janeiro 24, 2012

O voo da flecha (Apolo e o xamanismo)


Continuando o assunto da postagem sobre o êxtase apolíneo, e puxando o tema levantado pela Inês no blog Cerealia, quero trazer alguns trechos de Mircea Eliade no "História das crenças e das ideias religiosas", volume 1:
«Tem-se falado do "delírio pítico", mas nada indica os transes histéricos ou as "possessões" do tipo dionisíaco. Platão comparava o "delírio" (maneîsa) da pítia à inspiração poética das musas e ao arrebatamento amoroso de Afrodite. Segundo Plutarco: "O Deus contenta-se em colocar na pítia as visões e a luz que ilumina o futuro; é nisso que consiste o entusiasmo".»
Mais para frente, no texto:
«O "êxtase" apolíneo, embora provocado às vezes pela "inspiração" (isto é, a posse) pelo deus, não implicava contudo a comunhão efetuada no enthousiasmós dionisíaco. Os extáticos inspirados ou possuídos por Apolo eram conhecidos sobretudo por seus poderes catárticos e oraculares. (Em compensação, os iniciados nos mistérios de Dioniso, as bakkheia, jamais davam prova de poder profético.) Observou-se o caráter "xamânico" de certas personagens semimíticas, tidas como adoradoras por excelência de Apolo. O hiperbóreo Ábaris, sacerdote de Apolo, era dotado de poderes oraculares mágicos (por exemplo, a bilocação). Heródoto escreve que ele "passeou por toda a Terra e a sua famosa flecha sem tomar nenhum alimento", mas, desde Heráclito afirmava-se que Ábaris voava sobre uma flecha. Ora, a flecha, que desempenha determinado papel na mitologia e na religião dos citas, está presente nas cerimônias xamâncias siberianas; ela é igualmente a verdadeira arma de Apolo.»
E ainda:
«Walter Otto observava que a obtenção dos conhecimentos ocultos "está sempre associada a uma exaltação do espírito", e isso é verdadeiro mormente para o êxtase xamânico, o que explica a importância capital da música e da poesia em ambas as tradições. Os xamãs preparam seu transe cantando e tocando tambor; a mais antiga poesia épica centro-asiática e polinésia teve por modelo as aventuras dos xamãs em suas viagens extáticas. O principal atributo de Apolo é a lira; ao tocá-la, ele encanta os deuses, os animais selvagens e até as pedras.»
Eliade cita alguns personagens cujos mitos apresentam transes extáticos plausíveis de serem confundidos com a morte, bilocação, metamorfoses, descidas ao submundo etc, como: Arísteas de Proconeso, Hermotimo de Clazômenas, Epimênides de Creta, Pitágoras e Orfeu. Então vamos ver quem eram esses que ele mencionou...


Aristéas de Proconeso: Heródoto conta que o 'Ari' fez uma viagem durante a qual foi tido como morto - sumiu sem deixar rastros - e depois voltou, desaparecendo outra vez. Heródoto soube disso por meio dos citas, que souberam pelos issédones. Nos 3 livros "Arimaspea", escritos por Arísteas/Aristéas, os issedos contam sobre um povo fantástico (os arimaspos) que tinham um olho único na testa e viviam no extremo norte da Europa; os arismaspos contam sobre uns guardiões de ouro (os grifos); e os grifos contam sobre seus vizinhos (os hiperbóreos).

De Hermótimo de Clazómenas se dizia que sua alma abandonava o corpo para viajar livremente, e assim ficava por muito tempo antes de regressar. (Assim contavam Plutarco e Plínio, o Velho.) Os antigos diziam também que ele seria uma encarnação anterior de Pitágoras.

Sobre Epimênides alegavam também se dizia que ele podia viajar para fora do corpo e que tivera vidas passadas. Dizem que uma vez ele dormiu por 57 nos dentro de uma caverna.

De Pitágoras e Orfeu, acredito que nem preciso falar.

Um fato pessoal curioso é que, no sonho que tive com Apolo após tocar uma piton albina e lhe fazer uma prece (numa visita noturna ao zoológico de Belo Horizonte em plena lua cheia), ele estava vestido nos ombros com uma pele de animal peludo, numa época em que eu desconhecia sua relação com o xamanismo. Se à primeira vista pode nos parecer incompatível, quando pensamos melhor, faz muito sentido a relação racional do helenismo - dizem que Apolo é o "mais helênico dos deuses" - com uma prática extática como o xamanismo. Mesmo na época em que eu era assistente de xamã, era comum aparecerem deuses gregos nas minhas viagens ("exaltações do espírito", como disse Otto), embora o próprio Apolo só tenha me aparecido numa meditação durante uma aula de yoga, e não em uma viagem xamânica.

Para mim o xamanismo nunca foi uma "religião", e sim uma prática, que está presente em várias religiões. Assim como o reconstrucionismo também não é religião em si, mas uma abordagem, uma forma/maneira de se praticar uma religião politeísta antiga, seja helênica, celta, nórdica, egípcia etc. Por isso não existe uma incompatibilidade a ponto de se engessar em um ou outro sistema de crenças para não causar desequilíbrio. Se Apolo te conduz a uma catarse, um delírio, um transe, uma inspiração, um arrebatamento, um entusiasmo (palavra grega que significa 'ter um deus dentro'), reprimir-se com medo de estar extrapolando os limites da razão é negar um presente cheio de encantos e fechar os olhos a "as visões e a luz que ilumina o futuro".

dezembro 24, 2011

Um êxtase interior

No solstício de inverno do hemisfério norte, quando os dias são mais curtos e há menos luz, dizem que Apolo está na Hiperbórea e Dionísio fica em Delfos. É uma época em que precisamos refletir para aprender como manter a luz divina nos tempos mais escuros -- no mundo, na vida e na alma. 

Mesmo que você não siga o calendário da Hélade e queira sintonizar-se com o hemisfério sul onde mora, ainda assim temos um solstício, uma transição para uma estação onde luz e escuridão estão distribuídas de forma um tanto desigual no período de um dia. Nela, você não precisa regular seu ser interior a passar meio período ao sol das revelações e meio período ao escuro do mistério. Estar acordado é uma forma de consciência e sonhar é outra. Talvez você negue a existência de um outro estado de consciência, talvez você acredite mas coloque um como hierarquicamente superior ao outro, porém, ainda assim te digo que essa separação só está nas nossas cabeças. Nós não existimos separadamente nem do mundo físico nem do espiritual, participamos dos dois, e nossa liberdade/libertação acontece nos dois níveis. Assim como acaba não havendo muita diferença se neste fim de ano você celebra Dionísio ou Apolo.
"As bênçãos de ambos nos ajuda a entender como sermos plenamente nós mesmos, abrindo os olhos à nossa verdadeira natureza e com nossos corações livres de limitações. Desta forma, podemos atingir a 'areté'; podemos encontrar iluminação/esclarecimento." (Jess, da Hellenion, tradução minha)
Ambos os deuses te levam a um estado de consciência que poderíamos entender como o êxtase (o "ekstasis" dos gregos era quando a alma voava para fora do corpo). Só que o êxtase de Apolo é diferente do de Dionísio. Já mencionei aqui no blog sobre o êxtase do tipo dionisíaco (clique AQUI para ler), então agora vou falar do apolíneo.

Não há nada de selvagem ou perturbador no êxtase apolíneo. Este era intensamente particular, relacionado apenas ao individual (quase um "íns-tase" em vez de êxtase, rs). E acontece em tal silêncio, tranquilidade, imobilidade, que a pessoa do lado pode nem percebê-lo ou poderia até confundi-lo com alguma outra coisa. Mas é nessa calmaria que reside uma liberdade completa em um nível totalmente distinto. Nesse outro nível, a inexistência do espaço-e-tempo é simplesmente um fato, e acreditar ou duvidar disso não faz diferença. Esse é um estado em que se consegue entrar seja dormindo ou acordado, seja de olhos fechados ou abertos. É como estar acordado sem o estar e é como estar dormindo sem o estar também, é alguma coisa intermediária, para a qual não se incomodaram de encontrar um nome, porque todos sempre estiveram mais interessados na experiência do que na sua definição. É mais fácil falar o que ele não é do que o que ele é. Dizer que é um transe, um estado cataléptico, uma incubação, uma suspensão da mente, seria apenas atirar no escuro, pois esses são termos que falam mais do corpo físico do que do estado em si. A teoria não acompanhou a prática neste caso.
"Quem olhar para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda." (Carl Jung, psiquiatra)
"Sonhar é acordar-se para dentro." (Mário Quintana, poeta)
Os sacerdotes "iatromantis" (oráculos-curandeiros) de Apolo eram mestres nesse estado de consciência e, por experimentarem esse tipo de liberdade, eram chamados pelo que conhecemos em inglês de "skywalker", um caminhante do céu, termo que aparece igualzinho no oriente, em lugares como o Tibet e a Mongólia. Os antigos relatos gregos dizem que os iatromantis viajavam a longas distâncias para o norte e leste da Grécia, passando por áreas habitadas por tribos iranianas de cultura xamânica, assim como pela Sibéria e Ásia Central. Nessas horas pensamos como no fundo não existe diferença entre ocidente e oriente. Talvez por isso - e não apenas por morar perto do Equador - eu também não veja tanta diferença entre norte e sul. Acho até que na antiguidade se viajava a longas distâncias muito mais do que hoje, quando temos avião mas que já trouxemos todas as facilidades para perto a fim de não precisarmos viajar no mesmo.

Provavelmente você já deve estar visualizando o que você conhece de parecido com esse êxtase apolíneo, essa unidade indivisível que lemos em relatos e vemos em práticas paralelas - como as dos xamãs, as dos iogues, e outras. Isso é mais do que uma simples coincidência. O que era desenvolvido no oriente, era formalizado no ocidente. E o que era formal no oriente, era um mistério no ocidente. O estado intermediário entre se estar sonhando e acordado tinha seus próprios nomes em cada cultura.

Então, neste momento do ano, quer celebrando Dionísio ou Apolo, espero que, no seu êxtase, sua alma encontre o que precisa -- que pode não ser o que ela procurava, mas que vai ser mais curativo e pleno ainda se você deixar que os deuses te conduzam nesse voo (agora estranhamente sem acento), o qual é muito menos solo do que você imagina.

dezembro 09, 2011

o incômodo temporário e a busca permanente

Acredito que o conhecer-se a si mesmo inclui um processo de cura, um tratamento. O problema é como as pessoas entendem a cura. Para a maioria, o sentido é paliativo: se eu não sinto mais dor, estou curado; se estou confortável e me sinto protegido, é porque estou bem. Anestesiar-se da dor não resolve o problema que a causa. Apenas nos faz ficar pulando da tristeza à melancolia, da revolta ao desânimo. E o curioso é que normalmente aquilo do qual queremos nos livrar é o que vai nos curar, se aguentarmos o incômodo que ele traz em vez de nos entregarmos à depressão.

Se você chegou a um momento desses, quando não sabemos mais o que fazer, passe a pensar que você tem sorte! É chegando nas encruzilhadas que podemos perceber que todos os caminhos que tomarmos levam pro mesmo canto. Para algo que está lá fora. O que muda de verdade é o que você descobre dentro de si (e que provavelmente andou procurando no lugar errado). Quem não tem sorte, só chega numa encruzilhada dessas quando está perto da morte. Então, quem quiser crescer e se conhecer, vai precisar vislumbrar a morte antes do dia de morrer de fato. Vai ter que descobrir como fazer para se esgueirar por trás das cortinas e desaparecer misteriosamente do palco. É lá nos bastidores que tiramos a máscara e nos olhamos no espelho.

Na nossa cultura, se ensina o oposto: a aparecer. Todo mundo quer estar sendo olhado pelos outros, sem tempo para olhar para si, porque sente a necessidade de atrair a atenção e atender aos apelos do externo. Aí fica sentindo falta de algo e começa a procurar terapias orientais. Nada contra, mas não precisa ir tão longe. Nós somos do ocidente. Quando mais formos pro outro lado, mais estaremos nos separando e nos sentindo meio fora d'água. Viramos andarilhos sem pátria - o que às vezes acaba acrescentando mais um problema (o da falta de pertencimento) à nossa já difícil arte de se encontrar.

O espiritual é renegado às margens do social, é identificado com a Índia e o Tibet e a se isolar numa montanha e companhia, quando na verdade a raiz da civilização ocidental já é extremamente espiritual! Não havia separação. Tanto que não existia um equivalente grego para a palavra "religião". Vernant dizia que a religião grega era mais "uma prática, uma maneira de comportamento e uma atitude interna, do que um sistema de crenças e dogmas" (Myth and Society in Ancient Greece, 1980). Também por isso, não se fazia parte de uma "igreja", mas de um 'dēmos'; nem existia um "padre" para agir como intermediário, e sim um "sacerdote" ('hiereus', o que lida com os 'hiera' - os objetos sagrados guardados no templo).

Buscar remédios anestésicos/analgésicos (práticas alternativas de fim-de-semana) não vai resolver a causa da dor. Você toma um remédio, se sente bem melhor, mas um dia o efeito passa e você vai precisar tomá-lo de novo. O analgésico alivia a dor, não livra da dor. E a causa da dor está nessa separação. Está nesse colocar cada cubículo num quadrado fechado e distante um do outro, deixando a religião para aquele culto semanal em vez de incluí-la no seu dia-a-dia.

É como falarmos de economia (οἶκος + νόμος). Você consegue viver sem produzir, distribuir, consumir, seguir costumes, gerir um lar, administrar bens e serviços? Independente de você ser capitalista, socialista, comunista, libertário etc; tudo isso faz parte da sua vida, como o sagrado deveria fazer.

Ou, para ser mais grego, é como falarmos de política (πολιτεία, da pólis), da cidade onde moramos o tempo todo. Só que política hoje ganhou um sentido tão pejorativo e centralizado que as pessoas não conseguem se visualizar como seres políticos. E, mesmo com crise econômica por aí, penso que posso usar a economia como exemplo de algo com o qual não deixamos de nos envolver, direta ou indiretamente.

Nesse sentido, precisamos deixar de ser só estudiosos dos antigos, e tornarmo-nos mais semelhantes aos bons helenos, aos que verdadeiramente procuravam seguir a máxima do "conhece-te a ti mesmo", custasse a dor que custasse. Porque é por aí que a frase vai se completar: "e conhecerás o universo e os deuses". Quando a gente sabe explicar as coisas, elas deixam de nos incomodar. Começamos a entender a razão de elas serem assim. Sentimo-nos em comunhão com o mundo e com o divino. E aí não vai ter como essa dor voltar... Só se for para ela própria nos curar.

outubro 30, 2011

Hera 'wins' - e um mundo de Zeus

Tendo umas coisas para falar sobre Hera e outras sobre Zeus, resolvi fazer uma "hierogamia" colocando ambos textos em uma postagem só. Vamos começar pelas damas:

HERA

No mundo moderno, as representações de Hera normalmente são de algo no estilo Endora de 'A Feiticeira', madastra-má de conto de fadas, os olhos malvados no céu do seriado de Hércules etc. Para essas pessoas que a imaginam assim, Hera seria uma espécie de megera vingativa que vive enfernizando as/os amantes do marido. Olha, para mim isso é um grande equívoco; não um mero "mistake", mas um "BIG FAIL" mesmo. E não é só pelo fato de Hera ter tanto mais trocentos atributos além de rainha e de deusa dos compromissos (sim, porque não é só do casamento, até as sociedades entrariam aí).



Quando compreendi Hera e depois acompanhei a novela 'Caminho das Índias', identifiquei prontamente algumas características da personagem da atriz Christiane Torloni (Melissa Cadore) com ela - ao menos nessa questão de administrar a relação familiar. Por quê? Porque, mesmo descobrindo que o marido tem uma amante, não é a ele que ela ataca (afinal, ela não quer permitir que uma qualquer prejudique seu casamento), mas sim à talzinha atrevida que se intrometeu no caminho interferindo sua paz. Ao mesmo tempo, ela deixa o marido saber que ela sabe de tudo e que é superior, faz com que ele perceba que não vale a pena perdê-la por outra que nunca será tão admirável quanto ela. Na novela, isso acontece no fato de ela dar uma surra na amante do marido (que inventa que apanhou porque reagiu a um assalto), pega a jóia que ele tinha dado para a amante e usa-a diante dele, que fica atônito ao reconhecer o presente da outra sendo exibido pela esposa. Sagaz. Mostrou quem manda. À maneira da natureza, que faz o macho que vence a luta corporal ganhar a fêmea, na inversão dos gêneros a amante não deu nem pro cheiro, e o macho em questão ficou com a fêmea vencedora. Não é preciso se rebaixar a uma vingança mesquinha. Basta demonstrar sua magnanimidade régia para punir a insolência da "mortal" que teve a petulante hybris de se achar boa o bastante para ser a consorte do rei/deus do pedaço. Agora sim, "BIG WIN".



Sou fã de Hera. E nem precisa ser "dia de rock, baby!".



ZEUS

Um dia desses, tive um sonho com um deus nórdico loiro de cabelos lisos compridos e nome complicado. Estávamos eu e meus amigos em um ônibus (que nos meus sonhos costuma ser a representação da parte social da minha vida), quando ele apareceu. Eu lhe perguntei o nome e a que deus se reportava, e ele respondeu 'Zeus'. Então perguntei-lhe como um deus nórdico seguia a Zeus, grego; e ele dizia que agora todos os panteões eram regidos por Zeus.

Antes que comecem a pensar que foi uma puxação de sardinha pro nosso lado, deixa eu explicar o que eu realmente interpretei disso aí, simbolicamente falando. Zeus, para mim (e o sonho era meu), estaria ali representando a ordem, com uma administração que - ao mesmo tempo centralizada - é baseada no conceito de uma imensa família que se conhece e se entende e permanece junta apesar dos pesares. Isso é uma coisa que o mundo andava e ainda anda precisando e que - aos trancos e barrancos - me parece que vem acontecendo. As distâncias se encurtaram, as pessoas se aproximaram mesmo que virtualmente, sujeitos e grupos com filosofias parecidas se uniram, forças de trabalho foram recrutadas mais facilmente em meio a redes onde uma ilibada vida pessoal 'online' pode refletir numa oportunidade profissional, e tudo isso independente da crença ou do panteão. Há uma ordem que é universal, para a qual todos caminham ou inconscientemente buscam caminhar. Aquele equilíbrio que a maioria procura, mesmo quando por vias de desagregação para remontagem de si.

Esse tipo de condução funciona para muitas coisas. E acredito que funciona para a minha vida e para o caso do nosso grupo de crenças. Mas, claro, só posso falar por esse lado, afinal era um sonho meu no mundo que eu conheço, e por isso outros terão todo o direito de pensar diferente e de funcionar de outra forma. O meu jeito é o de Zeus e o de Atena. E, pelo princípio da xenia (hospitalidade, amizade convidativa), receberei bem qualquer nórdico ou outro visitante (independente de ser lindo e louro) que quiser se apresentar.

outubro 13, 2011

Aprender e Compartilhar

Outro dia dei uma olhada na novela que está acabando, das sete. O que era padre e deu um tempo na batina para tentar namorar ficou amargurado e a sua amada preferiu vê-lo feliz e livre do que com ela. Eu me identifiquei com a conversa que eles tiveram, sobre ele sentir falta das preces, do silêncio, da penumbra da igreja, e até da solidão, e sobre ela sentir que a missão dele era algo maior que as coisas do mundo, que ele não foi feito para amar uma só pessoa, mas toda a humanidade. É difícil explicar isso pros outros, a maioria não acredita que fico mais feliz sem dividir minha devoção com um ser humano e deixar de ter tempo para todos os outros que precisam. Mas é assim mesmo. Os estóicos acreditavam que os professores não deveriam se casar (e não era questão de ser celibatário, mas de 'casar' mesmo), porque as obrigações domésticas tomariam muito do tempo deles. (Hoje a gente tem outras alternativas, as coisas estão mais automatizadas e acaba sendo uma questão de organização e prioridades.) De qualquer forma, quando você abre de verdade seu coração para essa totalidade, quando deixa de se sentir separado do resto, ao mesmo tempo em que você deixa de ter necessidade de estar sempre junto, você deixa de se sentir sozinho.

Já vi muitos casos de peregrinos que chegaram em centros religiosos (seja na Índia, em Compostela, numa tribo afastada etc) procurando se sentir unida àquelas pessoas porque "não há um grupo na minha cidade e eu queria ver como se faz", e o seu orientador (seja guru, seja sacerdote, xamã etc) dizer algo do tipo "se você praticar de coração, seja onde estiver, você estará praticando com todos nós". Portanto, não se sinta vazio porque está inseguro de não ter alguém olhando para ver se você fez certo. Não se sinta menor porque fez as coisas sem uma sequência ou porque seu rito foi muito rápido. Não pense que os deuses não compareceram, se aborreceram com a simplicidade da sua oferta e preferiram ir pro rito de outro 'banbanbam' qualquer do helenismo. Se Eles só pudessem estar em um lugar e momento por vez, não seriam lá muito dignos desse título de 'deuses', não?

A gente sempre vai encontrar dificuldades e dúvidas quando busca fazer as coisas de forma genuína. Quando elas surgirem, não transforme-as em pedras que atravancam seu caminho como se fossem desculpas para não tentar de novo. Não seja orgulhoso demais em admitir as próprias falhas, mas procure entender quais foram, escute-as como se estivesse ouvindo algo de um professor de verdade (porque no fundo está). Não existe um tempo fixo para dizer "daqui a dois anos eu vou entender completamente disso". Em qualquer momento a gente pode fazer besteira. A questão é aceitar e acreditar que aquilo pode ser um presente para nos transformar e nos fazer acordar para algumas coisas que antes não enxergávamos. Não fique confuso com as curvas sinuosas do caminho, pense nelas como um tempo extra que você ganhou para estar na estrada com Eles - afinal, curvas são mais emocionantes e duradouras do que as retas monótonas e previsíveis. Ter fé, aqui, é ter força para continuar por essa estrada.

Agora entra um 'ponto-porém' aqui. Embora você possa fazer algo você-Eles e embora não precise estar fisicamente onde outros estão, ainda é necessário existir alguém/algo que te oriente, o que implica em uma aceitação paciente e amável do que quer que se apresente. Se a gente aprende a prestar atenção (perscrutar) e agradecer por cada coisa, cada presente inesperado, cada folhinha esvoaçante, cada ideia inspiradora, certamente não deveríamos negligenciar a orientação voluntária de um professor instruído, criterioso, informado. Cada coisa ou pessoa que vem à sua frente deveria ser tomada com um amor e devoção sinceros. Nossos 'mentores' são ligações importantes, são laços personificados com os caminhos divinos que vão se desdobrando em nossa direção, se revelando além das névoas do desconhecido. Não dá para achar sua cadeira no teatro desse espetáculo sem um lanterninha pra te guiar, e nem dá para encontrar um bom lanterninha se você não demonstrar a intenção de vislumbrar - admirado - o espetáculo.

Convém lembrar também que o lanterninha, o professor, o orientador, é um ser humano. Ele espera uma conexão. Você saberia responder o que ele acha mais importante no momento? Você pensa sobre as coisas que ele lhe apresenta? Você é honesto ao contar-lhes suas experiências e reflexões? Você se coloca no lugar dele e pensa também no que ele faria no seu lugar? Você agradece a ele? Você demonstra o que ele significa para você? O que você oferece em troca? Qual a sua contribuição nesse 'banquete'? Concentração, empatia e gratidão podem fortalecer e tornar as relações mais leves, mais alegres... Pra que esperar uma crise para precisar sentir a falta e tentar correr atrás de recuperar o perdido? Aproveite o tempo que você tem com os que se dispõem a caminhar com você. E pise com gentileza pela trilha. Valorize suas conexões. Todos podemos aprender uns com os outros -- ou, como pregaria Platão, ajudar a nos lembrarmos do que sempre soubemos.

Pensando nisso, o RHB está formando orientadores. No próximo ano civil eu espero que já os tenhamos mais disponíveis. A princípio eles já podem responder suas dúvidas e atuar como oráculos. Mas nossa intenção é ir além e ajudar cada vez mais, com organização e disciplina. Já ouvi falar que algumas pessoas se identificam mais com este ou com aquele outro, e acredito que essa afinidade ajuda na motivação. Assim, sugiro que vocês já vão conhecendo nossos queridos voluntários e criando seus laços com eles. Até porque eles irão formar outros. Ainda sonho com uma rede que não é corrente, com uma rede flexível e firme o bastante para não deixar ninguém se machucar ao dar um passo em falso no trapézio. É essa rede que eu espero formar para o nosso grupo. Uma rede com laços mas sem nós, mais resistente que metal de elo de corrente que machuca, e mais macia também.

Parece que comecei falando de uma coisa e fui puxando outra e acabei formando um texto-tricô, rsrs. Mas acho que no fim das contas o sentido dessa malha foi capturado e vai te ajudar a enfrentar o frio. Ao menos conto com isso. Porque a gente não é e nem está sozinho. 

;))

setembro 07, 2011

Hefesto e os caranguejos

Quando a gente fala de caranguejo pensando na mitologia grega, a maioria pensa direto no Karkinos que ajudou a Hidra na batalha contra Héracles em Lerna e que Hera transformou na constelação de Câncer (veja aqui). Mas há outra história com caranguejos (li neste livro), que me deixou feliz quando soube, pois quase todo fim de semana eu costumo saboreá-los.

O caranguejo está associado a Hefesto. Hesíquio dizia que os caranguejos eram filhos de Hefesto e de Cabiro (filha de Proteu, rei das focas). Vejam que tanto as focas (cultuadas em Rodes em relação com os Telquines) quanto os caranguejos (cultuados em Lemnos como os deuses Cabiros) têm um caminhar meio desajeitado como o do deus coxo, e o caranguejo - além de membros estranhos - têm uma ligação com a metalurgia por conta de seus tenazes (pinças, alicates). Tanto que karkínos também significa a tenaz do ferreiro, em grego.

Uma antologia palatina descreve o caranguejo como um "monstro de pernas retorcidas, de duas pinças, que se enfia sobre a areia, caminha recuando". Ou seja, ele anda enviesado. Aristóteles dizia que os animais se deslocam na diagonal, sendo o caranguejo o único que caminha de lado. Um provérbio grego diz "jamais farás um caranguejo andar reto". Suas patas são tortas e na frente da carapaça há duas pinças (que também não são iguais uma da outra). Ainda Aristóteles o descreve: "as pinças do caranguejo não servem para andar, mas para aprender a segurar, como fariam as mãos, e é por isso que as pinças se dobram no sentido contrário ao das patas; estas se dobram para dentro, as pinças se dobram para fora". Assim, ele possui duas orientações.

A aparência física de Hefesto é descrita por três epítetos principais, que se relacionam à forma curva, o caráter mutilado e a dupla orientação em sentidos opostos. Hefesto Kyllopodion, o deus dos pés curvos, de membros tortos - sendo "kyllos" (visto em Aristófanes) uma designação tanto do coxo quanto de uma mão recurvada e pontiaguda, como uma pinça. Recurvar os dedos, torcendo-os para dentro, é "fazer uma mão de caranguejo" (karkinoún toús daktýlous), segundo Antífanes. Hefesto Kholós é o deus deformado, mutilado, estropiado. Antígono e Apolodoro falavam que Hefesto é mutilado nas duas pernas - isto é, não é coxo, já que se trata de ambos os membros mutilados. E o epíteto homérico de Hefesto Amphigyéeis lembra esse curvo nas duas pernas, o de direção dupla e divergente, com alguns vasos representando-o com um pé esquerdo para a frente e um pé direito torcido para trás.

Em certas sociedades australianas, germânicas, mongólicas e até entre as guerreiras Amazonas, parece ter existido a crença de uma relação entre a doença/mutilação e os ofícios de mágico/ferreiro. Por um lado essa mutilação servia como a 'desculpa' para eles ficarem forjando as armas em vez de irem para a guerra, mas, por outro, significa que somente um ser dotado de uma direção dupla é capaz de dominar coisas móveis, fluidas e polimorfas - como o fogo, o mineral e os ventos com que trabalha o ferreiro. E, fechando os quatro elementos, caranguejos e focas são seres marinhos, parte imersos em água.

Agora sempre que alguém fala em caranguejo me vem um sorriso nos lábios à lembrança de Hefesto, de sua capacidade de nos inspirar, de sua habilidade, de sua fluidez, e do quanto ele nos é querido quando nos permitimos conhecê-lo melhor. Assim, a exemplo de algumas crenças indígenas, espero adquirir as boas características dos seres dos quais me alimento e poder honrar Hefesto com toda essa tenacidade típica dele.


agosto 21, 2011

Mais sobre o patronato e afins

Após ler algumas postagens de blogs estrangeiros, resolvi trazer este assunto para cá. A questão dos patronos gera alguns problemas entre os helênicos:
# Alguns tomam o patronato longe demais e fazem dos deuses praticamente um camarada, companheiro de bebedeira, parceiro de truco (rs) etc, ou mesmo acham que possuem um destino cósmico extremamente grandioso por se acharem muito intimimamente ligados à deidade;
# Outros acham que precisam ter um patrono, como se não ter descoberto o seu fosse um sinal de desamparo ou deficiência ou indignidade por não ter recebido um 'toque' da deidade;
# Muitos confundem um interesse em uma deidade ou em algo que a deidade rege como se fosse um sinal de patronato (tipo: "eu gosto de amarelo e de poesia e de música, então devo ser de Apolo" - como se fosse simples assim);
# Há também os que se identificam tanto com uma deidade que se fecham para todos os outros deuses, e ficam até de briguinha com o suposto rival (por exemplo: apolíneos versus dionisíacos, seguidores de Atena versus de Poseidon, os de Hefesto e os de Ares etc), o que contradiz o politeísmo e transforma antigos mitos em posturas preconceituosas/prejudiciais e superficiais;
# Também são muitos os que escolhem e declaram seus próprios patronos porque acham que isso vai acrescentar algo 'legal/maneiro' à sua espiritualidade e lhe dar pontos de status na comunidade (e não sabem no que estão se metendo ao fazê-lo); e
# Outro engano comum é incluir um quê místico-cristão nas mensagens dos deuses, sentindo-se 'chamado' (como uma 'vocação' clerical), entendendo cada coincidência como um grande 'sinal' e todo sonho como uma 'visita' (sem distinguir os dois portões dos sonhos), quase em uma superstição exagerada (deisidaimonia).

Então vamos tentar esclarecer melhor essa relação, para tentar diminuir esses eventos:
Primeiro, são os patronos que começam esse relacionamento, não nós. Às vezes a gente nem se toca, mas eles são persistentes.
Segundo, nem todo mundo tem um patrono (já que isso envolve um interesse de ambas as partes), o que também não significa que ter um patrono seja alguma pretensão de achar que temos intimidade com um deus, afinal Eles se importam sim com a gente.
Terceiro, relacionamentos mudam, evoluem, terminam... E se isso já incomoda nas nossas relações humanas, fica ainda mais incômodo quando é a gente com Eles, porque Eles fazem mais falta quando os sentimos distantes, quando não nos pedem coisas para fazer com a mesma frequencia que antes, quando nos deixam confusos pensando se fizemos alguma coisa errada e não temos certeza do quê.

Com relação a essa transformação:

Quando isso acontece, a solução é 'perscrutar', procurar por algo que nos acenda um chama na memória/percepção, perguntar aos oráculos, refletir, meditar... Pode ser que sua relação com aquela deidade tivesse mesmo que ser temporária, ou que você mudou tanto que não 'combina' mais com Ele/a (muito semelhante ao que acontece quando mudamos de 'turma' devido à mudança de interesses), e aí o negócio é mesmo seguir em frente, "partir pra outra". No entanto, é importante manter sua prática devocional com aquele/a deus/a, na verdade até aumentá-la para não confirmar a possibilidade de que você perdeu a conexão por conta da sua própria negligência. Isso demonstrará interesse contínuo no deus/a, mesmo que você já não tenha tanta resposta direta. O mais importante é tentar não se angustiar e procurar ficar de coração aberto para ouvir o que Eles têm a dizer. Eu sei que muitas vezes é difícil distinguir o que vem deles no meio das nossas discussões internas, mas com o tempo a gente vai se educando. Tem coisas que são claras e a gente simplesmente bate o pé e teima em achar que não são.

Uma das situações que podem mudar é assimilarmos outro aspecto da mesma deidade e ficar querendo permanecer no anterior bem conhecido, com 'saudade' de um passado que já cumpriu sua função. E o que era fácil antes se transforma em um grande esforço e desafio quando insistimos em não deixar ir. Por exemplo, pode ser que na adolescência você adorasse suas aulas de teatro, seus acampamentos escoteiros no mato, sua roda de violão em volta da fogueira, os beijos ninfolépticos roubados de mênades carnívoras vestidas de oncinha; e hoje você tem a liberdade de ir aonde quer, aprecia vários tipos de vinho e têm crises de ansiedade e desespero seguidas de maravilhamentos arrebatadores e devotos. Aí você pensa que era mais legal a parte rural e teatral e bacante de Dionísio, que você nunca mais conseguiu ter, e se esquece que ele também é delírio divino, um deus libertador, embriagador e catártico. Ele quebra padrões, te lança para fora do corpo (ek-tasis). E justamente por Ele te amar é que Ele não vai querer te deixar preso/a naquela confortável orgia da juventude sem te sacudir e empurrar para a frente, para vencer desafios, sair correndo loucamente e crescer com isso. Se o teatro são máscaras, você precisaria conhecer as outras faces dEle, um que nem todo mundo vê e que te fará sentir-se mais perto de um ser completo/a. É algo que ao mesmo tempo em que te coloca no teu humilde lugar, te concede presentes incríveis.

Há deidades com as quais podemos inclusive experimentar extremos altos e baixos, nos deixando sem noção de quando começou, onde estamos e aonde vai parar. São como períodos em que se manifestam muito fortemente em nossas vidas, seguidos de outros em que quase não temos notícias dElas. Mas tudo bem, pois - enquanto isso - outras relações foram se desenvolvendo e se fortificando. Faz parte de ser politeísta. Enquanto nossas relações tomam seus rumos, vamos aos poucos descobrindo que seguiram seu curso natural, que não adianta tentar forçar coisas ou ignorar outras, pois os deuses vêem melhor e mais longe do que conseguimos ver.

Outras deidades possuem um relacionamento bem simples e aparentemente imutável conosco. Pode ser, por exemplo, que o único momento em que você se sente confortável com Apolo seja na hora de consultar oráculos, que você não saiba lidar bem com seu lado arqueiro-destruidor ou outro aspecto, e que isso não seja um 'ainda', mas algo que você já percebeu como aparentemente constante.

Há infinitas possibilidades de mudanças nesse tipo de relacionamento. Incluso alternância de deidades aparentemente opostas. Ter uma deidade de patrono não te impede de experimentar o suposto outro-lado-da-balança. Se Dioniso e Apolo se alternam em Delfos, se a cidade tem lugar para teatro e oráculo, por que nossa alma também não teria momentos de caos e de ordem?

Eu posso, por exemplo, ter contato com várias facetas de Dionísio, mesmo sendo expressivamente um ser racional de Atena, e lidar com apenas uns dois ou três aspectos de Apolo, servindo-lhe como oráculo, procurando-o em questões de saúde, e honrando-o no equilíbrio da beleza e da arte. Por mais que a afinidade de Atena pareça ser mais com o filosófico de Apolo, o lado meditativo transgressor do dionisíaco me é mais próximo do que a sobriedade apolínea. E não vejo nem sinto uma contradição nisso.

Hermes é um dos deuses que mais me confundem, o que pode ser típico de um trickster brincalhão. Ele consegue se mostrar uma hora como o deus dos terapeutas, portador do caduceu, mostrando os caminhos dos mistérios, conduzindo as almas, removendo obstáculos, dando rapidez aos processos... para, em outra hora, brincar com sua sorte, baixar sua reserva de ferro (Mercúrio), fazer coisas desaparecerem e te aturdir com palavras intrincadas no meio da comunicação. Ele não era muito de me exigir rituais, altares, preces, ele queria que eu lembrasse dele no trânsito, na rua, na minha aprendizagem de idiomas, na tecnologia, e que eu reorganizasse minhas crenças de forma a incluir o culto aos ancestrais que ele conduziu ao além quando me deixaram. Ele quase que serve como um laço meu com os outros, se mostrando pouco como Ele mesmo - às vezes porque ele passa tão rápido com suas asinhas que eu mal o percebo em meio à multidão, como aconteceu em um sonho no qual o vi passar de clâmide vermelha entre o povo.

Isso me lembra que nem toda deidade precisa de um altar dentro de casa. Alguns querem mesmo é te encontrar ali no mar, na árvore, no concreto da cidade. O importante é perceber onde você sente mais fortemente a presença de cada um.

Há deuses que preferem uma prece todos os dias antes de dormir do que um festival anual com procissão e bolo de mel com cevada aspergida no vinho misturado. E há outros deuses que sentem-se mais reconhecidos através de uma aproximação formal com data marcada do que um descuidado em chegar-se nele sem o apuro devido a alguém de tanta importância. É como certos membros da nossa família: mesmo que você os conheça desde pequeno/a, tem aquele com quem você mantém uma relação de respeito e aquele que te exige um tratamento brincalhão até quando você está a fim de falar a sério.

Aproximar-se de Poseidon ao limpar a praia, de Apolo ao purificar um miasma, de Asclépio ao cuidar de um doente, são coisas que fazem parte da rotina de um verdadeiro politeísta, sem ficar se perguntando se há um patronato envolvido nessa afinidade ou não, se a comunhão com o sagrado é por conta de uma escolha que um/a deus/a de você ser dele/a. Você pode ter algo profundo com uma deidade sem necessariamente ser algo permanente. Seja por que você mudou ou por que a vida teve um curso diferente ou por que aquilo só era necessário para uma determinada tarefa/missão.

Claro que também acontece existir um relacionamento com um/a deus/a que não só seja duradouro e permanente agora, como possa ter vindo de outra vida e se estender por outras mais que virão.

Existem inclusives deuses que se aproximam pelo simples fato de Eles próprios terem afinidade com a outra deidade com a qual você está criando um relacionamento. Nesse caso, seria comum perceber a presença conjunta de Deméter e Perséfone, de Eros e Psiquê, de Zeus e Hera, de Hermes e Hécate etc. Mas isso também depende do tipo de aproximação, talvez você se aproxime de Ártemis por conta de ela também ser arqueira como Apolo, mas não a sinta presente quando se achegar a Apolo por conta do seu lado oracular.

Os deuses podem se interessar por você por algo que vocês têm em comum - como Ares gostar de um lutador de artes marciais - ou justamente por algo que vocês não têm em comum - como Dioniso ficar a fim de chacoalhar as bases de alguém que ele achou muito rígido e preso a convenções.

De todas as coisas que pudemos pensar, percebemos que não só uma pessoa pode ter dinâmicas diferentes com deuses diferentes como essa dinâmica pode mudar com o tempo. É preciso ver se (e o que) está funcionando para ambas as partes.

Sentir-se fora de sincronia pode ser um sinal de mudança, e é preciso estar aberto a isso, sem impor suas vontades e julgamentos - e muito menos as vontades e julgamentos de outras pessoas. Vale a pena passar por essa rica experiência e aproximar-se a cada dia mais do "conhece-te a ti mesmo" através do que os deuses nos mostram e demonstram.

A nossa preocupação não deve ser com a dúvida que isso gera, e sim em nos manter íntegros e constantes em nossas práticas e na nossa dedicação a Eles. Como diz a sabedoria popular: "as ervas daninhas crescem pelo caminho onde ninguém passa"...


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Fontes: