março 01, 2010

Rapidinha: ecletismo, magia e valores

OK, esse é um assunto do qual já falei várias vezes, mas - como volta e meia uma pessoa nova no caminho dos deuses me pergunta sobre ele - vou retornar um pouquinho nisso para esclarecer algumas coisas de uma forma mais direta.

Ecletismo, sincretismo et al. Algumas pessoas, que me ouvem sugerir que a prática delas poderia seguir mais pelo ecletismo do que pelo reconstrucionismo, vêem isso como uma limitação, e não é! Nem o reconstrucionismo é melhor que o ecletismo nem o revivalismo é melhor que o reconstrucionismo. A questão é como você lida com isso. Você pode aprender sobre coisas diferentes, mas tem que considerar como as coisas eram feitas.

Antes de mais nada, parte desta postagem foi inspirada num áudio da K. Pythia Theocritos, em inglês, disponível AQUI. Então, resumindo e organizando (e traduzindo) o que ela fala:

Não há problema existir um eclético do tipo que cultua os deuses gregos e segue uma filosofia budista, por exemplo. São posturas que se reconciliam bem. Mas há outras práticas que possuem métodos totalmente diferentes de culto/rito, com deuses de dimensões muito diferentes, que fica difícil manter os princípios helênicos e colocar todas essas coisas junto.

Provavelmente você já ouviu alguém dizer coisas do tipo "eu USO Afrodite em feitiços de amor". Como assim você USA? Isso não soa ofensivo? Ninguém gosta de ser usado, que dirá uma deidade!


Ou que tal alguém dizendo "eu sigo a lei tríplice (do retorno triplo), mas eu cultuo Ares"... Hein? Como assim? Se tudo o que você fizer volta para você, você não vai sair da cama e agir, tomar uma atitude, como Ares espera que você faça. Há momentos em que você precisa chutar o pau da barraca mesmo!

Sem falar em quando as pessoas associam Hécate APENAS a uma deusa das bruxas. Nenhum deus ou deusa era só uma coisa. É frustrante quando alguém fala "Atena é a deusa da sabedoria, Poseidon é o deus do oceano etc", porque eles não são só isso.

E a questão de sempre dar uma importância extrema para a lua cheia? Nós celebramos a lua nova, que inicia os meses helênicos. Como você pode ser helênico invertendo algo básico da prática ritual?

Sim, porque o helenismo não é só ler os mitos. Quantas vezes você diz que cultua os deuses e alguém te diz "ah, eu gosto muito de mitologia também". O que fazemos é mais do que mito e história e literatura clássica. Para entender os deuses, é preciso entender as pessoas que os cultuam. Mas muitos não querem sequer fazer libações...

Agora, outra questão que me apareceu pela 'trocentésima' vez e que continuam surgindo pessoas com dúvida: a história de que no reconstrucionismo não se "permite" a magia. O que falamos nisso é com relação a não cometer Hybris, a não interferir no livre-arbítrio e na ordem natural das coisas. Ou seja, tudo bem você usar ervas, oráculos, incenso, óleos, fazer preces pedindo por coisas aos deuses e fazer ofertas em agradecimento antecipado pela Sua ajuda, esperando que nos orientem e façam o que acharem melhor dentro do julgamento dEles. Mas outra coisa é você fazer um feitiço/simpatia que "garanta" que o "seu" desejo seja realizado da maneira que "você" acha que é a melhor. (Fora que isso tira toda a surpresa que dá graça à vida, hehe!)

Nós estudamos a magia homérica, as tábuas de imprecação, os papiros mágicos gregos, as amarrações etc, mas o interesse é bem mais acadêmico do que outra coisa, pois não podemos cair na Asebia ou na Deisidaimonia, ou seja, não podemos dar todo o crédito do que acontece para nós mesmos nem podemos ficar super-dependente dos deuses, tendo superstição com tudo.

Enfim, há que se manter o Métron entre Agon e Sophrosine, entre a competição/tensão e a gentileza/prudência. No final das contas, acaba sendo tudo uma questão de bom senso... Então que Métis nos ajude!

janeiro 29, 2010

Adivinha quem é!

~ Vamos ver a originalidade dos relatos que ouvimos? ~

Ele era filho do deus da luz, realizava curas (do corpo e da alma), curava enfermos e deficientes, ressuscitava os mortos, era chamado de salvador e redentor, recebia todas as classes e gêneros de pessoas; uma vez um paralítico veio a ele e se levantou e saiu andando depois que ele o tocou. Quem é?

ASCLÉPIO!

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Ele era filho de uma virgem mortal com um deus, era conhecido como 'salvador do mundo', antes de ele nascer seus pais terrestres se mudaram para uma cidade maior, profetas previram seu nascimento e que ele seria um rei, por isso ele foi perseguido ainda criança por uma figura poderosa que o queria matar; após crescer observou os reinos do mundo de cima de uma montanha, depois sabia o momento que iria morrer, mas disse que não se preocupassem pois ele estava indo para o "céu". Quem é?

HÉRACLES!

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Ele era o redentor, o verdadeiro salvador da humanidade, que enfrentou as autoridades para ajudá-la, trazendo a luz (fogo), e - por amor e piedade e compaixão dos pecaminosos humanos - se deixou ser sacrificado para salvá-los. Quem é?

PROMETEU!

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Ele era o filho de um deus com uma virgem mortal, representado por vezes como deus-menino e outras vezes como homem barbado, além de ser retratado montado em um burrinho; ele que transformou água em vinho, que teve significativos encontros com pescadores, que realizou curas, que morreu violentamente e ressuscitou (tornando-se imortal); cujos seguidores comiam o pão e o vinho em honra de seu corpo e sangue em uma espécie de união sagrada com ele para tentar alcançar a vida eterna, e de quem se conhece a imagem de uma cruz com ele nela e letras de uma língua antiga em volta da mesma. Quem é?

DIONÍSIO / BACO!

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Ele era o "bom pastor", representado com um cajado ou com uma ovelha ao ombro, era condutor das almas pelos prados e campinas daqui e do mundo de lá, ele transmutava elementos, andava pelas estradas, era o intermediário entre os homens e deus(es), e sabia se comunicar como ninguém. Quem é?

HERMES!

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Ele era a luz do mundo, era identificado com o sol, e pregava a moderação e a harmonia. Quem é?

APOLO!

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Ele era capaz de caminhar sobre as águas. Quem é?

ÓRION!

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Ele era a "luz do mundo", o deus nascido de uma virgem, o primeiro rei verdadeiro do povo, que se ergueu do túmulo e subiu ao céu, derrotando a morte. Quem é?

OSÍRIS!

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Ele era chamado de "bom pastor", "luz do mundo", "o cordeiro", era "o caminho, a verdade e a vida", e era identificado com uma cruz. Quem é?

HÓRUS!

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Ele era "a luz do mundo", mediador entre deus e os homens, nasceu a 25 de dezembro, pastores do lugar testemunharam seu nascimento e lhe deram presentes; ele tinha 12 discípulos, que no final se reuniram para uma ceia e então ele subiu ao céu; no dia do juízo final ele voltaria para julgar os vivos e os mortos, os justos subiriam com ele e os pecadores seriam mortos em um imenso fogo; seu dia sagrado é o domingo, sua religião foi que nos deu sete dias na semana; seus seguidores se chamavam de "irmãos" e seus líderes de "pais"; ele praticou o batismo, fez rituais de refeição sagrada nos quais carne e sangue eram consumidos simbolicamente pelos iniciados, e eles acreditavam que sobre a terra havia um céu e sob ela havia um inferno escuro com demônios e pecadores. Quem é?

MITRA!

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Ele foi concebido de forma miraculosa, homens sábios foram guiados até ele por uma estrela, o governante local quis matá-lo e começou a caçar a criança, seus pais foram avisados por um mensageiro celeste e fugiram pelo rio com o menino sagrado, ele se encontrou com pastores, cresceu fazendo grandes feitos e era o mediador entre deus e os homens. Quem é?

KRISHNA!

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Um "anjo" disse à mãe dele que ela geraria uma criança sagrada destinada a ser um salvador, ele foi instruído por sacerdotes no templo em assuntos religiosos enquanto seus pais procuravam por ele, ele começou sua carreira religiosa quando tinha 30 anos de idade, era cercado por 12 discípulos (dos quais um era seu favorito e outro era um traidor), seus discípulos se abstiveram de riquezas materiais e viajaram falando em parábolas e metáforas, ele se auto-proclamava "filho do homem" e lhe chamavam de "profeta" e "mestre" e "senhor", ele fez maravilhas e curou enfermos e deficientes, ele caminhou na água (e, quando um de seus discípulos tentou fazer o mesmo, começou a afundar porque sua fé não era forte o bastante). Quem é?

BUDA!

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Ele era o deus-homem, o profeta, fundador de uma grande religião monoteísta que ainda existe, ele pregou que só havia um deus; seus ensinamentos se focavam na eterna luta entre o bem e o mal, incluíam a ideia de um salvador que levantaria os mortos e julgaria a todos, os justos iriam ao paraíso e os pecadores ao inferno (a palavra "paraíso" veio dessa religião); o semi-deus começou sua carreira no começo dos 30 anos e tinha discípulos que eram um monte de monges perambulando para pregar sua palavra; ele depois foi morto e subiu ao céu. Quem é?

ZARATUSTRA ou ZOROASTRO!

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Todos esses que se encaixam na imagem de um deus-homem salvador-do-mundo eram muito mais antigos do que Jesus! Martin Nilsson, em "A Origem Micênica da Mitologia Grega" (1931) afirmava que os mitos gregos datam do segundo milênio Antes da Era Cristã, muito antes da decifração da escrita Linear-B (vide Moses Finley, "O Legado da Grécia ", 1998). Os outros citados também eram antigos: egípcios (Osíris e Hórus) eram bem conhecidos antes dos gregos, Buda (Siddhartha Gautama) também era anterior a Jesus (cerca de 563 a 483 AEC), a primeira menção do persa Mitra é de 1400 AEC, Zoroastro era do século VII AEC, e o hindu Krishna é citado no Maabárata/Mahabarata do século IV AEC.

Às vezes as pessoas acham que a origem de uma história está no primeiro lugar de onde ela a escutou, sem pesquisar o que veio antes (vide o povo que acha que Tolkien "inventou" as runas, que Perséfone é só uma personagem do filme Matrix e que Atena vem de um desenho animado japonês), e de paráfrase em paráfrase vai-se acreditando em qualquer coisa...

dezembro 25, 2009

Os mitos da Heliogenna

Nos dias que envolvem o solstício do final de ano (inverno para a Grécia e verão para o Brasil), há a celebração moderna da Heliogenna, sugerida inicialmente para 9 dias, mas também adaptada para 3, 2 ou 1 dias. A explicação do festival você pode ler lá no site, clicando AQUI. Mas o que eu gostaria de falar nesta postagem é sobre os mitos.

Vendo o que se celebra, percebemos principalmente Hélio, Faetonte, Selene, Éos, Hécate, Hades e Perséfone. Então embora a ligação entre Hélio (sol), seu filho Faetonte (brilhante), Selene (lua) e Éos (aurora) seja mais óbvia, algumas pessoas poderiam perguntar o que os demais têm a ver com eles. Hécate, a do toucado cintilante, talvez seja mais fácil, por ela ser uma das filhas da noite e deusa da lua, carregando uma tocha. Mas esses deuses também têm mitos em comum, que vamos já saber. Também vamos perceber que é curioso não termos Ártemis incluída na Heliogenna, mesmo ela sendo considerada uma deusa lunar e figurando nos mitos correspondentes. Embora, se incluíssemos Ártemis, tivéssemos que trazer o solar Apolo também. Provavelmente não fazemos isso por conta de ser um festival dirigido a deuses de gerações anteriores à geração deles.

Seguem os breves relatos:

Hélio-Hades-Perséfone-Hécate

Em certo sentido, o deus do submundo Hades ("o invisível, o que dá a invisibilidade") parece muito mais um reverso de Hélio ("o visível, o que torna visível") do que do deus celeste Zeus. Quando Hades raptou Core, que assim virou Perséfone, ela gritou por ajuda, mas ninguém ouviu, exceto Hécate, na sua caverna, e Hélio. Depois o eco de sua voz alcançou sua mãe Deméter. Por nove dias ela andou pela terra com duas tochas nas mãos, à procura da filha. Na terceira manhã, Hécate - também com uma tocha - lhe trouxe notícias, dizendo que ouviu o grito, mas não ouviu quem tinha sido. Deméter perguntou então a Hélio e este lhe disse o que aconteceu. Aí vem todo um enorme relato de Deméter deixando o Olimpo e punindo a terra com a ausência de colheitas, e Iambe e Metanira em sua estada em Eleusis etc, que não cabe agora, e sim em outro festival. Quando Perséfone reencontra sua mãe, elas ficam abraçadas e, em seguida, vem Hécate acolher Perséfone também, passando a ser companheira delas.

Hélio-Hécate-Perséfone

A mãe de Hélio, Téia, recebia presentes de ouro, como Perséfone. A esposa de Hélio, Perse ou Perseida (com quem teve quatro filhos), era um outro nome de Hécate, "deusa que brilha amplamente". Perséfone também poderia ser uma forma mais cerimoniosa de Perse. Outra amada do deus-sol era Neera, "a nova", ou seja, a lua nova, em sua fase mais escura. Com ela, Hélio teve duas filhas. Com Climene (também chamada de Merope, "a de face virada", referência ao eclipse), ele teve sete filhas e um filho, Faetonte.

Hélio-Faetonte

Faetonte era um jovem deus do sol que uma manhã subiu no carro do pai, ergueu-se alto demais e caiu, à semelhança da estrela-da-manhã que se levanta muito cedo e logo desaparece. Ele caiu no rio Erídano e, às suas margens, suas irmãs solares o prantearam. De suas lágrimas surgiu o âmbar.

Hélio-Selene-Hécate-(Ártemis)

Hélio era irmão de Selene e de Éos. O nome Selene está ligado à palavra "selas" (luz) e "mene" (feminino de "men", que significa lua, o mês lunar). Com Zeus ela teve Pândia, "a que brilha inteiramente, a inteiramente brilhante", referência à lua cheia. Selene e Hélio eram tão fraternais quanto Ártemis e Apolo, nunca se casando entre si. Aliás, Apolo e Ártemis tinham um epíteto de Hécaton e Hécate, respectivamente, o que nos liga de novo a Hécate, "a distante", embora ela seja uma das deusas mais próximas da humanidade - como a lua é mais próxima da terra do que os planetas. A história de Ártemis como deusa da lua crescente, fechando o trio Selene-Hécate-Ártemis, parece se dever mais ao fato de ela ter um arco, que lembra o crescente, e ser irmã do solar Apolo, já que isso não se aplicava à Ártemis Táuria, Arcadiana ou Efésia.

Hélio-Éos-Selene-(Ártemis)

Éos é a deusa da manhã, da aurora, a deusa do trono de ouro, e outro reverso feminino do sol, sendo uma irmã mais selvagem e turbulenta do que Selene, visto que as histórias de amor de Éos eram mais apaixonadas que as da própria deusa da lua. Dos jovens que ela amou, muitas vezes só se conhece o nome. Em uma das histórias, ela disputou Céfalo com a esposa dele, Prócris, uma heroína que tinha características lunares. Em uma ilha grega, contava-se que Céfalo se uniu a uma ursa, animal associado a Ártemis. Pode ser que Céfalo ("cabeça") seja a cabeça da constelação de Órion, outro amado por Ártemis e Éos.

[Consultas: livro "Os Deuses Gregos", de Karl Kerényi, e Theoi project.]

Espero que, além de fazer conhecer os mitos, isso auxilie as pessoas a não verem os deuses apenas como personificações (ainda mais tão diretas), como se houvesse apenas um deus para cada coisa no mundo ou que cada deus só regesse um único domínio da realidade...

dezembro 16, 2009

Coisas que me dão raiva (parte 1)

Hoje estava conversando com o Thiago sobre uma manifestação dos helênicos da Grécia em agosto passado e resolvi falar aqui sobre isso, já que nem todos leram as notícias relativas ao desrespeito dos cristãos gregos com as outras crenças. (Tudo bem que o assunto surgiu porque vimos um sujeito lindinho no vídeo e resolvemos assistir com mais atenção, rsrsrs!)

Cerca de 200 pessoas, incluindo cineastas, escritores, editores, músicos famosos, se reuniram em frente ao Museu da Acrópole a convite da YSEE (Supremo Conselho dos Gentis Helenos) para denunciar a intervenção da igreja cristã ortodoxa grega na cultura, com suas censuras que causaram desastres nas estátuas.

Já tínhamos comentado no fórum, na época, sobre a depredação do Parthenon, quando Costas Gavras fez um filme sobre a história do Parthenon, onde cenas (que foram sumariamente deletadas) mostravam como os cristãos esmagaram e devastaram decorações esculpidas lá para transformar o templo em igreja por acharem que nas estátuas dos deuses residiam demônios a serem destruídos. A civilização helênica pré-cristã era tachada de "maligna" e "merecedora de ser incendiada e lançada ao chão". Isso são fatos incontestáveis, que ninguém pode negar que aconteceram, embora os ortodoxos fanáticos neguem. Escolas de filosofia foram fechadas, vários livros foram incinerados por monges e bispos, e em muitas igrejas gregas de hoje você vê em suas paredes fragmentos de antigos templos demolidos. O líder da igreja cristã ortodoxa oriental pediu inclusive que o Parthenon fosse convertido a uma igreja cristã para que a celebração do seu jubileu fosse "mais glorioso". No berço da democracia não há sequer liberdade religiosa, e provavelmente a Grécia é o único país da Europa a agir assim, sem um Estado laico, já que o Ministro da Educação é também o Ministro dos Assuntos Religiosos.

Mas, voltando a hoje, o que nos irritou foi o que assistimos no vídeo de uma manifestação feita diante do Museu da Acrópole, pedindo que parassem essa teocracia. O povo fez máscaras superlegais, e fez uma imagem chocante de uma cabeça de estátua chorando sangue. Porque uma das coisas que eles mostram foi como os cristãos entalharam uma cruz na testa e no queixo de uma estátua de Afrodite, destruindo assim uma obra de arte, o item 1762 do museu.

Isso é uma falta de respeito absurda, não só à crença e liberdade de expressão religiosa de outros seres humanos, mas também à arte (à subjetividade, à criatividade, à estética), à criação individual do artista, querendo misturar domínios diferentes da esfera humana e impor o seu.

Quem quiser ver o vídeo, o link é este: www.youtube.com/watch?v=QqsMZJG6xJc e as fotos da manifestação estão aqui: diamartyriaakropoli.

Ainda que o protesto tenha sido há 4 meses, essa é uma questão que já acontece há anos e continua acontecendo e está sendo bem difícil de mudar. Acho que todos se lembram do rolo que foi nas Olimpíadas de 2004 na Grécia, quando fizeram bonequinhos ridículos com nomes de deuses como mascotes e botaram um líder ortodoxo na abertura (onde desfilava-se a história dos jogos que começaram com Zeus) para "reforçar" que aquela parte pré-cristã era tudo mitologia etc e tal.

Sou uma pessoa calma, paciente, mas nunca injusta ou desumanamente passiva. Como diria Milton Nascimento, "não posso, não devo e quero viver como toda essa gente insiste em viver, e não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal".

Fica a minha indignação. Amo a Grécia Antiga, mas a atitude dos líderes de 98% de cristãos da Grécia moderna me dá raiva.

dezembro 07, 2009

Acreditar e ser grata

Um dia desse eu estava conversando sobre esse negócio de explicação racional pras coisas... Desde a época em que fui fazer psicologia que algumas amigas se preocuparam em me ver perdendo a para ficar com a ciência, como se fossem incompatíveis. O fato é que, mesmo que você pense que tudo tem explicacao, chega uma hora em que, destrinchando as explicações ao nível mais elementar, em algum momento a explicação vai se limitar a um "é assim porque é assim". E quem fez ser assim?

E mais: se eu escuto algo de um filme que alguém deixou ligado e pensei que era alma, mesmo assim o fato de eu ter ouvido exatamente aquele trecho em particular não poderia ser uma mensagem pra mim em vez de mera coincidência? Talvez o que Jung chama de 'sincronicidade'.

Claro que, se vem um freudiano ou outro ser do tipo, diria "foi sua mente que projetou", mas, se eu não mando na minha mente (como aprendemos das feridas narcísicas), quem manda? Se fazemos coisas que não queremos, se dizemos que "não era eu, não sei o que me deu" porque o inconsciente tinha guardado e vieram à tona, por que algumas coisas ficam e outras não? E por que nos sonhos me surgem coisas que aparecem do nada depois, no dia que as sonhei? Mesmo que cheguemos à explicação dos arquétipos, não tem muita diferença uma marca-antiga (arquétipo) de um deus interior compartilhado.

Aqui eu poderia seguir falando da diferença entre 'tudo ter uma explicação' e 'tudo ter um motivo', mas não vou. Não quero teorizar agora, quero compartilhar experiências.

Eu já tentei não acreditar no que alguns chamam de coisas "esquizotéricas", até porque eu não vejo materializações de espíritos e porque tem muita coisa que me aconteceu que eu saberia facilmente explicar dentro das ciências não-ocultas, mas então me lembro de todas as outras que eu não explico/entendo e me volto novamente para o fato de que me sinto melhor acreditando. Sabe por quê? Porque não me sinto ingrata!

Tem coisas que são 'coincidência' demais, então ignorá-las me parece uma espécie de ingratidão. Imagina se você compra um presente para alguém e a pessoa vira para você e diz "ah, apenas coincidiu de você ter dinheiro e eu estar precisando e consequentemente gostar de ganhar" em vez de ela achar legal você ter se lembrado dela e comprado exatamente o que ela queria... Eu não quero dar uma de mal-agradecida com os deuses/ancestrais/daimons/etc que colocam as coisas no meu caminho.

Acredito que, mesmo que eu abandonasse o politeísmo, provavelmente ainda assim eu seria de algo dos moldes da conscienciologia, que não acredita em deuses mas acredita na consciência eterna, que você tem a mesma consciência que fica reencarnando e a qual é capaz de fazer muitas coisas sobrenaturais/inexplicáveis. E o engraçado é que eles não acreditam que um ser superior criou isso, é como se a consciência tivesse aparecido da evolução/ordem natural ou existisse desde sempre e pronto. Para algumas pessoas que conheço, é incompativel a ideia de um ateu que acredite em reencarnação, mas eu acho que compreendi o mote deles nesse aspecto.

Mas, enfim, o fato é que a vida sem um quê de mistério não faria sentido. A gente só comeria, dormiria, procriaria e bateria ponto no trabalho. Sem nada levar nem nada deixar. Que graça teria isso? Eu prefiro ser tomada por supersticiosa do que por uma ingrata descrente e desprovida de intuição e instinto. É uma escolha minha, um valor que carrego e, para mim, uma virtude.

Álex

IMAGEM: 'Pandora', de Jules Joseph Lefebvre (1882).

novembro 22, 2009

Hermes Noumios/Oeopolus/Kriophoros (o bom pastor)

Minha versão do Salmo 23, feita de última hora depois de ver o mesmo postado em um blog :

Hermes é teu pastor, nada te faltará.
Se precisar, roubará para ti o rebanho de Apolo e se deitará em verdes pastos, tocando mansamente a lira de um casco de tartaruga.
Condutor de almas, ele as guia pelos campos de asfódelos e pelas planícies serenas do Hades.
Mas nada hás de temer, pois é também dele a transformação da alquimia e a abertura de estradas, o deus da travessia e das travessuras.
Seu caduceu e o adejar de suas asas nos confortam.
Levará rapidamente tua mensagem aos deuses e trará deles, na mesma velocidade, as bênçãos que cobrirão de movimento os teus dias.
Por todos os aeons, por todas as eras.
Ésto. Ghénoito. (Assim seja.)

~ Álex, 22/11/2009 ~

novembro 14, 2009

Encomenda

Ontem a Lu Polisel me pediu para escrever um texto com o tema Despedida, para ela ler em um sarau nesta próxima semana e dizer "com muito orgulho" que o texto é da sua amiga Álex "que mora em uma ilha lindíssima", hehehe! Eu fiz o texto a seguir e ela disse que poderia postar onde quisesse. ^^ Fica aqui então para vocês:
Enquanto estive aqui, meu coração transmutou. E agora preciso levá-lo a outro lugar, onde possa contagiar alquimicamente corações semelhantes.

Não se aflijam quando eu atravessar as ondas do azul. Ele é tão profundo quanto o amor que lhes tenho, tão misterioso quanto o elo invisível que nos une, tão vasto quanto os caminhos pelos quais o destino nos leva. Espero que o mar, que tudo acolhe, torne igualmente receptivo o meu novo lar.

Eu sigo a direção do sol, como Órion amou a Éos, a aurora. E, quando cai o véu da neblina, seguirei da mesma forma que olhar de Selene acompanhava Endímion.

Onde eu estiver, lembrarei de todos ao ver o fogo de Héstia e as crianças de Ártemis, pois sei que compartilharemos os mesmos pensamentos nos deuses.

Quanto a vós, se me amam, mantenham minhas plantas vivas e cuidem de si. Que nenhuma lâmina os atinja, e que nenhuma praga as invada. Que a doença se aparte de todos. Que, tanto nesses belos corpos quanto naquelas belas folhas, não haja excesso nem falta de sol, nem de água, nem de vento, nem de sombra.

Que, ainda longe, eu seja permeada pela lembrança da sensação que guardo de nossos abraços, do cheiro das flores, e de como costumáveis cerrar lentamente os olhos, como se fossem pálpebras flutuantes emoldurando esse espelho brilhante da alma.

Despeço-me, amados; despeço-me, amigos; despeço-me agora de meus espíritos irmãos. Que a caminhada seja segura, que a viagem seja prazerosa, que a ausência seja breve, que a distância seja um detalhe, que o carinho seja eterno, e que o reencontro se dê a cada noite: quando fecharmos os olhos e passearmos nos sonhos.

E caso a saudade for grande a ponto de transbordar em pranto, considerai as lágrimas como parte do oceano que me leva, constituídas do mesmo elemento, materializando um pouco de mim no lugar onde estais, tornando real minha presença. Farei o mesmo convosco.

O mar não nos afastou, é seu sal que nos une. E cada orvalho do dia que amanhece é uma promessa de travessia e de retorno.

( Alexandra, 13/11/2009 )