Mostrando postagens com marcador festival. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador festival. Mostrar todas as postagens

julho 24, 2015

Kronos



Na Era de Ouro regida por Cronos e Réia, não havia trabalho laborioso nem opressão, e as pessoas eram imortais. Antes da ordem trazida por Zeus o mundo era caótico. O festival da Krónia, por exemplo, celebra a igualdade e a liberdade irrestrita. Mas Cronos foi atado a Hélio por grilhões de aço. Assim, Cronos representa tanto a longevidade (da idade do Ouro) quanto o sofrimento (do tempo que ceifa). 


A longevidade é parceira do sofrimento. Tudo o que vive, enquanto vive, pode sofrer. Choramos ao nascer, sentimos dor ao envelhecer, ficamos doentes e morremos. Tudo o que se experimenta entre o nascimento e a morte faz parte do tempo, e Cronos sabe o tempo certo de cada coisa. Quando ele ceifa algo, ele pega essa colheita e distribui, seja na mesma vida ou na próxima. Essa distribuição faz parte da igualdade que experimentamos na Krónia, onde escravo e senhor celebram juntos. 

Cronos ensina o desapego e a resignação. Só nos libertamos do sofrimento quanto passamos pelo próprio sofrimento e aprendemos com ele. Só ficamos vacinados contra um vírus quando injetam um projeto de vírus antes na gente. No combate direto é que ficamos imunes. Esse desapego não é só das coisas materiais externas, mas também do nosso próprio corpo. Sofremos para nos desapegar, para percebemos que tudo no mundo é efêmero, e nos libertarmos. Cronos nos ensina a saber renunciar e a morrer para o mundo, só assim nos aproximamos de como se vivia na Idade do Ouro e se tem a longevidade do espírito, da alma, da mente, da consciência, enquanto o físico muda e perece.

Por isso que na Krónia costumamos pedir que Ele nos mostre uma forma de liberdade (seja financeira, de relacionamento, ou em que outra área for) e que nos ajude a sair das adversidades. Não é por carregar a foice que podemos comparar Cronos com a figura da Morte de uma forma negativa, e tomá-lo como alguém a ser temido, com quem não deveríamos mexer. Mesmo os Titãs têm suas funções necessárias à manutenção dos planos dos Destinos e à realização do daimon de cada ser humano. 

Então, um bom festival da Krónia a todos!
 

março 21, 2011

Pandia




Neste pôr-do-sol, além de termos o último dia da Dionísia Urbana, teremos o festival helênico da Pandia, quando honra-se Zeus Pandios (brilhante deus dos céus) e sua filha com Selene (a lua cheia), chamada Pandias ou Pandeia ("Toda-Divina" ou "Toda-Brilhante"). O festival político da Pandia foi estabelecido pelo rei de Atenas, Pandion, mas apenas um demos de Atenas, o Plótheia, o celebrava. O curioso é que encontrei algo mais sobre ele justo em um livro sobre Dionísio em sua relação com a Índia, onde "Pandia" é também o nome de uma dinastia vinda da Lua:

"Segundo o mito cretense, Lampros, esposo de Galatéia, cujos filhos eram bissexuais, era ele mesmo filho de Pandion, descendente das dinastias do Sol e da Lua. O festival ático do Pandia era celebrado com a lua cheia. O festival, cujo nome advinha de Pandion, epônimo da tribo de Pandionis, era em honra a Zeus." (R.F. Willets, Cretan Cults and Festivals, p.178)
Deve-se observar que Pandia é o nome de uma dinastia dravidiana oriunda da Lua que, desde tempos imemoriais, reinou na Índia e que também é mencionada no grande poema épico tâmul, o Shilappadikaram. Os pandavas, filhos de Pandu (o branco), eram membros da dinastia que se opôs aos arianos na guerra do Maabárata.
(Alain Daniélou, Shiva e Dioniso - 'A Religião da Natureza e do Eros', p.30)
Para quem não lembra ou não leu o Mahabharata hindu, os Pandavas lutavam contra os Kauravas, o que muitos estudiosos interpretam simbolicamente como as virtudes enfrentando os vícios. Outros dirão que os Pandavas representam o Dharma - o caminho da justiça, que se parece com a realização do nosso daimon - e os Kauravas sendo o Adharma - tudo aquilo que impede os humanos de alcançar o divino, o sagrado.

Nós podemos pensar nessa união do Sol com a Lua como uma união de opostos que traz o equilíbrio. As virtudes, para os gregos, eram exatamente esse meio termo entre dois vícios. Por exemplo, a virtude da paciência seria o equilíbrio entre o extremo do "pavio-curto" e o extremo da leniência (quando se permite/aceita tudo), os quais seriam vícios. Por conta disso, há muito mais vícios do que virtudes, assim como no Mahabharata encontramos cem Kauravas para apenas cinco Pandavas. Também podemos pensar que as virtudes nos aproximam dos deuses, da Toda-Divina, enquanto os vícios vão nos impossibilitando de alcançar esse divino.

Fica, então, a sugestão para - durante tal festival - refletirmos sobre como vencermos nossos vícios e nos aproximarmos do sagrado.

janeiro 02, 2011

Ano Novo Civil

Perguntaram-me sobre a Heracléia - que é sugerida na virada secular de ano novo - e resolvi dar mais informações aqui no blog para quem tiver a mesma dúvida.

Apesar de não ter existido na Antiguidade um festival a Héracles Triesperos no solstício de inverno (vide "triesperon: season festive that was never a festive"), essa Herakleia de final de ano é um festival moderno que também se baseia na mitologia, como foi o festival da Heliogenna cujos mitos foram explicados anteriormente AQUI. E o relato é o seguinte:

A família de Héracles vem de Argos, já que Alcmena é filha do rei micênico Electrion, filho de Perseu e Andrômeda, que também geraram Alcedes, pai de Anfitrião. Alcmena se casou com esse seu primo Anfitrião. Eles foram forçados a fugir da cidade porque Anfitrião matou o cunhado dele, então foram parar em Tebas. Ali, Zeus veio à terra e se relacionou com Alcmena. Algumas versões dizem que foi em forma de neve dourada, outras que foi na forma de Anfitrião (o qual tinha viajado para a guerra), fingindo ser ele. Zeus ficou com Alcmena por três noites inteiras, daí Triesperos ('tria speros' = três noites). No mito, Zeus diz ao deus solar Hélio para desatrelar sua carruagem por um dia, fazendo o mundo ficar na escuridão por 24 horas a mais, assim Zeus pôde prolongar seu romance por uma noite de 36 horas.

Assim, celebra-se o retorno do sol, trazendo felicidade a todos.

Nessa época algumas pessoas preferem celebrar os Doze Dias Dionisíacos (como estou fazendo), outras escolhem a virada de ano para celebrar Hécate - das encruzilhadas e abertura de caminhos, e outro ainda me disse que iria celebrar Apolo, deus solar.

De qualquer forma, seja como for que você entrou 2011...

Αγαθή Τύχη, Αγάπη, Ειρήνη και Ευτυχισμένος ο Καινούργιος Χρόνος!
(Boa Fortuna, Amor, Paz e Feliz Ano Novo!)

junho 29, 2010

Dipolieia/Bouphonia

Este domingo escolhi celebrar a Dipolieia/Bouphonia assistindo a uma apresentação de Boi (Bumbá) numa festa junina. Por quê? Bem, vamos ver o sentido:
DIPOLIEIA ("ao deus da cidade"): Festival em honra a Zeus Polieus (di - a zeus, polis - cidade). BOUPHONIA ("matança do boi"): Neste dia (parte do Dipolieia), algumas garotas buscam água para usar em ferramentas afiadas. Os afiadores afiam um machado com cabo e uma faca de açougueiro. Vários arados de boi são arrebanhados pelo pasto até um altar, onde cevada e trigo foram colocados. O primeiro boi que for ao altar está "consentindo" em ser sacrificado. Um homem mata o boi com o machado e outro corta sua garganta com a faca. Ambos soltam suas ferramentas e fogem. Depois o boi é retalhado e preparado para o banquete. Seu couro é estufado com palha e costurado, de forma que pareça vivo. Um julgamento então começa para determinar quem é o culpado pela morte do boi. As primeiras apontadas são as carregadoras de água. Elas culpam os afiadores, que, por sua vez, culpam os sacrificadores. Finalmente, os sacrificadores culpam o machado e a faca, que são declarados culpados e jogados ao mar. (O tema para refletir nesse festival parece ser o ato da reparação - alguém tem que pagar pelo que acontece - e de como nos livrarmos da culpa).

BUMBA-MEU-BOI: A origem dessa festa seria uma mistura, nas fazendas, de tradições africanas (como a do boi geroa) com européias (como as touradas) e alguns elementos indígenas. O enredo básico é o seguinte: um rico fazendeiro possui um boi muito bonito, que inclusive sabe dançar. Pai Chico, um trabalhador da fazenda, rouba o boi para satisfazer sua mulher Catirina (ou Catarina), que está grávida e sente uma forte vontade de comer a língua daquele boi. Os caboclos, junto com os índios e índias, procuram entre os vaqueiros quem fez isso, descobrem e prendem Chico. Quando o fazendeiro encontra o boi, ele está doente (ou morto). Os pajés curam a doença do boi (ou o ressuscitam) e descobrem a real intenção de Pai Chico. O fazendeiro o perdoa e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.
RELAÇÃO: Como a Dipolieia caiu em junho (ela costuma cair entre o final de junho e começo de julho) e aqui tem várias apresentações de Boi nessa época, sinto que é inevitável pensar na semelhança por termos a questão de um boi sendo morto e vários personagens procurando um culpado (fuga e julgamento) que é, por fim, redimido da sua culpa; fora a parte em que tentavam fazer parecer que o boi está vivo e, no mito mais atual, ele realmente ressuscitar. Além disso, o Pai Chico usa um facão nas danças, que me lembra a faca afiada do Bouphonia, e tanto a língua (no Bumba-boi) quanto a garganta (no Bouphonia) são partes da boca.

[ Nota: Curiosamente, sem saber qual grupo iria se apresentar naquele horário, assisti ao Boi de Teodoro, sendo que Teodoro vem do grego, "presente de deus", embora não tenha sido esse o motivo do nome do grupo que ali estava (que o batizou pelo seu fundador). Além disso, eles eram de Brasília, onde fui criada. Para mim, tudo foi um sinal, ou melhor, um aval.
Nota 2: Aliás, se formos mais longe, veremos que essas cerimônias com a ressurreição de um boi começaram no Egito, no culto a Ápis, no Nilo.
]

A lenda "demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força de um boi" (wikipedia). É uma festa que acontece no país inteiro, só muda o nome:
"...no Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí é chamado bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é boi-bumbá ou pavulagem; em Pernambuco é boi-calemba ou bumbá; no Ceará é boi-de-reis, boi-surubim e boi-zumbi; na Bahia é boi-janeiro, boi-estrela-do-mar, dromedário e mulinha-de-ouro; no Paraná, em Santa Catarina, é boi-de-mourão ou boi-de-mamão; em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé é bumba ou folguedo-do-boi; no Espírito Santo é boi-de-reis; no Rio Grande do Sul é bumba, boizinho, ou boi-mamão; em São Paulo é boi-de-jacá e dança-do-boi."

Então, onde quer que você more, fica a sugestão de alternativa para a sua celebração da Bouphonia na Dipolieia dos próximos anos.

junho 23, 2010

Skirophoria

Sexta-feira teremos o seguinte festival:
O Skirophoria (também conhecido como Skira) ocorre na época do corte e debulhamento do grão. A Sacerdotisa de Atena, o Sacerdote de Poseidon e o Sacerdote de Hélio vão para o Skiron, um lugar sagrado para Deméter, Koré, Atena Skiras e Poseidon Pater, pois lá foi onde Atenas e Elêusis se reconciliaram. Atena e Poseidon representam a vida da cidade, e Deméter e Koré representam a agricultura; Hélio testemunha Seus juramentos (como Ele testemunhou o rapto de Koré). O Skiron é onde, de acordo com a tradição, a primeira semeadura aconteceu. Um grande e branco dossel (chamado de skiron) é carregado sobre as cabeças dos sacerdotes e sacerdotisas durante a procissão. É um escudo que simboliza a proteção dos campos, fazendas e pessoas do calor escaldante, evitando a queimada e a seca. A Skirophoria é celebrada principalmente por mulheres (enquanto os homens dominam a Cidade Dionísia - ver mês de Elaphebolion). Para trazer fertilidade, elas se abstém do intercurso neste dia, e para este fim elas comem alho para manter os homens afastados. Elas também jogam ofertas dentro das megara - cavernas sagradas de Deméter: bolos em forma de cobra, falos e leitõezinhos. (Eles se tornam os Thesmoi - coisas deitadas ao chão - que são removidas na Thesmophoria, no mês de Pyanepsion). Essa cerimônia relembra o guardador de porcos Eubouleus que foi engolido/tragado com seus porcos quando Perséfone foi raptada para dentro do submundo por Hades. Os homens têm uma corrida na qual eles carregam ramos de videira do santuário de Dionísio até o templo de Atena em Skiras. O vencedor ganha a Pentaploa (Taça Quíntupla), contendo vinho, mel, queijo, algum milho e óleo de oliva. Só a ele é permitido compartilhar essa bebida com a Deusa, para quem uma libação é vertida para que Ela abençoe esses frutos da estação.
http://sites.google.com/site/helenismo/Home/festivais/skirophorion-loios
Como podemos celebrar hoje?

Na rua: se você morar na cidade, visite o campo. Se morar no campo, visite a cidade. Torne isso uma espécie de descoberta e apreciação do novo. Leve algo branco para Atena, azul para Poseidon, verde para Deméter, vermelho para Perséfone e dourado para Hélio. Se houver cinco pessoas, cada uma pode estar usando essas cores. Os homens podem fazer uma corrida levando ramos de videira.

Em casa: Faça dois altares ou divida o altar em uma parte rural (com marrom/verde) para Deméter e Koré e outra parte urbana (com cinza) para Atena e Poseidon, decorando-os com suas ofertas votivas e imagens que tiver associadas a essas deidades. Entre as duas partes, coloque algo dourado que represente Hélio e, diante desse centro, uma tigela contendo o Pentaploa: uma mistura de vinho, mel, queijo, grãos e azeite. Se possível, faça um dossel branco por cima de tudo.

Rito: Primeiro dirija suas preces e ofertas para Atena, em agradecimento por as pessoas da cidade terem a oportunidade de se alimentar dos frutos do campo. Depois dirija-as a Poseidon, agradecendo os frutos do mar que nos alimentam sem pedir quase nada em troca. Volte-se então para Deméter, comprometendo-se a manter a terra limpa para termos abundância em sua honra e que ela nos conceda uma divisão justa de seus frutos. Em seguida, agradeça a Perséfone por guardar os pensamentos e a cultura, a memória e os mistérios. Peça a Hélio para testemunhar as intenções de que os deuses mencionados protejam uns aos outros, e que Eles e nós estejamos em harmonia trabalhando pela mesma causa. Verta libações do Pentaploa esperando bênçãos de Atena aos frutos da estação e ofereça os Thesmoi (bolos em forma de cobra, falos, porcos) para Deméter. Conclua o ritual como estiver acostumado/a.

junho 09, 2010

Kallynteria e Plynteria

- imagem: detalhe de estátua em Corinto: coruja na mão de Atena -
Esta semana tivemos os festivais da Kallynteria e da Plynteria, ambos em honra a Atena.

No primeiro, que é o festival da varredura, fiz apenas uma limpeza nas ofertas votivas a ela e no altar onde elas ficam, acendendo um incenso em seguida.

No segundo, acordei pensando em como eu iria fazer para arrumar tempo para ofertar-lhe figo na praia, porque antigamente se ofertava doce de figo no litoral onde a estátua da deusa era banhada e recebia um novo vestido. Esse era também um dia 'desafortunado' pelo fato de a estátua estar fora da cidade, produzindo uma ruptura na ordem das coisas. (Quem quiser saber mais sobre ambos festivais, clique AQUI.)

Enfim, eu teria um dia cheio, mas teria que dar um jeito. E Atena providenciou esse jeito para mim.

Pois bem, fui para a minha obrigação matinal e qual não foi a minha surpresa ao perceber que terminamos tudo às 9 horas da manhã e não às 11:50 como de costume! Consegui tempo para ir ao supermercado atrás dos figos, os quais só achei enlatado e em calda, o que me fez ter que comprar um abridor de latas para não ter que voltar em casa e pegar um. Chegando na avenida, estacionei, abri a lata e a levei para uma escadaria onde costumava haver uma espécie de 'templo', umas colunas gregas que hoje estão cobertas de vegetação. No meio dessas plantas, um caminho de areia até a praia e ao mar. Foi ali na escadinha mesmo que pronunciei o "lambane anathema mou" (aceite minha oferta) enquanto entregava-lhe o doce, o qual melou um pouco minha mão e eu provei, estava bem gostoso, embora eu nunca tenha sido fã confessa de figos.

Já à noite, sozinha em casa, fui concluir meu ritual, fazendo uma mini-procissão pelos cômodos com o incenso aceso no incensário (a começar da frente da imagem de Atena que está na porta do meu armário), e tentando me lembrar de algo que fosse semelhante ao que se espera que digamos, que seria mais ou menos assim:

Hoje relembramos o festival no qual a estátua da deusa Atena era levada de seu santuário para ser banhada e receber um novo vestido. É um dia em que o véu entre os mundos fica mais tênue, não sendo um tempo propício para se honrar os mortos e sim para agradar os espíritos malignos que possam estar por perto agora que Atena se ausentou da cidade para ser lavada. É pelo exercício da Xenia (hospitalidade) que começamos a nos proteger de tais espíritos.

Usamos a água lustral esperando que a sabedoria flua como água dentro de nós. Acendemos o fogo sagrado, esperando que seu poder queime dentro de nós. Que a oliveira sagrada cresça também dentro de nós. Que, ao nos purificarmos, afastemos - de nós e deste lugar - todo o mal.

Titãs, deuses primordiais, respeitamos suas forças e prestamos-lhes nossas honras. Éris, deusa da discórdia, respeitamos seu poder de destruir o que não se mantém firme e prestamos-lhe nossas honras. E todos os outros que possuem uma poderosa lei ou que presidem questões de justiça, respeitamos vosso poder e prestamos-lhe nossas honras para que não nos causem problemas. Aceitem estas ofertas e não cruzem nossas fronteiras.

Ninfas, sátiros, mênades, dríades, naiades, oceânides e outros daimones da natureza, pedimos a vossa proteção e cuidado enquanto Atena está fora. Deuses e deusas, observem-nos enquanto executamos os ritos sagrados para Atena e não deixem o mal chegar até nós.

Agradecemos aos Destinos por nos trazerem até este dia e esperamos que teçam um belo futuro para nós. Agradecemos a Zeus por suas bênçãos e esperamos por seus favores futuros. Agradecemos a Gaia, mãe de tudo, a mais antiga, que nutre a terra e tudo o que há nela.

Atena, que, com a fumaça deste incenso, nossas preces subam a ti nas asas das corujas e nas vozes do vento. Aceite-as e abra os nossos corações às tuas bênçãos!

Prometemos trabalhar com nossos amigos para honrar os deuses, buscando a verdade (aletheia), a virtude (areté), a justiça (dikê) e a sabedoria (sofia), com alegria em nossas almas, desejando que os deuses nos abençõem a fim de que nos tornemos mais fortes e alertas às necessidades uns dos outros.

Athena, kharin echomen soi. / Atena, nós te agradecemos
Daimoni, kharin echomen hymin. / Espíritos, vos agradecemos.
Panes theon, kharin echomen hymin. / Todos os deuses, vos agradecemos.

Fizemos como nossos ancestrais nos ensinaram e como esperamos que nossos filhos um dia façam, para que os deuses nos sejam favoráveis!

Ésto! (Assim seja!)

E o seu dia, como foi?

março 15, 2010

grão de outono é semente de primavera


Às vezes as pessoas acham que seguimos o calendário ao contrário, por estarmos no hemisfério sul. Mas pense como ele também faz sentido pra gente! Nas próximas duas semanas, as últimas de março, teremos a Elaphebolia de Ártemis, a Asclepieia e a Dionísia Urbana, com o outono chegando.

Outono...

Vem Dionísio, fornecedor da vinha, portador do tirso, enriquecendo-nos de frutos deliciosos, sementes de êxtase, brotos de liberdade; trazendo o mistério atrás das máscaras, o primeiro beijo que aquecerá o inverno, a fantasia em meio a colheita...

Vem Ártemis, caçadora, da lua crescente, que cuida da juventude, com toda a graça das folhas que caem e não das flores que nascem (como seria com Perséfone); é o momento da colheita das frutas, e Ártemis é deusa do nascimento, trazendo nova vida ao mundo; a Kourotrophos, que era procurada junto a Asclépio ao se pedir por um bom parto...

As cores do outono em muito combinam com as da lua crescente.
Os grãos do outono são as sementes da primavera.
A vida é algo que nunca morre, apenas se reencena - como o deus do teatro, renascido duas vezes - e uma coisa completa a outra.

Nas raízes, nos ventres, nas sombras, tudo onde só vemos o escuro e o escondido, no fundo está repleto de vida, uma vida que se prepara para nascer.
É fechando os olhos físicos que costumamos enxergar mais além.

E era assim que Asclépio curava, durante o sono, no sonho, na companhia da serpente - tão ctônica. Com ele, espera-nos alguém para nos acompanhar. Alguém que depois descobrimos ser nós mesmos. Nosso outro lado, quiçá o de dentro; aquele sábio que completa o tolo, e que se libera de sua racionalidade para vir dançar conosco nas sombras, na luz, na chuva. E ele traz a solução para os nossos males da alma e enfermidades do corpo.

Como um serpentino de Asclépio, o corpo entra na dança e o espírito entra em transe. Das árvores caem as folhas, mas da terra se erguem as forças de renovação.

Se eu sigo a pólis ou o equinócio, é o de menos. O que eu sigo mesmo é o movimento dos deuses...

dezembro 25, 2009

Os mitos da Heliogenna

Nos dias que envolvem o solstício do final de ano (inverno para a Grécia e verão para o Brasil), há a celebração moderna da Heliogenna, sugerida inicialmente para 9 dias, mas também adaptada para 3, 2 ou 1 dias. A explicação do festival você pode ler lá no site, clicando AQUI. Mas o que eu gostaria de falar nesta postagem é sobre os mitos.

Vendo o que se celebra, percebemos principalmente Hélio, Faetonte, Selene, Éos, Hécate, Hades e Perséfone. Então embora a ligação entre Hélio (sol), seu filho Faetonte (brilhante), Selene (lua) e Éos (aurora) seja mais óbvia, algumas pessoas poderiam perguntar o que os demais têm a ver com eles. Hécate, a do toucado cintilante, talvez seja mais fácil, por ela ser uma das filhas da noite e deusa da lua, carregando uma tocha. Mas esses deuses também têm mitos em comum, que vamos já saber. Também vamos perceber que é curioso não termos Ártemis incluída na Heliogenna, mesmo ela sendo considerada uma deusa lunar e figurando nos mitos correspondentes. Embora, se incluíssemos Ártemis, tivéssemos que trazer o solar Apolo também. Provavelmente não fazemos isso por conta de ser um festival dirigido a deuses de gerações anteriores à geração deles.

Seguem os breves relatos:

Hélio-Hades-Perséfone-Hécate

Em certo sentido, o deus do submundo Hades ("o invisível, o que dá a invisibilidade") parece muito mais um reverso de Hélio ("o visível, o que torna visível") do que do deus celeste Zeus. Quando Hades raptou Core, que assim virou Perséfone, ela gritou por ajuda, mas ninguém ouviu, exceto Hécate, na sua caverna, e Hélio. Depois o eco de sua voz alcançou sua mãe Deméter. Por nove dias ela andou pela terra com duas tochas nas mãos, à procura da filha. Na terceira manhã, Hécate - também com uma tocha - lhe trouxe notícias, dizendo que ouviu o grito, mas não ouviu quem tinha sido. Deméter perguntou então a Hélio e este lhe disse o que aconteceu. Aí vem todo um enorme relato de Deméter deixando o Olimpo e punindo a terra com a ausência de colheitas, e Iambe e Metanira em sua estada em Eleusis etc, que não cabe agora, e sim em outro festival. Quando Perséfone reencontra sua mãe, elas ficam abraçadas e, em seguida, vem Hécate acolher Perséfone também, passando a ser companheira delas.

Hélio-Hécate-Perséfone

A mãe de Hélio, Téia, recebia presentes de ouro, como Perséfone. A esposa de Hélio, Perse ou Perseida (com quem teve quatro filhos), era um outro nome de Hécate, "deusa que brilha amplamente". Perséfone também poderia ser uma forma mais cerimoniosa de Perse. Outra amada do deus-sol era Neera, "a nova", ou seja, a lua nova, em sua fase mais escura. Com ela, Hélio teve duas filhas. Com Climene (também chamada de Merope, "a de face virada", referência ao eclipse), ele teve sete filhas e um filho, Faetonte.

Hélio-Faetonte

Faetonte era um jovem deus do sol que uma manhã subiu no carro do pai, ergueu-se alto demais e caiu, à semelhança da estrela-da-manhã que se levanta muito cedo e logo desaparece. Ele caiu no rio Erídano e, às suas margens, suas irmãs solares o prantearam. De suas lágrimas surgiu o âmbar.

Hélio-Selene-Hécate-(Ártemis)

Hélio era irmão de Selene e de Éos. O nome Selene está ligado à palavra "selas" (luz) e "mene" (feminino de "men", que significa lua, o mês lunar). Com Zeus ela teve Pândia, "a que brilha inteiramente, a inteiramente brilhante", referência à lua cheia. Selene e Hélio eram tão fraternais quanto Ártemis e Apolo, nunca se casando entre si. Aliás, Apolo e Ártemis tinham um epíteto de Hécaton e Hécate, respectivamente, o que nos liga de novo a Hécate, "a distante", embora ela seja uma das deusas mais próximas da humanidade - como a lua é mais próxima da terra do que os planetas. A história de Ártemis como deusa da lua crescente, fechando o trio Selene-Hécate-Ártemis, parece se dever mais ao fato de ela ter um arco, que lembra o crescente, e ser irmã do solar Apolo, já que isso não se aplicava à Ártemis Táuria, Arcadiana ou Efésia.

Hélio-Éos-Selene-(Ártemis)

Éos é a deusa da manhã, da aurora, a deusa do trono de ouro, e outro reverso feminino do sol, sendo uma irmã mais selvagem e turbulenta do que Selene, visto que as histórias de amor de Éos eram mais apaixonadas que as da própria deusa da lua. Dos jovens que ela amou, muitas vezes só se conhece o nome. Em uma das histórias, ela disputou Céfalo com a esposa dele, Prócris, uma heroína que tinha características lunares. Em uma ilha grega, contava-se que Céfalo se uniu a uma ursa, animal associado a Ártemis. Pode ser que Céfalo ("cabeça") seja a cabeça da constelação de Órion, outro amado por Ártemis e Éos.

[Consultas: livro "Os Deuses Gregos", de Karl Kerényi, e Theoi project.]

Espero que, além de fazer conhecer os mitos, isso auxilie as pessoas a não verem os deuses apenas como personificações (ainda mais tão diretas), como se houvesse apenas um deus para cada coisa no mundo ou que cada deus só regesse um único domínio da realidade...

setembro 08, 2009

Deméter, Dionísio, Perséfone

"Mas aquele que não for iniciado nos ritos, aquele que não tomar parte neles,
nunca terá uma fração desse tipo de coisas" [que o iniciado tem].
(Hino Homérico II, a Demeter, l.481)


Estamos em dias de Mistérios Maiores de Elêusis. Mistério e místico provavelmente vem da palavra myein (iniciar). Uma iniciação é um mistério no qual você entra de olhos fechados (por não saber o que ali vai acontecer) e sai de boca fechada (por não poder contar o que presenciou).

Apesar de nesse festival da Grécia Antiga a participação não ser exclusiva - você poderia ser homem, mulher, livre, escravo, grego, 'bárbaro' - e de haver liberdade de culto - você podia ser devoto de deuses estrangeiros que isso não era considerado heresia -, o fato de só quem passasse pelos Mistérios Menores pudessem virar mystai (iniciado) nos Maiores fazia com que seus membros se sentissem como uma espécie de elite espiritual. Diferentes classes sociais e culturas se igualavam nesse sentido, o que é muito semelhante a outras escolas de mistério e sociedades secretas das quais ouvimos falar.

Mas mistério é diferente de segredo, segredo é apenas algo que não se conta (ou deixa-se de ser segredo), enquanto que o mistério é preciso de experiência direta para conhecê-lo. Mesmo que você conviva com ele, não seria capaz de compreender se não o experimentasse.

Uma das poucas coisas que sabemos dos mistérios eleusinos é que eles tinham algo a ver com morte e ressurreição. Provavelmente o morrer para a vida material e renascer para a espiritual. Havia um momento em que se celebrava a continuidade da vida após a morte com os gritos de Ye (chuva) e Kye (nascimento), ou seja, "flua e conceba", "chove e traz frutos", a chuva fertilizando a terra, algo que morre para outro algo nascer (a nuvem se desfazendo e a semente brotando, ou a semente morrendo para a planta nascer).

Além de ser um festival para as Duas Deusas (Deméter e Perséfone), temos a participação de Dionísio - como não deixaria de ser, já que ele é bem a imagem de um deus do renascimento. E aí me vêm à cabeça algumas coisas que andei lendo sobre Ele. Nonnus menciona da relação de Dionísio com a lua, Selene, de como ela é capaz de deixar as pessoas enlouquecidas ("lunáticas") como fez com Pentheus (inimigo do deus), de uma forma que lembra o arrebatamento, o entusiasmo das mênades. Diz-se também que Selene tinha uma carruagem puxada por touros brancos, animal comumente relacionado a Dionísio. As manchas da lua, inclusive, poderiam ser cicatrizes em sua diadema, resultantes da sua batalha contra o gigante Tifeus.

Em tempo, entusiasmo vem do grego (pra variar, rsrsrs) enthusiasmós: en (em, dentro) thu (de theos = Deus) e mos (que indica substantivo), ou seja, o ato de ter um deus dentro de si, de ser tomada por um deus. Esse é outro mistério que só experimentando para entender. E, por isso, por não ter como exemplificar a sensação que é, não me resta mais nada a dizer aqui. Talvez só esperar que você já tenha se 'entusiasmado' para saber o que é, e celebrar "Dio" e as Duas "Deas" comigo...

"Então tu, dançante Baco, estenda teu tirso e olha para a tua descendência; e não precisarás temer uma raça de homens insignificantes, cuja mente é leve, cujas ameças os chicotes das Erínias repreendem forçosamente. Contigo atacarei teus inimigos. Igualmente com Baco eu governo a perturbada loucura. Eu sou a Mene de Baco, não apenas porque no céu eu viro os meses, mas porque eu comando a loucura e formo os lunáticos. Nunca deixarei impune a violência terrena contra ti." (Nonnus, "Dionysiaca" 44, traduzido do inglês por mim)

junho 27, 2009

Kronos was a headbanger

Uma vez escrevi aqui sobre o festival da Galaxia, citando como os Curetes inventaram a dança em armadura, com ritmo frígio e flautas; um barulho que distraía Cronos enquanto eles mantinham Zeus escondido. Nesse dia, a Iony me perguntou como seria o ritmo frígio e eu lhe expliquei. Mas desde lá fiquei pensando que outros podem ter a mesma dúvida e que poderia aproveitar para citar os modos gregos, dando exemplos de músicas atuais. Então, como só agora parei para organizar isso, vamos lá:

~ Exemplos de músicas com os modos gregos e quando utilizá-los ~

Modo Frígio: 'Wherever I May Roam' e a transição de 'Creeping Death' (Metallica), 'Trust' e 'Symphony of Destruction' (Megadeth), 'Hunter' (Björk), 'Remember Tomorrow' (Iron Maiden), 'Sullen Girl' (Fiona Apple), 'Phrygian Gates' (John Adams), 'Would?' (Alice in Chains), 'Calling to You' (Robert Plant), 'For the Love of God' (Steve Vai), 'Deeper Underground' (Jamiroquai), 'Not to Touch the Earth' (The Doors), 'Once' (Pearl Jam), 'In the Name of God' (Dream Theater), 'If U Seek Amy' (Britney Spears). --> Principalmente nos festivais e cultos ligados a Cibele/Réia. Tenho a impressão de que os cultos a Hermes poderiam ser colocados aqui também.

Modo Dórico: início de 'Wave' (Tom Jobim), 'Eleanor Rigby' (Beatles), 'Milestones' e 'So What' (Miles Davis), 'The End' (The Doors), 'Smoke on the water' (Deep Purple). --> Nos festivais pan-helênicos, como os jogos ístmicos em Corinto, os jogos de Neméia na Argólia, os jogos pítios em Delfos e nos Jogos Olímpicos. Também no culto a Deméter.

Modo Lídio: 'Answers' e 'The Riddle' (Steve Vai), início de 'Overture 1928' (Dream Theater), 'Freewill' (Rush), estrofes de 'Man on the Moon' (R.E.M.), 'Blue Jay Way' (The Beatles, mais especificamente como George Harrison tocou na Magical Mistery Tour), introdução de guitarra no 'Dancing Days' (Led Zeppelin), 'Flying in a Blue Dream' (Joe Satriani), 'Beyond the Boundaries' (Jimmy Cliff), 'Unravel' (Björk), 'Follow my way' (Chris Cornell), 'Arcane Lifeforce Mysteria' (Dimmu Borgir), 'Little Red Corvette' (Prince), 'Every Little Thing She Does is Magic' (The Police), 'All I Need' (Radiohead), maioria dos solos de guitarra das músicas mais recentes de Frank Zappa, tema dos Jetsons, início do tema dos Simpsons. --> Cultos a Baco/Dionísio, a Héracles, a Afrodite, a Ártemis, e os festivais de Tebas.

Modo Mixolídio: blues de tom maior, como 'Scuttle Buttin' e 'Pride and Joy' (Steve Ray Vaughan), 'Norwegian Wood' (Beatles), 'The Visitors' (ABBA), 'Satisfaction' (The Rolling Stones), 'Drinking in L.A.' (Bran Van 3000). --> Dizem que este modo foi inventado por Safo, então convém associá-lo a Afrodite e Eros.

Modo Eólio: 'Fear of the dark', 'Hallowed be thy name', 'Running Free' e 'Still Life' (Iron Maiden), 'Achilles Last Stand' (Led Zeppelin). --> Cultos a Apolo, Ártemis, Atena, Hefesto, festivais da Beócia, de Lesbos e de outras colônias gregas na Ásia menor. Odisseu esteve na ilha de Eólo, que lhe proveu com Zéfiro (vento oeste).

Modo Lócrio: primeira parte de 'Painkiller' (Judas Priest), 'Symptom of the Universe' (Black Sabbath), começo de 'YYZ' (Rush), parte principal de 'Painkiller' (Judas Priest), refrão de 'Our Truth' (Lacuna Coil). --> Culto a Perséfone e aos heróis da guerra de Tróia, festivais da Magna Grécia e de Amphissa.

Modo Jônio: 'Let It Be' (Beatles), primeira parte do 'Always With Me, Always With You' (Satriani). --> Culto a Zeus, Hera, Atena, e os demais festivais mais populares.

Agora você pode criar sua "playlist" para cada cerimônia.
;D

junho 17, 2009

Hare ~Evoé~ Krishna!

Trecho retirado de: "A ÍNDIA MUITO ALÉM DO INCENSO: um olhar sobre as origens, preceitos e práticas do vaishnavismo" – por Arilson Silva de Oliveira, Doutorando em História, em: Revista 'História em Reflexão'; Vol. 3 n. 5, Dourados, jan/jun 2009.

maio 27, 2009

Origem dos nomes dos meses

O ano romano no calendário de Rômulo começava em março. Março é uma homenagem a Marte, deus da guerra. Em seguida vinha Abril, relacionado a Apros/Afros, de Afrodite, nome grego de Vênus. Maio seria em homenagem a Maia (amada por Júpiter e mãe de Mercúrio) e Junho homenageia Juno (Hera, para os gregos). Depois vinham os meses Quintilis, Sextilis, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro.

Numa Pompílio quis igualar o calendário romano com o dos gregos e fenícios e reformulou-o, instituindo Janeiro (em homenagem ao deus Janus) e Fevereiro (Februarius), que vem do latim februus, adjetivo que significa "o que purifica, purificador". No mês de fevereiro, realizavam-se cerimônias de purificação, como sacrifícios expiatórios e os ritos de purificação chamados "lupercálias". Os meses Quintilis e Sextilis foram rebatizados homenageando os dois primeiros dos doze césares: Julho (Júlio César) e Agosto (Augusto). Por isso as festas de junho são juninas e as de julho são julianas (e não 'julinas' ou 'julhinas'). Para não dar mais importância a um dos dois césares, julho e agosto têm o mesmo número de dias. É por conta desse ajuste que se teve que tirar dois dias de fevereiro e, a cada quatro anos, lhe devolver um.

Abril

A relação de aprilis com aperire (abrir) surgiu posteriormente, na vigência do calendário de Numa Pompílio, por ser abril o mês da primavera, em que "todas as coisas se abrem". Originalmente, Abril vem de Aprilis, nome de um dos espíritos que seguiam o carro de Marte, deus da guerra, que deu nome ao mês de março. Portanto, Abril não se relaciona com o latino aperire, mas com o grego Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus, ou com o sânscrito áparah, que significa "posterior", aparentado com o gótico afar ou aftra, que significa "depois" (será que vem daí o inglês after?), pois abril era o segundo mês do ano no calendário de Rômulo (daí os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro para os meses sete, oito, nove e dez).

Lupercálias

As lupercálias eram festas em homenagem a Pã, realizadas no dia 15 de fevereiro, em que jovens saíam nus da gruta Lupercália flagelando os transeuntes com um cinto de pele de cabra chamado também lupercal , considerado capaz de eliminar a esterilidade e provocar partos felizes. O nome "Luperca" designa a loba que amamentou os gêmeos Rômulo e Remo na gruta chamada Lupercal. Na realidade, "lupus", lobo, em latim, primitivamente, não tinha feminino. A loba-animal era "lupus femina". "Lupa" designava a cortesã, daí o nome "lupanar" para designar o prostíbulo. A "lupa" que amamentou os gêmeos era, na verdade, uma cortesã chamada Aca Laurentia ou Laurentina. Os sacerdotes romanos é que "purificaram" (¬¬) a origem de Roma, atribuindo à loba-animal a amamentação dos gêmeos que fundaram a cidade.

Lupercal

Lupercus se teria originado da justaposição de lupus (lobo) com hircus (bode), mas, como era outro nome de Pã, deus dos pastores e dos rebanhos, presume-se que lupercus signifique também "o que afasta o lobo".

~ Adaptado da Revista 'Língua Portuguesa'. ~

abril 22, 2009

Dia da Terra

"...Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza

Terra para a mão carícia

Outros astros lhe são guia.


Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante

Quem jamais te esqueceria?

De onde nem tempo, nem espaço

Que a força mãe dê coragem

Pra gente te dar carinho

Durante toda a viagem..."

(Caetano Veloso)

Se o dia da Terra é hoje, ela é mesmo do elemento terra, pois 22 de abril é signo de touro.

Podemos tentar comemorar a data caminhando descalços na terra (pode ser na areia, na grama etc), saborear os alimentos que vêm dela conscientes do presente que nos dá, fazer um exercício brincando de passarmos de semente a árvore (encolhendo, crescendo, se enraizando, alimentado-se de seiva/energia), aproveitar esse tempo de chuva para sentir o aroma do solo molhado, enfim, tudo o que nos conecte com a natureza.


Como deidade, Geia/Gaia/Terra é ctônica e está associada principalmente a juramentos, poderes oraculares e aos mortos. Viemos dela e a ela voltamos. As cores do dia são mais escuras. Há uma sugestão de ritual com ofertas e links para os hinos antigos clicando AQUI.

Boa celebração!

abril 09, 2009

Dela, a 'Delia' (brilhante)...

A Ártemis, com incenso canforado:

A deusa da floresta se move silenciosamente em busca da caça. Seus pés se alternam como as fases da lua. Seu arco se curva como o crescente. Sua flecha tem a retidão de sua pureza. Arma em mãos, alvo em mente, cão ao lado; contra o vento, base firme, pulso seguro, ela atira. O universo silencia. Ele sente a ação da Senhora das Feras. Sua presença é bênção que cobre tudo de paz. Sinto o calor do sangue recém-colhido. Meu espírito se ergue ao cheiro de sua presa. Meu coração se acalma e me deito a seus pés. Ela me alimenta. Estou viva. E sou dela.

(Álex, 09/04/09, 00:44)

março 25, 2009

Neste pôr-do-sol

O festival de primavera chamado Galaxia tem a ver com Réia, o nascimento de Zeus e a dança dos Curetes.

Quando Réia pariu Zeus, o escondeu de Cronos numa caverna e o deixou aos cuidados dos Curetes (kouros = "juventude") e das ninfas Adrasteia e Ida, filhas de Melisseus ("homem do mel"). As ninfas o alimentaram com leite da cabra Amaltéia e as abelhas das montanhas lhe deram mel. Os Curetes inventaram a dança em armadura, com ritmo frígio e flautas. Esse barulho distraía Cronos, para manter Zeus escondido.

Há muitas evidências do nascimento e criação do deus até o dia de hoje na ilha de Creta. Por exemplo, quando ele foi levado pelos Curetes, dizem que o cordão umbilical (omphalos) caiu perto do rio conhecido como Triton, e aquele local se tornou sagrado e a planície ficou sendo chamada de Omphaleion. A caverna e os prados no monte Ida também continuaram sagrados a ele. Mas a relação mais impressionante é do mito das abelhas, que diz que Zeus mudou a cor delas do cobre para o dourado e, como a região tem muita altitude, com ventos fortes e neve, ele fez as abelhas insensíveis a essas coisas, incapazes de serem afetadas por elas, suportando o frio do inverno.

Por tudo isso celebramos a Galaxia (do grego γαλαξίας, galaksias, "via láctea") com leite e mel.

O 'mingau' de cevada ("poltos", uma pasta feita de leite com cevada) seria para Réia, a mãe de Zeus. A cevada era um cereal predominante na Ática, que se adaptava melhor ao clima dali do que o trigo. O trigo era melhor para fazer pão, com a cevada faziam mais era esse tipo de mingau. A cevada na Ática florescia entre o final de março e o meio de abril, no mês chamado de Galaxion, equivalente ao Elaphebolion de Delos. Ela é associada a Réia por ela ser uma mãe anterior a Deméter, a cevada sendo um 'pré-cereal' (anterior à cultura do trigo).

~ Imagens: o bebê Zeus com os Curetes. ~

março 11, 2009

Festival das Cores!


Hoje é dia de Hopi na Índia, o festival das cores, quando as pessoas jogam pós coloridos umas nas outras.

Há vários mitos relacionados a essa celebração. Um deles diz que foi Krishna que popularizou o festival ao pregar peças nas 'gopis' (pastoras de vacas). Krishna teria reclamado com sua mãe sobre o contraste de sua cor escura e a cor clara da sua consorte Radha. Por isso, as celebrações são na primavera, estação que celebra o amor.

O significado literal de "Holi" é "coisa do passado". Ele nos ensina que o que passou, passou. O que aconteceu antes? Esqueça. Se você foi elogiado, massa; se foi insultado, massa também, porque tudo já acabou.

E deixemos as cores espalharem a alegria!

Veja mais no site: http://www.holifestival.org

fevereiro 17, 2009

Anthesterion 20-26 (16-22 Fev. 2009)

Pouco sabemos dos Mistérios Menores de Eleusis, então, em vez de entrar em detalhes práticos de ritual, acho melhor falar do sentido e propósito de eles acontecerem.

Essa preparação para os Mistérios Maiores aborda os mistérios da alma em sujeição ao corpo, que é o que lhes dá essa característica de intimidade e obscuridade. Procura-se a felicidade da alma (neste mundo e no próximo), purificando-a através do desligamento da natureza material e a constante elevação a outros níveis de realidade. Nele, acontecem visões de caráter intelectual, espiritual e místico. O objetivo dos mistérios menores é de nos levar de volta aos princípios dos quais descendemos, desfrutando plenamente de um bem-estar intelectual e espiritual. Essas coisas nós descobrimos com Platão e com o pessoal do neoplatonismo.

O curioso é que aparentemente isso era feito não focando o ar (espírito e intelecto), mas a terra, a natureza, as deusas Réia (mãe dos deuses), Deméter (deusa da agricultura) e Perséfone (rainha do submundo). A terra aqui é vista como fonte de fertilidade - até pela aproximação da primavera no hemisfério norte -, de onde as coisas germinam, desabrocham, despertam, assim como acredito que devamos despertar para uma nova dimensão da realidade e desabrochar para certas visões. A semente fica na intimidade da terra, no escuro, antes de abrir-se e atingir o ar como planta. Portanto, nada de incongruente há em pensar num retorno à terra com vistas de elevação intelecto-espiritual.

Então, futuros Mystai (iniciados), Ye Kye (chuva e nascimento), vamos fluir e conceber!