβριζειν)

'Arkhe' tanto pode ser derivado do verbo 'arkho' (governar, supervisionar) quando da palavra 'arkhé' (começo, princípio). Elas são parecidas no sentido de supervisionar que as ofertas sejam as dos primeiros frutos e no sentido de a primeira causa ser a que domina e tem autoridade sobre as outras. Todas as teorias sobre o princípio de tudo (para Anaxímenes o ar, para Xenófanes a terra, para Heráclito o fogo, etc) concordam que a primeira causa está no 'kosmos', é parte dele, uma vez que o que está fora do cosmo é desconhecido para os humanos. Sócrates se perguntou "o que é 'arkhe' e como isso funciona uma vez que funciona como um princípio?" Para Aristóteles, o 'arkhé' é sempre divino, devido à sua capacidade de se auto-gerar e auto-sustentar e das coisas se originarem dele. 'Ybrikzein' é a forma imperativa de 'hybris', uma insolência ou impertinência de sentimentos exagerados de poder, que resultam na transgressão do 'métron' (justa medida) através da arrogância, ganância, excesso, perseguição cega por riqueza e poder. A 'hybris' é uma audácia e um desrespeito desavergonhado pela ordem ética do cosmo. Trata-se de um desprezo pelos deuses ('theoi') ou de uma violação das leis da natureza ('physis'). A híbris traz vergonha para a vítima, não por punição, mas porque - ao restaurar o equilíbrio do cosmo - o transgressor recebe em retorno a porção de disciplina e consciência que lhe faltou. Essa restauração é feita pela deusa Nêmesis, personificação da revanche, da vingança. Então, se pensarmos em autoridade e na primeira causa de tudo, podemos dizer que a Máxima lembra daqueles que pensam que tratando mal os outros vão garantir sua superioridade sobre eles, quando na verdade vão é atrair uma reparação sobre si. Não comece (arkhe) a transgredir (hybris), abusando (hybris) da verdadeira autoridade (arkhe), pois a origem das coisas está no cosmos divino e não em você. Para quem está familiarizado com os conceitos da 'hybris' (transgressão) e da 'arkhe' (origem divina das coisas no 'kosmos'), poderíamos entender essa tradução como "não cometa híbris com as primeiras causas" ou "não seja insolente com a autoridade dos deuses".
Existe uma distinção entre a híbris no sentido comum, no termo jurídico e no termo filosófico. Para a filosofia, a híbris é o que foge do métron, do padrão, e os excessos são reconhecidos ao examinar a causa da híbris. No senso comum, a híbris é qualquer insulto. No sentido jurídico, a híbris é a violação de normas sociais motivada por arrogância sem a devida causa. A híbris poderia ser vista como um "erro fatal" que inicia um processo de eventos trágicos como consequência. Porém, no sentido moderno, você xingar quem cortou a frente do seu carro na estrada é híbris na língua grega, uma híbris que não guarda o mesmo peso daquela do sistema legal/jurídico daquela da ideia filosófica.
Essa Máxima também poderia ser traduzida como "não seja a causa da hybris" no sentido do uso excessivo e inapropiado da violência que os tiranos fazem ao agir unilateralmente como se fossem deuses. Ser insolente com a autoridade, faltar com o respeito pelo poder, não é sábio porque os irrita ao ponto de eles cometerem atos de híbris. É como sacudir um pano na frente do touro - a não ser que a sua intenção seja mesmo a de irritar o touro para que ele ataque.
Isso, no entanto, é diferente de se opor ao tirano. Você pode se opor à autoridade de alguém sem precisar ser insolente. Há uma diferença entre insolência e desobediência. A híbris é uma "arrogância presunçosa que causa humilhação e vergonha" (Aristóteles), uma ofensa que vai além de um ataque verbal ou de um ato de desobediência. Os filósofos Cínicos, inclusive, achavam que o menosprezo e o insulto eram deveres sagrados contra a hipocrisia e a corrupção, da mesma forma que a sátira desempenhava um papel político importante. É fácil se erguer e criticar o governo ou uma figura de autoridade, mas a tarefa deles não era simples e nem era para qualquer pessoa. Se alguém tivesse verdadeiramente a solução para os problemas da sociedade, ele/a tinha o dever social de se levantar no ofício público e falar, mas aqueles que não tinham solução não teriam o direito de questionar a autoridade. Além disso, é fácil insultar fulano ou beltrano em vez de discutir os problemas reais e encontrar soluções reais para eles. As pessoas só querem ser críticos sentados na sua poltrona; que acham que nada está bom, mas que também não sabem qual seria a solução para os problemas. 
Assim, essa Máxima também pode chamar nossa atenção para as dificuldades em ser uma autoridade nesse mundo e nos fazer questionar o quão realística são as nossas expectativas quando nos sentimos compelidos a criticar ou insultar uma autoridade. Talvez os outros não verão essa Máxima sob essa luz, mas não custa levantar esse pensamento.


Há um diálogo - de um dos sete sábios que compuseram as Máximas - que diz assim:
"Quilon de Esparta (560 AEC): O que Zeus está fazendo?
 Esopo: Ele está rebaixando os orgulhosos e exaltando os humildes."