janeiro 26, 2011

D.R.* com os deuses

*D.R. = discussão de relação / discutir relacionamento

Há várias maneiras de se pensar nosso relacionamento com os deuses. Em outra postagem comparei-nos a bichinhos de estimação. Hoje queria pensar como a relação de um casal, principalmente no que diz respeito à ortopraxia (prática correta) e rituais.

Às vezes eu me perguntava se um ritual tão simples e rápido valia a pena, se não seria melhor deixar para fazer só os grandes - dos festivais que conhecemos melhor, se gestos fáceis e parecidos com outras coisas do dia-a-dia poderiam ser configurados como sagrados. E Eles me respondiam por texto ou me mostravam por sonho que tinha valido sim. Primeiro porque o cerne do ritual, o sacrifício, não significa algo enfadonho (vide meu texto sobre sacrifício na revista Ideon Antron nº2). Segundo porque, em vez de pensar que tudo o que se parece é profano, há de se pensar o contrário, que nosso dia secular também tem o seu quê de sacro, visto que faz parte do cumprimento do trabalho de tecelagem das Moiras.

Mas o mais importante - que é onde eu queria chegar - é ver nessa relação algumas similaridades com aquelas relações que conhecemos. Então tente imaginar junto comigo: seu cônjuge/consorte sabe que você tem seus afazeres, que precisa trabalhar, escovar dente, jogar com os amigos, fazer suas leituras, visitar a mãe etc. Porém, o que você não pode é agir como se ele/a fosse invisível ou que só esteja ali para lhe servir. É necessário demonstrar que ele/a faz parte da sua vida, que você o/a ama, que considera a opinião dele/a, que quer compartilhar suas coisas com ele/a, que se lembra dele/a durante uma viagem ou ao ver o doce preferido dele/a quando você estava na padaria e decidiu comprar para lho dar. Enfim, precisamos deixar claro a importância e a gratidão que temos com quem divide sua vida conosco, e sentirmo-nos plenos ao vê-los sorrir de satisfação com algo que fizemos ou lhes dissemos. É melhor falar-lhes dos nossos sentimentos ou lhes dar um bombom de 60 centavos do que simplesmente não fazer nada porque achou que um bombom ou uma flor seria muito pouco.

Pois bem, saibam que não é muito diferente com os deuses. Eles sabem e vêem que o nosso dia é cheio e corrido, mas aqueles dez minutinhos que tiramos para acender uma vela, um incenso, recitar hinos e verter uma libação antes de já desfazer o arranjo de um altar improvisado, só isso já demonstra o quanto queremos preservar essa nossa parceria com Eles, que queremos que continuem ao nosso lado. Ver uma concha e trazer para sua imagem de Afrodite, um arranjo de trigo para oferecer para Deméter, um anel de serpente para nos lembrar do daimon, uma corujinha ao altar de Atena, é como o doce ou a flor que vemos na rua - no meio daquele dia atribulado - e levamos para casa, entregando ao ser amado ao chegarmos. Se tivermos a sorte de acertar em agradar, podemos ganhar não só sorrisos, mas beijos, carinho, quem sabe algo mais, fora a vontade que deixaremos nele/a de nos retribuir o mimo. E a retribuição de um deus renovadamente apaixonado por seus afilhados terrestres é bem maior e duradoura do que a de qualquer humano.

Tem mais: quando temos um/a companheiro/a feliz, ele/a dirá a seus parentes e amigos que fez uma boa escolha ao nos ter ao lado, e os outros se sentirão mais predispostos a nos ajudar e defender e tratar bem, pois estamos fazendo felizes alguém com quem eles se importam. Agora imagine quais são os amigos e parentes dos deuses! Nossa rede de relacionamentos, aquela do "o que vale é quem você conhece" vai ter a galera mais poderosa do mundo, imortal e capaz de realizar praticamente tudo.

Por isso que antes de achar que é bobagem ler um "poema" e "derramar" um pouco da sua bebida para Eles, pense que é sempre melhor agradar com pouco do que não fazer nada. Claro que o inverso também serve: se você chegar para a sua namorada com um saco de milho, ela pode ficar brava achando que você a está chamando de galinha. E aí você pode até levar uma surra (hehe). A gente tem que saber como agradar. Mas, no caso de deidades que existem há milênios e das quais dispomos de textos contando suas histórias, fica até mais fácil conhecer o que eles gostam.

Temos que cuidar também do que vamos pedir. Suponho que tenha coisas que você não faria por seu parceiro e talvez até se ofendesse se ele lhe as pedisse. É o tal daquele relato: uma vez chamei Afrodite para fazer um negócio pra mim e ela me bate com uma vara de marmelo.
Sei que tem gente que acha que um deus fica ali em cima no céu só controlando o mundo sem ser amante de ninguém. Mas deixa eu lhes dizer uma coisa: nem o deus cristão é necessariamente assim. Existiram santos com relacionamento íntimo de/com seu deus, e a própria igreja católica tem livros amorosos sobre a ideia da igreja (que é composta por seus membros) como noiva de seu cristo.

Imagina se Zeus não fosse um bom amante humano, quantos heróis (semideuses) da história não teriam nascido. Imagine se Dionísio não deixasse as mênades em êxtase sem sequer lhes tocar, como entenderíamos da Mania, o frenesi que surge com a lua minguante? Imagina se os poetas e artistas em geral não fossem ardorosamente movidos pelas musas, quão pobre seria a nossa literatura e cultura?

Então, da próxima vez em que for afirmar que adora os deuses, não diga isso pros outros, demonstre isso para Eles. Do que adianta se gabar do quanto você ama e do quanto é feliz por ter a pessoa que tem ao seu lado se nunca diz ou mostra isso pra ela?...


janeiro 02, 2011

Ano Novo Civil

Perguntaram-me sobre a Heracléia - que é sugerida na virada secular de ano novo - e resolvi dar mais informações aqui no blog para quem tiver a mesma dúvida.

Apesar de não ter existido na Antiguidade um festival a Héracles Triesperos no solstício de inverno (vide "triesperon: season festive that was never a festive"), essa Herakleia de final de ano é um festival moderno que também se baseia na mitologia, como foi o festival da Heliogenna cujos mitos foram explicados anteriormente AQUI. E o relato é o seguinte:

A família de Héracles vem de Argos, já que Alcmena é filha do rei micênico Electrion, filho de Perseu e Andrômeda, que também geraram Alcedes, pai de Anfitrião. Alcmena se casou com esse seu primo Anfitrião. Eles foram forçados a fugir da cidade porque Anfitrião matou o cunhado dele, então foram parar em Tebas. Ali, Zeus veio à terra e se relacionou com Alcmena. Algumas versões dizem que foi em forma de neve dourada, outras que foi na forma de Anfitrião (o qual tinha viajado para a guerra), fingindo ser ele. Zeus ficou com Alcmena por três noites inteiras, daí Triesperos ('tria speros' = três noites). No mito, Zeus diz ao deus solar Hélio para desatrelar sua carruagem por um dia, fazendo o mundo ficar na escuridão por 24 horas a mais, assim Zeus pôde prolongar seu romance por uma noite de 36 horas.

Assim, celebra-se o retorno do sol, trazendo felicidade a todos.

Nessa época algumas pessoas preferem celebrar os Doze Dias Dionisíacos (como estou fazendo), outras escolhem a virada de ano para celebrar Hécate - das encruzilhadas e abertura de caminhos, e outro ainda me disse que iria celebrar Apolo, deus solar.

De qualquer forma, seja como for que você entrou 2011...

Αγαθή Τύχη, Αγάπη, Ειρήνη και Ευτυχισμένος ο Καινούργιος Χρόνος!
(Boa Fortuna, Amor, Paz e Feliz Ano Novo!)

dezembro 14, 2010

É só um trovão...

(Ia postar isso ontem, mas a Internet caiu devido às chuvas.)

Anteontem minha 'sobrinha canina' entrou debaixo da minha cama e deitou-se com o focinho para fora, olhando para mim. Levantei-me para pegar água e ela veio atrás, parando à porta da cozinha para me esperar. Voltei ao quarto e ela seguiu-me, entrando novamente debaixo da cama. Fiquei ao computador com ela ali o tempo todo, até o momento em que soou um trovão. Ela saiu do seu canto, olhou para trás, de onde veio o barulho (da janela), eu olhei para ela e disse "É só um trovão, pode voltar". Ela olhou pra mim, deu meia-volta e retornou para debaixo da cama.

Mais tarde, lembrando da associação que a filhotedelua faz de sermos "pets" dos deuses, fiquei pensando nesse caso e imaginando quem seria a deidade que fala pra mim "é só um trovão, pode voltar" quando algo que não espero me deixa confusa. Seria Atena? Ártemis? Zeus?

Sei que às vezes me distraio, como esta semana que demorei a perceber que o princípio-ativo do xarope fitoterápico que tenho tomado para tratar minha tosse é de hera. Justo em dias dionisíacos, não atentei para o fato de o nome científico da planta expresso na caixa - "Hedera helix L. (Acaliaceae)" - ser o da planta desse deus. Mas, no geral, penso nEles em todos os momentos possíveis.

Dia 9, Dionísio me conduziu uma jogada do Mystic Dreamer Tarot e foi mais claro que o raio de Seu pai. Heráclito dizia que Apolo nunca é direto no oráculo ("O senhor de Delfos não fala nem esconde, mas dá um sinal."), então não sei por que eu não tinha pensado antes em recorrer a Dionísio.

Mas não, não achei que fosse Ele quem me diria que "é só um trovão", então voltei a pensar. Óbvio que a primeira a vir à minha mente com essa postura racional diante do desconhecido foi Atena. Aquela que olha para o Poseidon sacudidor-de-terra e acha que Ele é só um terremoto e que já o venceu uma vez antes, podendo vencê-lo de novo. Ou que, conhecendo bem seu pai Zeus, sabe que trovões acompanham-lhe os raios e que - apesar do estrondo - Ele é um deus (dono) tudo de bom.

Porém, ao pensar no "pode voltar", isso não me soou muito de Atena. Como estrategista, um aviso sonoro é um sinal para uma investida, e não algo que vá te fazer ignorá-lo e recuar em seguida. Não há como desfazer uma jogada. Um lance já feito não "pode voltar".

Quando esse tipo de reflexão me toma, o exercício que faço é tentar ser mais intuitiva com a energia presente do que racionalizar os sentidos de uma forma muito "logos". Até porque, pelo logos, a primeira parte da sentença poderia vir de Apolo (a luz da consciência) e a segunda de Dionísio (o deus do duplo retorno).

Então olhei para a minha estante e a estátua de Perséfone brilhou entre as outras. Ela, que vive indo e voltando do submundo - de "debaixo da cama" - e que vive em companhia daquele que costuma ser temido bem mais do que a simples trovões de chuvas ocasionais, inclusive por ser um deus daquilo que nos parece mais definitivo ('de-finito', o fim): a morte.

Olhando dessa forma, poderia ser praticamente qualquer deidade. Hera poderia me mostrar que os trovões de Zeus não assustam, Hermes poderia estar me ensinando a não temer e a vencer as adversidades, Ártemis poderia estar me abrigando entre suas crias, Deméter poderia estar exercendo seu papel de mãe, Héstia me mantendo centrada, Afrodite me chamando ao leito, Têmis me devolvendo o equilíbrio, entre outros.

No fundo, quando temos tantos "donos", todos vão cuidar da gente quando preciso. Nós ficaremos debaixo desse céu onde Eles repousam, ficaremos escondidos numa caverna sob o Monte Olimpo, nos refugiremos nos labirintos do palácio minóico, mergulharemos nas profundezas das águas oceânicas, adormeceremos na escuridão do misterioso reino das sombras, e - em todos esses caminhos - Eles poderão nos proteger e guardar; basta estarmos em busca da realização do nosso 'daimon'. E é esse daimon que me faz agir como a espécie de animalzinho que eu for a cada momento: canina, felina, equina, humana...

Ao menos sei que o bom disso tudo é que sempre haverá quem nos diga, com uma voz tranquila e confiante, que aquilo é só um trovão e que podemos voltar para onde escolhemos ficar.

Nessas horas é que agradeço por não ser um bichinho abandonado... Ou dependente de um único dono.

novembro 29, 2010

O presente é um tempo desembrulhado.

Conheço uns quatro ou cinco caminhos diferentes para ir e para voltar do meu compromisso matutino que fica a 25 minutos de carro de onde moro. Sei onde vai dar se eu virar antes ou se eu me distrair e perder uma entrada, de modo que posso optar continuar por ali e chegar aonde quero do mesmo jeito. A ida normalmente me exige que eu vá pelo caminho de menos trânsito, porque saio meio em cima da hora. Quanto à volta, todo dia me treino na escolha de por onde vou retornar para casa.

Bom, eu sei que isso não é o típico da maioria das pessoas que escolhe algo pacífico e previsível, que você possa ligar seu piloto automático e pensar em outras coisas da sua vida. Mas eu gosto de treinar meu cérebro a mudar. E faço isso não só porque antes da minha virada de Saturno o meu sol em Touro morria de medo de mudanças. Faço isso porque a gente precisa aprender a se adaptar a novas situações. Por mais interminável que algo pareça, ele não será para sempre. Nem as alegrias nem as tristezas.

Dia desses uma amiga comentou aleatoriamente comigo que me acha alguém com uma capacidade enorme para se adaptar. Foi bom ler isso. Principalmente porque nem sempre foi assim, e hoje se tornou algo um tanto quanto natural de mim.

Penso na figura do guardião da "República" de Platão, que comia o que tinha e dormia onde dava. O desapego, a coragem, a paciência, a imperturbabilidade, são coisas que me atraem...

Enfim, o fato é que, a partir do período em que você começa a vencer certas coisas na sua vida que lhe prendiam à matéria, esse tipo de vontade por responder apenas ao momento presente aumenta. Lembro de Sócrates andando pelo mercado e observando de quanta coisa ele não precisa. Ando assim ultimamente. Enquanto alguns amigos se debatem por acumular pertences, eu anseio pelo dia de me livrar da maioria dos meus. Eu adoro dar presente, jogar coisa fora, ver espaços livres serem criados, reciclar transformando cacareco em arte para embelezar a vida...

Se eu só conhecesse um caminho para os destinos que traço, se eu me detesse a seguir apenas aquela rota, isso sim seria para mim um obstáculo, uma pedra, um atraso, cacos de vidro na trilha dos pneus, reforma na rodovia que altera o seu curso.

O meu caminho é aquele em que motoristas negligentes me obrigam a reagir rápido. É a minha forma de chegar sentindo que atravessei por um campo de batalha e alcancei o outro lado com honra, merecimento e dignidade. Os motoristas lentos ou descuidados são como aquele adversário que é também teu professor. Aquele que ensina você a permanecer alerta. Não o alerta da tensão, mas o alerta da consciência.

Porque meditação não é só sentar em silêncio e esvaziar a mente. Meditação é prestar atenção ao que você faz, como você faz, como o mundo é, o que as deidades lhe mostram, o que você pode aprender de cada minuto, como cada ato é uma manifestação sagrada, como assimilar os acontecimentos como forma de auxiliar na sua evolução e aumentar seu conhecimento de si, do universo e dos deuses.

É justo por causa dos obstáculos e da percepção das vias que posso escolher todos os dias que a vida vai se tornando mais plena de sentido, como um fractal que forma um belo colorido global.

Ao sabermos disso, cada dia se torna como aquele vento que de repente sopra mais doce. E toda a espera se torna um preparo para melhor enfrentar a travessia que virá. Pois um dia eu sei que ela vai vir... Conto com isso. Até lá, convém treinar. E depois que chegar, treinar em dobro, porque a ação já vai ser real e imediata.

Nessas horas penso em meu avô, que já morou com minha mãe até na fronteira com a Bolívia e de quem contavam que tinha sido salvo por São Jorge de uns "índios" perigosos dali. Vou um pouco mais além e penso nos meus pais de outra vida que passaram perrengues nada legais também. E penso como tudo um dia liga a gente a todo o resto. Nascer no 23 de abril e ainda pertencer a uma religião que evita o contato com aquilo que um dia já me matou, bem antes de saber dessas coisas, é só um exemplo.

Os motivos retornam. Os "motifs" (na literatura, elemento recorrente que têm um significância simbólica em uma narrativa; na arte visual, um elemento com tema padrão; na música, um fragmento sucessivo de notas; na tecelagem, aquele pedaço repetido que - unido - gera um trabalho maior). Enxergá-los nos ajuda a entender a nós mesmos.

Por isso é que eu decido não parar. Ainda há padrões a descobrir. Ainda há pedacinhos a encaixar. Quero e anseio por ver qual será o trabalho maior que se apresentará ao final, no tear. A agulha e a madeira muitas vezes me machucam, mas sem mim elas não trabalham, e é pelo bem do todo que elas o fazem. A gente só fica esperando estar preparado e ter feito o melhor de si, sem desfiar antes da hora...

Esse é um dos meus muitos jeitos de refletir.

novembro 04, 2010

Mulheres de Atena

₪₪₪ Esta postagem é inspirada em escritos (traduzidos, reescritos, resumidos e comentados) dos blogs da Ellen e da Glaux, bem como de um artigo de Lucy Corcoran, linkados ao final da mesma. Já os termos linkados no corpo do texto são para outras fontes de leitura (referências mitológicas e literárias). ₪₪₪

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Eis uma pergunta intrigante: "Se as mulheres eram inferiores em Atenas, por que eles tinham uma deusa como padroeira da cidade?"

Claro que os estudiosos proporiam várias maneiras de responder a isso, e uma delas é a possibilidade de que os gregos aceitassem mais o conselho bélico de uma mulher do que de um parceiro (essa é a visão de Wilamowitz, citado em Otto, 1979). Mas vamos lá voltar um pouquinho nessa concepção de Atena como deusa do masculino por conta de ela nascer diretamente do pai e por conta do que Ésquilo, um escritor (homem) da literatura antiga, coloca em sua divina boca para defender Orestes.

Esse evento pode ser interpretado como uma demonstração de que as mulheres podem ter uma amizade verdadeira com homens (e com mulheres também) sem ter que configurá-la em algo "colorido"/sexual, mas uma amizade mental, intelectual, de companheirismo, camaradagem, de projetos em comum. E Atena tinha isso com Orestes, Odisseu, Perseu, Aquiles, Diomedes, Tydeus, e tantos outros. O que não significa que ela não tivesse esse tipo de amizade com mulheres também!

Ademais, mesmo que no caso de Orestes ela tivesse ido contra a mãe dele, pode-se ver que, em vários outros casos dos homens que ela protegia, ela o fazia de uma forma que prejudicava outros homens: como ir contra Heitor para ajudar Aquiles, auxiliar Odisseus a enfrentar 300 homens, e até atirar uma pedra no pescoço de Ares para defender Diomedes. Mas a intenção deste texto é falar sobre da relação de Atena com as mulheres, então voltemos às suas amigas.

Ela era tão amiga/irmã/querida companheira de Pallas na infância que depois acabou incorporando seu nome (tudo bem que Atena matou Pallas acidentalmente enquanto simulava uma luta com ela, mas lembre-se que Zeus semelhantemente 'devorou' Métis, se formos pensar por esse lado). Ela também foi amiga de Perséfone e Ártemis, com quem ela brinca no Hino Homérico a Deméter (verso 424). Foi amiga de Khariklo (mãe de Tirésias), a quem concedeu presentes, no poema de Calímaco. Quando Cassandra procurou refúgio no santuário de Atena durante o cerco de Tróia e foi arrastada e violentada por Ajax, Atena fica furiosa e persegue o herói até matá-lo partindo seu navio com um raio emprestado de Zeus. E, mesmo tendo de punir Medusa transformando-a em monstro, ao final ela incorpora a cabeça da górgona ao seu escudo como um emblema.

A história de Aracne também precisa de uma observação, colocando-a em um prato de balança oposto ao de Penélope. A esposa de Odisseu recebe de Atena os dons da tecelagem, da astúcia, da narração de histórias... "Athena a dotou mais do que às outras mulheres com o conhecimento de trabalhos manuais e um coração compreensivo" (Antinoos, na Odisséia de Homero, c.2 - v.115). A artimanha de Penélope é uma forma de usar a arte da tecelagem dada por Atena como uma verdadeira estratégia militar - também domínio da deusa. Já Aracne, esta usurpa e usa de forma errada a arte tecelã. Ela se gaba de seu trabalho ser melhor que o de Atena e aceita o desafio de uma competição tipicamente arrogante e insolente. Enquanto Atena tece sua imagem majestosa, Aracne retrata casos escandalosos dos deuses. Por isso sua tapeçaria é rasgada, ela é punida e transformada em uma aranha.

O curioso é que, tanto no caso da Medusa quanto no de Aracne, o relato passa a impressão de "ciúmes", que para os escritores antigos como o romano Ovídio, seria a emoção mais feminina que há. Ou seja, não combina com a ideia de uma deusa tão amplamente vista como sendo de um campo exclusivamente masculino. Parece que a relação de Atena com as mulheres passava por características dos dois gêneros, enquanto nas suas conexões com os homens não entraria essa pitada de rivalidade que é vista como típica no caso de duas mulheres.

De qualquer forma, reduzir Atena a uma deusa dominada pelo masculino num mundo em que imperaria o patriarcado é realizar um verdadeiro desserviço a ela. E a questão de ser chamada de virgem e mãe (de Erictonios) - ao mesmo tempo - talvez seja porque esse "virgem" é no antigo sentido da palavra, aquele que caracteriza uma mulher que não pertence a homem algum (e não no sentido de alguém que renega sua feminilidade). Quando homens e mulheres são iguais, não há posse, e esse reconhecimento de igualdade que estamos tentando viver nos tempos atuais só nos conclama a honrar mais ainda Atena de uma forma que vai além da tal ideia de uma filha casta.

O que ela é, é sim uma figura complexa, e todos os que a têm como padroeira das universidades, da sabedoria, do poder feminino, com certeza irão defendê-la nesse ponto (e nos outros). Em sua obra The Homeric Gods, Walter Otto chama Atena de 'deusa sempre-próxima' ("ever-near"). Ele diz que Atena é "a consumação", "o presente imediato", "a ação aqui-e-agora", "a presença espiritual redentora", "a ação veloz", "a sempre perto".

Uma das mulheres de quem ela hoje é patrona a definiu uma vez como:
"a paz solene da neblina cinzenta da manhã, espalhando seu orvalho em todas as coisas vivas [...]. Ela é o livro exato que você acaba lendo no momento perfeito. Ela é o estado meditativo que acompanha a criação de toda arte. É bom procurar por Atena, mas é melhor saber que Ela já está com você. Ela é verdadeiramente a deusa que está sempre perto." (Glaux, tradução minha)
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Fontes:
http://www.mythphile.com/2010/10/the-goddess-athena-feminist-or-misogynist/
http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/virgin-athena.html
http://glauxnest.blogspot.com/2010/04/ever-near-goddess.html
http://www.ucd.ie/pages/99/articles/corcoran.pdf

outubro 18, 2010

De quem você é 'fio'?

Blogagem Coletiva:


Brasileiro já é uma misturinha de coisas, que foram se formando num país humano, hospitaleiro e sem xenofobias. Acrescente-se a isso o fato de estarmos a 510 anos do descobrimento e de não termos apenas a ascendência sanguínea de uma vida atual, fora adotarmos pessoas como mãe/pai ao longo do caminho.

De qualquer forma, deixa eu começar por aí. Em termos de alma, sei bastante sobre uma vida anterior, mais ou menos sobre outra, e alguns relances de outras três. Elas incluíam Islândia, Rússia (Cáucaso), Grécia, Macedônia, Itália, América Indígena e Brasil colonial. E é engraçado como a alma afeta o corpo, já que - quando tentei estudar romeno e grego - os professores costumavam dizer que eu tinha cara de mulher dos Bálcãs mesmo, ainda que esta vida atual nada tenha a ver com essa região. Nesta, do pouco que sei, tenho ancestrais que vieram da França e de Portugal, ainda que nascer na Amazônia e ter grande parte dos parentes numa parte "macarrônica" do sudeste me faça sentir identificação tanto com os índios quanto com os italianos. Um outro fator que sinto formar minha história são as mães e pais que eu fui adotando: minha professora de canto e meu ex-sogro de origem alemã, minha orientadora de psicologia que tinha ascendência turca, minha xamanesa que era judia, e tantas outras pessoas queridas às quais me sinto conectada, ligada, atada, como o tal fio de uma coisa só. Então, acredito que esmiuçar todas essas influências seria um tanto extenso para o que realmente pretendo com esta postagem.

Existe um ritual, que todos conhecemos e não costumamos refletir sobre ele, que é o indício da existência de parentesco entre as pessoas envolvidas. É o famoso comer à mesa. Não é só sentar à volta da mesa. É sentar para comer. Quantas famílias não exigem que se coma em torno da mesa pelo menos uma vez ao dia (ou, no mínimo na ceia de Natal, no Hanukkah, na Ação de Graças, o que seja)? E por que isso? Muitas vezes estamos repetindo uma tradição sem pensar nela como a celebração de uma comunhão. As pessoas que se reúnem para comer estão anunciando que são da mesma carne e mesmo sangue, estão compartilhando pedaços (partes) de uma refeição completa (o todo) que as fazem ser também partes de uma coisa só. Estão declarando suas afinidades de "corpo e sangue" no "pão e vinho" ou "bolo e mel" ou "cevada e água" ou o que quer que seja servido. O importante é partilhar do banquete pela assimilação orgânica que se insere e toma conta do seu corpo em declaração de aceitação do laço que une quem ritualiza com você. Não é à toa que o altar é uma mesa. E a mesa é igualmente um altar. Nela se colocam os frutos da colheita e os sacrifícios (com ou sem sangue). É o tipo de coisa que não só aproxima deuses e homens, mas também os membros da comunidade (que, aliás, também tem o nome de "frátria", de irmandade). Logo, aceitar alguém à sua mesa é tomá-lo/considerá-lo como seu parente.

Talvez por isso que quando nos encontramos com amigos com os quais queremos manter um relacionamento mais próximo nos acabamos saindo para comer. Já repararam? E é por isso que acho importante ver pessoalmente os amigos virtuais nem que seja por um fim de semana, e não teve uma cidade em que fui que não rolou alguma refeição em grupo. Mesmo quando ia visitar alguém mais íntimo, em algum momento não sentávamos à mesa sozinhos/as.

Uma outra coisa nesse tema é a questão do fio, algo que inevitavelmente me lembra o tear dos Destinos. Apesar de o fio ser cortado, encerrando aquela vida, a morte não dá fim à existência da alma nem à sua história e relação com o sagrado de onde ela partiu. E, durante cada vida, cada fio se desenrola em outros e formas novos, ficando complexo, com várias raízes e pontas. Todo mundo é "filho" de alguém e todo mundo faz "fio" com alguém. Nesse sentido, não só adotamos gente como a nossa gente é adotada por outros. Provavelmente, muitos coroinhas viam os meus pais como seus novos tutores e muitos alunos também nos vêem assim. A rede de inter-relações é infinita. Fora o que dizem sobre existir no máximo seis pessoas entre você e qualquer outro alguém no mundo. Enfim, somos uma grande família (e, como toda família, gostamos mais de alguns do que de outros).

O dramaturgo Samir Yazbek, de origem libanesa, uma vez disse: "Aquilo que inicialmente tinha a ver com a minha história era passível de ser universal. Meu pai e minha mãe são também os pais e as mães das pessoas. Esse tema de raízes é muito presente no cotidiano brasileiro com essa grande influência de cultura de imigração".

Raízes. Não deve ser por acaso que, ao traçarmos nossa genealogia, desenhamos uma árvore. Tudo vem de uma coisa só: as folhas dos galhos, os galhos do tronco, o tronco das raízes, as raízes da terra, a terra do planeta, o planeta do universo, o universo... dos deuses, imagino. E os deuses talvez de um Uno semelhante ao ovo cósmico primordial, quem sabe? De qualquer forma, tudo se ramifica e retorna, tudo volta a se juntar algum dia. Independente de ser em sangue, carne, leite de peito, espírito reencarnado, geologia, antropologia, nascimento, sentimento, deuses patronos, fé em comum, ou o que seja.

Este mês aconteceu algo curioso comigo, sonhei com alguém que mora em outro país e que nunca vi pessoalmente e que só tenho contato de interesses religiosos em comum, nunca fui de papear via e-mail ou programa de mensagem instantânea com ele. Ainda assim, meu sonho me mostrava ele incomodado com tomate e molho de tomate, e resolvi contatá-lo para contar o sonho. Qual não foi minha surpresa quando ele disse que ultimamente tem desenvolvido uma alergia a tomates e derivados. Não foi a primeira vez que experimentei essa espécie de conexão que me surge (brota?) sem explicações. Mas eu aprendi a falar dela sem medo, mesmo quando eu não a entendo. Normalmente vai fazer sentido para alguém ou vai me demorar a cair a ficha, mas ela existe, é válida, é um sinal dessa coisa que guardamos em comum com todo o resto do mundo. Se ela vem de antes, da antiguidade, dos ancestrais, o que mais nos une a eles é que fazemos as mesmas coisas: procurarmos por deidades que nos assistam e nos banqueteamos com elas, com os antepassados, com os amigos, e com os que ainda virão.

Memórias, lembranças, saudades, carinho... Isso podemos ter com todos. É só conseguirmos abrir um pouco mais os olhos da alma.



Participe!

outubro 07, 2010

Sonho com Hermes

Estes dias tivemos um rito para as Ninfas, Akhelous e Hermes. Para celebrar esses sacrifícios, que aconteciam na antiga Erchia, usei bonequinhas de ninfas em cima de um mapa dos Bálcãs (que inclui a Grécia, para lembrar o rio Akhelous) onde também estão algumas das minhas jardineiras de plantas (para lembrar também Gaia, com a terra), uma pedra cortada de interior de cristal para Hermes ('hermai') e uma vela de canela. Consagrei a chama à Héstia e fiz duas preces, uma para Akhelous e Hermes e outra para as ninfas e Gaia (veja as duas no site). Refleti um pouco sobre essas deidades e o aspecto mensageiro de Hermes, como deus das estradas e tudo o mais. Foi um rito super-rápido e eu fiquei meio sentida por não ter conseguido ir até um rio ou lagoa, porque estava muito cheio de carros perto quando passei por lá, então fiquei pensando se tinha valido algo tão simples.

Mas na noite seguinte ao rito, no meio de um sonho normal, vejo 'um cara' andando rápido entre as pessoas e reparei que era Hermes, pois estava com um capacete que parecia casco de tartaruga (pelo formato, mas era liso - sem aqueles desenhos geométricos), com asinhas na cabeça (não sei se na cabeça ou no capacete) e nos pés, e roupa vermelha grega. O curioso é que não era nem chiton nem himation nem exomis, era uma peça única leve e aberta, que ao acordar imaginei que fosse uma clâmide. Fui olhar no nosso site e não lembrava que a clâmide - além de ser roupa de soldado, com a abertura para deixar a mão da espada livre - era também roupa de mensageiro, porque deixa o braço livre para conduzir carruagem e entregar coisas. E ele era magro, provavelmente pela questão da agilidade.

Então, mesmo na sua típica pressa, ele encontrou uma forma de me mostrar que meu momento valeu a pena sim, que ele gostou da lembrança. E eu pela primeira vez o vi "em pessoa" assim tão claramente (ao menos o que dá para vermos de alguém que está passando no meio do povo... rsrs!).

Espero que isto sirva de reflexão para quem ainda acha que Eles não respondem ou não se importam...