outubro 20, 2013

Diálogo sobre o Daimon

J - Olha, falando de daimon de novo, cada vez mais começo a crer que pros arcaicos e clássicos não havia a ideia de daimon como a concebemos, e o tão famoso daimon de Sócrates é, na verdade (assim como em todos os outros casos), uma menção à sensibilidade a uma divindade da qual não se sabe o nome. Daí, pra não atribuir erroneamente a nenhuma divindade x ou y a ação, eles dizem que um daimon/nume os inspirou, agiu sobre eles.
A - Mas mesmo pra eles eram várias as concepções, né?
J - Então, no que temos de documentos literários, não. Daimon refere-se sempre a uma divindade desconhecida que age sobre algo/alguém. Isso, repito, no arcaico e clássico. Agora, se posteriormente associou-se a uma ideia de "anjo da guarda", não sei.
A - Vejo o "agathos daimon" como diferente do "daimon".
J - Mas o agathos daimon é pessoal?
A - O agathos daimon não acho, acho que é tipo uma deidade que às vezes associam com Zeus Ktesios.
J - Então...
A - Já o daimon eu veria como mais pessoal.
J - Porque assim como há o “agathos” daimon, há referencia a “kakós” daimon. 
A - Pois é, também por isso que não vejo como pessoal.
J - Mas assim, o daimon tem algo de pessoal, mas não algo de intimo. O daimon é uma divindade que age sobre um indivíduo ou comunidade, nem sempre é o mesmo daimon. Digo, não existe UM daimon que é "propriedade" de um individuo. Nesse sentido, seria mais ou menos como o anjo da guarda quando considera-se, por exemplo, que ‘n’ pessoas são protegidas de São Miguel, mas não é um anjo diferente pra todo mundo, sabe? Tem uma gama que pode reger/agir sobre.
A - Sim.
J - O Burkert fala algo sobre isso? (ainda não consegui lê-lo)
A - O Burkert, do agathos daimon fala da forma de serpente, e fala dos daimones comuns que Hesíodo cita serem os homens da raça de ouro que cuidam dos mortais e dispensam riquezas, continuando invisíveis; só se veriam seus atos, mas os pitagóricos afirmavam poder ouvi-los e vê-los.
J - É, eu iria acho que nesse sentido do Burkert também.
A - Ele também fala do daimon tipo quando, na Ilíada, Afrodite aparece para Helena como 'daimon' e um herói era 'como um daimon'.
J - É, algo numinoso/divino.
A - E tem a versão de Heráclito, que diz que o propósito de um daimon é direcionar-nos na Terra para um parentesco nos Céus, tipo uma 'planta do divino' na Terra. Platão fala dos daimones como intermediários entre deuses e homens, 'intérpretes e balseiros', mensageiros. A visão de Aristóteles é semelhante à de Platão. A de Xenócrates também, tipo almas na esfera divina abaixo da lua, mas no caso dele os daimones seriam afetados por coisas ruins, tipo sofrimento, trazer doenças e tal.
J - Quase espírita essa visão, rs.
A - Um tal de Epinomis divide um sistema dos cinco elementos, aí os semideuses seriam de natureza aquática, e os daimones de natureza aérea, sempre invisíveis.
J - Nossa... Mas ainda assim nada como individuais de cada humano, né?
A - Eu acho que a visão individual é parecida com a de Heráclito. Quando Burkert fala de Heráclito, ele diz que "o poder da compreensão intelectual é plantado como algo divino, um daimon, em um homem". Tipo o caráter da pessoa, a postura que vai diferenciá-lo. "Cada alma tem sua própria estrela da qual veio e para a qual retornará".
J - Entendi.
A - Quando o psicólogo James Hillman fala de daimon, é nesse sentido de uma coisa que você veio realizar, a semente de carvalho que vira o carvalho, você realizar o seu daimon. Ele mesmo afirma que pega muito de Heráclito.
J - Não conheço ele.
A - É num livro chamado The Soul Code, que foi traduzido como O Código do Ser. Ele dá exemplos de pessoas que desde pequena demonstravam pra que vieram ao mundo, rsrsrs. É meio motivacional até, você se anima em querer 'realizar seu destino'.
J - Hehehe, eu ainda to processando isso. Esse lance de não ter um "anjo da guarda", um intermediário, e nem mesmo um destino predeterminado como objetivo, me soam mais coerentes.
A - A de serem os homens da idade do ouro? Ou de serem deidades?
J - As duas, nesse sentido até calham, porque os homens da idade de ouro são ancestrais.
A - É.
J - Porque a gente não vê representações desses ditos daimons.
A - E aí até dá pra adaptar, dizer que são anjos da guarda 'comunitários'.
J - Rsrs, sim. Agora q estamos tendo essa conversa, confesso q me afastei um pouco também por conta dessas indefinições que pairam. Depois que comecei a faculdade, comecei a ver outras visões, que também faziam sentido e ainda to processando.
A - Quais outras visões mais você viu do daimon?
J - Só as nossas e, com a facul, essa que discuti com você.
A - Posso fazer um post sobre essas possibilidades que o Burkert cita e as nossas considerações, e postar no sofá dizendo que surgiu da nossa conversa?
J - Claro.

(Bom, resolvi postar o diálogo em vez de transformá-lo em um texto, para ficar mais fiel. Aproveito e mando um beijo a todos os que me procuram para falar desses assuntos lindos, divinos e numinosos.)  rsrs

Pietro da Cortona - "A Era Dourada"

setembro 24, 2013

Métron

Responda A, B, ou C, para as perguntas abaixo, de acordo com o que mais se aproxima da sua visão (ou se iguala a ela):

1. O que deve ser o ser humano?
A) Um servo que cultua de joelhos a coisa mais poderosa que encontra – seja um monarca, um milionário, uma celebridade, um líder militar, um deus.
B) Um realista, que sabe que a liberdade é uma ilusão e tudo o que somos é a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência.
C) Alguém que procura se tornar consciente de seu potencial interior e não vê razão para – se for talentoso/virtuoso/evoluído o suficiente – não transformar-se ele mesmo em uma divindade. 

2. Quem é deus?
A) Deus é alheio e externo, que reside no céu desde o princípio do mundo, é algo que nunca poderemos ser, só podemos almejar conhecê-lo depois da morte.
B) Deus não existe ou Deus morreu.
C) Deus está dentro de nós e somos parte dele, podemos nos tornar um com ele, embora essa seja uma jornada de heroísmo, com perigos mortais no caminho. 

3. O que é uma enchente (e outros desastres naturais)?
A) É a vontade de deus que se indignou com o mal no mundo e mandou o dilúvio.
B) É um evento natural, consequência de um terremoto e subsequente tsunami.
C) É um movimento natural da Terra em consequência do desequilíbrio provocado pelas degradações ao meio ambiente.

4. Qual conhecimento é mais importante?
A) O derivado da percepção, dos sentidos, daquilo que experimentamos e sentimos. 
B) O derivado da razão, do pensamento, daquilo que podemos replicar em experimentos calculados.
C) O que equilibra a lógica com a intuição e o instinto.

5. O que é a 'alma' ou a 'mente'?
A) É o que ganhamos de deus e que voltará para se encontrar com ele no fim dos tempos.
B) É algo que não pode ser medido nem provado, portanto não pode servir como orientação; apenas podemos observar atividades neuronais/cerebrais, que também são físicas.
C) É algo que está em tudo e tudo tem uma mente/alma.

6. Como o mundo se desenvolve?
A) Deus o criou, fez o homem para governá-lo, e um dia voltará para terminá-lo e levar seu povo consigo, separando-o daqueles que não serão salvos.
B) Ele caminha para a desordem, para uma morte pelo fogo, segundo as leis da termodinâmica que tratam da entropia.
C) Ele se desenvolve através da resolução dos opostos.

7. O que é mais importante de se entender/estudar?
A) As escrituras sagradas.
B) A matéria, a percepção dos sentidos, o que se pode apreender pelo domínio sensorial.
C) A mente, a razão, o si-mesmo, o microcosmo como reflexo do macrocosmo e vice-versa.

8. O que é o universo?
A) O universo é algo criado por um deus que tem todas as respostas, só ele sabe os seus propósitos e desígnios, sua compreensão está fora do nosso alcance.
B) O universo é um mecanismo que funciona como um relógio, um computador natural, lógico e infalível, mas que um dia vai se desgastar.
C) O universo é um organismo vivo e cíclico, que segue dialeticamente solucionando conflitos, em busca de se aperfeiçoar.

9. E a moral?
A) A moral é algo transcendente, só existe em deus.
B) Não existe moral, o mundo é amoral.
C) A moral é algo racional e imanente.

10. Como você acha que as pessoas imaginam deus?
A) Um ‘deus’ de pura vontade – violento, irritado, cruel, caprichoso, que precisa destruir com água o mundo que criou porque errou e precisa refazer tudo de novo, que toma partido dos seus escolhidos contra o resto do povo, egoísta, e que exige que todos se ajoelhem para cultuá-lo.
B) Um ‘deus’ que é uma ordem, com tudo no seu lugar, com um lugar para tudo, com tudo funcionando harmoniosamente, tudo acontecendo de acordo com a razão e a lógica, sem contradições, sem reclamações, sem problemas, um verdadeiro computador.
C) Um ‘deus’ que reflete um cosmos orgânico que soluciona seus problemas, supera os obstáculos, busca a essência da vida, estimula as pessoas a se aperfeiçoarem até a iluminação - inclusive reencarnando quantas vezes elas precisarem.

11. O que você entende pela teleologia (estudo do "telos", da completude, do ponto último, do estado final absoluto)?
A) Ela reside em uma personalidade - deus, santo, anjo - que faz as coisas acontecerem no mundo, e prevê esse final como um Apocalipse, um Armageddon, um Arrebatamento, um Dia de Julgamento.
B) Ela demonstra que somos apenas máquinas movidas pelo determinismo, o livre-arbítrio é uma ilusão, e o universo caminha para a desordem.
C) Ela pode ser estudada pela matemática e pela filosofia, vendo o universo como um organismo vivo, capaz de gerar consciência e liberdade de escolha.

12. Com qual tipo psicológico você se parece mais?
A) Sou mais do tipo extrovertido sensação e sentimento.
B) Sou mais do tipo extrovertido sensação e pensamento. Apesar de ter pouca habilidade social, não sou introvertido, porque sempre procuro entender o mundo lá fora, o universo, e não o mundo interior.
C) Sou mais introvertido pensamento e intuição, às vezes com a função sentimento.

Se você marcou mais ‘A’, você se identifica mais com os da religião vigente, o abraamismo, de “fé”. Se você marcou mais ‘B’, com o ateísmo materialista, positivista, empirista e mecanicista, da “ciência”. Se você marcou mais ‘C’, se identifica com as religiões que buscam a iluminação ou a excelência ou algo semelhante (o “samadi”, a “areté” etc), que seguem a lógica da alma e da existência.

Agora vamos analisar um pouco algumas ideias presentes nesses itens:


I. DEIFICAÇÃO:

Abrãao não tem a simpatia de um herói. Seu compasso moral era tão falho que ele achava que estava fazendo algo bom ao ser obediente a uma voz que o mandava matar o filho. Não existe reflexão ali, só servidão a um poder maior. E obedecer é o que os abraâmicos mais fazem, e o que mais adoram fazer. Os judeus, por exemplo, obedecem a 620 mandamentos. Os muçulmanos obedecem servilmente a Alá. Os cristãos chamam Jesus de “senhor” e de “mestre”, e não de amigo, irmão, companheiro, camarada, parceiro, ou algo mais próximo. 

Os livros sagrados das religiões predominantes são cheios de histórias de controle e dominação, sobre humanos que se curvam e se prostram. Eles criam um buraco entre deus e a humanidade, a qual está sempre suplicando pela misericórdia de seu senhor e mestre. Eles precisam obedecer a comandos (‘co_manda-mentos’) e viver com medo da punição eterna se não o fizerem. 

No xadrez, um peão que chega do outro lado do tabuleiro vira rainha, a deusa do xadrez. A alma é algo similar. É um peão comum, que atravessa um imenso e perigoso campo de batalha (a vida) e é promovido à realeza. Precisamos cruzar o vasto abismo como heróis, realizando as coisas mais impressionantes, e nos tornarmos divinos. Mas esse é o destino de muito poucos peões. A maioria é levada pela mediocridade e não chega a saber o que é alcançar o outro lado, entendendo seu verdadeiro potencial. A maioria prefere cultuar a rainha que já existe do que procurar tornar-se ele mesmo uma majestade. O peão especial é aquele que enfrenta os bispos (figuras religiosas), as torres (senhores em seus castelos), os cavalos (pessoas ignorantes), e os monarcas – todos aqueles que tentam o intimidar e destruir e com os quais precisamos negociar. Esse peão sobrepuja as forças do privilégio, não se curva a ninguém, e prova o seu valor, seu mérito. 

Alguém que caminha para tornar-se divino acaba por fazer emergir naturalmente habilidades ‘paranormais’. Ele/ela adquire cada vez mais conhecimento, tolerância a frustrações, consciência da influência das coisas naturais no mundo etc. E nenhum desses “poderes” contraria a matemática. Se um poder não puder ser definido matematicamente, ele é uma fantasia. Mas superaudição, supervisão, metamorfose, entre outras coisas aparentemente sobrenaturais, todas são observáveis (principalmente entre alguns iogues na Índia) e são explicáveis matematicamente, então podem ser adquiridas. Como dizem por aí, “qualquer coisa que não é proibida, acaba acontecendo”. A sequência de reencarnações só terminaria quando o conhecimento ou iluminação ou excelência são alcançados.

Pensando assim, os deuses não “criaram” o universo, e sim são a culminação dos processos universais. São almas libertas e iluminadas. Podem então orientar os outros seres. E almas iluminadas não vão pedir que você se ajoelhe e as idolatre, nem vão te ameaçar com um castigo eterno se você as desobedecer. Um ser assim não é um iluminado! 

O ser humano começa como uma mente individual e subjetiva, com um egoísmo ingênuo e primitivo. Aí ele se reúne em grupos, forma comunidades, sociedades, Estado. Sua mente subjetiva é transformada em instituições objetivas e concretas. Depois, ele começa a retornar para si mesmo, mas em um nível superior ao anterior de onde partiu, como em uma espiral. O homem descobre três dons maravilhosos nele: a arte/beleza, o ideal religioso/divino, e o ideal filosófico/racional. Aí ele adquire independência, liberdade, conhecimento e compreensão. A filosofia é a culminação do que a arte e a religião procuram realizar. A arte e o sentimento religioso nascem do sentimento e da imaginação, mas elas falham um pouco na questão da razão. Para equilibrar isso, precisamos ser filósofos.

O teólogo Friedrich Scheleiermarcher dizia que, para o universo se realizar no seu máximo potencial, todas as partes dele deveriam também alcançar esse potencial máximo. As religiões de iluminação também pensam assim. O melhor universo possível é aquele em que cada alma alcançou o status de divindade, em que cada ser humano maximizou todas as suas habilidades. E um dos maiores obstáculos a essa realização global é o sistema de privilégios que temos, no qual uma minúscula elite se apropria de uma vasta parte dos recursos mundiais para si, negando aos outros a chance de também prosperar. 

Nietzsche ofereceu uma moralidade de auto-superação e de aperfeiçoamento até a perfeição do ‘super-homem’. Essa é uma moral racional e desejável. No entanto, Nietzsche era muito esnobe e elitista, e rejeitava a ‘massa comum’. As religiões de iluminação procuram aperfeiçoar todo mundo, e não só uns poucos favorecidos. Porque o universo evolui junto com as pessoas. A própria razão é algo que evolui do caótico a uma ordem e organização (o domínio de Zeus). Ela vive numa guerra de teses e antíteses até chegar numa síntese melhor e mais racional, e esta gera outra tese mais elevada, com outra antítese também mais elevada, que invocará uma síntese superior, e assim vai até a uma racionalidade divina.

Se todos somos partes da divindade e temos o divino em nós, quando ele evolui, nós também evoluímos. E a nossa divindade completa a divindade cósmica.

A espiral (ou hélice) simboliza a evolução, a eternidade, 
a espiritualidade, o crescimento, o DNA, a dialética...


II. DEUS(ES):

No estoicismo, a matéria mais fina (o pneuma) era conhecida também como “pyr technikon”, o fogo criativo que se assemelhava ao próprio Zeus. Ou seja, deus seria uma energia inerentemente criativa presente em todo o universo, animando tudo e governando-o de acordo com a razão (Logos) divina. Deus era tanto fogo (energia ativa) quanto logos (razão). O que deus é para o universo, a alma o é para o homem. Isto é, um homem é um universo em miniatura, um microcosmo. A alma humana (pneuma psychikon) é uma mistura de ar e fogo, uma porção do pneuma divino que permeia e rege o cosmo/universo. Os filósofos pré-socráticos também tratavam Zeus como uma espécie de mente cósmica abstrata impessoal.

Se a alma do universo é como a nossa alma, então essa força que anima o universo também sofre evolução, de algo inconsciente até a consciência. E isso requer uma multiplicidade de deuses. 


III. CRIACIONISMO – EVOLUCIONISMO – ETERNALISMO:

“Se algo existe, ele é eterno, já que nada vem do nada.” (Melissus) Assim, nada pode ser criado nem destruído (tudo é infinito), apenas transformado em manifestações diferentes da existência.  Nada pode ser acrescentado e nem subtraído. Nós fazemos descobertas matemáticas, e não inventos matemáticos. O atomista Leucipo foi o primeiro a declarar que “nada acontece do nada, mas tudo parte de alguma coisa e com alguma necessidade”. Nada aconteceria por acaso, todas as colisões atômicas são determinadas por leis que as governam. Dessa forma, até o Big Bang não seria um evento que aconteceu, e sim algo que continuaria ‘rolando’.

Algo que existe não pode surgir de algo que não existe. Isso é impossível. Todas as qualidades que se manifestam na existência já estariam presentes em formas mais simples, em unidades elementares de existência. Elas são libertas através do processo de evolução, do mais simples ao mais complexo. Descartes também argumentava sobre uma lei da 'conservação do movimento'. Nenhum novo movimento poderia entrar no universo, nem o atual ser destruído. Se algo aumentasse de velocidade num lugar, outro algo deveria necessariamente diminuir de velocidade em outro canto.

Mas há dois tipos de eternalismo: o do puro “ser”, de Parmênides, onde a mudança é ilusória; e o do puro “tornar-se”, de Heráclito, onde tudo está sempre mudando e se adaptando. Os atomistas (como Leucipo e Demócrito) tentaram resolver isso ao imaginar os átomos como entidades eternas e imutáveis (puros 'ser') que constantemente se movem e colidem, produzindo o mundo (um eterno 'tornar-se'). Porém, se tudo ocorresse via átomo se colidindo, esse seria um mundo muito materialista e científico, sem causas e propósitos. O universo estaria simplesmente se rearranjando infinitamente, sem nenhum sentido; quando – na verdade – o universo tem uma intenção, ele quer realizar algo.

Também há dois tipos de evolucionismo. Evolucionistas darwinianos são diferentes dos evolucionistas hegelianos com relação ao propósito do universo. Darwin fala das coisas se aperfeiçoando para se adaptar ao meio ambiente por seleção natural, mas não há um desejo de melhorar, de se tornar perfeito. A dialética de Hegel, por sua vez, inclui a teleologia, o universo “querendo” melhorar para se tornar mais perfeito. Hegel inclui vida e um aspecto mental ao universo, enquanto Darwin é puramente materialista. A dialética hegeliana mostra a humanidade se tornando cada vez mais perto de serem deuses, por conta do elemento divino que há em todos os seres humanos – bastaria comparar as habitações em cavernas da Idade da Pedra e as construções arquitetônicas modernas das cidades de hoje. O darwinismo não tem interesse no destino dos homens, já que não atribui nenhum propósito à vida. 

As religiões de iluminação são um meio termo entre o criacionismo mitológico e o evolucionismo lógico. O conceito de 'karma', por exemplo, que é uma dimensão moral dada ao universo, é criacionista. Mas a reencarnação e o 'samsara' são evolucionistas.

Os números, as formas geométricas, as leis das relações matemáticas, as leis da lógica, as fórmulas, equações e identidades matemáticas são ligadas ao “puro ser”. As funções matemáticas que sempre mudam e interagem, que são entidades dinâmicas, são ligadas ao “puro tornar-se”. O átomo é do ser, as combinações que formamos com eles são do tornar-se. A linguagem tem 26 letras do ser, as palavras e os pensamentos verbais são do tornar-se. 

Richard Dawkins, comparando-nos com uma enciclopédia, dizia que os átomos são como as letras, os nucleotídeos são como as palavras, os genes são como as páginas, os cromossomos como os volumes (cada livro), e o DNA como a coleção inteira com o nosso 'plano de design'. 

As camadas vão se organizando em coisas cada vez mais complexas. Essa é a essência da evolução. O sonho platônico de reconciliar Parmênides e Heráclito se realiza aí. 

Anaxágoras declarava que existiam substâncias fundamentais infinitas chamadas 'homoeomeries', de qualidades diferentes, que eram organizadas de uma forma lógica pela Mente (Nous) do cosmo. Tudo no mundo, por menor que fosse, seria composto de todas as homoeomeries possíveis (o grupo infinito inteiro). Ele dizia: “tudo tem uma porção de tudo oculto dentro de si, mas apenas aquilo que for mais numeroso será aparente”. Assim, tudo poderia ser transformado em tudo, apenas ao mudar a proporção relativa das diversas homoeomeries (ideia esta que influenciou a alquimia). Também por conta dessa ideia, tudo conteria o seu oposto, podendo dialeticamente mudar para a sua antítese. 

Se somos formados por essa substância, também nós somos eternos. E o Universo não é um mecanismo robótico estúpido, sem propósito e sem vida, como a ciência materialista crê. Ele também realiza coisas inteligentes e cheias de propósito, ele busca se completar, se tornar consciente. 


IV. MATERIALISMO/EMPIRISMO x IDEALISMO/RACIONALISMO:

Aristóteles uma vez falou sobre a esfera da lua ser a fronteira entre os céus e a Terra, onde tudo acima da lua seria etéreo e perfeito, formado da quinta essência (éter), e tudo abaixo fosse não-etéreo e imperfeito, formado dos quatro elementos (terra, água, fogo, ar). Os abraâmicos acharam isso o máximo, e resolveram dizer que seu deus estaria fisicamente no céu supervisionando tudo, o demônio fisicamente debaixo da terra tentando puxar as pessoas pras profundezas, e os humanos no meio. Só que o homem foi à lua, e observou ainda mais além, e mostrou que não era desse jeito. Ainda assim, em vez de testemunhar a descoberta da ciência e mudar sua visão de mundo, os abraâmicos simplesmente deram de ombros, deram as costas para a ciência e redobraram sua fé. A religião deles se tornou algo de pura fé. “Deus sabe mais do que os homens”, eles declaram. Ou seja, eles não nos dão esperança de que a humanidade aja racionalmente ou por argumentos válidos e justos. Ela teria que agir às cegas, por desejo e vontade (de um deus) e não pelo intelecto humano. É algo muito impreciso.

A filosofia é racional, ela busca a verdade (e não a vontade). O universo inteiro tem uma alma. Esse é um conceito que começou com Platão e foi desenvolvido pelos neoplatônicos. Os estoicos também acreditavam numa energia vital RACIONAL que dirigia o universo: a “alma cósmica”. Os humanos seriam fragmentos dessa alma, e a vida só fazia sentido se exercêssemos devidamente a razão. Se resistíssemos à razão, a vida provavelmente se tornaria algo miserável e confuso. 

A ciência é materialista, positivista, ateísta, mecanicista e determinista demais. Ela torna tudo uma cadeia inexorável de causas e efeitos determinada por forças científicas. Não dá espaço para o livre arbítrio, a alma, os deuses. O positivismo afirma que o conhecimento deve ser limitado a aquilo que pode ser observado e cientificamente compreendido. Ele só foca em fatos observáveis e proclama que qualquer proposição que não possa ser reduzida a uma afirmação simples dos fatos é ininteligível. A ciência é positivista, materialista, empirista, e – portanto – todos os cientistas são incapazes de considerar o domínio numinoso. Não devemos colocar fatos “observáveis” num pedestal. Toda hora lemos sobre algo “cientificamente provado”, mas um tempo depois o oposto da mesma coisa também é “cientificamente provado”. Isso só prova que a pessoa acredita cegamente (e aí parece fé) em qualquer coisa que um cientista diz. Isso sem mencionar o patrocínio que acontece por trás das pesquisas “científicas”. O alvo da ciência é mutável, ela sempre se contradiz e substitui velhas teorias desacreditadas por novas. A ciência não mira o conhecimento absoluto, só o conhecimento progressivamente mais confiável. 

Na verdade a ciência não prova nada. Ela só reúne teorias provisórias e evidências temporais que apoiam essas teorias. Não tem a ver com certeza, e sim com o grau de confiança que temos naquela afirmação. Quase uma crença. “Confiança” não é nem verdade nem conhecimento. A ciência trabalha com paradigmas, e paradigmas não são verdades, são apenas construções nas quais a ciência se baseia durante certos períodos. “Não há fatos, só interpretações” (Nietzsche). É diferente da matemática, na qual você tem 100% de certeza de que 1+1=2. Isso é um fato. 

Se você rejeita a alma porque a ciência não pode prová-la, então você elevou a ciência ao status de uma religião e proclamou que qualquer coisa fora do ‘Livro Sagrado das Pesquisas Científicas’ é falso. E isso é fé. Os sacerdotes da ciência transformam-na em algo dogmático, lucram com isso e assim ganham status.

Lembre-se de uma coisa: ausência de evidência científica não é evidência de ausência existencial. Só porque a ciência não pode provar que algo exista, isso não prova que esse algo não exista. 

Os materialistas e os empiristas normalmente se colocam em guerra contra os idealistas e racionalistas. Os primeiros conduzem a ciência moderna, os últimos colocam a mente acima da matéria. O materialismo científico é ótimo para estudar o universo físico, mas praticamente inútil na hora de responder perguntas sobre a vida, a mente, a consciência, deus, as almas, o pós-morte.

Nós só precisamos da ciência para explorar o mundo porque ainda não somos bons matemáticos o suficiente. O empirismo é a matemática subjetiva, e o racionalismo é a matemática objetiva. São dois aspectos da mesma coisa. O empirismo nos diz como é experimentar os sinais matemáticos. O racionalismo nos diz como executar esses sinais. Uma coisa não deveria rejeitar a outra. A informação sensorial e o raciocínio se complementam; um sem o outro se torna irrelevante. Carl Jung já dizia que “é provável que a psique e a matéria sejam dois aspectos diferentes de uma e da mesma coisa.”

Os cientistas do cérebro tentam provar que o livre-arbítrio é uma ilusão e que tudo o que fazemos nada mais é do que a consequência de uma cadeia de causas precedentes determinadas por leis infalíveis da ciência. A mente é deixada de lado, para as conjeturas e sonhos dos idealistas. Se isso for verdade, nossa vida não tem valor, nem sentido, nem uma razão de ser. E então o universo seria uma farsa, uma simples máquina girando sem razão alguma, para cumprir um programa sem propósito. 

Mas como cada átomo no mundo “sabe” como deve obedecer/reagir às leis da causalidade científica? Seria necessário que cada pedaço do universo, cada ponto adimensional, contivesse todas as leis cósmicas em si. E ter o cosmos em si é ter uma dimensão divina em si. Mesmo que os cientistas possam argumentar que essas “leis” estão gravadas no nosso DNA, como isso se aplicaria aos átomos? Qual é o “DNA” de um elétron, de um fóton, de um quark, de uma onda de energia? Como eles sabem exatamente o que fazer? Se os átomos são o hardware, onde estariam seus softwares, e como os átomos são programados? 

Você não precisa ser ateu para ser uma pessoa de razão. Existem religiões que possibilitam pessoas racionais a se comprometerem plenamente com elas. Assim é com o helenismo, por exemplo. 

Dizem que somente uma pequena parcela da humanidade pode ser considerada “racional”, de 10 a 20%. Essas pessoas são identificadas pelo seu interesse na ciência, no ateísmo, no agnosticismo, no ceticismo, em assuntos acadêmicos, em derrubar teorias de conspiração, em filosofia. Todas têm no mínimo um pé atrás com as religiões abraâmicas e não se sentem à vontade com a ideia de “fé”.

Mas todas as pessoas, mesmo as “irracionais” (as mais “sentimentais”), são intuitivamente matemáticas. Elas gostam de música (que é matemática), elas sabem apanhar uma bola no ar sem pensar (sem ficar fazendo cálculos de projeção e velocidade do projétil etc). Todos nós resolvemos essas equações de uma forma praticamente inconsciente, porque esse elemento sagrado do Logos está presente em tudo. 

Observem os autistas. Eles fazem cálculos matemáticos como se fossem computadores, mas nem se dão conta disso. É como se a resposta simplesmente já estivesse presente ali com eles. Essa intuição reflete processos cósmicos acontecendo subliminarmente. Agora observem os abraâmicos. Muitos mal sabem contar e escrevem fora da norma culta da língua. Os muçulmanos proclamam com todo o orgulho que seu profeta Maomé era analfabeto. Você gostaria que o fundador de sua religião fosse um cara que nem sabe ler?

Heráclito criticava Homero e Hesíodo, porque as pessoas escutavam o que eles diziam e aceitavam a autoridade deles sem questionar. Heráclito queria que as pessoas pensassem por si mesmas, que vissem as coisas em vez de ouvir falar delas, que descobrissem as coisas sozinhas e não ouvindo servilmente os outros. Ele percebia que as pessoas costumavam atravessar a vida como autômatos, como robôs. Heráclito também odiava a democracia, a chamava de “ochlocracia” - o governo da multidão ignorante. 


V. FÉ x LÓGICA E VERDADE:

Roger Bacon escreveu que o triunfo da ignorância tinha quatro fontes principais: o apelo a uma autoridade inadequada, a influência indevida do costume, as opiniões de uma multidão inculta, e as demonstrações de sabedoria que simplesmente encobertavam uma ignorância. Não podemos ser guiados por crenças apenas por elas serem largamente difundidas e populares. A verdade não é democrática. Não se trata de uma disputa de popularidade. 

Schopenhauer dizia que a verdade passava por três estágios: primeiro ela é ridicularizada, depois é violentamente combatida (as pessoas se opõem a ela), e por fim ela é aceita como auto-evidente. Mesmo o “senso comum” não é algo muito acertado. Einstein dizia que o “senso comum é o conjunto de preconceitos que adquirimos por volta dos dezoito anos de idade”.

O Torá, a Bíblia e o Alcorão, todos clamam ser a revelação suprema, eterna e imutável do mesmo Deus, ainda que cada um desses 'livros sagrados' diga coisas extremamente contraditórias e diferentes um do outro. Trata-se de algo tão irracional, que não é de se estranhar que Martinho Lutero, o fundador do protestantismo, descreveu a razão como “the Devil's whore”, 'a prostituta do demônio', a arma que este usaria para te afastar da fé, que era a única coisa que importava para Lutero. Qualquer pessoa que hoje diz ser uma “pessoa de fé” está concordando com Lutero - e rejeitando a razão.

A religião vigente hoje consiste de declarações ilógicas que são consideradas aceitas simplesmente porque um grande número de pessoas as assume como certas. Para eles, o que importa é a sua popularidade e o seu poder emocional, e não sua verdade ou sua racionalidade e sentido.

Para um verdadeiro pensador, a existência de Deus(es) é irrelevante ao menos que esse(s) Deus(es) possa(m) nos prover e nos provenha(m) - com uma explicação para a existência. Desejar entender a mente de um deus é o mesmo que desejar ser como um deus, e é isso o que diferencia esses dois tipos de pessoas: os “crentes” são submissos que querem ser dominados por um ser todo-poderoso, e os “pensadores” são aqueles que nunca descansarão até conhecerem cada detalhe de como o mundo funciona.

A verdade objetiva nunca residirá em uma pessoa, mas em um sistema – um sistema platônico de verdades eternas, absolutas, indiscutíveis, imutáveis e perfeitas. Por isso que Platão falava em uma Verdade com V maiúsculo como algo eternamente perfeito, e não em uma pessoa de alegada perfeição eterna (Deus). Ele não podia imaginar um criador eterno e perfeito, as dificuldades lógicas para isso são intransponíveis. Se o criador fosse perfeito, sua criação também o seria. Já um sistema, este pode existir em um domínio perfeito (imaterial) e este mundo (material) ser só uma cópia falha dele, sendo então imperfeito. Uma pessoa (ou personalidade) poderia evoluir para a perfeição, mas isso significaria que ela antes disso era imperfeita, portanto, ela não poderia ser “eternamente” perfeita.

A verdadeira base existencial da realidade não envolve fé, obscurantismo, ocultismo, crendices, mágicas, e afins. Mas também não é a ciência que fará isso. A ciência é só um 'estagiário' da filosofia, no âmbito de responder às grandes questões existenciais. A ciência é ótima em explicar os “comos”, mas não é tão boa em explicar os “porquês”. Na matemática, por exemplo, a ciência só aceita os números reais maiores que zero e menores que infinito, porque os demais não seriam “empiricamente detectáveis”. Quando simplesmente rejeita o zero, o infinito, os números negativos e os números imaginários, sem uma razão racional para tal (já que a mente entende o que são zero e infinito etc), a ciência se aproxima de uma crença dogmática, em seu outro extremo. 

O Abraamismo é um campo sem lógica ou com algo disfarçado de lógica. A ciência é um campo com uma lógica incompleta. As religiões de aperfeiçoamento são as mais lógicas.

Gottfried Leibniz dizia que o melhor mundo é aquele que é “o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenômenos”. E, realmente, depois que a gente começa a entender essas coisas, no começo a gente pode ficar meio descrente ('des-crente'), mas depois começa a achar tudo tão óbvio, tudo nos seus lugares como deveria ser, e a ficar maravilhado em como se tratava de algo tão simples.

A metafísica (o que existe além do mundo físico), um ramo da filosofia, estuda o universo do númen, o mundo imaterial das ideias de Platão. (Para Platão, as coisas percebidas pelos sentidos são os fenômenos, e as coisas refletidas pelo pensamento/razão são os nôumenos). A religião vigente também comenta sobre o universo numinoso, mas faz isso de uma forma irracional e baseada em fé, onde as afirmações dos profetas e dos textos sagrados são consideradas uma espécie de 'verdade' absoluta revelada por 'deus'. A religião abraâmica é pouco racional e verificável. E o mais irônico é que ela diz que “a verdade vos libertará”.

Sair da fé para o conhecimento requer muito trabalho. Pensar por si mesmo (em vez de pensar como alguém lhe diz para pensar) dá trabalho. Nem todo mundo está disposto. A maioria não ‘quer’ (e age baseado nisso, no querer, na vontade, no desejo).


VI. RAZÃO x EMOÇÃO:

Apenas uma pequena proporção da humanidade é guiada pela razão. O resto é controlado pelo desejo/vontade. Assim, normalmente é pouco efetivo se dirigir às massas com argumentos racionais – é preciso atingir suas emoções e desejos se você quiser vencê-los em um debate. Por isso que os discursos de Moisés, Jesus e Maomé eram tão apelativos de emoção, com ameaças de dores eternas (no fogo do inferno) para quem os opusesse. O abraamismo gira em torno desses sentimentos. Para sair desse ciclo e caminhar em direção à divindade, precisamos abraçar a razão. Não há outro modo de fazer isso.

O abraamismo apela somente à emoção. Rezar recitando uma série de frases como se fossem encantamentos mágicos e suplicar alguns favores pessoais ao criador para você e não para os outros, é algo ilusório e emocional, não algo lógico e racional.

Os que buscam a iluminação são mais idealistas do que materialistas, mais racionalistas do que empiristas. Quem entenderá melhor a alma? Um tipo sensação ou um tipo intuição? Sendo a alma algo que não podemos tocar, cheirar, olhar, ouvir, fica evidente que a resposta é o segundo tipo. O mundo numinoso é o território natural dos idealistas, racionalistas, intuitivos.

Para os estóicos, a liberdade jaz em entender racionalmente as leis do universo. As emoções eram um desastre porque elas perturbavam nosso julgamento, obscureciam a verdade, e nos fazia querer coisas que nunca poderiam acontecer.

As pessoas mais sentimentais tendem a ser criacionistas. Eles têm medo de mudanças e do futuro, eles procuram segurança e certezas. Um criador que não muda há milênios é um símbolo dessa segurança. Tudo o que elas têm que fazer é pôr sua fé no criador e relaxar emocionalmente.

Os gregos foram os primeiros a oferecer um pensamento racional (de Logos) no lugar de um pensamento mágico (de Mitos). Mas toda religião saudável deve ser uma mistura de Mitos e Logos, de subjetivo e de objetivo. O mito às vezes esconde verdades maiores, segredos superiores, um sentido mais profundo, uma sabedoria suprema. E a razão balanceia isso para não virar superstição.


VII. TELEOLOGIA:

Quando perguntamos “por quê?” podemos ter dois tipos de resposta, uma com as causas do evento (a explicação mecanicista) e outra com os propósitos do evento (a explicação teleológica), ou seja, esta última seria mais um 'para que' do que um 'por que'. Freud gostava de buscar as causas na infância, os motivos e circunstâncias anteriores à situação atual. Já Jung gostava de se perguntar a função daquilo, a razão última para estar acontecendo, para que aquilo nos serviria.

Os cientistas acham que o destino do universo é terminar em uma morte pelo calor, quando tudo rui por conta da Segunda Lei da Termodinâmica. Isso é quase um dogma de fé para eles.

Nós não pensamos assim. A nossa não é uma religião de fé, é uma religião de razão, que oferece a todas as almas a se tornarem divinas, a atravessarem o tabuleiro de xadrez da existência e a serem promovidas de peão a rainha.

É através da razão que fazemos contato com a ordem divina. Os elementos que controlam o universo são racionais, então – quanto mais racionais formos – mais refletiremos a inteligência do cosmo. Mais as coisas farão 'sentido'. Como dizia Sócrates, “uma vida não-examinada não é digna de se viver”.

Se o seu projeto de vida não for se tornar 'divino' (ou o mais excelente/virtuoso/iluminado possível), então você está praticamente ofendendo a sua essência, está bloqueando a realização da oportunidade que a sua alma recebeu. 

Portanto, caro leitor, se você conseguiu chegar até aqui nesse longo texto, pense sobre essas coisas. Não fique preso ao lado A, nem seja tão ‘lado B’... Que tal 'ser' do 'C'?

;) 


agosto 17, 2013

Christine & Erik -- Perséfone & Hades?

Estes dias estive assistindo o DVD dos 25 anos (2011) do musical "O Fantasma da Ópera", gravado no Royal Albert Hall de Londres, e - vendo Christine e Eric (o "fantasma") - não pude deixar de pensar em outro casal que conhecemos: Perséfone e Hades. Então trouxe alguns trechos do musical, para quem nunca se deu conta dessa possível comparação.

A começar por um trecho em que a mocinha se refere às estações:
CHRISTINE
"Think of August when the trees were green,
don't think about the way things might have been..."

(Pense em agosto, quando as árvores estavam verdes,
não pense na forma que as coisas deveriam ter sido...)
E "o invisível" declara suas intenções:
ERIK
"You have come here, for one purpose, and one alone;
Since the moment I first heard you sing, I have needed you with me..."

(Você veio para cá com um propósito, e apenas um;
Desde o primeiro momento em que escutei você cantar, eu precisei de você comigo...)
E apresenta o seu mundo a ela, um mundo que ao mesmo tempo entorpece e intensifica os sentidos:
ERIK
"Night-time sharpens, heightens each sensation,
Darkness stirs and wakes imagination;
Silently the senses abandon their defences...
Slowly, gently, night unfurls its splendour;
Grasp it, sense it - tremulous and tender,
Turn your face away from the garish light of day,
Turn your thoughts away from cold, unfeeling light -
And listen to the music of the night.
Close your eyes and surrender to your darkest dreams!
Purge your thoughts of the life you knew before!
Close your eyes, let your spirit start to soar!
And you'll live as you've never lived before.
Softly, deftly, music shall caress you
Feel it, hear it, secretly possess you.
Open up your mind, let your fantasies unwind,
In this darkness which you know you cannot fight -
The darkness of the music of the night.
Let your mind start a journey through a strange new world!
Leave all thoughts of the world you knew before!
Let your soul take you where you long to be !
Only then can you belong to me.
Floating, falling, sweet intoxication!
Touch me, trust me, savour each sensation!
Let the dream begin, let your darker side give in
To the power of the music that I write..."

(A noite aponta, e intensifica cada sensação,
A escuridão agita e desperta a imaginação;
Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas...
Lentamente, gentilmente, a noite estende seu esplendor;
Agarre-o, sinta-o, trêmulo e terno,
Vire seu rosto para longe da luz gritante do dia,
Afaste seus pensamentos da luz fria e insensível -
E ouça a música da noite.
Feche seus olhos e se entregue a seus sonhos mais sombrios!
Purifique seus pensamentos da vida que você conheceu antes!
Feche seus olhos, deixe seu espírito começar a se elevar!
E você viverá como nunca viveu antes.
Suave, primorosamente, a música deverá te acariciar
Sinta-a, ouça-a, secretamente lhe possuindo.
Abra sua mente, deixe suas fantasias se desatarem,
Nesta escuridão contra a qual você sabe que não pode lutar -
A escuridão da música da noite.
Deixe sua mente começar uma jornada através de um estranho e novo mundo!
Abandone todos os pensamentos do mundo que conheceu antes!
Deixe sua alma lhe levar para o lugar ao qual você pertence!
Só então você pode pertencer a mim.
Flutuando, caindo, numa doce intoxicação!
Toque-me, confie em mim, saboreie cada sensação!
Deixe o sonho começar, deixe seu lado mais escuro ceder
Ao poder da música que eu escrevo...")
E ela descreve a sensação de estar em um lugar sombrio e sinistro, mas no qual habita alguém que lhe produz um efeito de elevação espiritual através do poder de sua música:
CHRISTINE
"I've been there - to his world of unending night,
To a world where the daylight dissolves into darkness...
But his voice filled my spirit with a strange, sweet sound;
In that night there was music in my mind.
And through music my soul began to soar!"

(Eu estive lá - no seu mundo de noite infindável,
Um mundo onde a luz do dia se dissolve em escuridão...
Mas sua voz preencheu meu espírito com um estranho e doce som;
Naquela noite, havia música na minha mente.
E, através da música, minha alma começou a se elevar!)
No meio da peça, temos um baile de máscaras, que me lembrou muito Dioniso. No mito órfico, Dioniso é rebento de Perséfone. A letra dessa parte fala inclusive de Sátiros e dos Campos Elísios.
VÁRIAS PESSOAS NO BAILE
"Masquerade! Leering satyrs, peering eye;
Masquerade! Run and hide - but a face will still pursue you...
Six months: Of relief! Of delight! Of Elysian peace!...
Masquerade! Paper faces on parade!
Masquerade! Hide your face, so the world will never find you!
Masquerade! Every face a different shade!
Masquerade! Look around - there's another mask behind you!"

(Mascarado! Sátiros com um olhar de soslaio;
Mascarado! Corra e se esconde - mas um rosto ainda te perseguirá...
Seis meses: de alívio! de delícias! da paz dos Elísios!...
Mascarado! Rostos de papel na parada!
Mascarado! Esconda seu rosto, para que o mundo nunca lhe encontre!
Mascarado! Cada rosto um sombreado diferente!
Mascarado! Olhe em volta - há outra máscara atrás de você!)
Christine também fala com Raoul, que a corteja, sobre o fantasma e a gratidão/lealdade que lhe deveria ter:
CHRISTINE
"It scares me - don't put me through this ordeal by fire.
He'll take me, I know; we'll be parted for ever.
He won't let me go, what I once used to dream I now dread.
If he finds me, it won't ever end;
And he'll always be there, singing songs in my head...
Am I to risk my life, to win the chance to live?
Can I betray the man who once inspired my voice?
Do I become his prey? Do I have any choice?"

(Isso me assusta - não me coloque nessa provação pelo fogo.
Ele irá me levar, eu sei; ficaremos separados para sempre.
Ele não vai me deixar ir, o que antes eu sonhava agora eu temo.
Se ele me encontrar, isso nunca terminará;
E ele estará sempre lá, cantando canções na minha cabeça...
Estou disposta a arriscar minha vida para ter a chance de viver?
Posso trair o homem que um dia inspirou minha voz?
Eu me torno sua presa? Eu tenho alguma escolha?)
Cantando juntos, numa cena que se passa em um cemitério, o fantasma cita mais uma estação (o inverno), e Christine reconhece que - por mais que sua mente o resista - sua alma o obedece. Aqui também aparece a menção à "verdadeira beleza". No conto de Apuleio, Psiquê vai até Perséfone para pegar uma caixinha com o segredo da beleza eterna, a pedido de Afrodite, sem saber que a beleza eterna não é nada mais do que a morte. É no reino dos mortos, de Hades, que reside a "verdadeira beleza". E Raoul tenta afastar de Christine essa imagem paternal que ela tem do fantasma, assim como Hades é tio de Perséfone. Raoul então ressalta que Christine não amará o fantasma se ela for sua prisioneira, assim também Perséfone não passa o ano todo com Hades, ela se divide:
ERIK
"Wandering child, so lost, so helpless; yearning for my guidance...
Too long you've wandered in winter, far from my far-reaching gaze,"
(Criança que vagueia, tão perdida, tão desamparada; ansiando por minha orientação...
Por tanto tempo você perambulou no inverno, longe do meu olhar que alcança longe,)
CHRISTINE
"Wildly my mind beats against you;"
(Freneticamente minha mente luta contra você;)
ERIK
"You resist,"
(Você resiste)
AMBOS
"Yet your/the soul obeys..."
(No entanto, sua/a alma obedece)
ERIK
"You denied me, turning from true beauty..."
(Você me negou, se afastando da verdadeira beleza...)
CHRISTINE
"I denied you, turning from true beauty... "
(Eu neguei você, me afastando da verdadeira beleza...)
ERIK
"Come to me..."
(Venha pra mim...)
RAOUL
"Christine, listen to me!
Whatever you may believe, this man, this thing, is not your father!..."
(Christine, me escute!
Seja o que for no que você acredite, esse homem, essa coisa, não é o seu pai!)
"You can't win her love by making her your prisoner."
(Você não pode ganhar o amor dela tornando-a sua prisioneira.)

A cena mais relevante, porém, que trago em vídeo abaixo do próximo trecho, é quando Erik encena sua ópera como Don Juan, com Christine no papel de Aminta, ela com uma maçã na mão que me lembra a romã do mito, e o diálogo totalmente a ver com o mesmo. Alguns autores dizem que, quando Coré colhia flores, ela buscava uma experiência diferente, uma vez que entre essas flores estavam narcóticos narcisos e outros possíveis psicotrópicos. Na busca desse desejo, ela é tragada pela terra. Imerge, sucumbe, se entrega, não tem mais volta ("cuidado com o que você deseja"). Então, a letra aqui fala em fogo, em um "rico desejo" (Hades é Pluto - "o rico"), em sedução, em sonho, em segredo. Fala também no silêncio (que também lembra "o indizível"). Christine, interpretando Aminta, pergunta sobre sangue (oferta que se fazia aos mortos), sobre um botão abrindo em flor (as flores que Coré colheu e que ela mesma acabou desabrochando em Perséfone), sobre as chamas que os consumirão... Erik, agora já desvestido do papel de Don Juan, pede que ela lhe salve da solidão e compartilhe uma vida com ele. Não é mais o sedutor que passa de amante em amante (Don Juan), mas aquele que pede que a amada fique para sempre a seu lado. Eis a letra e, em seguida, o vídeo:
ERIK (como Don Juan)
"You have come here in pursuit of your deepest urge,
in pursuit of that wish, which till now has been silent.
I have brought you, that our passions may fuse and merge -
in your mind you've already succumbed to me
dropped all defences completely succumbed to me -
now you are here with me: no second thoughts, you've decided.
Past the point of no return - no backward glances:
the games we've played till now are at an end.
Past all thought of "if" or "when" - no use resisting:
abandon thought, and let the dream descend.
What raging fire shall flood the soul?
What rich desire unlocks its door?
What sweet seduction lies before us?
Past the point of no return, the final threshold -
what warm, unspoken secrets will we learn?
Beyond the point of no return."

(Você veio aqui em busca dos seus anseios mais profundos,
em busca daquele desejo, o qual até agora tem permanecido em silêncio.
Eu trouxe você, para que nossas paixões possam se fundir e imergir -
na sua mente você já sucumbiu a mim
deixou cair todas as defesas, completamente sucumbiu a mim -
agora você está aqui comigo: não há como mudar de ideia, você decidiu.
Passado o ponto em que não há retorno - não se pode olhar para trás:
os jogos que jogamos até agora estão no final.
Passado todo o pensamento de "se" e "quando" - não adianta resistir:
abandone os pensamentos e deixe o sonho sobrevir.
Que fogo intenso deve inundar a alma?
Que rico desejo destrava sua porta?
Que doce sedução jaz diante de nós?
Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
que segredos calorosos e inexprimíveis iremos aprender?
Além do ponto do qual não há retorno.)
CHRISTINE (como Aminta)
"You have brought me to that moment where words run dry,
to that moment where speech disappears into silence.
I have come here, hardly knowing the reason why;
In my mind, I've already imagined our bodies entwining,
defenceless and silent - and now I am here with you:
no second thoughts, I've decided.
Past the point of no return - no going back now:
our passion-play has now, at last, begun.
Past all thought of right or wrong - one final question:
how long should we two wait, before we're one?
When will the blood begin to race
the sleeping bud burst into bloom?
When will the flames, at last, consume us?"

(Você me trouxe a aquele momento no qual as palavras secam,
a aquele momento onde o discurso desaparece no silêncio.
Eu vim aqui, mal sabendo por que razão;
Na minha mente, eu já imaginei nossos corpos entrelaçados,
sem defesa e em silêncio -  e agora estou aqui com você:
sem poder mudar de ideia, eu decidi.
Passado o ponto em que não há retorno - não há volta agora:
nosso jogo de paixão agora finalmente começou.
Passado todo o pensamento de certo e errado - uma pergunta final:
quanto tempo deveríamos esperar antes de sermos um?
Quando o sangue começará a correr
e o botão adormecido se abrir em flor?
Quando as chamas irão, afinal, nos consumir?)
AMBOS
"Past the point of no return, the final threshold -
the bridge is crossed, so stand and watch it burn;
We've passed the point of no return..."

(Passado o ponto em que não há retorno, a fronteira final -
a ponte foi cruzada, então fique parado e assista ela queimar;
Nós passamos do ponto do qual não há retorno...)
ERIK
"Say you'll share with me one love, one lifetime;
Lead me, save me from my solitude..."

(Diga que você compartilhará comigo um amor, um tempo de vida;
Conduza-me, salve-me da minha solidão...)
[vídeo retirado e aparado daqui: https://www.youtube.com/watch?v=h7IZNfGEcFk]

Coré deixa sua ingenuidade e não pode escapar da situação em que precisa amadurecer. Todos precisamos passar por essa transformação um dia. Não adianta resistir:
CHRISTINE 
"One by one, I've watched illusions shattered."
(Uma por uma, eu assisti minhas ilusões se despedaçarem.)
ERIK
"Past all hope of cries for help: no point in fighting."
(Passada toda a esperança por gritos de ajuda; não adianta lutar.)
E então que os deuses a ajudem a aceitar a missão de acompanhá-lo:
CHRISTINE
"Pitiful creature of darkness, what kind of life have you known?
God give me courage to show you you are not alone."

(Deplorável criatura da escuridão, que tipo de vida você conhece?
Deus me dê coragem para lhe mostrar que você não está sozinho.)
Enfim, somente com o "espírito" dele e a "voz" dela, a "música da noite" se elevará:
ERIK
"You alone can make my song take flight -
It's over now, the music of the night."

(Só você pode fazer minha canção alçar voo -
Está acabada agora, a música da noite.)
Poderíamos viajar bem mais no musical inteiro, incluindo as músicas e não só as letras, mas acredito que dar o gostinho aqui e deixar que cada um descubra suas próprias impressões é mais prazeroso. Concordam?

agosto 11, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 5

Três questões continuam sendo perguntadas sobre os mistérios: se havia torturas, se havia sexo nas "orgias", e se havia o uso de drogas. As tentativas de responder a elas vão novamente variar dependendo de cada mistério (Eleusis, Dioniso, Mitra, Magna Mater, Ísis etc).

1. DOR?

Vamos começar pela dor. Aqui teremos que separar os mistérios de Mitra de todos os outros. Pra começar, lembremos que não é incomum vermos pessoas sendo humilhadas e machucadas nas iniciações, desde os aborígenes australianos até os calouros de universidades de hoje. Existem testemunhos sobre os mistérios de Mitra sobre "50 dias de jejum, 2 dias de açoites, 20 dias na neve", mas isso parece estranho, até por que é difícil imaginar neve na África. Outro relato (reproduzido em afrescos) dizia que os candidatos eram vendados e ouviam o som de corvos e leões, e os de maior grau de iniciação tinham as mãos amarradas com tripas de galinha e jogados numa bacia de água onde um homem cortava as amarras e se dizia o "libertador". E encontramos ainda outras formas que pareciam um zombar da morte. Ou seja, os mistérios mitraicos se pareciam muito mais com uma iniciação dolorosa do tipo de que conhecemos do que os outros mistérios antigos. 

Nos outros mistérios, as experiências de humilhação e dor desse tipo parecem estar visivelmente ausentes. Em seu lugar, existia a "purificação". Mas, mesmo assim, havia certo terror psicológico, como vemos Plutarco dizer sobre "todas aquelas terríveis coisas, pânico e tremores e suor". De acordo com Prudêncio, os devotos da Magna Mater recebiam uma tatuagem no corpo, queimada na pele com agulhas quentes. No reino de Ptolomeu IV Filopator, havia uma prática parecida nos mistérios de Dioniso, com tatuagens de lírios, tímpanos (tambores) ou coroas de hera; mas isso parecia um caso excepcional. Na imagem que vimos na postagem anterior, da Vila dos Mistérios, há uma moça ajoelhada com a cabeça no colo de uma mulher sentada e de olhos fechados, enquanto uma figura feminina sinistra ergue uma vara, o que poderia sugerir açoite; mas a figura ameaçadora tem asas negras, ou seja, ela não é deste mundo, é mais uma personagem alegórica. Nas peças dionisíacas, a 'mania'/loucura é comparada a um açoite (de novo, figurativamente). Horácio sugere que nem mesmo Afrodite abriria mão de um "sublime flagellum" para colocar uma garota arrogante no seu devido lugar. Ou seja, a flagelação era puro simbolismo, como uma metáfora para a possessão da loucura divina, tanto que - no mesmo afresco da Vila dos Mistérios - a garota depois se levanta transformada em uma verdadeira bacante, dançando freneticamente junto a outra dançarina na cena seguinte. Pode-se até pensar na flagelação real como uma forma de catarse/purificação, mas ainda assim - se acontecia ou não nos mistérios - a arte consegue deixar isso intencionalmente ambíguo.

2. SEXO?

Como já vimos, o uso moderno da palavra "orgia" reflete as piores suspeitas puritanas com relação aos ritos noturnos secretos. Certo, havia a presença de um Príapo Itífalo em quase todos os mistérios, mas isso era mais em um caráter jocoso, de brincadeira e risadas, e dificilmente tinha a ver com a questão central dos mistérios. As procissões com um falo gigante aconteciam mais nos festivais a Dioniso do que nos mistérios. Nas iniciações da puberdade, é claro que o encontro com a sexualidade é normal e necessário. O encontro com o falo desvelado, que aparece nas cenas de iniciação, pode ser interpretado como uma preparação para o casamento ou uma forma de Matronalia romana (festival a Juno Lucina como deusa do parto, da maternidade e das mulheres). Os vasos apulios de uso funerário, do quarto século, relacionados aos mistérios de Dioniso, normalmente retratavam o encontro de um macho e uma fêmea num ambiente báquico, e são uma iconografia que se acredita referir-se a uma "escatogamia" (um casamento num mundo futuro) nos Campos Elísios, a felicidade final no além, como se os festivais dos iniciados continuassem acontecendo depois da morte. Ou seja, o que encontramos é mais simbolismo - simbolismo sexual, claro, mas de uma forma que não violasse a integridade do corpo dos participantes e nem de suas fantasias, mesmo quando havia uma resposta emocional ao falo exposto no 'liknon'. Era o simbolismo que moldava as formas do ritual, e não as orgias de verdade (no seu sentido moderno). 

Nos mistérios de Sabazius, uma serpente de metal passava pelas roupas dos iniciandos. Era o "deus pelo colo" ('Theos dia kolpou'), uma forma de união sexual com o deus, lembrando de como Perséfone teria sido impregnada por Zeus na forma de uma serpente, e supostamente também Olímpia sendo impregnada por Dioniso e gerando Alexandre o Grande. Mas, mesmo aqui, a sexualidade em si não era o segredo do mistério. 

Os mistérios de Eleusis, por sua vez, eram conhecidos por sua "pureza". Não havia simbolismo fálico, e - se existiu algo sexual no contexto das cerimônias noturnas - o segredo foi bem guardado. 

Sobre os mistérios de Eros, praticamente só temos "O Banquete", de Platão. Era como se um amante propusesse ao outro iniciação aos mistérios desse deus em especial.

Nos mistérios mitraicos, a virilidade de guerra era mais importante do que a intimidade sexual, afinal, dizem que Mitra odeia mulheres (Pseudo-Plutarco, 'De fluviis' 23, 507: "Mitra, desejoso em ter um filho, ainda que odiasse as mulheres, se deita com uma pedra"). 

A castração nos mistérios da Méter tem um caráter interessante: de certa forma, através de sua negação radical, a sexualidade aqui se torna algo até mais obsessivo do que nos outros mistérios. Isso nos lembra da cortina no leito matrimonial que aparece nos mistérios de Átis. 

No culto de Ísis, não há símbolos sexuais evidentes. As cabeças raspadas, as roupas de linho, as procissões, preces, água, incenso, sistro (instrumento musical sagrado), tudo parece muito austero e puritano, mesmo que a água do Nilo lembre fertilidade. Ainda assim, o culto de Ísis influenciou não apenas as 'hetairas', mas há o relato de uma romana chamada Paulina, indo ao templo de Ísis para dormir com o deus Anúbis, que a teria chamado. Ele, na verdade, era um romano usando uma máscara de chacal. Esse escândalo fez o imperador Tibério banir as sacerdotisas de Ísis de Roma. No entanto, a abstinência sexual que existia como preparação para as cerimônias de Ísis, nos chama a atenção. Provavelmente havia, no centro do mistério, algum casamento sagrado correspondente ao mito de Osíris. 

A abstinência, aliás, era um pré-requisito normal para participar em praticamente todos os mistérios e em alguns outros cultos (Ovídio fala da abstinência no mistério de Dioniso, Marinus fala da abstinência no da Méter e de Ísis, Burkert cita o uso de um veneno que o hierofante de Eleusis usaria para uma "castração" química temporária). Isso estimularia as expectativas e aumentaria nosso nível de atenção a certos sinais. A sexualidade era mais um meio de representar uma quebra na rotina (como os próprios mistérios o eram) do que um fim em si mesma. 

3. DROGAS?

O uso de drogas nos contextos religiosos é um estudo mais recente. Algumas pessoas acham até que não existiam mistérios sem drogas, por elas serem a forma mais fácil de ter uma experiência incomum. Kerényi chegou a pensar que o ingrediente do 'kykeon' bebido em Eleusis (o poejo, 'glechon') fosse levemente alucinogênico, e a turma de Wasson (Wasson, Hofmann e Ruck: "The Road to Eleusis") acha que o que estava na bebida de Eleusis era o ergot, um fungo que crescia no grão de centeio. Entre os constituintes solúveis em água dessa ergotina, estariam alguns traços de LSD. Mas, mesmo que os grãos de Eleusis fossem infectados por tal peste, a gente precisaria imaginar qual a quantidade necessária para milhares de participantes (que era o número em cada iniciação eleusina) terem visões felizes, ainda mais que os relatos de experiência com envenenamento por ergotina são mais de algo desprazeroso do que de estados eufóricos. Outra hipótese seria o ópio por conta das papoulas também serem uma planta atribuída a Deméter. Ovídio tem uma representação de Deméter colocando a criança eleusina (Triptólemo) para dormir com um suco de papoula. Mas nesse caso também continuamos com a dúvida de como eles conseguiriam ópio numa quantidade tão grande para milhares de iniciados que nem sequer eram fumantes. Quanto ao álcool, éclaro que o 'krater' com vinho estava no centro da maioria dos cultos báquicos, mas a inebriação pelo vinho podia ser tanto "liberação" (com Dioniso Lysios) quanto "loucura" em um sentido de punição por um deus (Dioniso Bakcheios), como Platão indica nas suas Leis. O vinho em si não é suficiente para induzir ao êxtase divino. Em Eurípides, vemos que "muitos são os portadores do tirso, mas poucos os iniciados" - muitos podem ficar bêbados, mas nem todos são bacantes.

Além disso, as drogas muitas vezes levam mais ao isolamento do que criam um senso de comunidade; e todos os mistérios enfatizavam mais uma alegria em comunidade, incluindo banquetes onde compartilhavam opulentas refeições. Os servos da Méter, os 'galloi', eram proibidos de comer cereais, mas podiam comer a carne dos sacrifícios, tendo grandes banquetes. Nos cultos a Ísis e Sarapis, o jantar ('deipna') está entre os fatos mais certos: os participantes se reuniam em uma casa ('oikos') e reclinavam-se em sofás ('klinai'), se preparando para comer e beber. Nas escavações relacionadas a Mitra, encontraram restos de ossos animais de várias espécies perto dos sofás, mostrando que eles não eram usados só para posições de preces, mas para refeições. Mitra e Hélio banqueteam-se juntos nas iconografias mitraicas, enquanto os iniciados de graus menores (do Corvo ao Leão) servem a mesa. Novamente, os grandes banquetes eram uma quebra na parcimônia da vida cotidiana. Beber do 'kykeon', que era uma espécie de sopa de cevada, era um evento importante nos mistérios Eleusinos, ele marcava o fim do jejum. Nos mistérios báquicos, a felicidade ('makaria') era apresentada ao iniciado na forma de um bolo. No culto a Asclépio, a saúde poderia ser ingerida, na forma da deusa Higeia. 

A alteração no estado de consciência através do êxtase era mais presente nos mistérios de Dioniso e da Méter. No primeiro, pela loucura divina, no segundo porque os devotos da deusa frígia eram 'entheoi' ou 'theophoretoi' (carregados pela divindade) sob o efeito de certos tipos de música. Temos inclusive uma descrição clínica do êxtase no culto da Méter, na qual o doutor relata que os 'galloi' "se animam ao som da flauta e da alegria no coração ['thymedie'], ou pela bebida, ou pela incitação dos presentes", e ele fala também do efeito catártico disso, "essa loucura é possessão divina; quando eles terminam o estado de loucura, eles estão com boa disposição, livres de tristezas, como se estivessem consagrados ao deus". A catarse nos mistérios de Dioniso é relatada pelo musicólogo Aristides Quintilianus: "este é o propósito da iniciação báquica, que a ansiedade depressiva ['ptoiesis'] das pessoas menos educadas, produzida por seu estado de vida ou por algum infortúnio, seja lavada através de melodias e danças do ritual de uma forma alegre e divertida". Então, parecia com uma terapia. Tito Lívio também falou do êxtase na bacanália, dizendo que era simplesmente a falta de sono, e o vinho, e os sons musicais e gritos pela noite, que deixava as pessoas atordoadas/embriagadas. Nos mistérios de Eleusis, de Ísis, e de Mitra, parece não ter existido um êxtase desse tipo. 

[Hélio e Mitra sendo servidos em um banquete.]

Vamos terminar com o que Proclus escreveu sobre os mistérios: 
"Eles causam simpatia das almas com o ritual, de uma forma que é incompreensível a nós, e divina, de forma que alguns dos iniciandos são tomados por pânico, sendo preenchidos com um divino assombro; outros assimilam a si mesmos com os símbolos sagrados, deixando sua própria identidade, se sentindo em casa com os deuses, e experimentam uma possessão divina."
Essa simpatia ('sympatheia') das almas com os rituais é como uma forma de ressonância que sacudia os alicerces da realidade, nos trazendo uma transformação. Não sabemos o que acontecia nos rituais, e muito menos conseguiríamos reproduzi-los, não podemos recriar tal experiência, mas podemos reconhecer que ela existia como uma chance de unir a alma do iniciando à da comunidade, em um sentimento de felicidade e união com o sagrado. 

Enfim, era mais o senso de comunidade, os banquetes, as músicas e danças, o efeito do jejum e da falta de sono, o assombro com o desconhecido, entre outras coisas semelhantes, que causava sensações diversas e experiências extáticas fora do comum. Provavelmente, a ideia de torturas, orgias sexuais e drogas, surgiu apenas da falta de conhecimento e de preconceitos mais modernos com relação ao "mistério nos mistérios". Por não sabermos como era, tudo acaba sendo possível de se conjeturar. Mas quase nada pode ser definitivamente afirmado.


agosto 06, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 4

Uma característica primordial dos mistérios é o 'makarismos', a exaltação do estado abençoado daqueles que "viram" os mistérios. Essas "testemunhas oculares" eram chamadas de 'epoptai'. Os festivais de mistério devem ter sido eventos inesquecíveis, daqueles que proporcionam experiências que mudam nossa existência e influenciam toda uma vida futura. O efeito esperado era de que algo estivesse prestes a acontecer na alma, como um encontro com o divino. Psicologicamente falando, era uma experiência de mudança de consciência, bem diferente de algo que se encontraria na vida cotidiana. Nesta postagem, veremos algumas afirmações dos antigos sobre os mistérios.

Aristóteles dizia que no estágio final dos mistérios, não haveria mais "aprendizagem" ('mathein') e sim "experiência" ('pathein') e uma mudança no estado mental ('diatethenai'). Um prato dourado de Thurii trazia as palavras "fique feliz de ter sofrido o sofrimento que você nunca sofreu antes". Aelius Aristides diz que Eleusis era tanto a experiência mais assustadora quanto a mais resplandecente entre tudo o que é divino para o ser humano. Dio de Prusa foi ainda mais explícito:
"Se alguém trouxesse um homem, grego ou bárbaro, para ser iniciado em um retiro místico, sobrepujado por sua beleza e tamanho, de forma que ele presenciasse muitas visões e ouvisse muitos sons do tipo, com escuridão e luz aparecendo em repentinas mudanças e outras coisas inumeráveis acontecendo; e mesmo - como fazem na chamada cerimônia de entronização ['thronismos'], nas quais os iniciandos se sentam e os outros dançam em torno deles - se tudo isso estivesse acontecendo, seria possível que tal homem não conseguisse experimentar simplesmente nada em sua alma, que ele não viesse a conjeturar que há algum plano e percepção mais sábios em tudo aquilo que estava acontecendo, mesmo tendo ele vindo da mais extrema barbárie?"
O filósofo estoico Cleanthes fazia essa comparação do cosmo conhecido (a dança das estrelas e do sol em torno da terra) com um salão de mistério. Sopatros, numa descrição retórica da experiência de Eleusis, disse que saiu do salão dos mistérios sentindo-se um estranho a si mesmo. Marco Aurélio colocava os mistérios numa categoria entre as visões oníricas e as curas miraculosas. 

Dio Crisóstomo descreve os estranhos aos portões do salão como servos dos mistérios, os quais, do lado de fora das portas, adornavam os pórticos e os altares públicos, mas que nunca entravam; eles ainda percebiam algumas das coisas acontecendo lá dentro, seja uma palavra mística que alguém gritava, seja o fogo que era visto sobre os muros, mas eles continuavam sendo servos, e não "iniciados" ('mystai').

Diz-se que Diágoras de Melos teria contado pelas ruas segredos dos mistérios, assim como um escritor gnóstico naasseno da "seita da serpente" teria exposto segredos. Assim, temos dois lampejos da celebração: "os atenienses, celebrando os mistérios Eleusinos, mostram aos 'epoptai' o grande, admirável e mais perfeito segredo epóptico, em silêncio, uma espiga de milho ceifada" e "O hierofante, na noite em Eleusis, celebrando os grandes e inexprimíveis mistérios ao pé de um grande fogo, gritando que A Senhora deu à luz um filho sagrado, Brimo gerou Brimos". 

Plutarco tenta descrever o presumido processo de morte em termos de uma iniciação nos mistérios. Ele diz que, no momento da morte,
"a alma sofre uma experiência similar a aqueles que celebram grandes iniciações... Perambulações errantes no começo, cansativas caminhadas em círculos, alguns caminhos aterrorizantes na escuridão que não levam a lugar nenhum; e então, imediatamente antes do fim, todas as terríveis coisas, pânico e tremedeiras e suor, e assombro. E então alguma luz maravilhosa vem te encontrar, regiões puras e prados estão lá para te saudar, com sons e danças e solenidades, palavras sagradas e visões sacras; e ali o iniciado, agora perfeito, se liberta e se solta de toda servidão, caminha em torno, coroado com uma grinalda, celebrando o festival unto com as outras pessoas sagradas e puras, e ele olha para baixo, para os não-iniciados, para a multidão não-purificada neste mundo, em lama e névoa debaixo de seus pés".
Um dos textos mais influentes sobre a experiência dos mistérios aparece no "Fedro" de Platão. Já em "O Banquete", quando Eros revela sobre o verdadeiro Ser, diferenciando a "iniciação preliminar" ('myein') e os "mistérios perfeitos e epópticos", ele provavelmente estava se referindo a Eleusis. Em Fedro, Platão acrescenta a imagem inesquecível da carruagem da alma subindo até o céu no despertar dos deuses, para cima do mais alto cume, onde uma visão além do céu é possível. Alguma memória turva dessa visão permanece em certas almas, ressurgindo repentinamente através de algumas imagens de beleza encontradas neste mundo. Quando isso acontece, nos lembramos do quão resplandecente era a beleza que vimos, quando estávamos juntos com o coro abençoado, tendo uma alegre visão, celebrando o encontro na iniciação mais abençoada de todas, como 'mystai' e 'epoptai', felizes aparições de puro esplendor, totalmente purificados. 

O único relato de experiência com os mistérios escrito em primeira pessoa foi o da iniciação a Ísis, feito por Apuleio, em "Metamorfoses". Porém, além de ser um texto de ficção, em um estilo meio de romance paródico, ele é figurativo e jocosamente insinuativo, com a clara intenção de frustrar nossa curiosidade. Eis a introdução de uma das partes mais citadas:
"Eu me aproximei da fronteira da morte, eu coloquei os pés na trincheira de Perséfone, eu passei por uma jornada através de todos os elementos e voltei. Eu vi à meia-noite o sol, brilhando em luz branca, eu me aproximei dos deuses do mundo superior e inferior, e os adorei de perto."
O poeta Mesomedes, em seu Hino a Ísis, se refere a um "casamento subterrâneo" e ao "nascimento de plantas" - o que nos lembra Perséfone - e a "os desejos de Afrodite, o nascimento de uma criança, o perfeito e inenarrável fogo, os Curetes de Reia, a ceifa de Cronos, o auriga - tudo isso sendo dançado para Ísis". O nascimento da criança e o grande fogo, a colheita do grão, e o auriga Triptolemo, claramente são cenários eleusinos. Mas claro que esse resumo mítico não substitui a experiência.

A "senha" ('synthema') para os Mistérios de Eleusis, que conhecemos por transmissão de Clemente de Alexandria, era algo intencionalmente enigmático: "eu jejuei, eu bebi do 'kykeon', eu tirei do cesto coberto ['kiste'], eu trabalhei e coloquei de volta no cesto alto ['kalathos'], e dali para dentro de outro cesto ['kiste']". O que significa esse "trabalhar" é incerto, mas a explicação mais plausível vem de Teofrasto, sobre pilar o grão, como se o iniciado tivesse que triturar um pouco de grão em um pilão. O simbolismo desse ato é que continua obscuro.

Clemente também fala que, nos mistérios da Méter, o 'synthema' era parecido, mas se referia a instrumentos musicais: "Eu comi do 'tympanon' [tambor/pandeiro], eu bebi do 'cymbalon' [címbalo/pratos], eu carreguei o 'kernos' [vasilha] da mistura, eu deslizei sob o 'pastos' [pálio/dossel]" ou, em outra versão, "eu me tornei um 'mystes' [iniciado] de Átis". Aqui o pálio/dossel (cortina da cama) provavelmente é uma alusão a casamento.

Ainda nos mistérios da Magna Mater, o famoso 'taurobolium' é na verdade descrito por autores cristãos: o iniciando, agachado em um poço, é inundado com litros de sangue do touro agonizando acima dele. Ainda assim, se a descrição era mesmo fiel, esse emergir do poço e ser "adorado" pelos outros, como se o iniciado tivesse alcançado um estado superior, certamente provocava um sentimento de liberação e de nova vida, após escapar do horror anterior.

Os mistérios de Mitra são quase sempre algo à parte. Para começar, não havia uma única iniciação, mas sete graus de iniciados: o corvo, a crisálida, o soldado, o leão, o persa, o corredor-do-sol, e o pai. Respectivamente: 'korax/corvus', 'nymphus', 'stratiotes/miles', 'leo', 'Persa', 'heliodromus', 'pater'. Então fica mais complicado falar do culto mitraico aqui.

Um testemunho relacionado com iniciações dionisíacas enfatiza a purificação e a mudança de status ou até de identidade. No discurso de Demóstenes contra Ésquines, encontramos relatos sobre uma cerimônia noturna a qual incluía colocar uma pele de gamo/cervo e encher um 'krater' (jarra em forma de taça) com vinho. Ali, os iniciandos, sentados, são então lambuzados com uma mistura de barro e resíduos de cereais; o sacerdote surge da escuridão como se fosse um espírito aterrorizante; os iniciados são limpos e se erguem de pé, exclamando "eu escapei do mal, eu encontrei algo melhor", e os presentes gritavam em uma voz aguda e alta ('ololyge') como se estivessem na presença de algum agente divino. Na manhã seguinte, os iniciados eram integrados ao grupo de celebrantes, com o 'thiasos' se movendo pelas ruas, pessoas coroadas com funcho (erva-doce) e álamo/choupo branco, dançando e pronunciando gritos rítmicos, carregando o 'kiste' (cesto) e o 'liknon' (peneira), e alguns brandindo serpentes vivas. O terror teria se tornado algo administrável para o iniciado.

Há uma interessante iconografia referente às iniciações a Dioniso, a começar pelo famoso afresco da Vila dos Mistérios em Pompeia (vide imagem abaixo) e os relevos da Vila Farnesina em Roma, e passando por relevos arquitetônicos, cenas em sarcófagos, e um mosaico na Algéria que enfeitava um aposento de culto. O item mais intrigante dessas imagens é um imenso falo ereto em uma peneira ('liknon'), coberto por um pano, sendo desvelado ou por uma mulher ajoelhada ou por um sileno em frente de um rapaz que avança. [De uma forma geral, procissões com falo sempre estiveram presentes no culto a Dioniso. Mas um falo não era um segredo maior do que uma espiga de grãos; o mistério não estava no objeto.] O friso da Vila segue uma sequência: começa com uma mulher entrando pela esquerda e prosseguindo até a purificação, um breve idílo de vida satírica, a revelação misteriosa do deus no centro do mural, duas manifestações principais de Dioniso (sátiros manipulando uma tigela prateada e uma máscara, e uma garota desvelando o falo), depois uma cena de flagelação e uma dança frenética (indicando uma espécie de humilhação e a alegria/êxtase final).



Enfim, existia um paradoxo dinâmico de morte e vida nos mistérios, associado com os opostos de noite e dia, escuridão e luz, abaixo e acima, mas nada explicitamente parecido com uma "ressurreição" semelhante aos evangelhos cristãos. Burkert ressalta que, mesmo havendo purificação e aspersão de água, no paganismo não existiria um "batismo" no sentido de imersão em um rio ou bacia para renascer para uma nova vida. Mesmo nos santuários de Ísis, onde havia um receptáculo de água, o que poderia parecer uma referência ao batismo, o que existia mesmo era o uso dessa água para representar a enchente do Nilo. Lembrem que o helenismo não pertence a um mundo de opostos do tipo "bem x mal", um vencendo o outro, e sim de uma busca pelo equilíbrio, pela justa medida, pois é no 'métron' que reside a virtude.

[continuaremos o assunto na próxima postagem]

agosto 01, 2013

Antigos Cultos de Mistério - parte 3

As fontes literárias sobre os mistérios, por serem mistérios, são todas indiretas. Não se trata apenas de dizer que uma biblioteca específica sobre os mistérios nunca foi encontrada, porque na verdade ela nunca existiu. Os tipos de textos que restaram, dos quais se procura extrair alguma coisa sobre os mistérios, são principalmente três: escritos herméticos/gnósticos, papiros mágicos, e os romances gregos. Cada um tem seus próprios problemas em servirem como fonte.

A interpretação dos romances como textos de mistérios é algo meio recente. Eles não raro introduzem cenas elaboradas de rituais religiosos, com descrições vívidas da religião antiga, mas é difícil saber se isso era só por efeito literário ou indicava um envolvimento mais profundo real, e também saber se tratava-se de um tema isolado ou de símbolos que pertenciam à estrutura do todo. Um dos romances que mais tinham uma dimensão religiosa, o "Etiópica" de Heliodoro, não centra propriamente nos mistérios, mas no culto de Hélio. Ou seja, os romances serviam pelos detalhes ilustrativos, mas não podiam ser usados independentemente como chave para os mistérios.

No caso da literatura hermética/gnóstica, apesar de pré-cristã, ela não é pré-judaica, ela era ligada ao judaísmo helênico. O tratado de Poimandres que abre o Corpus Hermeticum, tem um "background" judaico-cristão. Nela, os elementtos pagãos são modificados pelo filtro de um sistema religioso que difere radicalmente do ambiente dos mistérios pagãos antigos. 

O interesse nos papiros mágicos começou com um livro que contava dos mistérios de Mitra como se fosse uma viagem particular em busca de uma revelação oracular, e não um rito de mistério propriamente. Os livros mágicos encontrados no Egito praticamente não tem nenhuma relação com Eleusis ou Dioniso ou com a Magna Mater. Uma das grandes diferenças entre religião e magia aqui é que: enquanto os mistérios integravam o iniciado em um grupo, os magos "continuavam solitários entre seus sonhos de onipotência, almejando ao mesmo tempo finalidades práticas de conhecimento do futuro, posse de riquezas e concubinas" (Walter Burkert, Ancient Mystery Cults, pag.68). A cura ficava em segundo plano nos papiros mágicos, deixada para Asclépio ou para a medicina científica. 

Aristóteles uma vez disse que aqueles que passam pelos mistérios não deveriam "aprender" ('mathein'), mas sim "serem afetados", "experienciarem" ('pathein'). Ainda assim, existem alguns testemunhos sobre a "aprendizagem" ou "transmissão" preparatória que acontecia nos mistérios. A palavra/razão/discurso ('logos') tinha um importante papel a desempenhar, e a prescrição de "não contar" o que se via nos Mistérios acontecia porque a verbalização tinha um papel central nos procedimentos. Era como um "relato sagrado" ('hieros logos'). O estóico Crisipo considerava a transmissão do 'logos' sobre os deuses (ou seja, a "teologia") como sendo a essência da iniciação. Isso pode ser percebido também em Empédocles, Parmênides, e no discurso de Diotima em "O Banquete" de Platão. Porém, mesmo havendo a possibilidade de existirem livros ou arquivos, não existia uma biblioteca de teologia; afinal, o culto da Méter e os Mistérios Eleusinos eram mais como uma tradição familiar.

O fato de existirem 'logoi' e até textos escritos nos mistérios, como em outros cultos pagãos, não significa que esses textos formassem a base de religião - do jeito que acontece com a bíblia, o torah e o alcorão no caso do cristianismo, judaísmo e islamismo, respectivamente. Conforme conta Platão em "Meno", quando Sócrates introduz a doutrina da metempsicose, ele finge ter aprendido isso de "homens e mulheres que são sábios sobre as coisas divinas", de "sacerdotes e sacerdotisas que zelam por serem capazes de dar um relato do que eles estão fazendo". Isso implica que existiam também sacerdotes e sacerdotisas que não zelavam pelo que faziam e simplesmente executavam suas manipulações sem nenhuma explicação, nenhum 'logos' a ser comunicado aos outros. Esse relato, no entanto, não era fixado pela tradição, e nunca se tornava um dogma; nem mesmo havia uma organização por trás para controlá-lo. No papiro de Derveni, há uma passagem em que o autor reclama de certos oficiantes dos mistérios privados que só tomavam dinheiro sem conduzir seus clientes ao conhecimento; clientes estes que eram tímidos e confusos demais até para fazer perguntas, e por isso que perdiam seu dinheiro e sua esperança de alcançar o conhecimento. 


Existiam também três tipos de 'logoi': mito, alegoria natural, e metafísica. 

Martin Nilsson, que costuma negligenciar a importância do mito para a religião, ao falar sobre Eleusis, admite que "o mito tinha um efeito pervasivo incomum na religião de Deméter". Mas o mesmo podemos dizer da Méter, de Dioniso, e de Ísis. No caso dos mistérios órficos de Dioniso, o mito mais relevante para eles é o do seu nascimento de Perséfone e seu massacre pelos Titãs. A maioria dos mitos ligados aos mistérios, aliás, é de um deus que passa por um 'sofrimento': Perséfone abduzida, Dioniso retalhado, Osíris morto; e depois um luto que termina com uma alegria do retorno: tochas brandindo pela retorno de Perséfone à sua mãe, o dia de júblio ('Hilária') no festival da Magna Mater, a festa pela alegria de Ísis ao reencontrar Osíris. Essa rota da catástrofe à salvação parece lembrar o iniciado para ser confiante, pois assim como o deus se salvou você também vai se livrar dos seus apuros. Mas cuidado para não confundir isso com ressurreição inspirada num ciclo agrário (como pensava Frazer), pois não há evidência de Átis ter ressuscitado, Osíris continua entre os mortos, Perséfone vai e volta todo ano... Ou seja, não há nada que explicite uma ressurreição, embora existam relatos de deuses que podiam morrer e voltar nos mitos não relacionados com os mistérios. Hércules sofreu, morreu, ascendeu ao Olimpo, mas não se criou um mistério de Héracles por isso. E nos Mistérios de Mitra não tem nenhum mito de um "deus que sofre". Plutarco dizia que os sofrimentos de Ísis, ao serem reencenados, deveriam ser uma lição de piedade/devoção e um consolo para homens e mulheres que se vissem em situação similar de sofrimento. O mito também comunicava uma experiência viva que era reencenada: se Deméter jejuou de tristeza no mito, o iniciado de Eleusis também se abstinha de comida até a primeira estrela ser vista no céu; se Deméter acendeu tochas nas chamas do Monte Etna, eles também carregavam tochas; se ela se sentou num banquinho e velou sua cabeça, mantendo o silêncio e depois rindo e provando do kykeon, eles também o faziam. Os seguidores de Ísis a imitavam batendo no peito e pranteando Osíris, pra depois comemorarem quando ele era encontrado novamente. Os castrados da Méter também personificavam Átis e, uma vez que acreditava-se que Átis tivesse morrido debaixo de um pinheiro, essa árvore era levada ao santuário com fitas penduradas em seus galhos para representar as ataduras com as quais a Méter tentou estancar o sangue de Átis, e ela o enfeitou com flores primaveris, como as flores que se penduravam nas árvores. Nos mistérios de Dioniso, os iniciados usavam guirlandas de álamo preto porque acreditava-se que essa árvore crescia no mundo inferior, lar do Dioniso Ctônico. Quando Platão fala da amizade que surge entre os companheiros de iniciação nos mistérios, esse tipo de comunidade é chamada de "parentesco de almas e corpos" ('syngeneia psychon kai somaton'). 

A alegoria normalmente era considerada uma espécie de raciocínio sofístico, um exercício de retórica, em vez de um genuíno sentimento ou perspectiva religiosos, mas existem dois caminhos na elaboração de uma alegoria: há a conceituação abstrata vestida com uma roupa quase-mística de um lado, e há um relato tradicional que é parcialmente decodificado com referência a um sistema mais racional de pensamento. Na verdade, é a visão de mundo pré-socrática, centrada na Natureza ('physis'), e refinada (embora não alterada) pelos estóicos, que vem a ser o sistema de referência para a alegoria grega. Na era helênica, a alegoria era inclusive normalmente chamada de "mística". Os seguidores de Heráclito acreditavam que "a natureza deseja ser ocultada", se referindo aos segredos dos mistérios. A alegoria, portanto, era mais necessária nos mistérios do que em cultos menos secretos. Se a natureza era "misteriosa", então toda alegoria feita em um contexto religioso poderia ser chamada de "mística". Se tentarmos focar não no uso retórico das metáforas e sim no próprio fenômeno refletido em seu uso/aplicação, podemos fazer duas observações: primeiro, ao alegorizar os mistérios em termos de natureza, os sacerdotes e sacerdotisas poderiam dar um relato do que estavam fazendo. Por exemplo: em Eleusis, poderia-se reconhecer Deméter como a Mãe Terra e Perséfone como um grão que é levado para baixo da terra e retorna de uma maneira cíclica a cada ano; no Egito, Osíris estava ligado ao Nilo e Ísis à Terra; as iconografias mostram Mitra como um sol; nos mistérios da Magna Mater, os 'galloi' se cortavam para representar as feridas causadas na terra pelo arado - ou seja, esse aparente "ato de loucura" tinha uma explicação alegórica. Foi assim que a alegoria abriu caminho para a liturgia (do grego λειτουργία, "serviço/trabalho público"). 

No caso da metafísica, ela seria um nível mais elevado de interpretação. Aqui, acreditava-se que os princípios do universo não poderiam ser incorporados; ou seja, nem a terra nem a água poderia ser divinas por si só, e sim seriam permeadas por potências superiores. Os princípios de criação e união e os de dispersão e aniquilação trabalhariam juntos na matéria, a qual receberia seus impactos. Assim, os eleusinos estariam menos preocupados com o destino de Kore (mito) e a semeadura do grão (alegoria) do que com alguns procedimentos do hierofante no grande festival noturno. O estranho fenômeno da castração nos cultos à Méter não era só por conta do debulhar (mito) ou do cortar da terra (alegoria), mas trazia uma fascínio mais sublime relacionado à evolução do ser transcendente: o iniciado não pode mais gerar porque ele já chegou ao seu ápice em termos de procriação e agora precisa se estabilizar da forma mais segura possível para poder voltar às suas origens - além de representar uma tentativa de deter o fluxo de mudanças que conduziria a uma transformação do mundo a algo não mais ligado à natureza. 

[continuaremos o assunto na próxima postagem]