junho 24, 2012

Máximas Délficas (parte 2) - Riquezas e Posses


Como falamos de OIKOS (casa, lar, ambiente) na postagem anterior, vamos falar de PLOUTO (riqueza, abundância, prosperidade), o meio de sobrevivência de cada casa, pois este preenchia seus estoques e formava a base para os negócios que tornavam o lar auto-suficiente. Dentro da casa, Zeus Ktesios (Doméstico) preservava as riquezas do lar, da despensa. Cuidar das próprias fronteiras, da casa, das posses, tem a ver com os valores sociais que se opõem à corrupção e ao desperdício. As máximas moderam e se alinham aos valores helênicos, oferecendo essa sabedoria antiga.

Então, eis mais um grupo de máximas que podem gerar dúvidas para discussão:

64. Obtenha posses legitimamente (Δικαιως κτω) 
72. Governe suas despesas (Δαπανων αρχου)
73. Seja feliz com o que tem (Κτωμενος ηδου)
79. Trabalhe pelo que você pode possuir (Εργαζου κτητα)
110. Busque o que for proveitoso (Το συμφερον θηρω) 
117. Adquira riquezas de forma justa (Πλουτει δικιως) 
128. Não confie em riquezas (Πλουτω απιστει)

Desta vez, resolvi agrupá-las em vez de falar de cada uma separadamente, porque é necessário parearmos principalmente a diferença entre as máximas 64/79 que usam "kto" (posses) e as 117/128 que usam "plutos" (riqueza). 

Se essas traduções estiverem próximas do real, elas nos fazem pensar que há uma diferença entre 'posses' e 'riqueza' para os antigos helenos no que se refere à maneira que somos capazes de controlar certas coisas que chamamos de posses, enquanto a riqueza seria algo além do nosso controle. 'Kto' se relaciona à propriedade (κτέαρ) material, embora do ponto de vista antigo algumas pessoas se incluíam nisso (escravos, por exemplo). 'Plutos' estaria mais ligado à abundância do planeta, já que Pluto era um dos nomes de Hades, que é da família de quem dá fartura de comida ao mundo (Deméter). 

No Hino Homérico a Deméter, encontramos "Abençoado aquele entre os homens na terra a quem elas [as duas deusas] livremente ama: em breve elas mandam Ploutos como convidado à sua grande casa, Ploutos que dá a riqueza aos homens mortais." A palavra "riqueza" nessa linha está como ἄφενος (rendimentos, renda, riqueza, abundância), mas era comum os antigos falarem do deus para representar os dons: a 'ploutos' vem de Ploutos como os cereais/'demetria' (δημητρια) vêm de Demeter. 

Mesmo que você pense no mundo como um bem, o corpo (σώμα) do planeta não é um deus, é a manifestação do poder de deuses, da mesma forma que Pluto (riqueza) é uma qualidade de Hades e a Taxis (ordem) é uma qualidade de Zeus. Geia também pode ser considerado um conceito de Terra como elementos/dados (στοιχεία) primordiais, não como o planeta; Geia hoje poderia ser o firmamento de qualquer planeta, não especificamente o nosso. Mas, pensando assim, então os helenos acreditavam que Pluto poderia ser adquirido também - de forma justa ou injusta. Daí a máxima 117.

Hesíodo falou disso em Os Trabalhos e os Dias. Ele exorta seu irmão a adquirir riqueza de forma justa através do trabalho após trabalho, mais do que tentar adquirí-la através de processos judiciais contra os outros, incluindo sua própria família, entre outras práticas injustas. Ele também critica os juízes que não julgam de forma justa ou aceitam propina, o que de novo nos traz algo das Máximas. Eis uma citação: "Aquele que causa dano a outro, causa dano a si mesmo, e planos malignos prejudicam mais ao próprio maquinador".

Hesíodo também diz: "Tanto deuses quanto homens ficam irritados com alguém que vive na indolência, pois por natureza ele é como um zangão sem ferrão que desperdiça o trabalho das abelhas, comendo sem trabalhar [...]. Através do trabalho, os homens aumentam suas riquezas [ἀφνειός] em quantidade e substância, e, trabalhando, eles são muito mais amados pelos imortais", o que nos lembra as Máximas 79 e 64. E mais: "A riqueza [ὄλβον] não deveria ser apoderada/apreendida, pois a riqueza dada pelos deuses é muito melhor, pois se um homem tomar grande soma por meio da violência os deuses logo o obscurecem e aquela riqueza só o servirá por pouco tempo". Não pensem aqui que os deuses são destruidores ao fazer isso, eles apenas estão guardando as leis naturais e ceifando o que semeamos.

"Nada em excesso" ou 'o que é demais nunca é bom'... Platão diz que a riqueza (usando a palavra "ploutos") é parente do luxo e da indolência, da pobreza de sentido e do vício, e ambos do descontentamento. Ou seja, 'ploutos' também pode nos tornar preguiçosos, e isso é verdade, especialmente no mundo moderno em que vamos de carro à padaria da esquina. Mas essas coisas estão ligadas aos nossos desejos e paixões, e "pathos" é a palavra primitiva tanto de paixão quanto doença/patologia. Assim, ficamos indolentes porque não desejamos ser ativos e não há necessidade de fazer nada se tivermos riqueza, ficamos encostados nas conveniências adquiridas e aí ou desejamos mais ou desejamos não perder o que já temos. Esses são "pathoi" (paixões, doenças) e não "ploutos". Nossos desejos e expectativas são a fonte do nosso descontentamento. Por isso a importância das Máximas 73 e 128, para sermos felizes com o que temos e não esperarmos nem dependermos das riquezas.

Lembramos dos estóicos quando falamos sobre refrear as paixões. As paixões/doenças (pathoi) que guardam relação com a riqueza (pluto) podem ser, por exemplo: "spane" - o desejo pelo que não podemos ter, ou um medo da escassez; "philargyria" - desejo e paixão por dinheiro (especificamente dinheiro, e não a riqueza 'pluto' em si); "phthonos" - inveja ou tristeza ao ver a riqueza dos outros; "akhthos" - fardo ou tristeza de ver o que é nosso ser tomado, a perda; "ania" - inquietação que cresce constantemente através da "ashkyne" - vergonha e medo da humilhação; "agonia" - pavor ou medo do desconhecido. Então, a Máxima 73 nos exorta a ser felizes com o que temos, sem essas invejas do que não temos e sem o medo excessivo da perda. Se uma família escolhe viver modestamente ou em luxo em seu 'oikos' (lar), é uma questão deles, não minha. A falta de virtude não é a riqueza nem a deidade da abundância em si, e sim as paixões, desejos, doenças, que residem nos mortais. Quando os estóicos e cínicos pregavam uma vida mais modesta, não era uma rejeição de 'plouto', e sim um refrear das 'pathoi' que são dirigidas às posses.

Já na Máxima 128, temos "apisti" (pistis = fé, confiança; a = forma negativa), logo: não confie, não bote fé. Daí podemos tirar várias compreensões. Uma delas é que não podemos confiar de que a riqueza que temos vai durar, e que as riquezas que temos (dinheiro, amizades, posses, qualidades etc) não podem ser tomadas como certas ou tratadas como algo que nunca iremos perder. Há quem diga "não preciso me preocupar em trabalhar ou em preservar o que eu tenho, porque as coisas simplesmente virão até mim por eu ter fé". Isso simplesmente nos leva (no melhor dos casos) a negligenciar as coisas ou (no pior dos casos) a uma obstinada destruição. Outra compreensão é a de que não devemos pensar que uma pessoa rica necessariamente é alguém com quem os Deuses foram favoráveis, supervalorizando as posses de alguém. Devemos olhar além da riqueza (ou da falta de riqueza) da pessoa ao avaliarmos suas virtudes. Há muitos casos históricos de gente querendo validar sua superioridade através do seu dinheiro. "Não confie, não bote fé" nelas. 

Voltando à distinção entre posses (kto) e riqueza (pluto), não podemos botar fé nas riquezas porque não podemos possuir algo inanimado. A riqueza (pluto) deriva diretamente da terra, está sujeita a leis maiores. Podemos possuir partes da terra, mas não a possuímos da mesma forma que possuímos um carro ou uma roupa.

O curioso é que Platão apresenta uma rejeição à plutocracia. Das cartas que escreveu antes de morrer, ele deixa claro que rejeita a corrupção e a falta de reforma nas leis por aqueles que detêm o poder. Então, entendemos que o que ele acha ruim (kakós) é o apetite e o desejo por riqueza (pluto) e não a deidade (Pluto). Platão rejeita a plutocracia sem filosofia, pois isso nos levaria a um governo desonrável. Ele estava mais encorajando a filosofia do que rejeitando a riqueza. Até porque, em outras passagens, vemos que ele estava ciente das ações dos aristocratas de Atenas, que contribuíam com muito de suas riquezas para a cidade. Os cidadãos mais ricos de Atenas tinham que executar "liturgias" - serviço público - provendo de fundos as maiores celebrações e produções teatrais e até provendo de navios e tripulação a marinha ateniense. Não existia isso de ficar sentado desfrutando da riqueza enquanto sua cidade e seu povo decaíam. Uma cidade cujas aquisições eram limitadas era uma cidade menos próspera de arte e artesanato, por isso temos mais monumentos e artefatos e poetas e filósofos em Atenas do que em Esparta. E a Máxima 72 não trata justamente de saber governar suas despesas?

Por falar em Esparta, nós entendemos que a tradição espartana tem a característica de desconsiderar o luxo, de tentar ter uma vida com o mínimo possível de posses, acreditando que isso irá auxiliar-nos em favor da virtude (areté); mas isso precisa ser esclarecido. Não é que os espartanos rejeitassem a riqueza na forma de terras e produção agrícola; eles rejeitavam é as demonstrações de ostentação da riqueza como ouro e jóias e enfeites. Tanto que, ao contrário do que poderíamos pensar, eles estranhamente preferiam um governo de oligarquia - de poucos indivíduos, suficientemente 'ricos' - a uma democracia - governo de todas as pessoas.

Heródoto e Tucídides ilustram uma distribuição injusta da riqueza entre espartanos dos séculos V e VI AEC. Heródoto relata de quando os espartanos tinham o direito cívico de possuir diferentes tipos de riqueza móvel, incluindo lingotes de ouro ou prata e moeda estrangeira. Baseado em Tucídides, ele mostra que um dos principais privilégios da sociedade espartana era o direito de participar em "market exchange" (troca de mercado que implica em transações com barganha e negociação de preços) e que o comércio de riquezas móveis existiam entre espartanos e também entre espartanos com não-espartanos.

Agora, trazendo para a nossa época, a questão é que o mundo atual é baseado em uma visão de mundo judaico-cristã que diz que os homens foram feitos à imagem de um deus e que "deixe-os ter domínio sobre o peixe do mar e sobre as aves do céu e sobre o gado e sobre toda a terra e sobre cada criatura rastejante que se arrasta sobre a terra" (Gênesis 1, 26). Quando se coloca o domínio do ser humano sobre toda a terra, isso significa que tudo no planeta, incluso as coisas vivas, estão sob os domínios - ou seja, são posses - do homem; e são posses por um 'direito divino' de domínio sobre a terra. Não é difícil perceber os resultados psicológicos e ambientais dessa ideia no nosso planeta. É bem diferente de ver o mundo natural como algo sagrado, como faziam os helenos, em vez de meras posses de proprietários humanos. É como se os dons concedidos a nós pela combinação do nosso trabalho e relação com a natureza não fossem presentes, e sim produtos daquilo que somente nós fizemos, uma recompensa resultado do que o homem fez e só. Parece que ninguém lembra que essas coisas são transitórias, mudam, se deterioram, se transformam... ou seja, só podem ser 'possuídas' por um dado tempo, sem termos verdadeiro controle sobre isso. Confia-se demais na abundância da natureza e esquece-se da Máxima 128.

No entanto, como o ideal helênico nunca morreu de verdade, podemos vislumbrar seus efeitos em vários autores mais próximos do nosso tempo. Como já falamos, o problema não é a riqueza, ou mesmo o dinheiro, que são necessários, mas sim como ele é usado - se para unir ou para dividir. Ele é um símbolo, no sentido original de 'symbolon' na Grécia Antiga: uma marca de identidade, uma moeda com uma imagem nela, que era quebrada em duas partes, de modo que você a identificava ao juntar as duas metades (semelhante ao que fazem hoje com aqueles colares partidos de almas-gêmeas). A riqueza, o dinheiro, a troca, estão presentes em todas as relações humanas. Ele representa onde depositamos os nossos valores. É só olhar para o que você compra, como você usa o seu dinheiro, com o quê você o gasta - isso diz muito sobre o que é importante para você. Normalmente não empenhamos nosso dinheiro em algo que não damos valor. 
"Toda troca com o uso de dinheiro (compra) é também uma relação social em virtude do emprego desse dinheiro, o qual desempenha sua função somente por referir-se à ação potencial de outras pessoas." [...] 
"O impulso para o ganho, a ânsia do lucro, de lucro monetário, o mais alto possível, não tem nada a ver em si com o capitalismo. Esse impulso existiu e existe entre [...] toda espécie e condição de pessoas, em todas as épocas de todos os países da Terra, onde quer que, de alguma forma, se apresentou, ou se apresenta, uma possibilidade objetiva para isso."
(Max Weber, 1913)
"[...] o dinheiro se tornou elemento básico e fundamental da sociedade moderna, interferindo na relação dos homens com seus deuses, assim como na busca de bem-estar e de salvação para os problemas físicos, afetivos, mentais e espirituais". [...]
"Sem trocas não é possível a vida em sua plenitude, porque aqueles que se preocupam apenas em dar tornam-se orgulhosos, independentes e isolados, acabando por se afastarem da sociedade, ficando incapacitados de criar vínculos de fraternidade e amor. Por outro lado, aqueles que apenas recebem nunca amadurecem, tornam-se extremamente humildes e crédulos, continuando permanentemente dependentes, podendo chegar até a atitudes de submissão fanática." (Waldemar Magaldi Filho, 2006)
"Vivemos numa época em que o aprender é programado, o habitar urbanizado, os deslocamentos motorizados, as comunicações canalizadas e em que, pela primeira vez na história da humanidade, quase um terço dos produtos alimentares consumidos vem de mercados longínquos. Numa sociedade superindustrializada a esse ponto, as pessoas são condicionadas a obterem as coisas e não a fazê-las. O que querem é ser educadas, transportadas, cuidadas e guiadas, ao contrário de aprenderem, deslocarem-se, curarem-se e encontrarem seu próprio caminho. O que pode ser fornecido e consumido toma lugar do que pode ser feito." (Ivan Illich, 1975)
"...o dinheiro deve ser usado como  recordação - lembrando que 'moneta' é derivado de 'moneo' que significa recordar, memorizar. Recordar, fazendo presente no coração o resgate da imaginação, o aflorar da dimensão arquetípica das riquezas que Plutão esconde no Hades, unificando as dimensões horizontais com as verticais na grande roda da vida e da morte. Sem esquecer que para chegar e sair do Hades é preciso reservar as moedas para pagar o barqueiro Caronte. E como o dinheiro é como uma tela na qual cada um projeta e até concretiza as suas fantasias, desejos, necessidades e aspirações existenciais, ele acaba exigindo do sistema monetário uma expansão infinita, podendo desembocar na total insensatez humana, demonstrado inúmeras vezes na história da humanidade, marcada por atitudes maníacas ou depressivas. Por isso, só pelo uso consciente do dinheiro é que as verdades ocultas e reveladoras do si mesmo poderão transparecer e serem manifestas no sentido da individuação." (Waldemar Magaldi Filho, 2006)
Citei duas vezes Magaldi não só por ter sido aluna dele, mas porque ele tem todo um livro falando da relação do dinheiro com a saúde e o sagrado.

Acredito que essas falas exemplificam o que abordamos em geral das máximas que nos ensinam sobre nossas relações com as posses e riquezas. Se essas relações estão incluídas nas Máximas, é por serem um aspecto importante a considerarmos na busca da excelência. Temos que obter nossas posses de forma legítima, as riquezas de forma justa, trabalhar por elas, não confiar no seu aspecto efêmero, governar as despesas, buscar o que é proveitoso/útil e ser feliz com o que temos. Sei que é mais fácil falar do que fazer, mas é para isso que estamos em constante busca e desenvolvimento da 'areté'...

Existe algo um tanto incongruente na nossa sociedade porque, por um lado o mercado estimula a acumulação de mercadorias e riqueza, avaliando as pessoas pela sua capacidade de consumo e poder de compra, mais do que pelo valor humano, sendo útil apenas quem dá lucro e retroalimenta o capitalismo, e, por outro lado, prega-se a ideia de que os ricos são pessoas egoístas, sem ética, corruptas, interesseiras. O maior risco é que a pessoa que detém posses confie demais na sua fortuna para satisfazer desejos de consumo e materiais (o horizontal) e se esqueça de alimentar o lado espiritual (vertical), acabando por coisificar a si mesmo e aos outros. É como a imagem que circula pela internet de "algumas pessoas são tão pobres que a única coisa que elas têm é dinheiro", uma riqueza material de alguém espiritualmente pobre. De novo, parece-nos uma questão do "nada em excesso", de "nem tanto ao mar nem tanto à terra", de equilibrar as várias dimensões da nossa vida.

Além disso, se a questão monetária não fosse um conceito importante, não existiria um deus do comércio... 

~ Moeda com Hermes de um lado e um bode do outro, 460-450 AEC. ~

junho 17, 2012

Máximas Délficas (parte 1) - Casamento

Ainda no clima do mês dos namorados, vamos refletir sobre três das Máximas Délficas que parecem um tanto controversas com relação ao casamento:
9. Pretenda se casar (Γαμειν μελλε)
Esta máxima não estipula que você case, apenas deixa aberto uma intenção. "Pretenda se casar" poderia ser entendido como "pretenda dar continuidade à sua vida, ter estabilidade e maturidade, ter uma família e se apaixonar", mas - historicamente - esse "pretenda se casar" era uma sugestão importante pelo fato de ser a maneira que se conhecia antigamente de gerar filhos como um dever cívico: o de produzir herdeiros legais e adultos preparados para desempenhar suas responsabilidades com a cidade. E é dessa forma que prefiro entender a sentença. (Ainda assim, para alguns filósofos gregos era melhor não se casar, para ter tempo de filosofar em vez de ter que cuidar dos deveres do lar...)
Uma alternativa pessoal de tradução que já encontrei foi "Casar-se é doce" (μέλι = mel), mas acredito que a diferença de 'meli' pra 'melle' é significativa o suficiente para não considerarmos que se trate da primeira.
É importante lembrar aqui que o casamento está no sentido de compromisso, não necessariamente do casamento em lei (ou seja, heterossexual). Trata-se de lembrar do mito das almas-gêmeas de Platão, em que as metades podem ser as duas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, mas que elas sempre querem se encontrar para serem completas novamente.
67. Seja mestre em banquetes nupciais OU Deixe o casamento prevalecer (Γαμους κρατει)
Acredito que essa máxima se refere à importância "psicológica" do casamento. Uma vez que o casamento na antiguidade implicava no início de um novo OIKOS/lar ("quem casa, quer casa"), a cerimônia (o banquete) era o que estabelecia a fundação da comunidade -- de 'oikos' para 'demos' e desta para a 'polis'. O que a máxima pode estar dizendo é que o casamento como princípio deveria ser a primeira preocupação nas nossas mentes. 'Gamous' é casamento (a cerimônia de matrimônio, o banquete de núpcias) em geral, não especificamente o seu, e - em algumas obras de Ésquilo, Tucídides e Platão - encontramos 'kratei' traduzido como 'prevalecer', então outra tradução poderia ser "Deixe o casamento prevalecer", pois as primeiras decisões devem ser tomadas dentro da nossa casa. Não adianta ser um excelente orador político na rua se dentro da sua própria casa as pessoas não sabem se governar e se organizar para o bem do lar.
95. Guie sua esposa OU A mulher é o princípio (Γυναικος αρχε) 
A intenção por trás disso é para cada pessoa da casa saber seu papel e desempenhá-lo. Na Grécia Antiga, principalmente em Atenas, o marido era encarregado da família e era quem tinha que interagir e fazer os negócios com as pessoas de FORA da casa. A esposa mantinha os negócios e os afazeres DENTRO de casa, embora o marido pudesse ser consultado e opinar também. Portanto, ela não conhecia muito da vida lá fora e precisava de orientação nesse aspecto. O que se entendia é que: contanto que ambos esposos fossem gentis e respeitosos um com o outro e desempenhassem seus papéis no melhor de suas habilidades, o lar tinha uma melhor chance de prosperar. Já hoje, se quisermos ter um lar harmonioso, suave e eficiente, dá para conseguir isso sem ter uma pessoa guiando a outra. Uma parceria seria capaz de preencher essa intenção em seu máximo. É uma questão mais cultural, que era o jeito que eles conheciam de dar certo (de fazer a casa e a cidade funcionar), e que hoje encontramos outra forma (provavelmente melhor). Além disso, antigamente aconteciam muitos casamentos arranjados, por razões cívicas e financeiras. Neles, as noivas (também principalmente em Atenas) eram adolescentes -- ou seja, precisavam mesmo serem guiadas pelos maridos que eram bem mais velhos, muitas vezes amigos dos pais da noiva. (Claro que idade não garante maturidade, mas aí é outra discussão...)
Agora, tem a questão da tradução também, que inverteria toda a máxima! 'Gynaikos' = mulher ou esposa; 'Arkhê' = governar, guiar (se vier de 'arkhô') ou começar, iniciar (exemplos: "en archê ên ho logos" = "no princípio era o verbo"; arquétipo = marca inicial). Nesse sentido, considerando que as mulheres dóricas eram as que traziam os guerreiros ao mundo, a tradução poderia ser "comece com a mulher" ou "a mulher é o começo". (Primeiro as damas!) "A mulher é o princípio", aliás, cabe bem melhor na ideia de religião baseada na natureza como é o paganismo, mais do que na ideia patriarcal das religiões abrahâmicas.

Pretendo trazer outras máximas agrupadas em assuntos para falarmos delas aqui. Se você quiser entender mais um pouco antes, leia as notas explicativas da tradução e a lista das 147 máximas dispostas no site http://www.helenos.com.br/Home/etica/maximas-delficas . Até lá!

junho 10, 2012

O Trânsito de Afrodite


Semana passada tivemos um alinhamento raro do planeta Vênus e esta semana teremos o dia dos namorados. Então imagino que caiba falarmos das andanças de Afrodite. E, no caso, da Afrodite na sua qualidade de mãe de Eros (o amor), nem tanto pelos seus outros epítetos. Mais especificamente, gostaria de falar sobre as suas companhias.

Quem é a "turma" de Afrodite? Com quem ela anda? Quem sempre a acompanha? Quais suas "amigas de infância"?
Graças
Detalhe das Graças, em foto de Helen Sotiriadis.
Quando Afrodite surgiu, ela foi recebida pelas três Horas. Elas quem a vestiram e a adornaram quando ela surgiu no mar. Essas foram as primeiras, que ainda andam com ela. As Horas são as deusas das estações e das porções naturais de tempo. Enquanto Deméter nos dá os frutos, na companhia das Horas, Afrodite nos dá as flores, com suas cores e beleza, principalmente a rosa, com sua essência voluptuosa e suas pétalas envolventes. Assim como os frutos têm sua hora de maturar e as flores têm sua hora de desabrochar, o amor precisa amadurecer para ser colhido, não pode ser forçado antes do tempo, antes da(s) hora(s). Afrodite e as Horas chegam juntas.

Depois a deusa Peitho juntou-se ao grupo. Antes que você pense besteira pela coincidência do nome, Peitho vem do grego e significa algo como uma delicada persuasão, uma vitoriosa eloquência. Ela que nos dá a capacidade de encantar o ser amado com palavras convincentes. Mas, ainda que seja uma persuasão poderosa, ela é doce, suave, uma conquista por consentimento (nunca pela força). O amor do reino de Afrodite só existe quando é concedido por livre e espontânea vontade - mesmo que depois você se sinta deliciosamente acorrentado ao seu amante.

E, por falar em consentimento, outras que se uniram à turma foram as Cárites. O verbo "charein" significa rejubilar-se e o nome "charis" significa uma graça ou favor livremente oferecido. Não tem muito a ver com o significado condescendente que adotou a palavra 'caridade' na cultura judaico-cristã. As Cárites são Agléia (esplêndida beleza), Eufrosina (boa disposição, alegria de pensamentos) e Tália (fartura, abundância). É por conta dessa boa disposição que, quando vemos alguém todo sorridente, já dizemos logo que ele/a "está amando". Algumas fontes diziam que as Cárites eram filhas do rio Lethe, o rio do esquecimento, o que explicaria o fato de os amantes esquecerem-se dos problemas quando Afrodite e suas amigas os movem. Essas amigas, aliás, eram as responsáveis pela toalete de Afrodite. Segundo Hesíodo, elas as banhavam e untavam seu corpo com óleos perfumados de fragrância doce. Homero também relata que, após Hefesto surpreendê-la com Ares na cama, as Cárites banharam e untaram Afrodite e a vestiram em trajes belíssimos. Essa áurea perfumada acrescenta um certo charme irresistível nos domínios do amor. As Cárites adoravam dançar juntas, principalmente nas noites enluaradas. E a noite nos lembra a outra amiga de Afrodite: Aidos.

Aidos era filha da deusa  Nyx (Noite). Ela era a deusa da modéstia, da vergonha, do auto-respeito. Ela guardava com suas asas escuras os segredos do amor e dos amantes. O amor é associado ao período noturno, às noites de lua, e não às claras vistas do sol. Um amor de verdade, um amor 'afrodisíaco', implica na presença dessa outra amiga da deusa, com um elemento de modéstia. A maioria dos animais tem uma vida sexual reservada e regulada; alguns se entocam em cavernas para se acasalar, outros têm regras de quem no bando pode fazê-lo. Quando Platão diz que a Afrodite Urania (celeste) era a do amor nobre e a Afrodite Pandemos (do povo) a do amor comum/público, faz-nos pensar que, para os gregos, o que classificava um amor como nobre era justamente a presença da deusa Aidos no ato de amor. A capacidade de sentir vergonha -- ao contrário do que pode-se pensar -- faz o amor aumentar. Quando Aidos não está, não se trata de estar livre de vergonhas, e sim de uma falta-de-vergonha mesmo, o que não é nada legal. A vergonha de Aidos é a do auto-respeito, da sensibilidade, então não tê-la é diferente de ser desavergonhado, tem a ver com a modéstia de reconhecer-se e sentir-se entregue. A intimidade de compartilhar um segredo íntimo torna o relacionamento mais pessoal, mais amoroso. 

Nocivo mesmo seria o sentir vergonha de si próprio, perder o prestígio (essa não é uma vergonha "aidos", é "aischros"), algo feio, deformado, desonroso, e que Platão diz que não tem nada a ver com a experiência do amor de Eros. Segundo Dodds ("Os gregos e o irracional"), a cultura helênica não girava em torno da culpa - como é a dos cristãos - mas girava em torno dessa vergonha devastadora de perder a consciência tranquila e a consideração pública. Os gregos tinham princípios, e só alguém com princípios pode se sentir desonrado por ter sido irresponsável, egoísta ou covarde. Quem vive sem nenhuma convicção espiritual ou moral, não tem sequer a vergonha Aidos, que dirá a outra! Aquela vergonha esmagadora de "aischros" é o que a revolução sexual tentou combater, e não a vergonha auto-respeitosa de "aidos". Uma coisa é a repressão, outra é a modéstia. Com Aidos ao lado de Afrodite, o auto-respeito e o amor andam de mãos dadas. É Aidos quem nos faz enrubescer, e esse rubor, essa face corada, demonstra o quanto as deusas não atuam apenas na alma, mas agem também sobre o nosso corpo. Em "Os Trabalhos e os Dias", Hesíodo menciona o abandono da terra por Aidos e Nêmesis como a razão para os sofrimentos dos humanos, que ficam desamparados contra os males. Aidos é quem preserva a pureza da alma e torna o ato do amor de Afrodite algo numinoso, sagrado, em uma mistura de sexo, sensualidade e religião. Uma união do êxtase com o divino. Portanto, essa união deveria ser algo ritual e secreto, e não algo realizado de qualquer jeito num motel de beira de estrada e exposto na televisão...

Modéstia, aliás, me lembra o fato de a belíssima Afrodite ter sido dada em casamento a Hefesto, um deus que é considerado "feio", talvez por ser cocho. (Um parênteses aqui para lembrar de Machado de Assis e seu Brás Cubas resmungando da moça "Por que tão bela, se coxa? Por que coxa, se bela?", hehe!) Afrodite considerava indigno alguém que só concedesse sua beleza para alguém que fosse tão belo quanto ele mesmo. Você precisa ser modesto para não ficar 'se achando' - e correndo o risco de ser castigado por Ela por conta de seu orgulho e arrogância. Eis mais uma lição de Aidos através da escolha de parceiro amoroso que Afrodite fez. 

Graças
Hipócrates (segundo citação de Viktor Salis) dizia que "quem não ama, adoece", que "a mais grave fonte de doença é ser falso com seus sentimentos com os outros e consigo" e que "entregá-los a qualquer um e de qualquer jeito é plantar dentro de si a desvalia, que resultará numa alma e corpo doentes".
Assim, quando vocês foram celebrar o amor no dia 12 de junho, lembrem-se de todas as companhias que caminham junto a Afrodite, e espalhem o amor no momento certo, com as palavras certas, com disposição, fartura e beleza, resguardando o auto-respeito e a honra de estar na presença de verdadeiras deusas agindo na sua vida, movimentando sua alma, enrubescendo seu rosto e levando seu corpo a experimentar um êxtase sagrado e secreto.

Afinal, ela, Afrodite, é uma deusa que realmente deixa "flores nos lugares que pisou"...

Hermafrodito adormecido
Detalhe de Hermafrodito adormecido, foto de Helen Sotiriadis.

junho 05, 2012

Voa, voa, "brabuleta"...


"A asa é o elemento corpóreo que é mais assemelhado ao Divino, e a qual por natureza tende a se elevar bem alto e carregar o que gravita para baixo até a região superior, que é a habitação dos Deuses. O Divino é Beleza, Sabedoria, Bondade, e tudo o que é semelhante a isso; e por essas qualidades a asa da alma é nutrida, e cresce em ritmo acelerado; mas quando alimentada com o mal e a impureza e o oposto do que é bom, a asa desgasta-se e cai." (Platão, trecho de "Fedro")
Hoje estava vendo uns anéis em formato de asas e percebendo novamente como as pessoas só associam asas a anjos, como se estivéssemos cristianizando as imagens quando as ilustramos com asas. Para começar, até anjo vem do grego (angelos = mensageiro). Segundo, várias deidades gregas são representadas aladas: Eros, Psiquê, Nikê, Hermes, Hypnos, Íris... Terceiro, a simbologia das asas é muito mais antiga do que se imagina. A associação mais comum é da alma com asas e, em casos particulares, com borboletas. Então é desse mais geral até esse mais específico que vou recordar aqui: almas - asas - borboletas.

No Egito Antigo, uma ave com cabeça humana correspondia à alma de cada pessoa. Em concepções populares da África do Norte, o corpo possuía duas almas, sendo que uma seria o suporte onde a outra 'pousaria' na forma de um pássaro, abelha ou borboleta. Para os yacutes, tchuvaches e outros povos da Estônia, a alma sai pela boca de quem dorme, para viajar, sob a forma de um inseto ou borboleta. A maioria dos povos turco-mongóis acredita que a alma pode viver separada do corpo sob a forma de um animal, inseto, pássaro ou peixe. 

As asas nos lembram o alçar voo, a leveza, o alívio, a liberdade. Quando o xamã sai do corpo é nesse sentido de liberação e poder. As asas nunca são recebidas e sim conquistadas - através de ritos iniciáticos. Os taoístas acreditavam que só os que tinham a leveza e o poder de voar chegariam às Ilhas dos Imortais - o corpo sutil alçaria voo como um embrião de imortal; por isso seus hábitos seriam parecidos com os das aves. O Rig-Veda hindu diz que "a inteligência é o mais rápido dos pássaros" e um dos Bramanas diz que "aquele que compreende tem asas". No cristianismo, claro, os anjos são alados e o Espírito Santo é representado por uma pomba. Em suas escrituras, fala-se sobre as asas de Deus, as quais designam seu poder, beatitude e incorruptibilidade (vide, por exemplo, o salmo 16,8 "tu me protegerás às sombras de tuas asas"). E, se o homem é imagem e semelhança desse deus, ele teria suas próprias asas, mas as teria perdido ao pecar; caso se redima, as recupera para elevar-se ao divino. Como vimos na citação do início da postagem, essa ideia cristã muito provavelmente teve origem no Fedro de Platão. Já as asas dos calcanhares de Hermes simbolizaria o viajante noturno, o voo onírico, o instante dinâmico. Os santos budistas também tinham essa ideia de 'pés ligeiros' a viajarem pelos ares; e os contos de fadas também falam das botas de sete léguas. As asas nas omoplatas lembram espiritualização, as nos calcanhares lembram dinamismo. Na literatura, tanto o poeta quanto o profeta desenvolveriam asas no momento de sua inspiração.

Quanto ao simbolismo da borboleta, podemos pensar na saída da crisálida como uma saída do túmulo, uma ressurreição em outra forma, desta vez alada: a alma liberta de seu invólucro carnal. Entre os astecas, a borboleta é um símbolo da alma que escapa pela boca de quem está morrendo. Se uma borboleta brinca entre as flores, eles entendiam como a alma de um guerreiro morto em batalha, o qual acompanhava o sol até o meio-dia e depois descia à terra em forma de colibri ou borboleta. No Zaire central, fala-se de uma analogia da vida humana ao ciclo da borboleta: lagarta pequena na infância, lagarta grande na maturidade, crisálida na velhice, casulo no túmulo, borboleta quando alma liberta, e ovos de borboleta quando reencarnando. Entre algumas populações turcas na Ásia central, as quais sofreram influência iraniana, acreditava-se que os defuntos poderiam aparecer na forma de uma mariposa. Nos afrescos de Pompeia, Psiquê era representada como uma menininha alada, semelhante a uma borboleta - talvez também porque a mesma palavra grega "psique" servia para significar tanto "alma" quanto "borboleta".

Quando uma borboleta passa por mim, sempre me vem a imagem de alguém que já morreu, então considero uma saudação que aquela pessoa me faz, através daquelas asinhas que farfalham ao meu redor. Não sei vocês, mas eu reconheço a figura das asas como algo muito mais profundo e anterior à simples associação aos anjos. E espero que todos tenham essa liberdade de desenhar asas nas almas sem sentirem que estão sendo influenciados por uma crença que na verdade foi antes influenciada pela nossa. Fora que a filosofia de Platão fica acima de qualquer filiação religiosa...

Assim termino esses 'pensamentos em voz alta', e adejo meus cílios em um beijo de borboleta a todos que aqui me leram.


(PS.: O título à moda de Chayene da novela fica só por publicidade. *rsrs*)

maio 15, 2012

Até os contos de fadas são helenos

Duas traduções em uma, a primeira de uma notícia recente em grego e a segunda da wiki em inglês:

Chapeuzinho Vermelho tem 2.600 anos e... é grega!
Antropólogos e biólogos uniram forças para decidir a origem dos contos de fadas e focaram a atenção nas variações transferidas de uma cultura para outra. Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, e principalmente Chapeuzinho Vermelho e outros heróis da infância atraíram e mantiveram a atenção dos cientistas sobre eles.

A conclusão, que veio de um extenso processo, é de que cada parte do enredo vem de uma fonte comum e única.

O Dr Jamie Tehrani, antropólogo da Universidade Durham, e sua equipe cuidadosamente examinaram 35 versões conhecidas da Chapeuzinho Vermelho. A narrativa europeia apresenta o relato de uma menininha, cujo lobo mau se disfarça como sua vovó favorita e tenta lhe fazer mal. Os chineses trocam o animal perigoso e astucioso para um imenso tigre. No Irã, por causa do preconceito religioso, o caso é estrelado por um menininho.

Então, ao contrário da visão de que o conto que acompanha os pequeninos em todas suas refeições infantis surgiu no século XVII, Dr Tehrani argumenta fortemente que todas essas mudanças tem um ancestral comum de mais de 2.600 anos.

"Na época, os famosos e amados contos de fadas se tornaram algo como um corpo humano. O relato mais antigo encontramos nas fábulos de Esopo, de 6 séculos AEC. Temos certeza de que em algum lugar jaz a razão para esse ancestral supostamente descender de 'O Lobo e as crianças'."

De acordo com a pesquisa, então, o tataravô de Chapeuzinho Vermelho foram todos os contos de Esopo!

Quem era Esopo?

Esopo era um antigo contador de histórias grego, um dos principais a "ensinar mitologia". As evidências anedóticas sobre sua vida não são nada práticas e muitos ainda duvidam de sua existência. Os mitos eram sempre orais, então nem mesmo se salvou um registro escrito deles. Esopo apareceu no século VI AEC e provavelmente nasceu de uma família de escravos em 625 AEC na Frígia. Sua morte provavelmente foi em Delfos, quando em 560 AEC foi enviado para lá pelo Rei Croesus para consultar um oráculo. Ele teria sido acusado de heresia e sentenciado à morte, sendo destruído no topo do monte Parnaso.

Os contos de fadas armazenados em nossos cérebros...

O professor alemão da Universidade de Minnesota Tzak Zipes, que devotou muito de sua vida procurando a origem dos contos de fadas que fascinaram todas as crianças a despeito de raça, religião e origem, fala sobre a excelente qualidade dessa pesquisa: "Acho que todos esses contos podem ajudar os pais a entender como explicar o risco e o aumento dos atos de violência. É claro que as adaptações são diretamente relacionadas ao nosso meio-ambiente. Por essa razão, toda a informação é transferida de geração a geração e armazenada em nossos cérebros. Dessa forma, os mitos de Esospo, que 'viajaram' pelo mundo e foram adaptados às épocas modernas, ainda estão entre nós! "
(Fonte: http://www.thebest.gr/news/index/viewStory/123432, 25/04/2012, tradução da Álex)


Cinderela também é grega
"Rhodopis" (Ροδώπις) é a versão antiga e original do conto da Cinderela. Registrada pela primeira vez no século I AEC pelo historiador grego Strabo, ela é considerada o mais antigo relato de Cinderela.

# Enredo:
Rhodopis (a "de bochechas rosadas"), uma escrava grega, trabalha na casa de seu mestre egípcio. Embora gentil, seu mestre mais velho passa a maior parte do tempo dormindo, e - portanto - não fica sabendo do tratamento ríspido dado à escrava pelas mãos de suas outras servas. Por Rhodopis ser bela e estrangeira, as outras caçoam dela e lhe dão ordens pela casa.
Depois de seu mestre ver Rhodopis dançando habilmente sozinha, ele lhe dá um par de sandálias trançadas de rosas. As outras servas ficam ressentidas desse tratamento dele e tratam Rhodopis de forma mais severa do que antes.
Um dia, o faraó Ahmose II convida o povo do Egito a uma celebração no rio Mênfis (Memphis). As outras servas impedem Rhodopis de ir com elas, dando-lhe uma longa lista de tarefas para completar.
Enquanto ela está à beira do rio lavando roupa, suas sandálias se molham e ela as coloca ao sol para secar. De repente, o falcão Hórus se arremete abaixo, agarra uma das sandálias, e voa com ela.
Rhodopis guarda a outra sandália em suas vestes.
Durante a celebração no Mênfis, o falcão solta a sandália no colo do faraó. Percebendo que era um sinal de Hórus, ele decreta que todas as donzelas do reino devem experimentar a sandália, e que ele se casará com aquela cujo pé couber nela.
A busca do faraó pela dona da sandália o leva até a casa de Rhodopis. Embora ela esteja cavalgando quando vê o barco do faraó, ele a vê e pede a ela para experimentar a sandália. Depois de demonstrar que cabe nela, ela puxa o outro lado do par, e o faraó declara que se casará com ela.
Esopo tem uma breve menção nesse relato. Quando ela era uma escrava antes de ir para um lar egípcio, Rhodopis teria conhecido Esopo, que lhe contou muitas histórias.

# Contexto histórico:
O geógrafo grego Strabo (64/63 AEC a +/- 24 EC) foi o primeiro que relatou o conto da garota greco-egípcia Rhodopis, considerado como a primeira variante do conto de Cinderela. Outro relato de Rhodopis sobreviveu nas escritas do autor romano Aeliano (175 - +/- 235 EC), mostrando que o tema de Cinderela continuou conhecido pela antiguidade. Talvez as origens da figura desse conto de fadas pode ser traçada a uma cortesã trácia de verdade, Rhodopis, que viveu na época do faraó Amasis (570-536 AEC) e conheceu o antigo contador de histórias Esopo. Rhodopis é também a esposa do épico Asam, que morreu e ressuscitou e recebeu uma nova esposa chamada Rhodopa.
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Rhodopis, tradução da Álex)

[Imagem]: pintura em prato grego de 490-480 AEC


março 11, 2012

A dança como ritual (2º texto)



Os helenos acredita(va)m que a dança foi inventada pelos Deuses, como um presente dado aos mortais, e, portanto, associavam-na a cerimônias religiosas. Os textos antigos da época indicam que a dança era levada em alta consideração, principalmente por suas qualidades educativas. A dança era fundamental para os que se iniciavam em um círculo e ela terminava com os dançarinos encarando um ao outro. Quando não dançavam em círculo, eles seguravam suas mãos alto ou ondeavam-nas para um lado e para o outro. Eles também costumavam segurar címbalos ou um lenço nas mãos. Enquanto dançavam, cantavam, às vezes em uníssono, às vezes em refrão, repetindo o verso cantado pelo dançarino líder. Os que assistiam se juntavam a eles, marcando o ritmo ou cantando. Os músicos compunham letras para se adequar à ocasião. 

Em Roma, Marte tinha os "sacerdotes saltarines", que saltavam para que as plantas crescessem, em março. Cada dançarino levava uma espada no cinto, uma lança na mão direita e um escudo trácio na mão esquerda. Faziam movimentos rítmicos ao som de uma flauta e cantavam hinos tradicionais. Os escudos eram cópias do escudo de Marte que caiu do céu e foi conservado no fórum como garantia da continuidade do império.

Na Grécia, a "Dança Pírrica" (Πυρρίχιος) era executada na Panatenaia, festival a Atena, onde os dançarinos armados representavam suas tribos. Diz-se que a própria Atena dançou esse ritmo em celebração pela vitória dos olimpianos sobre os gigantes (a Gigantomaquia). Como competição atlética, existiam três categorias; meninos, imberbes e homens. O prêmio de cada um dos três desafios era um touro e 100 dracmas (quase uns 10 mil reais, creio eu). Havia um patrocinador que pagava pelo treinamento dos dançarinos de sua tribo. Os bailarinos tinham uma coreografia com movimentos de ataque e defesa derivados das artes guerreiras. Os tocadores de aulos (uma espécie de flauta dupla) acompanhavam a dança.

Eis algumas pinturas com o tema da Dança Pírrica [clique nas imagens para aumentá-las]:

Alma Tadema - A Pyrrhic Dance (1869)
Jean León Gérôme - The Pyrrhic Dance (1885)

Nonnus, na Dionisíaca, conta do casamento de Harmonia, filha de Ares, no qual "seu pai [Ares] dançou de alegria por sua garota, despido de sua armadura, um Ares dócil [...]: ele sacudia seu elmo de crina de cavalo, tão familiar na batalha, e usava grinaldas sem sangue em sua cabeça, lançando uma alegre canção para Eros."

Se até os deuses da guerra dançam e Nietzsche afirmava só acreditar em deuses que soubessem dançar, por que não espelharmos o divino e entrarmos na dança com (e para) Eles?

fevereiro 26, 2012

Purificação e Inspiração



"O homem é o sonho de uma sombra;
mas quando os deuses lhe enviam um simples raio de luz, 
uma aura radiosa o envolve 
e sua existência conhece a doçura do mel." 
(Píndaro, VIII Ode Pítica)


Tudo o que é ligado aos deuses é sagrado. E o que é sagrado é separado daquilo que não é. Os antigos helenos acreditavam que para estar na presença do que é puro era preciso estar puro. Ter contato com coisas comuns, principalmente as causadoras de miasma, era uma forma de poluição. Para evitar isso, nos purificamos antes de iniciar um ritual, mesmo que seja apenas com o lavar as mãos na água lustral. Em Elêusis, os candidatos à iniciação nos Mistérios tomavam um banho de mar antes do rito. Em várias religiões, muitas coisas são capazes de purificar uma pessoa: jejuns, abstinências, sacrifícios, provações etc, mas o lavar-se com água parece ser o mais comum em todas elas.

É claro que uma purificação real é algo que se estende para todos os níveis do ser (físico, mental, espiritual), mas lavar o corpo é a realidade mais palpável que temos, na qual a mente vê uma clara demonstração do que vem a seguir, em um nível mais profundo. Em um ritual de transição, como num batismo ou iniciação, é como morrer para renascer renovado. Uma morte na qual, em vez de terra (enterrar-se), cobre-se com água. Desce-se a um mundo inferior e ergue-se novamente, emergindo não só renascido, mas limpo pelas águas. Espera-se que essa simples 'performance' tenha o poder de influenciar a mente/alma a uma experiência mais consciente de si. Por isso que não adianta apenas participar de um batismo aspergindo-se água e recitando algumas preces, ainda mais sendo criança como acontece no cristianismo. O caminho do "batismo" teria quer ser um 'rito de passagem', e não apenas uma 'rota de passagem' para fazer parte de um grupo/comunidade religioso/a. Seria preciso mergulhar no seu sentido, no seu simbolismo, na questão da "ressurreição/renascimento" para que produzisse algum efeito purificador na alma humana. 

Há vários mitos com esse tema em várias crenças, e mesmo entre os gregos há diversos, como o de Dioniso, de Héracles, de Psiquê, de Orfeu, entre outros. Eles falam especialmente sobre uma figura que é parte mortal e parte divina e que se debate para purificar-se reunindo essas duas naturezas e ascendendo até um lugar entre os imortais.

Esses mitos também mostram várias formas de se conseguir isso. Quando Dioniso eleva sua mãe Sêmele à morada dos deuses e lhe coroa com a Thyone (inspiração), ele o faz através de seus rituais orgiásticos, dança, canto, êxtase, mântica, inspiração, iluminação. Já os órficos vão acrescentar um toque apolíneo na selvageria de Dioniso e criam uma tradição mais reservada, contemplativa, asceta, embora com a mesma ideia central: a da consciência, da iluminação de perceber sua natureza divina, de acordar da ilusão para a verdade, de escapar das brumas da morte e do esquecimento que lhe envolvem. Como acreditava Platão, nós não aprendemos nada, só nos lembramos do que já sabíamos, porque nossa alma conhecia tudo antes de nascer ("conhecer é recordar verdades que já existem em nós").

Todos nós temos uma pureza interior que vaga no meio da nossa confusão interna. O fato de estar de noite não significa que o sol morreu, ele só está fora de nossa vista. Orfeu dizia: "Meus puros amigos, filhos e filhas da terra e do céu estrelado; escapem do Fuso da Necessidade e da tristeza, desgastado em torno da Roda do Nascimento! Entrem na grinalda do céu dos mortais que se tornam Deuses!"

Filhos da terra e do céu, somos constituídos parte da impureza dos Titãs e parte da pureza de um Deus (Dio). Lord Byron também vai dizer que somos "metade poeira e metade deidade". Mas parece que nos esquecemos dessa parte de clareza e liberdade e nos apegamos à parte que é limitação e confusão. Precisamos escapar desse fuso de tristeza e sofrimento. Hesíodo dizia que a melhor prece que alguém pode oferecer aos Deuses é estar continuamente em paz consigo mesmo. E até George Harrison compôs uma música para Krishna cuja letra inclui "keep me free from birth" (mantenha-me livre do nascimento).

Mas o Fuso da Necessidade, a Roda da Fortuna, o Tear dos Destinos, não é algo ruim por si. Afinal, é ele/a que nos põe em movimento. Tudo no mundo gira e demonstra seu lado oposto. Quando a roda muda, o sofrimento nos faz conhecer a alegria e o amor, por mais que se acredite que ele sempre volta e nos leve embora quem amamos e nos faz felizes; porque aquele ciclo se fechou e outra coisa vai surgir para trabalharmos nossa evolução. A vida é algo maior que nós mesmos. Não somos 'egocentricamente' responsáveis por como o universo funciona e sempre funcionou antes mesmo de estarmos aqui, e nem ele funciona desse jeito para nos punir ou recompensar. As pessoas não sofrem porque um ancestral delas foi desobediente e comeu uma maçã proibida. A gente sofre porque faz parte do estágio de se conhecer, de se dar valor ao que se conquista, de aprender com as leis da natureza, de se caminhar ao encontro de nosso lado divino. Só assim se obtém o conhecimento que nos aproxima dos deuses.

Muitos gostam de chorar, soluçar, gritar de raiva, perguntar "por quê?" e "o que eu fiz pra merecer isso?". Não existe um porquê. E nem tudo depende unicamente do que você faz. A verdadeira resposta não é nem uma resposta, é uma percepção, um 'insight', de que tudo aquilo tinha que acontecer e de que não adianta fantasiar um drama (ou uma tragédia grega) sobre a nossa "desgraça". A solução é procurar entender, visualizar, enxergar as coisas sem ficar com desejos tolos e preocupações irreais. Em vez de se perguntar "por quê", faz mais efeito perguntar-se o "para quê". Nem tudo é culpa sua, assim como nem tudo é resultado de sermos marionetes de algo maior. Plutarco já dizia que a verdadeira piedade (ser pio, acreditar) é o meio-termo entre um medo excessivo do sobrenatural e uma indiferença ateísta, assim como Aristóteles já ensinava sobre a virtude ser a justa medida entre dois extremos de vícios.

Mesmo o mito de um pecado original não dizia que o paraíso foi destruído, ele continuou lá. A paz e a beleza originais existem em algum lugar do mundo, a gente só se esqueceu do caminho que nos leva para onde eles estão. E esse lugar existe fora e dentro. Nesse sentido, por mais que não sejamos o centro do mundo, nossas conquistas são também a de todo o resto, porque refletimos o cosmo e o divino reside em cada um. "Assim como em cima, é embaixo", diz Hermes Trismegisto. Só que é tão nocivo se esquecer da sua parte humana desimportante quanto o é esquecer-se da sua parte sagrada fundamental.

O despertar é conhecer o propósito das coisas e ficar em paz. O difícil é atravessar a estrada longa até esse estágio. Vamos desdobrando os véus que cobrem a realidade à medida que nos colocamos em marcha, na direção de amar, ajudar os outros, lutar por uma causa, sentir, pensar, refletir, meditar, conectar-se ao sagrado, buscar a sabedoria, neutralizar o sofrimento e o efeito da dor.

A grinalda de flores ou folhas que coroa os vitoriosos é circular. O final e o começo de um círculo são o mesmo. É um símbolo de algo eterno e perpétuo, como são os deuses e a roda da vida, que reúne mortais e imortais. Somos partes deles e não podemos nos separar deles, como os puros se unem aos puros. Perceber isso é inspiração, é 'thyone', é elevar-se à "grinalda do céu".

"Um deus, uma deusa, reside dentro de cada um de nós. 
Quando o espírito se levanta, radiamos com um brilho interior, uma aura. 
É esse espírito sagrado que planta as sementes de tudo que somos e fazemos. 
Esse espírito sagrado é a nossa inspiração." (Ovídio)