outubro 30, 2014

Como um cabrito no leite

Esta semana o pai de uma helena faleceu. Um poeta comprometido com a pólis, as Musas e os deuses. Não pude deixar de pensar nos órficos ao fazer um rito por ele, com incenso grego em grãos de ópio, libação de mel por uma doce passagem, lanterna de vela na parede para iluminar o caminho, estola nos ombros, altares estratégicos e uma série de fórmulas que deixou o ambiente com uma energia sublime. Além disso, o cenário era um pôr-do-sol, e ele se põe na direção da janela de onde eu estava. Apolo Pythio completou a cerimônia com um breve oráculo para a família.


Há uma famosa inscrição encontrada em lâminas douradas em túmulos de Thurii, Hipponium, Thessalia e Creta (século IV AEC e seguintes) dando instruções aos mortos. Quando o falecido chega no submundo, ele encontra obstáculos a confrontar, como o de não beber do rio Lethe (Esquecimento) próximo aos ciprestes brancos e sim do poço de Mnemosine (Memória). Ele também deve se apresentar aos guardiões do pós-morte dizendo "Sou filho da Terra e do céu estrelado. Estou seco de sede e estou morrendo; mas rapidamente me concedam água fria do Lago da Memória para beber." Porém, além deste, outros textos órficos me vieram à mente.

A tábua dourada órfica de Pelinna traz o seguinte: "Agora você morreu e agora você nasceu, três vezes abençoado, neste dia. Diga a Perséfone que o próprio Baco te libertou. Um touro você correu ao leite. Rapidamente, você correu ao leite. Um carneiro você caiu dentro do leite. Você tem o vinho como sua honra fortunada. E os ritos esperam você abaixo da terra, assim como os outros abençoados." E a tábua dourada órfica de Thurii diz assim: "Rejubile-se na experiência! Você nunca experimentou isso antes. Você se tornou divino em vez de mortal. Você caiu como um cabrito no leite. Saudação, saudação, enquanto viajas na noite através do Prado Sagrado e dos Bosques de Perséfone."   

Edward Butler interpreta esse motivo recorrente assim: o slogan órfico "Um cabrito, eu caí no leite" seria como dizer que fui jogado em um mundo não de minha criação, mas que descobri que foi feito de significados. Não seria uma questão de interpretar nossa própria vida, mas que nos tornamos um "fenômeno" a ser interpretado por outros. É isso que um herói é, um mortal que se tornou um campo de significados. Essa não-indiferença do mundo também está na base das representações da "ama mística" de animais. Lá, porém, a bacante provém leite para uma alma representada como um jovem animal selvagem. Isso sugere tanto que, ao nos tornarmos iluminados, nos tornamos uma luz para outros, e também que trazemos à luz as partes não-desenvolvidas de nós mesmos. Portanto, as descrições do iniciado como "límpido" não são mero entusiasmo, o iniciado é como um novo Phanes.

A isso, Sannion respondeu: "o universo no qual esses mitos se desenrolam é fundamentalmente um universo trágico – até os deuses experimentam vicissitudes, então o homem não tem esperança de escapar delas. Mais que isso, devemos usar o conflito que inevitavelmente enfrentaremos para aperfeiçoar a nós mesmos e enobrecer nossos espíritos. Devemos passar através do pesar até o júbilo, deixando queimar tudo o que for falso e inútil dentro de nós – você não consegue alcançar um senão pelo outro. Devemos encontrar o divino no monstruoso, o profano no sagrado, sermos destruídos para conhecer a medida completa da vida – somente quando estamos no limite, sem nada mais a perder e nenhum pensamento pelo qual poderíamos ganhar, seremos verdadeiramente livres, verdadeiramente vivos. A filosofia heróica é a que Orfeu ensinou aos gregos; como sofrer bem e ansiar pela morte."

E então o Mr. VI (do blog Cold Albion) acrescentou: "Como filho da terra e do céu estrelado, o iniciado é elevado na morte – todos os heróis estão mortos afinal, voltando para interceder e conectar; rostos familiares como máscaras nas quais podemos ver nossa própria semelhança e reconhecer nossa natureza como mortais daimonicamente imortais."

Para mim, cair como um cabrito no leite é como mergulhar na fonte da qual você bebia, é imergir na totalidade do elemento que te dava vida, tornar-se um com aquilo que te alimentava. A energia divina te impregna e você "se tornou divino em vez de mortal", ao alcançar os bosques sagrados e receber a honra de ter vinho e leite libados em sua memória. "Três vezes abençoado" como o Dioniso trinascido, você encontra seu elemento e ganha nova vida. Isso é uma das coisas que acontecem quando trilhamos os caminhos órficos e dionisíacos.

Quanto ao nosso amigo, espero que beba da ciência dos deuses, livre das dores e limitações do corpo físico, e possa repetir que "o próprio Baco me libertou"...


(Fontes -
http://thehouseofvines.com/2014/09/07/all-the-good-stuff-is-real-but-isnt-myself-included
http://thehouseofvines.com/2014/09/07/orphic-rap-battle/
http://www.cold-albion.net/2014/09/orphic-slogan-thoughts/ e
http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic212431.files/The_Orphic_Lamellae.pdf)

outubro 24, 2014

Os 5 Sólidos Platônicos

"E quando, depois de se despir do seu corpo mortal, 
você chegar no mais puro éter,
você deverá ser um deus." (Pitágoras)

Hoje recebi um conjunto de sólidos platônicos em ametista, que encomendei, e resolvi vir aqui explicá-los. Eles aparecem no diálogo Teeteto, onde Platão afirma que só existem cinco sólidos tridimensionais uniformes regulares. Timeu, personagem em outro diálogo de Platão, associa esses sólidos aos elementos. Esses sólidos também são citados na obra Elementos, livro XIII, de Euclides.


Os pitagóricos acreditavam que o Universo e tudo nele é construído usando os sólidos platônicos. Em pequena escala, muitas moléculas têm as formas dos sólidos platônicos; em larga escala, o próprio universo parece ter sido construído usando a geometria desses sólidos. O que isso quer dizer? Que nosso universo é uma matriz fractal, elencada do infinitamente pequeno ao infinitamente grande. 

Esses sólidos são cinco formas geométricas que têm lados, arestas e ângulos congruentes. Seus lados têm a mesma forma geométrica e cada ponto tem a mesma distância do centro. São eles o Tetraedro, o Cubo (Hexaedro), o Octaedro, o Icosaedro e o Dodecaedro. O cubo tem um quadrado em cada lado, o tetraedro, o octaedro e o icosaedro possuem triângulos em cada lado, e o dodecaedro tem um pentágono em cada um dos seus doze lados. Os vértices desses cinco poliedros são as mais simétricas distribuições de 4, 6, 8, 12 e 20 pontos em uma esfera (respectivamente: tetraedro, octaedro, cubo, icosaedro, dodecaedro). 

Para os pitagóricos, o universo era composto de quatro elementos: fogo (radiação), terra (sólido), ar (gasoso) e água (líquido). Essas partículas estariam nos poliedros platônicos, a saber: o agudo Tetraedo era conotado com o elemento fogo (pyr=fogo, 'pyramis' era outro nome para o tetraedro, de onde vem 'pirâmide'), o Cubo com o elemento terra (estabilidade de suas bases quadradas, das quatro direções), o Octaedro com o ar (intermediário entre o fogo e a água) e o Icosaedro com a água (a água é o mais denso e mais penetrante dos elementos fluidos, como o icosaedro é o maior dos quatro primeiros sólidos). O planeta Terra seria cercado por um desses sólidos, que é cercado por outro, e assim por diante. Ou seja, a grade de linhas e vértices eletro-magnéticos da Terra é composta de grades menores, cada uma na forma de um sólido platônico diferente. Por exemplo, se você desenha uma diagonal em cada face do cubo a fim de elas se unirem num canto, você forma um tetraedro. 

Mas há um quinto sólido, o dodecaedro, que é o poliedro mais difícil de construir, porque o desenho do pentágono requer uma aplicação elaborada do Teorema de Pitágoras. O elemento que estaria na forma do dodecaedro é o Éter, o espírito divino. O éter é a fonte de todas as coisas que surgem no Espaço e Tempo, e é ele que circunda a Terra e todos os outros quatro sólidos combinados. Diz-se que, entre os pitagóricos, a alusão e mesmo a pronúncia do nome do “Dodecaedro” (o mais sagrado de todos os poliedros, que encerrava as mais importantes chaves numérico-cosmogônicas) eram rigorosamente proibidos fora do recinto interno. Referiam-se a ele como "esse Deus usado no delineamento do universo" (a palavra grega no Timeu traduzida como "delineamento" é 'diazographein', pintura semelhante à vida) e como "a construção que Deus usou para tecer as constelações no céu". Aristóteles também postulou que os céus eram feitos de um quinto elemento, que ele chamava de 'aithêr' (éter). O icosaedro e o dodecaedro geometricamente formariam um par, pois cada um cria o outro a partir do centro de suas faces.

O cubo seria o homem terrestre, de ângulos retos. Nos elementos voltados para o interior (água, fogo e ar), os poliedros contêm triângulos, ou seja, figuras geométricas cujos ângulos são agudos (virados para dentro). Quando o homem se abre para o cosmo e o infinito, temos o dodecaedro, de ângulos obtusos (108º), o homem celestial.

Os sólidos platônicos também encerram curiosidades numéricas. Por exemplo: 
# A soma dos ângulos das quatro faces do tetraedro (fogo) é 720. A velocidade do sistema solar é 7200 km/h, 72 graus existem entre cada ponto do pentagrama, é preciso 72 anos para a precessão dos equinócios mudar um grau, 720 = 1 × 2 × 3 × 4 × 5 × 6, a temperatura ambiente em Fahrenheit é 72, 72 é o número médio de batidas do coração de um adulto em repouso, a duração da vida de um óvulo é 72 horas, na Cabala há 72 nomes para deus, entre muitas outras observações. 
# A soma dos ângulos dos oito lados do octaedro (ar) é 1440. Há 1440 minutos em um dia, 144=12x12 (há 12 horas no relógio, 12 signos do zodíaco, 12 deuses olimpianos), 144 é um número de Fibonacci com relação com a razão áurea, há 144000 dias no ciclo baktun do calendário maia etc. Cristais de fluorita normalmente são octaedros.
# A soma dos ângulos dos lados do cubo (terra) é 2160. 2160 é o número de anos numa Era Zodiacal, 2160 é o diâmetro da lua em milhas, 2160 é metade de 4320 (em média, o coração humano bate 4320 vezes numa hora e a contagem das respirações dá-nos a cifra de 18 vezes por minuto, o que totaliza 4320 vezes em 4 horas), a soma total de triângulos elementares - equiláteros e isósceles (no caso do Cubo) - contidos nos sólidos correspondentes aos 4 Elementos é 120 + 48 + 24 + 24 = 216, etc. Em 430 AEC, o oráculo de Delfos instruiu os atenienses a dobrar o volume do altar cúbico de Apolo sem alterar seu formato, um problema considerado de impossível solução se usássemos apenas a geometria euclidiana.
# A soma dos ângulos do icosaedro (água) é 3600. 360 graus é um ângulo redondo, 36 é o grau interior de cada ângulo do pentagrama, 36 deuses participaram da criação do primeiro humano num mito maori, há 36 tattvas descrevendo o absoluto no shivanismo, 36 velas são acesas no chanucá judeu, bem como 36 justos em cada geração, 36/3=12 (que já falamos acima) etc. As arestas opostas de um icosaedro formam retângulos de seção áurea. 
# A soma dos ângulos do dodecaedro (éter) é 6480. 6+4+8+0=18 (36/2). A distância entre os vértices no mesmo lado não conectado por uma aresta é φ (número áureo) vezes o comprimento da aresta, o centro de cada lado do dodecaedro forma três retângulos áureos intersectos. Já falamos sobre o 12 dos seus 12 lados, mas acrescentamos que o dodecaedro também representava as 12 notas da escala musical (as 7 naturais + os 5 sustenidos). Há diversos tipos de dodecaedro, mas preste atenção para não ser feito de "tolo" com o piritoedro (dodecaedro com faces pentagonais idênticas porém irregulares, com simetria tetraédrica, como as do cristal pirita, o famoso "ouro de tolo"), vale a pena pesquisar.
# A soma dos graus dos ângulos da totalidade dos sólidos fundamentais é 14.400. Este valor multiplicado por três é igual a 43.200 - a centésima parte de um composto dos 4 Yugas. 40 “dias filosóficos” designam um período de purgação alquímica, o Dilúvio - ou “purificação pelas Águas” - teve a duração de 40 dias, é de 40 dias o tempo estimado para qualquer “quarentena” depois de um surto epidêmico, a quaresma tem a duração de 40 dias e culmina com um “renascimento espiritual”. Também já falamos desse número no octaedro.
# A soma de triângulo com quadrilátero e pentágono (3+4+5)=12, número de faces do dodecaedro, o contenedor da 5ª Essência geradora dos 4 Elementos (e o único poliedro regular no qual todos os outros se inscrevem). O Dodecaedro, considerado como o símbolo por excelência da Harmonia Cósmica por Platão (cuja reverência por Pitágoras era bem evidente), representa a amplificação da potência da “Razão Áurea” presente em todo o Universo. Esta proporção (de 1,618) mantém uma íntima relação com a chamada “Música das Esferas” ou “Harmonia das Esferas”, também um conceito de Pitágoras. 

Iâmblico diz que Hipaso, um pitagórico, morreu no mar porque ficou se gabando de ter sido o primeiro a divulgar sobre "a esfera dos doze pentágonos", o dodecaedro. O dodecaedro era usado como dado, inclusive em sistemas oraculares, de adivinhação. Vários dodecaedros ocos de bronze foram encontrados em ruínas romanas da era helenística. Nos RPGs modernos também são utilizados dados de doze lados. Em Aberdeenshire, na Escócia, um grupo de pedras com o formato dos cinco sólidos, de mais de 4.000 anos de idade, foi encontrado em círculos de pedras.

Nós somos homens terrestres (cubo) que precisam se voltar para dentro (tetraedro, octaedro, icosaedro) a fim de se conhecerem para encontrar o seu eu celestial (dodecaedro). Ter a representação dos sólidos platônicos no altar é mais uma maneira de nos lembrarmos do "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses".


outubro 22, 2014

Tornar-se quem se é


Quando Urano não saía de cima de Gaia, isso causava a ela desconforto. O caçula, Cronos, utilizou então uma foice para cortar o membro do pai, separando o Céu da Terra, como temos hoje. Nesse intervalo entre o céu e a terra, existe o tempo e o espaço. É aí que as gerações se sucedem, que a vida ganha um começo, meio e fim. Uma vida que acaba para outra começar. Essas coisas só são possíveis no tempo e no espaço, e quem proporcionou isso foi Cronos. 

Como atacou o pai, tinha medo dos filhos, e os engolia. Ele estava numa posição confortável e não queria mais mudanças. Aquele que tinha sido subversivo com o pai Urano, tornou-­se um conservador, pois temia as alterações que ameaçassem sua soberania. Por isso que cometia as atrocidades de engolir os filhos. É assim que costumamos ver a mudança: dependendo da posição que ocupamos, do conforto que temos, do prazer que nos dá estar no lugar que estamos. Entendemos a mudança como boa ou ruim dependendo dos nossos interesses e desejos.

Mas Gaia deu-­lhe uma pedra no lugar do caçula, e assim salvou-­se Zeus, que libertou os irmãos. Mais tarde, Zeus também temeu a mudança, engolindo Métis quando esta estava grávida de Atena. Esta também deu um jeito e nasceu da cabeça do pai.

Só que Zeus fez diferente de Cronos. Zeus distribuiu o mundo entre seus correligionários. Assim, a ordem universal passou a ser baseada na justiça de dar a cada um o que lhe é devido. Zeus restabeleceu a ordem. Ninguém ficou de fora, todos tinham uma função, uma finalidade, um papel, de dependência recíproca. Agora viver bem é viver em harmonia com a ordem universal.

Cabe a nós encontrarmos o nosso lugar natural, onde desempenharemos nossa finalidade, pois, se vivermos em desarmonia com o todo, o todo sofre e nós também sofremos. E esse lugar tem a ver com o que faz nos sentirmos bem, com o nosso talento, com a nossa natureza, com a nossa aptidão. O universo espera que sejamos felizes com o que temos de melhor, de mais excelente.

Por isso é importante nos conhecermos, para saber nosso encaixe no todo. “Conhece-­te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. Quando fazemos apenas o que for preciso, se entramos num emprego 'nada-a-ver' só porque é onde tem vaga, não estamos alinhados com o nosso talento natural, e isso afeta a saúde (ordem, harmonia) do grupo inteiro. Para haver um cosmo harmônico e uma convivência feliz, os membros do cosmo também precisam estar em harmonia. “Em cima como embaixo”. O macrocosmo e o microcosmo são reflexo um do outro.

O filósofo mais conhecido com relação à mudança é Heráclito, aquele que diz que tudo flui, que nada é permanente, tudo se transforma em algo diferente, tudo deixa de ser, o tempo todo. É o cara que disse “não te banharás duas vezes no mesmo rio”, pois ou o rio mudou ou você mudou. A água é outra, a temperatura é outra, a força da correnteza é outra, sua vida se transformou... Você e o rio são dois entes em fluxo permanente, e seu encontro é sempre inédito. Somos sempre iludidos pela possibilidade de permanência: achamos que nosso cônjuge é o mesmo, a aula daquele professor é a mesma, a plantinha da varanda é a mesma, pois a mudança neles é mais sutil.

Existe uma alegoria da rã (triste, por sinal), que conta sobre uma rã que está na panela com água à temperatura ambiente, e que o cozinheiro vai aumentando aos poucos, levemente, a ponto de a rã não perceber a discreta mudança, mas no final já foi cozida e nem se deu conta. Muitas vezes acontece assim conosco. Estamos tão acostumados no dia­a­dia que nem percebemos que passaram­-se 10 anos e ficamos acostumados a acreditar que conhecemos onde estamos como a palma da nossa mão, que está tudo confortável e seguro, como sempre foi... até a água ferver. E aí percebemos tarde demais que já nos transformamos e nem soubemos lidar com isso.

Algumas das principais condições para uma mudança sadia (harmônica, ordenada) é o diálogo, como fazia Sócrates. Ele partia da premissa do “nada sei” e tentava dar uma definição ao conhecido, só para acabar percebendo que aquilo não era o que pensávamos antes. Todo aquele que está disposto a dialogar, está também disposto a mudar – o pensamento, a alma etc. Para dialogar, é preciso saber ouvir. Ouvir e considerar o que se ouviu. Considerar e admitir quando o argumento superar o seu próprio. Às vezes dói perceber que estávamos equivocados e que o outro possuía uma percepção que não tínhamos. Nascer uma nova ideia é como um parto – a arte da maiêutica. Um parto é angustiante e exige esforço, disposição, sacrifício. Mas traz benefícios. Assim é a mudança.

Para Aristóteles, toda matéria é uma potência, uma possibilidade. A determinação é que converte a matéria em forma, a potência em ato. Como um bloco de mármore que vira escultura. A matéria é o mármore, a estátua é a forma. Tudo o que existe é potência virando ato. Todos nós somos possibilidades. Precisamos atualizar com excelência ('areté') nossas potencialidades. Quando fazemos coisas para as quais não temos aptidão, nos curvando ao mediano em vez do excelente, desrespeitamos nossas potencialidades, nossos talentos. O que temos que saber é de mármore somos feitos e que escultura queremos virar.

(Texto adaptado de anotações de vídeo-aulas sobre Gestão e Mudança, do 
Prof. Clóvis de Barros Filho, graduado em direito, jornalismo e filosofia, 
com mestrado e doutorado em direito e doutorado em comunicação.)

agosto 19, 2014

'Meditação Sobre a Lua'

Aldous Huxley tem um texto criticando as filosofias excludentes que afirmam que uma coisa são apenas uma coisa e não outra, sem considerar a multiplicidade do ser e suas mudanças. Ele explica isso com o exemplo da lua, de uma forma mitopoética permeada de lógica e filosofia - a lua não é só uma pedra, mas também uma deusa. Sua luz numinosa se lança do céu sobre nós. Segue a tradução do que escreve Huxley: 



MEDITAÇÃO SOBRE A LUA 
por Aldous Huxley (1931), tradução da Álex (2014)

Materialismo e mentalismo - as filosofias do 'nada além.' O quão extremamente familiar nos tornamos com aquele 'nada além de espaço, tempo, matéria e movimento', que 'nada além de sexo', que 'nada além de economia'! E o não menos ignorante 'nada além de espírito', 'nada além da consciência', 'nada além de psicologia' - o quão tedioso e cansativo eles também são!O 'nada além' é tão maligno quanto idiota. Falta generosidade. Chega disso. É hora de dizer novamente, com o primitivo senso comum (mas por razões melhores) , 'não só, mas também'.

Do lado de fora da minha janela, a noite está se esforçando para acordar; na luz da lua, o jardim escurecido sonha tão vividamente com suas cores perdidas que as rosas negras são quase carmim, as árvores permanecem em expectativa no limiar de um verde vívido. O parapeito do terraço branco e límpido brilha contra o céu azul-escuro. (O oasis jaz ali embaixo e, além da última das palmeiras, é aquilo o deserto?) Os muros brancos da casa friamente reverberam a radiação lunar. (Devo me virar para olhar as dolomitas se erguendo nuas para fora das longas ladeiras de neve?) A lua está cheia. E não só cheia, mas também linda. E não só linda, mas também...

Sócrates foi acusado por seus inimigos de ter afirmado, hereticamente, que a lua era uma pedra. Ele negou a acusação. Todos os homens, disse ele, sabiam que a lua é uma deusa, e ele concordava com todos os homens. Como resposta à filosofia materialista do 'nada além', sua réplica foi sensível e até científica. Mais sensível e científica, por exemplo, que a réplica inventada por D. H. Lawrence em seu estranho livro, tão verdadeira em sua substância psicológica, tão absurda, muito frequentemente, em sua forma pseudo-científica, Fantasia do Inconsciente. 'A lua', escreve Lawrence 'certamente não é um nevoso mundo gélido, como se o nosso mundo tivesse ficado frio. Baboseira. Ela é um globo de substância dinâmica, como rádio ou fósforo, coagulada sobre um vívido polo de energia'. A falha nessa afirmação é que ela se revela demonstrativamente falsa. A lua certamente não é feita de rádio ou fósforo. A lua é, materialmente, 'uma pedra'. Lawrence estava irritado (e com razão) com os filósofos do nada-além que insistiam que a lua era apenas uma pedra. Ele sabia que era algo mais; ele tinha a certeza empírica de seu profundo significado e importância. Mas ele tentou explicar esse fato empiricamente estabelecido com os termos errados, em termos de matéria e não de espírito. Dizer que a lua é feita de rádio é bobagem. Mas dizer, como Sócrates, que ela é feita de algo divino é bastante acurado. Pois não há nada, claro, que impeça a lua de ser tanto uma pedra quanto uma deusa. A evidência para sua mineralidade pode ser encontrada em qualquer enciclopédia infantil. É uma convicção absoluta. Não menos convincente, porém, é a evidência para a divindade da lua. Ela pode ser extraída de nossas próprias experiências, dos escritos dos poetas, e, fragmentalmente, até de certos livros-textos de fisiologia e medicina.

Mas o que é essa 'divindade'? Como devemos definir um 'deus'? Expressado em termos psicológicos (que são primários - sem nada por trás), um deus é algo que nos dá a peculiar espécie de sentimento que o Professor Otto chamou de 'numinoso' (do latim 'numen', um ser sobrenatural). Sentimentos numinosos são a coisa divina original, da qual a mente que elabora teorias extrai os deuses individualizados dos panteões, os vários atributos do Uno. Uma vez formulada, uma teoria evoca, por sua vez, sentimentos numinosos. Portanto, o terror dos homens em face do universo enigmamente perigoso os leva a postular a existência de deuses irritados; e, mais tarde, pensar sobre esses deuses irritados os fazia sentir terror, mesmo quando o universo não lhes dava qualquer motivo para alarde no momento. Emoção, racionalização, emoção - o processo é circular e contínuo. A vida religiosa do homem trabalha no princípio de um sistema de água quente.

A lua é uma pedra; mas é uma pedra altamente numinosa. Ou, para ser mais preciso, é uma pedra sobre a qual e por causa da qual homens e mulheres têm sentimentos numinosos. Portanto, há um suave luar que pode nos dar uma paz que fica além da nossa compreensão. Há um luar que inspira uma espécie de assombro. Há um frio e austero luar que conta à alma de sua solidão e desesperado isolamento, seu significado ou sua falta de clareza. Há um liar amoroso instigando a amar - a amar não só um indivíduo, mas às vezes até o universo inteiro. Mas a lua brilha no corpo assim como dentro da mente, através das janelas dos olhos. Ela afeta a alma diretamente; mas pode afetá-la também por obscuros e sinuosos caminhos - através do sangue. Metade da raça humana vive em manifesta obediência ao ritmo lunar; e há evidências que demonstram que o fisiológico e consequentemente a vida espiritual, não apenas de mulheres, mas também de homens, misteriosamente mingua e cresce com as mudanças da lua. Há alegrias irracionais, tristezas inexplicáveis, risos e remorsos sem causa aparente. Suas repentinas e fantásticas alternações constituem o clima comum de nossas mentes. Esses humores - dos quais os mais gravemente numinosos podem ser hipostasiadas como deuses, os mais leves, se desejarmos, como duendes e fadas - são os filhos do samgue e dos fluidos. Mas o sangue e os fluidos obedecem, entre muitos outros mestres, a mutável lua. Tocando a alma diretamente através dos olhos e, indiretamente, junto aos canais escuros do sangue, a lua é duplamente uma divindade. Até os cachorros e lobos, a julgar pelo menos por seus uivos noturnos, parecem sentir, de alguma obscura maneira bestial, uma espécie de numinosa emoção com a lua cheia. Ártemis, a deusa das coisas selvagens, é identificada em mitologia posterior com Selene.

Mesmo se pensarmos na lua como apenas uma pedra, devemos achar sua própria mineralidade como potencialmente um numen. Uma pedra que ficou fria. Uma pedra sem ar e sem água e a imagem profética de nossa própria terra quando, a alguns milhões de anos de agora, o senescente sol tiver perdido seu atual poder de proteção... E por aí vai. Esta passagem poderia facilmente ser prolongada - um Estudo em Púrpura. Mas me abstenho. Deixo cada leitor pousar o quanto da cor retórica real ele achar de seu gosto. De qualquer modo, púrpura ou não púrpura, a pedra é pedregosa. Você não consegue pensar nisso por muito tempo sem se ver invadido por um ou outro de vários sentimentos essencialmente numinosos. Esses semtimentos pertencem a um ou outro de dois grupos contrastantes e complementares. O nome da primeira família é Sentimentos de Insignificância Humana, o nome da segunda é Sentimentos de Grandeza Humana. Ao meditar na abandonada pedra flutuando lá no abismo, você pode se sentir mais numinosamente um verme, abjeto e fútil em frente a imensidões completamente incompreensíveis. "O silêncio desses espaços infinitos me amedrontam". 

Você pode se sentir como Pascal se sentiu. Ou, alternativamente, se sentir como M. Paul Valery disse que se sentia: "O silêncio desses espaços infinitos não me amedronta". Pois o espetáculo dessa pedregosa e astronômica lua não necessariamente precisa fazer você se sentir um verme. Ele pode, ao contrário, fazer você se rejubilar exultantemente em sua condição humana. Lá flutua a pedra, o símbolo mais próximo e mais familiar de todos os horrores astronômicos; mas os astrônomos que descobriram esses horrores de espaço e tempo eram homens. O universo lança um desafio ao espírito humano; a despeito de sua insignificância e abjeção, o homem aceita. A pedra nos fita da escuridão sem fim, um 'memento mori' [lembrança da mortalidade]. Mas o fato de sabermos se tratar de um 'momento mori' justifica sentirmos um certo orgulho humano. Temos direito a nossos humores de sóbria exultação.

janeiro 30, 2014

Lua Negra ou Lua Nova?

Dentre as fases da lua, a lua cheia e os seus efeitos são os mais fáceis de se perceber. A lua negra já é mais sutil, embora seja tão poderosa quanto.


Enquanto a lua cheia dura um dia, a lua negra corresponde a três. No primeiro e no último desses três dias, existe uma minúscula faixa de lua (mesmo que só visível com equipamento adequado). Apenas no segundo dia, é que a lua realmente 'desaparece', e esse é o verdadeiro dia de lua negra, o dia limítrofe entre uma coisa e outra, um momento fora do tempo.

Chamar a lua negra de “lua nova” não é muito preciso e leva a muitas confusões. A lua nova seria o terceiro dia da lua negra. Pode-se achar que é uma questão de nomenclatura e que não precisamos ser tão acurados com reação à ausência de lua visível no céu, mas isso só será verdade se você não se interessar por (ou for incapaz de sentir) as energias sutis que afetam o planeta e nossas vidas nesse período. Mas, caso se interesse e/ou seja perceptivo, notará que se tratam de dois momentos distintos.

Na Grécia Antiga, o dia da lua negra era dedicado à deusa Hécate, e seu Deipnon (jantar/ceia) sagrado era celebrado naquele dia, o que ainda é feito pelos praticantes de hoje. Mas o dia “certo” não é uma questão de interesse apenas para os helênicos. 

Alguns dias do calendário são uma questão de escolha mútua em uma comunidade, de uma convenção social. Por exemplo, o Ano Novo cai em dias diferentes em culturas diferentes (ano novo do calendário gregoriano, ano novo judeu, chinês, helênico, hindu etc). As fases da lua, no entanto, não dependem da opinião popular.

A lua negra não é um dia de novos começos (não é lua “nova”). A noite de lua negra é um momento fronteiriço, ausente de tempo cronológico, no qual pensamentos e ações dirigidos para fora têm pouco efeito, mas quando a alquimia interna é poderosa. Para aqueles que desejam a refrescância dos novos começos, a lua nova (ou seja, o terceiro dia de lua negra) é o dia mais prático e sensível para essa abordagem. A lua negra de verdade é um dia para se voltar para dentro, para ficar em silêncio, e para se 'preparar' para a ação, e não para 'iniciar' alguma nova ação.

Não faz mal chamar a lua negra de lua nova (até porque teríamos que prestar atenção em qual dos 3 dias ela está), mas se você quiser mesmo experimentar e fazer fluir as energias certas que tenham um efeito real na sua vida, é bom compreender as sutilezas e os poderes naturais dessa diferença.

janeiro 25, 2014

Uma breve introdução sobre Kharis (Reciprocidade)

Pediram-me para ensinar sobre Kharis, então pensei que isso poderia ser útil para mais pessoas do que apenas uma resposta particular. Então, como fazia Sócrates, vamos primeiro definir as coisas antes de falar delas...
χάρις (kháris ou cháris) 
I. no sentido objetivo, graça ou favor visível;
beleza, propriedade de pessoas em seus retratos;
graça de coisas, de trabalhos;
glória.
II. no sentido subjetivo, graça ou favor sentido, seja pela parte de quem o faz quanto de quem o recebe;
da parte de quem faz - graça, gentileza, boa vontade, direcionada a alguém;
da parte de quem recebe, senso de favor recebido, agradecimento, gratidão por algo, reconhecer um favor, sentir-se grato.
III. no sentido concreto, um favor feito ou retornado, um benefício/bênção;
conferir um favor a alguém, fazer algo para favorecê-lo (e compeli-lo a cumprir um acordo);
retornar um favor;
pedir a retribuição, um retorno por algo que se recebeu;
concessão feita de forma legal;
favores prestados.
IV. gratificação, deleite.
V. [em referência a divindades] devida homenagem a eles, a seu culto, majestade;
ação de graças, presente em comum.
VI. usos especiais: retorno pelo favor de alguém, para agradá-lo, pelo bem dele;
por causa de alguém, para contentar o coração de alguém;
VII. metaforicamente: do cipreste, de alguma espécie de mirto/murta;
de sal;
Charis, esposa de Hefesto;
no plural Chárites, as Graças, três em número, usado também como um elogio; acompanhantes de Afrodite, pareadas com as Musas;
cultuadas em Orchomenus na Beócia, mas em Lacedaemon e Atenas apenas duas eram cultuadas, em evocações. 
(definições do Liddel & Scott 'Intermediate Greek-English Lexicon', traduzido pela Álex)

A religião grega antiga era mais baseada na ortopraxia (prática correta) do que na ortodoxia (crença correta). Martin Nilsson, em "Greek Folk Religion" (traduzido pelo nosso grupo AQUI) já citava que a devoção dos antigos era expressa principalmente por atos. 

O ritual grego pode quase sempre ser classificado como uma expressão de 'kharis', de reciprocidade. Walter Burkert, em "Greek Religion", diz que "O laço entre o homem e o sagrado é consumado na contínua troca de presente por presente" - aqui o original traz "gift for gift", que poderíamos traduzir "dom por presente" se considerarmos que recebemos graças dos deuses e lhes retribuímos com mimos.

Algumas pessoas podem entender esse processo de forma equivocada como uma forma crua de "pagamento" por uma boa sorte recebida, mas a kharis é algo bem mais sutil e de mais longo prazo do que isso. Simon Price, em "Religions of the Ancient Greeks", afirma que "o sistema ritual grego assumia uma escolha de ambos os lados. Presentes aos deuses não era uma maneira de comprar os deuses, mas sim de criar uma boa-vontade (disposição, afeição) da qual os humanos poderiam esperar se beneficiar no futuro". Assim como você dá presentes a quem você gosta para agradá-lo/a sem ser aniversário dele/a nem nada, e esse ato cria um laço amável e recíproco entre vocês, assim fazemos coisas para agradar aos deuses sabendo que eles também nos darão coisas legais quando for a hora certa.

Às vezes o povo acha que, por os deuses nos conhecerem internamente, eles saberiam que gostamos deles e não precisaríamos demonstrar isso externamente, visivelmente. Isso é uma ideia totalmente moderna (e provavelmente de gente preguiçosa, egoísta e acomodada), que foi influenciada pelo cristianismo. Os antigos sempre foram pessoas de atitude, de coisas reais, palpáveis, tangíveis. Se você está sempre ocupado demais para dar atenção, não quer gastar dinheiro com presentes, manda outra pessoa comprar uma lembrancinha por você, seu cônjuge/amigo/parente vai acabar te deixando. São nossos atos que tornam nossa devoção real - e não mero sentimento de crença. Afinal, os deuses não nos concedem apenas bons sentimentos, eles nos presenteiam com coisas reais também, então por que seriam obrigados a aceitar apenas sentimentos em troca? Seria negligência nossa ignorar isso.

E o que podemos ofertar? Carne, frutas, bolos, refeições especiais, coroas de flores, mechas de cabelo, incenso... Burkert menciona que o ato de oferta mais difundido/conhecido é espalhar um grão de incenso de olíbano ('frankincense') nas chamas. Em termo de ofertas líquidas, as libações de azeite, mel, vinho, água, leite, além de outras bebidas mais modernas. Além das ofertas perecíveis, existem também as ofertas votivas (como cumprimento de um voto ou como presente devocional), que incluem estatuetas dos deuses ou de seus animais, tripodes, vasos, tecidos, anéis, armaduras, máscaras, frascos de óleo, taças, relevos, fitas, cristais, coisas com os símbolos sagrados deles etc - como disse William Rouse em "Greek Votive Offerings": "Não há nada no mundo que não possa se tornar uma oferta votiva". 

O ritual no helenismo é algo bem simples, não precisa de uma série de palavras mágicas especiais, nem de penduricalhos e utensílios caros, nem de um monte de gente cada um com um papel a desempenhar. Lave as mãos, acenda a vela, jogue cevada no altar, leia um hino, faça uma oferta. Fazer alguma coisa visualmente bonita já vale muito, sem precisar de discursos e roupas estilosas junto. Pode-se incluir tudo isso se lhe agradar e se lhe ajudar a se concentrar, mas não é exigência. Provavelmente os antigos sacaram que o importante é poder fazer algo em qualquer lugar, sem ter que esperar ter dinheiro ou tempo para ir comprar algo, sem ter que passar dias se preparando etc. 

Além de através do ritual, pode-se desenvolver Kharis através do relacionamento com os deuses. Os deuses são reais, não são abstrações ou conceitos. Eles testemunham nossas vidas e nos permitem que testemunhemos as deles, mesmo se isso for além da nossa compreensão e com as nossas limitações de percepção do mundo. Atividades devocionais incluem escrever hinos, dançar, praticar esportes, preservar o ambiente, entre outras coisas, dependendo da deidade a quem se dirigem. Marcel Detienne e Giulia Sissa, em "The Daily Life of the Greek Gods", escreveram: "A crença grega incorporava tudo que era devido aos deuses: sacrifícios, preces, hinos, danças, purificações, ou seja, todos os 'ritos' - as práticas reconhecidas, as quais estavam em conformidade com o que se aparentava dizer ou fazer... Mas 'crença nos deuses' também significava que alguém vivia com eles, tinha negócios com eles, procurava a companhia deles. Socializar com os deuses, cultivá-los, em ambos os sentidos da expressão - tanto de devotar um culto a eles quanto de manter relações amigáveis com eles - frequentando seus altares, se dando bem com os poderes divinos: todas essas coisas eram maneiras senso-comum de dizer que a gente acreditava nos deuses, que lidávamos com eles socialmente". Drew Campbell, em "Old Stones, New Temples" também diz que as pessoas usavam a linguagem do ritual, da arte, da poesia, da música e da dança para expressar seu maravilhamento e gratidão aos deuses gregos. Ele acrescenta que "nossas ofertas de primeiros-frutos, nossas libações, são nosso próprio jeito de dizer o que os Helenos sempre disseram aos deuses: 'Por favor' e 'Obrigado'". 

E essas coisas são muito boas! Por isso que vamos terminar este texto indo para as fontes antigas, nesta citação de Plutarco: "nenhuma visita nos deleita mais do que aquelas a santuários, nenhuma ocasião é mais agradável do que a dos festivais, nada que fazemos ou vemos é mais doce do que nossas ações e visões diante dos deuses, quando tomamos parte em cerimônias e danças". 

(Referência: "Kharis - Hellenic Polytheism Explored", de Sarah Kate Istra Winter. Todos os trechos citados foram traduzidos do inglês pela Alexandra.)


Outras postagens de blogs helênicos que falam de Kharis, em inglês:

Artigo:

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dezembro 20, 2013

O bacanal não é no natal...

... e Dioníso não é 'Djísus'.


Nesta época do ano, começam a dizer que o 25 de dezembro era originalmente o aniversário de deidades antigas que foi assumido como o natal cristão. Se você falar de Mitra, é até aceitável. Se falar que o Natal teve origem no Sol Invictus ou na Saturnália, OK também. Mas dizer que era o nascimento de Dioniso, não bate. Você até pode celebrá-lo, afinal, existe o festival moderno dos "12 Dias Dionisíacos", e porque - sinceramente - sempre é época de cultuarmos Dioniso e celebrarmos sua energia de liberdade. Basta você não dizer que "na antiguidade" ele nasceu em dezembro, porque não há nada que confirme isso. 

Dioniso tem sim muita coisa a ver com o Jesus cristão em muitos aspectos que não precisamos elencar de novo aqui, mas não significa que são iguais, pois suas diferenças são maiores do que suas semelhanças. E uma delas é que não havia na Grécia Antiga um festival a Dioniso no solstício de dezembro. 

Primeiro de tudo, não existia "dezembro", o calendário era com ano solar e meses lunares, variava muito em relação ao calendário que conhecemos e utilizamos hoje, o gregoriano. Pode ser que houvesse um festival num dia do mês de Poseideon que - em algum ano aleatório - caísse no 25 de dezembro, mas isso não aconteceria todos os anos e demoraria um pouco a cair de novo na mesma data. 

Segundo, Dioniso nasceu várias vezes. Qual aniversário as pessoas alegam estar comemorando? O dia em que ele saiu dourado e alado do ovo órfico (Fragmento Órfico, 54), quando ele nasceu em Creta de Zeus e Perséfone (Biblioteca Histórica, de Diodoros Sikeliotes, 5.75.4), quando ele surgiu das chamas que queimaram Semele (Teogonia, de Hesíodo, 940), quando ele saltou da coxa de Zeus após completar sua gestação (Biblioteca de Apolodoro, 3.28), quando ele veio de Demeter (Diodoros, 3.62), de Dione (Escolástica em Píndaro, de Pitágoras, 3.177), de Amaltheia (Diodoros, 3.67), de Isis (Alexarkhos, fragmento 3.324), do Indus (Vida de Apolônio, de Filostrato, 2.9), do Lethe (Simposíacas, de Plutarco, 7.5) ou de outros tantos progenitores que se alega serem seus pais?

Terceiro, será que algum desses nascimentos foi no solstício de dezembro, início do inverno na Grécia? Vamos ver?

Diodoros (3.66.3) menciona um festival de nascimento de Dioniso em Teos: "Os teanos afirmam como prova de que o deus nasceu entre eles o fato de que, até hoje, em períodos fixos na sua cidade, uma fonte de vinho, de incomum fragrância doce, flui sozinha da terra”. Alguns acham que esse período fixo fosse no inverno, porque havia um milagre parecido em Andros, registrado por Plínio, o Velho: “Muciano, que foi três vezes cônsul, acredita que a água que flui de uma fonte no templo do Liber Pater na ilha de Andros sempre tem o sabor de vinho no dia 5 de janeiro: o dia é chamado de Dia do Presente de Deus... Se os jarros são carregados para fora da vista do templo, o gosto volta a ser de água." (História Natural 2.106; 31.16). Essa identificação tem alguns problemas, no entanto. Primeiro que as duas ilhas são muito longes uma da outra - Telos na Beócia e Andros na Eubeia - e com culturas muito diferentes. Segundo que Plínio não fala em nascimento do deus, e sim mais em uma epifania com Dioniso dispensando seus dons à humanidade de uma forma memorável. Não podemos dizer que sempre que um milagre de vinho acontece - por exemplo, quando as mênades em êxtase fazem sair vinho do chão ao baterem com o tirso nele - significa que o bebê Dioniso vai nascer.

Aelian (Sobre os Animais 12. 34) reconta um festival dionisíaco onde o nascimento do deus com chifres de touro era dramatizado: "As pessoas de Tenedos mantém uma vaca prenhe para Dioniso Anthroporraistos (Assassino de Homens) e, assim que ela tem seu bezerrinho, eles cuidam dela como se fosse uma mulher de resguardo. Eles colocam coturnos no bezerro e o sacrificam. Mas o homem que usou o machado recebe uma saraivada de pedras atiradas pela população, e ele foge até chegar ao mar." Mesmo não fornecendo datas, sabemos que esse festival não era no inverno, porque a temporada de parto do gado na Grécia é durante a primavera e o verão. Inclusive, Pausânias (8.19.2) menciona que no vilarejo arcadiano de Kynaithai, durante um festival de inverno, homens carregavam um touro (escolhido por inspiração divina) nos braços até o santuário, mostrando que o animal tinha atingido seu tamanho ideal nessa época do ano. 

Píndaro também menciona (Frag. 75) um festival em Tebas honrando Semele como mãe de Dioniso, mas este acontece “na abertura da fragrante primavera, quando as Horas trazem as plantas que exalam néctar” e “a terra imortal é decorada com violetas adoráveis e donzelas entrelaçam rosas em seus cabelos e cantam docemente acompanhadas de flautas para a deusa que ama a dança”. Essa seria uma boa razão para não crermos que Dioniso nasceu no inverno, pois no inverno as videiras parecem ramos inférteis. Dioniso tem uma conexão tão poderosa com o ciclo de vida das plantas que não faria sentido alguém dizer que essa é a época em que mais sentimos a 'juventude exuberante do deus'. Pareceria mais apropriado dizer isso na primavera, como Plutarco escreveu (Sobre Ísis e Osíris 69): “Os frígios acreditam que o deus dorme no inverno e acorda no verão, e com frenesi báquico eles celebram naquela estação o festival de ele ser ninado até o sono, chamado Kateunasmous, e na outra celebram seu despertar com o Anegerseis. Os Paflagonianos declaram que ele é agrilhoado e preso durante o inverno, mas que na primavera ele se move e se liberta novamente”. 

Diodoros (4.3.2-5) dizia que, em outras regiões, essa sequência não era encenada todo ano, mas ano sim e ano não, mantendo a rotação dos campos e o ciclo de vida da uva: "Os beócios e outros gregos e os trácios, em memória da campanha na Índia, estabeleceram sacrifícios ano sim e ano não para Dioniso, e acreditam que nessa época o deus se revela aos seres humanos. Consequentemente, em muitas cidades gregas, bandas de mulheres se reúnem ano sim e ano não, e é permitido às donzelas carregarem o tirso e se unirem na frenética folia, gritando 'Evoé!' e honrando o deus; enquanto as matronas, formando grupos, oferecem sacrifícios ao deus e celebram seus mistérios e, em geral, exaltam com hinos a presença de Dioniso, desta maneira agindo como mênades que, como registra a história, eram as antigas companheiras do deus".

Está certo que, em Delfos, esses ritos provavelmente aconteciam no inverno, conforme Plutarco (Sobre o Princípio do Frio, 18) que conta das Thyiades, as mulheres que celebravam os ritos de Dioniso, cujo nome vem de 'thýo' (sacrificar): "O frio é perceptível nas coisas mais duras e faz as coisas ficarem duras e inflexíveis. Teofrasto, por exemplo, nos diz que quando peixes congelados são soltos no chão, eles se quebram e partem em pedaços assim como objetos de vidro na louça de barro. E, em Delfos, você mesmo já escutou, tem o caso daqueles que escalaram o Parnaso para resgatar as Thyiades quando elas ficaram presas por um forte temporal e tempestade de neve, que as capas delas estavam congeladas tão duras como madeira que, quando as abriram, elas quebraram e partiram.” Mas o inverno era a época em que Dioniso controlava a Delfos de Apolo pois o arqueiro tinha partido para as Hiperbóreas, também conforme Plutarco (Sobre o E em Delfos, 9): "Dioniso não tem menos a ver com Delfos do que Apolo, embora Dioniso - a quem eles chamam Zagreus e Nyctelios e Isodaites - não é constante, e Apolo é. Há a sua passagem e a distribuição em ondas e água, e terra, e estrelas, e plantas e animais que nascem - e essa transformação eles descrevem como uma rendição e desmembramento. Pois Ésquilo diz: 'Em gritos misturados o ditirambo deve soar, com Dioniso festejando, seu Rei'. Mas Apolo tem o Peã, uma música sóbria e rígida. Apolo está sempre jovem e imutável; Dioniso tem muitas formas e muitas figuras, como representados nas pinturas e esculturas, que atribuem a Apolo a suavidade e a ordem e a gravidade sem mesclas, e a Dioniso uma mistura de esportividade e atrevimento, com seriedade e frenesi. [...] Os períodos em que eles governam não são iguais, são chamados 'saciedade' os mais longos e 'escassez' os mais curtos, preservando uma proporção, e usam o peã com seus sacrifícios para o resto do ano, mas no começo do inverno revivem o ditirambo, e param o peã, e invocam este deus em vez do outro, supondo que essa razão/proporção de três para um é a do 'Arranjo' da 'Conflagração'". 

E, um pouco depois de Dioniso dar caminho a Apolo que retornava a Delfos - ou seja, na primavera -, os atenienses celebravam a Anthesteria ou 'festa das flores', o casamento sagrado do deus com a rainha que trazia fertilidade à terra (Demóstenes, Contra Neaira 73-76): “E esta mulher ofereceu a você em nome da cidade os ritos sagrados inenarráveis, e ela viu que era apropriado a ela, sendo uma estrangeira, ver; e, sendo uma estrangeira, ela entrou onde nenhum outro ateniense, exceto a esposa do rei, entra; ela administrou o juramento às 'gerarai' que servem nos ritos, e ela foi dada a Dioniso como sua noiva, e ela executou em nome da cidade os atos tradicionais, muito sagrados e inefáveis, dirigidos aos deuses. Em tempos antigos, atenienses, havia uma monarquia em nossa cidade, e o reinado pertencia a aqueles que se sobressaíam por serem nativos. O rei costumava fazer todos os sacrifícios, e sua esposa costumava executar aqueles que eram mais sagrados e inefáveis – e apropriadamente, uma vez que ela era uma rainha. Mas quando Teseu centralizou a cidade e criou a democracia, e a cidade se tornou do populacho, as pessoas continuaram não menos do que antes a selecionar o rei, elegendo-o de entre os mais distintos em qualidades nobres. E eles passaram uma lei de que sua esposa deveria ser uma ateniense que nunca tivesse tido intercurso com outro homem, mas que se casasse virgem, para que, de acordo com o costume ancestral, ela pudesse oferecer os sagrados ritos inefáveis em nome da cidade, e que as cerimônias costumeiras deveriam ser feitas para o deus piamente, e que nada deveria ser neglicenciado ou alterado. Eles inscreveram esta lei em uma estela e a colocaram diante do altar no santuário de Dioniso em Limnais. Essa estela ainda está lá hoje, exibindo a inscrição em desgastadas letras áticas. Portanto, é pelas pessoas que testemunharam sua própria devoção aos deuses e deixaram um testamento para seus sucessores, que requeremos aquela que será dada ao deus como noiva e executamos os ritos sagrados para esse tipo de mulher. Por essas razões, eles a estabeleceram no mais antigo e sagrado templo de Dioniso em Limnai, para que a maioria das pessoas não pudesse ver a inscrição. Pois ela é aberta uma vez por ano, no décimo-segundo dia do mês de Anthesterion.”

Agora vamos pensar: durante o inverno, temos um Dioniso ctônico festejando no topo da montanha com mulheres dançarinas em frenesi, que largam o rei para ficar com ele. Parece um Dioniso bebê? Outra questão: os ritos a Dioniso (Anthesteria, Dionísia Rural, Lenaia etc) se parecem de alguma forma com o natal cristão? Não. Então, se há algum antecedente pagão para o natal, seria a Saturnália e/ou o Dies Natalis Solis Invicti – festivais os quais não têm a ver com Dioniso.

Portanto, se quisermos celebrar Dioniso, que seja sem dizer que é porque os festivais dionisíacos são a origem plagiada pelo natal cristão. Dionísio não é capricorniano. Provavelmente, seria taurino. ];o) 

(Adaptado de fontes extraídas do "Dionysos is not the reason for the season", de Sannion, com comentários meus. Todas as traduções das citações em inglês por Alexandra.)